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Zulu
Onde é que estamos?
Podes tirar isso da cabeça.
Passa para a frente.
Não precisas de sair.
- Mãe, não é nada do que tu pensas. - Eu não estou a pensar nada.
Nem tu pensas.
Ou melhor pensamos, sim, pensamos,
mas calados!
Tu fumas?
Não.
É o teu pai. Põe isso em silêncio.
Então?
O que é que se passou?
Mãe, eu não podia dizer.
A verdade?
Começas bem.
Uma testemunha, filho de uma juíza e de um procurador,
vai a tribunal, mas não pode dizer,
ou melhor, não quer dizer a verdade.
A única coisa que tu tinhas mesmo de fazer!
Mãe, tu podes por uma vez, não virar isto para ti?
Epá é que é sempre, é sempre...
Tu tens a noção que o mundo não gira à tua volta, não é?
Tu achas mesmo, tu achas mesmo que eu?
Acho o quê, David? Diz lá o que é que eu acho.
Não sou uma das florezinhas do teu jardim.
Não sou. Eu sou eu!
Ok?
Tu sempre com a tua tesourinha de podar...
Estás a falar do quê? Que disparate é esse?
Quais flores? Mas quais flores?
Tu mentiste em tribunal num caso de homicídio!
Falso testemunho é crime!
E agora?
Estiveste com eles nos bilhares e depois para onde é que tu foste?
Mãe...
Eu não fiz nada de mal, ok?
Eu nem sequer estive com...
Não estiveste aonde? David, volta aqui!
David!
Olha para mim.
Olha para mim!
- Estás a olhar para onde? - Para a lagoa!
Deixa a lagoa em paz, que ela não sai dali!
Mentiste porquê?
Onde é que tu estiveste naquela noite, David?
Mãe, eu não podia dizer.
Estive com a Inês, ok?
- Estive com a Inês! - Quem é a Inês?
A minha namorada,a Inês.
Qual Inês?
Quem é a Inês? Tens agora uma namorada que se chama Inês?
Sim, tenho! Se tu a vires tu sabes quem é.
Ela foi ter comigo à porta do Rookies.
E depois fomos para casa dela.
Onde é que ela mora?
Na estrada da Corredoura, depois dos cedros.
O quarto dela é um anexo no jardim.
E nós entrámos por lá.
Mas o pai dela não pode saber.
Não pode saber porquê? Que idade é que ela tem?
Quem é o pai dela? O que é que ele faz?
Mãe, ouve, se o pai dela souber, ele mata-a.
Já chega de mortos...
O pai dela vai ter de saber.
Aliás, toda a gente vai ter de saber.
Parece que sim...
- Jura que me estás a dizer a verdade! - Juro.
- E não vou ter mais surpresas? - Não, mãe, ouve...
Eu estive com ela e...
Eu gosto mesmo dela, eu só a queria proteger.
Dás-me um cigarro?
Tu fumas?
Não.
Rossio! Compro.
Se queres comprar tudo em que metes o pé,
tens de ver se tens dinheiro.
Emprestas-me cinquenta mil?
Cinquenta mil?
É para um hotel novo. Sem juros.
Sem juros!
Sou Misericórdia, ou quê?
Ó Maninho.
Fazes assim uma transferênciazita.
Vá lá!
Está bem, mas não pago nada nos teus hotéis.
Está bem, mas eu acho que isso não é legal...
Não é legal pois não, mãe?
Vítor?
O que é que se passa?
Desculpa lá, eu tive que vir aqui.
Tu não atendes as chamadas.
Tive um dia complicado. Esqueci-me.
O meu filho a mentir em tribunal?
Tu já viste o sarilho que criaste?
Não, desculpa, mais!
Tu já viste o sarilho em que me envolveste?
Eu envolvi-te?
Tu não achas que isto tinha consequências, é?
Achas que não? Para mim?
O Procurador que instruiu o processo, não?
Por amor de deus! O que é que se passa?
- Porque é que o miúdo mentiu? - Oh Vitor, tem calma.
- O miúdo passou a noite com a namorada. - Namorada, -da.
- Sim, Vítor. - Ok, é só para ter a certeza.
Desculpa, continua.
Não quis contar nada a ninguém, para proteger a miúda do pai.
Só isso. Achou que se contasse que tinha estado nos bilhares
iam perguntar-lhe onde tinha estado depois.
Ela vai ter que explicar tudo a seu tempo.
Descansa.
Ok.
Ok.
Antes assim então.
Não percebo onde é que ele aprendeu a mentir...
Eu também não.
E mentiu tão mal, o palerma.
Mentir é sempre mau, não é?
Mãe!
É a tua vez!
Joga por mim.
A sorte é que os outros três idiotas também não sabem contar uma peta.
Portanto o caso contra eles aguenta-se.
- Nós não podemos discutir o caso. - Eu não quero discutir caso nenhum.
- Deixa-me só falar com o David. - Agora?
Deixa estar o miúdo, coitado, teve um dia...
O quê? O menino está com dói-dói é?
Não me vais convidar para entrar?
Estás a falar a sério?
David!
Anda cá falar com o pai, se faz favor!
- David, anda cá falar com o pai! - Pára com isso.
Vai lá para casa, estás enervado, falas com ele depois.
Podes ter a certeza que falo. Mas é que falo mesmo!
Da próxima vez que eles vierem ficar comigo,
vou ter uma longa conversa com o menino.
Garanto-te.
Quando é que é?
Quando é que é a próxima vez que eu vou estar com ele?
Vê no Excel.
Estás com muita graça hoje!
Tu sabes que isto podia ter sido tudo evitado, não sabes?
Eu nem vou dizer mais nada, para não me irritar, ok?
Quando é que foi que ficaste tão egoísta?
O David foi para o quarto.
Mas podes ficar com os hotéis dele.
Alice, eu...
Já tentei ligar, mas não atendes.
Desculpa lá, aquilo hoje.
Não dava para parar e eu...
Sabes quando o mundo te cai em cima
e te apercebes que não estás preparada para tudo?
Liga-me!
Estou preocupada contigo.
Um beijo.
- Não fiz nada disso. - Declara-se inocente?
Sim, Senhora Doutora.
Como é que explica a acusação?
Fui confundido com outro.
-Sra. Dra. Juíza, se me permite? - Com certeza. Tem a palavra.
Oh Sr. Carlos Manuel...
De tempos a tempos
aparece um arguido que afirma que foi...
...injustamente incriminado.
Um erro trágico, que houve uma confusão com contornos épicos.
Que o céu e a terra conspiraram
para colocar um pobre homem inocente no banco dos réus.
Depois...
Pouco a pouco, começamos a esmiuçar os pormenores do caso
e nunca, sublinho,
nunca as alegações de erro de identidade se confirmam.
O senhor está consciente que prestar falsas declarações
demonstra falta de arrependimento face ao delito
e que isso lhe pode agravar a pena?
Sim, Sr. Doutor.
E que iremos chamar a depôr os agentes que procederam à sua detenção?
Sim, Sr. Doutor.
E isso não o faz mudar de ideias?
É que não fui eu.
Entrámos na sala, e encontrámos o meliante.
Estava sentado no sofá, a comer uma sandes
e a ver o programa da manhã com a...
Aquela que tem a voz esganiçada...
Enfim...
E ele tinha os objectos no colo.
O Sr. Agente, reconhece o assaltante na sala?
Bem, eu...
Não é o senhor vestido de azul que está ali atrás sentado?
Bem...
- A cara, talvez. - Não tem a certeza, é isso?
Certeza, certeza, quem é que tem, não é?
Alguém tem de ter.
Então, como é que o réu foi identificado?
Levámo-lo para a esquadra e ele apresentou-nos o bilhete de identidade.
O bilhete de identidade?
Muito bem, o bilhete de identidade que consta no processo...
É de um miúdo.
E já caducou há mais de quinze anos.
Era o que o ladrão trazia.
E ficou assim?
Muito bem.
Olhe, diga-me outra coisa...
Nas fotografias que constam no processo,
as fotografias da casa...
Consegue-me dizer mais ou menos que altura teria o muro
que o assaltante teve que escalar?
Com licença. Era...
Mais ou menos... Olhe!
Um braço mais alto do que eu.
Isso será mais ou menos o quê? Dois metros?
Dois metros e dez, mais ou menos.
Mais coisa, menos coisa.
Com certeza.
Não tenho mais perguntas.
Sra. Doutora...
- Alguma questão que queira colocar? - Sim, Doutora.
Eu queria...
Em face da dúvida, não é...
Eu...
Invoco...
Eu peço justiça!
Sra. Doutora...
Isso é só nas alegações.
Claro.
Estou, mãe?
Não te preocupes, está tudo bem.
Dizem que os primeiros casos são os mais difíceis, portanto...
Sim.
Precisas de alguma coisa? Estás a tomar os medicamentos todos?
Sim, é melhor, sim.
Eu se puder vou aí passar o fim de semana.
Ok.
Então vá, beijinhos.
Beijinhos.
Sr. Cordas!
Sr. Cordas?
Interessado na minha colecção de líquidos?
É ladrão?
- Peço desculpa. - Ah!
É dos outros.
- Já encontrou os culpados, não é? - Parece que sim.
- Peço desculpa de estar a incomodar. - Sabe, que a mim custou-me...
O senhor ter desistido de pensar que eu era o culpado da morte do rapaz.
Um assassínio tão...
Tão mediático.
Tão bonito.
Se fosse antes eu não me tinha safado,
por isso é que eu estive no Linhó, Pinheiro da Cruz, Vale de Judeus...
- Sim, já nos disse isso. - Conheço as prisões todas.
- Melhor que a palma da minha mão. - Eu sei.
Já disse isso, sim.
- Desculpe ter incomodado. - Não, não...
Se quiser conhecer os cantos ao meu lar, esteja à vontade.
Os seus colegas já aqui estiveram, mexeram em tudo, mas eu limpei!
- Sim, claro. Desculpe ter incomodado. - Limpei...
Olhe!
Vamos fazer um brinde?
Não posso, estou de serviço. Obrigado.
Vamos fazer...
À saúde...
- Aos patos! - Tenho mesmo que...
- Vamos fazer um brinde aos patos! - Estou de serviço, não posso. Obrigado.
Aos patos que se deixam apanhar!
- Desculpe ter incomodado. - Sabe para onde é que eles vão?
Os patos que se deixam apanhar?
Não vão para lado nenhum!
São bonitos os patos, não são?
Estás perdido, rapaz?
Costumo fazer este caminho para ir para a escola, ou para a Rua Direita.
- É mais rápido, sabe? - Sim.
Aqui na terra, mais tarde ou mais cedo,
toda a gente deixa aqui a sua pegada, não é?
Boa tarde.
Senhor Inspector...
Eu, naquela noite...
Eu não podia dizer, mas estive com uma miúda e...
David, se queres falar sobre esse assunto,
não vai ser nem aqui nem agora, ok?
Mas ouça, a verdade é que
eu não dei importância na altura, aliás eu não podia...
Ouve lá, tu estás surdo?
Para além do problema de memória que tens,
também tens problemas de surdez?
Vai lá para a escola!
Senhor Inspector...
Eu na altura não podia dizer, mas a minha namorada...
Podes estar calado?
Queres prestar declarações,
falas com a tua mãe e passas na esquadra.
Está bem?
Ou então esperas que eu te as peça.
- Escola. - Mas ouça...
Escola!
Não ouvi nada, ok?
Estou intrigada com uma questão, mas talvez o senhor me possa ajudar.
Eu nunca vi um arguido tão calmo.
O senhor tem uma profissão estável, não é cliente cá da casa,
mas parece tirar assim um prazer neste julgamento.
Eu não sei se nos acha divertidos, se acha que somos palhaços...
Bom, mas nada disto é importante face à questão que tenho para lhe colocar.
Como é que um senhor com o...
Enfim, com o seu porte.
Tem a capacidade de escalar aquele muro?
Va lá, diga-nos lá.
Quem é que anda com a sua identificação?
O meu irmão Raul.
Eu até tenho aqui uma foto dele.
Então e porque é que não nos disse nada antes?
Eu tentei...
Quando fui acusado, fui falar com o Ministério Público.
É a quinta vez que me acusam.
Há dois meses foi tráfico de droga.
Há seis...
Roubo por esticão.
E o que é que o Ministério Público disse?
O mesmo que o Doutor ali.
Ninguém acredita em mim.
Se me permite a pergunta, onde é que está o seu irmão?
O mano morreu há um ano.
Era o meu preferido.
Mas quando alguém se mete na droga,
a cabeça deixa de funcionar.
Eu lamento.
Espero que não tenha deixado mais nenhuma trapalhada.
Sabe como é que eu soube que ele andava a utilizar o meu BI antigo?
Quando o fui identificar à morgue.
Tinham-me dado como morto.
Não estava à espera de vos encontrar por aqui.
Fico curiosa.
Viemos à conservatória tratar dos papéis.
Ah bom!
Bom, estou surpreendida.
Há seis meses,
exigi que um de vocês saísse de casa,
para acabar com o inferno em que vocês viviam
e sobretudo em que a vossa filha vivia.
Pelos vistos encontro-vos aqui juntos, é bom sinal.
Encontraram uma solução?
Sim.
Saí eu de casa.
Ah...
Bom...
E tencionam concretizar a vossa separação de forma formal?
O divórcio, Doutora?
Às vezes é importante fecharmos os capítulos.
Sim, arranjámos um advogado
só para os dois para não haver...
Claro.
Claro que sim.
E como é que a vossa filha está a reagir?
Mariana.
Mariana, não é?
Como é que ela está a lidar com estas mudanças?
A Mariana...
Ela já não está cá.
Desculpe...
Ela...
Tomou os comprimidos da mãe.
E...
Pegou no meu cinto...
Eu lamento. Eu não fazia ideia.
No varão do cortinado...
A minha filha!
A minha filha.
A minha filha.
Alice?
Ainda bem que estás aí.
Eu...
Preciso de conversar contigo.
Lembras-te de uma miúda.
Um caso que eu tinha. Mariana...
A miúda do diário.
- Entre. - Dá-me licença, Doutora?
Eu já te ligo.
Diga.
Se não for boa altura, podemos falar depois.
Não, diga, diga.
Eu fui almoçar ao jardim, como faço todos os dias.
Gosto de ver os patos,
a natureza...
A comida sabe melhor. Sabe como é que é?
E vi o seu filho lá, o David.
E o que é que o meu filho estava a fazer?
Não era o quê, Doutora.
Era com quem.
O inspector da PJ...
Aquele cá da terra, o Catequeses...
Estava lá com ele a interrogá-lo.
A interrogá-lo ali mesmo no local do crime.
É assim...
Claro que pode ser um bocadinho um mal entendido meu.
Eu posso não ter ouvido bem. O barulho da água e dos...
- Inspetor Mário? - No 2º piso.
Obrigada.
Tenho estes processos todos para fazer hoje, não tenho tempo.
- Não tenho tempo para nada! - Sr. Inspector?
Dra. Juíza?
Está tudo bem?
Sabe porque é que eu aqui estou?
Não.
Mas sente-se.
Quer uma água, um chá?
Quero conversar consigo num local privado.
Se calhar, a esta hora, é melhor lá em cima no terraço.
- Sala de fumos, pode ser? - Serve.
Não está lá ninguém, não se preocupe.
Dê-me só um segundo.
Vamos? A Doutora fuma?
Não.
Diga lá então, Dra. Juíza.
Vejo-a preocupada.
"Preocupada" não sei se é a palavra certa.
Esteve no parque.
Sim e sabe que falei com o seu filho, é isso?
Um interrogatório feito a uma testemunha no local do crime.
É meu filho.
Eu quero saber.
Estava previsto algum interrogatório formal
- ao David, nesta fase de processo? - Não.
A testemunha sabia dos seus diretos?
Informou-o que podia falar com um advogado primeiro,
ou é prática comum levar uma testemunha menor ao local do crime?
Dra. Ana, não me vai levar a mal,
eu já percebi onde é que quer chegar,
e não me está agradar que faça esse tipo de insinuação.
- Nós temos procedimentos. - Têm.
Resta saber se os procedimentos são legais.
Esteve no parque...
- Com o meu filho... - Sim.
Mas foi mal informada.
- Eu não levei o David ao parque. - Ai não?
Sinceramente...
Acha que sou o tipo de polícia
que anda por aí a fazer interrogatórios irregulares?
Diga lá então.
Nós fomos hoje a casa da vítima,
o rapaz que foi assassinado.
Depois fui até ao parque para...
Não sei, para pensar, para procurar uma pista.
-Há algo que não me convence neste... -Eu não posso falar desse assunto consigo.
Muito bem.
O parque como sabe fica no centro da cidade
é atravessado por pessoas todos os dias.
O seu filho David ia a atravessá-lo,
presumo eu que fosse para a escola ou algo assim,
veio ter comigo porque me queria dizer algo.
E na realidade, eu impedi o seu rapaz de falar.
De falar sobre quê?
Como o impedi, não sei.
Desculpe.
Não tem mal, eu compreendo.
Mas quero que saiba que mais tarde ou mais cedo eu vou convocá-lo.
O David cometeu perjúrio.
Falso testemunho, num caso grave.
- Vai ter de dar uma explicação. - Eu sei.
Esclarecidos?
Obrigada.
Sempre às ordens.
Fico feliz.
Tem aí o seu telemóvel?
Ficámos fechados.
Se não se importa.
Só para ligar a um colega, ele vem aqui abrir a porta.
Sim, sim.
Eu devo ter esquecido no carro.
Daqui a nada, alguém vem cá acima fumar.
Desculpe.
Não tem aí uma...
Uma gazua, ou coisa do género, que abra a porta?
Isso são os outros...
Nós aqui na Judiciária somos muito aborrecidos.
Desculpe.
Bom, temos duas hipóteses.
Ou ficamos aqui à espera e a apanhar uma grande seca,
Ou então...
Já que temos de esperar,
aproveitamos e subimos um patamar.
Lá em cima a vista é bem bonita.
Gostas de mim?
Até onde?
Se formos por aqui a direito vamos ter à América.
Mas nós saltamos a América e...
É para lá disso.
Há lá uma ilha à nossa espera.
Tenho medo.
De quê?
Que não cheguemos lá.
Esta cena toda do tribunal.
Vai correr bem.
Estás inocente, vai correr tudo bem.
- O que é que fazias por mim? - Tudo.
Tu sabes disso.
Tenho receio que nos separem.
Porquê?
O Tozé, não viste o que ele disse em tribunal?
Sim, e depois?
Eu sou um alvo.
Toda a gente quer apanhar o filho da juíza.
Apanhar como?
Sei lá, sujar o meu nome,
dar cabo da reputação da minha mãe.
Tu acreditas em mim, não acreditas?
Acredito.
Gosto tanto de ti.
Então...
Então o quê?
Podias dizer que estivemos juntos nessa noite?
Juntos?
Nessa noite? Mas eu não posso dizer isso.
Não foi nessa noite, pois não? A nossa noite de amor foi...
Inês, e depois?
Essa noite foi a melhor noite da minha vida.
Mas por favor faz isto por mim.
Onde é que estiveste nessa noite?
Não posso dizer.
Mas eu não fiz nada de mal, juro.
Eu sei, amor.
Por favor.
Eu digo.
Sim.
Inês, fica quieta.
Vais demorar muito, ou vou ter que te ir buscar?
Olha...
Ok?
Por favor.
Cuidado.
Quando era miúdo calcorreava isto tudo a pé e de bicicleta.
Dias sem quase ir a casa. Na vadiagem.
Saltar muros. Roubar fruta.
Confessa, portanto?
Furto, invasão de propriedade?
Confesso, excelentíssima Meritíssima.
Aceito de bom grado umas férias num bom reformatório.
Curioso...
Nunca nos termos cruzado,
nem na infância, nem na adolescência.
Eu por acaso acho que me lembro de si.
Não ia à igreja, aos domingos, e à catequese?
Por acaso, não tinha um...
Casaco vermelho,
umas jardineiras azuis de ganga,
com os sapatos de vela, seria de vela?
Lembra-se mesmo de mim?
Está a ver.
Eu até dava um bom detective, se a vida...
É curioso...
Quando somos crianças
queremos as mesmas coisas, somos parecidos.
Depois, a vida encarrega-se de nos afastar.
Nós éramos crianças diferentes.
Zonas da cidade diferentes. Famílias diferentes.
Crianças diferentes, mas com os meus desejos.
Eu sonhava em fugir de bicicleta.
Roubar fruta!
O crime chamava-a, portanto!
Pelo menos fumar às escondidas já consegue.
Vamos aprender a arrombar uma porta?
Aceito.
Vamos.
Vá, tchau.
As meninas fazem o favor de estar quietinhas?
Como é que estamos?
Gira aí, puto.
Caraças.
Já a iam fumar toda, hã?
Está boa.
Bem vindo!
Anda!
Porque é que mentiram?
Porque é que disseram que me viram lá?
E tu?
Porque é que mentiste?
Porque é que disseste que não estavas nos bilhares?
Olha ouve, eu não quero ter mais nada a ver com isto.
Ok?
Não quero mais confusões.
- Vocês podem ficar com o dinheiro todo. - O gajo está à espera.
Não queres ficar como o outro, pois não?
Eras para ter acabado a encomenda naquela noite...
Tozé, olha, ouve!
Chega!
Estou fora!
Olha p'ra ele, a dizer coisas.
Palhaço!
Pumba!
'Tás fora o quê?
Quem manda fora sou eu, estás a perceber?
É bom fazermos coisas juntas.
Não é?
Porquê que continuas a usar essa balança?
Isso assim nunca mais acaba.
Porque era do teu avô.
Sempre esteve aqui.
O que é que se passa filha?
Tu achas que eles podem ir parar à prisão?
O Hugo é um bocado rufia.
O Johnny é esquisito.
E o Tozé...
O Tozé?
É aquele assim bem parecido?
Sim.
Clara, Clara...
Oh mãe, eu conheço-os!
Eles nunca seriam capazes de fazer uma coisa destas.
Sabes que eu não posso falar deste assunto contigo...
O que é que é pior?
Condenar um inocente ou libertar um culpado?
Sabes do teu irmão?
Pronto, isto agora é sempre assim.
Desligado, desligado...
Tu não sabes onde é que o David foi?
Não.
Acho que tinha combinado qualquer coisa com a namorada.
E tu?
Tens namorado?
Disparate, mãe.
E tu?
Tens namorado?
Não.
Ai que disparate.
Tu...
Tu não achas que o teu irmão anda esquisito?
Oh mãe, o David é estranho! Ainda não tinhas chegado lá?
Não é isso. Ele anda diferente.
Passa-se alguma coisa. Ele não desabafa contigo?
Não falou sobre nada? Não escreve num diário?
Sei lá, mãe!
Eu vou lá dentro.
Não comas as cenouras todas!
Vai por ali. Tu, ali.
Tem de estar aqui.
Oh David!
Onde é que estás?
Nada?
Oh David!
Não fujas, meu!
Ele está ali!
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