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Original subtitles

Terei uma �nica ideia original na cabe�a? Na careca cabe�a?

Talvez se fosse mais feliz o meu cabelo n�o ca�sse.

A vida � curta, tenho de aproveit�-la ao m�ximo.

Hoje � o primeiro dia do resto da minha vida.

Sou uma frase-feita ambulante...

O m�dico vai mesmo ter de me observar a perna,

h� nela um caro�o qualquer.

O dentista voltou a ligar, j� l� devia ter ido.

Se n�o adiasse coisas seria feliz,

INADAPTADO mas passo a vida de cu sentado.

Se o meu cu fosse menor era mais feliz,

n�o tinha de usar fraldas da camisa para fora.

Como se enganasse algu�m...

Devias voltar ao jogging, bucha, correr uns quil�metros por dia.

Correr a s�rio, desta vez. Ou fazer alpinismo.

Tenho de mudar mesmo de vida.

Mas como? Tenho de me apaixonar, de arranjar uma namorada.

Tenho de ler mais, de me cultivar.

E se aprendesse russo? Ou um instrumento?

Podia aprender chin�s.

Seria o guionista que fala chin�s e toca obo�. Ia ser giro.

Devia usar o cabelo curto

e parar de fingir a mim e a todos que tenho montes de cabelo.

� t�o pat�tico...

Devo ser verdadeiro, confiante. N�o � isso que atrai as mulheres?

Os homens n�o t�m de ser bonitos. Hoje-em-dia isso n�o � verdade.

Agora h� quase tanta press�o sobre n�s como sobre elas.

Porque � que sinto ter de pedir desculpas por existir?

Talvez o meu problema seja a qu�mica errada no meu c�rebro,

todos os meus problemas e �nsias

Argumento serem devidos a um desequil�brio qu�mico ou dissocia��o de sinapses.

Tenho de consultar um m�dico...

Mas continuaria a ser feio. Quanto a isso, nada a fazer.

Nas filmagens de "Queres ser John Malkovich", Ver�o de 98

Tentemos hoje resolver os problemas de c�mera, sim?

E reduzir a prepara��o de cenas ao m�nimo indispens�vel,

estas m�scaras s�o quentes.

Quero que d�em toda a aten��o ao assunto,

n�o se dispersem se n�o for absolutamente necess�rio � cena.

N�o digo isto por mim

mas pelas pessoas metidas em 200 kgs de borracha.

Eu c� gosto do meu vestido...

� bom que acatem o conselho!

Assistente de Realiza��o

Prontos para filmar?

Gira um pouco mais a mesa.

Director de Fotografia

Guionista

Est� a aparecer no plano; importa-se de sair do est�dio?

O que fa�o aqui? O que vim eu c� fazer hoje?

Nem sequer sabem quem sou,

vivo neste mundo h� 40 anos e continuo sem perceber seja o que for.

O que fa�o eu c�? Como cheguei onde estou?

Hollywood, Calif�rnia

4 Mil Milh�es e 40 Anos Antes

D�i- me a perna. Ser� cancro? Tenho um caro�o.

Come�o a suar. P�ra de suar.

Tenho de parar. Ela ver� o suor escorrer-me pela testa?

J� viu as minhas entradas, acha que estou careca.

Achamo-lo fant�stico.

Obrigado, � bom de saber...

Todos ador�mos o argumento do "Malkovich".

� t�o original... Quem dera dar com o portal para a sua mente.

Acredite, n�o � divertida.

Bom, fale-me l� mais deste nosso louco projecto.

Achei o livro not�vel.

O Laroche � um personagem?

E Orle�es torna as orqu�deas t�o fascinantes...

As reflex�es dela sobre a Florida, a apanha ilegal delas, os �ndios...

A escrita � t�pica do New Yorker e gostava de me manter fiel a ela.

Gostava que o filme existisse,

em vez de ser artificialmente conduzido pelo enredo.

Adoro!

N�o percebi bem o que quer isso dizer...

Tamb�m n�o sei o que eu pr�prio quis dizer...

S� n�o o quero tornar num t�pico produto de Hollywood,

num filme s� sobre roubos de orqu�deas, ou...

Ou tornar as orqu�deas em papoilas e fazer um filme sobre a droga.

N�o pode haver um filme s� sobre flores?

N�s pens�mos que talvez

a Susan Orle�es e o Laroche se podiam apaixonar, e...

Tudo bem, s� n�o o quero cheio de sexo,

tiroteios, persegui��es...

Ou de personagens,

aprendendo profundas li��es de vida,

ou a gostar uns dos outros

ou ultrapassando obst�culos, tendo �xito no fim!

O livro n�o � desses, a vida n�o � assim...

N�o � mesmo!

Quero defender esta ideia com muito empenho.

Revista New Yorker, Tr�s Anos Antes

"John Laroche � um tipo alto, magro como um cip�,

"de olhos claros, ombros ca�dos e muito bem-parecido,

"apesar de n�o ter nenhum dos dentes da frente.

"Fui � Florida h� dois anos escrever um artigo para o New Yorker,

"ap�s ler uma not�cia sobre a pris�o

"de um branco e de tr�s �ndios seminoles

"apanhados com raras orqu�deas

"roubadas da Fakahatchee Strand, uma reserva estadual.

Estrada Estadual 29, Florida, Dois Anos Antes

"Visto a selec��o natural trabalhar unicamente

'por e para o bem-estar de cada indiv�duo,

"todos os dotes f�sicos e mentais

"tender�o a progredir em direc��o � perfei��o...

Uma Polyrrhiza lindenii...

Uma "fantasma".

Corta-a, Russell.

Bom dia.

Posso perguntar o que t�m nessas fronhas?

� claro, claro que pode.

E estou a perguntar.

Est� bem, ora vejamos...

Temos cinco esp�cies de bromeli�ceas,

uma peperomia, nove variedades de orqu�deas...

A� umas cento e trinta plantas, ao todo.

Que os meus colegas trouxeram do p�ntano.

Sabe ser ilegal retirar plantas ou animais

de terras estaduais?

N�o esquecendo de que estas plantas s�o de esp�cies amea�adas,

da primeira � �ltima.

Pois, � exactamente isso, isto � uma reserva estadual.

� isso mesmo.

E os meus colegas s�o �ndios seminoles; eu tinha dito?

Calculo que conhe�a o processo Estado versus James E. Billie?

Sabe ent�o que apesar do Chefe ter matado uma pantera da Florida,

de que s� h�... - Quantas, quarenta, em todo o mundo?

o Estado perdeu o processo por ser um �ndio e ter esse direito.

Por muito repugnante que n�s, ecologistas brancos,

consideremos o acto dele.

Sem falar das tr�s tentativas goradas de processar seminoles

por roubo de folhas de palmeira...

Que eles usam como tecto das suas cabanas tradicionais.

Usam-nas nas cabanas, certo?

Certo, � exactamente nisso que n�s as usamos.

Pois, mas eu n�o...

N�o os posso deixar ir embora.

Aguentem a� um minuto.

Charles, �s tu?

Almo�aste?

Comi o cocktail de camar�o que vi no frigor�fico.

Era teu? Espero que n�o...

Como n�o me consegui lembrar, comi-o.

O que dizes a escrevermos os nomes nos alimentos que s�o de cada um?

O que � que tens? - S�o as minhas costas...

Vais adorar um plano que me tira de tua casa depressa.

O teu plano � um emprego?

Rufem, tambores!

Vou tornar-me guionista. Como tu!

Acha-lo outro dos meus esquemas para enriquecer depressa,

mas desta vez inscrevi-me num curso de tr�s dias.

Que custa s� 500 d�lares!

Cursos que ensinam a escrever s�o uma treta.

Em teoria, concordo,

mas este � diferente, � bem visto pela ind�stria.

N�o digas "ind�stria".

Desculpa, esqueci...

Charles, este percebe mesmo de gui�es,

vem gente de todo o lado aprender com ele.

E juro que te pago, assim que... - Eu explico-te uma coisa.

Quem disser que tem a resposta vai atrair gente desesperada,

seja em religi�o...

Deixa-me ouvir a tua explica��o deitado.

Desculpa, pe�o desculpa...

Pronto, continua.

Desculpa... Pronto, diz.

N�o existem regras, Donald, e quem disser o contr�rio...

Regras n�o, princ�pios.

Diz o McKee que uma regra

manda fazer uma coisa da maneira "x",

enquanto que princ�pios funcionam desde os prim�rdios do tempo.

O gui�o que estou a escrever � sobre flores.

Nunca ningu�m at� hoje fez um filme sobre flores,

portanto, n�o h� orienta��es pr�-definidas.

E "Flores de Algernon"?

N�o era sobre flores e n�o � um filme.

Desculpa, nunca o vi... V�, continua.

Esses professores s�o perigosos

se a tua meta � fazer uma coisa original,

e um escritor deve ter sempre essa meta.

Escrever � uma viagem ao desconhecido,

n�o construir um dos teus avi�es de modelo.

O McKee teve uma bolsa da Fulbright...

Tiveste uma bolsa da Fulbright?

Diz qualquer coisa! Trouxe-a eu e n�o estou a dizer nada.

F�-la rir, diz coisas com gra�a.

Odeio festas, porque viemos a esta?

Por sermos modernos e procurarmos experi�ncias novas?

Somos mais uns falhados sentados no ch�o...

Credo, Charlie, fala por ti!

Olha, n�s vamos tratar de ti,

viramos-te do avesso e pomos-te como novo de uma vez por todas.

Bom, de que � que precisas?

Ainda bem que aceitaste o gui�o da Orqu�dea.

Faz-te bem sa�res de dentro da tua pr�pria cabe�a,

estabiliza-te pensar em coisas mais elevadas da Natureza.

Ainda n�o acredito que mo tenham dado a mim.

Depois daquele almo�o...

Eu suei como um tarado, s� disse disparates...

Parecia doido!

Estavas s� nervoso por ser bonita.

Como sabes que � bonita?

Ao fim de oito meses j� vou sabendo o que te faz suar.

Mas voltando ao assunto, de que mais precisas?

De um novo guarda-roupa, isso da camisa de flanela

� tudo menos lisonjeador para a tua apar�ncia...

Obrigado por teres sa�do comigo hoje, Am�lia.

Comecemos...

Comecemos...

Como come�ar?

Tenho fome. Devia ir buscar um caf�, caf� ajuda a pensar.

N�o, escrevo qualquer coisa e depois recompenso-me com o caf�.

Um caf� e um muffin.

Bom, tenho de come�ar por estabelecer os temas.

Banana com nozes, s�o os muffins que prefiro.

"A procura de orqu�deas � uma tarefa perigosa.

Rio Orinoco, Venezuela, Cem Anos Antes

"O vitoriano William Arnold afogou-se durante uma expedi��o,

Kinabalu, Born�u

"Osmers desapareceu na �sia sem deixar rasto,

"Augustus Margary resistiu a dores de dentes,

"reumatismo, pleuresia e disenteria.

"S� para acabar assassinado ap�s atravessar a fronteira de Bhamo.

"Laroche adorava orqu�deas,

"mas conclu� que apreciava tanto como a elas

"a dificuldade e a fatalidade de as colher.

Sou horticultor h� 12 anos.

Miami, Florida, Seis Meses Depois

Tinha viveiros pr�prios, mas foram arrasados pelo furac�o.

Dou confer�ncias sobre plantas,

j� fiz a� umas sessenta sobre o seu cultivo.

Sou um escritor publicado tanto em revistas como livros

e tenho larga experi�ncia em orqu�deas

e na sua micropropaga��o assexuada em ambientes ass�pticos.

Trabalho de laborat�rio...

Muito diferente das habituais experi�ncias em estufas.

Devo ser a pessoa mais inteligente que conhe�o.

Obrigado. - De nada.

Sr Laroche? Chamo-me Susan Orle�es.

E escrevo para a New Yorker, uma revista que...

Eu conhe�o a New Yorker.

"A New Yorker? Pois, a New Yorker."

Sim, essa mesmo...

Estou interessada em escrever um artigo sobre este caso...

Dou-lhe j� uma cita��o?

Estou-me nas tintas para aquilo l� dentro;

sei que tenho raz�o e vou at� ao Supremo, se for preciso.

E aquela ju�za que se lixe.

� mesmo publicado assim? - Sem d�vida.

"O filme come�a na estrada estadual 29.

"Uma velha carrinha surge

"e vira subitamente � direita para a Reserva de Fakahatchee Strand.

"O condutor � um magricela sem os dentes da frente.

"� ele o John Laroche.

Preciso de uma pausa.

Adorei o concerto para violino do Sibelius.

Eu tamb�m, � lindo.

O final foi esquisito, mas...

Mas de todo, foi apaixonado, foi exultante!

O solista � espantoso, tem um toque t�o belo, t�o preciso...

� frustrante, quem me dera um dia tocar assim.

Mas tu tocas!

Sou, quando muito, med�ocre.

Eu adoro ouvir-te tocar.

Bom, c� estamos...

Para onde vais agora?

Devia ir para a cama, amanh� tenho imenso para fazer...

Bom, ent�o boa noite...

Por mim, ficava...

Mas aquele gui�o est� a dar-me uma trabalheira.

Est� a sair limitado � hist�ria do Laroche,

e isso n�o chega; queria escrever sobre flores.

Mas n�o arranjo maneira, ando a dormir mal, portanto...

� melhor ir para casa e tentar dormir bem uma noite,

para estar fresco amanh�...

Caso contr�rio, ficava!

� claro... Espero que encontres a solu��o, desejo-o mesmo.

Obrigado. E obrigado por teres sa�do comigo.

N�o, gostei imenso.

No fim-de-semana h� uma exposi��o de orqu�deas em Santa Barbara;

n�o queres vir?

N�o creio poder este fim-de-semana...

Acho que n�o posso, j� tenho outra combina��o...

Claro, tudo bem... V�, boa noite.

Porque n�o entrei? Sou t�o cobarde, t�o idiota...

Devia t�-la beijado mas estraguei tudo.

E se lhe batesse agora � porta e a beijasse?

Era um gesto rom�ntico que depois pod�amos contar aos nossos filhos.

� o que vou fazer, e j�.

Florida, Tr�s Anos Antes

Obrigado por me vir buscar.

Aviso-te desde j� que esta carrinha � uma merda,

assim que ganhar a lotaria compro um carro a s�rio.

Que carro � o teu?

� alugado... Um Lumina.

Porreiro, acho que compro um desses tamb�m.

Embora!

Onde aprender� a guiar esta gente?

O mundo est� doido...

Fiquei admirada ao saber o conceituado que �

no mundo da horticultura.

O que tens de saber

� que toda a minha vida � uma procura pela planta rent�vel.

Que � a "fantasma".

Porqu� essa orqu�dea?

Tem cheiro esquisito

Porque � rara!

E sou o �nico no mundo que sabe como a cultivar.

A ideia era fazer os �ndios colher uma do p�ntano;

informei-me, e desde que eu n�o lhe toque, a Florida n�o nos toca.

E impe�o mais colheitas ilegais

pondo as orqu�deas � venda em lojas de flores.

Sou um her�i, a flor � salva,

ganham o Laroche e a Natureza!

Mania das grandezas

Assentou tudo?

Claro que sim.

"As orqu�deas s�o a flor mais sexy que existe.

"A palavra orqu�dea vem do latim orchis,

"significando test�culo.

Impingi o meu gui�o � m�e.

N�o digas "impingi". - Desculpa.

Diz que � parte "Sil�ncio dos Inocentes", parte "Psico".

Voc�s deviam juntar-se, ela � fant�stica em estrutura...

A Am�lia j� n�o aparece?

Atiraste-te a ela, foi?

Procuro o John Laroche.

Escrevo um artigo sobre ele e passei a ver se ele estaria.

O John n�o est�.

Voc� � um dos que foi ao p�ntano com ele?

Sei porque o vi no julgamento.

Chamo-me Matthew Osceola.

Susan Orle�es, muito prazer... Pod�amos conversar um minuto?

Tento apreender o ambiente da...

Tem um cabelo lindo.

Obrigado, muito obrigado...

Obrigado, ainda hoje o...

Ainda esta manh� o lavei.

E usei um amaciador novo.

Vejo a sua tristeza...

Ela � linda.

Estou s� cansada, o meu problema � esse.

Ent�o, que tal se convers�ssemos e me desse mais dados para...

N�o falo mais consigo. Nada de pessoal, percebe?

N�s �ndios somos assim.

Uma Angraecum sesquipedale.

Deus, que beleza!

Darwin escreveu sobre ela.

Charles Darwin, sabe? O da teoria da evolu��o...?

V� o gineceu aqui em baixo?

Pois Darwin p�s a hip�tese de haver um mosquito

tendo uma tromba de 40 cm com que a polinizar.

Toda a gente o achou doido at� que claro,

se encontrou um com uma prob�scide de 40 cm.

Prob�scide significa tromba... - Bem sei o que significa.

Mas n�o fujamos ao assunto, isto n�o � nenhum concurso.

O que interessa e � t�o incr�vel

� cada uma destas flores

ter uma rela��o especial com o insecto que a fecunda.

H� uma certa orqu�dea parecida com um certo insecto,

portanto ele � atra�do a ela, ao seu duplo, � alma g�mea.

E a �nica coisa que quer � fazer amor com ela.

E depois levanta voo, v� outra alma g�mea e faz amor com ela,

fecundando-a tamb�m.

E nem a flor nem o insecto

jamais compreender�o o significado dessa rela��o.

Como v�o saber que, por causa da sua dan�a, o mundo vive?

Mas vive: Fazendo apenas para o que foram criados

uma coisa imensa e maravilhosa acontece.

Nesse ponto ensinam-nos a viver,

ensinam-nos que o cora��o � o nosso �nico bar�metro.

E que mal virmos a flor nada nos deve impedir de ir at� ela.

Ele � c� um personagem...

N�o ter dentes na frente n�o o incomoda.

� quase sociopatia obrigar toda a gente a ver isso.

Pois, mas faz c� um broche...

Mas � um homem fascinante.

Soa-me a mina de ouro, Sue.

� poss�vel que seja, mas n�o sei...

Mora com o pai, vive obcecado pela m�e, que morreu,

usa os �culos de sol pendurados numa fita ao pesco�o...

Conta-lhes da carrinha.

N�o posso agora, vou fazer chichi.

N�o, fica, queremos saber!

� incr�vel, ele...

Fizeram-se na carrinha?

N�o lhes contes nada!

Bom, a carrinha... - David!

A carrinha estava repleta de lixo.

Cala-te!

De terra de cultivo, p�s, papel de embrulho, fertilizante...

A Susan espera que fosse fertilizante...

Mas n�o teve a certeza devido ao aroma que o acompanha.

Acha que talvez a obsess�o dele

n�o lhe deixe tempo para tratar da higiene pessoal.

Talvez reserve a �gua toda para as orqu�deas...

"Queria desejar tanto uma coisa

"quanto pessoas desejam aquelas flores.

"Mas n�o sou feita assim.

"Uma paix�o desavergonhada eu tenho, por�m...

"Saber qual a sensa��o de gostar apaixonadamente de uma coisa.

"Se algu�m tem a sorte de ver uma orqu�dea "fantasma",

"tudo o resto deixa de ser importante.

"Se a orqu�dea fosse mesmo um fantasma,

"seria um t�o enfeiti�ante que seduz as pessoas a procur�-la,

"ano ap�s ano, milha ap�s dur�ssima milha?

"Se a flor existia mesmo, ent�o eu queria v�-la.

"N�o por ser doida por orqu�deas. Nem gosto especialmente delas.

"Mas queria ver aquela coisa

"que atra�a as pessoas de uma forma t�o singular e poderosa.

Mas quantas tartarugas acabou tendo?

Depois disso perdi o interesse.

Larguei-as e desatei a coleccionar f�sseis da Era Glaciar.

Eram a �nica coisa que faziam sentido neste mundo de loucos.

Depois troquei-os por dar banhos de prata a espelhos;

a minha m�e e eu t�nhamos

a maior colec��o de espelhos holandeses do S�c. XIX do mundo!

N�o leu sobre n�s na Mundo do Espelho de Outubro de 88?

Tenho a revista aqui algures...

Adorava saber como se pode desligar de coisas

nas quais tinha investido tanto de si.

N�o mais teve saudades das tartarugas?

A �nica coisa que dava significado � sua vida aos dez anos?

Deixa que te conte uma hist�ria.

Uma vez apaixonei-me perdidamente por peixes tropicais.

Tinha sessenta aqu�rios pela casa,

mergulhava de prop�sito para encontrar os perfeitos.

Anisotremus virginicus, Holacanthus ciliaris,

Chaetodon capistratus, os que queiras.

At� que um dia pensei, "Que se lixe."

"Vou deixar-me de peixes, nunca mais ponho um p� no mar."

Foi radical assim, sim.

Foi h� dezassete anos

e nunca mais meti um dedo do p� no mar.

E se adoro o mar!

Mas porqu�?

Fartei-me de peixes.

"Se gostamos realmente de uma coisa, r�stias dela n�o perdurar�o?

"Com o Laroche isso n�o sucedia. Passava simplesmente para outra.

"Quem me dera �s vezes ser capaz de fazer o mesmo.

Boa tarde, ent�o o que vai ser hoje?

A tarte de lim�o com merengue. Mas uma fatia pequena.

E um caf� tamb�m. Com leite desnatado.

Orqu�deas? Adoro orqu�deas!

Bom, j� lhe trago a sua tarte.

Estou t�o excitada, sempre quis ver uma exposi��o de orqu�deas,

acho-as uma flor t�o sexy...

Vemos o que h� ali atr�s?

Queres ouvir a minha ideia? - Desaparece, bolas!

S� tento fazer alguma coisa...

Muito obrigado, amig�o.

Bom, h� um assassino em s�rie.

Espera. Um pol�cia anda-lhe � perna e ele provoca-o,

dando-lhe pistas sobre quem ser� a v�tima seguinte.

E j� tem um ref�m na cave.

O pol�cia fica t�o obcecado por descobrir a identidade dela

que acaba por se apaixonar, apesar de nunca a ter visto;

ela torna-se o objecto inating�vel, uma esp�cie de Santo Graal.

N�o ser� um pouco �bvio?

Espera pelo factor principal: A seguir descobrimos

que o assassino sofre de personalidade m�ltipla.

Ele � o pol�cia e tamb�m a v�tima.

S�o os tr�s o mesmo! N�o � t�o marado?

Ideia mais estafada do que a de um assassino em s�rie

s� a de personalidades m�ltiplas.

Como se n�o chegasse, exploras a no��o

de que pol�cia e criminoso s�o duas facetas da mesma pessoa

e n�o h� filme sobre pol�cias que n�o explore esse tema.

A m�e chama-lhe provoca��o psicol�gica.

Al�m do mais, j� pensaste n�o haver maneira de filmar o gui�o?

Como consegues ter algu�m preso numa cave

e trabalhando numa esquadra ao mesmo tempo?

Com efeitos especiais...

N�o me referia a isso; presta aten��o.

O que pergunto � como, na realidade do filme,

onde existe s� um personagem, certo?

Como � que tu...?

Como ias conseguir...?

A m�e tem raz�o, � provocat�rio, um misto de "Sybil" com...

Sei l�, "Vestida Para Matar".

Porreiro, adorei "Vestida Para Matar". At� ao denuem�nt.

A palavra n�o se pronuncia assim.

Claro, desculpa...

Tarte de lim�o, outra vez?

Acho bem, pode ser.

Trago-lhe uma fatia maior. Cliente especial...

� simp�tico da sua parte.

�, n�o sou simp�tica? Ainda a ler sobre orqu�deas?

Continuo...

Uma amiga minha tem uma cor-de-rosa que cresce num ramo.

N�o me lembro... - Chama-se um ep�fito.

Isso mesmo!

Percebe mesmo disso.

N�o, estou s� a aprender...

Ep�fitos medram em troncos mas n�o s�o parasitas;

obt�m a sua alimenta��o do ar e da chuva.

Caramba, e diz voc� que n�o sabe...

H� mais de tr�s mil variedades de orqu�deas no mundo.

� muita variedade, n�o �?

Bom, volto j� com uma fatia super-grande para o meu perito.

Tamb�m me lembrei...

S�bado vou a Santa Barbara a uma exposi��o de orqu�deas, e...

Desculpe.

Volto j� com a sua tarte...

"H� mais de tr�s mil esp�cies conhecidas de orqu�deas.

"Uma parece-se com uma tartaruga.

"Outra, com um macaco.

"Outra, com uma cebola.

Uma parece uma professora.

Outra, com uma ginasta.

Outra com a mi�da no liceu que tinha uma pele luzidia.

Outra com uma intelectual nova-iorquina

com quem se faz as palavras- - cruzadas na cama.

Outra com uma miss do pa�s profundo.

Outra, com a Am�lia.

Outra tem olhos que dan�am,

outra um olhar contendo toda a tristeza do mundo.

Portanto casei-me e eu e a minha lind�ssima mulher

- agora ex-mulher, a cabra - abrimos um viveiro,

gente come�ou a vir de todo o lado para me fazer perguntas,

para admirar as minhas plantas e a mim...

Algumas delas passavam tempo comigo por se sentirem s�s.

E sabe porque � que gosto de plantas?

Por serem t�o mut�veis.

A adapta��o � um processo complicado.

Ensina-nos a ter sucesso e a prosperar neste mundo.

Para plantas � mais f�cil...

Elas n�o t�m mem�ria.

Limitam-se a passar ao que vem a seguir; j� para uma pessoa...

A adapta��o � quase vergonhosa, um pouco como fugir.

Ouve.

N�o te atires aos t�cnicos...

Falas da tipa da maquilhagem? Ela � que se atirou a mim.

N�o me envergonhes, sim? Tenho de trabalhar com eles.

Prometo...

Mas agora ouve,

preciso de uma maneira baril de matar uma pessoa.

Nada disso! Para o meu gui�o.

N�o � o meu g�nero.

V� l�, por favor? O g�nio aqui �s tu.

Est� bem: O assassino � professor de literatura

e vai cortando peda�os �s v�timas at� elas morrerem.

Chama-se a si pr�prio "Desconstrucionista".

Baril, gosto.

Estava a brincar, Donald...

Ah pois, desculpa.

Ca� direitinho.

Mas posso usar a ideia?

Est� fant�stico!

Eu tentei dividir a cena da Cassie ao meio, do princ�pio ao fim.

Eu notei, mas porqu�? - Quis dar-lhe uma maior tens�o.

E mais tarde ela � retomada.

Dando-lhe maior tens�o,

as pessoas ficam agarradas logo desde o princ�pio.

Gostaste? - Gostei, a s�rio.

Hoje est�s c� uma brasa...

Obrigado, �s um amor por dizer isso.

Ela n�o � uma brasa, mano? - Vou andando para casa.

Palavra? N�o v�s...

Olha, a Am�lia!

Donald, ol�... Charlie!

Am�lia, nunca mais te vimos, que � feito de ti?

Gosto de te ver.

A minha amiga Caroline, que � maquilhadora de cinema.

O David, um amigo...

Ol�, muito prazer. A Am�lia fala muito em si.

Ol�, sou o Donald. - Caroline...

Como est�s?

Conheces-me, sempre na pior.

Gosto mesmo de te ver...

O teu trabalho, vai bem? - Um desastre.

N�o sei o que fazer... Mas o problema � meu, n�o te vou chatear.

Chatices j� tu tens, n�o?

Cada um tem as suas.

E ia agora para casa, ver se trabalho alguma coisa.

Vens? - N�o, hoje durmo na Caroline.

Vou dar uma grande queca na caneca!

Tchau, Charlie.

Para escrever sobre uma flor e dramatizar a vida dela

tenho de mostrar o seu percurso.

E o percurso da flor come�a nos prim�rdios da vida.

Como veio ela at� hoje? Qual foi a jornada que fez?

Inglaterra, 139 Anos Antes

"Da� concluo, portanto, que todos os seres org�nicos

"que j� viveram neste planeta,

"descendem de uma mesma forma primordial

"dentro da qual a vida entrou.

Foi uma jornada de evolu��o, de adapta��o,

a jornada que todos fazemos, que nos une a todos.

Darwin escreve que descendemos todos de uma mesma primeira c�lula.

E eis-me aqui eu.

E o Laroche.

E a Orle�es.

E a "fantasma".

Todos presos dentro dos nossos corpos, em instantes da hist�ria.

� isso, � o que tenho de fazer.

Narrar toda a hist�ria junta.

Come�ar imediatamente antes de existir vida.

Tudo �... sem vida. E ent�o, a vida come�a.

Nos organismos, naqueles s� de uma c�lula.

Muito antes do sexo, na altura era tudo assexuado.

Dali passamos a seres maiores, a alforrecas.

A peixes com pernas, que trocaram a �gua pela terra.

E a seguir vemos os dinossauros.

Que ficam por c� muito tempo...

E depois cai um aster�ide e...

Insectos, mam�feros simples, primatas, macacos,

os macacos mais simples.

Os da velha-guarda cedendo o passo aos da nova

e por fim, o Homem.

Depois toda a hist�ria da civiliza��o humana,

a ca�a, a lavoura e colheitas, guerra, amor, religi�o,

saudade, doen�a, solid�o, tecnologia.

E chegamos ao presente momento da hist�ria

com a Susan Orle�es escrevendo sobre flores no New Yorker

e BANG, come�a o filme!

� mesmo isto que tenho esperado, o fio condutor que liga tudo.

O McKee � um g�nio!

E engra�ad�ssimo, farta-se de dizer piadas e n�s rimo-nos todos.

Mas tamb�m sabe ser s�rio; ias ador�-lo.

� pela originalidade, tal como tu.

Mas diz que temos de perceber que temos um g�nero pr�prio

e de encontrar a nossa originalidade dentro desse g�nero.

E n�o h� nenhum desde que o Fellini inventou o jocument�rio.

O meu � o suspense; e o teu?

Tu e eu partilhamos do mesmo ADN...

Haver� coisa mais solit�ria do que isso?

O que disseste, mano?

Susie-Q, como vai isso?

Sem o querer ma�ar, lembrei-me de ligar e pedir mais dados.

Voc� diz coisas bastante inteligentes, John.

Sou o gajo mais esperto que conhe�o...

Mas diga l�, o que aconteceu ao seu viveiro?

Aquilo ia muito bem...

Mas �s vezes coisas m�s sucedem, as trevas abatem-se...

North Miami, Nove Anos Antes

Vai indo, o viveiro? - Muito bem, Tio Jim.

Todo este ano tem sido de sonho.

At� estamos finalmente a acabar de pagar as d�vidas.

�men, meu amor; estou t�o orgulhosa dos dois...

Quem morreu?

N�o mexa a cabe�a. - Quais � que morreram?

Eu matei a minha m�e, o meu Tio...

Foi naquele desastre que perdi os dentes.

E a minha mulher ficou em coma a� umas tr�s semanas.

E pouco depois de recuperar a consci�ncia, pediu o div�rcio.

Se quase morresse tamb�m n�o devia querer continuar casada.

Porqu�?

� como ter um passe gr�tis,

ningu�m condena algu�m que quase morreu.

Eu condenei-a.

Mas tamb�m devo ter sido julgado...

Porque um m�s depois houve o Furac�o Andrew,

que desabou qual anjo de Deus...

Destruindo tudo o que me restava.

Tudo.

Eu sabia que n�o ia ser capaz de iniciar outro viveiro,

portanto quando os seminoles ligaram

dizendo querer um branco, um perito,

que lhes fizesse um viveiro, aceitei logo.

Mas n�o lhes ia dar um igual aos outros, com plantas em vasos,

quis dar-lhes uma coisa... Extraordin�ria, percebe?

Sim, John, eu percebo.

Eu percebo...

"Quis dar-lhes uma coisa extraordin�ria.

Est� maravilhosamente escrito, e tem uma voz t�o sua...

Muito obrigado.

Admiramo-la muito. - Obrigado.

O Laroche � um personagem t�o divertido...

� c�mico, original... E triste, de certa forma.

Bom, o que se segue?

A Random House sugeriu que desenvolvesse o tema num livro,

e � o que vou fazer...

N�s gost�vamos de ficar com os direitos.

Querem torn�-lo num filme?

Isso � t�o...

O que diz da ideia? - � muito excitante.

Mas tem piada, nunca pensei nisso, nunca escrevi um gui�o...

N�o se preocupe, temos guionistas que fazem isso.

� super-estrela, fala Marty, o super-agente!

Lembro-te de que j� l� v�o treze semanas

e que a Valerie est� doida por ver um rascunho,

portanto se lho pudesses mostrar na 2a., era porreiro.

Liga-me quando ouvires isto. Ad�os, amigo.

O LADR�O DE ORQU�DEAS

Ris-te de qu�?

�s genial... - Que parte leste?

Genial, �s genial.

"Vemos o ca�ador de orqu�deas Augustus Margary,

"com um pano sujo � cabe�a com que acalma a dor pavorosa.

"O fundilho das cal�as est� negro

"do corrimento anal provocado pela disenteria.

"Geme a cada passo que d�

"na doentiamente espessa floresta tropical...

Estou desgra�ado.

Bom, abrimos com o Laroche, que � engra�ado.

Ele diz... "Adoro provocar muta��es em plantas,

muta��es s�o giras.

E mostramos flores e... O julgamento n�o pode faltar.

O Laroche diz, "Em puto sofri muta��es, por isso sou t�o esperto".

Tem gra�a!

Come�amos com os prim�rdios do tempo...

N�o, com o Laroche conduzindo p�ntano fora.

Sei l� adaptar isto, devia era escrever coisas minhas.

Como me fui achar capaz de escrever isto?

V�-la?

Comi-lhe o cu.

N�o, estava a brincar...

Talvez possa ajudar.

� sobre flores...

Mas n�o s� sobre flores?

N�o tens o tarado das plantas? E ele n�o tem piada?

"Sobre ele n�o h� o suficiente para encher um livro."

"Portanto Orle�es espraia-se em passagens longu�ssimas...

"Narrativa nenhuma as une"; cr�tica do New York Times.

Posso l� estruturar isto,

� mais daquelas merdas do New Yorker que n�o t�m fim.

�quela bem lhe comia o cu...

O livro n�o tem hist�ria. Nenhuma!

Pois inventa uma.

C� na cidade ningu�m as inventa t�o loucas como tu, �s o rei.

N�o quis fazer isso desta vez.

Foi escrito pela Susan, tenho responsabilidades para com ela.

E quis crescer como escritor e fazer uma coisa simples,

mostrar a todos o extraordin�rio que s�o as flores.

Elas s�o?

N�o sei... Eu acho que sim.

Safa-me desta coisa.

H� meses que andas agarrado a isso;

n�o lhes dar nada agora

seria p�ssimo para a tua carreira.

O gui�o est� a sair-me lindamente.

Estou agora a criar um sistema por imagem;

como o tema � a personalidade m�ltipla

uso espelhos partidos para mostrar o fragmentado que � o protagonista.

O Bob diz que o sistema aumenta a complexidade est�tica.

E que... - Pareces ser de uma seita.

N�o, � s� boa t�cnica de escrita.

Fiz-te uma c�pia dos Dez Mandamentos do McKee,

para ambos os termos onde trabalhamos!

1 - Respeitar�s o teu p�blico

N�o devias fazer isso...

A s�rio que ajudam.

Vou meter no gui�o a "Happy Together".

Quando personagens desatam a cantar e a dan�ar de pijama,

isso quebra a tens�o.

Estava nervoso por p�r uma can��o num filme de suspense,

mas o Bob diz que o gui�o do "Casablanca",

um dos melhores jamais escritos, faz exactamente o mesmo.

H� uma semana que n�o durmo, preciso de me deitar...

Boa noite.

John, fala Susan outra vez.

Olha a Susie-Q!

Tudo bem consigo?

Tudo, estou a aprender a funcionar com a internet.

Dediquei-me � pornografia,

� incr�vel o que os palermas pagam por fotografias de tipas.

N�o importa se s�o gordas, feias, ou o qu�.

Mas que bom... - Bom � dizer pouco.

Detesto sentir que estou a ser chata,

mas continuo sem ter visto uma "fantasma".

E pensei que talvez pudesse...?

Claro, levo-a l� comigo.

Amanh�. - Palavra?

Fico-lhe t�o grata!

Raios partam...

"H� demasiadas ideias, coisas, pessoas,

"demasiadas direc��es a tomar.

"Come�ava a achar

"que o que importa no facto de desejar apaixonadamente uma coisa

"� que isso encolhe o mundo at� um tamanho mais manej�vel.

Ela tem percep��es t�o doces e tristes...

T�o verdadeiras...

Gosto de olhar para ti.

Tamb�m gosto de te olhar, Charlie.

N�o sei fazer isto, tenho medo de te desiludir.

Escreveste um livro lindo.

N�o consigo dormir...

Estou a perder o cabelo, sou gordo, repelente...

N�o �s nada... N�o �s.

Basta que a encolhas.

Concentra-te num pormenor da hist�ria.

Descobre aquela coisa

pela qual te podes apaixonar perdidamente

e depois escreve sobre ela.

Vemos Susan Orle�es, delicada, perseguida pela solid�o.

Fr�gil. Linda.

Est� deitada, acordada, ao lado do insens�vel e adormecido marido.

Ouve-se a voz dela.

"Suponho que tenha uma paix�o dominante,

"o querer saber qual a sensa��o de desejar apaixonadamente uma coisa.

Bom dia.

Voc�s acordaram cedo, para variar...

Pareces bem-disposto! - E estou.

Tive umas tantas ideias.

S�o os dois t�o inteligentes... Esta casa � uma f�brica de miolos!

Tamb�m tive algumas esta manh�.

Umas fant�sticas, a s�rio. Das do g�nero que ele tem...

Vou meter... O qu�?

Vou meter uma cena de persegui��o,

ponho o assassino a fugir a cavalo e o pol�cia atr�s dele, numa moto,

ser� uma batalha entre motor e cavalo,

tecnologia contra cavalo.

Mas continuam a ser todos o mesmo?

Isso s� se v� no fim.

A ideia � gira... - Obrigado, p�.

N�o disse que ele ia gostar?

�s a minha musa... �s, sim.

Adoro ser a tua musa. - Gosto tanto de saber...

Tem uma encomenda em nome de Kaufman.

Que coincid�ncia v�-lo!

Desculpe n�o ter ligado, estive fora... Mas tencionava.

Tencionava mesmo, as coisas est�o a ir muito bem

e queria que soubesse.

Ainda bem, estou ansiosa por ler alguma coisa.

Mas sente-se, estou aqui com a Susan

e ela est� doida por o conhecer. E encontr�-lo aqui...

A Susan Orle�es?

Veio c� dar uma confer�ncia ou coisa assim...

Foi ali ao telefone.

Sente-se, ela est� doida por o conhecer.

Era melhor ir andando...

Tamb�m adorava conhec�-la

mas n�o lhe quero ficar em d�vida,

e quando se conhece uma pessoa sobre quem se escreve

torna-se dif�cil separar a fic��o da...

Mas falo consigo em breve. Estou quase a acabar.

E por favor diga-lhe que adorava conhec�-la numa data posterior.

Quando ela quiser.

Quem � que quero enganar? Isto � l� a hist�ria da Susan,

n�o tenho nada a ver com ela, nem sequer conhec�-la consigo.

N�o sei nada fora dos meus p�nicos e da minha pat�tica exist�nciazinha.

A �nica coisa sobre o que sei escrever � a minha pr�pria...

Abrimos com o Charlie Kaufman, gordo, velho, careca, repelente,

sentado num restaurante com a Valerie Thomas � frente,

uma lind�ssima e escultural directora de um est�dio.

Kaufman, que tenta obter a encomenda de um gui�o,

querendo impression�-la, transpira abundantemente.

O gordo e careca Kaufman anda no quarto de um lado para o outro;

fala para um gravador port�til e diz...

"Charlie Kaufman, gordo, careca, repelente e gordo

"sentado num restaurante com Valerie Thomas.

Kaufman, repelente, rid�culo, masturba-se para a foto de capa da...

O que queres?

Terminei o meu gui�o.

Est� pronto.

Mostra-lo ao teu agente?

Chama-se "O Tr�s".

Obrigado. E tamb�m pela tua ideia. Alterei-a um bocadinho,

agora o assassino corta peda�os das v�timas e obriga-as a com�-los.

A Caroline tem uma tatuagem de uma cobra comendo a pr�pria cauda...

Orobor�.

� como a cobra se chama.

N�o me parece... Mas � um modus operandi giro

porque quando obriga a mulher que no fundo � ele a comer-se,

tamb�m se est� a comer...

Estou doido... Sou uma orobor�.

O que significa a palavra? - Meti-me a mim no gui�o.

Isso n�o � esquisito?

� interesseiro. � narcisista.

� solipsista, � pat�tico...

Sou pat�tico. E gordo.

Certamente tiveste boas raz�es, �s um artista.

A raz�o � ser t�mido demais para falar com a autora do livro.

E ser pat�tico.

E n�o saber o que escrever ou de tornar as flores fascinantes.

E ser p�ssimo. - Eu entro no livro?

Vou a Nova Iorque.

Para a conhecer; � preciso.

N�o te zangues por dizer isto

mas o Bob d� l� um curso este fim-de-semana.

Se est�s emperrado...

E ela disse, "O Laroche � um personagem t�o divertido... "

E � que sou mesmo.

Quem faz de mim?

Primeiro tenho de escrever o livro,

depois eles arranjam quem escreva o gui�o...

Devia eu fazer de mim.

"A maioria das pessoas suspira por qualquer coisa de excepcional,

"de t�o estimulante que arriscariam fosse o que fosse por essa paix�o,

"apesar de poucas depois agirem.

"Ela � assim potente.

"E � embriagante estar-se perto de algu�m... assim t�o vivo.

Anda, j� est�o perto!

Posso fazer-te uma pergunta muito pessoal?

N�o estamos perdidos...

J� vim aqui milh�es de vezes.

Quando se p�e tudo contra mim digo "que se lixe" e vou em frente.

Rel�gio de sol!

Espeto este pau, esperamos uns minutos

e j� vemos em que direc��o segue o Sol.

Temos de ir para Sudeste.

Diz l�, coleccionas alguma coisa?

Por acaso, n�o...

Claro, o importante n�o � o que se colecciona

mas sim o poder-se...

O que gosto mais nos computadores � estar totalmente imerso neles

mas n�o serem uma coisa viva que um dia se vai embora ou morre.

John, desculpe, eu...

Est� bem, pronto, o rel�gio de sol que se lixe.

Eu sei como sair daqui.

Claro que sei, conhe�o o p�ntano como as palmas das minhas m�os.

Tu �s como toda a gente, uma sanguessuga.

Colam-se a mim, sugam-me at� ao tutano e depois cospem-me.

Que tal viveres a tua vidinha de merda?

Cabra mimada de um raio!

"A vida parecia cheia de coisas do tipo da orqu�dea "fantasma",

"maravilhosas de imaginar e f�ceis de provocarem paix�es

"mas tamb�m algo fant�sticas,

"fugazes...

"E inating�veis.

Tr�s Anos Depois

"...mas tamb�m algo fant�sticas, fugazes, inating�veis.

Fala o Marty; como vai isso?

Ajudou falar com a autora? Ela chama-se como?

Susan Orle�es. Foi simp�tico.

Ent�o est�s a fazer progressos?

A Valerie n�o me larga.

A inspira��o vem quando quer...

Est� bem, aceito isso.

A outra raz�o porque liguei � "O Tr�s"...

� espantoso.

Est�s a falar de qu�? - Do gui�o do Donald!

O suspense � intenso, inteligente, � o melhor gui�o que li este ano.

Que bom...

Vou vend�-lo por um bal�rdio. Dois talentos na mesma fam�lia!

Olha, e se pedisses ajuda ao mano para isso das orqu�deas?

Marty, nem digas isso a...

Pronto, era s� uma ideia.

O tipo em estrutura � mesmo fora de s�rie.

Tenho de desligar.

Ad�os, amigo. Acaba esse...

Merda!

Obrigado, obrigado...

Esperam-nos tr�s longos dias.

Mas daqui a anos, a meio de um cocktail,

sentir-se-�o gratos por ter passado todo um fim-de-semana

fechados numa sala com um palerma vindo de Hollywood.

Sou pat�tico. Sou um falhado.

Bom, o que h� de mais essencial na escrita?

Falhei, entrei em p�nico, tra� os ideais, n�o valho nada...

Que porra fa�o eu aqui metido?

Que porra fa�o eu aqui metido?!

Foi a minha fraqueza, a falta de convic��es que me trouxeram aqui.

Solu��es f�ceis, regras para alcan�ar o �xito mais depressa.

E eis-me aqui, por o meu passeio pelo abismo n�o ter dado em nada.

Mas n�o � esse o risco inerente � tentativa de ser original?

Devia era ir-me embora j�, recome�ar, pegar de frente o...

E Deus os ajude se puserem uma voz a narrar a vossa hist�ria.

Deus os ajude, � sinal que s�o frouxos e med�ocres!

Qualquer parvo � capaz de explicar assim as ideias de um personagem.

Bom, t�m uma hora para almo�o.

N�o podem ter um protagonista sem ambi��es!

N�o faz qualquer sentido!

Porra de sentido nenhum.

Percebido? �ptimo.

Mais perguntas?

E se um escritor tenta criar uma hist�ria em que pouco acontece?

Em que as pessoas n�o mudam nem t�m epifanias?

Elas debatem-se e sentem-se frustradas, mas nada resolvem.

Assim como no mundo real.

No mundo real?

O mundo real...

Primeiro, escreva um gui�o sem conflito ou crises

e far� a sua plateia morrer de t�dio.

Segundo, nada se passa no mundo?

Voc� n�o regular� dos cornos?

Gente � assassinada todos os dias,

h� genoc�dios, guerras, corrup��o;

a cada dia que passa algu�m, algures,

d� a vida para salvar uma outra,

a cada dia algu�m, algures,

toma a decis�o consciente de destruir outro algu�m.

H� quem encontre o amor, quem o perca.

Uma crian�a v� a m�e ser morta � pancada nos degraus de uma igreja,

algu�m passa fome, algu�m trai o melhor amigo por uma mulher.

Se n�o encontra na vida sobre que escrever

� porque voc�, meu amigo, n�o percebe patavina da vida!

E por que porra quer desperdi�ar duas horas do meu precioso tempo

com o seu filme?!

N�o quero saber dele para nada!

N�o quero mesmo saber dele para nada!

Obrigado...

Foi comigo que o senhor gritou esta manh�...

Mais pormenores.

Disse eu que nada acontece na vida.

Ah, pois... Muito prazer. - Preciso de falar!

Sr McKee, s� o estar aqui mete-me medo, n�o sou bom a relacionar-me.

Mas o que disse hoje mexeu comigo at� ao �mago,

foi al�m da mera escrita, mexeu comigo como ser humano.

Por favor.

Bom, at� que uma bebida n�o me ia fazer mal...

"...Mas tamb�m algo fant�sticas, fugazes, inating�veis.

Depois o que acontece?

� como acaba o livro.

Quis torn�-lo simples,

sem grandes sensacionalismos de personagens ou de hist�ria.

Mostrar as flores como milagres de Deus,

mostrar que Orle�es nunca viu a porcaria da dita orqu�dea.

A hist�ria � sobre a desilus�o.

Estou a ver...

Mas isso n�o � um filme. Tem de lhe acrescentar drama.

N�o posso, tenho resmas de p�ginas de falsas partidas,

j� estou fora do prazo... - Eu conto-lhe um segredo.

Um filme � feito pelo �ltimo acto.

Ponha-os de boca aberta no fim e tem um �xito.

Pode haver erros, defeitos; desde que abram a boca no fim,

tem o seu �xito.

Arranje um final.

Mas n�o fa�a batota.

E n�o se atreva a recorrer a um deus ex machina.

Os personagens t�m de mudar.

E a mudan�a, de vir de dentro.

Fa�a isso, e ver� que n�o h� azar.

Promete?

N�o fez j� um curso meu?

Fez o Donald, meu irm�o g�meo; convenceu-me ele a vir.

G�meos guionistas?

Julius e Philip Epstein,

que escreveram "Casablanca", eram g�meos...

Referiu isso na aula.

Melhor gui�o jamais escrito.

Resid�ncia de g�nios?

Que tal a viagem? Tu e a mi�da entenderam-se bem, felizardo?

Claro... S� liguei para te dar os parab�ns pelo teu gui�o.

N�o � porreiro? O Marty diz que me consegue

umas largas centenas de milhar de d�lares por ele.

Fant�stico, Donald...

Obrigado pela tua ajuda.

N�o ajudei nada... - Abriste-me a tua casa!

E tanta integridade levou-me a pelo menos tentar.

Foi c� uma aventura...

A Catherine quer o papel da Cassie.

Sim, por favor! Por favor, Donald?

A Catherine Keener?

Ela est� em minha casa? - Estamos a jogar Boggle.

� � maneira, devias dar-te com ela.

Tenho estado a pensar...

Gostavas de vir passar uns dias comigo em Nova Iorque?

Caramba, claro!

Penso mostrar o gui�o a umas pessoas

e, se quisesses, tamb�m o podias ler...

Claro, era uma honra.

Obrigado, Charles.

Ent�o, tu, o que lhe fazias?

Ele goza comigo um bocadinho?

Desculpa, eu n�o quis...

N�o me importei, tem gra�a.

Que altera��es fazias?

Tu e eu somos talentos t�o diferentes, Charles...

S� por curiosidade, como o terminava o grande Donald?

Est� calado. "O grande Donald... "

Mas sinto faltar-lhe qualquer coisa...

Est� bem; o qu�?

Estive a ler passagens no avi�o...

"Hist�rias como esta podem tornar-se em mais do que o esperado,

"num vislumbre de vida que se expande

"como as bolas japonesas de papel

"que se deita � �gua e se tornam em flores,

"flores t�o lindas

"que nem se cr� que antes apenas se viu

"uma bola de papel e um copo de �gua...

Para come�ar � inconsistente, ela afirmou n�o gostar de flores.

Isso � s� uma met�fora. - Met�fora para qu�?

Que torna a bola de papel em flor? N�o vem no livro, Charles!

Est�s �s apalpadelas... - Talvez

Mas acho que precisas de falar com ela, para a conhecer.

N�o sou capaz...

Vou eu, fazendo-me passar por ti.

Eu quero. E entre os dois havemos de consertar o teu filme, mano.

Mas tens de ser mesmo eu, tenho uma reputa��o a defender.

N�o podes ser espalhafatoso ou imbecil.

N�o sou imbecil... - Sabes o que quis dizer;

nada de atiran�os, de piadas sem gra�a, das tuas risadas.

N�o me hei-de rir, todos ter�o de pensar que sou tu.

� uma honra.

Bom, passemos agora a coisas realmente importantes...

Ainda se d� com o Laroche?

Pergunto por detectar uma certa atrac��o por ele no sub-texto...

Deseja comentar?

A nossa rela��o foi apenas de jornalista/entrevistado.

� claro que se gera sempre uma esp�cie de intimidade;

por defini��o, tudo o que ele tinha a dizer me interessava.

Mas a rela��o terminou no final do livro.

Falsa informa��o...

Como? - Nada.

S� tenho mais uma pergunta.

Se pudesse jantar com um personagem da Hist�ria, vivo ou morto,

qual escolheria?

Bom, acho que teria de dizer...

O Einstein, ou...

Jesus.

�ptimo, interessante resposta.

Ela mente! - O que queres dizer?

O que aconteceu? - Nada, disse tudo o que devia.

Demasiado! - Talvez por ser o que pensa?

Envergonhaste-me?

Gente que s� diz o que devia � mentirosa.

E todos dizem Jesus e Einstein; a resposta est� pr�-programada.

Jesus e Einstein?

Tive uma ideia. Compra-me uns bin�culos.

Jesus e Einstein o qu�?

Imagina tu e eu, Como eu

Penso em ti noite e dia, Como devia

V�, canta comigo!

Pensar em quem se ama E abrac�-la

T�o felizes juntos...

Para que queres bin�culos?

Embora, anda!

Ela desligou. Est� triste.

P�ra de a espiar.

Agora chora...

Est� ao computador.

Isto � moralmente indefens�vel.

Bilhete da United para Miami,

�s 11 e 55 da manh�, amanh�...

N�o tinha arrumado o Laroche? - Os pais vivem na Florida.

Ela n�o estava a falar com os pais, amig�o. - N�o digas "amig�o"!

Entrou um homem, bem-parecido...

Deve ser o marido.

Porta-se de uma forma esquisita com ele... N�o dirias?

O que esconde dele?

Talvez seja l�sbica e n�o saiba como lhe dizer... O que achas?

J� viste o site porno dele? - N�o, estou a tentar ler.

Mas eu c� vou v�-lo. Faz parte da pesquisa.

N�o contes � minha velha. - Referes-te � m�e?

N�o, qual m�e...

Continuo a achar devermos ir a Miami amanh�.

Algumas destas tipas at� s�o giras...

Olha, vamos mesmo a Miami.

J� disse que n�o.

E eu digo que sim; vem c�.

"Acabei por compreender que a mudan�a n�o � uma escolha,

"seja para uma esp�cie de plantas seja para mim.

"Ela acontece e tornamo-nos diferentes.

Fakahatchee, Tr�s Anos Antes

"Talvez a �nica diferen�a entre a planta e eu

"seja eu depois ter mentido sobre a minha mudan�a, no livro,

"ter fingido com o meu marido que tudo continuava na mesma.

"Mas alguma coisa aconteceu no p�ntano naquele dia.

Olha!

N�o disse que encontrava a j�ia de Fakahatchee?

� uma flor...

S� uma flor.

J� que estou aqui, bem posso lev�-la.

O meu site porno vai ser uma coisa em grande.

H� uma coisa que n�o te contei...

Uma coisa sobre a orqu�dea.

Talvez ela te ajude.

Mal tinha come�ado o viveiro

quando uma noite l� fui buscar uma coisa.

Queriam a flor s� para lhe extrair a droga.

Sempre fora usada no cerimonial,

mas os jovens gostavam era de ficar pedrados.

O Matthew era um dos que...?

Claro, esse vivia daquilo at� se lhes acabar.

Porque houve um dia em que pareceu fascinado por mim,

pelo meu cabelo, pela minha... tristeza.

� um dos efeitos da droga. Foi o que te quis dizer.

Acho que ias gostar,

ela parece ajudar as pessoas a ficar fascinadas.

Se quiseres extraio-ta, sei como �, fiquei a ver;

devo ser o �nico branco que sabe.

Quero fazer isto por ti.

J� arrumei as orqu�deas, Laroche.

� o John... Recebeste a minha encomenda?

Johnny...

Sinto-me muito feliz.

Ora ainda bem.

Muito feliz...

Fazes isto...?

N�o, n�o pares.

Tento imitar o som de linha,

portanto tens de o prolongar e depois, os dois juntos...

Sozinha n�o sou capaz.

Est� bem, qual queres que fa�a?

V�, ent�o.

� isso mesmo. - Apanh�mo-lo.

� incr�vel.

Nunca te sentes s�, Johnny?

Fui um puto estranho...

Ningu�m gostava de mim.

Mas eu sempre pensei

que se desse tempo ao tempo, algu�m acabaria...

Por gostar, e...

E compreender-me.

Como a minha m�e.

S� que outra sem ser ela.

E essa olharia para mim

e calmamente diria...

"Sim. "

Assim, simplesmente.

E eu j� n�o me sentiria s�.

Quem me dera ser uma formiga...

S�o t�o reluzentes!

�s mais do que qualquer formiga.

Essa foi a coisa mais amorosa que jamais algu�m me disse.

� por eu gostar de ti.

Florida, Tr�s Anos Mais Tarde

Vou ver mais de perto. Fica a�.

N�o, espera.

Devo eu ir.

Devo ser eu a ir?

� o meu...

Fui quem... - Claro, mano, tu mandas.

Rebenta-os.

N�o sei o que te deu...

Da �ltima vez vieste-te para cima de mim.

Raios partam!

Entra aqui para dentro! E bico calado!

Quem � esse?

Quem porra �s tu? - Ningu�m...

Espera, espera l�, sabes quem...

� o guionista.

O gajo que est� a adaptar o nosso livro ao cinema?

Macacos me mordam...

Prazer em conhec�-lo.

� p�, quem vai fazer de mim?

Ainda n�o sei, e devo...

Acho que devo fazer eu de mim.

Ele seguiu-me?

N�o, e vou-me embora.

Prazer em conhec�-lo. Dou-lhe o meu n�mero?

Est� quase a dar-me uma coisa... O que faz ele aqui?

Porque � que me seguiu, o que � que ele sabe?

N�o sei nada de nada.

A estufa, viu... - Merda.

Vai falar disto no gui�o?

Nem sei de que "isto" se trata...

Ele est� a mentir.

Quieto. - Sossego!

Temos de o matar.

Que outra coisa h� a fazer? V�, diz tu!

Susie, tens de ter calma...

Tu n�o est�s em ti e n�o fazes ideia como...

N�o posso deix�-lo escrever a meu respeito,

deixar que o mundo inteiro saiba de n�s...

Saiba disto.

Porque n�o?

Tens vergonha de mim?

N�o, n�o � nada disso. Como foste sequer pensar tal coisa?

Mas sou jornalista, e a droga...

N�o podemos matar ningu�m.

Est� bem...

Mato-o eu.

Sozinha.

Desligue o motor e saia.

Foge!

Que raio houve? - N�o sei!

N�o deu para ver. - Merda.

Merda!

Ajuda-me a procurar a lanterna.

Era um homem?

Gordo. Foi tudo o que deu para ver.

Vamos ter de ir cada um pelo seu lado.

N�o me vais deixar aqui sozinha!

Nem penses nisso.

Eles encontram-nos. - N�o acho.

N�o quero morrer, Donald.

Desperdicei tanto a vida...

N�o a desperdi�aste e n�o vais morrer.

Desperdicei-a, sim.

Admiro-te tanto... Passei-a toda ela paralisado,

ralado com o que as pessoas pensavam de mim,

e a ti n�o te interessa.

Interessa sim.

N�o percebeste, estava a fazer-te um elogio.

Uma vez, no liceu,

pela janela da biblioteca observei-te a falar com a Sarah Marsh.

Estava t�o louco por ela... - Eu sei.

E estavas a atirar-te a ela, e ela toda dengosa...

Lembro-me disso.

Mas depois afastaste-te,

e p�s-se a gozar contigo com a Kim Canetti.

E foi como se elas se rissem de mim.

Mas tu n�o soubeste.

Estavas t�o feliz...

Soube, sim. Eu ouvi-as.

Ent�o estavas feliz porqu�?

Gostava da Sarah, Charles.

Era meu, aquele amor.

Propriedade minha.

Nem sequer a Sarah tinha o direito de mo roubar.

Posso gostar de quem quiser.

Mas ela achava-te pat�tico.

Era a opini�o dela, n�o minha.

Tu �s quem tu amas,

n�o quem te ama a ti.

Decidi isso h� muito tempo.

O que tens?

Obrigado...

Pelo qu�?

Estou a ouvi-los.

Ou�o-lhes a respira��o.

Charlie?!

Est�o a�?

A carrinha?

Foram-se embora? - N�o sei.

Talvez.

Merda!

Incr�vel, levei um tiro... N�o � t�o marado?

Cala-te, p�ra de rir.

Donald? N�o h�-de ser nada.

N�o adorme�as, n�o podes � adormecer.

Olha para mim. Olha, Donald.

N�o pares de olhar, abre os olhos.

Por favor, abre os olhos.

Por favor, Donald, abre os olhos.

Donald, abre os olhos!

Imagina tu e eu, Como eu

Penso em ti noite e dia,

Como devia

Pensar em quem se ama

E abra��-la

T�o felizes, juntos...

Socorro!

Lamento muito...

Ter de fazer isto, meu.

N�o sou um assassino.

Mas p�e-te no nosso...

Seu monte de banha de merda!

Ele morreu! Seu palha�o!

Estragou-me a vida, grande estupor!

V�-se foder! N�o passa de uma velha, solit�ria,

desesperada e pat�tica drogada!

Ai meu Deus...

Acabou-se...

Tudo acabado.

Fiz tudo errado.

Quero a minha vida de volta.

Quero a que tinha antes de ficar de pernas para o ar.

Quero voltar a ser beb�,

quero um novo eu.

Quero ser outra pessoa.

M�e?

Charles, �s tu?

Charles, o que � que tens? Est�s bem?

Donald diz, "Essa era a opini�o dela, n�o a minha.

N�s somos o que amamos, n�o o que nos ama.

Decidi isso h� muito tempo".

Kaufman desata a chorar.

Tenta agradecer ao irm�o, mas n�o acha as palavras.

Como tens passado? - Bem...

Tenho saudades dele.

Como est� o gui�o a sair? - Bem, quase acabado.

Estou doido por me dedicar a outra coisa.

Acredito.

E contigo, tudo bem?

E em Janeiro, o David e eu estivemos em Praga.

Foi o melhor da viagem. - Mas que bom...

H� l� um teatro de marionetas. - Eu sei, ouvi falar.

E uma igreja toda decorada com ossos e cr�nios humanos.

Quarenta mil cr�nios e ossadas.

Pensei em ti, l�...

Charlie, estou com uma pessoa, porque � que fazes isto agora?

Eu amo-te.

� melhor ir andando.

Tenho... Tenho muito o que fazer;

passo o fim-de-semana fora e falta-me fazer milh�es de coisas.

Tamb�m te amo, sabes?

Tenho de ir para casa, j� sei como acabar o gui�o.

Acaba com Kaufman indo para casa depois de almo�ar com Am�lia,

achando saber como terminar o gui�o.

Merda, isto � narra��o, o McKee n�o aprovaria.

Mas como mostrar os pensamentos dele?

Quero l� saber o que acha o McKee. A mim parece-me bem.

� um ponto final.

Quem � que far� de mim? Algu�m n�o muito gordo.

Gosto do G�rard D�pardieu, mas conseguir� fazer o sotaque?

Mas o gui�o est� acabado, � o que interessa.

Portanto, Kaufman sai do encontro com Am�lia

pela primeira vez na vida cheio de esperan�a.

Gosto...

Isto � bom.

Imagina tu e eu, Como eu

Penso em ti noite e dia Como devia

Pensar em quem se ama E abrac�-la

T�o felizes, juntos

Que tempo faz l� fora?

Tradu��o e Legendagem Correia Ribeiro

SINCRONIZA��O E REVIS�O: ---pedrofjorge---

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