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Clara!
Clara?
David!
- Va lá, já são horas, Clara! - Já vou, não sou surda!
- Já estava acordada. - Estavas, estavas.
David!
Vá lá, vamos chegar atrasados.
David!
Vou entrar...
Clara!
- Sabes do teu irmão? - Não.
Como não?
Isto assim não pode ser.
Ficou em casa de um amigo, mãe. Não te preocupes.
- Qual amigo? - Sei lá. Um qualquer.
Não há problema.
Vocês nunca vêem os problemas.
Cuidado com as torradas. Gostas sempre de queimar tudo.
Saímos em 10 minutos. Vou tomar um duche rápido.
Hoje vamos à lagoa, não te esqueças.
É hoje?
Lagoa, ao fim da tarde.
Eu vou nadar, mãe. Tu prometeste.
Sim.
Faz-me um favor, tenta apanhar o teu irmão.
Ele que ligue, não sou criada dele. Não tenho tempo.
Clara...
Falaste com o teu irmão?
Clara!
- O quê? - Falaste com o David?
- Não! - Então liga ao teu pai
para saber se ele sabe onde é que ele está.
Oh mãe, o pai nunca atende a esta hora.
O David está bem, anda!
Estou Maria...
Não, não estava a ouvir. Sabes como é que sou com o telemóvel.
Mas o que é que se passa?
O Google empancou, ou porque é que me estás a chatear a esta hora da manhã?
Espera lá... Repete lá isso.
Morto?
Está. Está bem. Não, não.
Estou já a ir para aí. Até já.
José...
da Silva...
Costa.
Idade?
Uns quarentas.
Estado civil?
Hmm?
- Casado, solteiro? - Solteiro.
Profissão?
Faço o que há. Quando aparece eu faço.
Funcionário João, escreva "sem profissão definida", por favor.
Antecedentes criminais?
Não percebo.
Crimes que cometeu.
Ou melhor, crimes pelos quais foi condenado.
Eu sei que tenho, mas agora o quê?
Va lá, faça lá um esforço para se lembrar.
Não, eu estou a tentar...
Estou a tentar...
Não sei se lhe disseram que eu sou seropositivo.
Se não disseram deviam ter dito.
- Porquê? - Porque este sacaninha...
Varre tudo.
É o maior varredor do mundo. Sacaninha...
O senhor está em tratamento?
Eu comecei, mas depois esqueço-me.
Sacaninha...
Mas sabe porque é que está aqui, hoje?
Não.
Bom, então a partir de agora o senhor só fala se quiser.
Se preferir ficar em silêncio não será prejudicado.
- Quer falar? - Não sei...
- Pode ser, sim. - Bom, muito bem.
Então...
No dia 27 de Março, do ano passado
o senhor foi apanhado na posse de uma arma proibida...
- Ah sei! - Não, agora não fala.
Uma "pressão de ar para chumbos, mas alterada
para atirar munições reais de 6,35 mm,
que se disparadas de perto são bastante perigosas."
Isto é verdade?
Sim.
- A Inspectora Maria? - Está lá ao fundo.
Arranja-me aí uns lenços, se faz favor.
Bom dia.
- Bom dia, Inspector. - Estás bom, Carlos?
Então?
Sexo masculino muito maltratado.
É um miúdo...
- Quem é que o descobriu? - O guarda do jardim.
Estas coisas não acontecem por aqui, Maria.
Fui eu que alterei a arma.
Raspei o rolo do tambor para caber as balas a sério.
- E isso para quê? - Porque eu já andei na noite.
Andei na má vida... Na boa vida, é o que quiser.
Mas porque é que o senhor alterou uma arma para disparar munições reais?
Porque eu ia ter com uns tipos que me queriam fazer a folha.
Queriam me bater.
- Eu tinha que me defender. - E tinha intenções de os matar?
Queria-lhes dar uma lição.
Sou seropositivo, mas não estou morto.
Fui abordado por um senhor
que me perguntou se estava tudo calmo no Mourita.
Que é um...
É um bar ali atrás...
Cheio de prostitutas, de toxicodependentes, 'tá a ver?
- Como assim? - A meretíssima já deve ter ouvido falar.
É onde se encontra a vadiagem toda.
O Mourita.
Ah, já. Quer dizer, nunca lá fui, mas sim.
Nem eu, mas continue.
O senhor abordou-o e?
Bom, eu...
A pergunta fez-me logo desconfiar, 'tá a ver'?
Eu conheço o arguido de vista. Ele está referenciado na esquadra
como o "Ruço da Tina".
A Dona Tina era a mãe dele.
Ele tinha o cabelo louro, quando era criança...
O senhor aqui não trata por alcunhas.
É Senhor José.
- Pode continuar. - Bom...
Então, eu vi logo que não vinha ali coisa boa do Ruço...
...do "Senhor José".
Logo ali à minha frente, ele deixou cair do casaco um cano,
que eu apercebi-me que era um cano de uma arma, 'tá a ver?
Então, revistei-o, identifiquei-me,
e encontrei a arma de fogo e a respectiva munição.
Levei-o para a esquadra, e pronto, 'tá a ver?
Já vi tudo, muito obrigada.
O Sr. Procurador tem mais alguma questão?
E a advogada de defesa?
Se fosse possível, gostava de ver a arma.
Com certeza.
- Sim? - Sr. Procurador...
Inspector, diga.
Como?
É um rapazito. Tem 16, 17 anos.
Está todo moído de pancada.
Tem um golpe no lado esquerdo do pescoço que aparenta ser a causa da morte.
Não, não tem identificação, não tem carteira.
Tem um telemóvel daqueles bons,
mas não quisemos estar a desbloquear para não estar a conspurcar provas.
Obrigado.
Se calhar o assassino é inteligente,
sabe que o telemóvel tem GPS e não quer estar com um guizo ao pescoço.
Agora, o que é mesmo estranho é que...
o rapazito não tem sapatos...
O corpo está todo vestido, mas sem sapatos é isso?
Sim, aparentemente alguém levou-lhe os sapatos.
Então e suspeitos, Inspector?
Senhor Procurador, nós acabámos de chegar.
Não há milagres.
Estamos a marcar tudo, há várias pegadas, mas suspeitos ainda não temos.
Não, a arma também não temos.
Sim, claro que sim.
Mandámos fechar o jardim todo enquanto procuramos indícios.
Mas sabe como é que é, nós não temos muitos homens.
Nada disto é habitual por aqui.
Não deixes aproximar os patos do cadáver.
Ouça, e vão entrar no lago, não é?
Sim, claro.
A que horas é que foi a morte?
Também não sabemos.
Tentei interrogar o guarda do jardim, só que...
Aparentemente, ele ou está bêbado ou está em choque não consegue dizer nada.
Assim que eu souber mais informações digo-lhe, está bem?
Sr. Presidente, como está?
Tenho novidades, não são boas.
Acabei de falar agora com a polícia.
Oh Senhor José...
Enquanto esperamos, queria fazer-lhe uma pergunta.
Por acaso não andou na escola primária do Alto?
Não foi aluno da Professora Albertina?
Ah... Fui, fui.
Afinal aqui o sacaninha não varreu tudo.
Nós fomos colegas. Não se lembra?
- Chamo-me Ana. - A Aninhas?
- Sim. - Era a preferida da professora!
A mim ela nem me podia ver!
O Sr José também punha pouco os pés na escola.
Então, por isso é que agora a sotôra está aí e eu estou aqui.
Não é?
Eu que queria ser um cómico e escrevia as minhas piadas
e olha, meti-me no veneno...
É de rir, não é?
Esta situação da pistola também foi uma piada?
Uma brincadeira, uma partida que fez aos seus comparsas?
Não.
Já não gosto de piadas.
Não gosto que se riam de mim, Aninhas.
Desculpe... Sotôra...
- Sra. Dra. - Levante-se, por favor.
Sr. José...
Como é que funciona a arma?
É por botija CO2 ou por percussão?
É por botija.
Mete-se... Mete-se na...
Ai caraças! Onde é que se agarra com a mão.
Não pode falar assim...
- A coronha? - Peço desculpa.
- A coronha? - É a coronha.
Põe-se a botija na coronha, lá dentro atarraxa-se e faz "tchac"!
- E está pronta. - Mas o tambor é de plástico?
É, é, que eu raspei.
E depois se eles me disserem assim:
"Olha lá, isso é só uma pressão de ar."
E eu digo-lhes: "Estás a falar comigo?"
"Estás a falar comigo!"
"É só uma pressão de ar?"
- "O que é que tu disseste?" - Assim?
Não se vai pôr a apontar isso.
- Doutora Alice! - Sôtora, veja lá!
"Está a falar comigo? O que é que disseste?"
Dra. Alice, baixe a arma! Dra. Alice!
- Baixe isso, se faz favor. - Alice!
Esta pistola não funciona. Não dispara!
É uma arma de coisa nenhuma.
Não há crime!
Ah Vítor! Ainda bem que te encontro.
Porcaria da máquina, engoliu-me a moeda.
- Ia ligar-te, preciso de falar contigo. - Agora não tenho tempo, Ana.
- Hoje está aí uma crise... - O que é que se passa?
Mas quem é que comprou esta máquina que não funciona?!
Oh Vítor, dás-me dois minutos da tua atenção?
- A Clara ligou? - Não.
Aqueles teus filhos estão impossíveis.
O que é que foi agora?
O David não dormiu em casa. Não apareceu.
Não atende o telefone. Não diz nada.
Tu sabes dele?
O que é que foi?
O que é que foi o quê?
Sabes ou não sabes do teu filho?
Não!
Estás bem? Dormiste mal? Estás mal-disposto?
Esqueci-me que tenho de fazer uma coisa.
Vítor...
Fica atento ao telefone, por favor.
- Aninhas! - Sra. Dra., não quero conversas.
Ai perdão, meretíssima.
Já suspendi sessões por desrespeito.
Agora dar ordem de prisão a uma advogada seria a primeira vez.
Já foi?
Devias ter ficado com a arma do Ruço
para assustares o teu ex-marido de vez em quando.
- O David já disse alguma coisa? - Nada.
- Deve ter ficado em casa de um amigo. - Ou de alguma namorada...
Achas?
Não, vai ficar virgem o resto da vida.
Ai, que horror Alice, não digas isso.
Ai, a propósito!
O disco que ele me pediu emprestado.
Olha que isto tem "v" de volta. Era do meu pai.
- Claro. - Você vai dizer...
que entrou pelo acesso da marquise, que não costuma entrar por aí,
estava escuro, você tropeçou numa cadeira,
e partiu a perna da frente da cadeira.
Era de noite,
ia dar um beijinho de boas noites à sua filha.
Entrou pela porta da marquise... Diga lá você.
Tropecei numa cadeira. Parti a perna da frente da cadeira.
- E era de noite. - E o quê que ia fazer?
Ia dar um beijinho de boas-noites à sua filha.
- E entrou por onde? - Pela marquise.
Doutoras, peço imensa desculpa de incomodar.
Mas ligaram-me agora.
Que história é essa do miúdo morto no jardim?
Quem é? É filho de quem? É que não me souberam dizer...
Vítor! Que história é esta do miúdo do jardim?
Não, não consigo falar com o David. Eu não sei dele.
Tem calma.
Vai para o tribunal. Já falamos.
Não vens nada até aqui. Eu estou a chegar.
Não! Não é no jardim, é na morgue.
Vai para o tribunal, vai trabalhar.
Eu assim que souber alguma coisa... Espera aí.
- Oh Ana! - Vítor!
Oh Ana, tem calma! Não deve ser ele!
- Já identificaram o corpo? - Não, ainda não.
- Veio a correr? - Vim, vim pelo jardim!
O médico-legista está no bar. O médico-legista está no bar!
- Ele saiu agora para almoçar. - Está no bar!
- Sim, e só ele é que tem a chave! - É?
Merda de terra. Está no bar agora!
Estou, querida, desculpa lá. Eu já te ligo.
Oh Ana, de certeza que não é ele.
Aqui na terra toda a gente conhece o David. Já se saberia.
O David tem o telemóvel desligado. Eu sei lá se lhe aconteceu alguma coisa.
Porque é que ele não atende. Porque é que ele não...
Tem de certeza o telemóvel sem bateria.
Não o pôs a carregar. Não sabes como é que são os miúdos?
O que eu sei é que ele vai todos os dias àquele parque e não sei se...
Quem é?
- Doutora, são 14h40. - E então?
Avise o Sr. Procurador que eu estou ligeiramente atrasada.
- Precisa de alguma coisa, Doutora? - Não, não. Só preciso de ficar sozinha.
Estou, Vítor?
Estou. Está tudo bem.
Não é ele.
- Tens a certeza? - Eu conheço o meu filho, Ana.
Não é ele.
Sabes quem é o miúdo?
Não sei quem é.
É um rapaz da idade do nosso filho.
É terrível...
É horrível. É um horror.
Está bem.
Já falamos.
Até já.
Vês?
Não podia ser ele, Ana.
Eu não vou descansar enquanto não falar com o David.
- Oh Ana... - Morreu um miúdo.
Mataram-no.
E se há mais alguém?
Ana, por favor, vai para o julgamento.
Eu fico aqui a ligar para o David, ok?
Ele de certeza que não tarda nada acorda, liga o telemóvel e está tudo bem.
- Prometes? - Prometo. Vá...
Qual é o processo?
- Estes? - São esses.
- Eu levo o telefone. - Ok.
Vá...
Meus senhores...
Eu quero que apanhem depressa a besta que fez isto.
Todos de pé.
Eu peço desculpa pelo meu atraso.
- Funcionário João, está a gravar? - Sim.
Declaro aberta a audiência.
Doutora juíza, autoriza-me a ter uma conversa com o meu cliente, por favor?
Já Sr. Dr.? Ainda agora começámos.
Vai ter oportunidade de falar com o seu constituinte já a seguir.
É bonito.
É a mãe!
Bom dia.
Não, minha senhora, não fala o seu filho.
Eu lamento informá-la fala Inspector Mário da Polícia Judiciária.
Entrei em casa pela porta da marquise, que normalmente não uso.
Estava escuro, eu não vi a cadeira,
e quando tropecei parti
uma perna da frente da cadeira.
Perna da frente? Qual?
Então foi...
Uma das pernas da frente.
- Era de noite... - E estava escuro, já sabemos.
E o senhor...
Ia dar um beijode boa noite à sua filha?
Exactamente, isso.
Funcionário João, se não se importa,
Mostre ali ao nosso arguido a página 231.
Pode descrever-me a primeira fotografia?
Veja, veja.
Diga-nos lá então como é que justifica a destruição da cadeira?
É uma montagem fotográfica.
Ou então...
Alguém partiu a cadeira toda depois de eu passar por lá.
Mas a sua mulher destrói a própria casa em que vive?
Diga-nos lá...
Conte-nos o que é que a sua mulher faz que o leva a perder a paciência.
São tantas coisas. Ela...
Ela faz desaparecer os meus pijamas.
Os cobertores...
Ela...
Esconde-me o comando da televisão.
Ela tira coisas minhas de dentro do meu carro.
Ela faz telefonemas,
à minha frente, a dizer coisas a meu respeito.
Fale do SMS que ela lhe mandou.
Se me é permitido...
- Diga lá, Doutor, diga lá. - Muito obrigado.
Ela escreveu
que o senhor professor é impotente.
É verdade, ela...
Ela escreveu que eu...
Ela escreveu que...
Ela escreveu: "Nem fornicar sabes."
Eu fui operado percebe.
Ele dorme na minha cama,
no meu colchão, que fui eu que comprei com o meu dinheiro, não é?
E eu durmo num sofá sem condições nenhumas.
O comando da televisão ele é que anda sempre com ele no bolso.
Mais ninguém vê televisão. Só ele é que pode ver televisão, não é?
Até o leitinho que ele bebe sou eu que lhe compro.
Até o leitinho!
Então, mas se o seu marido é como a senhora o descreve,
nunca considerou divorciar-se?
Então e depois vou viver para onde?
Não tem condições para pagar uma casa só para si?
Ah! Isso era o que ele queria! Isso era deixá-lo ganhar, não é?
E depois ainda há outras coisas que eu nem sei como...
Como contar...
Que coisas?
Importa-se de explicar?
Olhe, eu não tenho a certeza,
se o meu marido se portou sempre decentemente com a minha filha.
- A verdade é esta. - Desculpe lá, isto é demais!
- Viu alguma coisa? - Olhe, não vi...
...mas senti.
- Isso é uma infâmia! - Isto é absolutamente irregular!
Ordem! Alguma vez a sua filha lhe disse alguma coisa?
Não, mas é uma coisa que eu sinto, pronto.
Então a senhora pára com as insinuações e...
É uma urgência.
David, onde é que tu estás? O que é que se passa?
Estás bem?
Sim, sim, desculpa.
Fiquei em casa do Pedro.
Fiquei sem bateria. Desculpa.
Onde é que tu estás?
Já estou em casa.
Então não saias daí até eu chegar.
David, anda um assassino à solta.
Liga à tua irmã a dizer que estás bem.
E pede para ela não sair da porta da escola até eu chegar.
Eu agora não posso falar. Falamos depois. Beijinhos.
- Aqui tem. - Obrigado.
Então...
Como é que se sente? Está melhor?
Estou melhorzinho, obrigado.
E vai falar?
Eu sei que foi um dia muito difícil para si.
Muita confusão no seu jardim, não foi?
Meu?
- Eu não tenho nada. - Mas o senhor não é o guarda?
Eu, sozinho, já viu o tamanho daquilo?
Mato-me a trabalhar.
Sim, nós acreditamos.
Diga-nos lá, a que horas é que encontrou o corpo?
Seis da manhã.
Como é que tem a certeza da hora?
Eu faço sempre três rondas depois da meia-noite.
Uma às 2h, uma às 4h,e às 6h lá estava ele, naquele estado.
Morto?
Morto, sim.
Tem a certeza?
Como é que tem a certeza?
Tinha ar de morto, não é o primeiro que vejo.
O quê que quer dizer com isso?
Então, já toda a gente viu um morto, não?
Como este?
Não... Como este, não.
Quem fez aquilo, não é gente.
E mexeu nele?
Não. Não lhe toquei.
"11 de Março."
"E têm acontecido montes de coisas.
Como o meu pai ter partido o vidro e a cadeira,
tudo por causa de uma estupidez.
E a mãe fez queixa do meu pai à polícia
e o meu pai diz que tropeçou e partiu a cadeira.
E diz que o vidro já estava partido.
Isto cabe na cabeça de alguém?
O meu pai acusou a minha mãe de lhe ter roubado a gillette.
A minha mãe zangou-se
e acabou tudo aos berros.
Como sempre.
Eu vi a minha mãe, ontem à tarde, a pôr a gillette no saco do lixo,
mas não disse nada.
Ela às vezes descontrola-se.
E eu tenho medo."
Pode parar, Mariana. Obrigada.
E peço-lhe muita desculpa por termos lido o seu diário.
Mas de facto era necessário.
Em alguma circunstância,
o seu pai,
teve consigo...
Em algum momento tentou...
Não percebo.
Foi alguma coisa que eu escrevi no diário?
Não...
De facto não.
No seu diário escreve tudo o que aconteceu,
tudo o que quer dizer está no seu diário.
Sim.
É o meu diário. Eu ponho lá tudo.
Obrigada.
Pobre miúda.
Um pouco mais nova que a minha.
E como a minha. São todos farinha do mesmo saco.
Eu fiquei de ir buscar a minha filha à escola mas...
- O que é que se passa com o dia de hoje? - Está de doidos...
E o assassinato do jovem no parque, isto vai ser uma tragédia para a terra.
Pois vai...
Bem...
Doutor Abel, em relação aqui à nossa Mariana,
temos de encontrar uma solução para tirar a miúda deste inferno.
Sem dúvida. Eu sei o que fazer quanto à menor.
Ótimo. Eu tenho uma ideia para os pais.
- Atenda. - Desculpe, com licença.
É a minha filha.
Faça favor.
Estou, filha.
O quê?
Tens a certeza?
Mas quem é que te ligou? O Doutor?
Eu estou acabar aqui o dia... Eu já ligo...
Sim, eu já ligo.
Doutor?
O miúdo que assassinaram no parque é...
É filho de uns grandes amigos meus.
Era como um sobrinho para mim. É o André!
Fui eu que lhes disse para virem para aqui.
Eu, eu lamento.
Doutora, vamos. Vamos.
- De certeza? - Sim.
Nas rondas que fez às 2h às 4h e às 6h.
Viu alguma coisa fora do lugar? Alguma pessoa?
Não. Ontem não.
Ontem não. E noutro dia?
Há coisas estranhas neste jardim.
Ouvem-se vozes, berros, fazem fogueiras,
espalham porcaria por todo o lado. Penduram cordas nas árvores...
- Cordas? - Cordas.
- Mas quem é que faz isso? - Isso queria eu saber.
Se eu agarro algum!
Não terá agarrado um, ontem à noite?
Um vândalo?
Quem?
Quem, o rapazinho?
Eu?
Não, eu não fiz nada, eu estou inocente!
Não, eu estava a fazer a ronda e...
Vocês têm que descobrir é quem é que anda a roubar os patos.
Quem é que faz aquilo aos bichinhos?
Hã?
Quem anda a roubar os patos de certeza que é o assassino.
- Mas faltam patos no jardim? - Faltam patos e não são poucos.
E se eu agarro alguém com a mão no pato.
Eu agarro num pau...
Vocês têm que descobrir o ladrão dos patos.
Patos...
Diga-me uma coisa, Sr. Cordas, o senhor bebe?
Sim, um bagacito de vez em quando, como toda a gente.
- Mas sempre fora do serviço. - E ontem bebeu?
Só água.
Certo...
Só mais uma coisa... Vamos precisar das suas botas.
- Hã? - As suas botas.
Pode tirar as botas, por favor?
Face à intolerável situação em que a vossa filha vive,
uma miúda formidável
apanhada numa guerra absurda entre duas pessoas
que tinham o dever de a acarinhar e de a proteger ao longo do seu crescimento
o Ministério Público vai sinalizar esta situação
à Comissão de Protecção de Crianças e Jovens,
que passará a acompanhar a família.
Eu espero que, para o bem de todos, colaborem.
Bom, quanto ao caso que nos traz aqui hoje,
que diz respeito a uma cadeira partida,
a leitura da sentença será daqui a 15 dias.
No entanto, fica a saber que estou a considerar
aplicar-lhe uma pena de prisão suspensa,
na condição de, em seis meses,
o senhor e a sua mulher se porem de acordo
em relação a quem fica e a quem sai de casa.
Se daqui a seis meses continuarem a viver debaixo do mesmo tecto,
o senhor vai cumprir a pena de prisão
e verão provavelmente a vossa filha afastada dos dois.
Até lá, eu não quero nem uma porcaria de um copo partido,
nem um disparate, nem uma mentira.
Estamos entendidos?
A água devia estar gelada...
Vamos amanhã.
Desculpa.
Clara.
Clara!
Mãe...
- Não me voltes a fazer isto. - Desculpa.
- Onde é que estiveste? - Em casa do Pedro.
Já te disse, desculpa. Fiquei sem bateria.
- O teu pai ligou-me. - A mim também.
O rapazinho era da tua escola.
Era da minha turma.
Da tua turma? Teu amigo?
Mais ou menos.
Quem é que lhe queria fazer mal?
Não sei.
David, olha para mim.
Vais ter cuidado?
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