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As pessoas se unem
e, depois, se separam.
E acabam não levando nada.
Não levam nada uma da outra.
Porque o amor é a maneira mais difícil
que existe de as pessoas se conhecerem.
Então, esta é a planta
da casa.
Há pessoas trabalhando aqui, fazendo umas coisas.
Aqui está a planta.
Aqui temos um marcador vermelho.
Então, aqui é o cafofo, tá?
E tudo vai acontecer aqui, tá?
No estúdio.
Aqui tem uma porta. Quando entramos, ela tranca.
Aqui ficam o painel, o alarme e o vidro.
A porta fica aqui, e tem tranca.
Aqui é o estúdio de gravação,
com microfone, porta, janelas acústicas, não tem como escapar.
O banheiro que leva ao cômodo de relaxamento.
Aqui é o CDR, o cômodo de relaxamento.
Também tem janelas e uma porta com tranca. Confere?
Piano, armários com comida. Certo?
Comidas em geral, tipo macarrão, certo? Tudo preparado, tem de tudo.
Bebidas, para o caso de demorar muito.
Desenhei um coração.
Escovas e pastas de dente, fio dental, tudo para os dentes.
Vestidos e tudo o mais, as roupas dela.
Tem quadros aqui.
É isso. Está bem? É isso.
O que estou fazendo aqui? Vou contar, agora mesmo.
Essa é a Layla. Layla, vem cá, vem cá.
Olha o biscoito! Vem! Vem, Layla! Tem biscoito! Oba!
É a cachorra do Stavros. A Layla.
Quem é a mascote linda? Mostra a carinha, lindeza!
Vim cuidar dela durante todo o verão.
Dela e das plantas.
Stavros é engenheiro de som. Esse é o estúdio dele.
A Sofia não está. Ela não está.
Quem é Sofia?
Uma razão para viver.
Uma razão para não viver.
Uma razão para cair no sono.
Uma razão para perder o sono.
Uma vadia histérica, louca, chata
e comoventemente adorável.
Generosa, atrevida, uma fantasia, uma mentira, uma miragem.
Uma árvore repleta de frutos.
Chupa pau como ninguém.
Parceira, amante, amiga, irmã, alma gêmea.
Alienígena, é isso que ela é. Ou era.
Era, era, era. Sofia era tudo isso.
Não é mais.
É.
Não. É claro que ela não morreu.
Tá, a gente terminou. Mas foi "agora". A gente terminou "agora". Foi outro dia.
É isso. Faz pouco tempo que a gente terminou.
Olha, na verdade, foi a Sofia quem foi embora.
Ela sempre fazia isso.
É por isso que eu nunca entendi por que terminamos.
A Sofia odeia dar explicações.
Ela prefere desistir.
Esta piscina não é minha.
Tirando conclusões? Conclusões superficiais?
Acha que não superei o término da Sofia? É isso mesmo o que você acha, idiota?
Fica aí só... É só nisso que você consegue pensar?
Faz tempo que superei ela.
O lance é que eu era descolado, tipo...
E aí, baby, qual é a boa?
Beleza? E aí, eu tô aqui. Tá vendo alguma ruga? Olha aí.
Mas agora eu tô na merda. Está me entendendo?
O que é que eu posso fazer? Quero tentar ser como eu era.
Esse é o ponto. Quero voltar a ser assim.
Através da Sofia eu vou ver como eu era, entendeu?
Só um segundo, a acústica não está boa.
Espere o caminhão passar.
Estou estressado porque vou encontrá-la.
Não quero que ela me veja sofrendo.
"Cuidado com o microfone." Você só pensa nisso?
Outro caminhão!
Escutou! Escutou! Foda-se!
O operador do microfone quer que minha mãe chupe ele,
idiota metido que vive na frente da TV!
"Fazendo drama!"
Seu otário! Estou abrindo meu coração!
Pare de xingar, para de xin...
Vou entender. Você vai ver um filme com a Sofia.
Eu vou encontrá-la e descobrir porque ela me deixou, e me libertar.
Não é que eu ainda não tenha superado.
Antigamente, eu arrasava. Eu arrasava.
Mandava muito bem. E era novo.
Agora, não consigo nem tirar a chave.
Antigamente, eu teria aberto sem precisar usar a chave.
Não vou gastar minha energia. Não vou.
Está me vendo chorar? Quem está chorando?
Quem está chorando? Quem?
Então, a ideia é a seguinte:
durante o tempo em que namoramos, nunca tiramos férias direito.
A gente ia acampar em cada buraco... Era um camping pior que o outro.
Estilo hippie.
Nunca passamos uma semaninha num lugar legal.
Só relaxando. Por quê?
Não estou bem.
Eu não estou bem.
Não estou me sentindo bem.
Porque a gente não tinha grana.
Ainda não temos, a propósito.
Mas tem a casa.
Uma casa bacana.
Então, eu liguei pra ela:
"Oi, Sofia.
sei que vai passar o verão sozinha em Atenas.
Tá, talvez não fique sozinha, mas, ainda assim, estará em Atenas.
Então, em vez das férias que nunca tiramos, que tal ficar comigo uma semana
num cafofo maneiríssimo?
Oi? Isso. Vou te explicar.
É claro... como amigo. Claro que é como amigo."
O que você diria? Você recusaria?
Não? Claro que não. Ela também não.
Então estou esperando ela.
Ela está atrasada. Ela está sempre atrasada.
Vou comer isso, enxaguar a boca e ficar de boa.
Relaxa. Relaxa. Relaxa!
Tranquilo, paciência, zen, zen.
Já está 20 minutos atrasada.
Ela vai chegar...
O biscoito mostra tranquilidade.
Vou comendo o meu biscoito e não tô nem aí.
Caraca! Você me assustou com essa cara feia.
-Quer que eu vá embora? -Não, não! E aí?
Meu Nikinho.
-Seu cabelo cresceu. -É.
Já faz um tempo.
Ficou bom.
Fica na sua.
O quê?
-É uma expressão, não conhece? -Não.
-Mas é. -Nunca ouvi.
-É. -Não sabia.
-Eu não sabia. -Tá.
-É engraçada. Posso levar a mochila? -A mochila? Tá.
-Aonde vamos? -É por ali.
-Me atrasei. -Silêncio. Eu sei.
DEPOIS DO AMOR
-Onde vou dormir? -Como assim?
Como assim, "como assim"?
Está falando sério?
-Sim. Estou falando muito sério. -Sério, quanto?
-Muito, muito, muito. -Tem certeza? Jura?
Se eu juro?
Por mim mortinha.
O quarto de hóspedes tem uma cama pequena e bem dura, se quiser.
Nikinho, você é o cara.
Me larga, criatura imunda.
O pessoal está vendo você fazer papel de boba.
-Que pessoal? -Eles, ali.
Quem?
Qual é, estão ali, não está vendo?
Tudo bem aí, soldado Ryan?
Era isso que tinha debaixo do capacete?
Não, não, não.
-Me mostre o quarto ou te mato. -Não me mate.
1, 2, 3, 4.
-Tem alguém na escuta? -Na escuta, câmbio.
Graças a Deus.
Fique à vontade.
Olá! Eu me chamo Sofia e vim aqui para me divertir.
-Fale sobre você, Sofia. -O que posso dizer?
Tenho 28 anos, fui criada em Atenas por pais atenienses.
-Isso não cheira bem. -Deve ser o seu nariz.
Filha única?
-Filha única, sim. -Imaginei.
-E isso é ruim? -Para você, não.
-Para quem, então? -Para quem convive com você.
Meus pais me davam pets, para aprender a compartilhar.
-E adiantou? Digo, com os gatos e cães? -E galinhas.
-Aprendeu francês? A tocar piano? -As duas coisas. Desisti. Das duas.
Diga algo em francês, Sofia.
-Só isso? -Só.
Inacreditável. Gostaria de pedir o aplauso das cadeiras.
Gostaria de agradecer os aplausos das cadeiras,
dado que elas têm pernas paralelas.
-Ciências naturais? -Prefiro filosofia.
Bom.
Quais são seus planos imediatos?
Estou pensando seriamente em tomar um mojito na piscina.
Seu plano inclui sexo?
Eu diria que inclui satisfação autoinduzida.
Esse foi o programa "Conheça o próximo", e hoje nós recebemos a Sofia.
Diretamente do estúdio Shakti,
a temperatura local é de 30 graus Celsius,
o céu está limpo, sem nuvens, mas há possibilidade de chuva.
-Este lugar é incrível. -Mojito na piscina? Eu ouvi bem?
Vamos?
O quê?
-Vamos lá? -Fique à vontade.
Não abre.
O quê? Tente de novo. Pode estar emperrada. Tente.
Nada.
-Você acha que está trancada? -Venha logo abrir isso.
Por que eu abriria? Eu mesmo tranquei.
-Você trancou? -Tranquei.
-Legal. Então, abra. -Por que eu faria isso?
Não estou a fim de abrir, agora.
-Quando vai estar? -Quando eu tiver respostas.
Que respostas?
Quando você me explicar por que nós terminamos.
O que é isso? Você estava lá.
Sim, eu estava.
Mas, antes de acontecer, você se distanciou.
Nós concordamos, mas eu nunca soube por que se distanciou.
-Acontece. -Eu sei. Mas não foi o nosso caso.
-O que houve no nosso caso? -Tem alguma razão.
Certamente não foi só uma que fez você se afastar.
-O que o levou a pensar assim? -Meu instinto.
-Por que não perguntou? -Eu perguntei, mas não adiantou.
-Talvez não haja uma resposta. -Eu não acredito.
-Não? -Exatamente.
Está bem, abra a porta, e eu prometo que passo cinco horas conversando.
Incrível. É um milagre. De repente, surgiu uma reposta.
-Abra a porta, abra. -Não. Eu tenho cara de bobo?
-Vamos ficar trancados aqui? -Depende de você, amor.
-Legal, muito legal. Estou pasma. -Eu sei, foram meses planejando.
-Fala sério. -Verdade.
-E o que vamos comer? -Mil coisas, eu trouxe muita comida.
-Coisas? Que coisas? -Comprei até roupas pra você. Vai amar!
-Você pirou. -Não, não. Eu assumi um risco...
-Risco? -Financeiro. Eu gastei uma grana.
-Então você teve gastos? -Nem brinca, eu gastei horrores.
-Você é uma comédia. -Não, não é uma brincadeira.
Escuta, na boa, sério. Eu estou rindo. Internamente.
Abra a porta. É muito legal, mas agora abra. Abra a porta. Abra.
Escute, eu não vou abrir a porta.
-Não vai abrir? -Não.
Quer que eu quebre tudo? É isso que está dizendo?
-Se ajudar... -Se ajudar?
Faça. Quebre tudo.
Eu já disse que você não vai sair daqui. Vamos ficar trancados aqui...
Vamos ficar trancados aqui até que seja revelada a resposta.
Sofia?
Venha, vamos lá fora.
Quer dizer, vamos aonde estávamos, não lá fora.
Sofia! Incêndio! Incêndio!
Suicídio seria muito banal.
Sofia, não perca sua essência agora.
Está muito zangada comigo?
Sofia?
Come, come.
Vem aqui.
O que foi?
Não está com fome?
Está preocupada?
Vai ficar tudo bem.
Vai ficar tudo bem.
Fique tranquila. Agora, coma. Vai lá.
Por que está chorando?
-O que você quer? -E aí?
-O que foi? -Fale.
-O que está dizendo? -O que você quer saber?
-O que deu em você? -Fale comigo.
-Qual é o seu problema? -Estou pronta, pergunte.
-Aquilo que você falou. Pergunte! -Perguntar o quê?
-Pergunte! O que você disse. Pergunte. -Agora não.
Quando? Faça logo as perguntas.
O que quer saber?
-Eu disse que agora não. -Agora. Vamos resolver e seguir adiante.
-Quero tomar café primeiro. -Não, não vai tomar café. Pergunte.
-Qual é o seu problema? -O meu problema? Você me trancou.
-O que deu em você? -Nada. Pergunte. Largue o açúcar.
Largue o açúcar. Largue. Pergunte. Pergunte.
-Agora não. -Pergunte. Largue o açúcar. Pergunte.
Cale a boca! Já falei que não vou perguntar agora!
Sofia? Eu fiz feijão.
Sofia linda!
Vou deixar aqui.
O feijão.
Sofia.
Eu sei.
Sabe o quê?
-O que você acha? -Que você só fala merda.
Foi por causa daquela garota, né?
Que história é essa?
-Você sabe muito bem. -Não sei, não. Explique.
-Não sabe? -Não, por favor, diga.
Foi por causa da garota da festa.
Qual era a fantasia dela mesmo? De banheiro.
Chuveiro.
-Chuveiro, isso. Você se lembra. -Eu me lembro. E daí?
Como assim, "e daí"?
Você transou com ela.
-Estou vendo que você sabia. -Se eu não sabia, agora sei.
-Você sabia? -Isso importa?
-Um pouco, porque... -Estou dizendo que não.
-Não? -Não, não importa.
Porque se pensa que terminei com você por isso,
então você é um otário.
Então você está de boa? De verdade?
De boa? De verdade? É sério?
Acha mesmo que eu terminaria com você por uma coisa dessa?
É o que você acha?
Não vire os olhos. É isso o que acha? Sério?
Sei lá. Por que não falou antes?
Falar o quê?
Que eu ficaria zangada?
Que eu ia bater em você e talvez terminasse? Sério?
-Você é muito legal, né? -Já deu, né?
Eu nunca terminaria com você por isso.
Você acha que eu sou o quê?
Uma idiota qualquer?
É o que você acha? Que as pessoas terminam por coisas assim?
De repente, você virou inocente.
Vá para o inferno!
-Quero que você ria, e vou rir, também. -Por quê?
-Vou rir muito. -Vamos morrer de rir. Não consigo.
-Eu não quero, não. -Não, eu não quero.
Vamos rir até morrer?
-Não? -Não.
-Quer, sim, sua vadia. Vaca. -Não, não quero. Pare, pare.
-Vou arregaçar sua xoxota. -Qual é! Pare, pare com isso!
E agora?
Quer cozinhar?
Quero ir para casa.
E as nossas férias?
Não estou me divertindo nessas férias.
Nem poderia, ficando aqui dentro o tempo todo, né?
Niko, você tem que me deixar sair.
Antes, vamos conversar.
Por quê? Qual é a finalidade? Reatarmos?
-Não está funcionando. -Eu não disse isso.
Então, vamos falar de quê?
Será que poderia...
por favor,
conversar comigo, para eu entender?
Entender o quê? Por que terminamos?
Você estava gostando?
Estava.
-Parece que já esqueceu. -Esqueci do quê?
Tudo. As brigas.
-O que foi isso? -Desculpe, um mosquitinho. Eu juro.
Esqueci do quê?
E agora?
Esqueci do quê?
-Enfim, de tudo aquilo. Tudo. -O quê?
De tudo.
-Do que está rindo? -O que estava dizendo?
-O que quer que eu diga? -As brigas...
-Sim, as brigas, suas cagadas, tudo. -Todo mundo passa por isso.
Pode ser. Mas nós passamos por mais coisas que os outros.
Sei lá. Sei lá.
Lembra como foi quando terminamos?
-Qual vez? -A que durou mais.
-Lembro. E daí? Lembro de tudo. -E...
E o quê?
Errei.
Está com fome?
Estou.
Vai preparar alguma coisa?
Vou.
Carne?
Sei lá, peixe, talvez?
Peixe também é carne.
Desculpe.
Estou com fome.
O que está olhando?
Nada. E você?
Uma gota.
Não damos certo?
-Vai começar de novo. -O quê?
Nada, estou cansada.
Escute.
Eu não quero não te magoar.
Estou tentando chorar e dizer o que machuca.
Porque é verdade.
É verdade que quero ser vulnerável.
Que eu quero ser igual aos seus namoradinhos.
E que eu preciso, loucamente, que me acaricie.
Preciso, loucamente, deitar no seu peito
e receber carícias em vez de um tapa.
Eu quero ficar nos seus braços.
Na segurança do seu calor. Quero loucamente ficar nos seus braços.
Eu te amo.
Eu te amo.
Bom dia!
Meu Deus.
Bom dia!
-Tudo bem? -Tudo ótimo. E com você?
-Estou ótima, também. -Fico feliz.
-Escute... -Diga.
-Por que estamos nesta casa? -Como assim?
-Por que está aqui, e não na sua casa? -Porque o dono é meu amigo.
E daí? Virou caseiro?
Digamos que ele me deu a chave.
-Tá. Em troca de quê? -Ele me deu aqueles rubis.
Ok...
E o cão no jardim?
-Layla. -Layla? Tá.
O que a Layla come?
Sei lá. Acho que...
carne?
E onde ela consegue a carne?
-Fala logo. -Falar o quê?
Fale.
-Falar o quê? -Fale.
-Quero saber onde ela consegue a carne. -Fale, fale.
Enquanto estamos trancados aqui. Estamos trancados, né?
De onde vem a carne? Da Layla. Onde ela consegue?
Onde ela consegue carne?
De onde vem a carne enquanto estamos trancados aqui?
-Posso tomar meu café? -Não vai responder?
E dizer o quê?
Eu vi você com a cachorra. Você sabe disso.
Eu saí para alimentá-la.
Fez muito bem.
-Não é grande coisa. -Não disse que era.
-E aí? -Por que não me contou?
-Para não termos esta discussão. -Que discussão?
-Essa besteira. -Besteira? Eu fiz besteira?
-Você fez besteira. -Não entendo.
Por que mentiu? Por quê?
Eu não queria mentir para você.
Eu estraguei tudo. Eu dei comida para a cachorra.
-Dei comida, não vou dar de novo. -Abra agora. Me dê a chave.
-Desculpe. -Me dê a chave agora.
-Quer sair? -Agora. Me dê a chave.
-Não vai sair. -Não vou?
-Quem é você? -Aqui é a lei da selva.
-Quem você pensa que é? -O cara forte que trancou você.
Nada, eu vou violentar você.
-Me dê a chave, quem pensa que é? -Não vai sair sem a gente conversar.
-Ainda quer conversar? Dizer o quê? -Como vou saber?
-Quer que eu fale o quê? -Sempre tem algo.
Quer falar sobre o quê? Rompimentos?
-É o que você quer saber? -Não temos nada a dizer?
-Não sei. Temos? -Não sei. Não temos?
-Acho que não temos. -Nadinha?
-Absolutamente nada. -Então, tá.
-Está muito claro. O que há a dizer? -Então ficaremos aqui até morrer.
Se não temos nada a dizer, vamos morrer.
-Vai sair para alimentar a cachorra? -Não tem por que ela morrer também.
Certo, a cachorra vai viver.
-Você se importa com a cachorra? -Ela é inocente.
-Vá. Vá brincar com ela. -Ela não está doente.
-Então sou eu que estou doente? -Nós estamos.
Estamos?
-Sim, vou tomar meu café. -Vai tomar café?
-Tem algo para me dizer? -Dizer o quê?
-Você tem algo a dizer? -Tipo o quê?
-Tem? -Sobre o término e por que deixei você?
Porque você é um babaca que sai enquanto eu fico presa aqui? Talvez.
Quer dizer, deve ser isso. O que mais podemos dizer?
-Vim escovar meus dentes. -Eu também.
Desde quando você cuida dos dentes?
Desde que soube que são os ossos da alma.
Quero que venha morar comigo. É pra valer.
Não. Não tem jeito.
-Tem, sim. -Não tem.
Por que não?
Estou saindo com uma pessoa.
O que é isso?
-"O que é isso", o quê? -O que é isso?
-O quê? -Isso. O que é isso?
Destranquei para você ir embora.
-Sério? Por quê? -Não era o que queria? Liberdade? Vá.
-Não quer saber? -Já sei.
É mesmo?
Que eu tenho namorado. Foi o que ficou sabendo?
É com isso que se importa.
Tudo bem? Agora você entende?
-Vai embora, covarde! -Não gosta?
-Não, não gosto. -Não quer que eu vá?
-Não, não gosto. -Também não gosto quando você vai.
-Não quer que eu vá? -O que você quer, cara?
-Quando eu fui embora? Diga. -O que você quer, pobrezinha, o quê?
-O que você quer? -Não consigo suportar.
O que aconteceu?
-O que aconteceu? -Não tenho nada a dizer.
-Então por que não vai embora? -Não sei o que dizer. Sério.
Tá, por que não vai?
Não sei o que dizer porque não há o que dizer.
Beleza, então vai.
Não posso porque você sabe mais que eu
e não está me ajudando a entender.
Do que está falando? Você pirou? O que está dizendo?
Do que está falando?
-Não quero falar. Não quero. -Beleza, vá!
Não vou, porque você me trouxe pra cá e está me enchendo o saco.
-Quem enche o saco é você! -Você me trouxe aqui!
Para falar o quê? Para me dispensar?
O que quer agora? Não tenho nada a dizer.
Estou com enxaqueca. Minha cabeça vai explodir tentando entender. Não entendo.
Olha, se não tem nada a dizer, vá embora.
Dá o fora. Vai. Por que ainda não foi?
-Está me sufocando, sabia? -Porra, vá embora.
Vou me afogar nas palavras. Tento falar, mas não consigo. Você me sufoca.
-O que você quer? -Você botou um peso nos meus ombros.
-O quê? -Faz parecer que devo me desculpar.
-Não precisa. -Mas eu quero.
Não grite, está me enchendo o saco. Fica quieta, tá?
Não me toque. Não encoste em mim.
-Beleza, então vai embora? -Claro que não.
-O que vai fazer? -Não vou fazer o que você quer.
-O que vai fazer? -Você me disse para vir, eu vim.
Agora me manda embora, e eu vou? Acha que eu sou o quê?
Quando está tudo bem, você fica de boa no seu canto.
Me deixe falar. Me deixe falar.
Me deixe falar. Tem um lugar bacana e se acha o todo-poderoso?
Você me trouxe para cá, estava de boa,
e quando surge algo que você não gosta, você me dispensa?
Como é que eu vou conversar com você?
Você está me sufocando. Como vou saber o que dizer?
Não falo coisa com coisa, porque você está me sufocando.
Está zangado por eu estar certa!
Mesmo estando certa, eu não consigo falar.
Não consigo falar, por isso vou embora. Se eu ficar, vou te matar.
Mas, na realidade, é você quem está partindo. Não eu.
Estou só dizendo as palavras. Mas é você quem está nos deixando.
-Como assim? -Você terminou comigo.
-O que está falando? -Foi, sim.
Eu só verbalizei, e você me prendeu por 5 dias.
Você terminou comigo. Foi você, otário.
O que significa? Esse papo de "você terminou".
Significa que é mentiroso, covarde e não escuta.
-Dá o fora daqui, vadia. -Não fale assim comigo.
Dá o fora daqui, Princesa de Zamunda, quem você pensa que é?
-Eu? -Quem você pensa que é?
Coitada da princesinha. Foi trancafiada, e precisa de espaço para falar?
Você me dá espaço? Quem você pensa que é?
Quando foi que você deixou de falar o que queria?
Eu saí da minha zona de conforto e te convidei para vir aqui.
E eu saí da minha e fiquei presa.
Vadia. Fingiu que odiou ficar presa, mas eu abro a porta e você não vai embora.
Me encheu o saco esse tempo todo porque estava presa. Você gostou!
-Mas eu estava! Foi por isso que falei. -Agora não está mais. Então, vai.
Vá embora, vadia.
Pode ir. Vá. Pode ir. Você não está mais trancada.
Se não tem nada a dizer e eu te sufoco, vá embora.
Vai te catar.
Vai te catar.
Vá procurar seu namoradinho. O que foi?
-Não tem namorado? -Você só se importa com isso?
-Não é da sua conta. -Você só ouviu isso.
Se o que estou dizendo for mentira, azar!
É, sou mesquinho. Mas você está presa aqui com esse cara há uma semana.
É isso o que me importa. Você não tem namorado?
Não tem? Não tem? Vai ter que me ouvir, vadia.
-Ouvir? Eu já faço isso. -Vai me ouvir, sim. Eu não ouvi você?
Cale a boca, porra. E não se atreva a chorar.
-Eu não... -Calada!
-Nem tente chorar enquanto eu falo. -Eu decido isso.
-Não vai chorar. -Vou fazer o que eu quiser.
-Por acaso eu chorei? -Não dou a mínima para o que você fez.
-Chorei por causa do namorado? Não. -Não, não chorou. Ficou choramingando.
-Calada! Não falou que tinha namorado? -Falei, sim. Vai choramingando.
-Eu me importo, vadia. Para que zombar? -Você se importa porque é egoísta.
-Exato. Sou egoísta. -Você não dá a mínima para mim.
Você não é egoísta?
Quase me matou por causa da garota chuveiro, mas não é egoísta.
-E depois agiu como se nem ligasse. -Quase te matei porque mentiu pra mim.
Porque você não me deixa falar.
Você é fascista, sabia? Porque não posso te encher de porrada.
Tudo o que você fala é melhor. Parabéns, vai falando. Não sou tão eloquente.
-Vadia idiota. -Eu estou certa, desgraçado. Não vê isso?
-Tá legal. -Estou certa!
Sua vaca idiota. Consegue falar mais do que eu.
Quer filmar isso? Você fala muito mais.
O quê? Eu só falo muito porque você não me deixa explicar.
Você é hipócrita.
-Não é você quem fala sem parar? -Sim, e não consegui dizer o que quero.
Não é problema meu. Você me ajuda a falar o que eu quero?
Tá, pode falar.
Você tem namorado? Vá ficar com ele. Cadê ele? Por que está aqui?
Cadê seu namorado?
Cadê o cara, o homem, o mito que não te sufoca?
Cadê o cara, o homem, o mito que não te sufoca?
Cadê o garanhão puro-sangue que te pega pelos cabelos e diz: "Vem cá, bebê"?
Cadê ele? O que você está fazendo aqui comigo? O que, hein?
O que está fazendo com um cara egoísta como eu? Me diz, femme fatale.
O quê? Fala!
Ei, estou esperando.
Ei, estou esperando. Responde.
-Não tem nenhum namorado. -O quê?
Quer que rasteje e implore ajuda? Quer que eu lamba seus pés?
Por que não?
Não. Não quero, não.
-Já entendi. -Não era no sentido figurado.
-Eu estava sendo literal. -Que tipo de ajuda você precisa?
O que quer que eu faça?
Não sei se pode me ajudar.
Você quer...
-Você consegue. -Não consigo.
Fale, fale. Vai, pode falar.
-É que... Para mim, não é... -Espera aí, o quê?
Vai me criticar?
Bem, eu não consigo.
-Então vai te catar! -Vai você.
Vou dizer o quê?
-Não consigo, não consigo. -Claro que consegue, só que não quer.
Está com tesão?
Está ou não?
-Não sei. -Você está?
Está, né?
Você está. Então ainda temos chance.
Quero que você me acaricie.
Quero que cuide de mim, e eu vou cuidar de você.
Mas eu preciso sentir dor, entende?
O cristianismo torra minha paciência.
Odeio esse conceito de que temos um problema.
De que devemos chorar para aliviar a dor.
Quero que enfie uma faca no meu coração e acabe com ele.
Pode ser mais específica? Está me consumindo.
Gostou da piada? "Está me consumindo."
Quer ver que filmes estrearam no cinema?
-Quero. -Pegar um cineminha, comer pipoquinha,
ver um filminho, voltar para a nossa caminha,
dar uns amassinhos e dormir de conchinha.
Sim, eu quero. De verdade,
mas sem os diminutivos.
Quer mesmo?
Não posso fazer nada sobre o que você me disse.
Vou acariciar você, e depois o quê?
Vai me desprezar e dizer que é cristão?
Como é que vou fazer isso, está de brincadeira?
Você mesmo disse.
Você vai me dizer "sua mãe te ensinou isso?"
Então vamos trocar carícias. Como é que eu vou fazer isso?
-Assim. -Claro...
Disso você entende, né?
E da outra coisa?
-E sobre... -A outra coisa engraçada...
Qual era a sua...
-Vem aqui. Vem aqui. -Suas sobrancelhas estão sempre...
O quê?
-Você sempre faz essa cara. -Qual cara?
Nada a ver.
Suas sobrancelhas estão sempre assim, sabia?
Se eu tivesse que te desenhar...
seria com cara de zangado, sabia?
Mas você nunca me desenhou.
-Espere, vamos esclarecer uma coisa. -Que coisa?
Você não está saindo com ninguém, nem com um animal.
Não diga que está saindo com alguém quando, na real, sai para andar a cavalo.
Isso é pior, eu imaginei um cavalo aí embaixo.
E não gostou?
-Não vou esquecer essa imagem. -Vai levar para o leito de morte?
Vai me perseguir até o fim. Que final...
-Está me pedindo para fazer algo? -Você não entende.
-Por que está sempre me depreciando? -Não é verdade.
Não faça isso. Seja direto.
-Manda logo a real. -Por que está na defensiva?
Porque você é esnobe.
Só me critica, por isso eu fico na defensiva.
-É esnobe. -Por que fica repetindo isso?
Por quê?
Se queria me dizer que sou esnobe bastava ter me falado.
Você é esnobe.
Eu brinco o tempo todo.
Estou sempre triste
-e agora estou no sofá. -Chega, fica quieto...
Quem você está acariciando?
-Foi muito bem colocado. -O que eu disse?
O que você falou. Aquilo que você disse antes.
Tão bom que vai rolar uma trepada incrível?
Não sei. Acho que não. Mas foi legal.
-Quero morar com você. Eu quero. -Por quê?
Não quero nenhuma deusa olímpica. Você é uma deusa olímpica.
-Talvez eu não seja. -É, sim.
-Não posso viver com esse fardo. -Qual fardo?
-Não diga mais nada atrevido. -Não vou dizer. Que fardo?
Este fardo.
Você está louquinha por ele.
Eu te amo.
-Quer morar junto? -Disse isso porque eu já tinha aceitado.
Tudo o que eu falo é porque as pessoas aceitam.
O que você quer?
-Não seja tão dramática... -Não acredito...
-que você seja a normal, e eu, não. -Não. Mas você me entende, né?
-O que você quer? -Você rotula as pessoas...
É verdade. O que você quer?
Não consigo acreditar que queira mesmo ficar junto. Acho que não foi pra valer.
-Por quê? -Não vejo por que ia querer isso. Sério.
-Quer saber o porquê? -Quero.
Porque eu te amo, quero transar e fazer tudo com você.
-Quero ter filhos com você. -Você não vê?
-Filhos como revolução, não protocolo. -Isso coloca um peso nas minhas costas.
Há regras, muitas regras. Não acha que parece que você cria regras?
-Ao contrário, baby. -Você estabelece as regras.
Essa quebra de regras é compulsiva. Para não cair no estereótipo, é compulsória.
Mas a gente vive de um certo modo. Quando dizemos: "não posso viver assim".
Quando você diz: "não posso viver assim"...
Não posso viver assim...
O que há de errado comigo? Pegue água, um pouco de água.
Ação?
Onde vai enfiar a cabeça?
Ainda não botei a cabeça.
Meu amor, meu amor.
O que foi? Está doendo?
Não.
-Está doendo? -Não.
Desculpe.
Desculpe.
Por quê?
-O quê? -Está tudo bem.
-Eu te amo. -Eu também.
-Vou acabar com você de tanto foder. -Não vai acabar comigo. Não vai nada.
O que você quer fazer, minha putinha? O quê?
Nada.
Quer fazer estilo Hollywood? Quer? Quer?
Rasga logo, putinha. Rasga logo isso, rasga.
De onde veio isso? Não quer rasgar!
Isso veio da China.
-Quantas temos? Quantas, sua piranha? -Sei lá.
Me bate. Me bate, porra. Me bate, desgraçada.
Cala a boca. Cala a boca. Basta.
Come. Morde o meu dedo. Assim. Pode arrancar, vadia.
Está com medo? Está com medo?
-Vou calar sua boca. Deixa comigo. -O quê?
-Se espera que eu goze, desista. -Por quê?
Não, meu amor, não. Não, meu amor.
Eu te amo, eu te amo.
Mexe. Mexe, porra. Mexe gostoso, boqueteira.
Eu amo esses peitos.
Por que está chorando? Não chore.
Sofia.
Sofia, Sofia.
Eu, eu.
-Você não me ama? -Eu te amo. Eu te amo.
O quê? Eu te amo.
-Por que disse isso? Por quê? -Não sei.
Eu não te amo? Hein?
Não te amo?
Você me ama.
-Não tenha medo. -O quê?
Não tenha medo.
Escute.
Escute.
DEPOIS DO AMOR
Tradução e Adaptação: Companhia das Palavras
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