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Não abdicaremos das nossas exigências!
As autoridades estão em pânico!
Viva a revolução!
ESTALEIRO BÁLTICO
Viva a revolução!
IRMÃS, ANO DE 1918 UMA MANHÃ SOMBRIA
ALEXEI TOLSTOI THE ROAD TO CALVARY
THE ROAD TO CALVARY BASEADO NO LIVRO HOMÓNIMO
EPISÓDIO 1
Para onde corres?
Dashenka! Minha pequenina!
Por sorte,
havia lugar no comboio um dia antes, assim, decidimos...
Fizeste muito bem!
De qualquer modo, íamos esperar-te à estação.
- Kolya! - Sim?
Olha, a Dasha chegou.
Que surpresa agradável! Boa tarde, querida!
Bem-vinda!
- Entra, deves estar faminta. - Marfusha!
O nosso pai saiu, foi ver os seus pacientes, como é hábito.
E Samara? Samara está bem, nada de novo.
Isso mesmo. A estabilidade é uma coisa boa.
Proponho um brinde a vocês, ao encontro das duas irmãs.
Que bom.
Fui aceite no curso de Direito.
Parabéns!
Fico cá uns dias e depois alugo um apartamento.
Estás louca?
Só podes.
Daria Dmitrievna, em que é que tu e o teu pai estão a pensar?
O meu pai deu-me algum dinheiro, para que não seja um fardo.
Gasta-o contigo.
- Vem viver connosco. - Sem dúvida.
Nem penses opor-te, querida.
- Não me atrevo, Ekaterina Dmitrievna. - Muito bem.
Olhem para ela, já uma senhora!
Quando casámos, a Dashenka não passava de uma menina.
Casámos durante a Batalha de Kulikovo,
por isso, não é surpreendente.
Vou tomar o café no meu escritório.
Marfusha!
Aqui está, o meu orgulho.
Comprei-o numa vernissage.
Chama-se "Amor". Gostas?
Dashenka, não compreendo isso.
E a minha querida mulher, não importa o quanto lhe peça,
não me consegue dar uma explicação decente
sobre a ideia por trás desse tecido, se é que lhe posso chamar isso.
Se me permites dizer isto, este tecido não foi criado para ideias.
Foi para quê, então?
Qualquer obra de arte devia dizer algo ao público.
Não precisa de fazer nada.
Talvez antes, sim,
mas, graças a Deus, vivemos no século XX.
E os artistas estão ao serviço da arte pura, não de ideias.
Já é hora de compreenderes, Kolya,
livra-te dessa tua atitude retrógrada
e atualiza-te com o que é novo.
Às terças, recebemos pessoas interessantes,
filósofos, escritores.
E o Bessonov, por exemplo, também vem.
A sério? Quem é ele?
A questão é essa. Quem é ele?
Sei quem é o Pushkin.
Sei quem é o Lérmontov...
... e o Gumilev.
O Bessonov é um poeta muito popular.
Ouve:
"A taberna estava ao rubro, O vinho jorrava
E a cantoria era demasiado alta
Mas eu só via a minha amada,
ou seja, tu, com um vestido lilás."
É bom.
LEITURAS DE POESIA ALEXEI BESSONOV
Olá.
- Olá. - Olá.
O que andas a tramar, jovem?
Vou à conferência.
Hoje em dia, todos os alunos que se prezem
estão na sala de conferências
na reunião da associação de Filosofia.
Tens de te manter a par da comunidade progressista.
Olá.
Não nos queremos lembrar de nada.
Dizemos: "Basta!
Virem as costas ao passado!"
É isso!
O que tenho atrás das costas?
A Vénus de Milo!
Posso comê-la?
Ela consegue ajudar a que o meu cabelo cresça?
Não compreendo para que preciso deste monte de mármore!
Arte...
Esta noção ainda vos entusiasma?
Olhem à vossa volta!
Olhem em frente,
olhem para baixo!
Tu, por exemplo,
isso são botas americanas?
Viva as botas americanas!
Viva!
Bravo!
Estou absolutamente farto de viver ao lado
dos ditos artistas
que não conseguem compreender que a arte
deve impulsionar a História para a frente
e não ser um peso morto aos ombros do homem moderno!
Bravo!
Bravo!
Bravo!
Foi aqui, em São Petersburgo,
que o homem russo ideal foi inventado.
Temo que possa resultar num enorme banho de sangue.
Jovem, foi longe demais.
Por favor, modere a sua linguagem.
É um desrespeito, calar alguém assim!
É uma humilhação!
Não sabem nada sobre as pessoas!
O homem russo
não passa de um ser humano,
com um estômago vazio
e umas costas dedicadas ao trabalho duro.
É melhor fugirem,
antes que seja tarde demais!
O Bessonov!
Bessonov! Por favor!
Bessonov, por favor, junta-te a nós aqui!
Palmas para o Bessonov, amigos!
Gostaria que recitasses alguns dos teus últimos versos. Pode ser?
Algo apropriado a esta reunião.
- Por favor, recita! - Meus caros amigos!
"A neve vem aí, neste inverno.
A neve vem aí.
Rodopiando à sorte sobre a Terra fria.
O mundo ficou ainda mais triste, este outono.
Como podemos sobreviver aos frios intensos?
Recuso-me a acreditar que não há Deus.
Que a minha prece, como um riacho,
leve uma sílaba russa meio sussurrada
de vela em vela
na expectativa de algo maior.
A minha alma paralisa de terror
e a morte está à espreita.
Com sangue-frio e sem tremer,
o gemido da tempestade parece vivo,
à espera de fugir,
e faz rodopiar, faz rodopiar o seu cabelo grisalho.
Mantendo a Terra na escravidão."
Bravo!
- Que se passa contigo? - Desculpa?
Que se passa contigo, querida?
Não se passa nada.
"Com o teu sorriso arrogante...
Rasga o meu coração, a minha alma...
Com uma angústia existencial de outono...
Quero-te, impura, infiel...
Inconstante, que menospreza...
Que menospreza o aborrecimento, o amor e o sossego."
Dashenka! Eu e o Kolya estamos à tua espera para jantar.
Katenka, já estou deitada.
Estou tão cansada. Importas-te que não vá?
Claro, dorme bem.
Bons sonhos.
- Queres um pouco, Katyusha? - Não, obrigada.
O cansaço que resulta do trabalho a sério
nada tem a ver com a fadiga da ociosidade.
O cansaço... do trabalho a sério
leva a um sono tranquilo e saudável,
enquanto a fatiga de um ocioso
resulta num monótono esquecimento.
Sabes, acho que me vou deitar.
- É melhor jantares. - Não tenho fome nenhuma.
Apetece-me um monótono esquecimento.
Katyusha, nunca tive intenção de te magoar.
Tu nunca tens intenção de me magoar, Kolya,
mas consegue-lo sempre.
Bon appétit, minha querida.
Olá. Tenho estado à sua espera.
Cuidado com isso!
Entre, por favor.
Experimentemos isto.
Não, isso não vai servir.
- E o vestido é demasiado modesto. - Sim.
Gosto deste vestido.
E deste?
Katya!
Esse é muito melhor.
- Não é demasiado chique? - Não, nadinha.
É bem normal. Todos em São Petersburgo se vestem assim.
- É só um vestido de noite. - É verdade.
Não faço ideia de onde o poderia vestir.
É terça, vêm aí filósofos e jornalistas.
É verdade, e eles discutem política.
Toda a gente o faz, hoje em dia.
Pergunta a qualquer cocheiro
e ele conta-te a sua teoria da Rússia ideal.
Mas, não importa o que digam, serás,
sem dúvida, a mais bonita lá.
Se o dizes...
Olá, Sofia Pavlovna. Então...
Então, que temos nós aqui?
- Boa noite, senhores. - Boa noite.
O campo central da guerra contra a vida doméstica recebe-vos!
Nós, as sementes de uma nova Humanidade,
exigimos a anulação de todos os preconceitos
da envaidecida sociedade burguesa.
Bravo, senhores, isso é muito corajoso.
Quero propor um brinde à vossa coragem.
E podem, por favor, receber calorosamente a minha irmã mais nova,
Daria Dmitrievna Bulavina. Por favor, deem-lhe as boas-vindas.
É um prazer.
Boa noite, senhoras e senhores.
- Olá. - Olá.
Olá.
De que falam, cara anfitriã?
Arte, como é hábito.
Arte, diz a senhora.
E o que é isso?
A arte?
É...
Não há arte,
apenas pose, fingimento,
truques de faquir.
Não compreendo.
Bem, é muito fácil.
Há muito que está tudo morto, as pessoas, a arte
e a Rússia, também.
A Rússia é como carne putrefacta, com corvos à espera de se regalarem.
Isso é mesmo muito bonito.
O Alexei Bessonov é um poeta, por isso, desculpa-o.
Ninguém pode ser desculpado, principalmente os poetas.
Todos nós arderemos no Inferno, em breve, e eu, certamente, também.
Que ideia interessante.
Gostaria de ir fumar lá fora.
Eu concordo contigo e apoio a tua ideia.
Não preciso disto.
Mal suporto a companhia dos outros.
- Dá-me licença para sair? - Eu levo-o à porta.
Quer seja num duelo ou de joelhos, Antosha...
Vem depressa apoiá-lo...
Amanhã, haverá um banquete para lançar um livro.
- Teu? - Não.
Nem me lembro do autor,
mas lembro-me do convite para o restaurante.
- Gostarias de vir comigo? - Sim.
- Obrigado. - É sempre bem-vindo.
Acho que o Bessonov estava bêbedo, o que explica muita coisa.
Digo-vos que o Bessonov apenas entusiasma as senhoras.
Já agora, vamos fazer uma soirée na ilha de Vassiliev amanhã,
"Sacrilégios esplêndidos", claro.
Muito bem, eu vou.
Leve a sua irmã Daria Dmitrievna consigo.
Só um momento, senhores.
Podem pensar o que quiserem, mas o Bessonov,
bêbedo ou sóbrio,
não passa de um idiota.
É só.
Bem, ele é o nosso anfitrião,
e a palavra do anfitrião é a lei!
- Sensato! - Ele não vale um tostão furado!
Ao Bessonov, um idiota!
O Supremo Tribunal
julga crimes oficiais
no caso de membros do Conselho de Estado,
ministros ou comandantes-chefes das regiões do império
estarem entre os acusados.
Também julga crimes contra o Estado, tais como,
primeiro,
conspiração contra a Coroa,
segundo, conspiração contra o Estado de direito,
e, terceiro, conspiração contra a sucessão ao trono.
Em todos os casos supramencionados,
quando e se ocorrerem,
um decreto imperial será emitido
segundo a decisão sobre o caso
do Supremo Tribunal.
Professor, onde são os aposentos do juiz do Supremo Tribunal?
As instalações são sempre determinadas por um decreto imperial especial.
Então, o tribunal está situado na cabeça de algum membro do Supremo, é isso?
É um pouco estranho. Pensei que fosse um sítio melhor.
O que é que está a insinuar, jovem?
Não sou uma jovem, sou um ser humano.
Então, apresente-se.
Quer entregar-me ao Supremo Tribunal?
- Para, por favor! - Calma!
- Acaba com isto. - Saia.
Claro, com prazer.
E sabe que mais?
Não demorará muito até que pessoas como o senhor,
lixo empoeirado, farrapos do império,
sejam quem sai.
E ninguém se lembrará de vocês.
Professor, sente-se bem?
Não.
Estou bem.
Está tudo bem.
Dasha, querida,
por favor, vai sem mim.
E tu?
Convidaram-me para uma soirée do lançamento de um livro.
Que livro?
Como é que posso saber?
Fui convidada, por isso, claro que irei, para me manter informada.
Muito bem.
Claro que podes ir.
- E o campo? - Não te vais arrepender de ir lá.
São todos espirituosos e interessantes. São o futuro.
Hoje, uma rapariga do meu curso falou sobre o futuro...
... mas soou assustador.
Diz-me que belo perfume estás a usar esta noite.
Porque perguntas?
Só para saber, só isso.
É melhor que me mostres
esses teus "Sacrilégios esplêndidos".
Vamos lá, então.
Aqui estão os "sacrilégios".
- Boa noite. - Boa noite.
Apresento a minha amiga.
Elizaveta Rastorgueva.
- É um prazer conhecê-la. - Mesmo?
Qualquer humano, homem ou mulher...
- Por favor, apresentem-se. - ... deve ter fome... e ser livre!
Não demorarei muito. Voltarei em cinco minutos.
Sim.
Rapazes e raparigas, senhores e senhoras!
Saiam, abandonem os vossos antros confortáveis e vão para os rondós,
sob o sol da fera selvagem!
- Bravo! - É brilhante!
Bravo!
Isso é verdade. Já é hora de alguém dar uma palmada
no todo-poderoso e velho sifilítico.
Mas quem será? Quem terá a coragem de o fazer?
- Eu! - Tu?
- Ele. - Ao vosso dispor.
Basta uma palavra e parto
as cúpulas das igrejas com os meus próprios dentes!
Quanto a mim, não me importava de conduzir
um carro reluzente pela abóbada celeste.
- Bravo! - Mas não nos podemos demorar, porque...
Queres chá ou uma sandes?
Claro.
A cada um deles!
Bolas, é bom!
Para!
Ekaterina Dmitrievna, eu menti-te.
Vens comigo?
Não há soirée, não há lançamento do livro...
Há o quê, então?
Sou eu e tu. Mais nada...
É um hotel.
Vem comigo.
Amas-me, Bessonov?
Quero que me ames,
exatamente como sou.
Anda.
OSTROV
A nossa casa está uma confusão.
Mas o chá e as salsichas são de primeira classe, do Eliseev.
- Toma uma sandes. - Obrigada.
Costumávamos ter doces, mas já acabaram.
Mas, se mo permitires...
Desculpa, que tolo sou.
Porque dizes isso?
São os meus doces preferidos.
Então, és poeta, jornalista, artista...
Nada disso, sou engenheiro
no Estaleiro Báltico.
E o teu nome?
Desculpa, esqueci-me de me apresentar.
Sou o Ivan Illich, Ivan Illich Telegin.
É um prazer conhecer-te.
Como é que foste parar a tão estranho grupo?
Eles é que vieram parar comigo.
- São os meus inquilinos. - A sério?
Diz-me, então, gostas do que estão a fazer?
Para mim, não fazem nada de mal, Daria Dmitrievna.
Não passam de miúdos, palhaços desesperados,
mas brilhantes.
Por vezes, chego a casa mesmo frustrado
e eles estão na brincadeira, o que me anima.
Sabes, Ivan Illich,
fiquei algo ofendida...
... por estes sacrilégios. Considero tudo isto um pouco indecente.
Não passam de piadas,
patetices próprias da juventude.
Apesar de, por outro lado,
estares provavelmente certa.
Podem dizer piadas uns com os outros.
Mas meter outros nestas indecências é outra história.
Desculpa, Daria Dmitrievna.
Não tens de te desculpar.
Tu não disseste indecências.
Pareces-me ser uma boa pessoa,
muito melhor do que te consideras.
Pronto. Para.
Para.
Agora, não terás qualquer respeito por mim.
A cama não é sítio para se ter respeito, querida.
Nem sabes que tipo de pessoa sou.
Olha.
Sabemos tudo o que podemos um sobre o outro.
Não penses demais.
- Além disso, o coche está à espera. - Que dizes?
Digo que o coche está à espera há meia hora.
Despacha-te, minha querida. É só isso.
Vai!
Vamos!
Estive a observar-te hoje.
Estavas a sofrer.
Isso é bom, gostei.
- Queres chá gelado, Liza? - Não, Telegin, não quero.
Sabes que nunca bebo chá.
Deves perguntar-te sobre que estranha criatura está a falar contigo, certo?
Não estou a pensar nada disso.
Agora, vou dizer-te que não sou ninguém...
... sou uma nulidade, certo?
Sou bronca e imoral.
E tu és encantadora.
Ela é encantadora, não é? Admite que é.
És muito bonita, e sabes isso.
De certeza que tens dezenas de homens a apaixonarem-se por ti.
Não discutas comigo, por favor, tu própria sabes isso. Ela sabe isso.
E custa pensar no simples fim que tudo terá.
Um homem aparecerá, terás os filhos dele e morrerás.
É tão aborrecido! A sério, mesmo aborrecido!
De que raio falas? Liza...
Sabes, é melhor ir-me embora.
- Adeus. - Daria Dmitrievna!
Rogo-te que não vás.
Rogo-te, por favor!
- Para, sim? - Por favor!
O que fazes aqui?
Que têm os teus olhos? Parece que estiveste a chorar.
Não é nada. Está frio lá fora. Fiquei um pouco gelada.
- Foste andar? - Sim, decidi dar um passeio.
E o campo da guerra contra a domesticidade?
Não passam de um monte de tolos.
O único homem decente é o Ivan Illich Telegin.
Gostaste dele?
Ele é mesmo simpático.
Mas, na verdade, Katya,
gosto de outro homem.
É sempre bom ter sentimentos por alguém.
Isso far-te-á feliz
e tu mereces ser feliz.
Sabes, Katya,
até gosto dele,
mas duvido que seja amor.
Se gostas dele, acabarás por te apaixonar.
Não é que goste ele, ele...
Ele envergonha-me.
Não paro de pensar nele,
como se tivesse inalado algum fumo.
Ele pode entrar no meu quarto
que eu não me mexo,
e ele pode fazer comigo o que quiser.
De que falas, querida?
Que homem é esse?
Como se chama?
Alexei Alexeevich Bessonov.
O que foi?
Porque é que todos podem fazer o que querem, menos eu?
Só beijei uma pessoa na vida, um aluno no rinque de patinagem.
Dasha, o Bessonov é um homem muito mau.
Ele é perigoso, Dasha.
Ele vai arruinar-te a vida, estás a ouvir?
Não restará nada. Que seja outra pessoa, não tu!
Que Deus te guarde dele, Dasha!
- Estás a ouvir-me? - Não.
Perdoa-me, por favor.
Não há nada a perdoar, apenas me assustaste.
Que se está a passar aqui?
Devias estar a dormir.
Volta para a cama.
Não consigo adormecer sem ti.
Estou a perguntar-te. O que se passa?
Bem, Dashenka,
o Nikolai Ivanovich e eu temos de falar. Boa noite.
Vamos.
Sim?
O que queres, Liza?
Eu? Quero-te a ti.
Para quê isto tudo? Qual é o objetivo, Liza?
Quero-te dizer uma coisa, Ivan Illich.
Não passas
de um tolo.
És um tolo, porque estou aqui agora.
Só precisas de esticar a mão.
Não te estou a pedir nada.
Não, não me impeças, por favor.
Não te peço nem exijo nada.
Por isso, não me impeças!
Quanto à Daria Dmitrievna, onde está?
Não está cá e nunca mais regressará.
Por favor, não me impeças.
E, quando a tempestade chegar, o que decerto acontecerá,
o vento levará primeiro a tua linda menina,
enquanto eu permanecerei aqui. Percebes? - Liza.
- Por favor, deixa-me sozinho. - Ivan Illich!
Ivan Illich!
Ivan Illich! Abre a porta!
Acabaste de provar que és um tolo.
Sim.
Sou um tolo...
Um tolo.
Bom dia.
Bom dia, Dashenka.
E a Katyusha?
Ainda não está acordada?
A tua irmã tem-me sido infiel.
Sim, ela confessou.
Dói, Dashenka. Dói mesmo muito.
- Quem é? - Katya, abre, sou eu.
Agora não.
Katya, tenho de falar contigo.
Dashenka, se não te importas, por favor, deixa-me sozinha um pouco.
Quero estar sozinha.
"Os poderosos ventos silvam alto,
fazendo um juramento ao inverno.
Os meus versos afluem ao papel, como se viessem de fora.
Nas águas negras deste charco, a floresta e os céus
e a senhora sombria chega,
e tudo escurece em meia hora.
A sombra das bétulas apressa-se a esconder-se,
assustada, dentro da folhagem.
Tal como o nascer da Lua espera
e se esconde em solidão.
A Terra deserta, abrigo de todas as colinas, ravinas
e campos antigos,
ainda se lembra das manadas de vacas
e fede das cinzas das planícies."
Quem é essa sua senhora sombria?
É a Rússia, Agafia,
pronta para celebrar a missa negra.
- Isso é terrível! - Não, não é.
- Deus nos proteja. - "No pântano sombrio...
A sombra das bétulas apressa-se a esconder-se,
assustada, na folhagem.
Tal como o nascer da Lua espera e se esconde em solidão.
A Terra deserta, abrigo de todas..."
Quem é desta vez, Agafia?
- Boa tarde. - Olá.
Preciso de vê-lo.
Ekaterina Dmitrievna, és tu?
É a Daria Dmitrievna.
À primeira, não te reconheci. Por favor, entra.
- Não é preciso. - Que posso fazer por ti?
Por favor, perdoa-me, eu...
... não me considero uma das tuas admiradoras.
Não vim discutir os teus versos.
Vim porque me tens torturado sem parar.
É uma espécie de doença.
Estou sempre a apanhar-me a pensar em ti.
É mais do que consigo aguentar,
por isso, decidi vir
e dizer-to claramente.
Daria Dmitrievna, não mereço essas palavras.
Estou gasto, acabado, já tive os meus dias.
Que posso responder-te?
Devo convidar-te para um hotel de campo?
Não consigo amar-te.
Há alguns anos talvez, mas agora...
Para. Não me tentes consolar.
Há outra razão para não poder acontecer nada entre nós.
- Qual? - És parecida com a tua irmã
e não posso, por muito que queira,
não tenho o direito de me intrometer tanto na tua família.
O que estás a dizer?
Tu ouviste.
Daria Dmitrievna, boa tarde!
Olá.
Peço-te perdão, Ivan Illich, por favor, perdoa-me.
Dasha... Eu...
Sim.
É verdade.
Não amo o Nikolai Ivanovich
e sou-lhe infiel há algum tempo.
Tenho vivido esta vida imoral,
porque sou uma mulher fraca.
Mas tu apareceste e eu tive medo
que viesses a ter a mesma vida.
Fiz o melhor que pude para te salvar.
Proibi o Bessonov de vir cá.
Graças a Deus, já acabou.
Então, foi o Bessonov.
Meu Deus, quão imoral e cruel é!
Achaste que a conversa acabara, Katya?
Conheces-me melhor que isso!
Pensei e cheguei a uma conclusão:
Tenho de te matar!
Nem te atrevas! Nem penses!
Vou matar-te!
Calma.
Mesmo que dispare, falhará de novo, é só para me assustar.
Estás enganada. Quão enganada estás.
Estás histérico.
Não, Katya, não estou.
Dispara, então.
Dispara e mata-me.
Estou a dizer-te, na cara, que não te amo.
Mas estás a magoar-me.
És um mentiroso!
És um mentiroso!
Estás a mentir agora! Vai-te embora!
Sai daqui, vai fumar no teu escritório!
Katya!
Querida Katya, tive tanto medo por ti!
Katya!
Kolya, sejamos justos e honestos,
por uma vez na nossa vida.
Não nos amamos.
Suponho que tenhas razão. Casa-se depressa e arrepende-se devagar.
Estamos num beco sem saída moral, Katya.
Que faremos agora?
Vamos separar-nos.
Para sempre?
Não sei, por algum tempo talvez.
- Não façamos planos. - Sim, tens razão.
Não façamos.
Irei algures, não importa onde.
Devias ir ao sul de França.
Descansarás um pouco,
cairás em ti e recuperarás o juízo.
Talvez consigas dar valor...
Não tenho dinheiro para ir para lá neste momento.
Eu dar-te-ei dinheiro...
... dez mil, ou mesmo 12.
Obrigada.
Sim.
LEONID MIKHAILOVICH NEIMYONOV MORREU ONTEM
Ela disse: "Sai daqui."
E o professor ficou em choque, eu vi.
Ele não conseguiu aguentar tudo isto, coitado. São os nervos.
Hoje em dia, há que ter nervos de aço ou não sobrevivemos.
Aquela criatura vil matou-o, digo eu.
Por acaso, ele já era bastante velho.
Bulavina, aonde vais?
Se decidires faltar às aulas, tenho o teu registo de faltas.
O elétrico termina aqui, vamos a sair!
Dashka! Bulavina!
- Estamos a sair. - Rapazes, tenho de apanhar o elétrico.
Que elétrico? Ele termina aqui.
- Vamos! - Aonde vamos?
Vamos, o elétrico termina aqui.
Vamos a um sítio secreto.
Boa tarde.
Vamos dizer-te, claro, mas agora não.
Antosha!
- Vamos, é o nosso elétrico. - Entra.
Alexander! Toma o bastão do poder!
Agora, abram caminho!
Quem não tem bilhete, lá para cima! Vamos, já!
Antosha, encontra-te lá com eles.
- Senhores. - Entrem.
- Vamos lá. Abram caminho. - Senhores!
A Daria Dmitrievna Bulavina
está neste elétrico! - Abram caminho!
Bem, a Daria Dmitrievna pode enjoar,
tem de se sentar à janela. Senhores!
Olá, jovem! É para si.
- E isto é para si, meu amor. - Parem!
- Com licença, por favor. - Fique calma.
Lamento, senhores, pisei alguém.
- Culpa minha! - Com licença.
Temos de chegar à janela. Desculpem.
A Daria Dmitrievna vem aqui.
Aqui está, Daria Dmitrievna, a janela.
O que é? Chegámos? O elétrico para aqui.
ESTALEIRO BÁLTICO
Aonde vai?
Ao escritório. Sou engenheiro.
Temos um engenheiro. Nenhum grevista pode passar.
Sou engenheiro.
Não pode passar.
Não há qualquer temor a Deus em vocês!
Camaradas!
Camaradas!
- Vladimir Albertovich! - Boa tarde.
Está cá há muito?
Ivan Illich!
Vim há uns 15 minutos. Não fazia ideia do que se passava aqui.
Cossacos, camaradas! Não somos vossos inimigos!
Queremos todos os russos felizes.
Queremos acabar com esta tirania.
Não podemos permitir qualquer tumulto.
Fizemos um juramento de fidelidade.
- Cossacos, irmãos! - Irmão!
Levanta as calças, podes perdê-las.
Ivan Illich!
- Camaradas! - Ivan Illich!
Leiam isto! Do Comité Central!
Leiam isto, por favor! Aqui têm!
Nós ficamos aqui!
Não abdicaremos das nossas exigências!
Não estão sozinhos!
Os trabalhadores dos caminhos de ferro estão a discutir
uma rebelião geral neste momento!
Ivan Illich!
As autoridades estão em pânico!
Viva a revolução!
Viva a revolução!
Ivan Illich!
Jovem, levante-se! Corra!
Morrerá esmagada!
Depressa! Corra!
Legendas: Vânia Cristina
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