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Original subtitles

Legendas: Luís Filipe Bernardes

Pioneiro é aquele que se adianta para preparar o caminho de outros.

Emily Dunning, que morava em Nova York na virada do século,

foi uma pioneira

Esta é sua história.

Willie, saia daí, vai se machucar!

Mary! Venha comigo, Mary!

E você vá para casa!

Podem brincar lá em cima em seu quarto.

E não desçam mais sem sua mãe.

Já basta o trabalho que ela tem sem vocês.

Willie!

Oh, por favor, isso era do meu marido.

É bem pesado, senhora.

Mãe!

- Mãe! - Não devia mexer nela.

Vou chamar um médico. É muito perigoso. Fiquem aqui.

Não tem como entrar em contato com o médico?

Não tem ideia de quando ele volta?

Está bem, obrigada.

Ele está fora da cidade. Não conhece outro médico?

Tem o Robbins na Lexington Ave. É meu médico.

Não tem ninguém mais perto?

Pode tentar Yeomans, dobrando a esquina na Segunda Avenida.

Obrigada.

São 40 centavos.

Por favor, posso falar com o médico?

Sou eu.

- Ah... - O que aconteceu?

É minha mãe. Ela caiu e o parto ainda seria prematuro.

- Onde ela está? - Dobrando a esquina.

- Talvez eu devesse... - É melhor nos apressarmos.

Sim, senhora.

Fique recostada. Está tudo bem.

Obrigada. Fico muito agradecida.

Emily, não conseguiu falar com o médico?

Eu sou médica. Diplomada e registrada.

Não seria melhor esperar pra levá-la para um hospital?

A criança não vai esperar por ninguém. Vamos prepará-la.

Pegue um lençol e toalhas.

- E a gente faz o quê? - Armem essa cama aqui.

Terminem seu serviço e não atrapalhem.

Arranje um lampião de querosene.

Ela precisa é de um médico de verdade.

Como você se chama, meu bem?

Emily.

Emily Dunning.

- Seu pai está fora? - Morreu há quatro meses.

Emily.

Não tenha medo.

Tenho conhecimento e experiência. Não tem o que recear.

- Sim, senhora. - Vai dar tudo certo, eu prometo.

O que foi?

Acho que vou...

Também tem trabalho a fazer.

- Tenha força. - Sim, senhora.

Não segure alto demais.

- Terminei lá em cima. - As crianças estão bem?

- Estão dormindo. - Me dá uma mão aí.

Vamos tirar isso daqui. Vai com calma.

É um lindo menininho, Sra. Dunning.

Bem, aqui está.

- Você foi maravilhosa. - Você também foi muito bem.

Fiquei orgulhosa de você.

Devia ter visto sua cara.

Jamais me esquecerei disto.

Olá.

- Chegou cedo. - Nem tanto.

Como vai? Não te vejo há séculos.

Há exatos quatro dias. Você tem um talento único para exagerar.

- Pode pendurar. - Sim, senhora.

Coração um pouco acelerado. Está excitada?

Também estaria se estivesse indo aonde você vai.

Perfeito. Agora inspire e expire.

Sempre quis conhecer a Europa.

Nunca tive um tia rica que me levasse.

- Eu te invejo. - Pois não precisa. Eu não vou.

Como assim não vai? Está tudo decidido.

Sim, mas ninguém me consultou.

Agora inspire e tussa.

Você é uma não-conformista nata.

Sua família só quer te dar uma oportunidade...

Para me casar com o primeiro homem decente.

Existem coisas piores.

Mais uma vez.

Seu pulmão parece uma gaita de fole.

Eu não vou me casar.

Vou ser médica.

Quero ser como você.

Recebo isso como um elogio, mas já falamos muito disso...

Agora é diferente. Inscrevi-me para entrar na Cornell.

Por isso eu quis esse check-up.

Sua mãe sabe?

Ainda não.

Onde vai conseguir o dinheiro?

O seguro do meu pai. Dá para cobrir.

Está falando sério?

Estou, sim.

Você conseguiu. É uma médica.

Não sei se seria médica se tivesse que começar tudo de novo.

Completa-se o curso de medicina e todos os outros conseguem residência.

Mas nós não conseguimos essa experiência...

porque os hospitais municipais não aceitam mulheres.

Para os profissionais de medicina e para o público não passamos de grandes parteiras...

...privilegiadas por poder acrescentar MD ao nome.

- Mas veja o que você conseguiu. - Sim, abri meu consultório.

Enfrentei intolerância, preconceito...

Esqueceu da primeira vez que entrou neste consultório?

Quase saiu correndo quando me viu.

- Ora, eu... - Você não foi nenhuma exceção.

Está vendo esses livros?

Escrevi quatro deles.

Médicos os consultam, professores usam-nos para ensinar...

Sou uma autoridade.

Também sou mulher.

Emily, a Medicina é o universo dos homens.

Dra. Yeomans, eu não acredito nisso.

Não acredito que seja um universo dos homens.

E acho que você também não.

Você me ajuda a entrar para a Cornell?

Ponho aquela universidade abaixo se não a aceitarem.

Ótimo!

Com licença, isso é meu.

Claro, mas com certeza não há de se importar de dividir conosco.

Era uma vez uma médica, Dunning se chamava.

Seu domínio do bisturi impressionava.

Ao seccionar um rim tim-tim por tim-tim,

Mais sua beleza se acentuava.

Muito bom, Barringer.

Quem sabe não seria melhor optar por Letras?

Obrigado, senhor.

Frontal, parietal, temporal, mandibular, maxilar, nasal.

Acrômio, coracoide, cavidade glenoidal.

Sinto contradizer a senhora, mas diz-se processo coracoide.

Processo coracoide.

Sulco bicipital, úmero, fossa coronoide.

Bailey, senhor. Faltou a tuberosidade deltoide.

Tuberosidade deltoide.

- Úmero, fossa coronoide, - Primeiro a fossa radial.

Fossa radial.

Um...

Úmero, cor...

Esse cavalheiro passa as noites no laboratório de anatomia lá em cima.

Quem sabe vocês não marcam um encontro para se conhecerem melhor?

Digamos hoje às 9:00?

Bailey.

É só uma experiência pra ver se o sistema nervoso feminino é sensível demais.

Acho que foi merecido.

Na verdade, subi aqui pra me desculpar por tê-la interrompido e...

pra dizer que você se saiu muito bem lá em baixo.

Que tal sairmos pra patinar amanhã?

Não obrigada, Sr. Barringer. Prefiro ficar com ele.

Não esqueça que é "processo coracoide".

Boa noite.

Boa noite, doutora.

Ben!

Ben!

Harry, vem cá me ajudar.

Ben.

- O que aconteceu? - Não sei.

Você nocauteou ele?

Bom dia.

Eu estou bem. Tire minha pressão.

- Quase 60. - A dosagem foi errada.

É nitrato de amila.

Estava testando a taxa de queda da minha pressão.

- Ficou maluco. - Só queria descobrir.

Vamos embora, a Florence Nightingale cuida dele.

- Obrigado, querida. - Vamos, levanta.

Não, espera.

Escuta, Emily...

O pessoal todo vai passear de trenó. Não quer vir comigo?

Ah, levanta daí!

# Salve, salve, nossa alma mater #

# Salve, salve, Cornell! "

Mustelídeos, ursídeos, procionídeos, canídeos.

Bem, chega de zoologia.

Que maneira ridícula de passar uma tarde de domingo.

O que tem a dizer sobre as aberrações cromáticas segundo Von Hofer?

Ah, nunca vão perguntar isso.

Não quer entrar para Harvard?

Tempo esgotado.

Passem seus testes junto com a folha do questionário para o final da fila.

Ainda bem que meu pai é dono de fábrica.

Como eles sabem todas as perguntas que ninguém consegue responder?

Um desastre, desastre total.

Moleza.

Semana que vem você será Emily Dunning, bacharel em Ciências.

- Não parece. - Parecerei, de beca e chapéu.

- Vai sentir saudades de mim? - Como posso saber se ainda está aí?

Interessante, muito interessante.

Uma coisa que eu sempre quis ter na vida era um batimento cardíaco interessante.

Tentarei agora fazer uma experiência prática.

Farei uma série de perguntas e tentarei deduzir suas respostas...

...a partir da aceleração dos seus batimentos.

Sempre me fascinei por pesquisa científica, doutor.

Você já foi presa?

Já botou fogo em algum orfanato?

Obviamente você é inocente.

Gostaria de ser alguma coisa além de médica?

Não, não se zangue ainda. Sua competividade não me atemoriza.

Mais uma pergunta.

Com licença, Emily, o Professor Brook está te procurando.

- Disse que é importante. - O Professor Brook?

Levei bomba.

Ei, isso funciona. Aumentou doze batimentos!

Me ama, não me ama...

Me ama... não me ama.

- Ela me ama... - Ben!

Espera, entremos no meu consultório particular.

Emily, há milhões de maneiras de se fazer esta pergunta...

Eu só pensei em milhares.

Quer se casar comigo?

- Agora? - Não, aí seria apressar demais.

Afinal, temos que comunicar às nossas famílias,

comprar os anéis e encontrar um padre.

Levaria pelo menos vinte e quatro horas.

Mas ainda temos anos de estudo pela frente.

Você estará em Harvard, eu em Nova York.

Que casamento seria esse?

Ora, Emily, numa família bem organizada um médico já basta.

Não vejo qual é a graça.

O que eu mais quero neste mundo é ser médica.

Tem que entender, você sente a mesma coisa.

Mas eu sou homem.

- O que isso tem a ver? - Ora, Emily...

Quer que eu jogue pro alto todo o trabalho que tive?

Desistir de todas as minhas ambições?

Casar comigo é tão sacrificante assim?

Não é isso, Ben...

Acha que quero passar o dia num consultório...

...para chegar em casa com minha mulher fazendo visitas domiciliares?

Em outras palavras não acha que mulher deve ser médica.

Não, não acho! É duro demais.

Você nunca conseguirá. Jamais vai derrubar as barreiras.

O Professor Brook acabou de me dizer que tirei segundo lugar na turma toda.

Eu conseguirei. Vou te provar, Ben.

Não vai, não.

Porque não estarei aqui.

Não me perdoem por interromper, mas esta dança está tomada, Emily?

Quer dizer, não é sua, é?

Ela está completamente livre.

Emily!

Yodie!

- Ah! - Como foi a viagem?

Um horror! Vamos pegar minhas malas.

A companhia de transporte cuida disso.

- Teremos que esperar um taxi. - É

Toma aqui.

- Como foi o verão em Cleveland? - Ótimo. Mamãe e as crianças adoraram.

Assim ela me escreveu, junto com dez outras páginas...

ensinando-me como proteger minha nova hóspede dos perigos da cidade perversa.

Se ela soubesse o sufoco que serão esses dois anos de residência não se preocuparia.

Emily.

- São duas horas da madrugada. - Os exames finais são semana que vem.

A esta altura deve saber as respostas melhor que seus professores.

O que está fazendo com meu presente de aniversário no pescoço?

Ah, estava auscultando meu próprio coração...

tentando encontrar as válvulas cardíacas.

Bem, há as três mais importantes. Aórtica, mitral...

- E pulmonar. - Isso mesmo.

Isso eu sei. Mas onde elas ficam?

Vamos.

- Aórtica. - Aórtica.

Mitral.

- Pulmonar. - Espera.

Yodie, não está me soando como um coração normal.

Tem razão.

Tenho uma lesão valvular. Chama-se estenose mitral.

Faz um ruído diastólico e termina com um estalo, você ouviu?

- Há quanto tempo tem isso? - Há anos.

Não faça essa cara. Essas coisas acontecem. Posso viver até os cem.

Mas não devia trabalhar tanto.

- Não devia nem estar trabalhando. - Tolice.

Trabalho é a coisa mais importante na minha vida.

Se essa luz não estiver desligada em cinco minutos você vai se ver comigo.

- Agora cama. - Sim, senhora.

- Boa noite. - Boa noite.

Juro por Apolo médico, e por Esculápio,

cumprir a promessa que se segue:

Estimar, tanto quanto a meus pais, aquele que me ensinou esta arte;

Conservarei imaculada minha vida e minha arte.

Universidade de Cornell Emily Dunning. Doutora em Medicina

Bem, com isso quebrei meu recorde com 100%.

Consegui ser recusada por todos os hospitais municipais da cidade de Nova York.

O Hospital Gouverneur lamenta informar...

Você tinha razão. Meu diploma não passa de um quadro na parede.

- Não seja tão trágica. - Não estou sendo trágica!

- Daremos um jeito. - Que sentido faz exames de seleção...

...se não me deixam competir?

Sabia que acertei todas as perguntas?

Bem, quase todas.

- Todas? - Sim!

- Acho que tive uma ideia. - Mas ainda não me dei por vencida.

É só procurar mais contatos e usar pistolões.

"Seu, muito respeitosamente...

Seth Pawling, MD."

Seth Pawling.

Sim, tomei conhecimento hoje.

Não aconselharia uma cirurgia.

- Por que... - Sua consulta das quatro.

Por que não deixar a natureza tomar seu curso?

Podemos perder financeiramente mas é muito melhor para o paciente.

Se fosse você eu esperaria.

De nada.

Desculpe.

Em que posso lhe ajudar?

Sou Emily Dunning. Doutora Emily Dunning.

Entendo.

Desculpe-me por recorrer ao artifício de me fazer passar por uma paciente.

Mas o senhor rejeitou meu pedido de entrevista no hospital.

Sim, de fato.

Para ser sincero, não vi razão para atendê-la.

Entenda que minha rejeição se aplicou exclusivamente ao Hospital Gouverneur.

Fiquei entre os três primeiros colocados durante todo o período de residência.

Acha justo negar-me o direito de pôr em prática tudo que aprendi?

Sinto dizer que sim.

O senhor acha.

Há três mil anos as mulheres se limitam ao papel de parteiras na medicina.

- Já parou para pensar por quê? - Medo de competição.

Pode ser.

Mas há uma série de outras objeções.

Biologia, pura e simplesmente.

Considerações específicas que precisam ser levadas em conta.

A medicina é uma profissão que deve basear-se na ciência.

E as mulheres tendem a confundir emoções com fatos.

Nosso hospital depende de verba pública.

E os pacientes não costumam ser vanguardistas nem progressistas.

- Eles só querem convalescer. - E acha que não convalesceriam.

- Não podemos nos arriscar. - Pagarei com prazer por esta consulta.

Não vou cobrar.

Sei que não é ético que médicos abordem traços pessoais com seus pacientes...

...mas acho-a jovem e bonita demais para seguir uma profissão que...

E eu o acho intolerante e preconceituoso demais para julgar.

Como administrador de hospitais, eu imagino...

a pressão que deve ter sofrido quanto à indicação de uma mulher.

Sim, bastante pressão, bastante.

A Dra. Dunning compreende sua posição.

Há ocasiões em que o mundo precisa avançar com uma certa lentidão.

Pergunto-me se já viu os resultados dos exames de seleção?

Não pessoalmente, não...

Uh, por que pergunta? Sabe que isso é confidencial.

Sei que é confidencial.

Mas pratico medicina há trinta anos nesta cidade.

- E tenho meus contatos, naturalmente. - É?

É claro que já houve outros casos de mulheres serem preteridas antes.

Mas nunca foi caso para gerar tanta comoção.

Geralmente elas ficavam nos últimos lugares.

Em que lugar ficou a Srta. Dunning?

Terceiro.

Terceiro?

Minha nossa!

Entre duzentos e oitenta e seis inscritos.

Muitos rapazes colocados muito abaixo dela já foram admitidos.

Mas isso é muito estranho.

Eu sei.

Só fico pensando na sua situação...

...se os jornais, por exemplo, viessem a saber.

Sim, sim... eu entendo.

Mas... os problemas envolvidos.

Trabalhar com homens...

...noite adentro.

- Acha que a Srta. Dunning... - Doutora Dunning.

Que a Dra. Dunning teria o perfil para isso?

Com certeza.

Ora, ora.

Bem, verei o que posso fazer.

Não agora, veja bem. As posições já foram preenchidas.

- Na primavera então. - Sim, na primavera.

Mas eu tentarei. Enfim, tentarei.

Obrigada.

A propósito,

a Senhorita... Doutora Dunning sabe de sua colocação?

Claro que não.

Mas o senhor sabe... e eu também.

- Obrigado por ter vindo, Dra. Yeomans. - Bom dia, senhor.

Extra! Extra! Caso inédito! Reportagem completa!

Extra! Extra! Hospital Gouverneur recebe médica!

Extra! Extra! Tudo sobre a nova médica!

Aqui estão suas obrigações como novos residentes.

Lembrem também que este hospital se dedica ao tratamento dos mais pobres.

Sei como vocês se esforçaram para vir trabalhar aqui.

Mas posso garantir-lhes que agora trabalharão dez vezes mais.

Exigirá uma rígida noção dos seus deveres...

...e autodisciplina para atender às necessidades.

Entretanto, poderão encontrar algum consolo...

...se atentarem ao significado da palavra "médico".

Não no sentido dos dicionários, mas...

na forma como as pessoas a entendem.

É só.

- Obrigado. - De nada.

Obrigada, doutor.

Dra. Dunning, podia esperar um pouco?

Gostaria que soubesse como sinto sobre tudo isso.

Não sei muito bem como isso foi resolvido...

mas ordens devem ser cumpridas.

Você pode se considerar uma pessoa excepcional.

A primeira residente mulher num hospital de Nova York.

Pode colecionar todas as notícias suas publicadas nos jornais...

...junto com o prontuário dos pacientes.

Mas quero que saiba que está aqui a título de experiência.

Sim, senhor.

Em seu primeiro ano de residência terá que fazer serviço de ambulância.

Vestidos não combinam muito com esse tipo de trabalho.

Salto alto, por exemplo, podem atrapalhar...

...ao descer macas por uma escada de incêndio.

Já encomendei um uniforme. Obrigada, Dr. Pawling.

- Dra. Dunning? - Sim.

Sou a Sra. Lindsay.

O Diretor pediu que a conduzisse ao seu quarto.

Ei, segura aí!

Desculpe, Sra. Lindsay. Emergência. Segundo andar.

Dra. Dunning, esta é Jane Doe, uma das enfermeiras na cirurgia.

- Oh! - Como vai?

Seja bem-vinda ao Gouverneur. Estávamos todos morrendo de curiosidade.

Engraçado, mas não é nada do que eu imaginava.

- Imaginava como? - De óculos, claro, muito formal.

- Até logo... e boa sorte! - Obrigada.

305.

Bem, aqui estamos.

Ficará mais acolhedor com uns quadros e alguns enfeites.

Não vai precisar disso.

Esses homens!

Estará tudo arrumado antes que subam com suas coisas.

Trarei mais cabides para suas blusas.

O banheiro fica no corredor.

- No corredor? - Sim. Mas terá que organizar seus horários.

Os residentes formam fila para usá-lo.

Toda equipe médica dorme neste andar.

Mas não me parece adequado. Onde fica o das enfermeiras?

Dois blocos mais adiante.

Dr. Schneider. Alguns médicos normais também fazem residência aqui.

Deve ficar preparada para alguns... contratempos.

Sim, eu...

Sim, imagino que sim.

O Dr. Graham lhe passará suas tarefas.

O jantar é às 17:00.

Se precisar de mais alguma coisa, é só perguntar.

Obrigada, Sra. Lindsay.

- 183, 184 e 185. - Cabine 7, doutor.

O senhor se dirija ao n. 3...

A senhora no n. 4...

a senhora no n. 5, por ali.

- Sim? - Sou a Dra. Dunning.

Ah, sim. O médico está ocupado. Ele já vem.

Obrigado. Já pode se vestir.

Olá, Emily. Mande isso já para o laboratório.

Quando ela sair, mande-a a uma farmácia. Deixarei uma receita com você.

Mande o próximo aguardar um pouco enquanto falo com a Dra. Dunning.

Vamos entrar no meu consultório?

- Não esperava encontrá-lo aqui. - Mas eu sabia tudo de você, claro.

Sente-se.

Na primeira página de todos os jornais.

Acabou me provando, justamente como disse.

Bigley!

- A receita. - Sim, senhor.

Adorei te ver. Estou meio assustada.

Me conta, o que os outros pensam de mim?

Quer mesmo saber?

Quero, sim.

Um abaixo-assinado.

- Pedindo meu afastamento. - Hm-hmm.

O Pawling nunca aceitou. Ele deixou isso muito claro.

Disse que daria péssima publicidade para o hospital.

Bem, tenho que botá-la pra trabalhar.

A enfermeira chamará os pacientes para você.

Dr. Schneider, esta é a Dra. Dunning.

- Como vai? - Como vai?

Bem, agora é só com você.

Chame três de cada vez.

186, 187 e 188.

Qualquer problema eu estarei logo ali.

Pode atendê-lo na cabine 1, doutora.

Me acompanhe, por favor.

Dra. Dunning, sou um dos residentes.

Dr. Graham, médico supervisor.

Não quer se sentar?

Soube que já conheceu o Dr. Schneider.

Este é o Dr. Wilson, médico assistente.

Os outros residentes, o Dr. Ellison,

Dr. Barclay, Dr. Williams,

e o Dr. Barrington eu acredito que já conhece.

Então, Dra. Dunning, como anda o movimento das sufragistas?

- Não tenho me ocupado muito com isso. - Ah?

Imaginei que participasse ativamente do movimento.

De onde você é, Dra. Dunning?

Deve ficar muito confusa em Nova York.

Eu nasci aqui, Dr. Graham.

O Dr. Graham é dos cafundós de Oklahoma.

Este fígado está me parecendo familiar. É a especialidade da sala de cirurgia?

Cuidado, Williams, vai revirar os estômagos mais delicados.

O café resolve isso. Eles põem clorofórmio nele.

A comida aqui é uma calamidade.

Quem sabe a Dra. Dunning não incentiva seus fãs a fazerem uma campanha?

- Dr. Graham. - Já vou.

Com licença, Dra. Dunning.

A propósito, está escalada para a ambulância amanhã.

Seis da manhã.

Hospital Gouverneur.

Ambulância? Quem está falando?

Qual o endereço?

Alec, East River, píer 14. Um policial estará lá.

- O que é isso? - É pro hospital.

Ah, não. Não encomendamos nada disso.

- Toma, doutora. - Obrigada. Essa é minha banheira.

Peça que ponham no meu quarto. Obrigada.

Sou a Dra. Dunning.

Você vai aqui atrás.

Acidente nas docas. Píer 14.

- A propósito, o nome é Alec. - Como vai?

Vamos! Vamos lá, garoto!

Vamos, garoto! Corre, Jim!

- É uma mulher! - Agora só falta elas votarem.

Ainda bem que não é pra tratar de mim.

- O que aconteceu? - Um homem no rebocador caiu feio.

- Esta é a médica. - Por aqui, doutora.

É melhor correr. Ele está aqui.

Acho que quebrou o braço ou algo parecido

Cuidado.

Consegue mexer os dedos?

Ei, moça, o braço dele está quebrado. Chame um médico!

Ela é médica.

Segure o braço assim.

Sente na cama, por favor.

Ah, que lindo isso.

Não é pra menos. Custou quase o preço de um de verdade.

Nem uma costela quebrada.

Mais sorte que cérebro, como dizia minha mãe.

É, a minha também.

- Como dói. - Claro, foi seu ombro.

- Quebrou? - Não, apenas um deslocamento.

Vamos pô-lo de volta. Fique de pé, por favor.

Quanto você mede? - 1,96, 1,98, por aí.

Deite-se no chão.

Deite-se, por favor.

Pode relaxar. Abaixe a cabeça.

Estender...

rotação interna...

rotação externa...

Estender...

rotação interna...

rotação externa.

- Você está resistindo. - Resistindo?

Abaixe a cabeça! Relaxe!

Estender...

rotação externa...

- ...rotação interna... - Dra. Dunning!

- Uma chamada para você. - Só um momento.

- Externa... - Ai!

Flexione. Que tal?

Ei, macacos me mordam, sumiu!

- Agora é só enfaixar. - Eu cuido disso.

Pode deixar.

- Obrigada. - Inacreditável!

- Poxa, doutora, quanto te devo? - Nada.

O tratamento aqui é gratuito.

Mas queria fazer alguma coisa.

- Que tal um charuto? - Obrigada.

- Obrigado! - Foi um prazer, doutora. Muito obrigado!

Também não exagera.

Poxa, é inacreditável!

Que tal, hein?

Estes dois têm queimadura de segundo grau. Chame o Dr. Schneider.

- Boa noite, doutora. - Boa noite, Bleeker.

- Ah, doutora... - Boa noite, Alec.

Podia lhe falar antes de largar o expediente?

- Claro. - É só um minuto. É lá na ambulância.

Melhor trazer sua maleta.

Tem se saído muito bem, doutora. Tenho observado.

- Se incomoda se lhe der umas dicas? - Não.

- Hoje foi um dia bem tranquilo. - Tranquilo?

Vinte chamadas?

Espera só quando esquentar.

O mais importante de lembrar é a rapidez.

Um minuto pode significar vida ou morte.

Tem que chegar lá rápido.

Vem cá que eu te explico.

Mão esquerda, bolsa, certo?

Bolsa, agarra, um.

Pula, dois; pisa, três...

senta, quatro; gira, cinco...

seis, se segura.

Certo? Agora olha. Farei de novo.

Mão esquerda, bolsa; agarra, um; pula, dois; pisa, três...

senta, quatro; gira, cinco; seis, se segura.

- Acha que consegue? - Sim.

Então vamos lá.

Vai com calma, não se apresse. Tome cuidado.

Está bem.

Agarra, pula, pisa, senta...

Ei... não, assim você se enforca!

- Vamos tentar de novo. - Está bem.

Cuidado.

- Lembrou? - Sim.

Minha anágua pode aparecer?

Claro! Vamos, tente. Toma cuidado.

- Está bem. - Vai com calma.

Agarra, pula, pisa, senta... Nada mau.

Nada mau, nada mau mesmo!

Ignore-os.

Obrigada, Alec. Você é um amor.

Oh...

Só estava procurando uma tesoura.

Para quê?

uh... é minha anágua, ela está meio...

Isto é uma sala de cirurgia, não uma sala de costura.

Acabei de ver o Pawling saindo daqui.

- O que aconteceu? - Nunca fiquei tão envergonhada.

Só queria encurtar um pouco minha anágua.

Ele me tratou como uma idiota.

E esta tesoura só serve para cortar gaze.

- Deixa que eu faço. - Corta só um pouco.

O que ele está fazendo aqui a esta hora da noite?

Da noite? Ele aparece aqui a qualquer hora do dia.

Mas podia ter sido mais educado.

É o jeito do Pawling, ninguém questiona.

Mas ele tem piorado desde que...

Deve ser um cano furado. Vou chamar o zelador.

Não, espera!

- Alguém viu a gente? - Não.

Esses esfregões já resolvem.

Tudo que eu queria era tomar um banho.

Nada como ser limpo.

Desde que o que aconteceu?

Disse que ele estava piorando desde que alguma coisa aconteceu.

- Ah, o Pawling. - É.

Desde o escândalo.

Ele se divorciou.

Divorciou?

Caiu feito uma bomba.

Todo mundo achava que era um casamento perfeito.

E de repente... já era.

- Por quê? - Quem vai saber?

Corriam milhões de boatos.

Engraçado, as pessoas adoram os problemas dos outros.

Vejamos, A-52.

Dá licença.

Quando foi que te deram esse trabalho?

Não são do hospital, são meus.

Não parecem estar muito bem.

Estão com câncer.

- Isso é rádio? - É.

O hospital acabou de receber no mês passado.

Estão pesquisando isso em Paris.

A única certeza que têm por enquanto é que destrói tecido.

Temos dez miligramas.

- Quer ver? - Quero, sim.

É um mineral radioativo.

Os átomos se dividem e emitem raios, alfa, beta e gama.

Não dá para ver a radiação, mas fará este vidro fluorescer.

Veja.

Essa pequena cápsula emite uma energia tão concentrada...

que levaria uns mil anos até se perceber um mínimo de diminuição de sua força.

Chega a ser assustador.

Nem consigo dormir à noite pensando nesse troço.

Lembra quando você tomou o nitrato de amila na faculdade?

Claro.

- Você não mudou nada. - É, acho que não.

Mas pelo menos agora sei que tipo de médico eu quero ser.

Não um clínico geral, e sim um pesquisador.

As possibilidades são avassaladoras.

É só aprender a controlar.

De forma a destruir apenas o tecido doente.

Sim, como o câncer.

Eu... é melhor eu ir trabalhar.

Ben.

Aquele abaixo-assinado pedindo meu afastamento...

...todo mundo assinou?

Não.

Não, nem todos.

Boa noite, Ben.

Boa noite, Emily.

- Oi, Jimmy. - Oi, Dra. Dunning.

- Vão me operar hoje. - Isso mesmo.

O Dr. Pawling me prometeu um par de patins se der certo.

Pois aí não precisarei mais da cadeira de rodas.

- Que bom. - E não vai doer.

Ele disse que vou tomar... éter para ficar "inconsciencioso".

Hm-hmm.

Não vão me deixar levar isso pra lá.

Pode guardar pra mim?

- Claro, Jimmy. - Obrigado.

- Te vejo amanhã. - Está bem.

- Boa noite, Dra. Dunning. - Até logo.

Agora terá que comprar os patins.

É.

- Aqui está a outra, doutor. - Obrigado.

- Qual o seu problema? - Dor de cabeça.

- Logo hoje ganhei plantão de ambulância. - Se não se sente bem não vá.

- Escale a Dra. Dunning. - Mas ela trabalhou o dia inteiro.

E daí? Vem coisa até pior pela frente.

Você eu não sei, mas vou direto pra cama.

- Boa noite, Jane. - Dra. Dunning.

Sim?

Lamento dizer que está escalada para a ambulância esta noite.

Pensei que fosse o Dr. Barclay.

Deve haver algum engano.

- Vou pegar meu uniforme. - Acho isso uma acinte!

- Ei, quem mudou os nomes no quadro? - O quadro se apaga sozinho.

Nada como uma viagem de charrete pra derrubar a resistência, hein, Ben?

Ainda mais com esse tempo.

Não consigo detectar nenhum batimento.

Isso é um fenômeno, a pessoa para de respirar, o coração para...

e ela morre.

Mas não faz nem um minuto ele ainda...

Não podemos tentar?

Compreendo sua ambição de operar milagres, Dra. Dunning,

mas todos nós temos trabalho a fazer.

O que temos aqui?

Encontraram-no lá na Mott Street em estado de coma.

Nenhum ferimento, nenhuma contusão.

Envenenamento.

Hidrato de cloral.

Esse cheiro é inconfundível.

Ouve algum batimento?

Acho que sim.

- Vamos deitá-lo no chão. - Bleeker.

Estou segurando.

Vire-o de bruços.

Manterei sua boca desimpedida.

Um, dois, três... e quatro.

Vamos revezar.

Um, dois, três... e quatro.

Acho que está tentando ajudar.

Pegue uma toalha molhada, Jane. Bleeker, me ajude a virá-lo.

Pega o outro braço.

Pegue café, Jane!

Me dá o café.

Vira ele pra cá. Só um gole.

Outro... mais um.

Temos que levantá-lo e fazê-lo andar. Me ajudem.

Precisamos de mais ajuda.

Vê se chama um dos médicos.

- O Dr. Graham é o único de plantão. - Então vê se encontra o Dr. Barringer.

- Vi-o saindo com o Dr. Pawling. - Esperem que vou chamar alguém.

Muito bem, vamos começar a andar.

E é isso que ela está tentando fazer.

Não sei se vamos conseguir, mas vocês topam ajudar?

- Vamos lá! - Você não, você tem uma festa.

Deixa de bobagem, ainda falta uma hora.

Consegui reforços.

Pensei que nunca fosse chegar.

Leve-o para o corredor onde ele pode andar à vontade.

Bem, lá vamos nós. Hip-ho, hip-ho...

- Obrigada, Bleeker. - Foi um prazer.

Segura com força, Bigley.

Vamos lá, hip-ho, hip-ho...

...hip-ho, hip-ho...

...hip-ho, hip-ho, hip-ho.

Podia pegar um cafezinho na cozinha, por favor?

Vamos voltar.

Hip-ho, hip-ho, hip-ho.

...hip-ho, hip-ho.

Vão me matar se souberem, mas achei que daria uma história fantástica.

Preciso ir. Venha rápido. E lembre-se, você não me conhece.

Muito bem, alto!

- Preciso voltar para a enfermaria. - Tudo bem, obrigada, Jane.

Passa pra mim.

Bem, prazer em conhecê-las.

Muito bem, em marcha de novo.

Hip-hip-hip-hip...

...hip-hip-hip. Direita volver!

Passa pra mim. Vem, Bigley.

Já peguei, já peguei.

Um, dois, três, quatro. Um, dois, três, quatro.

Um... Ah, não! Depois de tudo que já...

Vamos, de pé!

- Dá mais café pra ele. - Ah, não, ele já está nadando em café.

Ele precisa de algum incentivo mais forte.

Espera, tive uma ideia.

Segura ele aí.

Deixe ele aí.

Isso deve dar certo.

Então, que tal dar uma voltinha comigo?

- Vamos lá, querido... - Isso, vamos...

Isso, vamos passear... Muito bem!

- Anda! - Espera, deixa que eu levo.

Muito bem, vamos.

Vamos.

Assim... muito bem!

Dra. Dunning!

Obrigado.

Pode nos dar uma entrevista, doutor? Sabe explicar como isso aconteceu?

Sim, Dra. Dunning. Saberia nos explicar?

Não, não explicarei.

Não explicarei nada a ninguém!

Cansei de ser constantemente chamada a atenção.

Tratada com uma criança no jardim de infância.

Acha que é bom dar três plantões seguidos para homens que querem me ver pelas costas?

Acha bom ser repreendida sempre que tomo minha própria iniciativa?

Cansei disso tudo!

Especialmente com você e sua mania de grandeza!

Saiam!

Leve o paciente para a enfermaria, Bigley.

Nunca pensei que me derrotariam.

- Mas conseguiram. - Do que está falando?

- Vou pedir demissão! - Ah, isso é que não.

Vai dar esse gostinho a eles?

Escuta, Emily...

Tenho acompanhado essa conspiração desde o começo...

e isso me envergonha.

Você tem sido maravilhosa, não só como pessoa mas como médica.

Quanto ao chefão, ele não guarda rancor por mais de cinco minutos.

E não deixe aquelas hienas sequer suspeitarem que pensou em demissão.

Prove pra eles, hm?

Está bem.

Há quanto tempo você não respira um pouco de ar puro?

- Não sei. - Qual o seu próximo domingo de folga?

- Dia 15, eu acho. - Muito bem, eu troco o meu.

Temos um compromisso às 9:15 dessa manhã.

Dra. Dunning, o Dr. Pawling deseja vê-la na Direção.

Está bem.

Não fiz por mal. Só achei que as pessoas...

que alguém deveria saber das coisas maravilhosas que ela tem feito.

Então ligou para o jornal.

Sim, me desculpe.

É só.

- Sente-se, Dra. Dunning. - Não, obrigada.

Foi uma infelicidade o acontecido.

Mesmo com a melhor das intenções, os jornais ficaram sabendo.

Foi um grande desserviço, não só para o hospital como para você.

Obviamente toda essa publicidade poderia ter sido evitada...

se o apreço pelo trabalho tivesse permitido um diagnóstico mais aprofundado.

Só queria assegurar-lhe, Dra. Dunning, que se tenho alguma mania...

não é quanto à função precípua de um hospital.

Só o que importa é que uma vida foi salva.

Acho que não tenho mais nada a dizer...

...exceto que admiro muito o que você fez.

Obrigada, Dr. Pawling.

Agora, Dr. Graham, gostaria de tomar uns vinte minutos do seu tempo.

Que delícia esse sol.

Olha.

Um unicórnio.

Não brincava disso quando era criança?

Claro. É um rinoceronte.

Aquela ali é uma bruxa.

Antes de me decidir pela medicina eu queria ser uma bruxa.

- Você quer ir à festa? - Não fui convidada para nenhuma festa.

Mas todo mundo vai. Domingo que vem, para o Pawling.

Em comemoração ao seu primeiro ano na Direção.

Como será que ele vai reagir?

Por quê?

Ano passado ele ainda estava com a mulher.

Ah.

Como ela era?

Muito elegante, quase sempre de preto...

...perfumada, nenhuma joia.

Não era das roupas que estava falando.

Ela é meio difícil de descrever.

Muito posuda, olhos lindos, mas... nada de verdadeiro.

- Foi ela que o deixou? - Hm-hmm.

Nunca mais ele tocou no seu nome.

Ótimo não ter que ouvir o barulho daquela ambulância na cabeça.

Faz um ano que não faz serviço de ambulância.

Mesmo assim é ótimo.

Mas quanto à festa...

Me concede a primeira dança?

Vai acabar tendo que dançar com todas elas.

Não sei, não.

O que você vai vestir?

Um vestido, por quê?

Quero que esteja linda. Quero vê-la vestida pra matar.

Então é melhor ir armada.

Ponha-o ali.

Vai deixar tudo bambo desse jeito?

Doutor, vai ver se estou na esquina.

Quanta grenadine, Ben? - 200cc.

Bem geladinha.

Boa noite.

Boa noite, Williams.

Pra baixo, por favor.

Eu disse descer.

- O... o freio de arranque encrencou. - Como é que é?

Ele é um bom companheiro, ele é um bom companheiro

Ele é um bom companheiro, ninguém pode negar.

Esta festa está sendo dada em honra...

...do seu primeiro ano como Diretor deste hospital.

Tiramos a sorte para ver quem faria o discurso e eu perdi.

E não farei um.

Só queremos desejar-lhe tudo de melhor daqueles que trabalham para você.

A propósito, o hospital não está fechado. Estamos nos revezando na enfermaria.

Nessa caso, eu não farei um discurso tampouco...

exceto para lhes agradecer.

- O Dr. Barclay toca muito bem, não acha? - Sim, muito bem.

- Eu adoro dançar. - É mesmo?

- Uh, quer dançar? - Ah, sim, obrigada.

- Música melhor que a nossa. - Com esse ponche nem notariam a diferença.

Esse ponche tem efeitos patológicos muito estranhos.

Mas pelo visto não entorpece os sentidos.

Ou seja, só agora você percebeu que a Dra. Dunning é uma mulher.

É. O que abre um vasto leque de possibilidades, hein, Ben?

O problema é que não vai sobrar pra ninguém.

Está na cara que quer agarrar o chefe.

Está em cima dele a noite toda.

- Oi. - Olá, Ben.

- Aceita um ponche, Emily? - Não, obrigada.

- Doutor? - Obrigado.

- Pensei que nunca mais voltaria. - Eu também.

- Aqui está. - Obrigado.

- Me concede esta dança? - Sim.

- Com licença. - Certamente.

- Bela festa. - Sim, senhor.

Me desculpe pela primeira dança, mas não dava para recusar.

Não, claro que não.

É uma surpresa ver as meninas de vestido. Parecem até gente.

Tem lido algum livro bom ultimamente?

Ele nunca admitiria, mas acho que adorou esta festa.

Alec é bem paquerador. Nunca o vi sem seu charuto.

Pawling deve ser um homem muito solitário.

Emily, você está apaixonada pelo Pawling?

Não precisa ficar aflita, não vou quebrar a cara dele.

- Você está sendo ridículo. - Que orquestra maravilhosa, não?

- Dr. Barringer. - Sim?

- Podemos falar um momento? - Me dá licença?

Claro que sim!

Com licença.

Aconteceu alguma coisa?

Não, só fiquei irritada.

Por quê? Estão te dando muito trabalho?

Não. Enfim, a culpa foi minha.

- Aceita um ponche? - Por favor.

Qual foi a graça?

Estava pensado na primeira vez que te conheci.

Sua atitude foi tão ameaçadora e taxativa.

E não mudou.

Ah? Ainda é contra mim?

Hoje mais do que nunca.

Por quê? Que foi que eu fiz?

Devia sempre usar esse tipo de roupa.

Obrigada, mas não é nada prático para arrastar macas por escadas de incêndio.

Você está indo muito bem e sabe disso.

Além disso, tem uma qualidade pela qual todo daria seu braço direito.

- Tenho? - Hm-hmm.

Nada que se aprenda em livros de de medicina. Não se compra.

Você faz as pessoas se sentirem bem.

Acabam se esquecendo de si mesmas, dos seus problemas.

Às vezes esse é o melhor remédio.

Então realmente acha que eu devo ser médica.

Não sei.

Nem sei se quero que seja.

Com licença.

Há dois casos de tifo na enfermaria, Dr. Pawling.

Não conte isso para ninguém ainda.

- Pode deixar. - Com licença.

Quantos novos casos hoje, Ben?

- Parei de contar. - Pena que tifo não se cure na faca.

Queimou o dedo, Ben?

Não, não é nada.

Mais café?

- Visitou os casos novos? - Sim.

Obrigado.

A enfermaria de tifo está lotada.

Os outros hospitais municipais não comportam mais...

...então esvaziamos a sala recreativa para transformá-la em outra UTI.

Pode passar o açúcar?

- Barringer, você fica encarregado. - Sim, senhor.

Dunning o substituirá na cirurgia.

Barclay, você vai para o primeiro andar.

Quem ficará no segundo comigo?

A Secretaria de Saúde vai mandar dois médicos assistentes.

Um ficará com Barrington o outro com você.

Milagre que mandem alguém. Devem ser veterinários.

- Me avise se precisar de alguma coisa. - Sim, senhor.

Meu tio é veterinário.

Pode passar o creme?

Vejo que já vão dar os banhos.

Sim, senhor.

Banho? Pra que tanta limpeza?

É um banho frio para baixar a temperatura.

- Dá pra levar. - Melhor retirar o piano.

Ficou melhor como enfermaria do que sala recreativa.

Ainda bem.

Dr. Pawling, a assistência médica chegou.

Ah, sim.

Dr. Pawling, esta é a Dra. Yeomans.

- Como vai? - Dr. Pawling.

Trabalhará com o Dr. Barringer.

Como vai?

- Dr. Barringer? - Já se conhecem?

Pessoalmente, não, mas já ouvi falar da Dra. Yeomans.

Esta enfermaria foi improvisada mas vai servir muito bem.

Com certeza, doutor.

- Você cuida dos alojamentos. - Sim, já está tudo pronto.

É um prazer tê-la conosco, doutora.

Obrigada.

Dra. Yeomans.

- Já li seus livros. - Eu também.

- Nunca pensei que fosse uma mulher. - M.J. Yeomans.

O "M" é de Marie.

Deve ser uma pessoa e tanto.

Neste eu mudei a medicação.

Sim, senhor.

Yodie!

- O que você está fazendo aqui? - Vim dar uma assistência.

- Ajudar na faxina. - Por que não me contou?

Só soube hoje de manhã.

- Eles te deram isso? - Fui eu que pedi.

- Hoje você dorme na minha cama. Amanhã... - Sabe que não durmo em colchão de molas.

Ademais, ainda vou ficar horas acordada.

- Quer um café? - Adoraria.

Já conheci muitos dos seus colegas.

Acho que está conseguindo, Em. Eles gostam de você.

Já vi que não conheceu o médico supervisor.

O Dr. Graham.

Vou pegar o café. Não demoro.

Com muito açúcar.

- Você não dorme nunca? - Mais do que você, provavelmente.

- Como está indo? - Devagar.

E com algumas dúvidas.

- E o que foi isso? - Queimadura.

- Rádio? - Sim, mas é só superficial.

Melhor maneira de perder um dedo.

Devia ter mais cuidado.

Vai manipular muito disso se sair sua bolsa na Europa.

Já saiu.

Chegou hoje. Fui aceito.

Parabéns.

Começa no início do mês que vem, hm?

Mas posso esperar até maio, quando terminar minha residência aqui.

É uma grande oportunidade.

Posso arranjar para que parta imediatamente.

Não me decidi ainda.

Há dois tipos de pessoas no mundo.

As que seguem seus sonhos e as que não.

Eu não segui.

Sua carreira seria um belo exemplo para qualquer não sonhador.

Minha maior contribuição foi boa parte do meu sistema nervoso.

Ser médico pode ser muito excitante.

Operações, ver os pacientes convalescerem.

Mas eu passo a maior parte do tempo em reuniões.

Falando com os administradores,

explicando coisas para pessoas que não sabem, não entendem.

Prestação de contas, relatórios em triplicata.

Pequenas irritações que acabam derrubando a pessoa.

Me derrubaram por um bom tempo.

Mas de vez em quando ocorrem coisas, coisas excitantes...

que nos levantam de novo.

Como experimentar técnicas novas, testar novos medicamentos.

Ver uma pessoa lutar até o fim,

vê-la evoluir, fortalecer-se.

Especialmente alguém que se respeita e admira.

Como a Dra. Dunning.

Sim.

Deixe dar uma olhada nisso.

- Oi, Ben. - Oi.

- Estou passando um fresquinho, quer? - Sim.

- É bom ver que tratou desse dedo. - Não foi nada.

Tem certeza? Rádio é meio traiçoeiro, não?

Bem, o diretor deste hospital diagnosticou como superficial.

Já vi melhores curativos.

Fiz esse café para a Dra. Yeomans. Sabia que ela estava aqui?

Sou seu assistente. Só que ela pensa que ela é a minha.

Ela é fantástica.

Não seria divertido chamá-la para jantar um dia desses?

Talvez na semana que vem.

Gostaria, mas acho que não estarei aqui.

Por quê?

Tenho andado me promovendo ultimamente.

Finalmente consegui que me aceitassem.

Está em francês.

Sim.

Com imenso prazer, informamos que lhe foi concedida...

a bolsa Chateaubriand em pesquisa...

etc., etc., etc...

para continuar sua residência em parceria com a Universidade de Paris.

Madame Curie está na Universidade de Paris.

Que maravilha. Mas isso significa que não estará aqui.

São mais de 3.000km. Não dá pra ficar indo e vindo.

Uh... remuneração adequada e verba.

Caso o candidato seja casado,

...remuneração extra e alojamentos serão oferecidos.

Uh...

Vueillez recevoir, monsieur, l'expression de nos sentiments les plus distingués.

Depois vem escrito "sinceramente".

Oi.

Quem estava na cirurgia de manhã, você ou Barclay?

Acho que era o Barclay.

Pawling tem sete cirurgias marcadas.

Como ele consegue eu não entendo.

Eu ficaria com medo de tirar as coisas e esquecer de botar de volta.

- Boa noite. - Até amanhã.

Não diria isso pra ninguém, só pra você mas...

...estou começando a gostar dessa garota.

Sempre quis saber como seria trabalhar num hospital.

Deve ser mais confortável em Sing-Sing.

Mesmo assim, é maravilhoso.

Aquele Pawling é um homem e tanto.

Também gostei do Ben Barringer.

Um dia será um grande médico.

Tem açúcar?

Esqueci.

O que foi?

Nada.

Era uma vez uma menina que me contava seus problemas.

Alguma vez já esteve tão confusa que não soube o que fazer?

Claro.

É o Ben?

Pode não parecer, mas também já tive minhas paixões.

Ora, não pode ser tão sério assim.

Não sei o que fazer.

Vem pra cá.

Posso te dizer com precisão. Um velho médico me disse uma vez.

Se surgir algum problema e você não souber o que fazer...

...não faça nada. Espere.

Ficará surpresa como dá certo.

Quando chegar a hora certa você saberá.

Mas pelo amor de Deus, se está segura de que é o homem certo...

não permita que nada a detenha.

Não espere, para tornar-se uma velha solteirona como eu.

Dra. Emily Dunning.

- Então, Bobby? - Nós não ganhamos banhos?

O que é isso? Pensei que gostasse de ser limpo.

O seu já vai sair.

Melhor entregarmos logo os relatórios.

- Qual o paciente com a temperatura ainda alta? - Última cama à direita.

- De resto? - Nenhum caso desde quarta-feira.

Ótimo.

Não é uma nave de igreja.

Ainda não.

Tenho pensado naquela bolsa em Paris.

Aconteceu bem rápido.

Deu algum jeitinho para adiantá-la?

Não está desistindo fácil demais?

Não há maior otário do que aquele que não percebe que está sendo demais.

Tem um pior.

Aquele que dá uma de nobre e sai de cena.

Ben, eu te invejo. Sugiro um brinde.

Paris, Can-Can, Maxim's, Moulin Rouge!

- Bem, boa sorte, Ben. - Adeus, Dr. Pawling.

Mande notícias, Barringer.

- Muita sorte, e escreva. - Adeus.

- Adeus, Emily. - Adeus, Ben.

- Cuide-se, Ben. - Adeus, Dra. Yeomans.

Aqueles instrumentos são apenas niquelados.

Você nos passou a perna. Sua residência só termina em quatro meses.

- Já fez suas malas? - Ah, não, não...

O navio só sai à meia-noite. Toma mais café, Ben.

Estranho, mas só agora começo a sentir que estou partindo.

Como vai meter tudo isso naquela mala, Ben?

Toma as camisas.

- Pega aquele terno. - Tá.

Eu dobro.

Vê se não esqueceu nada nas gavetas.

E isso daqui, Ben?

- Talvez o Dr. Schneider queira. - Sim!

Fico com inveja de vê-lo partindo, Dr. Barringer.

Este lugar está virando um seminário de mulheres.

Quer saber, Graham, tem um psicólogo em Viena chamado Freud.

Ele tem uma explicação interessante sobre o comportamento de gente como você.

Ele diz que resulta de ódio a si próprio.

E no seu caso, Graham, acho até justificável.

Boa noite, Dr. Graham!

Já conheci muitos Grahams, e só agora, de Viena, vem a solução.

Sim?

É a Dra. Yeomans. Ela...

Quando entrei ela já tinha...

Ela não está doente, está?

- Está com tifo? - Não, ela não está doente.

Só está cansada. Eu percebi.

Ela estava ajeitando meu travesseiro...

e de repente seus olhos parece que piscaram.

Ela foi para a cadeira e pegou no sono.

Olha, ela gostou desse desenho que eu fiz.

Quero que a Dra. Dunning veja.

Ela verá mais tarde. Agora não pode.

Fica quietinho.

Posso falar com você um momento?

Só conheci a Dra. Yeomans há pouco tempo.

Mas é como se tivesse perdido uma amiga.

Tudo bem.

Já tínhamos falado do problema há muito tempo.

Aconteceu como ela queria.

Só penso em todos aqueles anos dela como médica.

Tanta capacidade e conhecimento desperdiçados.

Conhecimentos de um médico nunca são desperdiçados, especialmente os dela.

Porque agora você os possui.

E provam como eu fui um tolo...

quanto às mulheres serem médicas.

Você em particular.

E quero me desculpar por ter sido tão bitolado e...

...e intolerante.

Por ser...

Bem, eu achava que que tinha sido tratado com crueldade.

Mergulhei no meu trabalho e me isolei das pessoas.

Você me fez perceber que se não valorizamos as pessoas o trabalho perde seu sentido.

Eu sei...

Eu cometi o mesmo engano.

Ser médica é a coisa mais importante da minha vida.

Mas não é a única coisa.

Eu perdi uma coisa tão importante quanto, só que diferente.

Acho que você o encontrará, Emily.

Não sei.

Boa noite.

Boa noite.

Ah... estava atrás de você.

O taxi está me esperando... Uh...

Não pude me despedir como queria na sala de jantar.

Está levando as passagens?

Sim, estão aqui.

Emily...

Anda, Ben, o taxi está aí. O navio não vai esperar!

Ah, escreve uma carta pra ela!

Vai escrever pra mim, não vai, Ben?

Bem, não sou muito de escrever, mas...

...vou tentar.

Diga adeus à Dra. Yeomans pra mim, está bem?

Sim...

Está levando tudo? Deixou muita coisa?

Trouxe tudo que podia, sobrou pouco...

então eu dei para o Dr. Schneider.

- Ele é legal e... - É, eu gosto dele.

- Não vai estudar demais... - Ah, não, não.

Sabe como é Paris...

Eu te amo, Ben.

Sempre amei.

Eu te amo, Emily.

- Te amo tanto que não posso deixá-la. - Você tem que ir.

É seu trabalho. Estarei aqui quando você voltar.

Seu navio está esperando.

Está bem, querida.

Legendas: Luís Filipe Bernardes

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