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Tantos barcos de guerra no rio. Que enfiada era aquela?
São os contratorpedeiros portugueses.
O Tejo, o Dão, o Lima, o Vouga, o Tâmega.
Rebocaram-nos por causa do mau tempo.
Eram capazes de garrar e ir encalhar a Algés.
O Dão é o que está mais perto.
O Dão!
Para onde, senhor?
- Para um hotel, por favor. - Qual?
Não saberia dizer. Um cá para baixo, perto do rio.
Só se for o "Bragança", no princípio da Rua do Alecrim.
"Bragança"?
Do hotel não me lembro, da rua sim.
Vivi em Portugal, sou português.
Pensei que fosse brasileiro.
Há 16 anos que não venho a Lisboa nem a Portugal.
Vai ver que mudou muito.
- Tem chovido muito? - Um dilúvio.
Há dois meses que o céu se desfaz em água.
Não vou poder parar perto do hotel, por causa do elétrico.
Espero mais abaixo, junto ao Café Royal.
O senhor vai ver se há quartos.
Se não houver, temos de procurar outro hotel.
Profissão: médico. Viajou pelo "Highland Brigade".
Doutor, o meu nome é Salvador, sou o gerente do hotel.
Precisando de qualquer coisa é só dizer.
- Bem-vindo ao "Bragança". - Obrigado.
- A que horas é servido o jantar? - Às oito.
Espero que a cozinha lhe agrade. Temos também pratos franceses.
Vá buscar as malas do doutor. Estão num táxi junto ao Café Royal.
- São três malas e uma é pesada. - Talvez seja preciso outro empregado.
O Pimenta aguenta, ele está habituado.
"12 de junho de 1914.
"Estava a chegar a guerra. A grande.
"Mestre, são plácidas todas as horas que nós perdemos.
"Se no perdê-las, qual numa jarra, nós pomos flores.
"Não há tristezas, nem alegrias.
"Da vida iremos nós tranquilos, tendo nem o remorso de ter vivido.
"13 de novembro de 1935.
"Vivem em nós inúmeros.
"Se penso ou sinto, ignoro quem é que pensa ou sente,
"sou somente um lugar onde se pensa e sente.
"E, não acabando aqui, é como se acabasse.
"Uma vez que para além de pensar e sentir, não há mais nada.
"20 anos, dia por dia."
Não...
Esqueci-me de o devolver!
Deslembrança.
- Então, gostou da canja? - Gostei.
- É a Rua do Alecrim? - Não, senhor doutor.
Aqui é do outro lado. Dá para a Rua Nova do Carvalho.
Já não me lembrava desse nome.
Não, meu pai. Sinto-me bem.
Realizou-se ontem o funeral de Fernando António Nogueira Pessoa,
solteiro, de 47 anos.
47 anos!
Surpreendeu-o a morte num leito cristão
no Hospital São Luís dos Franceses, num sábado à noite.
Fernando Pessoa, o incrível poeta de "A Mensagem",
poema de exaltação nacionalista, dos mais belos que se tem escrito,
não era só ele na poesia.
Ele era também Álvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis.
Cá está o erro, desatenção grave. Escrever por ouvir dizer.
Ricardo Reis sou eu, 48 anos, um a mais do que ele.
Quem duvidar, vá ao "Hotel Bragança" e pergunte ao Salvador, o gerente,
se não está lá hospedado Ricardo Reis,
médico que chegou ontem do Brasil.
A janela estava aberta, não dei pela chuva a entrar,
está o chão todo molhado.
Formei de enfiada três versos de sete sílabas,
redondilha maior, só faltou o último.
Fica o calorífero ligado. Deseja mais alguma coisa?
Não, muito obrigado.
- Como se chama? - Lídia, senhor doutor.
Às ordens do senhor doutor.
Lídia?
Então, Lídia.
"Quando, Lídia, vier o nosso outono.
"Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira-rio."
Eu, poeta de Odes Alcaicas ou Sáficas,
a dar-me para poeta popular.
"Sobre a nudez forte da fantasia o manto diáfano da verdade."
O contrário seria bem melhor.
"Deus triste, foste preciso talvez porque nenhum havia como tu."
Boa tarde.
Que ajuntamento é este, senhor guarda?
Bem me parecia que não tinha nada a ver com isto.
É o bodo do "Século".
Mas é uma multidão.
Saiba vossa senhoria que se calcula em mais de mil os contemplados.
Tudo pobres dos pátios e das barracas.
A cada pobre calham dez escudos,
aos garotos dão agasalhos e brinquedos.
Mas empurram-se tanto, gritam. Isto é um caso triste.
Triste será.
Mas cada pobre tem de ser fiscal do outro pobre.
Pode já ter recebido, pode não ser destes sítios.
É para aprenderem, os aproveitadores.
Mas é triste.
De qualquer forma, obrigado pelas suas informações.
Às ordens de vossa senhoria. Passe vossa senhoria por aqui.
Esqueci-me de apagar a luz.
Olá.
Fernando?
Sem óculos?
Não tiveram tempo de mos dar quando os pedi, antes de morrer.
E não se enterram pessoas com óculos.
Sei que me foi visitar, mas eu não estava.
- Pensei que estivesse sempre lá. - Por enquanto ainda saio.
Tenho oito meses para circular à vontade.
Oito meses?
Contas certas, no geral e em média, são nove meses,
tantos quanto andamos na barriga das nossas mães.
Questão de equilíbrio.
Durante esse tempo ainda se lembram de nós.
Exceto casos excecionais, nove meses é quanto basta
para o total esquecimento.
O que é que o trouxe a Portugal?
- Aqui está. - Leia você, eu já não sei ler.
"Fernando Pessoa faleceu. Parto para Glasgow.
"Álvaro de Campos."
O Álvaro! Ele é assim.
Em novembro também rebentou uma revolução no Brasil,
houve muitos presos e muitos mortos.
Você anda sempre a fugir a revoluções.
Em 1919 fugiu para o Brasil com medo da revolução bolchevista,
que acabou por falhar.
Como vai provavelmente falhar essa do Brasil.
- Você continua monárquico? - Sim, mas sem rei.
Pode ser-se monárquico e não querer um rei.
- É esse o seu caso. - É.
Boa contradição.
Entre tantas que tenho vivido, essa não é a pior.
Ainda me lembro de quem você é.
Uma estranha impressão.
Sei que estou a olhar-me, mas não me vejo.
No entanto, tem sombra.
É tudo o que tenho.
Como é que soube que estava neste hotel?
Quando se está morto sabe-se tudo.
- Como é que entrou? - Como qualquer outra pessoa.
Entrou pelos ares? Atravessando as paredes?
Que ideia, isso só existe nos livros de fantasmas.
E ninguém deu pela entrada de um desconhecido?
Outra vantagem de estar morto.
Ninguém nos vê, querendo nós.
- Eu vejo. - Eu quero que me veja.
E afinal quem é você?
Vou-me chegando, está a fazer-se tarde.
- Você precisa de descansar. - Quando volta?
- Quer que eu volte? - Gostaria muito, podíamos falar.
Não se esqueça que passados 16 anos eu sou novo aqui.
Só vamos poder estar juntos oito meses.
Vistos do primeiro dia, oito meses são uma vida.
Quando eu puder, apareço.
Não quer marcar um dia, hora, local?
Tudo menos isso.
Até breve, Fernando. Gostei muito de o ver.
E eu a si, Ricardo.
Não sei se lhe posso desejar Feliz Ano Novo.
Deseje, deseje, não me faz mal nenhum.
- Feliz Ano Novo, Fernando. - Feliz Ano Novo, Ricardo.
"À respeitosa distância, os outros.
"Uma grande parte do país tem colhido os melhores
"e mais abundantes frutos de uma administração e ordem pública
"modelares.
"Um jornal de Genebra afirma que somos afortunadíssimos
"por termos como ditador um sábio.
"O ministro Pacheco conclui que Salazar é o maior educador
"do nosso século."
Do nosso século só foi vencido um terço!
Doutor, não comeu nada.
Quer que lhe aqueça o café e faça outras torradas?
Não tenho muita fome. Fico bem assim.
Que dia é hoje?
Quatro de janeiro, doutor. E continua a chover.
O Fernando não voltou a aparecer.
Pediu alguma coisa, senhor doutor?
Não, nada. Acho-te muito bonita.
Não necessita de mais nada?
Por enquanto não, nada.
Há momentos em que seria bem melhor morrer.
Vai o ano de feição, que os defuntos são correnteza.
Tantos e tão bons que se foram. E não falo do Fernando Pessoa.
Era cliente assíduo desta casa.
Lá se foram o Leonardo Coimbra, o inventor do Criacionismo,
Valle-Inclán, do "Romance dos Lobos",
John Gilbert!
Que grande ator era a estrela de "A Grande Parada"!
Kipling, o poeta do "Se".
O Rei Jorge V, afinal o único que tinha sucessão garantida.
O que o doutor não sabe é que em novembro do ano passado
morreram nas capitais de distrito 2492 indivíduos.
Um deles foi o senhor Pessoa, mas esse o doutor sabe.
Fora os das aldeias.
Não é muito nem é pouco, mas desses, 734 eram crianças
com menos de cinco anos.
Fica-nos a consolação de serem portugueses
a maior parte dos anjinhos do Céu.
Fernando.
- Chegue-se, cabemos os dois. - Não é necessário, vou bem aqui.
Quem estiver a olhar para nós vê-o a si ou a mim?
Vê-o a si. Ou melhor, vê um vulto que não é você nem eu.
Uma soma de nós dividida por dois.
Melhor ainda, o produto da multiplicação de um pelo outro.
Aritmética. Dois não se somam, multiplicam-se.
Numa ode minha eu digo que vivem em nós inúmeros.
- Não me lembro dessa ode. - Escrevi-a há dois meses.
Cada um de nós vai dizendo o mesmo.
Então não vale a pena estarmos multiplicados.
Doutra maneira não seríamos capazes de o dizer.
Já não regressa ao Brasil?
Sinto-me como o insone que chegou ao lugar certo da almofada
e vai poder, enfim, adormecer.
Se veio para dormir, a terra é boa para isso.
Se aceito o sono é para poder sonhar.
Sonhar é estar do lado de lá.
Ao lado de lá.
Podemos chegar pelo sono.
Dizer isso a um morto! O outro lado da vida é a morte.
Não sei ainda o que é a morte.
Sei que a morte é. Não que exista.
Ser e existir não são a mesma coisa.
Meu caro Reis, ser e existir só não são idênticos
porque temos as duas palavras ao nosso dispor.
Agora tenho de ir.
Eu volto.
Promete?
Tenho frio.
"Sobre a minha cabeça, a palma da mão de Deus.
"A linha do coração, a da vida,
"que se adelgaça, se interrompe e ressurge cada vez mais ténue.
"Coração bloqueado, sozinho por trás dos muros.
"Parecem dois olhos, aquelas manchas ali no teto.
"Sabe-se lá quem nos lê
"quando nós próprios, distraídos, estamos lendo."
Está a gostar?
Sim, sim.
Mas às vezes parece-me que a realidade não suporta o seu reflexo,
a sua representação.
E parece que estamos hospedados no mesmo hotel.
Curiosa coincidência estarmos aqui também.
Acho que devo-me apresentar. Sou Ricardo Reis, médico.
Cheguei do Rio de Janeiro há um mês. Estive lá 16 anos.
Sampaio.
Notário em Coimbra.
É um prazer.
Vamos?
Quando Lianor confessa que roubou a chave do salva-vidas
para que morresse Lavagante, e quando Maria Bem e Rosa,
uma começando, outra concluindo, dizem que tal gesto foi de amor,
confesso que as lágrimas não me paravam.
A menina Marcenda gostou mesmo da peça.
Achei bem que o Lavagante e a Maria Bem ficassem juntos.
Na verdade, um rápido e feliz desenlace.
E a fala da mulher do Lavagante no final do segundo ato:
"Se há inferno, se depois do que eu tenho chorado
"ainda há inferno, não pode ser pior do que este que eu vivo,
"Virgem Mãe das Sete Espadas!"
Memória prodigiosa a sua, Marcenda.
Vamos apanhar um táxi. O doutor Reis vem para o hotel?
Não quer acompanhar-nos?
Agradeço o convite, mas não.
Ainda me apetece andar a pé. Gosto deste frio húmido.
Tive muito prazer em conhecê-lo, doutor Reis.
O prazer foi todo meu.
Fernando?
Mas a estas horas?
Nós não vamos poder conversar muito tempo,
talvez apareça aí uma visita.
Você não perde tempo.
Ainda não chegou há um mês e já recebe visitas galantes.
Depende do que se queira entender por galantes.
É uma criada do hotel.
Meu caro Reis!
Você, um esteta íntimo das deusas do Olimpo!
Habituei-me a ouvi-lo falar, a toda a hora,
das suas Lídias, Neeras, Cloes, agora cativo de uma criada?
Esta criada chama-se Lídia.
E não estou cativo, pois prezo muito a minha solidão.
Tanto você chamou por Lídia, que Lídia veio.
Camões não teve essa sorte.
Inventou o nome de Natércia e daí não passou.
Veio-me o nome, mas não me veio Lídia.
Não seja ingrato.
Sabe lá que mulher seria Lídia nas suas odes.
É de facto duvidoso.
Vejo-o aí a ler um romance policial, com uma botija nos pés,
à espera de uma criada que lhe venha aquecer o resto.
E quer que acredite que você é o homem que escreveu:
"Sereno e vendo a vida à distância a que está."
Você disse que o poeta é um fingidor.
Adivinhações que nos saem pela boca.
Eu morri antes de ter percebido se é o poeta que se finge de homem
ou o homem que se finge de poeta.
Fingir e fingir-se não é o mesmo.
Isso é uma afirmação ou é uma pergunta?
É uma pergunta.
Eu apenas fingi, você finge-se.
Se quiser ver onde está a diferença, leia-me e leia-se outra vez.
Você está a preparar-me uma bela insónia, Fernando.
- A sua criada vem aí embalá-lo. - É um despeitado.
O seu caso, caro Reis, não tem remédio.
Você simplesmente finge-se. É fingimento de si mesmo.
- Não tenho remédio? - É outra pergunta?
Não tem remédio porque não sabe quem seja.
E você, alguma vez o soube?
Não faltará quem de mim dê todas as explicações.
Talvez eu tenha voltado a Portugal para saber quem eu sou.
Tolice.
Alumbramentos assim só em romances místicos
ou em estradas que vão dar a Damasco.
Estamos em Lisboa, daqui não partem estradas.
Tenho sono.
É a única coisa que lhe invejo, dormir.
Só os imbecis é que dizem que o sono é primo ou irmão da morte.
Vou-me chegando.
O teatro foi bonito?
Senhor doutor, posso falar um pouco consigo?
Se não tem outra coisa mais importante para fazer.
Estava a ler os jornais. Acabei agora mesmo.
Querem tomar alguma coisa? Café, chá?
Um café é uma boa ideia para o frio que faz.
Sim, um café.
- Gostou da peça? - Sim, gostei.
Apesar de achar demasiado artificial
essa, digamos, naturalidade da representação.
Quero dizer é que o que se passa num palco é teatro, não é a vida.
A vida em si não é representável.
Até o que parece ser o mais fiel reflexo, o espelho,
torna o esquerdo direito e o direito esquerdo.
- Mas gostou ou não gostou? - Sim, gostei.
- Quantas colheres? - Duas, por favor.
- Desejam mais alguma coisa? - Não, muito obrigada.
Cuidado com essa porta!
O meu pai não gostaria de saber que me estou a aproveitar
para lhe pedir a sua opinião de médico.
A minha opinião sobre o seu caso?
Este braço, que não é capaz de se mover por si mesmo.
Esta pobre mão.
Eu não me sinto à vontade. Não é a minha especialidade,
não conheço a sua história clínica e não devo, acima de tudo,
por deontologia, imiscuir-me na ação de um colega.
Mas como amigo.
Como amigo, sim.
Se já somos amigos há um mês.
Mas vai ter de me responder a algumas perguntas.
Todas as que quiser.
- Já posso levantar? - Sim, obrigada.
Cuidado com essa loiça!
Posso?
"Ave doente, asa queimada.
"Chumbo cravado no peito."
"Máquina paralisada, músculos sem força, nervos inúteis,
"ossos que apenas amparam esta pobre arquitetura."
- Há quanto tempo está assim? - Fez quatro anos em dezembro.
Isso começou aos poucos ou foi de repente?
Um mês é aos poucos ou é de repente?
Algum acidente, queda violenta, pancada?
Não.
Que lhe tem dito o seu médico?
Que talvez seja consequência de uma doença do coração.
Que tratamentos tem feito?
Massagens, banhos de luz, correntes galvânicas.
- E resultados? - Nenhuns.
Às vezes o braço reage, salta, estremece,
mas depois fica na mesma.
Teve algum desgosto, qualquer coisa importante ou anormal
que lhe tenha acontecido?
A minha mãe morreu.
Depois o meu braço não se mexeu mais.
Eu não sou médico de almas, sou apenas um clínico geral.
Estou a aborrecê-lo.
Não mexe o braço porque não pode ou porque não quer?
Marcenda, se está doente do coração, está doente de si mesma.
É a primeira vez que me dizem isso.
Todos nós sofremos de uma doença, inseparável do que somos.
Faz aquilo que somos.
Cada um de nós é a sua própria doença.
Por causa dela, somos tão pouco.
Mas também por causa dela, conseguimos ser tanto!
Mas o meu braço não se mexe!
Está a ficar muito escuro.
Doutor Reis, porque resolveu viver tanto tempo no Brasil?
Sentia um desgosto, doutor Sampaio.
Na verdade, eu não acredito na democracia
e abomino o socialismo.
Está com a sua gente.
Doutor Reis, o que nos vale neste cantinho da Europa
é termos um homem de alto pensamento e firme autoridade
à frente do país.
Não há comparação entre o Portugal que deixou e o Portugal de agora.
O respeito das outras nações, que agora têm, pela nossa pátria,
pela nossa História e gesta, pelo nosso império.
Estou a par do que os jornais dizem.
Não chega ler os jornais, é preciso ver com os próprios olhos.
Estradas, portos, escolas, as obras públicas e a disciplina!
Sossego nas ruas, sossego nos espíritos.
Uma nação inteira entregue ao trabalho
sobre a chefia de um grande estadista.
Uma mão de ferro com luva de veludo.
Magnífica metáfora essa. Magnífica.
O doutor Reis tem de ler este livro, acho muito útil.
A leitura é fácil e vai abrir os olhos a muita gente.
Muito obrigado, doutor Sampaio, mas que livro é este?
Foi escrito por Tomé Vieira, um jornalista patriótico.
Leia-o e depois me dirá.
Quando voltarmos, talvez o doutor já cá não esteja.
Como assim?
- Pensa regressar ao Brasil. - Talvez fique.
Não neste hotel, com certeza.
O Salvador depois diz-lhe onde vou viver.
Doutor Reis, senhor meu pai, dói-me um pouco a cabeça.
Dão-me licença que me retire?
Provavelmente amanhã não nos veremos. Partimos cedo.
Se não ficar no hotel, deixe a sua nova morada.
Que estupidez! Que perda de tempo!
- A Lídia não estava bem disposta. - Que maldade lhe fez?
- Ela viu-o? - Não autorizei.
Eu é que a vi.
- Foi a Lídia? - Não, fui eu.
Não o quis incomodar enquanto acabava a sua leitura.
Tentei contrariar o meu destino para ver o que se passa no mundo,
mas não consegui ler nada. A minha raiva atirou-os ao chão.
Por favor, Fernando, não suporto desarrumações!
"Hitler afirma perante os camisas castanhas:
"Saiba o mundo que a Alemanha será pacífica e amará a paz
"como jamais povo algum no mundo soube amá-la."
E ao mesmo tempo, 250 mil soldados alemães
estão prestes a invadir a Renânia.
E vem Lloyd George, o da nossa mais antiga aliança,
afirmar que Portugal está muito favorecido de colónias
em comparação com a Itália e a Alemanha.
A pérfida Albion, a mesma que impediu
que vingasse o mapa cor de rosa!
Ainda quer mais?
Pobre e triste mundo.
Gostava de lhe perguntar o que ficará do seu tão propalado
Quinto Império, Fernando, se formos esbulhados, humilhados,
enganados outra vez.
O Quinto Império é espírito, não é matéria.
Se o Quinto Império foi para mim intuição,
como pode ter-se transformado em certeza vossa?
Melhor que me tivesse calado, apenas assistindo.
Como eu sempre fiz. Apenas assistindo.
Só estando mortos assistimos.
E nem disso sequer podemos estar certos.
Morto sou eu, vagueio por aí, paro nas esquinas.
Vejo atos e palavras e não os posso emendar.
Explicar, resumir num ato só, numa palavra única,
que tudo exprimisse de mim,
ainda que fosse para pôr uma negação no lugar de uma dúvida,
uma escuridão no lugar da penumbra, um não no lugar de um sim.
E o pior, caro Reis, é que é irremediável.
O gesto que não fiz, a palavra que não disse.
Se um morto se inquieta tanto, a morte não é sossego.
Não há sossego no mundo, nem para os mortos nem para os vivos.
Então onde está a diferença?
Os vivos ainda têm o tempo, mas também para eles vai acabando.
Para fazerem o gesto, para dizerem a palavra.
Que gesto? Que palavra?
Não sei, morre-se de a não ter dito, morre-se de o não ter feito.
É por isso que a um morto custa tanto aceitar a sua morte.
- Meu caro Fernando, você treslê. - Eu já nem leio.
Acabe lá o seu pequeno-almoço. Eu volto mais tarde.
Vem aí alguém.
- De certeza que volta? - É melhor dizer "provavelmente".
Certezas nunca as tenho.
Estás zangada?
Infeliz, triste?
Há cinco dias que não apareces.
Eu volto logo à noite.
Fernando!
Vi-o de longe e pressenti que se abrigasse aqui.
Hoje vou deixar que eles me vejam.
Pensariam que você ensandeceu a falar sozinho,
mesmo que o fizesse em voz baixa.
Estão todos com ar carregado. São os ventos de Espanha.
- É o comunismo que não tarda. - Tive uma ideia, vamos divertir-nos.
Vem aí o Carnaval, você vai disfarçar-se de domador.
Bota alta, calção de montar, casaco encarnado com alamares.
Eu virei de Morte.
Uma malha preta com os ossos pintados.
Você a estalar o chicote, eu a assustar as velhas,
os dois a apalpar as raparigas.
Não estamos em idade para esses gozos.
Fale por si, eu deixei de ter idade.
Você consola-se nos braços da sua Lídia, eu nem isso tive.
Que diabo!
Fernando Pessoa!
Ó burgesso, andas atrás de mim?
És maricas ou estás com pressa de morrer?
Pensei que fosse um amigo. Pela voz, sei que não é.
Quem te disse que não estou a fingir também a voz?
- Desculpe. - Vai bardamerda!
Peço desculpa, doutor, mas tem aqui uma contrafé
da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado.
Então, menina, está pronta?
- Jantamos com o doutor Reis? - Não.
Vamos jantar com um casal espanhol. É gente elegante.
Deixamos o doutor Reis sozinho?
Filha, tive conhecimento de umas coisas graves.
Não é conveniente que nos mostremos em público com ele.
Que coisas, meu pai?
O Salvador contou-me.
O doutor Reis foi chamado à Polícia de Defesa do Estado.
Francamente, não me surpreende. Sempre achei que havia ali mistério.
- À polícia? - À Polícia de Estado.
- Mas ele é médico, veio do Brasil. - Sabemos nós lá!
Ele é que diz que é médico e pode ter vindo fugido.
Pai, ele ajudou-me.
És uma criança, não conheces a vida.
Preferia jantar sozinha consigo.
O hotel está cheio e já combinei com o casal de Madrid.
Quero saber o que se passa por lá. Vamos?
Não me sinto nada bem neste vestido. Não gosto dele.
Importa-se de ir descendo? Eu vou já ter consigo.
Não demores.
"O meu pai não quer que nos vejam juntos.
"Vou jantar com espanhóis que não conheço.
"Tenho pena de não o ver, mas é melhor assim.
"Mal chegámos e logo lhe disseram da sua chamada à polícia.
"O meu pai fugirá a que o vejam consigo.
"Amanhã, entre as três e as três e meia,
"passo no Alto de Santa Catarina. Se quiser, conversaremos um pouco.
"Eu gostaria muito."
"Que nau, que armada, que frota pode encontrar o caminho?
"E para onde, pergunto eu? E qual?"
Isto não estava aqui.
Você não está com boa cara.
A brisa do rio não me incomoda.
De certeza é mulher a pessoa que você espera.
Bravo, trocou a sua Lídia etérea por uma Lídia de encher as mãos.
Agora está aqui à espera de outra dama, feito D. João.
Nessa idade, duas em tão pouco tempo!
Para 1003 não lhe falta muito!
Os mortos são piores que os velhos.
Se lhes dá para falar, perdem logo o tento na língua.
É aquela rapariga?
Nada feia, um pouco magricela para o meu gosto.
- Sátiro oculto, vá-se embora. - Até um dia destes.
Deixo-o a namorar a donzela. Mas você desilude-me.
Amador de criadas, cortejador de meninas,
você que via a vida à distância.
A vida, Fernando, está sempre perto.
Pois aí lha deixo, se a vida é isso.
Podia ser pai dela.
É um arranjinho.
Estava a falar sozinho?
Não.
Estava a recitar uns versos escritos de um amigo que faleceu há pouco.
Talvez conheça. Fernando Pessoa.
Tenho uma vaga ideia do nome.
Não me lembro de alguma vez ter lido versos dele.
"Entre o que vivo e a vida, entre quem sou e quem estou,
"durmo numa descida, descida em que não vou."
Foram esses os versos que esteve a dizer?
Podiam ter sido feitos por mim. São tão simples.
Mas foi ele que os escreveu.
Como está a sua mão?
Tenho-a aqui na algibeira, como um pássaro morto.
Não deve perder a esperança.
Qualquer dia vou a Fátima, a ver se a fé ainda me pode salvar.
- Tem fé? - Vou à missa, confesso-me, comungo.
- Faço o que os católicos fazem. - Não me parece convicta.
É jeito meu não pôr muita expressão no que digo.
Eu queria vê-lo.
Falar-lhe.
Amanhã vou para Coimbra e tive medo de não arranjar outra oportunidade.
Mas marquei muito mal o sítio para uma pessoa que esteve doente.
- Como é que sabe? - Num hotel sabe-se tudo.
Está preocupado com a ida à polícia?
De modo algum.
Vivi muitos anos no Brasil e nunca fui inquietado com isso.
- Aqui menos razões há. - Ainda bem que assim pensa.
Volto a Lisboa daqui a um mês.
Não vou saber o que se vai passar consigo na segunda.
Quero muito saber. Escreva-me, por favor.
Para a Posta Restante de Coimbra.
Uma carta misteriosa enviada de Lisboa.
Não faça troça. Eu não quero ter de esperar um mês.
Se não receber notícias minhas será sinal que fui metido
numa lôbrega enxovia,
ou estarei fechado na torre mais alta deste reino,
onde a Marcenda irá para me salvar. - Isso não vai acontecer.
Tão tarde.
Tenho de ir ter com o meu pai.
Logo descerei para jantar. Cumprimentarei o seu pai ao longe.
A si não, para não lhe criar problemas.
Mas desça, por favor, assim poderei vê-lo.
Marcenda, porque me quer ver?
Não sei.
Cebola!
Venha. O doutor-adjunto vai recebê-lo.
Desculpe.
É então médico?
Sim, sou médico. Vim do Rio de Janeiro há dois meses.
Esteve sempre hospedado no "Hotel Bragança"?
Sim.
Em que barco viajou?
No "Highland Brigade", da Mala Real Inglesa.
Desembarquei em Lisboa no dia 29 de dezembro.
- Viajou sozinho ou acompanhado? - Sozinho.
- É casado? - Não, não sou casado.
Quantos anos viveu no Brasil?
Fui para lá em 1919, é só fazer as contas.
Gostava que me dissesse porque fui chamado a esta polícia.
Responda só ao que lhe pergunto.
Houve um motivo especial que o tenha levado a emigrar para o Brasil?
Emigrar apenas.
Em geral, os médicos não emigram. Não tinha doentes aqui?
Tinha, mas queria conhecer o Brasil, trabalhar lá, apenas isso.
Os emigrantes portugueses regressam às vezes,
do Brasil nunca.
Eu voltei.
E insisto que não compreendo o objetivo deste interrogatório.
Não é um interrogatório.
Nenhuma das suas declarações está a ser registada.
Menos entendo ainda.
Quis conhecê-lo.
Um português médico que ganha bem a sua vida no Brasil,
regressa 16 anos depois, está num bom hotel há dois meses,
sem trabalho.
Quem lhe disse que não vou trabalhar?
Ando à procura de um consultório.
São questões que não podem ser tratadas levianamente.
Que amigos teve no Brasil?
Quem são agora os seus amigos em Portugal?
As suas perguntas dirigem-se agora à minha vida particular,
não tenho obrigação de responder.
Ou exijo a presença de um advogado.
Tem advogado?
Não, mas posso contratar os serviços de um.
Os advogados não entram aqui.
Mas ainda não foi acusado de qualquer crime,
isto é apenas uma conversa.
Mas não acha estranho que o senhor doutor
tenha partido de Portugal logo depois de uma revolta
e tenha voltado do Brasil pouco depois de outra revolta?
Não havia pensado nisso. Coincidências.
Estranhas coincidências.
Não acha Portugal diferente agora?
Não poderia responder, não saí de Lisboa.
Lisboa, não a acha também diferente?
16 anos trazem mudanças.
Há sossego nas ruas, o Governo da ditadura nacional
pôs o país a trabalhar. - Não duvido.
Há patriotismo, dedicação ao bem público.
Tudo se faz pela nação.
Felizmente para os portugueses.
Felizmente para si, que também é um deles.
Não rejeitarei a parte que me couber dos benefícios.
Vi que estão a criar também muitas sopas para os pobres.
- O senhor não é nenhum pobre. - Posso ser, um dia.
Em Portugal, tão cedo não haverá revoluções.
A última foi há dois anos e não correu nada bem
para quem se meteu nela.
Não tenho nada a falar sobre isso, doutor-adjunto.
E acho que não tenho mais nada a dizer.
Já fiz as perguntas todas.
Aqui tem aqui o seu bilhete de identidade.
Victor, acompanha o senhor doutor à porta.
Então adeus, senhor doutor.
Se precisar de alguma coisa já sabe, fale comigo.
Como o senhor doutor vem! Então, como lhe correu a polícia?
Que carga de água!
Não disse nada. Logo falo com o meu amigo Victor.
O doutor não me disse que se ia embora.
Não ia ficar aqui a vida toda.
Nunca mais o tornarei a ver!
Não chores, a vida é assim. Encontros, separações.
- Quem sabe se amanhã não casas? - Casar-me, doutor?
Já me passou a idade.
Para onde é que vai?
Hei de encontrar uma morada que me sirva.
- Se quiser... - Se quiser o quê?
Se quiser vou ter consigo nos meus dias de folga.
Não tenho mais nada na vida.
Lídia, porque gostas de mim?
Não sei.
- Quem é? - Sou eu.
Posso entrar?
Antes nunca pediu licença, porquê agora?
A situação é nova.
Como dizem os ingleses, a casa de um homem é o seu castelo.
- Eu estava a dormir. - Comigo não tem de fazer cerimónia.
Na cama estava, para a cama torna. Fico só uns minutos.
Está bem. Obrigado.
Foi para aqui que você veio morar? Acho isto um bocado triste.
Todas as casas muito tempo desocupadas têm este ar.
Vai viver aqui sozinho?
Tenho a sua visita.
Só não o esperava na primeira noite, ainda mais com este frio.
Ainda acabo por ter de lhe dar uma chave.
Não saberia como servir-me dela.
Tenho muito gosto na sua visita, mas...
Medo?
Confesso que fiquei assustado quando ouvi bater daquela maneira,
mas medo não, talvez a solidão.
Você vai ter de aprender muito antes de saber o que é a solidão.
Sempre vivi só.
A solidão não é viver só.
É não sermos capazes de fazer companhia a alguém
ou a alguma coisa dentro de nós.
"A solidão não é uma árvore no meio de uma planície,
"onde não existe mais nenhuma,
"é a distância que está entre a seiva profunda e a casca,
"entre a folha e a raiz."
Ainda se demora? Tenho muito sono.
Durma quando quiser, a não ser que a minha presença o incomode.
O que me incomoda é vê-lo aí sentado, ao frio.
É isso que me incomoda.
Mas devia tirar esse roupão. É impróprio dormir com ele vestido.
Fernando, faça-me um favor.
Não deve ter importância para si ficar no escuro,
apague-me a luz do teto.
Boa noite, Ricardo.
Boa noite, Fernando.
Desculpa o desmazelo.
Hoje, quando acordei, nem fósforos tinha para acender o gás.
Comi umas bolachas e fui ao café com este aspeto.
Sexta é o meu dia de folga, venho cá fazer a limpeza.
Mas não vais visitar a tua mãe?
Vou lá para a semana. Isto é mais urgente.
- Vais precisar de dinheiro. - Meto do meu, depois dá-me.
Que ideia. Toma, 100 escudos devem dar.
100 escudos! Isso é uma riqueza!
Custa-me aceitar que venhas cá para fazer limpezas.
Isso que tem? Como a casa está é que não pode ser.
Deixa-me dar então umas lembranças.
Eu não quero lembranças.
Faça de conta que sou a sua mulher-a-dias.
Toda a gente deve ser paga pelo trabalho que faz.
O meu salário é tratar-me bem.
Até sexta-feira, senhor doutor. Cá virei para as limpezas!
Marcenda.
Vou beijá-la.
Deixe-me.
Deixe-me.
Talvez não deva dizer-lhe, mas eu esperava que me beijasse.
Não sei se foi por amor ou por desespero que a beijei.
Ninguém me beijou antes.
Não sei distinguir entre amor e desespero.
Saberá ao menos dizer-me o que sentiu?
Como o mar deve sentir a onda.
Porque se pode sentir desesperado?
O vazio.
Então não me ama?
- Gosto muito de si. - E eu gosto de si.
O que vamos fazer agora?
Estou aqui sentada em casa de um homem
com quem falei apenas três vezes.
Vim para o ver, falar-lhe e ser beijada,
no resto não quero pensar.
Marcenda, em que é que acredita neste momento?
Apenas no beijo que me deu.
- Posso-lhe dar outro. - Não.
Não. Não tenho a certeza de que iria sentir o mesmo.
Deixe-me ficar com este.
Agora tenho de ir.
Lídia!
Não me agarre, eu estou muito suada!
Vais tomar um café e comer um pastel de nata.
Ainda é cedo, depois tomas um banho para ficares fresca.
Tem lá algum jeito tomar banho na sua casa?
- Onde é que isso já se viu? - Não se viu, mas vai-se ver.
Vais mesmo tomar um banho.
Vá lá, não olhe para mim dessa maneira.
Nunca ninguém me viu assim. Vá-se lá embora.
Não te vistas, enxuga-te só.
Suba ao banco.
Suba, que eu não posso.
Oiça.
"Meu amigo, recebi as suas notícias que me agradaram muito..."
Principalmente a segunda carta, que diz que começou a dar consultas.
Da primeira também gostei, mas não fui capaz de perceber tudo
quanto nela escreveu, ou tenho algum medo de entender.
Afinal, não quero parecer-lhe ingrata,
sempre me tratou com respeito e consideração.
Só me pergunto o que é isto, que futuro há,
não digo para nós, digo para mim.
Eu não sei o que o meu amigo quer, nem o que eu quero.
Se a vida fosse toda certos momentos, aquele momento...
Mas a vida é também este meu braço esquerdo
que está morto e morto ficará.
A vida é também aquele tempo que separa as nossas idades,
demasiado tarde ou cedo demais.
Porém, gostaria de não perder a sua amizade,
que para mim é bastante riqueza. De que me serviria desejar mais?
Até breve, meu amigo. Darei notícias quando for a Lisboa,
se isso ainda acontecer.
"... aquele tempo que separa as nossas idades.
"Demasiado tarde ou cedo demais."
Julguei que não mais voltava.
Há uns dias fui visitá-lo, mas percebi que você estava
ocupado com a Lídia.
Não esperava que fosse tão persistente amante.
E a rapariga simpática, fina, a do braço paralítico?
Marcenda.
Um bonito gerúndio. Você gosta dela?
Não sei.
- E da Lídia? - É diferente.
Mas gosta ou não gosta?
- A mim o corpo dela nunca se negou. - E isso que prova?
Por favor, deixe de fazer perguntas sobre a minha intimidade.
Porque é que não voltou a aparecer?
- Por enfado. - De mim?
Também de si.
Não por ser você, mas por estar desse lado.
- Que lado? - O dos vivos.
É difícil a um vivo entender um morto.
E a um morto não será também difícil entender um vivo?
Um morto tem a vantagem de já ter estado vivo.
A morte é uma espécie de consciência.
"Uma espécie de consciência".
Uma vez você escreveu: "Neófito, não há morte."
Estava enganado. Há morte.
E o que me tem enfadado nem é você,
é este jogo entre a memória que puxa e o esquecimento que empurra.
Um jogo inútil.
O esquecimento ganha sempre.
Está a arrefecer. Vamos para casa.
Lá podemos conversar mais um bocado.
- Não espera visitas? - Não.
- Pode ficar lá, como no outro dia. - Sente-se só?
Sim, mas não ao ponto de implorar companhia.
Acho que até a um morto há de apetecer
estar sentado num sofá confortável sob um telhado.
- Você nunca foi irónico! - E não o estou a ser agora.
Venha.
Por estes sítios a esta hora, senhor Victor?
Calhou, senhor doutor, calhou.
Venho visitar uma parente ali no Conde Barão.
E o senhor doutor, já não vive no "Hotel Bragança"?
Não, eu moro ali. No segundo andar.
Já sabe, se precisar de alguma coisa é só aparecer.
Obrigado.
Estranho.
Imagine você que agora sonhei que estava vivo.
Como?
Ilusão sua, talvez.
Caro Reis, vida e morte é tudo um.
Fernando, você já me disse três coisas diferentes.
Que há morte, que não há morte,
e agora diz-me que vida e morte são o mesmo.
A última afirmação resolve a contradição das duas primeiras.
Diga-me o que se passa no mundo. Há cinco meses que não sei nada.
Meu caro Fernando, estamos a entrar em religiosíssimos tempos.
Estão a utilizar Deus como avalista político.
Na Alemanha, Hitler fala e é como se a abóbada de um templo
caísse sobre a cabeça do povo alemão.
Para a juventude alemã, Hitler é Deus!
Por cá, ainda vamos mais longe.
O Arcebispo de Mitilene afirmou que Portugal é Cristo
e que Cristo é Portugal.
Como?
Escrito em todos jornais com todas as letras.
"Portugal é Cristo, Cristo é Portugal."
Ai esta terra, ai esta gente!
Se Portugal é Cristo e Cristo é Portugal,
é bom saber que Virgem nos pariu, que diabo nos tentou,
que Judas nos traiu, que pregos nos crucificaram,
que túmulo nos esconde, que ressurreição nos espera!
Esqueceu-se dos milagres. Agora é que Portugal se vai cumprir.
Só me resta morrer!
Fernando...
Pobre de mim, nem isso me resta.
Faça o favor de entrar.
Como tem passado, Marcenda? Como vai o seu pai?
Ele não pôde vir, manda-lhe cumprimentos.
Se precisar de si, chamo-a.
Eu gosto de si, Ricardo, só que não sei quanto.
Um homem da minha idade a fazer declarações de amor
pode ficar ridículo.
A mim soube-me bem lê-las.
Agora sabe-me bem ouvi-las.
Marcenda, case comigo.
- Case comigo. - Não, não!
Não seríamos felizes.
Tenho de ir.
"Anuncio ao povo italiano e ao mundo que acabou a guerra da Etiópia!"
"As tropas de Badoglio a chegar.
"Povos poéticos, ó linguístico donaire, acordai!
"Addis-Abeba é a Nova Flor.
"A Nova Flor está em chamas, as ruas cobertas de mortos,
"as ruas estão cobertas de sangue, o sangue das crianças!
"Saqueadores assaltam as casas, violam, degolam!
"Mulheres violentadas trespassadas com lanças, contra os muros,
"caídas!
"Vem sentar-te comigo, Lídia, à beira do rio, no fim do rio.
"É junho e, ardente, a guerra já não tarda.
"A palidez do dia é levemente dourada.
"Não tenhas nada nas mãos, porque sábio é o que se contenta
"com o espetáculo do mundo.
"Ardem casas, saqueadas são as arcas e as paredes."
"Ardem casas,
"saqueadas são as arcas e as paredes,
"mas quando o rei de marfim
"está em perigo,
"o que importa a carne e os ossos
"das irmãs, das mães e das crianças,
"se carne e osso..."
"Faz hoje oito anos que o professor António de Oliveira Salazar..."
"... penedo convertido,
"mudado em jogador..."
"Amanhã é dia de festa, celebram-se os 47 anos
"da vida de Salazar."
Senhora de Fátima, permiti que eu oiça!
Senhora de Fátima, permiti que eu ande!
Senhora de Fátima, sarai-me!
Senhora de Fátima, dê-me vida!
Mulher de pouca fé.
Milagre! Milagre!
Acorde. Já chegámos.
Porque vão com tanta pressa?
A maioria vai fazer a pé 20 quilómetros até à Cova da Iria.
- Não há outro meio de chegar? - Há, mas tem de apressar-se.
As camionetas da carreira são poucas e as filas são grandes.
Deixe-me sair, eu sou médico.
Desculpe, minha senhora. Não há nada a fazer.
Meu pai, meu pai...
Ele já vinha muito doente, devia ter ficado em casa, mas teimou.
Disse que se enforcava se o deixássemos.
Veio morrer longe. Ninguém foge ao seu destino.
O senhor é servido?
Não, muito obrigado. Não tenho fome.
Pois olhe que é de boa vontade.
A 13 de maio
Na Cova da Iria
Apareceu brilhando
A Virgem Maria
Ave, ave Ave Maria
O que é isto, senhor, que eu não sei ler?
Isto é apenas um anúncio do Brovil,
um restaurador que fortifica o corpo.
Com o passar do tempo vou-me esquecendo.
Ainda agora no Calhariz tive de puxar da memória
para encontrar o caminho de sua casa.
Bastava lembrar-se do Adamastor, Fernando.
Mais confuso ficaria.
Pensava que tinha oito anos e que estava ainda em Durban.
Duas vezes perdido, no espaço e na hora,
no tempo e no lugar.
Lembra-se do António Ferro, Secretário da Propaganda Nacional?
Claro, éramos amigos.
Devo a ele os cinco contos de reis do segundo prémio de "A Mensagem".
Quem foi que ganhou o prémio este ano?
- Carlos Queirós. - O sobrinho da Ophelinha,
uma rapariga que trabalhava lá no escritório e que eu namorei.
Não o imagino a namorar.
Todos namoramos, pelo menos uma vez na vida.
Depois meteu-se o Álvaro de Campos e acabou tudo.
O amor é complicado.
Não se pode queixar, tem a Lídia.
- A Lídia é uma criada. - A Ophelia é uma datilógrafa.
Em vez de falarmos de mulheres, falamos das profissões delas.
- E a Marcenda? - A Marcenda não é nada.
Isso soa-me a despeito.
A minha fraca experiência diz-me que o despeito
é o sentimento geral dos homens para com as mulheres.
Meu caro Ricardo, nós devíamos ter convivido mais.
Não quis assim o império.
- Estava-me a falar do Ferro. - A conversa foi por outro caminho.
O Ferro é tonto, achou que o Salazar era o destino português.
Ele é apenas o pároco que nos batiza, crisma,
casa e encomenda.
Você, em vida, era bem menos subversivo.
Quando se chega a morto vemos a vida de outra maneira.
E como não pode responder a esta frase...
Porque é que não passa aqui a noite?
Não é bom para os mortos habituarem-se a viver com os vivos.
Nem os vivos se devem atravancar de mortos.
Tenho de ir, agora há pouca gente nas ruas e devo ser cauteloso.
Já não tenho forças para garantir a minha visibilidade.
Há uns que olham através do meu corpo e nada veem.
Outros, raros, fitam-me com insistência,
acham em mim qualquer coisa de estranho,
incapazes de definir o quê.
Vamos morrer?
Já passou.
Acho que estou grávida.
O que foi que disseste?
Foi mesmo isso que ouviu. Estou grávida.
Não tivemos cuidado.
Pensas em deixar vir a criança?
Sim, vou deixar vir o menino.
Como sabes que é um rapaz?
Se não quiser perfilhar o menino não faz mal.
Fica sendo filho de pai incógnito, como eu.
Distraia-me. Conte-me escândalos.
Olhe...
...vou ser pai.
Você está a brincar comigo?
Se um homem vai para a cama persistentemente com uma mulher,
são muitas as probabilidades de fazer um filho.
Quem é a mãe? Lídia, Marcenda, uma terceira?
Você é capaz de tudo!
Não há terceira e eu não me casei com a Marcenda.
Da sua Marcenda só teria um filho se casasse com ela.
Você conhece bem as educações e as famílias.
Uma criada não tem complicações, não é?
Às vezes.
Você é médico, sabe o que fazer.
Agora no desemprego e... Fernando, a Lídia quer ter o filho.
Perdeu o emprego?
Outro problema. Menor, sem dúvida.
Que vai fazer?
Fugir aos problemas? Voltar para o Brasil?
Tenho dias que são como se lá estivesse,
tenho outros que são como se nunca lá tivesse estado.
A flutuar no meio do Atlântico, nem cá nem lá.
Como todos os portugueses.
Agora uma vida nova, mulher e filho.
Não me vou casar com a Lídia.
E ainda não decidi se vou perfilhar a criança.
Meu caro Ricardo, se me permite, isso é uma safadice.
O Álvaro de Campos também pedia emprestado e não pagava.
O Álvaro de Campos era um safado!
Um filho!
Não me diga que lhe dói nunca ter tido um filho.
- Quem sabe? - Tem dúvidas?
Eu sou a mais duvidosa das pessoas.
Alguém com humor poderia dizer que sou o mais duvidoso dos Pessoas.
Posso ler-lhe uns versos que escrevi para a Marcenda?
Não vale a pena.
Conheço os seus versos de cor, os feitos e os por fazer.
A única novidade será estar aí o nome de Marcenda,
o que para mim já não é novidade. - Não está a ser amável.
Leia lá o primeiro verso.
"Saudoso já deste verão que vejo...
"Lágrimas para as flores dele empregue."
- Acertou. - Sabemos tudo um do outro.
Haverá alguma coisa que só a mim pertença?
Provavelmente nada.
Polícia!
Que ninguém se mexa, ou disparo! Agarrem-no!
As algemas! Tudo preso!
Chefe, fugiu.
Cambada de incompetentes! Um cerco tão bem combinado!
Ou falam ou ficam aqui mortos!
Quem é o tipo que fugiu? O principal?
Corta!
Saiu tudo muito bem, não quero repetir nada.
Senhor Lopes Ribeiro, não pode ser, a polícia fica mal vista.
É um descrédito para a corporação.
Sete alfaiates para apanhar uma aranha e ela foge?
Quer dizer, a mosca. A aranha somos nós.
Fica tudo muito mal. o principal fugiu!
Eu digo-te o que está escrito no guião.
Se o apanhássemos agora, acabava já a fita.
Não faltam teias no mundo. Escapa-se de umas, morre-se noutras.
Ele vai hospedar-se numa pensão com um nome falso
e nem sonha que a aranha dele é a filha da dona da pensão.
Uma rapariga séria, nacionalista,
que lhe vai dar a volta ao coração e ao miolo.
As mulheres ainda são a grande arma, umas santas!
Sendo assim, está bem. O senhor Lopes Ribeiro é um sábio.
Um grande plano do polícia?
Sim.
Tudo preso, tudo preso!
Que cantoria é esta?
"Cara al Sol con la Camisa Nueva".
É o hino da Falange Espanhola.
O hino dos que vão restaurar a ordem e acabar com os vermelhos.
O meu irmão diz que isso nunca acontecerá.
Ele não pode ter tantas certezas. Badajoz rendeu-se.
"Partidas as espadas, embotadas as foices,
"destroçados os cassetetes e as mocas, Badajoz rendeu-se."
- Choras por Badajoz? - Não sei.
A guerra é terrível, mas a guerra civil é pior.
Os comunistas cortaram as orelhas de 110 proprietários,
violentaram as mulheres deles.
Os comunistas arrancaram os olhos a um padre já velho,
regaram-no com gasolina e deitaram-lhe fogo.
- Tudo nos jornais. - Cale-se, não acredito!
O meu irmão sempre me disse que não se pode acreditar nos jornais!
Se a Igreja estivesse do lado dos pobres para os ajudar na terra,
os pobres davam a vida por ela.
E a Igreja não caía neste inferno onde está!
E as orelhas? E as senhoras violadas?
É horrível!
Mas o meu irmão diz que enquanto os pobres estão na terra
e padecem nela, os ricos já vivem no Céu vivendo na terra.
Respondes sempre com as palavras do teu irmão!
O senhor responde sempre com palavras dos jornais.
Não se publicam notícias falsas!
"A praça de touros de Badajoz abriu as portas
"para receber os milicianos prisioneiros.
"Mais de 2000. Depois as portas foram fechadas..."
Isto não deves ouvir.
Os camisas castanhas de Hitler.
Os fascistas de Mussolini de negro.
E agora os falangistas espanhóis de azul.
Só falta decidir a cor.
Não só para os mais velhos, também para a Mocidade Portuguesa!
Está ávida de ser disciplinada para servir a pátria e a ordem.
Temos de escolher a nossa cor.
Salazar! Salazar!
Nem preto, nem castanho, nem azul.
O branco?
Suja-se muito?
O amarelo é desespero. O vermelho, Deus nos livre!
O roxo é do Senhor dos Paços.
Só nos resta...
...o verde.
O verde é uma boa cor, está na bandeira.
Os nossos garbosos moços vão ficar mesmo contentes.
Já só estão à espera de um uniforme. Não sonham com outra coisa.
Estamos aqui reunidos, irmanados no patriótico ideal,
para dizer e mostrar ao Governo da nação
que somos penhores e fiéis continuadores
da grande gesta lusa,
daqueles nossos maiores que deram novos mundos ao mundo
e que dilataram a fé e o império!
Portugal! Portugal!
Mais dizemos que ao toque do clarim,
ou das tubas, clamor sem fim,
nos reunimos como um só homem em redor de Salazar,
o génio que consagrou a sua vida ao serviço da pátria!
Salazar! Salazar!
Pedimos encarecidamente ao Governo
a criação de uma legião cívica que se dedique inteiramente
ao serviço da nação, tal como Salazar se dedicou.
Com um lugar tão bom, foi-se embora?
Se calhar estava maldisposto. Estava com a cara um bocado branca.
Nós precisamos é de homens, e um homem aguenta!
Juntos formam um feixe ou fáscio que nunca se poderá quebrar!
Salazar! Salazar!
Nunca mais vou a um comício.
Gostava tanto de falar com o Fernando.
"Outros ventos mais fortes vão levá-las...
"... as palavras.
"A Coimbra nunca chegarão!"
Conta-me o que se passa, estás aflita.
É por causa do menino?
- É o meu irmão. - O que houve?
Desertou, ficou em Espanha?
Não, veio com o barco.
Vai ser uma desgraça!
- Uma desgraça, senhor doutor! - Explica-te, criatura!
Os barcos vão revoltar-se!
Quem to disse?
- Disse-me o meu irmão. - Sempre o teu irmão!
O que vão fazer?
Ou vão para Angra do Heroísmo libertar os presos políticos,
tomar a ilha e esperar que haja um levantamento aqui,
ou vão para Espanha apoiar o governo espanhol,
que ainda não caiu.
Quais barcos?
O Afonso de Albuquerque, o Dão, o Bartolomeu Dias.
O Dão, aquele que estava mais perto!
Por alma de todos os seus, guarde-me este segredo.
Tinha de contar a alguém, senão rebentava.
Não tinha mais ninguém.
A minha boca não se abrirá.
Doutor Reis, que alegria vê-lo. Em que posso ser útil?
Aquela criada, a Lídia, está cá?
Não, ela não está.
Ela tinha-me falado de um irmão da Marinha
e eu, como médico... - Eu compreendo, doutor.
Ela saiu quando começaram os tiros e ainda não voltou.
Eu digo-lhe que o senhor passou por cá.
Ela que me procure...
"Los ha llevado el diablo a los marineros!"
"Si, Don Camilo, los ha llevado el diablo."
"Entonces es hora de decir: arriba España e viva Portugal!"
- "Arriba, España!" - "Arriba, Don Camilo!"
"Os identificados encontram-se na morgue.
"Os feridos, muitos, foram detidos e levados para o hospital militar."
Lídia...
Deve estar com a mãe.
Lídia, precisas de chorar.
Precisas de quem te abrace, Lídia.
A Lídia tinha um irmão na Marinha.
Morreu hoje.
Morreu.
Não me lembrava deste relógio.
Vim para lhe dizer que não nos veremos mais.
Para onde é que você vai?
O meu tempo chegou ao fim.
Agora sou eu que pergunto. Para onde é que você vai?
- Vou consigo, não é? - Devia ficar à espera da Lídia.
Devia, mas se já não lhe posso valer...
- Esse livro, para que é? - Nunca o cheguei a ler.
- Não vai ter tempo. - Fernando, terei o tempo todo.
Engana-se, a leitura é a primeira virtude que se perde.
Levo-o na mesma. Deixo o mundo aliviado de um enigma.
Talvez ele acabe por gritar:
"Aqui, onde o mar acabou e a terra espera!"
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