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Ludwig van Beethoven desafiou os seus músicos tecnicamente
como nenhum compositor fizera antes.
Ainda bem que o fez porque compôs solos de trompa fabulosos.
Um mundo sem Beethoven? Nem consigo imaginar.
Ludwig van Beethoven moldou estilos musicais inteiros,
superando limites ou mesmo quebrando-os.
Foi um pioneiro, não só em termos musicais.
O que faltaria, hoje, no jazz ou nas bandas sonoras
se não fossem as invenções de Beethoven?
Existiria um mundo dos concertos como o conhecemos hoje?
E como é que Beethoven mudou o papel do artista?
Como seria um mundo sem Beethoven?
Era o que eu queria descobrir.
FILARMÓNICA
Para isso, visitei músicos, diretores e até políticos
de todo o mundo para determinar a sua influência.
A aventura começa com as quatro notas mais famosas da música clássica
e a sua enorme influência na música popular.
NÃO EXISTIRIAM RIFFS NO ROCK SEM BEETHOVEN?
O que ele fez foi inteligente sem ser demasiado severo.
Tudo começou com Beethoven e Chuck Berry.
Chuck Berry pode não concordar, mas o rock 'n' roll começou aqui.
Ludwig van Beethoven precisou de apenas quatro notas
para criar todo um cosmos musical
e uma das composições mais famosas de todos os tempos.
A "Sinfonia n.º 5" de Beethoven, interpretada pela primeira vez em 1808,
é um sucesso mundial.
Com apenas quatro notas, continua a desafiar músicos hoje em dia.
INSTRUMENTALISTA, CANTOR E COMPOSITOR
E continua incansavelmente com o baixo.
Ian Anderson, da banda Jethro Tull, também só precisou de quatro notas
para compor o êxito de 1971, "Locomotive Breath".
GUITARRISTA
Rudolf Schenker, o guitarrista rítmico da banda alemã Scorpions,
elevou a fasquia para cinco notas.
O riff de guitarra em "Rock You Like a Hurricane"
é um dos mais populares na história da música recente,
superado apenas pelo original.
Na "Sinfonia n.º 5", Beethoven varia constantemente as quatro notas
ao longo de todas as partes orquestrais e tons.
A simplicidade da ideia espantou os seus contemporâneos.
150 anos depois, o conceito foi redescoberto em Inglaterra
por músicos rock.
The Kinks foram dos primeiros, em 1964, com apenas três notas.
Um ano depois, os Rolling Stones também só precisaram de três notas.
Mesmo assim, não ficaram satisfeitos.
Os Deep Purple tornaram-se superestrelas com estas quatro notas.
A ideia também se espalhou pelos EUA
e o heavy metal encheu-se de riffs que ficam no ouvido.
Estas quatro notas lançaram os Nirvana para o estrelado, em 1991.
E as cinco notas dos White Stripes transformaram-se num cântico de futebol.
Será que Beethoven descobriu a fórmula perfeita em 1808?
HANÔVER, ALEMANHA
Estamos em Hanôver, no Parque de Exposições,
e encontro-me mesmo em frente dos famosos Peppermint Studios,
onde os Scorpions estão a ensaiar.
Com mais de 110 milhões de álbuns vendidos,
os Scorpions são uma das bandas de maior êxito da sua geração.
Rudolf Schenker compôs os riffs de guitarra mais conhecidos.
Sabe o que encontrei? A seguinte citação, na Internet:
"Rudolf Schenker é o Beethoven de Hanôver."
É um grande elogio, mas há mundos que nos separam.
Não dá para levar muito a sério, mas é um bom elogio.
Fiquei tão feliz quando li. Encaixa no tema!
Tem de ser tocada com agressividade.
Agora, eu acrescentaria uma linda nota de suspense.
- Com um crescendo. - Sim, isso dá suspense!
Muitas bandas rock roubaram ao Beethoven.
Claro, o subconsciente está sempre lá.
Por exemplo, os americanos foram influenciados pelo blues.
Os europeus, ingleses e sobretudo alemães,
foram influenciados pela música clássica, porque nos corre no sangue.
Por isso é que os Metallica são grandes fãs dos Scorpions.
Disseram: "Esperem lá, o som dos Scorpions é completamente diferente."
"Temos de ver isto."
Repararam que há outras influências.
E repararam na influência da música clássica.
O blues molda-nos de outra maneira. Nós não sabemos tocar blues.
Nós fomos moldados pela música clássica de tal forma
que nos focamos na melodia e num determinado ritmo.
BANGUECOQUE, TAILÂNDIA 2011
Acredito que os riffs vão sendo interpretados de forma diferente
ao longo das décadas e dos séculos.
No passado, a vida era menos caótica.
Hoje em dia, há uma abundância de tudo.
Então, temos de encontrar algo que chame a atenção.
Isto é extremamente importante.
Depois, temos de manter esse sentimento vivo,
para que não morra passado pouco tempo.
Ao compormos música,
temos de suscitar a curiosidade para manter o ouvinte connosco.
O resultado?
Riffs curtos e melódicos que inspiram o público de todo o mundo.
FLASH MOB EM MOSCOVO
WILTSHIRE, REINO UNIDO
A flauta é a imagem de marca de Ian Anderson.
Foi influenciado por música tradicional inglesa
e pelos grandes da música clássica.
Eu estava a comparar a "Sinfonia n.º 5" de Beethoven.
A abertura é o típico motivo na música,
não só na música clássica, rock, jazz, pop... Tanto faz.
Um motivo, uma ideia que é repetida com frequência como tema recorrente.
Isso costuma resumir-se a um riff.
O conceito de riff no jazz ou no rock costuma ser um motivo que se repete.
Beethoven usou essa ideia e desenvolveu-a.
E aposto que foi isto que aconteceu ao Beethoven...
Ele não ficou a remoer nas mesmas notas.
Provavelmente, entornou o café sem querer e fez...
"Isto soa bem!" É como funciona a maioria das pessoas.
Um bom riff de rock, é simples, direto…
Repete-se, porque é um riff e não um motivo,
uma introdução, se quiser.
Costuma ser uma frase repetitiva.
Os melhores riffs de rock que me vêm à cabeça,
e talvez um dos melhores de sempre, é o incrível riff de Ritchie Blackmore
numa canção chamada "Smoke on the Water".
Adoro a dos ZZ Top, com um shuffle maravilhoso
e muito backbeat, que se chama "La Grange".
É assim...
E vai-se repetindo.
É um excelente riff rock e muito simples de tocar.
Basicamente, são apenas três notas.
E é o que acontece com a maravilhosa "Whole Lotta Love",
que é neste tom.
Se calhar, se Beethoven voltasse a nascer hoje,
eu não o imaginaria a andar por aí num Mercedes de família
com dois miúdos aos berros lá atrás.
Imagino o Beethoven a andar numa mota,
que se vai sujando na lama.
É a ideia que tenho de Beethoven.
Os motivos repetitivos sempre tiveram um papel importante na música,
mas Beethoven aumentou o seu impacto.
Ainda hoje, a música pop é influenciada por ele.
Será que Beethoven fazia ideia de que, 150 anos mais tarde,
os músicos continuariam a inspirar-se nele?
Fui até Viena, onde ele ficou famoso, para descobrir mais.
Em 1792, Beethoven não chegou a Viena como uma celebridade de mota,
mas como um virtuoso do piano numa carruagem puxada por cavalos.
Já conquistara uma considerável reputação em Bonn
e tornava-se um rosto conhecido na sociedade musical de Viena.
NÃO EXISTIRIAM CONCERTOS SEM BEETHOVEN?
Beethoven deixou a sua marca na capital austríaca.
As suas casas são agora museus
e os locais onde trabalhou são locais de peregrinação
para fãs do mundo inteiro.
Quando chegou a Viena, aos 21 anos, como estudante de composição,
não havia indícios de que a sua chegada dividiria a história musical
entre o mundo antes de Beethoven e o mundo após Beethoven.
Em Viena, Beethoven transformou-se num artista e compositor
de prestígio internacional.
Começando pela "Sinfonia n.º 1", demonstrou a sua abordagem sistemática.
SIMON RATTLE, MAESTRO
Beethoven não começou a sinfonia da maneira habitual,
tocando a nota base como um trovão.
Em vez disso, infringiu todas as regras ao abrir com um acorde dissonante
que, inicialmente, deixa os ouvintes sem perceber.
Depois, engana-os.
A abertura anda à volta da nota da sinfonia, o dó maior,
mas nunca chega lá.
A "Sinfonia n.º 1" de Beethoven revelou
que ele gostaria que o seu trabalho sobrevivesse à passagem do tempo.
Chega de música leve e breve para a nobreza.
Em vez disso,
obras-primas para a burguesia europeia que ganhava gosto pela música.
Beethoven foi o primeiro compositor a atribuir consistentemente
números de opus às suas composições.
"Sinfonia n.º 1, opus 21".
Ele considerava-se um artista,
tal como os escritores, escultores e pintores do seu tempo.
E estabelecia fasquias elevadas, para ele e para os outros.
Os primeiros compositores guiavam-se pelas capacidades dos músicos.
Beethoven ignorava-os, formulando notações precisas
sobre andamento, dinâmica e articulação.
A sua arte requeria profissionais treinados
que se dedicassem a longos ensaios para dominar as suas obras.
Isso exigia instituições que pudessem financiar esses esforços.
Aconteceu algo inesperado:
as exigências revolucionárias foram satisfeitas.
MUSIKVEREIN, VIENA, ÁUSTRIA
Bem-vindos a Viena. Para muitos, a capital mundial da música.
Estou na Musikverein, a Golden Concert Hall.
A Musikverein de Viena, que significa sociedade de música,
é conhecida pela lendária sala de concertos, que abriu em 1870.
Muitos consideram que tem a melhor acústica do mundo.
E todos conhecemos o concerto de Ano Novo da Orquestra Filarmónica de Viena,
que é transmitido ao vivo, todos os anos, para o mundo inteiro.
A Musikverein foi fundada em 1812,
com um conceito que mudou o mundo da música.
Os cidadãos uniram esforços para apoiar a vida musical de Viena.
Beethoven também se tornou membro, mas à sua maneira.
Beethoven foi comissionado pela associação Gesellschaft der Musikfreunde
para compor uma peça de música,
mas ficou insatisfeito com o texto com que tinha de trabalhar
ou a associação deu-lhe um texto com o qual não queria criar música.
Contudo, ele já tinha recebido o que se chamaria hoje de sinal.
As coisas foram-se arrastando e o trabalho nunca chegou a ser criado.
Beethoven era famoso
e, afinal, não iria entregar nada.
E claro que não se pode dizer a Beethoven:
"Por favor, devolva-nos o dinheiro."
Então, fizeram uma coisa que provavelmente não aconteceria hoje.
Decidiram que ele ficaria com o dinheiro e designaram-no membro honorário.
A associação está no ativo há muito tempo, até hoje,
e tem um grande impacto na vida musical de Viena.
Como conseguem manter-se tão influentes durante tanto tempo?
Por um lado, fomos os primeiros. Mas não nos limitávamos a dar concertos.
Quando nos estabelecemos, em 1812,
a nossa principal preocupação era o Conservatório.
Era o único sítio de todo o império austro-húngaro
para aprender e estudar música.
Os concertos não eram o principal foco, eram o terceiro objetivo.
Ensinar, colecionar, dar concertos.
Isso foi mudando ao longo do tempo.
O senhor é o diretor artístico há 31 anos.
Deve ter ouvido falar bastante de Beethoven.
Sim.
Diria que Beethoven é um bestseller?
Com certeza! Não há dúvida.
Beethoven é sempre extremamente popular.
Ouvir a música dele é muito popular.
Como muito bem disse, é um bestseller.
O que acha que atrai em Beethoven?
Porque é que as pessoas continuam a adorar um programa de Beethoven?
Esta é a música clássica.
É o auge da música clássica, uma espécie de música absoluta.
Nem o senhor nem a associação imaginariam um mundo sem Beethoven?
Não conseguimos imaginar, mas, se ele não tivesse existido,
não saberíamos o que estávamos a perder.
Felizmente, existiu e ainda bem que o temos.
O conceito de salas de concertos para músicos profissionais
conquistou rapidamente o mundo no século XIX.
Associações, fundações e cidades
financiaram estes templos de música clássica,
estas obras-primas arquitetónicas.
ELBPHILHARMONIE, HAMBURGO, ALEMANHA ABRIU EM 2016
NOVA IORQUE, EUA
Em 1891, o primeiro templo de música americano abriu portas.
Carnegie Hall é uma das salas de concertos mais icónicas do mundo.
O primeiro concerto foi em 1891.
E adivinhe o que estava no programa. Beethoven, claro!
Beethoven! Quem mais podia ser?
Depois, todos começaram a vir a Nova Iorque.
Richard Strauss celebrou alguns dos seus maiores êxitos aqui.
Gustav Mahler dirigiu orquestras aqui.
Bilhetes para ver Benny Goodman, lenda do swing, foram revendidos nas ruas
por valores astronómicos.
Os concertos dos Beatles e de Bob Dylan são lendários.
Quem chega ao Carnegie Hall é porque vingou.
Mas como se chega lá? Prática...
Desde o início que Beethoven faz parte das nossas vidas, aqui.
Enquanto diretor executivo e artístico,
consegue imaginar um mundo sem Beethoven?
Há tantas coisas em relação a ele...
Ele foi revolucionário em todos os aspetos.
Se pensarmos na forma como se compunha música
e no contexto da composição musical antes dele,
em que se compunha música para as pessoas
e, na maioria das vezes, diziam-nos o que compor...
Só se tinha um conjunto de músicos...
Sim, eram recursos fixos,
mas também era preciso agradar quem pagava.
Beethoven não sentia necessidade de agradar ninguém.
Ele só compunha aquilo em que acreditava.
Ele transformou todas as formas em que tocou.
Em todos aspetos do que fez, ele mudou a música para sempre.
O que é que o público mais gosta de ouvir de Beethoven?
A Sarah enquanto música, eu enquanto antigo músico...
Creio que não há composição que eu tenha tocado mais vezes na vida
do que a "Sinfonia n.º 5" ou "n.º 7".
Apareciam constantemente nos programas.
Foram tocadas mais de 300 vezes no Carnegie Hall.
- Só aquela composição! Custa imaginar. - É de loucos, não é?
É possível fazer um programa de sinfonias de Beethoven ou de sonatas
todos os anos, ano após ano.
Beethoven tem um efeito
que quase nenhum compositor tem.
A música dele vende sempre.
E as pessoas usam-na.
Quando o Muro de Berlim caiu, ouviu-se a "Sinfonia n.º 9" de Beethoven.
No Japão, é tocada todos os anos na altura do Natal.
Por todo o mundo, é uma obra que simboliza grandes momentos históricos.
Quase que tem de ser tocada em momentos importantes.
LEONARD BERNSTEIN, MAESTRO
Ele causou impacto de várias maneiras.
Sinceramente, preparou a plataforma para o futuro.
De certa forma, também foi o primeiro grande romântico.
Apesar de não ter lá chegado,
preparou terreno para os românticos,
por causa da emoção e garra que transmitia em tudo o que fazia.
Fez mudanças em todas as dimensões.
O que funciona melhor?
Juntar Beethoven à música moderna?
Encontrou alguma fórmula que tenha funcionado bem
ou Beethoven funciona melhor, enquanto organizador de concertos,
num programa integralmente de Beethoven?
Nunca pensamos em termos do que funciona melhor.
Pensamos no que ilumina o quê.
A verdade é que, sim,
é possível colocar Beethoven no contexto de compositores contemporâneos,
podemos colocá-lo num contexto histórico...
É isto que ele tem de fascinante.
Podemos colocá-lo em quase todos os contextos.
Basicamente, não imagina um mundo sem Beethoven.
É realmente inimaginável.
Quero dizer, eu adoraria saber
se um compositor que tenha vindo a seguir,
que construiu a partir de tantas coisas que ele transformou...
Onde estaria ele?
Beethoven, além de ter desbravado novos territórios,
também criou novos padrões no mundo dos concertos
e estabeleceu a música como forma artística.
Se olharmos para os anos 60, quando a arte era fundamental na América,
para todas as mudanças que ocorreram,
em termos de leis de relações raciais, direitos das mulheres, dos homossexuais...
As artes foram cruciais.
Beethoven foi o primeiro músico e o primeiro compositor
com uma verdadeira consciência social.
Ele lutava pelas causas em que acreditava.
A música dele é sobre revolução, mudança,
envolvendo-se no que compõe, nunca estar confortável.
NÃO HAVERIA MÚSICA POLÍTICA SEM BEETHOVEN?
Beethoven compôs a "Sinfonia n.º 3" em tempos turbulentos.
Napoleão Bonaparte fustigou a Europa com a guerra
e levou os ideais da Revolução Francesa às monarquias europeias.
Beethoven apoiou aguerridamente os ideais da revolução,
"liberdade, igualdade, fraternidade".
A "Sinfonia n.º 3, a Eroica", reflete esse entusiasmo.
Embora Napoleão tenha ameaçado a casa adotiva de Beethoven, Viena,
o compositor decidiu dedicar a sinfonia ao general francês,
um gesto que retirou furiosamente.
Cheio de ira, riscou o nome de Napoleão da partitura,
quando o líder militar se declarou imperador.
Na partitura, escreveu que a sinfonia era "dedicada à memória de um grande homem".
Hoje, a "Eroica" é considerada revolucionária,
um grande feito sinfónico.
As convicções políticas de Beethoven influenciaram muitos compositores.
Em 1805, compôs a sua única ópera, "Fidelio", uma ópera de libertação.
Baseia-se na luta do indivíduo
contra uma ditadura opressiva.
Então, Beethoven era um compositor político.
A crítica social e o compromisso político podem-se expressar na música?
POTSDAMER PLATZ, BERLIM, ALEMANHA
Hoje, a "Sinfonia n.º 9" de Beethoven
não é apenas o hino oficial da União Europeia,
é também um símbolo de liberdade no mundo inteiro.
Foi a banda sonora de grandes acontecimentos históricos,
incluindo a queda do Muro de Berlim.
Até hoje, a "Sinfonia n.º 9" incentiva músicos a assumir uma posição política.
DORSET, REINO UNIDO
Em 1985, só há uma pergunta que paira na cabeça das pessoas
e uma decisão a ser tomada: de que lado estão?
Em meados dos anos 80,
Billy Bragg tornou-se o rosto da música nos conflitos políticos britânicos.
A greve dos mineiros de carvão paralisava o país há meses.
Os mineiros contestavam o encerramento de minas
e muita gente, no Reino Unido, mostrava-se solidária.
Em 1984, tinha começado uma carreira de cantautor punk a solo,
quando se deu a greve dos mineiros no Reino Unido.
Os trabalhadores insurgiram-se contra Margaret Thatcher.
Eu estava no sítio certo, à hora certa,
para começar composições mais ideológicas e políticas.
Como muitos músicos da sua geração,
Billy Bragg foi influenciado pelo punk rock,
que surgiu na Inglaterra no fim dos anos 70.
Os Clash foram responsáveis pela minha politização.
Quando tocaram no primeiro festival Rock Against Racism,
em Londres, em 1978, eu fui.
Foi a primeira vez em que participei no ativismo político.
Esse dia mudou a minha perspetiva sobre o mundo.
Beethoven pode ser um exemplo ainda hoje.
Quando me incumbiram de escrever uma letra em inglês
para o "Hino da Alegria",
em vez de tentar traduzir o poema original de Schiller,
peguei em apenas um verso: "Alle Menschen werden Brüder."
"Os homens tornam-se irmãos."
É a ideia universal da humanidade. E parti daí.
A minha ideia é mais ou menos uma expansão desse conceito.
Julgo que nos toca ao longo dos tempos.
Sempre que se usa o "Hino da Alegria", evoca-se essa humanidade.
A alegria da humanidade em todas as suas formas está lá,
na "Sinfonia n.º 9" de Beethoven.
A linguagem da música é a empatia.
É sobre isso que cantamos.
Fazemos com que as pessoas não se sintam sós.
Queremos que as pessoas sintam emoções por alguém que nunca conheceram
ou por experiências que nunca tiveram.
É com isso que lidamos nos concertos, quer sejam políticos ou não.
Qualquer compositor lida com isso.
Se juntarmos essa empatia ao ativismo,
se incentivarmos o público a agir,
temos a oportunidade de fazer algo.
Quando juntamos empatia e ativismo, obtemos solidariedade.
Então, é o texto ou é a música do último movimento
da "Sinfonia n.º 9" de Beethoven que causa tanto impacto político?
Decidi perguntar a uma pessoa
que percebe tanto de política como de Beethoven.
Norbert Lammert é um dos políticos mais conhecidos da Alemanha.
Foi presidente do parlamento alemão durante 12 anos
e é um grande fã de Beethoven.
Acha que uma obra tem poder
como declaração política mais por causa do texto
ou a música em si tem algo a ver com isso?
A influência que a música e os músicos tiveram no desenvolvimento da sociedade
é notável, sobretudo na história recente.
A propósito, a ligação entre a música
e a letra desempenha um papel decisivo.
A música puramente instrumental não costuma produzir
um efeito de mobilização política comparável.
Cantautores ou compositores
que abordam deliberadamente temas e textos políticos
alcançam resultados muito melhores.
A "Sinfonia n.º 9" continua a ter uma mensagem assertiva, para muita gente.
Fiz uma pequena experiência nas Portas de Brandeburgo
e toquei o último movimento da "Sinfonia n.º 9" para os turistas.
A maioria disse ser o hino da Europa e não uma sinfonia de Beethoven.
A melodia tornou-se o hino europeu, sem letra,
e tornou-se independente claramente.
Quase toda a gente conhece a melodia.
Pouca gente conhece a letra.
A tua magia volta a unir
O que o costume rigorosamente dividiu
Todos se tornam irmãos
Onde a tua gentil asa repousa
BARCELONA, ESPANHA
A pianista venezuelana Gabriela Montero vive em Barcelona.
Ela tem uma capacidade que poucos pianistas clássicos dominaram:
a arte do improviso.
Conhecendo as histórias
sobre Beethoven improvisar no meio das suas sonatas,
no meio das suas obras já compostas,
fiquei com a impressão
de que, no passado, os grandes génios
se permitiam ver a música
não como algo fixo, mas maleável.
Gabriela Montero também é conhecida pelo seu empenho político.
É uma forte crítica do regime da Venezuela, o seu país natal.
Perguntam-me muitas vezes porque é que me envolvi,
porque falo de política e de coisas tão feias
que por vezes partilho.
Se vissem a minha caixa de entrada nas redes sociais,
veriam centenas ou mesmo milhares de histórias.
de venezuelanos que partilharam comigo inúmeras histórias
de terror, exílio, homicídio, rapto, fome...
Familiares que morrem por falta de medicamentos.
As mais básicas necessidades humanas
não são satisfeitas num país inteiro.
Beethoven sabia que a música amplifica e reforça
motivações subjacentes.
Ele dá o exemplo de usar a linda ferramenta que é a música
para contar uma história, para consciencializar
e para deixar uma marca na história.
Contar-nos o que ele passou na altura
é algo que é válido para todas as gerações.
Ele foi um excelente exemplo de alguém
que não só via a música como um meio para a alegria
ou como uma ferramenta para a beleza estética,
mas como um meio para transmitir uma mensagem.
Talvez isso fosse ainda mais importante do que compor algo sublime.
O que há de mais inovador em Beethoven?
Quanto mais mergulho na música em geral e em Beethoven em particular,
mais chego à conclusão
que a ligação entre tradição e inovação foi a sua característica mais notável.
Não se pode dizer que Beethoven não teve nada a ver
com a história da música, com tradições preexistentes.
Muito pelo contrário!
Por outro lado, não há quase mais ninguém
que pegue nesta tradição com tanta confiança
fazendo-a explodir logo de seguida.
NÃO HAVERIA ÁLBUNS CONCEPTUAIS SEM BEETHOVEN?
BERLIM, ALEMANHA
Muito bem, mais uma vez.
Em 1816, Beethoven revolucionou a tradição do lieder,
canções com letras poéticas.
Foi muito bonito, o alemão.
Mas vamos repetir a transição.
Não estavam juntos no compasso anterior.
Qual transição?
PIANISTA
Para uns, é um ciclo de canções.
Para outros, é o primeiro álbum conceptual do mundo.
"An die ferne Geliebte" de Beethoven.
Seis músicas contam a história
de um amor não correspondido em 15 minutos.
A maior invenção é, sem dúvida, "Ferne Geliebte",
em que criou o primeiro ciclo de canções na história da música.
Ele compôs uma música muito longa,
mas com uma espécie de intermezzo,
sem interlúdio,
e um epílogo muito forte.
Na realidade, temos vários tipos de músicas e de episódios,
em que ele conta uma longa história.
É, com certeza, a maior invenção,
em termos de reportório musical.
Com as suas transições sofisticadas,
o piano faz muito mais do que acompanhar a voz.
Quanto mais conheci o repertório de Beethoven,
mais me apercebi
que todas as suas composições são obras-primas.
Independentemente de serem lieder,
que não são consideradas as melhores do mundo.
É genial, só temos de estar atentos.
"An die ferne Geliebte" tornou-se modelo
para os grandes ciclos de canções de música clássica e romântica.
Franz Schubert adotou a próxima ligação
entre piano e voz a partir de Beethoven.
Gustav Mahler desenvolveu a ideia
e acompanhou o cantor com uma orquestra.
HOLLYWOOD, LOS ANGELES, EUA
150 anos depois,
pegaram na ideia num sítio completamente diferente.
Em meados dos anos 60, a música pop sofreu uma revolução
nas colinas do norte de Hollywood.
Aqui, criaram-se os primeiros álbuns conceptuais,
largando a imagem adolescente da pop,
transformando-a num negócio milionário de escala mundial.
Hollywood! Luzes, câmara, ação!
A casa da indústria do cinema
e de algumas músicas pop mais icónicas de sempre.
Um dos impulsionadores foi Brian Wilson dos Beach Boys.
O objetivo dele era compor minissinfonias para crianças.
Para o álbum conceptual "Smile", contratou um jovem letrista,
o produtor e compositor Van Dyke Parks.
Li sobre a sessão da "Good Vibrations".
Disse, de repente: "Precisamos de um violoncelo."
Sim, um violoncelo para os tercetos de colcheias.
- Como chegou a essa ideia? - Deus concedeu-me um plano.
Deus concedeu-me o plano de ser um bom produtor
e ter uma boa ideia para algo que acontece em dois minutos e meio.
Uma marca, como os sapatos vermelhos, algo que se destacasse.
O aperto de mão do The Bank Dick.
"Toca outra vez, Sam!"
O seu primeiro single...
Van Dyke Parks lançou a primeira versão pop
do "Hino da Alegria" de Beethoven.
Esta é a sua "Number Nine", o seu primeiro single a solo,
e é Beethoven!
Conte-me porquê. Porquê Beethoven?
Eu sabia que adorava essa música que Beethoven, segundo sei, adaptou
e definiu na "Sinfonia n.º 9".
Fiquei pasmado com isso.
E essa composição foi provavelmente a primeira vez
em que me apercebi
que alguém extrapolava a partir de um estilo,
o estilo folk.
Isso influenciou muito a minha vida.
De imediato, era eu pré-adolescente,
bifurquei convenientemente o elo
das ruas e da elite.
A música que vinha da rua
e acabou por chegar às saletas.
Gottschalk, por exemplo, nos EUA.
Graças a Van Dyke Parks,
Beethoven tornou-se uma espécie de pioneiro do folk-rock,
na mesma altura em que Bob Dylan popularizava o folk-rock.
Tenho Beethoven neste ombro
e o niilista absoluto no outro.
A voz falada de Bob Dylan,
que superou qualquer voz que eu ouvira até então.
Ele é um mestre nisso.
É inegável que a música pop é chamativa,
porque tem uma fisicalidade
e reconhece o apelo eurítmico na música.
Era isso que Beethoven, e Brahms sob o efeito de esteroides,
tinha, a meu ver.
Brian Wilson e Van Dyke Parks partilharam uma visão ambiciosa.
Em vez de uma simples coleção de faixas,
Smile foi um ciclo de canções que conta a história dos Estados Unidos,
cuidadosamente composto até ao último pormenor.
Smile só foi lançado integralmente décadas mais tarde,
mas a ideia foi rapidamente copiada pelas bandas de maior sucesso do mundo.
Mesmo ao lado, em Laurel Canyon,
Frank Zappa criou o seu álbum conceptual, Freak Out.
Em Inglaterra, os Beatles também se inspiraram no Smile.
Inventaram um grupo musical fictício, Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band.
A banda britânica The Who lançou uma ópera rock, Tommy.
E o álbum conceptual dos Pink Floyd, The Dark Side of the Moon,
sobre o declínio até à loucura,
tornou-se um dos álbuns mais bem-sucedidos na história da música.
E isto é algo que usa na sua música desde então.
Beethoven compôs
o primeiro ciclo de canções de sempre, "An die ferne Geliebte".
Curiosamente, e é por isso que queria falar consigo,
foi o que fez.
Foi o que fez logo a seguir com o álbum Song Cycle.
Sim, é interessante, mas isso foi-me imposto pelo meio.
O meio era o álbum, que tinha um determinado tempo.
- O álbum conceptual. - Sim, é engraçado.
Esse álbum conceptual saiu de Laurel Canyon.
Há demasiadas pessoas para conseguir nomear.
Zappa estava lá, na cabana do Tom Mix, que ardeu completamente.
Outros grupos... Joni Mitchell, Crosby, Stills, Nash...
Todos eles.
Toda a gente, em Laurel Canyon, ficou com a ideia do álbum conceptual.
Como as pessoas ouviam o álbum,
deu-se um avanço tecnológico.
Estávamos na época áurea da gravação analógica.
E esse formato oferecia a continuidade
que as pessoas procuravam.
Passou a ser uma disciplina.
Tinha de ser de determinada maneira.
Por exemplo, tínhamos de pensar no primeiro corte.
Tínhamos de pensar no último corte.
Tínhamos de pensar na quantidade de tempo que era necessária
para virar para o lado B.
Qual seria o primeiro corte e como terminaria?
Queríamos construir ou desvanecer?
No seu álbum conceptual de 1968, Song Cycle,
Van Dyke Parks explorou o mito da Califórnia,
do esplendor dos parques nacionais à futilidade de Hollywood.
Quando fez o seu ciclo de canções...
Beethoven descrevia água a correr,
bosques e canto de aves na música dele.
O senhor teve a sorte de gravar em analógico.
Pôde incorporar os sons da água e outros elementos.
Exatamente. Eu queria fazer isso. Senti que era inevitável.
O elemento mais interessante
foi quando decidi não compor a música "Vine Street".
- Eu tinha vivido em Vine Street. - Beethoven também está lá?
Está.
Randy Newman colocou-a lá por causa desse disco.
Este é o meu Rosebud.
Beethoven é mais importante do que Rosebud.
O seu álbum mais recente, ¡Spangled!, também é um conceito.
Juntou canções pan-americanas famosas com um objetivo.
O que o manteve neste caminho?
Foram as pessoas à minha volta.
Gaby Moreno!
Uma das pessoas à volta de Van Dyke Parks é Gaby Moreno, galardoada pelos Grammys,
uma cantautora da Guatemala.
Ela e Van Dyke compuseram o álbum conceptual ¡Spangled!
O ciclo de canções evoca uma época
em que ainda existia uma troca cultural espirituosa
entre a América Latina e os EUA, sem ódio e sem muros na fronteira.
Esta ideia de ter um conceito
é algo que tentou fazer conscientemente na sua obra
ou veio do trabalho que fez com Van Dyke Parks?
Eu sempre pensei que...
Para mim, é importante pensar num álbum do início ao fim.
Idealmente, queremos que pessoas o ouçam do início ao fim.
Já tinha o conceito de antemão ou surgiu ao compor as peças?
Lembro-me que, no início, havia muitas canções em espanhol.
Ele começou por me mandar "Nube Gris", que acabou por entrar no álbum,
"Historia de un Amor"...
Depois, não me lembro muito bem,
mas acho que me mandou a "Across the Borderline".
É uma música composta por Ry Cooder e John Hiatt, nos anos 80.
Ele mandou-me essa música e fez-se um clique dentro de mim.
Pensei: "Já percebi, é este o conceito."
Decidimos fazer um disco que celebrasse não só as culturas da América Latina,
mas também dos EUA, tentando unir a América do Norte, do Sul e Central.
Estou sempre a dizer isto...
Na Guatemala, ensinam-nos que o continente é a América. Um continente!
Para mim, era importante refletir isso neste álbum,
para celebrarmos a música incrível
que vem de várias zonas da América.
O lendário cantautor Jackson Browne juntou-se às celebrações.
CANTAUTOR
A política foi outra coisa que me chamou a atenção.
E o espírito contestatário de Beethoven...
- Incentivou-o. - Incentivou-me.
BARÍTONO
PIANISTA
O ciclo de canções de Beethoven, "An die ferne Geliebte",
era um conceito maravilhoso que continua a ser copiado
por compositores e produtores da atualidade.
Com a próxima ideia completamente diferente,
Beethoven moldou todo um género musical e cativou milhões de ouvintes.
NÃO HAVERIA BANDAS SONORAS SEM BEETHOVEN?
Em 1808, Ludwig van Beethoven começou a criar imagens
na mente os seus ouvintes.
Deu nomes descritivos aos movimentos da sua "Sinfonia n.º 6",
por exemplo, "despertar de alegria na chegada ao campo".
Começou a descrever imagens com ajuda da orquestra.
Para o passeio no campo, escolheu instrumentos de sopro de madeira,
que costumavam surgir mais em segundo plano.
As novas ideias de Beethoven foram um êxito.
O primeiro movimento evoca associações
com passeios na vida idílica do campo.
Mas esse idílio é perturbado.
"Trovão, Tempestade" é o título do quarto movimento.
Aqui, os metais e a percussão dominam.
A ideia da música programática, música com significado ou conceito,
nasceu com a "Sinfonia n.º 6"
e tornou-se um género importante da música romântica.
Na sua "Symphonie Fantastique" de 1830,
Hector Berlioz escolheu a mesma instrumentação
para o movimento "Scene aux champs",
tal como Beethoven fizera 20 anos antes.
Na monumental "Sinfonia Alpina" de Richard Strauss,
a instrumentação de Beethoven continua a ser o modelo inequívoco
para a música programática de Strauss, em 1915.
Usar sons para criar estados de espírito e associá-los a paisagens
conquistou Hollywood com a introdução de som nos filmes.
As bandas sonoras tornaram-se elaboradamente orquestradas.
Um dos primeiros filmes sonoros, Fantasia de Walt Disney,
usa o primeiro movimento da "Sinfonia n.º 6" de Beethoven
para retratar uma cena idílica da natureza.
LARANJA MECÂNICA STANLEY KUBRICK, REALIZADOR
A música de Beethoven tem sido usada
em inúmeros filmes por todo o mundo.
Compositores que fugiram da Europa, como Erich Wolfgang Korngold,
trouxeram o legado de Beethoven para os filmes,
criando um novo padrão duradouro.
A música ao estilo de Beethoven intensifica os efeitos
de paisagens idílicas e cenas românticas.
- Porque fugiste dessa maneira? - Não sei.
- Aqui, é sossegado, não é? - Sim.
Olhe, Capitão, o mastro! Traz o albatroz.
Quando o inimigo se aproxima, ouvimos o ribombar dos trovões,
as balas de canhão de Korngold ouvem-se ao longe.
Até o melhor compositor de bandas sonoras da atualidade
recorre, de forma inteligente, às fórmulas de Beethoven.
Na saga Star Wars,
as forças do bem, representadas pela Princesa Leia e Luke Skywalker,
são tocadas por instrumentos de sopro de madeira.
O Mal, com a sua marcha imperial, é dominado por instrumentos de metal.
Coincidência?
TANGLEWOOD, MASSACHUSETTS, EUA
Estamos num dos maiores festivais de música do mundo,
o Tanglewood Music Festival, em Lenox, Massachusetts.
Um dos destaques do ano é o espetáculo "Film Night",
em que interpretam a música do lendário John Williams.
O compositor de Tubarão, Indiana Jones, Parque Jurássico,
Harry Potter, Star Wars e muitos outros
influenciou a indústria do cinema nas últimas décadas como mais ninguém.
E foi ganhando muitos Oscars e Grammys.
O típico som de John Williams emociona fãs de todo o mundo.
E emociona-me a mim, sendo eu trompista.
TEMA DE GUERRA DAS ESTRELAS (1977)
Enquanto fã de cinema, não imagino um mundo sem John Williams.
E, hoje, falamos de um mundo sem Beethoven.
- Também é impossível imaginar. - Pois é.
Beethoven foi o primeiro compositor a compor música programática.
Na "Sinfonia n.º 6", deu um título a cada movimento,
para que os ouvintes soubessem o que estavam a ouvir.
Sim, talvez a "Sinfonia n.º 6" seja uma anomalia para ele.
Se calhar, julgava estar a fazer entretenimento.
Numa entrevista, disse
que Beethoven foi um dos maiores organizadores do som.
Sem dúvida!
A ideia de organizar som, com instrumentos, neste caso, em formas
e, no fim, em coisas
que trocam emoções...
É difícil imaginar a vida sem Beethoven.
Eu falei deste nosso encontro
com um amigo meu, médico, que é muito inteligente.
Perguntei-lhe: "O que achas de um mundo sem Beethoven?"
E ele respondeu-me muito rapidamente:
"Como seria a vida sem nunca vermos um arco-íris?"
Como decide qual o instrumento que representará a Princesa Leia?
Ou qual o instrumento que incutirá medo?
Estabeleceu algum método para isso ao longo dos anos?
Há instrumentos que associamos a determinadas coisas.
Recentemente, como deve saber, gravei com a Anne-Sophie Mutter.
Ela queria tocar o tema do Star Wars.
Eu disse-lhe que precisávamos de trompetes e címbalos.
- Trompa! - Não dá para tocar no violino.
Mas foi divertido adaptar o que podia ser tocado.
VIOLINISTA
A música de John Williams não é apenas para filmes.
É tocada em salas de espetáculos por todo o mundo,
incluindo aqui, na Musikverein de Viena,
do qual o próprio Beethoven era membro honorário.
Há uma tradição no teatro e no cinema.
Quando aparece um vilão,
antigamente teríamos um acorde de sétima trémulo.
Culturalmente, existem certas expectativas.
Por exemplo, a trompa está reservada para o herói.
Gostamos disso.
Estas ligações aplicam-se.
São históricas, culturais.
Isso constrói uma estrutura na qual se tem alguma liberdade.
No terceiro movimento da "Sinfonia n.º 7"…
Depois, os trompetes e a trompa fazem...
E depois acontece isto...
- E entra no tema. - Está ali um tubarão...
Está ali um tubarão!
TUBARÃO (1975) STEVEN SPIELBERG, REALIZADOR
- Assustador! - Sim, um tubarão assustador!
Sempre quisemos saber se este foi o precursor do tema do "Tubarão".
Creio que sim. Julgo que Beethoven tinha estado a nadar.
O drama na música de Beethoven
tem sido uma infinita fonte de inspiração para bandas sonoras,
mas a sua influência também é visível no sucesso
de uma invenção aparentemente banal.
Para alguns, é um instrumento de tortura.
Para outros, é uma companhia indispensável para ensaiar e atuar.
O metrónomo, que revela sempre o tempo correto.
NÃO HAVERIA TEMPO PRECISO SEM BEETHOVEN?
Em 1818, Ludwig van Beethoven voltou a causar sensação no mundo da música.
Escreveu um artigo a elogiar a invenção anteriormente desconhecida
do seu amigo Johann Nepomuk Mälzel, o metrónomo.
Desde então, é difícil imaginar a vida na música sem metrónomos.
BERLIM, ALEMANHA
PRODUTOR MUSICAL E BATERISTA
O metrónomo é basicamente uma ferramenta de contagem por cliques
que está incorporada no software de gravação.
Existe uma grelha musical, digamos assim,
existem certas marcas de tempo, um certo andamento.
Se clicar em gravar,
ouço isto, por exemplo.
Lindo.
Além de proporcionar um ritmo muito estável,
esta ferramenta também funciona como referência síncrona.
Muitas músicas pop e rock são gravadas com um instrumento de cada vez.
Por exemplo, a bateria é gravada primeiro.
Uma semana depois, toca o guitarrista
e, depois, noutro estúdio, o cantor canta os versos.
Estas várias faixas são conjugadas mediante esta referência de cliques.
Beethoven publicou marcas de metrónomo para as suas sinfonias
num jornal de música de Leipzig.
Não deixava nada ao acaso.
Antes disso, os compositores usavam marcadores de tempo italianos,
desde o "largo", lento, ao "presto", rápido.
Mas eram marcas aproximadas.
Graças às marcas do metrónomo,
todos os maestros sabem que andamento Beethoven queria nas suas sinfonias.
Paavo, porque acha que era tão importante para Beethoven
promover esta nova ideia, o metrónomo?
É uma evolução.
É como um peixe sair da água e perceber que precisa de pés.
Então, desenvolve pés e começa a andar.
Julgo que tem a ver com isso, provavelmente,
porque, de repente, o controlo passa das mãos do compositor
para a mão de um estranho que não tem nada a ver com a criação.
Foi por isso que nasceu este processo recreativo e interpretativo.
Paavo Järvi é um dos melhores maestros do mundo
e é um grande fã das marcações de metrónomo de Beethoven.
Ele publicou as marcações do metrónomo,
provavelmente porque queria garantir
que as pessoas respeitavam os tempos.
E claro que há muita polémica,
até hoje, em relação a essas marcações do metrónomo.
O principal problema é serem demasiado rápidas.
Muitas delas são mais rápidas do que as interpretações tradicionais
que, sabemos hoje, são mais confortáveis.
De certa forma, julgo que foi por isso que ele as publicou.
É como se ele tivesse previsto
que as coisas abrandariam, tornando-se mais românticas.
Há uma espécie de abrandamento da grandeza.
O efeito Wagner, se quiser.
O metrónomo, que Beethoven tanto valorizava,
possibilita a marcação do mesmo tempo em qualquer momento ou lugar.
Desde 1895, uma empresa alemã produz metrónomos de Mälzel
e vende-os por todo o mundo.
Está sediada na remota vila idílica de Isny.
ISNY, ALEMANHA
Em Allgäu, no sul da Alemanha,
encontramos o fabricante de metrónomos mais famoso do mundo,
os metrónomos Wittner.
Nunca pensei entusiasmar-me tanto com metrónomos, mas vejam este!
Os metrónomos são alta tecnologia.
Antes de um modelo ser vendido, tem de passar um teste de resistência.
Historicamente, no período barroco,
só havia danças que o contador predefinia.
Havia a alemanda, a courante, a sarabanda e por aí fora.
Quando estas danças saíram da moda,
deixou de haver contadores, ou o conceito dos contadores.
Depois, surgiram as marcações italianas como o alegro, o adágio e por aí fora.
Mas o que querem dizer, realmente? Não havia uma definição.
Voltemos ao Beethoven.
A sua interpretação do alegro era diferente da de Salieri, por exemplo.
Significa que havia a necessidade de uma referência de tempo definitiva.
Beethoven escreveu que o seu metrónomo estava estragado.
Como é que um metrónomo se pode estragar?
Lembremo-nos do estado da tecnologia naqueles tempos.
O metrónomo é um aparelho mecânico altamente preciso.
Os mais pequenos desvios. em termos de dimensões,
e estamos a falar de uma discrepância de um ou dois gramas,
darão origem a uma velocidade diferente no metrónomo.
Convenientemente, post factum, podemos dizer
que ele era surdo e que o metrónomo dele estava estragado.
Segundo uma história numa carta escrita por ele,
o metrónomo não estava a funcionar corretamente.
Para mim, é um disparate. Beethoven era surdo, não era estúpido.
A insistência de Beethoven nos tempos exatos estabeleceram critérios.
Com o seu sentido de ritmo,
inspirou um género completamente diferente muito depois do seu tempo.
NÃO HAVERIA JAZZ SEM BEETHOVEN?
BERLIM, ALEMANHA
Ao longo da vida, Beethoven foi-se afastando cada vez mais
do que os ouvintes esperavam ouvir.
Alguns críticos até o consideraram louco.
Síncopes, digressões de piano...
O que soa a uma música jazz de um bar americano dos anos 20
é, na realidade, a última sonata de Beethoven, op. 111,
composta quase cem anos antes.
Parece que vai encurtando as notas
para criar este efeito do jazz.
Sim, acho que ele programa neste impulso natural.
Cada variação ganha mais notas por compasso,
enquanto a métrica em si não muda.
Estaria aborrecido? Teria experimentado tudo o resto?
Beethoven compôs um conjunto de variações nesta sonata para piano.
Variou não só a melodia e as harmonias,
como outros fizeram antes dele, mas variou também o ritmo.
Esta composição continua a ser um desafio para todos os pianistas.
Ao passarmos o tema principal e à medida que se desenvolve,
se acelerarmos o ritmo demasiado cedo,
perdemos todo este caráter natural
que, para mim, Beethoven estava a tentar construir.
É muito original
porque estas passagens decrescentes têm mesmo uma cadência natural.
E ele cria esta cadência, está aí escrita.
Para a acompanhar, temos algumas notas do blues.
É um trabalho verdadeiramente genial.
Em 1822, pode imaginar quão confusos ficaram os críticos de música.
Como soaria se tocasse de forma mais clássica, tal como está escrito?
É possível, sequer, nesta velocidade?
- Torna-se mais tenso, não é? - Sim, e retira a diversão.
O groove.
Durante muito tempo,
esta sonata foi considerada intocável devido ao seu tempo.
Um século depois, músicos de outro continente descobriram
quão divertido poderia ser tocar síncopes numa velocidade mais alta. Jazz!
NOVA IORQUE, EUA
Para descobrir o que o mundo do jazz acha de Ludwig van Beethoven,
estamos no templo do jazz, a House of Jazz, na cidade de Nova Iorque.
E quem melhor para falar disto do que o próprio Wynton Marsalis?
Wynton Marsalis é um dos trompetistas mais famosos do mundo.
Ganhou nove Grammys e é o diretor artístico
da House of Jazz, no Lincoln Center.
Há quem considere Beethoven...
Há uma sonata para piano, a última dele, a n.º 32, op. 111.
Há quem diga... Aliás, foi Stravinsky que o disse.
Que é um pré-eco do boogie-woogie,
por causa do baixo rápido e da síncope.
O que diria, enquanto mestre do jazz?
Creio que seja apenas um ritmo de 16 notas ponteadas.
No boogie-woogie,
a base do ritmo não se altera.
Mesmo na passacaglia e noutras formas, o baixo repete-se.
O desafio de tocar boogie-woogie é manter o...
Durante uma longa duração.
O desafio de transpor o jazz
é manter a mão esquerda num ritmo rigoroso
e tocar as figuras por cima.
Sim, o ritmo de 16 notas ponteadas também está lá.
As pessoas ouvem isso, hoje em dia, e dizem: "Devia ser isto."
É um grande mérito de Beethoven,
que as pessoas continuem a analisar algo que ele fez.
Beethoven fez muito mais do que isso. Estaríamos a minimizá-lo.
Para mim, Beethoven é modernidade.
A pessoa do século XX mais parecida com Beethoven é Louis Armstrong.
Ele transmitia a sensação do que é ser moderno e livre.
O que Beethoven tem em comum com o jazz é a sua liberdade no improviso.
Claro que não temos gravações, mas, segundo relatos de como ele tocava,
passava de uma maneira de tocar bombástica e explosiva
para um método mais suave e melódico. E atravessava as notas.
E isso estaria escrito? Ou ele simplesmente tocava?
Tocava, simplesmente. Ele era pianista. Porque haveria de escrever?
Encontra-se ritmo em toda a música de Beethoven.
Na música de Beethoven, compreende os três num ambiente de dois.
Isso vem da música africana.
É provável que ele tenha ouvido isso na música do Médio Oriente,
a chamada música turca, na altura.
Então, num ritmo de dois tempos...
Ele acrescenta três por cima disso.
Ele faz isso na "Sinfonia n.º 3". Começa com uma síncope.
E de repente...
São meias notas agrupadas aos pares.
Portanto, são três, mas ele agrupa as notas aos pares.
É uma espécie de ultra-síncope.
O que adoro nisso é que ele usa uma síncope
pelo mesmo motivo por que nós usamos a síncope.
Eu indico o ritmo e o corpo cria a expectativa do ritmo.
E eu começo a brincar com o ritmo.
Num quarteto de cordas que eu adoro,
o opus 135 em fá maior, é um movimento em três
e é rápido, vivace.
Os ritmos de Beethoven são um desafio para o Armida Quartet da Alemanha.
- É o máximo. - Vê como falam entre si?
Ele não gostava disso.
Adoro isto!
Qual é a dificuldade de tocar este vivace?
É o tocarem uns contra os outros?
Quando começa, não começa no primeiro, mas sim no terceiro.
Qual é a dificuldade?
Basicamente, é como tocar música contemporânea.
Cada um tem o seu padrão e tem de o seguir.
No entanto, enquanto grupo, temos de sentir um ritmo em comum.
Caso contrário, perder-nos-íamos,
porque contraria a nossa necessidade natural de estrutura.
Mantemos um padrão que contraria o ritmo.
Será que podem desmontar isto lentamente
para eu perceber onde está o três e onde está o um?
Aqui, encontram-se no um, finalmente!
Podem tocar mais depressa, como deve ser?
É como se um futebolista nos enganasse.
Faz-nos crer que vai para um lado e vai.
Ele faz isso com o ritmo.
É incrível como Beethoven moldou o mundo da música.
Quer seja no jazz, nas bandas sonoras ou na música rock,
as suas inovações e ideias estão por todo o lado.
Um mundo sem Beethoven? Inimaginável!
Um mundo sem Beethoven...
Das pessoas com quem falámos, ninguém consegue imaginar.
Não sei. Há muita coisa no mundo.
Penso sempre que, quem quer que seja,
podemos tirar a pessoa do mundo e continua tudo bem.
Há muitas pessoas que nunca ouviram falar de Beethoven.
E as suas vidas não são más.
Legendas: Telma Ribeiro Pereira
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