All language subtitles for Causa Própria S01 E03 - Episode 3

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Original subtitles

Aprovado com distinção!

O meu filho!

O que é que tu tens, David?

Hum?

O que é que se passa? Não estás contente?

Não é isso.

Como é que se chamava aquele arco de violoncelo que tu querias comprar?

Era fibra de vidro?

- Carbono. -Carbono! É isso!

Oh mãe, não achas que o mano já merecia um upgrade?

Queres?

Não, obrigado.

É o quê, David?

É por causa do julgamento?

Filho, tu só tens de dizer a verdade.

Se te chamarem para julgamento, tu só dizes aquilo que sabes..

Vá lá, difícil é tocar violoncelo.

O pai disse alguma coisa?

Eu não sei para que é que isso lhe vai servir...

Quer dizer, está-me a custar os olhos da cara a pagar-lhe aquilo, não é?

Mas agora o menino quer tocar violoncelo, o menino toca violoncelo.

Se fosse um instrumento mais pequeno, sei lá um trompete ou um saxofone.

Qualquer coisa mais pequena.

Talvez ele conseguisse engatar uma miúda.

Mas um violoncelo?

Quando chega ao fim do dia, ele ou leva o violoncelo ou leva a miúda a casa.

As duas coisas não vai dar.

Sabes o que é que eu acho?

Eu acho que esta tua educação permissiva.

Eu acho que isto vai dar maus resultados.

Falta-lhes autoridade.

E é engraçado que a juíza és tu.

Mas em casa de ferreiro, espeto de pau, não é?

Quando é que envelheceste tanto?

Estás igual ao teu pai.

Enfim.

Adiante.

Então eu trouxe aqui...

O nosso acordo.

E um excel...

Com as minhas despesas.

- Um excel? - Sim, um excel.

Tu queres alterar outra vez isso?

Sim, quero discutir outra vez

o dinheiro que eu gasto e o tempo que eu passo com eles.

Então é assim...

Eu passo 15% do tempo com eles. Obrigado.

15% e estou a pagar 50%.

Esta alínea ignora porque...

Tu achas que nós deviamos pagar na proporção do tempo

que estamos com eles?

Sim. Eu a mim parece-me justo.

Muito bem. Alteramos o acordo.

Ok, então?

Passamos metade do tempo com eles.

Semanas alternadas.

Tudo bem! Mas tudo bem. Não tenho qualquer problema.

Por mim tudo bem.

Óptimo.

Deixa-me só passar esta fase, claro.

Não é?

Neste momento não tenho...

Não tenho tempo para me coçar como tu sabes.

Eu também tenho direito a tempo livre, não é?

Andas a ver alguém?

Olha... Podes-me dizer...

- Eu não tenho qualquer problema. - Mas o que é que tu tens a ver com isso?

Andas a ver alguém?

Deixa estar, eu ofereço.

Leva isto.

- Queres vir ao centro? - Não, tenho de ir para casa.

Mas ainda é cedo.

A professora Teresa mandou uma carta à minha mãe, por causa das minhas notas.

Tipo, tira-me o telemóvel se eu não for para casa estudar.

Tipo, seca!

- Vocês andam aqui nesta escola? - Sim...

E sabem dizer-me se há uma loja chinesa perto?

Só se for ali, mais para o centro.

- E isso dá para ir a pé? - Dá, mas é um bocado seca.

Tem que se passar pelo parque, não é?

Pode ir por fora, pela rotunda.

Pois, porque passar pelo parque é um bocadinho perigoso.

Temos de ir embora.

Vocês sabem alguma coisa do que se passou?

Conheciam o rapaz?

Não. Agora temos de ir.

A senhora trabalha para a televisão?

- Vamos embora. - Se quiserem conversar...

Podem ligar-me ou contactar-me pelo Facebook.

Obrigada.

Vocês conheciam o André?

O menino que foi assassinado?

Sabe que esta coisa do assassinato do miúdo deixou-me muito incomodada.

Primeiro, perceber que uma coisa destas

podia acontecer na nossa terra, eu não estava à espera

e depois porque podia ter sido um dos meus, o meu filho.

São coisas que vêm não se sabe donde,

de qualquer buraco negro, num sítio...

Nos anos 90, lembro-me um caso muito parecido que nunca foi resolvido.

A Ana não deve ter nenhuma lembrança disso, era uma miúda.

Não...

Não me lembro.

Mas sei que este miúdo, o André,

era colega de turma do David.

E todos os suspeitos são da mesma escola.

Se por um lado, fico descansada porque vai presidir o coletivo de juízes,

por outro...

preocupa-me saber que o David pode ser chamado como testemunha.

E?

E ele sabia que o rapaz era perseguido.

Quem é que adivinha uma coisa dessas?

Senhor Doutor Luciano...

Eu não me agrada fazer parte deste coletivo de juízes.

Eu prefiro afastar-me deste julgamento.

Ora essa!

Se o David vier a ser chamado, não vai passar de uma testemunha lateral.

Eu acho que devia pedir escusa ao Tribunal da Relação.

Ana! Não há nada de incompatível, na minha opinião e de qualquer outra pessoa.

Toda a escola pode ser chamada. Há um bem maior em jogo.

Não há relação entre os factos.

E ainda bem que a Ana está neste coletivo.

- Não consegue perceber... - E eu preciso de si!

Eu assino por baixo a sua independência e imparcialidade.

E se falarmos em proximidade...

O Procurador Abel...

É o melhor amigo dos pais da vítima, o miúdo é como se fosse sobrinho dele,

foi ele que os convenceu a virem para a província.

Eu sei, eu sei.

Ele sente-se culpado, e lá estará na acusação.

Eu sei, eu sei.

Até era bom...

Que todos os julgamentos fossem casos de partilhas,

ou problemas com o preço de um burro manco,

ou problemas de sacholadas por causa da água...

As coisas estão diferentes, o mundo está diferente.

Eu sei. Está sim.

E melhor...

E melhor graças a si.

Eu só quero que isto acabe.

Por mim uma condenação até é boa, quer dizer...

O que é que eu ando aqui a fazer?

Eu estou-me nas tintas para a sentença...

O que interessa é aquilo que eu sinto, que eu tenho aqui...

As pessoas dizem-me que...

Dizem-me que eu tenho de...

seguir a minha...

Dizem-me isso que você me diz...

Que isto foi um acidente.

Mas não é isso que o espelho me diz.

Não é isso que eu vejo.

Eu não gosto do que vejo.

E nem sequer era uma pessoa...

Eu não lhe dei tempo...

Era um bebé, coitadinho...

Isto é um aperto.

É uma coisa que eu sinto... Parece que tenho aqui um...

Eu...

Mónica!

Aqui só interessa o que se pode provar.

E a si devia interessar-lhe o que pode fazer da sua vida a seguir.

Punir-se não traz o bebé de volta.

Hoje vai ser um longo dia.

Depois do choque, do horror, da estupefacção,

Todos os portugueses, todos nesta vila, esperam respostas.

De um lado três jovens, três menores,

três filhos da terra que hoje vão começar a depôr.

Do outro lado, um quarto jovem, que já não pode dizer nada,

foi silenciado para sempre.

Barbaramente assassinado há mais de seis meses.

Degulado com um objeto perfurante,

depois de torturado, suspeita-se, e sofrendo de bullying muito agressivo.

O julgamento começa aqui esta tarde, neste edifício.

Por agora, prosseguem os julgamentos de crimes mais ou menos banais,

mais ou menos desinteressantes, na apertada agenda da justiça.

E já está!

Pensei eu.

Vejo a senhora com a criança ao colo,

mas a faixa esquerda do sentido descendente estava livre.

Vejo e ouço um carro surgir e levo as mãos à cara.

"Já está..."

Não havia hipótese.

Portanto, a mãe e a criança foram projectadas?

Foi, foi... E um bom bocado.

A criança até foi pior.

A mãe ia a caminhar confiante parecia que...

Espere, espere. Não é assim.

Eu faço as perguntas e o senhor responde.

Mas o senhor só responde às perguntas que lhe forem feitas.

Entende?

Entendeu? Sim ou não?

- Sim. - Muito bem.

Portanto, de acordo com a sua experiência,

o carro ia a alta velocidade?

Oh Meritíssimo, perdoará.

Oh Senhor Procurador, essa pergunta!

O taxista não é propriamente um perito em velocidades.

E depois havia um camião parado na passadeira que impedia

claramente que a minha constituinte visse bem.

Não viu bem! Estava na passadeira, e não viu bem!

O Sr. Lacerda,

que testemunhou o caso, diz que o próprio

teve de fazer uma travagem brusca,

para impedir que batesse na criança e na mãe.

Sra. Dra., mas...

Quer dizer, há circunstâncias que uma pessoa até fica...

Até fica o quê, Dra.? Até fica o quê?

Independentemente de ser uma tragédia para a família, ok!

- Mas há circunstâncias que... - Não é a altura, Dra.

Podemos continuar?

Claro...

Bom...

Como é que se sente agora?

Mal.

Porquê?

Por ter acontecido isto.

Mentirosa!

Assassina!

- Minha senhora... - Mataste a minha filhinha!

Silêncio imediatamente!

Sr. Dr. Juiz...

A minha constituinte...

Bom... Isto é um atropelamento...

E um atropelamento...

Não configura...

Perdi-me.

Senhora Doutora,

é evidente que não há condições para continuar.

O tribunal adia a sessão para nova data.

Isto é uma vergonha!

Olha-me esta merda.

Silêncio ou vou ter que mandar evacuar a sala!

Meritíssimo.

O Ministério Público pede que não se adie o julgamento.

Há demasiados processos em atraso.

Sr. Procurador, acha que há condições para continuar?

Mas que se faça uma pausa de 10 ou de 15 minutos.

Nós não podemos é estar sempre a parar, Meritíssimo.

Há muitos cidadãos que precisam do nosso apoio.

Silêncio! Já os mandei calar.

A sessão está adiada.

Mais tarde serão informados de nova data.

Sua porca!

Assassina!

Vais ter uma filha e ela há-de morrer de cancro!

Sr. Hugo Marcolino, como arguido não é obrigado a responder,

mas aconselho-o a fazê-lo.

Sim.

Confessa os crimes de que é acusado?

Não, Senhor Doutor.

Bem...

É amigo dos dois arguidos aqui presentes.

O Sr. João Carmelino e o Sr. António José Francisco?

O Tozé e o Johny.

Muito bem.

Já os chamo depois de o senhor acabar.

Que tipo de amizade é a vossa?

São muito amigos, pouco amigos?

- Somos amigos, sei lá... - Muito bem.

Que tipo de coisas costumam fazer juntos?

O que é que vos liga?

O desporto, a música, os estudos?

É isso. Senhor Doutor, é isso.

Costumavam ir ao Rookies jogar snooker?

Sim, Senhor Doutor.

E confirma que estiveram no Rookies a jogar snooker

na noite em que a vítima, o André, foi assassinado?

Sim.

E o que é que fizeram nessa noite?

Nada, Doutor.

Não fizeram nada? Então?

Ficaram parados a olhar para o vazio?

Não.

Então? O que é que aconteceu?

Não se passou nada. Estivemos a jogar snooker.

E depois?

Depois fomos embora cedo.

Muito bem...

E lembra-se de ter falado, ou de ter visto os seus amigos

a conversarem com a vítima?

Passou-se alguma coisa?

Não, Senhor Doutor. Não aconteceu nada.

Foi como lhe disse, nós estávamos a jogar snooker e quando acabou fomos embora.

Não aconteceu nada.

Foi aquilo que eu disse ao senhor, bebemos uns shots.

Muito bem.

Mas costumava encontrar o André quando saíam à noite?

Eu?

É assim tão estranho?

Não tinha nada a ver.

Mas conheciam-no?

Sim, da escola.

E então?

Não se lembra de o ter visto essa noite?

Quer dizer...

Eu acho que ele estava no Rookies,

mas nós estávamos bêbedos...

Então, mantém que nada se passou entre si, os seus amigos e a vítima?

Nós fomos para casa cedo.

Mas foram para casa logo a seguir ao Rookies?

Sim, chegámos...

Eu cheguei cedo a casa.

Não foi isso que eu lhe perguntei.

Sr. João,

Sr. António José, Sr. Hugo,

tenho aqui umas imagens que gostaria que vissem.

Então, Sr. João...

como justifica o seu testemunho anterior?

Reconhece-se nas imagens?

Sim...

Então em que é que ficamos, Sr. João?

Parece-lhe que aqueles avanços do seu amigo Tozé,

aquele gesticular eram manifestações de indiferença?

Os senhores tiveram uma discussão clara com o André, não tiveram?

E depois seguiram-no até ao jardim, não foi?

- Não! - Então, eram carinhos aquilo que vimos!

Os senhores passaram a noite no Rookies,

encontraram a vítima no local

houve um claro desentendimento entre a vítima e os senhores,

e o seu grupo

saíram logo a seguir à vítima.

Pouco depois, mais tarde,

o André é barbaramente assassinado no parque.

Não acha que são coincidências a mais?

Dr. Juiz, se me permite.

Está por demonstrar o nexo de causalidade!

Sr. Doutor, tenha paciência, terá tempo para isso nas alegações!

Os jovens desentenderam-se, e então?

Há tanta gente que se desentende e não é por isso que se transformam em assassinos.

O que é facto é que o Sr. Procurador não tem uma prova inequívoca.

Sr. João, vá lá dentro buscar o saco por favor.

Sr. João,

reconhece esta t-shirt?

Então, reconhece, não reconhece?

Estava em sua casa.

Foi encontrada após a detenção da polícia.

É sua?

Sim...

E estas manchas de sangue? Cortou-se a fazer a barba?

Não...

O Sr. Procurador devia ser mais comedido no seu humor!

Sabe que temos um relatório da polícia científica que diz que

esta t-shirt contém ADN da vítima,

André Gomes

estudante,

assassinado aos 17 anos nesta cidade.

Gostaria também que o arguido visse as fotografias que constam

entre as páginas 412 e 417 do processo.

Sr. João,

reconhece a pessoa na fotografia?

Sim, é o André.

O arguido reconhece a vítima.

E esta t-shirt?

Reconhece esta t-shirt?

É-lhe familiar?

Eu não tenho nada a ver com isto.

Fez ou não fez parte do grupo que agrediu o André naquela noite?

Como em tantas outras ocasiões...

Não está a entender!

Nós só lhe batemos, nós nunca...

Ah! Bateram-lhe! Os senhores bateram-lhe!

Os senhores agrediram o André naquela noite.

Depois saíram do Rookies, imediatamente a seguir à vítima,

ao André, saíram do bar,

passado umas horas o André é encontrado morto.

Mataram ou não mataram o André nessa noite?

Não fomos nós, não fomos nós!

Não fomos nós!

Há um médico na sala?

- Há um médico? - A sessão...

...vai ser interrompida por quinze minutos.

Olha lá, tu és estúpido ou quê?

Queres passar o resto da tua vida na prisão?

Não, senhor.

O que é que te custa?

O que é que eu já vos disse para dizerem? É assim tão difícil?

Não...

Está caladinho e acompanha-me no interrogatório.

É costume haver desentendimentos entre os alunos, não é?

Vocês já tinham tido desacatos com o André?

Sim.

E nessa trágica noite, em que o André morreu,

vocês tinham tido um desacato, não foi?

Sim.

Isso foi o quê? Quatro dias antes da fatídica noite?

Sim.

E era comum não era?

E até alguém acabar, sei lá com...

sangue no nariz.

Sim.

E onde e quando encontraram a carteira?

Dentro do urinol.

Foi a Gertrudes, que trata das limpezas matinais, coitadita.

Mas a carteira estaria lá ao princípio da noite?

Não acredito.

Nós fazemos sempre uma pequena ronda antes de entrarem os clientes,

para ver se está tudo bem, sem vidros, sem porcarias.

Depois é que entraram esses...

Esses clientes e estiveram a beber e não sei quê, e a gozar connosco.

Só isso.

Depois é que apareceu a carteira, mais tarde.

Diga-me uma coisa,

Reconhece, nesta sala, alguém que tenha estado no bar Mourita nessa noite?

Estes três. Estes três miúdos. Miúdos, quer dizer...

Diz-nos a senhora que trabalha no estabelecimento nocturno Mourita.

- Quando há trabalho. - Então e que trabalho é esse?

- O que houver para fazer. - Não estou a perceber.

Limpezas, diversão dos clientes?

Mais limpezas que diversão.

Está bem. Diga-me lá então o que é que aconteceu nessa noite?

O que é que quer saber?

- O que tiver para me dizer... - Se me fizer perguntas, eu sei.

É que parece que nos está a esconder alguma coisa.

Eu não tenho segredos.

Eu peço desculpa de interromper, mas isto é uma verdadeira desconversa.

O senhor doutor faz o favor faz uma pergunta concreta

e a senhora responde o melhor que sabe.

Muito bem, então...

A Sr. Fátima já nos disse que se lembra de ter visto estes jovens, os meus clientes,

a entrarem, a beberem, a rirem, etc.

A que horas?

Não sei exactamente. Mas isso é tudo verdade.

Sugeriu também, ou melhor, afirmou com algum desplante, se me dão licença,

que foram eles que deixaram de propósito a carteira do malogrado André no urinol.

- Toda mijada! - Mas tem a certeza que foram mesmo eles?

- Então quem é que havia de ser? - Não sei. Não esteve com mais ninguém?

- Eu não percebo. - Percebe, percebe.

Ou está a omitir? A esconder de propósito...

Que esteve a beber e a conversar...

Com o guarda do jardim durante imenso tempo.

Que ele também esteve no Mourita e,

obviamente, no jardim do crime nessa noite.

Como é que se atreve a acusar estes três jovens inocentes

de terem tirado a carteira de um morto para lhe

fazerem chichi em cima numa casa de meninas?

Sr. Dr., peço-lhe que modere as suas palavras! Isto não é um...

Meritíssimo, peço desculpa, eu sei que o bordel não é aqui!

Quer dizer, eu pelo menos acredito que não...

Responda-me lá outra vez, Dona Fátima.

Porque é que não nos disse nada acerca de

com quem esteve e o que esteve a conversar...

Ou será que esteve imenso tempo com demasiados clientes e com...

- ...pouco juízo e pouca lucidez? - Eu pensei que já estava esclarecido

que não podia ter sido ele, o Manitas de Lata,

pelas horas em que ele lá esteve,

que não podia ter sido ele a fazer aquilo ao rapaz.

- A carteira não foi ele quem... - Eu de si não quero mais nada.

Como é que se pode acreditar no que diz?

É inaceitável esta forma de tratar uma testemunha.

Já terminei, já terminei.

O senhor está habituado a ver desacatos entre

rapazes que frequentam a sala de bilhares?

Entre os rapazes e as raparigas, que isto agora já não há grande diferença.

E nesses problemas alguma vez resultou alguma coisa de grave?

Que eu saiba, não.

Era portanto algo habitual...

E a vítima era rapaz para se meter em problemas?

Agora os miúdos, por causa das lutas na TV, isto não está para brincadeiras.

Era um rapaz alto, o André? Tinha o quê?

Um metro e oitenta, bom caparro.

Sim.

E como é que é, metia-se em problemas ou não?

Isso não sei, se era ele que provocava ou não...

- Mas não era razão para o matarem. - Está bem, mas...

Ele metia-se em desacatos ou não?

Ele não se ficava.

Era possível...

Que pudesse ter havido um desentendimento entre ele e os rapazes, uns dias antes?

Sei lá... Talvez.

Aquilo era um bocado creepy .

Eles estavam sempre a chamar-lhe nomes por causa da sua maneira de ser.

Diziam que ele parecia uma árvore de natal.

Que tipo de nomes?

Isso...

Não posso dizer aqui.

Pode e deve. Não se preocupe que nós aqui ouvimos de tudo.

Diga lá.

Tipo "roto" e "pico",

- "paneleiro", esse tipo de coisas... - Muito bem.

E diziam mais alguma coisa?

Diziam que era altura dos patos. Da caça aos patos...

E isso era o quê?

Acho que era quando andavam à procura de miúdos. Para lhes bater.

Conhecia a vítima? Era seu colega?

Sim, conhecia.

- E era bom aluno? - Era.

E é verdade que os arguidos, seus colegas de escola,

perseguiam a vítima?

Sim, por vezes sim.

Alguns andam sempre a fazer dessas coisas.

Mas nessa noite não sei, não estava lá.

Eu não sei, já não o via há dias.

Portanto, essas perseguições...

...eram regulares?

Bem, quando...

Quando o apanhavam sozinho, costumava haver problemas.

Sr. Dr. Juiz Presidente, eu preciso de falar com o meu constituinte.

Sr. Dr., agora?

- Faz favor. - Com a sua licença.

Sr. Dr. Juiz Presidente, é necessário que eu diga algumas palavras.

- Agora? - Tem de ser.

Faz favor.

Ser adolescente nos dias que correm...

Apresenta muitos desafios.

Os meus constituintes serão, com certeza, culpados de alguns desacatos.

E já percebemos que os desentendimentos entre adolescentes eram comuns.

Ninguém, e em particular nós que somos pais,

podemos ficar indiferentes a esta situação.

Mas não é isso que estamos aqui a julgar.

O que se pretende aqui fazer é perceber se os meus constituintes

mataram ou não mataram o André.

Há demasiadas perguntas por responder.

Porque é que desapareceram os ténis? Qual foi a arma do crime?

Lá está o Sr. Dr. a querer chegar às alegações antes do tempo!

Não, não são alegações, eu estou só a tentar perceber uma coisa.

Eu creio já ter provado que os adolescentes

se envolviam em desacatos frequentes,

que a vítima era um rapaz corpulento e combativo,

e que houve numerosas situações em que lutaram.

O material genético encontrado na t-shirt da

vítima provém de uma circunstância anterior.

Não há, a meu ver, prova do delito.

Eu quero ver novamente a cassete de vídeo vigilância do Rookies,

há aqui um facto que eu pretendo esclarecer.

Páre, páre! A vossa atenção.

O que é que o André, a vítima, traz vestido?

É esta t-shirt?

Esta t-shirt não é seguramente.

Esta t-shirt é outra história mais antiga.

Continue o filme, por favor!

Deixe a fita andar!

Homem, deixe a fita andar!

Páre aí!

É o David!

Silêncio!

Silêncio na sala!

Em face das informações agora apresentadas e perante um caso de...

...flagrante falso testemunho,

vamos ter de suspender a sessão.

O colectivo de juízes vai ter que reunir

e deliberar quanto aos passos seguintes.

Está suspensa a sessão.

- Dr. Juiz, não estou a perceber! - Não está a perceber o quê?

Eu preciso de fazer mais perguntas à testemunha.

Silêncio!

Dr. Renato, a sessão está suspensa.

Ilustríssimo, esta suspensão é lesiva dos direitos dos meus constituintes!

Sr. Dr., não tente criar um incidente.

Acabámos de assistir a um depoimento

sobre o qual recaem suspeitas de...

perjúrio.

E eu estou a medir as palavras...

Mais razão me está a dar, Ilustríssimo!

Está em causa toda a acusação contra os meus constituintes e...

não é o perjúrio, o falso testemunho que me preocupa!

Quer dizer isto não faz sentido!

Então, mas a testemunha diz que não estava lá

e afinal foi vista no salão de jogos!

Mas o que é isto?

Estamos perante uma situação que nos deixa intrigados,

para não dizer perplexos, chocados,

e que vai ao coração da autoria deste homicídio.

Sr., páre!

Agora!

Se continua,

eu vou ter de o acusar de desrespeito pelo tribunal.

Ele estava no parque!

Eu vi o David a entrar no jardim depois de nós irmos embora!

A testemunha estava no local do crime!

Eu exijo o anulamento

deste processo e procedimento criminal por suspeita de crime de homicídio!

A sessão está suspensa durante meia hora!

Fazes bem, Johny, lava a carinha,

lava a carinha de bebé chorão.

Oh Tozé, o que é que foi aquilo, meu?

Onde é que tu viste o David?

E o que é que isso interessa agora, Huguinho?

Oh Tozé! Tu viste-o a entrar para o parque ou não?

Tozé!

Tu viste-o entrar ou não?

Eu não matei ninguém!

É assim mesmo que se fala.

E ali o nosso amigo que vê tudo...

O que é que viu naquela noite afinal?

Passarinhos a dormirem nos galhos?

A lua pendurada no céu?

Cavalos nas pradarias?

Diga-me você.

Senhor Doutor.

Doutor...

Senhor Doutor.

Ele inventou aquilo.

Caluda!

O Tozé viu o que tinha de ver.

E agora atenção, que estamos num sítio público

e até as cagadeiras ouvem tudo.

Agora não.

Eu não fazia ideia que o David tinha estado nos bilhares,

aliás, eu não fazia ideia que ele frequentava aquele lugar,

e muito menos que tinha estado no parque naquela noite.

No parque, não temos a certeza que tenha estado.

Há só a afirmação de um réu, dita no meio da confusão.

Não será de fiar.

Nos bilhares esteve, todos vimos no vídeo.

Uma coisa é certa, o seu rapaz mentiu ao tribunal.

Eu sei...

Eu assumo as responsabilidades e as consequências.

Aliás, eu nunca devia... Eu queria...

- O Dr. Luciano convenceu-me... - O que é que está a pensar?

Na escusa do julgamento.

Oh Ana, não vamos anular tudo.

O seu filho é, de facto, testemunha.

Ele não participou no crime em julgamento.

Não quero suspeitas!

Um dos rapazes acabou de dizer que viu o meu filho no parque.

Não admito que se diga que se os rapazes forem condenados

foi para evitar outra investigação.

O que as pessoas pensam não nos diz respeito.

Nós agimos...

De acordo com a lei e com o bom senso.

- Sr. João, pode perguntar ao... - Peço desculpa.

...Procurador Abel se pode chegar ao meu gabinete, por favor?

Entrou um homem no escritório do meu mestre e diz:

"Doutor, doutor, matei a minha mulher!"

"Não, não, dizem que a matou!"

- Não estou a perceber. - Não é para perceber.

Mas marcámos muitos pontos graças ali ao Tozé.

Eu não quero saber se vocês são culpados ou não. Não me interessa!

Vou ilibar-vos. É esse o meu trabalho.

É bom para mim e é bom para vocês, entendem?

Temos uma situação de falso testemunho.

Infelizmente, é o pão nosso de cada dia.

Foi certamente uma mentira de miúdo que a testemunha poderá esclarecer.

Claro.

Mas isso não altera a convicção do Ministério Público

de que o grupo é culpado.

Imagino que agora tentarão incriminar o rapaz com uma história colada com cuspo.

Mas os indícios contra o grupo e o historial de bullying é claro.

Tudo o resto não interessa.

Doutora Ana...

Se pedir escusa do processo,

o julgamento vai ter de parar até vir a resposta superior.

E eu tenho medo das consequências para a nossa pequena cidade.

As pessoas...

Já estão muito abaladas com isto tudo. Estão inquietas, inseguras...

E não é líquido que o Tribunal da Relação conceda a escusa se a pedir.

Afinal, o seu filho não está a ser julgado neste processo...

E se conceder, voltamos à estaca zero de um processo de homicídio.

Num momento em que as pessoas precisam de ter confiança na lei e na ordem.

Mas enfim...

A Doutora Ana é que tem que decidir.

Em que é que ficamos?

Volte-face dramático no julgamento de hoje.

A sessão foi suspensa há minutos pelo coletivo de juízes,

na sequência da bomba desta tarde, quando a testemunha David Martins,

filho da Juíza Ana Martins, foi apanhado a mentir em tribunal.

No meio desta embrulhada e perante o perjúrio do seu filho,

a juíza pediu escusa do processo.

David!

David!

Venha comigo, por favor.

A menina saia com as outras pessoas. Saia, por favor!

- Está calado! Está calado! - Mãe, por favor...

Eu disse para tu estares calado!

Entra no carro!

Tapa-te! Põe-te aí debaixo!

Esconde-te!

Ana!

- Eu preciso de falar contigo. - Alice, por favor! Agora não!

Tu precisas de ajuda! Deixa-me ajudar-te!

Alice sai daí!

Filma o carro!

Doutora Ana! O que tem a dizer

sobre o alegado envolvimento do seu filho no assassinato do jovem André?

Doutora, espere! Umas palavras!

Era o carro de Ana Martins, juíza do caso...

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