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Ontem pela manhã,
às 2h41, no quartel-general do general Eisenhower,
o general Jodl, representante do Alto Comando alemão,
assinou o ato de rendição incondicional
de todas as forças alemãs terrestres, marítimas e aéreas na Europa.
As hostilidades terminarão oficialmente
um minuto após a meia-noite de hoje,
terça-feira, dia 8 de maio.
Podemos nos permitir
um breve período de regozijo.
Hoje é o Dia da Vitória na Europa.
Vida longa à causa da liberdade!
Deus salve o rei.
- Pronta? - Margaret, não sei se é uma boa ideia.
Vamos, a guerra acabou. Temos que comemorar.
E se algo der errado?
Porchey e Peter Townsend estarão conosco.
O que pode dar errado?
Vamos fugir do palácio!
Rápido! Pela porta de serviço, antes que nos vejam!
Não podemos fugir assim!
Silêncio. Vamos logo.
Vamos, meninas!
Tapem o nariz!
Por quê?
Fede a álcool!
E a suor!
Tem cheiro de vida!
E agora, Green Park ou Trafalgar Square?
O Ritz. É aonde as pessoas mais elegantes vão.
- E está em Jeeves and Wooster. - Bom plano. Para o Ritz.
- Não deveríamos ficar à vista do palácio? - Por quê? Para acenar aos nossos pais?
Sério, qual é o seu problema? Não pode ser irresponsável só uma vez?
Margaret.
Margaret.
Semana que vem
é dia 8 de maio.
Faz mais de 50 anos,
e nunca fizemos nada para comemorar.
Do que está falando?
Como soberana,
participo das celebrações do Dia da Vitória todo ano.
Não, estou falando
do nosso Dia da Vitória.
Foi uma noite e tanto.
Você se lembra?
É claro que sim.
Quase perdemos você.
E aí,
encontramos você.
A verdadeira você.
Da qual você abriu mão para ser a outra você.
Sim, está bem.
Não sente falta dela? Ela era tão divertida!
Não tenho culpa
Não tenho culpa
E, pelo que me lembro,
juramos manter os eventos daquela noite
em segredo.
Bati.
Muito bem.
Revanche?
Não posso. Vou acordar cedo.
Me esperam em Clapham Junction no começo da manhã.
Para quê?
Algo a ver com…
o sistema de circuito fechado do conselho local.
Não tem nada amanhã?
Não.
Mas…
em breve, Mustique.
No fim de semana.
Ótimo.
Por quê?
Acho que é onde você é mais feliz.
Vamos, cães. Vamos.
Verde de luxúria e doente de timidez
Deixe-me lamber Seus dedos dos pés laqueados
Minha nossa, Alteza Real!
Enfie o dedo
No meu nariz
John Betjeman estava tão louco por mim
que o amigo dele, Maurice Bowra, escreveu um poema nojento a respeito.
Prenda seus dentes no meu vestido
Plante agrião na minha cabeça
Só você pode me fazer feliz
Envolva-me numa fralda de lã
Senhora?
Num…
Num carrinho de bebê
Revestido de pelúcia
Leve-me para passear por St. James, senhora
Deixe que suas…
Senhora?
Deixe que suas...
- Senhora? - Ela está bem?
Galochas lustrosas e macias
Deslizem sobre a minha pele
Me soltem!
A princesa Margaret, Majestade.
- Alô? - Margaret.
O que aconteceu?
Acho que tive um pequeno derrame.
Foi uma surpresa.
Num minuto, estava a todo vapor na casa dos Lawrence,
e no outro, estava em uma ambulância aérea,
incapaz de sentir meus braços e pernas.
Onde você está agora?
No hospital.
Em Barbados.
Certo.
Pobrezinha.
Os médicos
me garantiram
que vou ficar bem.
Quê? Não estou entendendo.
É porque minha boca ainda está dormente.
Se eu arrancasse a minha língua com uma mordida, não sentiria nada.
Você vem para casa?
Sim, amanhã, pelo jeito.
Para mais exames.
E comida comestível.
Se der sorte.
Estou sorrindo
ao dizer isso.
Não que você fosse notar.
Adeus, Lilibet.
Até amanhã.
Fico feliz em dizer que o derrame foi relativamente leve
e que vamos poder tratar a condição eficazmente
com apenas uma aspirina por dia para afinar o sangue,
estatinas para reduzir o colesterol
e atenolol para baixar a pressão.
Certo.
Mas…
só isso não basta, senhora,
para evitar o risco de um segundo derrame, mais sério.
Terá de rever seu estilo de vida.
E…
Fazer algumas mudanças.
Então,
chega de cigarros.
Chega de uísque.
Chega de doces.
Só água de cevada com limão,
chiclete de nicotina
e muitos…
"exercícios de reabilitação".
Não, não estou inválida.
Uma pulga e uma mosca numa chaminé.
Estão presas e não tem medo do seu pé.
Elas voaram…
Ainda estou viva!
Senhora.
Ah, sim.
Mau momento? Bom momento?
Sinceramente,
eu tiro um cochilo e todos acham que bati as botas.
E agora você chega, sem avisar,
com um olhar ansioso.
Só queria ver como você está.
Estou bem.
Obrigada.
Claro que está.
Mas espero que esteja se comportando.
E cancelando compromissos oficiais…
Alguns deles, sim.
Não é necessário cancelar todos.
Você sabe que odeio uma agenda vazia.
Viu?
Aquele olhar de novo!
Eu estou bem, Lilibet.
Melhorando,
reagindo.
Eu ainda
não estou de saída.
- Senhora. - Obrigada.
Anne.
Alteza.
Obrigada.
Pensei, talvez,
em um passeio tranquilo, uma boa sesta
e um jantar no terraço, só nós duas.
O passeio, sim.
Mas depois quero um piquenique na praia
com todo mundo,
coquetéis e jantar no Cotton Club,
seguidos de uma noitada no Basil's.
Só vou ficar aqui por duas semanas.
Pretendo aproveitá-las ao máximo.
Certo.
É você quem manda.
Com certeza
eu mando.
QUENTE - FRIA
Senhora?
Senhora?
Senhora? Está me ouvindo?
Senhora? Socorro!
Obrigado.
Tudo bem.
Sim.
O médico viu na hora que eu tinha tido outro derrame,
mas esse era o menor dos meus problemas.
Porque mesmo depois que ele me estabilizou com um coquetel de drogas,
as solas dos meus pés estavam tão queimadas
que eu não conseguia ficar de pé, muito menos andar.
E por que não voltou antes?
Porque todos os preparativos humilhantes
precisavam ser feitos.
O carro teve de ser especialmente modificado.
Corrimões por toda parte,
como num lar geriátrico.
Não tenho corrimões em lugar nenhum.
Agora que voltei,
os médicos querem usar sanguessugas nos meus pés
como an... como anti…
antico…
anticoagulante.
A voz dela está estranha. O que ela disse?
Acho que foi "anticoagulante".
Eles me deram chinelos de velcro em vez de sapatos.
Foi-se o tempo dos saltos!
Na verdade, foi-se o tempo dos pés.
Por que não tenta exercícios leves?
Pode usar a piscina do palácio.
O exercício também melhora a disposição.
Prefiro morrer a me exercitar.
E,
Como vou morrer logo de qualquer jeito,
pensei em me despedir em grande estilo.
Este ano é meu aniversário de 70 anos,
e decidi que quero comemorar com uma grande festa.
Quê?
No Ritz.
Porque amamos o Ritz. Não é, Lilibet?
Amamos?
Amamos, sim.
Temos lembranças tão especiais.
Não tenho culpa
Não tenho culpa
Perdi alguma coisa?
Veja como estou vestida. Acha que nos deixarão entrar?
É claro. É só dizer quem você é.
É a única coisa que não vou fazer.
Então vai ter de usar seu charme.
Vá.
Boa noite, senhorita. Pode entrar.
- Eu… - Estou brincando, senhor.
- Obrigado. - Entre.
Olha só!
O que fazemos agora?
Acho que aproveitamos.
- Senhorita? - Por favor.
Saúde e plenitude.
Saúde!
- Vou à chapelaria. - Eu a acompanho.
Não precisa.
Olá, senhorita.
- Obrigada. - Obrigada.
- Aqui está. - Obrigada.
- Com licença, senhorita. - Desculpe. Tenha uma boa noite.
Espere. Não suba.
Venha conosco.
É bem mais divertido.
Eu não desceria, se fosse você.
Americanos.
Já ouviu falar do jitterbug?
- Conheço a bomba doodlebug. - É uma dança.
Banida aqui. E por um bom motivo.
- Vem do Harlem. - De onde?
Um gueto. Em Nova York.
Espere.
Eu não conheço você?
Acho que não.
Certo.
Já vou.
- Pode se desculpar por mim? - Sim.
E deseje à aniversariante um feliz aniversário.
Pode deixar.
Vai levar alguém?
Anne. E Porchey estará lá.
- Bom e velho Porchey. - Sim, ele mesmo.
Uma ótima companhia, nunca decepciona.
Está tudo bem?
Desculpe.
É que me preocupo com Margaret o tempo todo.
Ora, não foi sempre assim?
Sim.
Acho que sim.
Perdão, senhora.
Continue.
Margaret!
- Precisa de ajuda? - Estou bem.
- Como se sente, senhora? - Já se recuperou, Alteza?
Ainda fuma, senhora?
Como está se sentindo?
- Queria que estivesse lá. - Sim, eu sei.
Obrigada pela presença de todos esta noite.
Como sabem,
passei muito tempo
deitada em leitos de hospital
ou sentada em cadeiras de rodas,
olhando pela janela para aquele…
pedaço de azul que os prisioneiros chamam de céu.
Mas…
uma coisa que…
me sustentou esse tempo todo…
foram lembranças.
Acontece que tenho
ótimas lembranças de algumas noites no Ritz…
que gostaria de compartilhar com vocês.
Uma, em especial,
me vem à mente,
quando um lado muito diferente
da jovem princesa Elizabeth
foi revelado.
E sei que todos adorariam ouvir a respeito.
Sim, adorariam, Lilibet,
e é por isso que vou contar.
Mas não tem nada a ver com o motivo de estarmos aqui hoje:
homenagear você.
Isso mesmo.
Quando criança, eu sentia pena das crianças que não tinham irmãos.
Desde que nasceu,
Margaret Rose tem sido minha companheira constante.
Como raramente víamos outras crianças, confiávamos uma na outra
e, como cisnes de Juno, éramos inseparáveis.
Dividíamos um quarto.
Usávamos as mesmas roupas, gostávamos das mesmas atividades.
Especialmente…
de cuidar da nossa coleção de cavalos de madeira,
que escovávamos, molhávamos e fazíamos correr.
E sempre que tínhamos problemas,
Margaret culpava o amigo imaginário, o primo Halifax.
É, culpava mesmo.
Não havia nada que o primo Halifax não fizesse.
Soar o alarme antiaéreo para acordar os guardas.
Esconder as ferramentas do jardineiro. Ele era muito travesso.
Nem sempre é fácil,
ao crescer numa família onde alguém tem de usar a coroa,
ser a número dois.
Mas Margaret tem sido minha aliada dia após dia.
E é sobre essa pessoa que eu queria falar hoje.
Não da deslumbrante que vocês já conhecem,
mas da diligente,
da que nunca hesita.
Minha companheira e apoio da vida toda,
sem quem…
bem…
seria inimaginável.
Querida Margaret…
muitas felicidades.
Feliz aniversário, Margaret.
- Feliz aniversário, Margaret. - Feliz aniversário.
Não sei se fico comovida ou irritada.
Por quê?
Eu sempre quis elogiá-la em público.
Bem,
foi, ao mesmo tempo, desnecessário e comovente.
Todos estão sendo tão generosos.
Eu deveria ficar gravemente doente mais vezes.
Escute essa tosse. Não voltou a fumar, voltou?
Não, claro que não.
Foi o…
primo Halifax.
Boa noite, Lilibet.
Boa noite.
Olá.
E…
Adeus.
Pare.
Você vai sair daqui rapidinho.
Não.
Receio que seja grave desta vez.
Eu posso sentir.
Ou melhor, não posso sentir.
Não sinto nada.
Nem vejo nada.
Meu corpo…
está me abandonando, um membro por vez.
Os médicos dizem que não está comendo.
Eu não…
estou com fome.
Eu trouxe isto.
Suas favoritas.
Tortinhas de geleia.
Agora sim!
E…
Uma belíssima…
bengala.
Para quando você se recuperar.
Estamos no ar com um programa especial
e atualizações sobre os eventos terríveis e chocantes
que aconteceram hoje nos EUA.
O dia em que terroristas atacaram o coração
do país mais poderoso do mundo.
Um dia de caos e confusão inimagináveis.
Um dia em que milhares morreram.
As armas dos terroristas, quatro aviões comerciais sequestrados.
Dois colidiram com terrível efeito com o World Trade Center, em NY,
o terceiro no Pentágono, em Washington,
o quarto na Pensilvânia.
Os EUA gastam bilhões todos os anos
em relatórios de inteligência
para evitar ataques como este…
"Um marido de São Francisco
dormia quando a esposa ligou do World Trade Center.
Ela deixou a última mensagem para ele na secretária eletrônica.
Só lhe restava uma coisa a dizer.
'Eu te amo.'
Ela repetiu várias vezes antes de a linha cair.
E depois…
o esquecimento."
Que tristeza.
E que notícias terríveis sobre lorde Carnarvon também.
Porchey?
Por quê? O que aconteceu?
Ele perdeu os sentidos assistindo ao noticiário.
Enfarte.
Pobre Jean.
Pobre de você também.
Ele era um amigo muito especial.
Ele trazia notícias sobre cavalos, que eram as únicas que eu queria ouvir.
E levantava o celular durante os leilões de cavalos
para que eu ouvisse tudo.
Ele era dedicado a você.
E agora todos os mais próximos
a estão abandonando, um a um.
Do que está falando?
Porchey.
Sim.
Mamãe. Em breve.
Sim.
- Eu. - Não se atreva.
É a verdade.
Não estou feliz com isso.
Na verdade, estou furiosa com isso.
Não estou pronta para sair desta festa.
Mas precisamos falar a respeito.
Escrevi um plano bem detalhado para o meu funeral.
Sabe que sou uma ótima organizadora de festas.
E quero sua garantia
de que será exatamente como eu pretendo.
Quero usar meu vestido florido,
não alguma coisa preta horrorosa.
E, por favor, não deixe que ponham batom vermelho em mim.
Para a capela, quero rosas e tulipas,
e quero o final de O Lago dos Cisnes
tocando no órgão enquanto as pessoas chegam.
E mais uma coisa.
Muito importante.
Sim, claro.
Prometa
que estarei morta mesmo
quando fecharem o caixão.
Ah, tenha…
Ah, Mar…
"'Bertie, velho amigo', disse o jovem Eustace.
'Que bom vê-lo aqui.
O único homem em Londres que pode nos apoiar como estamos acostumados.
A propósito, não conhece o velho Cara-de-Cachorro, não é?
Cara-de-Cachorro, este é meu primo Bertie.'"
Isso é bobagem.
Não, é maravilhoso.
Continue.
"'O que faz em Londres?', perguntei.
'Estou dando uma volta.
Viemos só passar o dia.
Visita breve, estritamente não oficial.'"
"Voltamos às 15h10.'"
"Voltamos às 15h10.
E agora, sobre o almoço que você polidamente nos ofereceu,
onde será?
Ritz, Savoy,
Carlton?'"
No Ritz, por favor.
Porque amamos o Ritz, não é?
Sinceramente! Você e o Ritz…
Não!
Você e o Ritz.
Se as pessoas não souberem sobre aquela noite, nunca entenderão.
O quanto fui irresponsável?
O tamanho do sacrifício que você fez.
Quanto da sua verdadeira personalidade
você reprimiu.
Escondeu.
Você fez um estrago
naquela noite.
Era o fim da guerra.
Agora…
descanse.
Você veio.
Estou com amigos lá em cima. Tenho que ir.
Por quê?
Este é o lugar pra se estar.
E por quê?
Porque aqui não há patente nem origem,
só música.
Bem, nesse caso…
Vamos!
Isso!
corda.
E todos comeram um pouco de…
Você não viu Elizabeth, viu?
Não se preocupe. Ela nunca é irresponsável.
Já faz muito tempo. Vou procurá-la.
Vou com você, Porchey.
Esperem por mim.
Vamos, Porchey. Vamos tirá-la daqui.
Não!
Deixem-na.
Vejam como ela está feliz!
Obrigada.
Sua caixinha de surpresas.
Quem diria que sabia dançar o jive?
Devia ter uns 50 homens atrás de você.
- Não exagere. - O quê?
Eu disse para não exagerar.
- É difícil falar. - Bêbada?
Mascando chiclete.
Quando arranjou isso?
Não tenho certeza.
Acho que veio depois de um beijo.
- Lilibet! - Eu não pretendia beijá-lo.
É o que todo mundo estava fazendo, e eu não quis ser rude.
Porchey deve ter visto e ficado zangado.
Puxa vida.
Olhe.
As flores se abriram.
Sim.
O sol está nascendo.
O que esse futuro reserva
para todos nós?
Você não vem?
Podemos tomar café com a mamãe e o papai.
Infelizmente, não.
Mas eu sempre
estarei ao seu lado.
Aconteça o que acontecer.
A PRINCESA MARGARET MORREU PACIFICAMENTE ENQUANTO DORMIA, ÀS 6H30
NO DIA 9 DE FEVEREIRO DE 2002. ELA TINHA 71 ANOS.
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