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Para de me dar pontapés!
- Quais pontapés? - Debaixo da mesa.
Quando é que o fiz?
- Dede, come. Gennarino! - Não fiz nada.
Para com isso!
- O que foi? Não fiz nada. - Tu és mais velho!
- Para. - Mãe, ele está a dar-me pontapés.
- Não estou a fazer nada! - Não é verdade!
Chega! Eu disse que já chega!
- Gennarino! - Não foi de propósito.
- Então? - Já não tenho fome.
Não saiam daí. Ainda se magoam.
- Enlouqueceste? - Há demasiada confusão nesta casa.
Não aguento mais! O Gennarino e a Dede estão sempre a discutir.
E então arrombas a porta?
És estúpida? Disse-te para não pisares os vidros.
Olha, está a sangrar.
- Que se passa? - Ela pisou vidros.
Vai buscar um penso.
- Onde estão? - Que te parece? Na casa de banho!
Está a doer?
Não te preocupes. Pomos um penso e isso passa.
- Ponho-os aqui? - Não, dá-me um.
Toma.
- Não quero um penso. Dói-me. - Dói-te?
Isto vai passar. Não te preocupes.
Lenù, como estás? Está tudo bem com o Gennarino?
Estou com problemas. Peço-te que venhas buscá-lo.
- Não pode ficar até ao fim do mês? - Não.
Mas eu tenho boas notícias.
- O que é? - Sou Chefe de Tecnologia.
Como assim?
Chefe do centro de processamento da IBM.
Aceitaste a oferta do Michele Solara?
Sim, ele confiou-me o sistema 3.
Então agora trabalhas para ele?
Como na loja na Piazza dei Martiri?
Queres saber quanto ganho? Ganho 425 mil liras por mês.
E tenho operadores de perfuração abaixo de mim.
- O que se passa? - Não esperava isso de ti.
- O que havia eu de fazer? - Recusar.
- Porquê? - Sabemos como são os Solaras.
O Michele já foi meu chefe.
Eu estava melhor com ele do que com o Soccavo.
- Faz como quiseres. - Não gosto do teu tom.
Ganho mais do que o Enzo, que é homem. O que tem de mal?
Nada.
A revolução, os operários, o mundo novo?
- E esses disparates todos? - Para com isso.
Se quiseres conversar a sério, estou aqui para isso.
- Se não, deixa estar. - Posso dizer uma coisa, Lenù?
Usas sempre "a sério" e "realmente" quando falas e escreves.
Ou dizes "de repente".
Quando é que as pessoas falam a sério?
E quando acontece algo de repente?
É tudo mentira. E uma coisa relaciona-se com outra e outra.
Eu já não faço nada a sério. E aprendi a pensar bem nas coisas.
Só os parvos acreditam que algo acontece de repente.
Que bom para ti.
Queres convencer-me de quê, com essas palavras?
Que és tu que usas o Michele, e não o contrário?
- Esquece. - Não, diz-me o que pensas.
Não tenho nada a dizer.
- Fala, ou falo eu. - Diz, estás à vontade.
Criticas-me a mim, mas não à tua irmã?
O que tem a minha irmã?
Não sabes da Elisa?
O que há para saber?
Pergunta à tua mãe, ao teu pai e aos teus irmãos.
Passa bem, Lenù.
Papá, quando é que chegamos?
Dede, para com isso!
- Pietro, vai à volta! - Não posso! Não vês?
Podes, sim. Vai!
- Para onde? Vêm na minha direção! - Deixa-me tentar. Importas-te?
De todo! Assim, eu dou em doido.
Tenta tu.
- Não podes ir em contramão. - Aqui posso.
As meninas estão no carro!
Em Florença, não conduzes assim.
- O que aconteceu? - Nada. Já chegámos.
E então?
Gennarino! Dede!
- Olá, Enzo. - Tudo bem, Lenù?
Como correu?
Aprendeste a nadar ou ainda usas a boia?
- Olá, Enzo. - Olá, Dede.
Enzo, como estás?
- Está tudo bem. - Ótimo.
Deixámos a bagagem no hotel e já nos refrescámos.
- Adeus. - Adeus, Gennarino.
Eles esgotaram-vos, foi?
Eles não paravam de discutir.
A Dede está triste por ele voltar para casa, mas...
Era demasiada tensão. Eu já não dava mais conta do recado.
Não te justifiques. Nós é que temos de agradecer.
Fizeste-nos um grande favor.
Sabes como é a Lila.
Diz-lhe que nos vamos instalar e que lhe ligo.
- Vemo-nos mais logo. - Mais logo?
Vemo-nos pelo bairro.
Mas eu digo-lhe.
Até logo.
Anda, Gennarino.
- Adeus. - Adeus.
Olha o que a avó comprou para ti!
- Recebemos alguns presentes. - Como é que se abre?
- Que lindo! - Que vestido tão lindo!
Gostas?
E esta.
Rasga o papel.
Que lindo!
Outro vestido? Porque não uma boneca, um Pinóquio?
Um Pinóquio? Ela é uma menina.
- Agradece à avó. - Obrigada.
Como assim, "obrigada"? Quero um beijo, um abraço...
Muito obrigado.
Nunca nos deram a honra de dormir na nossa casa.
Somos muitos. Não nos pareceu bem.
Arranjávamos lugar para todos.
Pai, o hotel é melhor para nós. Já deixámos lá a bagagem.
O que posso dizer?
Onde estão o Peppe e o Gianni?
Nunca os vemos. Estão sempre fora, a trabalhar.
- Onde trabalham? - O Marcello arranjou-lhes empregos.
A fazer o quê?
Trazem dinheiro para casa e isso chega.
A Elisa não é como tu. Ela preocupa-se connosco.
Não lhe disseste que eu chegava hoje?
Porque é que ela não está aqui?
Está em casa dela.
- Ela já não vive aqui? - Não.
Disseste-me que estavam juntos, não que já viviam juntos.
Ela e o Marcello têm uma bela casa no bairro novo.
Construíram casas novas lá. Devias ver como são bonitas.
O que cozinhaste?
Nada. Vocês também estão cá.
Parece-me um pouco exagerado.
Não te rales. Sabes que não desperdiçamos nada.
Quero saber da Elisa, mãe.
- O quê? - Há quanto tempo?
Há cerca de dois meses.
- E vocês permitiram? - Tu alguma vez pediste permissão?
Fizeste o que querias. Ela fez o mesmo.
O Pietro não é como o Marcello Solara.
Sim, ele nunca deixaria que a Elisa o tratasse como tratas o Pietro.
Mas deviam ter-me dito, deviam ter-me consultado.
Porquê?
Foste embora e disseste que pensarias em nós.
Foi só conversa.
Fizeste o que quiseste, sem te ralares connosco.
Quero ir vê-la.
Não, acabaste de chegar e ela está a preparar uma surpresa.
Não me interessa. Onde é que ela mora?
Este. Amanhã, vestimos este.
Tem florzinhas.
O que aconteceu?
A minha irmã está noiva do Marcello Solara e vivem juntos.
Vou a casa dela.
E eu? Fico aqui sozinho?
Sabes quem são o Marcello e o Michele Solara? São camorristas.
A minha irmã é noiva de alguém que faz ameaças,
extorque lojistas e concede empréstimos ruinosos.
Os Solaras espancam pessoas.
Talvez até matem ou mandem matar pessoas. O que dizes agora?
Eu vou contigo.
Não, fica com as meninas. Vemo-nos mais logo.
O que são camorristas?
Queres brincar? Vamos jogar um jogo.
Quero apanhar um pouco de ar fresco, Lila.
O que parecia aceitável em Milão ou em Florença,
o uso livre que a mulher faz do seu próprio corpo e desejos,
uma vida fora do casamento,
ali, naquele bairro, parecia-me inconcebível.
E a minha mãe estava contente.
Ela, que ficou furiosa por eu ter casado no registo civil,
e não numa cerimónia religiosa.
Ela, que considerava a Lila uma galdéria por viver com o Enzo,
e a Ada, uma puta, por se ter tornado amante do Stefano.
Ela aceitava que a filha mais nova dormisse com o Marcello Solara.
Uma má pessoa.
A TUA MEMÓRIA VIVERÁ ENTRE NÓS
MERCEARIA CARRACCI
Lenù!
Entra.
Estás a magoar-me.
Espera.
Entra.
Fico contente.
Estás com bom aspeto.
Tu também.
E as meninas? Como estão? Estou ansiosa por vê-las.
Elas cresceram.
A Dede fala como uma mulherzinha e a Elsa tem mau feitio.
Que brincos tão bonitos!
Estás tão elegante.
- Experimenta-os. - A sério?
Também me ficam bem, não ficam?
Eu ofereço-tos.
A sério?
Claro.
Estás bonita.
Pensei que vinhas para ralhar comigo,
para dizer que és contra a minha relação.
E sou completamente contra.
Porque és contra?
- Os Solaras são más pessoas. - O Marcello não é.
Quando estavas grávida da Elsa, a mãe visitou-te
e eu fiquei com a família às costas.
Uma vez, fui ao supermercado dos Solaras.
E o Rino disse-me: "Deixa aqui a lista. Nós entregamos."
O Marcello acenou-me, como que a dizer: "Foi ideia minha."
A partir daí, não imaginas a gentileza dele.
Nunca se comportou de forma vulgar, como um Solara.
Porquê essa cara? Não acreditas?
É tudo tão claro.
Ele vai usar-te, fartar-se do teu corpo e largar-te.
Não é verdade.
Ele ama-me. Se não acreditas, não posso fazer nada.
Desde que sou vista com ele, a minha vida mudou.
Tratam-me como uma rainha, prestam-me atenção.
Claro, estás habituada a isso. Escreveste um livro, és famosa.
Mas eu não, e fiquei deslumbrada.
Por favor, não sejas dura com a mãe e o pai.
Já os conheces. Estão do meu lado, assim como os nossos irmãos.
Então, porque não se casam?
E havemos de nos casar.
Mas o Marcello tem de resolver uns assuntos primeiro.
Mas, assim que estiverem resolvidos, casamo-nos.
Tem cuidado, Elisa.
Não te percas. Se acontecer alguma coisa, liga-me.
- Aonde vais? - As meninas estão em casa.
A mãe não te disse nada? Vêm todos almoçar aqui.
- Todos quem? - Todos.
- Olá. - Elisa!
- Olá. - Olá, Pietro!
Quase não te reconhecia.
- Viste que meninas tão lindas? - Sim. Olá, mãe.
Não pude fazer nada. Arrastaram-me para isto.
Assim que eu perceber o que se passa, explico-te.
Vejam o que trouxemos.
Vou deixá-los aqui. Levem-nos para a cozinha.
É verdade que há muitos presentes?
Sim, arranjaremos alguma coisa.
- Senta-te ao pé de mim. - Não o mates de tédio!
- Não vou comê-lo. - É o que tu fazes.
- Entendemo-nos, eu e o Vittorio. - É verdade.
Está tão linda e gordinha!
Sabias que temos o mesmo nome?
Ela chama-se Elsa, não Elisa.
Vá lá, é a mesma coisa. Vem sentar-te no sofá.
- Elisa, o que posso fazer? - Põe a mesa.
- Com isto que preparaste? - Sim.
Ela é tão linda!
Baixa o volume! És surdo?
Baixa tu o volume. Já estás em pé.
O que estão a dizer?
- Falam no dialeto napolitano. - Certo.
Pensavas que o teu pai tinha mudado?
- Olá, Gigliola! - Olá.
Dá cá isso.
- Olá, senhora. - Como estão?
- Bem, e vocês? - Estamos bem.
Venham para a cozinha.
- Olá. - Ele cresceu tanto!
Como estás, Gigliola?
Ouve, estou bem, tu estás bem, estamos todos bem.
Mas se o meu marido não me mandasse vir,
teria ficado em casa, para que fique claro.
Viemos prestar homenagem a vós, professores.
Aquele é o génio da universidade?
Caramba! O teu marido tem um belo cabelo.
- Prazer. Sou o Pietro - Não se incomode, por favor.
Ninguém aqui se levanta para cumprimentar uma senhora.
Olá, Vittorio.
- Sabes, Pietro... - Maria, vem buscar a bebé!
Dá-lhe a bebé.
- Queres ajuda, Imma? - Obrigada.
- Como se chama ela? - Elsa.
Elsa? Que nome tão bonito!
Lenù, ajuda-me.
Gostas da casa?
Falaste com a tua irmã?
Guardanapos, pratos.
- Queres vir brincar? - Sim. Posso?
Vai. Não transpires muito. Cuidado.
- Que tal estou? - Bem.
- Olá, Gigliola! - Elisa.
Ela é toda modesta. Viram?
- Olá! - Entra, mãe. Estou tão contente!
- Olá, Michele. - Immacolata, já chegou!
- E trouxe comida. Parabéns! - Obrigada.
E obrigada pelo convite. Ficámos muito contentes.
Ainda bem que vieram.
Parabéns! Paz, saúde e sorte! O que desejo para mim.
Obrigada. São muito queridos.
- Olá, Marcello! - Sr. Vittorio, como está?
Elena!
Estás tão bonita! És bonita como a tua irmã.
A minha sogra faz 60 anos hoje.
Quem é ele?
- É o marido da Lenù. - O professor.
Pietro. Muito prazer. Muitos parabéns.
- Professor, está tudo resolvido. - Ótimo.
Está calor aqui, não é?
- Garrafas na cozinha. - Desculpem, tenho de ir.
- Eu ajudo. - Não, é o seu aniversário. Eu faço.
Olá, Michele.
Olá, Lenù.
- Ele magoou-me. - Eu não fiz nada!
Sim, como se eu não soubesse que és um delinquente!
O que estás a comer?
- Costeleta. - Então, vai para ali.
Eu vou abrir.
És tu. Olá. Põe-nas aqui.
- Chegaram as vossas malas. - Trouxeram-nas do hotel?
Não vais ficar num hotel. Temos muitos quartos, dois WC.
Assim fico chateada. Leve-as para o mesmo sítio.
Não faças isso. Espera.
É um grande prazer receber-vos na minha casa.
- É uma grande honra para mim. - O quê?
E pedi autorização ao teu marido primeiro.
Ou não teria tomado a liberdade.
Pietro, não podemos ficar aqui.
O Pietro quer ficar? Então, leva as malas para dentro.
Ela mostra-te onde.
- Com licença. - Com licença.
- Olá. - Olá.
- Miúdo! - Onde está a Dede?
- Estão todos na cozinha. - Vai lá.
- Olá, Lenù. - Olá, Gennarino.
- Olá, Lila. - Olá.
- Olá, Enzo. - Olá, Lila.
- Olá, Lila. - Olá.
Olá, Enzo.
Como estás?
- É o marido da Lenù. - Prazer. Sou a Lila.
- Pietro. Muito prazer. - Olá, Lenù.
Agora que a pequena rainha chegou, podemos sentar-nos?
Os miúdos já comeram e eu tenho fome.
Sim, vamos sentar-nos. Está pronto.
- Falta uma cadeira. - Marcello, onde me sento?
- Eu disse para trazeres as cadeiras. - Sento-me aqui.
Provem isto. Foi a minha mãe que fez.
Não consigo comer mais nada.
Digam-me se está bom.
A mãe nunca o faz para nós. Não é, Lenù?
Vamos provar.
- Não é verdade que nunca o fazes? - Claro que faço!
Silvio! Vai comer a sobremesa para ali! Andor!
Deixa-o estar.
Dá-me o teu prato. Fiz parmigiana.
- Onde arranjaste o vinho? - Gostou dele, Sr. Vitto?
É de um amigo meu de Caserta.
Não acha que devíamos comprar um serviço novo?
Marcello, estes pratos já não estão bons.
- Parabéns! - Parabéns, mãe.
Que vivas até aos cem anos! À mamã!
- Muitos parabéns. - Obrigado.
O Pietro não é de cá. Desconhece os méritos da nossa mãe.
Somos boas pessoas. O meu avô fundou o bar.
O meu pai expandiu-o e fez dele uma pastelaria
reconhecida em toda a Nápoles.
Também graças ao Spagnuolo, o pai da minha mulher.
Mas é à nossa mãe que devemos tudo.
Gente mal intencionada tem espalhado boatos,
mas estamos habituados a trabalhar e a ser pacientes.
E a verdade triunfa sempre.
A verdade é que esta mulher é muito inteligente,
tem um caráter forte, sempre trabalhou e nunca gozou nada.
E fez tudo pelos filhos.
O Michele é um filho de ouro, mas adora falar.
- E quando fala, exagera. - Tudo o que ele disse é verdade.
Ninguém imagina como a minha mãe é generosa.
- E também é linda, não é? - Sim.
Sabes que és linda.
Hoje estamos aqui, primeiro, para receber bem
estes dois professores importantes.
Segundo, para celebrar a minha mãe.
E terceiro, para desejar felicidades à Elisa e ao meu irmão,
e um casamento para breve.
E quarto, se me permitem,
quero brindar a um acordo que receei nunca conseguir,
mas que, em vez disso, corre lindamente.
Lenù, não te ofendas. És inteligente. Chegaste longe.
Apareceste nos jornais.
Conhecemo-nos desde crianças. Temos orgulho em ti.
Mas decerto também concordarás.
Aqui só há uma mulher à altura da minha mãe.
A Lila tem algo vivo na cabeça, que nenhum de nós tem.
Se ela estiver maldisposta, consegue magoar as pessoas.
Mas, se estiver bem-disposta, consegue deslumbrá-las.
Há muito tempo que queria comprar isso.
Sim, comprar, como pérolas ou diamantes.
Vem cá, Lila.
Até há uns meses, não parecia possível.
Mas demos um grande passo em frente.
É a isto que quero brindar.
A Sra. Cerullo gere o centro de processamento de dados,
onde ficava a fábrica de salsichas do Soccavo, lembram-se?
Paz à sua alma.
É algo fascinante e, se me derem a honra,
quero convidá-los a visitá-lo amanhã.
Não é verdade, Lila?
O Michele pensa que faço sabe-se lá o quê, mas não é verdade.
Até eu aprendi, e só concluí o quinto ano.
Ela quer sempre ter razão. Um brinde!
Às coisas bonitas.
Estou muito curioso em visitá-lo.
Posso levar-vos amanhã.
- O Marcello leva-vos. - Claro.
E tu tens de me falar sobre o teu trabalho.
É um conjunto de máquinas...
- Lenù, tenho de te dizer algo. - O quê?
- Já andaste de avião? - A história do avião outra vez!
- Mas ela não sabe. - É fantástico.
Fomos à Alemanha. Acompanhei o Marcello em trabalho.
De início, tive medo porque aquilo sacudiu-me muito.
Mas depois, vi as nuvens brancas, o céu azul, as cores da terra.
E descobri que, acima das nuvens, o tempo está sempre bom.
- Sabes quem vimos em Düsseldorf? - Pois foi!
Não lhe dissemos.
- Não sei. - O Antonio.
Manda-te cumprimentos.
- Ele está bem? - O da Melina?
- Deu-me uma coisa para ti. - Sim, vai buscar.
Quem é o Antonio?
É um empregado nosso.
Um namorado da sua mulher.
Mas que linguarudo!
Os tempos mudaram.
Hoje, as mulheres têm muitos namorados
e gabam-se mais do que nós.
- Quantas namoradas teve? - Eu só amei a minha mulher.
Vá lá, estamos em família.
Conte lá, professor!
- Estamos em família! - É verdade.
Posso dizer-lhe ao ouvido quantas tive?
Diga lá.
Isso é incrível.
O meu irmão já teve Nápoles inteira.
Ele está a brincar!
- Não sabias? - Não.
- Estás contente? - Muito contente.
- Sabias? - Não.
É o livro que a Lenù escreveu, traduzido para alemão.
Veem como ela é famosa? Muito bem!
Passa-me o livro.
Só se percebe "Elena Greco".
Agora tenho-o eu. Também falas alemão?
Não.
Então não sejas chata. Deixa-me ver.
Deixa-a ver.
Parabéns, Lenù.
Por tudo, tu mereces.
O teu livro, o teu marido, as tuas filhas...
Mereces aquilo que tens. Trabalhaste muito,
sem fazer mal, nem seduzir os maridos das outras.
Obrigada.
Desculpem, tenho de ir. Boa tarde.
- Aonde vais? - Silvio!
- O que aconteceu? - Ela só dá problemas.
Gigliola, aonde vais? Ela estraga-me sempre o dia.
Depressa.
Primeiro, comemos o bolo que o teu pai fez.
- Mexe-te. - Ainda há sobremesa.
Comemos o bolo primeiro e depois, vamos.
Senta-te imediatamente!
Gigliola!
Vamos comer a sobremesa. Anda.
Fica ao pé do papá.
Desculpe, professor.
Não faça caso.
Desfruta do teu bolo.
- Querem algo mais? - Não, obrigada.
Vamos pôr o bolo aqui.
- Lila, queres ver? - Não.
Gennarino, anda cá.
Aonde viemos parar?
Como deixaste que trouxessem a nossa bagagem
e nos mudassem para cá?
Como havia de saber quem eram?
Não, Pietro. Tu nunca me dás ouvidos.
Quantas vezes te disse de onde venho?
Se me convida com tanta arrogância, como posso recusar? Vá lá!
Até os teus pais diziam: "Professor, diga que sim!"
Deixaste-te submeter.
Tu só te impões perante pessoas com formação.
Talvez porque as pessoas formadas não te obrigam a ficar em casa delas.
Como posso confiar em ti?
Deixo-te por um instante, e vê só o que fazes.
Vá lá. Saímos mais cedo.
Já nem posso confiar na tua mãe.
O livro saiu na Alemanha há dois anos e eu nem sabia.
Amanhã, telefonas à minha mãe e à editora,
e pedes uma explicação.
De qualquer modo, diverti-me.
A tua mãe é uma pessoa inteligente, amável.
O teu pai é tão afetuoso que quase me deixa constrangido.
A Elisa...
... adora-te.
A Gigliola...
... é um animal enjaulado.
Não.
É muito autêntica.
O Enzo não é muito falador.
O Enzo é assim.
Sim, lembro-me disso em Florença.
Mas tem olhos de boa pessoa.
Ao contrário dos outros.
Os Solaras?
Eles são dois bandidos. Eles têm realmente...
... caras matreiras, malvadas.
São dois criminosos.
E conseguem ser simpáticos.
Incrível!
E depois? Quem mais?
A Lila.
Foi a Lila que me perturbou mais.
Vi que falaste com ela o tempo todo.
Posso dizer o que acho?
Para mim, a Lila é a pior.
É claramente uma rapariga inteligente, fascinante. Não o nego.
Mas é como se...
... a inteligência dela semeasse a discórdia.
É uma inteligência maléfica,
como o encanto dela.
Portanto, não percebo como podes considerá-la tua amiga.
Elena, eu acho que ela te detesta.
Porquê?
Não sei. A forma como ela olha para ti,
como se relaciona contigo.
Não percebo como a vossa relação durou tanto tempo.
Talvez vocês escondam cuidadosamente uma da outra
coisas que possam arruiná-la?
Ou não percebi nada da Lila ou não percebo nada de ti.
Isso é um pouco mais preocupante.
- E depois... - O quê?
Vê-se que a Lila e o Michele foram feitos um para o outro.
Acho que são amantes.
Se ainda não são, tornar-se-ão em breve.
Estás a dizer disparates.
Pensas que sabes tudo, mas não percebes a Lila.
Não voltes a falar assim da minha amiga.
Boa noite.
A Lila tinha causado impressão.
O Pietro tinha percebido como ela era excecional.
Isso assustou-o tanto
que agora sentia necessidade de reprová-la.
Agora também percebes alemão?
Eu percebo tudo antes de ti.
O livro é melhor em alemão do que em italiano.
Prova.
É saboroso.
Rasgaste o presente do Antonio?
Agora vais comer tudo!
O que foi? Nem da versão alemã gostas?
Queres azeite? Uma pitada de sal?
Porque decidiu investir neste ramo?
Sei lá, professor!
Mal alcançamos uma coisa, o meu irmão quer logo fazer outra.
- E tu alinhas? - O que hei de fazer?
Soube que têm negócios na Alemanha.
Na Alemanha ou em Itália, não importa.
O mundo é um só, e é todo igual.
Sou mais comunista que os comunistas,
mais revolucionário que os revolucionários.
Devia recomeçar tudo do zero.
Se isso acontecer, estarei na primeira fila.
Mas o amor é a coisa mais importante.
O que se há de fazer?
Aqui tem, professor. São as coisas que o Michele alugou.
Ouço um zumbido estranho. Ouve-se sempre?
É o som da eletrónica.
Eu não aguento. É por isso que nunca venho aqui.
O que serão todos estes botões?
É inútil explicar...
São coisas complicadas. A Lila e o Enzo é que percebem disso.
Sabe do que gosto, professor?
- De quê? - De caminhar pelo bairro.
Ir visitar a minha mãe e, assim que possível,
voltar para casa, para a Elisa.
Não há nada melhor do que saber que ela me espera.
Que ela cozinhou para mim, que falaremos do nosso dia.
Em suma... Percebe?
- Sra. Cerullo. - Cala-te! Faz lá o que te pedi.
Estão aqui.
O professor queria perceber como funciona esta coisa.
Não é uma coisa, é uma máquina.
Há tantas coisas para explicar aqui.
Cartões magnéticos, cassetes, elaborações.
Olá, Lenù.
O Enzo explicou-nos, uma noite.
Fiquei curioso para vê-la a funcionar.
Sim, mas gostaria de falar com a minha amiga.
Maria, vê se aprendeste algo. Explica os computadores ao professor.
Mostra-me se percebeste.
Se não percebeste, eu trato da Maria. Vem comigo.
Gostas?
Parabéns.
Parabéns a ti, Lenù.
Tens um marido bonito e inteligente.
Fala como se fosse religioso, apesar de não o ser.
Conhece todas as coisas antigas e modernas.
Ontem disse-me muitas coisas sobre Nápoles.
Fiquei envergonhada. Sou napolitana e não as sabia.
O que achaste do Gennarino?
Está crescido, fala mais.
Contou-me coisas de quando foram à praia.
- O que te contou? - Devia contar-me algo em particular?
Não, nada.
Ainda bem que ele se divertiu. E o Enzo?
Trabalhamos muito e mal nos vemos, mas estamos bem.
Já soubeste do Stefano?
Ele perdeu tudo.
Pela sua própria mão.
A Guarda encontrou-o com mercadoria roubada
e prendeu-o.
Ele já saiu, mas tem de ter cuidado.
Ele já não tem nada.
Eu dou-lhe dinheiro, e não o contrário.
Como as coisas mudam!
Se eu tivesse casado com ele, estaria arruinada,
como todos os Carraccis.
Em vez disso, sou a Raffaella Cerullo
e dirijo este centro para o Michele por 425 mil liras mensais.
Como resultado, a minha mãe trata-me como uma rainha,
o meu pai esqueceu tudo, o meu irmão extorque-me dinheiro,
a Pinuccia diz que me adora e os filhos dela até me chamam "tia".
O que acontece quando há dinheiro envolvido!
Ainda ficarei reduzida a diagramas.
Serei um cartão perfurado e nunca mais me encontrarás.
- Como é feia uma mente inquieta! - Não gostas do teu trabalho?
É aborrecido. O oposto do que parecia ao início.
Espero que as máquinas novas cheguem em breve.
Serão muito mais rápidas.
Ou não.
A velocidade mancha tudo.
Como quando as fotos ficam desfocadas.
Foi o Alfonso que usou essa expressão.
Sabes que ele me fala de todas as suas amizades?
Eu sei que ele só fala contigo.
O Alfonso quer ser meu amigo, mas gostava de ser a minha cópia.
Ele gostava de ser uma mulher como eu.
Eu disse-lhe: "És um homem. Não sabes nada de como sou.
Mesmo que me imites, me estudes, não saberás nada."
Sabes o que me confessou?
- Que sempre amou o Michele. - O Michele?
O Michele Solara, sim.
Ele queria que o Michele gostasse dele como de mim.
Eu disse: "Está bem. Vamos ser amigos.
Mas não podes ser uma mulher como eu.
Porque só serias uma mulher segundo a visão dos homens.
Podes copiar-me, fazer um retrato exato de mim,
mas as minhas merdas serão sempre minhas."
Eu gostava de ir ver como ele está.
E tu? Como estás?
Deste os parabéns à Elisa?
Dorme-se bem na casa do Marcello?
Alegra-te que a bruxa faça 60 anos?
Se a minha irmã quer assim, o que hei de fazer?
Vês? Nos contos de fadas, faz-se o que se quer,
e na vida, faz-se o que se pode.
Daí deixares que o Michele te use? Não era preciso.
Eu é que o uso, não o contrário.
- Vai sonhando. - Espera e verás.
O que tenho de ver, Lila?
Não gosto quando és assim. Já não sabes nada de nós. Cala-te.
O que queres dizer? Só te posso criticar se viver cá?
Em Nápoles, Florença... Não fazes nada em lado nenhum.
- Quem disse? - Os factos.
Conheço os meus factos, tu não.
Enfureces-me, e digo coisas sem intenção.
Fizeste bem em sair de Nápoles.
Sabes quem voltou?
Quem?
O Nino.
- Como sabes? - A Marisa contou-me.
Tornou-se efetivo na universidade.
Ele não gostou de Milão?
Casou com uma mulher relacionada com gente do Banco de Nápoles
e têm um filho de um ano.
- Tencionas vê-lo? - Não.
Mas, se o vir, digo-lhe que o Gennaro não é filho dele.
Eu devia ter-lhe dito: "Queres ficar com o Nino outra vez?
Eu sei o que farás.
Deixarás o Enzo, divorciar-te-ás do Stefano e casarás com o Nino.
Somarão as vossas inteligências
e sabe-se lá o que se tornarão, os dois juntos."
Mas eu não disse palavra.
Porque estava tão ansiosa?
Por causa da Lila, da sua altivez.
Bastava eu vê-la para me tornar agressiva.
Tive um pesadelo tão mau!
Não gostei de mim, não gostei nem um pouco de mim.
Disse a mim mesma: "Tens de aceitá-la como é.
E se não conseguires ser meiga e afetuosa, deves aprender a ser.
Assim te deves tornar."
"Tornar" era um verbo que sempre me obcecara.
Mas só me apercebi disso nessa ocasião.
Eu queria tornar-me algo, ainda que nunca soubesse o quê.
Queria, porque temia que a Lila se tornasse alguém
e eu ficasse para trás.
- Mamã, podemos brincar? - Não, estou cansada.
A mãe está cansada. Deixa-a estar.
- Eu brinco contigo, está bem? - Sim.
Eu tornara-me alguém, mas na verdade,
tornara-me alguém na esteira dela.
Eu tinha de recomeçar a tornar-me alguém, mas só para mim.
A tornar-me adulta e para sempre fora de la.
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