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DESERTO DE JERUSALÉM
Em 1987, eu era criança.
Eu tinha seis anos, e morava com minha família
num campo de refugiados na Síria.
A maior parte do tempo,
a gente não saía de casa para brincar.
Vida entediante.
A única coisa que fazíamos era ler quadrinhos.
No campo sírio, eu sabia que eu era palestino.
Mesmo nunca tendo estado lá.
Eu só havia visto minha terra natal no noticiário.
No noticiário, eu também ouvia falar da revolução palestina.
Ou Intifada, como eles diziam.
Eu me lembro de ter lido um quadrinho sobre Beit Sahour.
Uma história maluca.
De 18 vacas que nasceram em um kibutz israelense
e foram levadas para Beit Sahour, a cidade onde nasci.
Talvez você ache que vacas são todas iguais,
que são estúpidas e preguiçosas,
e que só ficam pastando o dia todo, sem pensar em nada.
Talvez você devesse repensar.
AS 18 FUGITIVAS
Eu não lembro muito bem do livro em quadrinhos,
mas há quatro vacas que ficaram na minha mente.
KIBUTZ HILLEL, 1988
Tinha a Rivka, a pacifista.
O rebanho achava que ela era louca.
Só deixando sair...
Deixando sair tudo.
A Ruth, líder do rebanho e a vaca mais velha.
Ela não gostava de palestinos.
Eles não querem trabalhar.
Palestinos preferem se revoltar a trabalhar.
Verdade completa.
Lola, uma vaca sexy e fã da Madonna.
Ela já estava prenha naquela época.
Intifada "schmintifada".
O que isso significa?
Significa que os "cabeça de trapo" estão irritados de novo.
E havia a Goldie,
a mais jovem e a encrenqueira.
Talvez se você os escutasse, conseguiria alguma...
...sabedoria.
É, talvez.
É assim que a história começou.
No início de 1988,
um caminhão de gado de Beit Sahour
foi a um kibutz israelense.
Um pacifista israelense de lá
concordou em vender as vacas à minha cidade.
Naquela época, não havia vacas na minha cidade.
Todo o leite era comprado de Israel.
Os palestinos ficaram empolgados.
As vacas não gostaram nada disso.
No momento em que vi as vacas na fazenda
me senti no início da realização de um sonho
de liberdade e independência.
- Oh, merda! - Para onde nós estamos indo?
Assim que as vacas entraram no caminhão, no kibutz,
e iniciamos a volta para Beit Sahour,
ficamos cheios de alegria e felicidade.
Mas também havia um certo...
medo.
Havíamos decidido em Beit Sahour
que precisávamos boicotar os produtos israelenses.
A maior parte do nosso leite vinha da Tnuva,
uma empresa israelense.
Nós queríamos criar
um projeto para produzir leite suficiente
para nossos filhos e a população em geral.
Um grupo de pessoas em Beit Sahour
pensou: "Por que não comprar vacas
para produzir leite localmente, em vez de comprar leite de Israel?"
Não temos uma cultura de criar vacas na Palestina.
Criamos ovelhas e cabras, mas vacas...
Naquela época, foi a primeira vez que vi uma vaca.
A ideia me veio imediatamente,
porque seria parte do plano de resistência,
já que a Intifada não ia acabar tão cedo.
Mas não tínhamos nenhuma experiência com vacas.
O caminhão enguiçou no caminho
e Jalal não fazia ideia do que fazer.
Mas as vacas sabiam.
Será que é difícil fugir?
Ei, quatro-olhos!
Sim, você.
Está me olhando?
Não quero que meu bebê nasça no deserto.
Todo ao redor aqui é tão marrom...
Jalal apareceu e disse:
"As vacas estão vindo e precisamos de voluntários
para ajudar a manejá-las e levá-las para o estábulo."
Para mim, era um como um jogo, sabe?
São vacas, vamos lá brincar.
BEIT SAHOUR SUBÚRBIO DE BETHLEHEM
Esta é a cidade de Beit Sahour,
como costumava ser chamada durante a Intifada, em 1987.
Esta é minha cidade e este é meu povo.
10 mil pessoas dando dor de cabeça a Israel.
Puta merda! Viu aquilo?
Estou tão assustada.
Socorro!
Siga!
As 18 vacas acharam que o exército israelense
teria pena delas.
Estavam viajando.
O caminhão chegou...
e havia uma rampa subindo para o estábulo.
Mas não conseguiam subir, estava chovendo e lamacento.
O que está acontecendo?
Por que estamos paradas?
Lá vem eles. Devem ser pelo menos 50.
Estou com medo! O que vamos fazer?
Preparem-se!
Não faremos nada.
Assim que chegamos lá,
havia uma gritaria,
como se estivesse ocorrendo uma festa ou algo assim.
Rivka, cale a boca!
Quando eu disser três! Lola?
Eu não aguento mais!
Calem a boca, todas vocês!
Oh, merda! Lá vamos nós!
Todas as vacas pularam do caminhão e se espalharam pelo lugar.
Aqui e ali, aqui e ali...
Eu me lembro do Jalal, com seu belo sapato e calça elegante,
correndo na lama, que dava no seu joelho.
Ele correndo atrás das vacas, todo mundo correndo...
Eles estão quase te pegando, corra!
Corra o mais rápido que puder!
Não sabíamos o que fazer.
Ficamos realmente pasmos.
Corra!
Corra! Cuidado!
Tanas tentou pegar uma vaca pela cabeça.
Ele poderia ter morrido. E eu gritei para ele soltá-la.
Temos que correr!
A situação era bem crítica.
Isso mostra o quanto estávamos comprometidos
com o bem-estar das vacas.
Quase morremos por causa das vacas.
Parem! Eu não vou ter filhotes aqui!
Me ajudem!
Escutem. Acabou.
Estamos vivas. Agora me sigam.
Tréguas nunca funcionam.
Feche a matraca, vaca!
É uma ideia genial, as vacas.
Foi o que pensaram.
Mas tenho certeza que para as vacas,
foi a noite mais longa de suas vidas.
Beit Sahour era um problema diferente.
EHUD ZRAHIYA MILITAR ISRAELENSE
Ela apresentava problemas de outros tipos.
Primeiro, era um vilarejo com uma população
de nível socioeconômico e educacional mais alto.
O enfrentamento lá era mais complicado,
principalmente porque Beit Sahour estava na vanguarda
da revolta não violenta.
Esse tipo de resistência civil era mais complicado de combater.
Depois de anos da longa ocupação,
os israelenses estavam despreocupados.
"Os palestinos estão contentes.
Estamos dando a eles empregos.
Eles estão desfrutando de um padrão de vida melhor."
Os israelenses esqueceram de uma coisa:
Comida, dinheiro, não é nada. Queremos ser reconhecidos.
Os palestinos eram impedidos de se desenvolver.
Não lhes era permitido desenvolver a economia.
Não lhes era permitido desenvolver a agricultura.
Nós sequer podíamos produzir as coisas mais simples,
que a população precisava no seu cotidiano,
como leite, derivados do leite, etc.
Nossa comida vem de Israel,
nossas frutas vêm de Israel,
nossa água é extraída por Israel...
por empresas de água de Israel.
Eles impõem tudo.
A única coisa que não controlam é o ar que respiramos.
Um dos objetivos principais da ocupação é sempre
tentar colocar na sua cabeça
que você é subumano, que você não é digno,
que você não é um igual.
Mas somos palestinos,
e merecemos ter um lar,
merecemos ter nossa terra,
merecemos ter nossa liberdade,
e merecemos ter vacas.
Assim a Intifada começou e com ela
se espalhou um movimento popular muito bem-organizado.
E surgiu a ideia do Comitê de Vizinhos,
para nos ajudar a conhecer as demandas dos vizinhos.
Foi uma oportunidade de nos aproximarmos,
vizinhos se conheceram, cozinhavam juntos,
passavam tempo juntos,
jogavam cartas.
E também juntos pensavam sobre os próximos passos.
Algumas das ideias eram enviadas
ao Comando Nacional Unificado.
Algumas ideias eram realmente extraordinárias.
A maioria dos comentários era sobre a ocupação
e de como colocar um fim a ela.
Foi uma iniciativa bastante criativa e inovadora.
Declaração da Liderança Nacional Unificada
sobre a Intifada.
Não tínhamos controle da nossa TV ou mídia.
A mensagem da Intifada tinha que ser enviada por meio de comunicados.
Para se espalhassem rapidamente
e as pessoas soubessem exatamente o momento.
"Em determinada data, cortem a luz."
"Em determinada data, vão para as ruas."
"Em determinada data, hasteiem a bandeira preta."
E, para surpresa das pessoas,
a maior parte daquilo que as pessoas discutiam,
apareceria nos comunicados seguintes.
Isso dava às pessoas o sentimento
de quem produzia os comunicados
dialogava com o que as pessoas estavam dizendo,
com as demandas do povo.
Isso criava confiança.
As pessoas se reconheciam nos comunicados,
como se elas os tivessem escrito.
Havia um comitê médico cuidando dos feridos.
Havia um comitê agrícola
preocupado com a autossuficiência da produção local, etc.
Havia comitês de professores para ensinar as crianças nas escolas,
porque Israel fechou as escolas na Cisjordânia.
Foi no comitê agrícola que surgiu a ideia:
"Vamos criar vacas, vamos produzir leite".
É a primeira vez que volto.
São vinte e um anos.
Aqui é o local onde a primeira vaca
pariu seu bebê.
Foi uma espécie de milagre para nós.
- Vamos lá!
Faça força, garota! Faça força!
- Vamos lá! - Você consegue!
Respire.
Continue.
Isso, continue!
Havia umas 20 pessoas assistindo,
e eles comemoram bastante o nascimento.
Lá vem ela!
Houve muita alegria,
como se fosse uma das famílias de Beit Sahour
que tivesse tido um bebê recém-nascido.
Eu não tinha ideia
de como criar gado, vacas
ou mesmo de como tirar o leite.
Não fazia a menor ideia.
Na minha cidade,
ninguém nunca tinha ordenhado uma vaca antes.
Salim, um estudante de Beit Sahour,
foi enviado para os EUA para aprender a ordenhar.
Foi algo único.
Uma nova experiência para mim.
Elas são como seres humanos.
Algumas são gentis e calmas,
outras estão sempre zangadas.
Levamos muito a sério essa questão das vacas.
Diga a ele, Lola. Não é assim que se tira leite.
Vamos, diga a ele.
Não é como simplesmente apertar um botão.
Não sou uma máquina de leite.
A vaca branca pulou sobre uma cerca dos fundos.
Tinha dois metros de altura.
Será que é difícil fugir?
Eu nunca havia visto uma coisa dessas.
Nada parecia ser impossível para os palestinos naquela época.
Nem mesmo ordenhar uma vaca.
Tínhamos latas de leite de um litro e meio litro.
Que nós distribuíamos nas vasilhas dos clientes.
Era um trabalho muito agradável.
Malditos israelenses!
Eles não queriam que nós produzíssemos nosso leite.
Quando eles apareciam na minha cidade, Beit Sahour,
morávamos bem na entrada da cidade,
começávamos a assobiar, algo assim:
Para mim, como um adolescente naquela época,
era sobre a diversão, e provar que podíamos
parar carros, vans e produtos israelenses
que chegavam em nossa cidade.
Se um caminhão da Tnuva aparecesse,
começávamos a jogar pedras no caminhão.
Estávamos preocupados que Beit Sahour
se tornasse um modelo para outras cidades.
Certamente estávamos preocupados que contaminasse outros lugares
e se espalhasse para outras localidades
da Cisjordânia.
Eu joguei pedras. Peguei uma pedra e joguei,
e lembro que quase fui preso.
Eu estava há uns três metros dos soldados
porque eles nos cercavam,
e quase me pegaram.
Foi um momento de muito medo e tensão.
Foi no segundo ou terceiro dia,
depois que as vacas chegaram,
um amigo meu, que era procurado pelo exército israelense,
ouviu as pessoas sugerirem:
"Por que você não vai dormir na fazenda?
Já que você é procurado, e não pode voltar para casa."
Estou ouvindo algo.
Olhe!
Eu vi esse garoto aqui na noite passada.
Ele foi embora antes de amanhecer.
Ei, garoto!
Garoto!
Qual é seu nome?
O Anton nunca me contou onde passava as noites.
Ele nunca me contou onde dormia.
Passei muitas noites preocupada com ele.
Principalmente no inverno.
MÃE DO ANTON
Eu tinha uma cama quente prepara para ele,
mas ele não aparecia.
Ele me assegurava que não estava passando frio.
Eu mal pregava os olhos nas noites frias,
imaginando onde ele estava, se ele estava dormindo bem,
se ele estava aquecido.
Anton foi muito ativo durante a primeira revolta.
Ele vinha dormir na fazenda.
Nós sabíamos disso,
mas, por questões de segurança, nós não falávamos com ele.
Nós o conhecíamos e confiávamos nele.
E ele também nos conhecia e confiava em nós.
Ele tinha ideias brilhantes.
Ele falava sobre a Intifada, sobre o que ele significava,
sobre como devíamos lidar com o exército.
Quando o Anton nos visitava e falava sobre política,
ele falava com muita propriedade.
Anton Shomali é meu primo.
Em Beit Sahour,
todo mundo é primo ou padrinho de alguém.
porque só há cinco ou seis famílias.
A cidade inteira é como uma grande família.
Quando ficamos sabendo sobre as vacas
nos falaram sobre o estábulo e fomos procurá-lo.
Inclusive eu mesmo fui procurar o estábulo,
para descobrir o que eles faziam.
Não eram só as vacas e o leite. Havia...
havia hortas, plantações de tomate, batata,
criação de galinhas e coelhos, etc.
Portanto, era um conjunto de atividades
em que a comunidade estava trabalhando.
Todo mundo contribuía com aquilo que conseguia,
e ninguém ficava em casa.
Nós conseguimos desenvolver um movimento em direção
à nacional autossuficiência.
Toda pessoa que possuía um pedaço de terra,
não importando se pequeno ou grande,
começou a plantar tomate e feijão.
Lembro que, na casa dos meus pais, tínhamos 300 pintinhos,
no bairro inteiro,
Isso fazia parte do projeto da cidade, sabe?
CASA DO AYMAN, 1989
No último ano, em Beit Sahour,
tivemos um toque de recolher que durou 12 dias.
Nós tínhamos 80 pintinhos.
Essas aves alimentaram a vizinhança inteira.
E então,
como se estivesse escrevendo uma nova página de um livro.
você passa a decidir o que quer,
e isso vem bem de dentro,
não importa se você tem 60 anos ou mais,
20 anos ou mais, até mesmo 10 anos.
Se é homem ou uma mulher.
A sociedade inteira estava em completa harmonia.
Em total sincronia.
Uma fórmula mágica, que leva a uma nova era.
Meus pais sempre me falaram sobre a Palestina
por meio de histórias.
Uma maneira semelhante a contos de fadas para crianças.
Nelas, os palestinos tinham superpoderes.
Eles podiam escalar árvores, pular de um prédio a outro.
Eu nunca imaginei a Palestina
como um lugar que existia de verdade.
Para mim, era mais como a vila dos Smurfs,
ou o paraíso.
Nossa fazenda de vacas virou
um local de piquenique para os moradores de Beit Sahour.
Todo os dias recebíamos muitos visitantes,
inclusive famílias, que iam visitar as vacas.
E algumas crianças queriam até mesmo alimentar as vacas.
A ocupação israelense foi pega de surpresa.
Eles nunca pensaram que os palestinos podiam
ter essa capacidade de organização.
E que seriam capazes de fazer uma resistência civil massiva.
E tiveram de se ajustar a isso.
Os soldados israelenses saltaram do jipe
e se aproximaram de mim perguntando:
"Você é o Dr. Majed Nassar?" Eu respondi que sim.
"O que você está fazendo?"
"Estou limpando a rua".
"Por quê?"
"Porque queremos manter nossas ruas e cidades limpas".
Ele perguntou: "a prefeitura não faz esse serviço?"
"Sim, mas nós estamos ajudando a prefeitura".
Para eles, era um sinal de que havia algo errado acontecendo,
se um médico estivesse varrendo a rua,
e a Intifada era mais do que apenas atirar pedras
ou queimar pneus.
Mais tarde, recebi um telefonema dizendo que eu deveria
comparecer ao complexo militar de Belém, no dia seguinte.
Eles nos chamavam bem cedo, e nos colocavam numa sala.
Na sala, também havia muitos amigos e conhecidos
que também foram chamados,
e ficávamos sentados, sem fazer nada.
Eu estava sendo detido, porque eu era
um dos que pararam de pagar impostos
às autoridades de ocupação.
Eles queriam uma espécie de vingança.
Era uma forma de nos obrigar...
a obedecer.
E isso poderia durar dias.
No fim do dia, nos mandavam pra casa,
e no dia seguinte nos chamavam de volta...
Mas conseguimos transformar essa detenção diária
em algo completamente diferente do que pretendia Israel.
Levávamos livros conosco,
Levávamos comida conosco,
e transformamos a sala
num local de zombaria.
E algo ficou muito claro:
mentalmente, éramos superiores a eles.
Já que não podiam nos intimidar,
o que restava era decidirem nos bater
ou nos colocar na prisão.
Essas duas opções estavam na mesa, e isso para nós era...
um risco calculado.
SHALTIEL LAVI, GOVERNADOR MILITAR DE ISRAEL
Tínhamos diretivas rigorosas para lidar
com quem formava o Comitê de Vizinhos.
Com toda a força necessária,
e os meios legais à nossa disposição.
Para controlá-los e prevenir a possibilidade
que eles estabelecessem um aparato administrativo
que ao final estaria destinado a substituir o nosso.
Eu estava ciente das vacas.
Mas com 18 vacas,
não é possível criar uma produção leiteira viável
para uma pequena quantidade de pessoas,
o que dirá para uma cidade.
Nunca levei aquilo muito a sério.
Éramos três amigas.
Tínhamos medo de comprar todas as cores de uma vez.
Então cada uma de nós comprou uma cor.
E uma de nós comprou a cor restante.
Quando juntamos todo o pano, fomos para minha casa,
onde eu tinha uma máquina de costura escondida.
Uma fez os cortes,
a outra fez a costura,
e a outra ficou de vigia.
Tínhamos medo dos soldados.
Durante a Intifada,
todas as bandeiras foram costuradas por nós.
Ficávamos profundamente emocionados
toda vez que víamos nossa bandeira nacional.
Talvez porque nós estávamos proibidos de usá-la,
nós a protegíamos.
Israel estava muito preocupado
que o exemplo de Beit Sahour pudesse se espalhar,
e eles enfrentassem...
uma guerra de desobediência civil massiva em todo o país.
Situação em que eles poderiam perder
a capacidade de controlar a vida dos palestinos.
E uma ocupação sem controle, não funciona.
Me deixe em paz, pequeno terrorista!
Um dia apareceu o governador militar com seus soldados
na fazenda.
A primeira coisa que fizeram,
foi tirar uma foto de cada vaca,
com o número no corpo delas.
Ele nos disse
que tínhamos de tirar as vacas de lá e nos livrar delas.
Quando eu perguntei por quê,
ele disse com estas exatas palavras:
"Essas vacas são perigosas para a segurança do Estado de Israel."
Eu respondi: "Não consigo entender.
como 18 vacas podem ser perigosas
para a segurança do Estado de Israel?
Isso é muito estranho."
Ei! Você não deveria fazer isso!
Ela é apenas uma bebê!
Ele disse: "Você não tem permissão para falar ou para questionar,
isso é uma ordem militar.
Você tem de cumpri-la.
E você está proibido de voltar à fazenda.
E se eu souber que você voltou lá uma única vez,
Você será preso."
O governador militar nos deu 24 horas
para fechar a fazenda.
Ou do contrário, ele ameaçou demoli-la completamente.
Sobre o que eles estão falando?
Estamos fritas.
- Obrigado. - Obrigado.
Nós temos um açougue, meu marido é açougueiro.
Um dia, Jalal veio falar conosco
Ele nos disse que precisávamos esconder as vacas,
porque os israelenses estavam ameaçando demolir o estábulo
e matar as vacas.
Se não agíssemos rápido,
pela manhã as vacas já teriam sido mortas.
No dia seguinte,
o governador militar foi até a fazenda.
Quando ele chegou, as vacas não estavam mais lá.
BOICOTE AOS PRODUTOS ISRAELENSES
Acho que ele ficou maluco.
E ele emitiu uma ordem militar
para iniciar uma campanha de busca das vacas.
Centenas de soldados participaram nessas buscas.
Até dois helicópteros.
População de Beit Sahour.
Libertem as vacas e vocês não terão problemas.
E começamos a ver o exército israelense
não com uma lista de palestinos procurados
e sim de vacas procuradas.
Sabe, virou uma piada mesmo,
ver o exército israelense procurando pelas vacas da Intifada.
Eles levavam as fotos das vacas nas mãos
E perguntavam: "Você viu esta vaca?"
PROCURADA
Quando as vacas estavam na fazenda,
eles sabiam onde elas estavam.
Agora...
as 18 terroristas,
quero dizer, as vacas, não estavam mais lá.
Ou seja, era mais perigoso para a segurança do Estado de Israel.
População de Beit Sahour.
Por ordem do governador militar,
será iniciado um toque de recolher até segunda ordem.
Droga, de novo não!
Espere, estou escutando música.
Mais alguém está ouvindo?
Nós combinávamos com nossos comitês, algo como:
hoje, ao meio-dia, tocaremos Umm Kulthum.
Colocávamos alto-falantes nas janelas,
durante o toque de recolher, na cidade toda.
Todo mundo então escutava a mesma música.
O objetivo do toque de recolher é quebrar a moral da população,
as confinando numa grande prisão, que seria a cidade.
E dentro desta grande há as celas,
que seriam as casa ou apartamentos.
Mas não funcionou.
Isso por causa da habilidade dos palestinos
de se adaptar de forma altamente criativa.
Muitas pessoas compravam araque, whisky ou nozes,
e jogavam cartas.
Naquela época, pelo menos nos dois primeiros anos da Intifada,
quase todas as pessoas em Beit Sahour sentiam que estávamos vencendo.
E que nós tínhamos a iniciativa e eles estavam na defensiva.
Nós éramos determinados.
E eles se precipitavam sem saber o que fazer.
A campanha de busca durou oito dias.
Estou frita.
Finalmente, eles...
ficaram sabendo onde as vacas estavam.
E eles foram à casa que pertencia ao açougueiro.
Merda, vocês de novo!
É claro que estávamos com medo.
Seria mentira eu dizer que não.
Medo do que poderiam fazer comigo e meu marido.
Eu me fiz de boba.
Eles queriam saber onde as vacas estavam.
"Se não querem que tenhamos vacas,
por que deixaram que fossem vendidas a nós?"
"Se não queriam que palestinos tivessem vacas."
"Não sabe que compramos as vacas em Israel?"
"Acha que foi em Londres ou na África?"
"Nós as compramos em Israel."
"Por que deixaram que comprássemos as vacas?"
"Vocês sabiam que nós fomos buscá-las,
por que nos importunam?"
"Devolvam nosso dinheiro que entregaremos as vacas."
Ele disse não.
E eu respondi que não entregarias as vacas.
Vai lá, irmã.
"Nós pagamos por essas vacas."
"É um direito nosso ter um açougue."
"É um direito nosso ter um açougue."
"Vamos abater e vender a carne."
"Vai nos impedir?"
Nos atormentaram por muitos dias.
O açougueiro também foi preso.
Ele ficou na prisão por alguns dias.
Sentimos muita pena pela situação dele.
E decidimos que...
que era melhor encontrar outro lugar para as vacas.
Elas não entendiam, claro, o que estava acontecendo.
Mas como estavam sempre se mudando,
eles sentiam que algo estava acontecendo.
As vacas se tornaram uma espécie de ativistas políticas
ou algo assim, sabe?
Não consigo. Não posso continuar.
É preciso, Ruth.
Não há escolha.
Quando os israelenses te perseguem,
não querem que você se sinta tranquilo.
É a mesma história com as vacas.
Vacas com palestinos causaram problemas a Israel.
Acho que as vacas estavam experimentando
um pouco de nossas vidas,
mudando, escapando de um lugar para outro.
ESTÁBULO DA FAMÍLIA SIHAM
Um dia, Jalal falou que precisávamos esconder as vacas.
Admito que no início eu não gostei da ideia.
Eu fiquei com medo.
Eu estava preocupada que os israelenses
machucassem meus filhos ou meu marido.
Discutimos a questão das vacas.
Era uma questão de interesse nacional.
Era nosso dever dar abrigo a elas.
Como você está se sentindo?
Oh, estou muito cansada.
Tudo poderia ter sido diferente.
Sabe? Poderíamos ter aprendido a viver lado a lado.
Meninas, acho que estou grávida.
O quê? Quem é o pai?
Eu não sei.
Você só acorda e...
bum, está grávida.
De manhã bem cedo, fomos ao estábulo
para tirar leite.
Às vezes, eu subia até o segundo andar do estábulo
onde guardávamos os alimentos das vacas.
Lá havia vários colchões
onde muita gente dormia.
Debaixo dos colchões
havia bandeiras, estilingues,
livros do alcorão e da bíblia,
havia muçulmanos e cristão.
Eu nunca os via.
Eles saiam antes do dia clarear.
Anton era o responsável por organizar as operações.
Ele sempre estava presente nas manifestações.
Ele estava conservando com o pessoal e planejando o que fazer.
Eu disse a ele: "Você vai morrer por essa causa."
"Acha que vão te colocar num lugar como Yasser Arafat?"
"Você está se doando demais."
Ele disse: "Nunca se sabe quem será o próximo."
Na Síria, eu me lembro de ter visto Arafat na TV muitas vezes.
Proferindo discursos políticos
sobre a Palestina se tornar um país
e refugiados voltarem para casa.
Era fascinante ouvi-lo.
População de Beit Sahour
por ordem do governo militar,
começará um toque de recolher até segunda ordem.
Com o tempo, as autoridades da ocupação israelense
perceberam que não haveria como
forçar os habitantes de Beit Sahour a pagar impostos.
Havia vários impostos, no consumo, na renda.
Mas eles não pagavam eletricidade.
Não pagavam água, telefone, etc.
Soldados e cobradores de impostos,
estavam nas ruas parando todo mundo.
Se seu nome estivesse na lista, eles poderiam confiscar o carro,
fazer prisões e assim por diante.
Foi uma operação muito bem planejada,
que durou quase 40 dias.
Todo dia escolhíamos alguns indivíduos alvo,
que não pagavam impostos.
Os procurávamos no local de trabalho, no comércio, em casa,
para confiscar algo para pagar os impostos.
Muitas, senão todas as pessoas,
foram sujeitas a assédio, prisão, confisco ou interrogatório
diferentes fases dessas práticas repugnantes.
Havia um armário grande aqui.
A mesa de jantar ficava aqui,
com seis cadeiras ao redor,
uma cadeira, duas cadeiras, três cadeiras nesta área.
Você vai pagar seus impostos?
Só posso pagar meus impostos
ao meu próprio governo representativo.
Não posso pagar impostos
aos ocupantes que me tratam como escravo.
Eles ameaçaram fechar minha farmácia,
retirar minha licença e expropriar minha casa
se eu não pagasse.
Eu disse que poderiam fazer o que fosse,
mas não me forçariam a pagar.
Se eu estivesse no lugar deles,
eu não iria querer pagar impostos.
Eu só pago impostos para o meu próprio governo.
Em tempos de toque de recolher,
eu tinha de usar um pseudônimo para atender os pacientes.
Era a forma de violar o toque de recolher e ir até os pacientes.
E naquela época eu ainda tinha outro problema,
durante os longos dias do toque de recolher, que era:
Quem iria distribuir o leite?
A ideia de que aquelas vacas eram capazes de produzir leite
durante o toque de recolher,
o que significava ter de distribuir o leite entre a população,
davam às pessoas uma forte consciência
do que estavam fazendo.
Eles nos arrancaram de nossas casas,
durante essas batidas de cobrança de impostos,
eles prenderam muitos de nós, torturaram,
fizeram de nossas vidas um inferno.
Yitzhak Rabin foi quem se posicionou
e prometeu aos israelenses
que deixaria Beit Sahour de joelhos.
E que a população de Beit Sahour
faria fila para pagar os impostos.
Pessoas em todos os lugares pagam impostos.
Portanto, temos que lidar com eles
como pessoas que violaram a lei.
Principalmente quando eles tentam dar a esta violação da lei
um significado político.
Foi exatamente a estupidez do governo israelense
que espalhou a história de Beit Sahour
por todo o mundo.
Eles se excederam em suas condutas
a ponto de todos que observavam a situação
perceberem que essa ocupação é absurda.
Quaisquer que sejam os acertos e erros da greve fiscal,
feita pelos cidadãos de Beit Sahour,
o devido processo legal deve ser seguido.
Não pode haver desculpas para o confisco ilegal e arbitrário
de mobiliários, utensílios domésticos ou maquinário
que fornecem o sustento de pequenos comerciantes.
Expressamos nossa séria preocupação
às autoridades israelenses,
e pedimos o fim do bloqueio de Beit Sahour.
Durante os toques de recolher, as pessoas desaparecem das ruas.
E os alimentos desaparecem das prateleiras.
E as pessoas se cansam disso.
Na maioria das vezes, não funciona.
Mas quando funciona, a cidade inteira
se torna uma grande prisão.
Acho que em geral as pessoas,
depois de quatro anos de prisões constantes,
quando suas vidas ficam completamente em suspenso,
começam a se sentir cansadas.
Pelo lado civil,
e isso ficou claro ao longo do tempo,
como resultado de nossas ações,
a população se cansou.
Cansaram do tanto de propaganda que fazíamos.
Cansaram de fazer greve, de fechar as lojas.
e cansaram de boicotar os produtos israelenses.
Foi um processo bastante lento,
mas no final alcançamos o objetivo,
que era acabar com a Intifada.
Vamos lá, garota, você consegue!
Empurre!
Apenas respire, querida.
Ela ficou horas sofrendo de dor.
Quando vieram as contrações, ela gritava de dor.
Dava para ver lágrimas saindo dos olhos.
Fiquei muito tocada com aquilo. Uma vaca chorando.
Era como uma mulher dando à luz na minha frente.
Algo está errado.
Empurre, Goldie, empurre!
Segure no meu casco, Goldie!
Ficamos a noite toda esperando
essa vaca dar à luz.
Goldie?
Eram gêmeos, bezerros gêmeos.
Um deles sobreviveu,
o outro morreu.
E após dar à luz...
ela começou a esmorecer...
para morrer.
Goldie?
Você está bem?
Goldie!
Acorde!
Acorde!
O primeiro-ministro israelense Yitzhak Rabin,
o presidente dos EUA Bill Clinton,
e o presidente da OLP Yasser Arafat
assinaram um acordo revolucionário.
ACORDOS DE OSLO, 1993
Em Oslo, se estabeleceu as bases essenciais
para cada lado alcançar seus objetivos.
As coisas começaram a mudar
no sentido de que perdemos
a capacidade de tomar nossas próprias decisões.
Do exterior, veio a interferência,
a decisão de desistir das ações da Intifada,
em favor das negociações.
O povo daqui foi abandonado por sua liderança.
E não me refiro à liderança interna, mas da externa.
Não era do interesse deles
que a Intifada continuasse e crescesse.
Eles queriam reprimi-la
para que, em algum momento,
não houvesse mais liderança vinda de dentro,
da própria luta,
que influenciassem as posições deles.
Após os Acordos de Oslo,
as pessoas começaram a colocar rosas nas armas dos israelenses.
Aqui em Beit Sahour.
Eu me lembro de pessoas nos carros celebrando.
Em toda a Cisjordânia.
Para nós, foi tipo:
"Mas que merda é essa? É muito cedo."
Estavam nos ferrando e eles celebrando.
Eu me lembro...
de muitos dias
em que dirigíamos para o deserto a leste de Beit Sahour,
e ficávamos horas e horas naquele deserto
porque não queríamos ouvir o barulho dos carros buzinado.
Celebrando os Acordos de Oslo.
Nos sonhávamos com mais do que isso.
Sonhávamos que a Intifada traria
liberdade e independência para o povo palestino.
Estivemos muito perto.
Pelo menos, era o que pensávamos,
que estávamos bem perto de conquistar nosso país.
Não precisavam mais das vacas de Beit Sahour.
Não precisavam mais daquela agricultura.
E nem mais da própria Intifada.
Arafat tinha tomado sua decisão.
Não faça nenhuma estupidez, Anton.
A Intifada acabou.
Eu e meus parceiros,
decidimos fazer uma última manifestação.
Quase tudo tinha retrocedido.
E pensamos em tentar fazer mais uma manifestação.
Eles conseguiram romper os bloqueios das vias,
e então começamos a correr.
Anton e outro cara estavam vindo em nossa direção,
então eu os chamei para se esconder conosco,
mas eles acharam que seria perigoso.
E só um minuto depois,
ouvimos...
três tiros.
As pessoas começaram a gritar:
"Atiraram no Anton!"
A vizinhança começou a agir de forma estranha.
Havia um grupo de mulheres caminhando.
Elas se esconderam assim que me viram.
Senti que havia algo errado.
Perguntei a uma amiga se ela sabia de algo.
Ela disse que alguém havia sido morto.
Eu sabia que era o Anton.
Pela forma como aquelas mulheres se esquivavam,
eu sabia que era o Anton.
Logo eu encontrei uma amiga,
que estava saindo do hospital de cabeça baixa.
Era o fim.
Toda ocupação é maligna.
E temos que pagar um preço.
Para se livrar da ocupação, temos que pagar um preço.
É um preço muito alto.
Naquele dia, meu pai veio à minha escola
e pediu para me liberarem.
Ele me disse: "É seu primo, Anton."
Eu nunca conheci o Anton.
A primeira vez que o vi foi no cartaz.
Meu pai me levou à cerimônia em memória dele.
Achei que seria pequena,
mas quando chegamos lá,
a igreja estava lotada.
As ruas do lado de fora estavam lotadas.
Não acho que todos lá conheciam o Anton.
E não sei se aquilo era só pela memória do Anton
ou pela própria Intifada.
Me lembro que acabamos ficando com quatro vacas.
Pelos custos, não podíamos ficar com elas.
E as vacas acabaram no açougue.
Nós fomos traídas pelos israelenses e pelos palestinos.
Yara, me escute com atenção.
Eu quero que você corra, muito!
Você consegue fazer isso?
Corra por todas nós.
Mamãe, não!
Não!
Corra, Yara!
Corra!
Corra!
Ninguém sabe ao certo
para onde aquela bezerra branca foi.
Mas havia um boato na cidade
de que ela se escondeu no deserto.
Já se passaram vinte anos.
Talvez ela seja uma vaca velha, vivendo em uma dessas cavernas.
Talvez ela até pense em voltar para Beit Sahour.
Ou talvez ela esteja morta.
E eu esteja atrás apenas de um fantasma.
Mas às vezes, para sentir que a vida ainda vale à pena,
é necessário acreditar em algo.
Eu decidi acreditar em uma vaca branca
vivendo em uma caverna.
Aqueles foram os anos mais apaixonantes da minha vida.
Eu era um adolescente.
Vivi meu primeiro amor, minha primeira paixão.
A primeira pedra, o primeiro enfrentamento.
A primeira mão quebrada pelo exército.
Tudo era vivido no limite.
No limite.
Conseguimos alcançar, com nossos valores humanos,
e sem violência,
grandes coisas,
que nenhum exército do mundo conseguiria.
Aprendi muito, cresci muito.
Moldou, de certa forma, meu futuro.
Honestamente, não me arrependo.
A única coisa que lamento é ter perdido um bom amigo.
Passei mais de vinte meses na prisão,
onde amigos, irmãos, foram mortos.
Para chegar até isso...
Não digo que me arrependo.
Não é bom sentir arrependimento.
Mas sinto que paguei com parte da minha vida.
Perdi amigos, perdi anos de vida,
eu e meus irmãos na prisão,
por nada...
Nós éramos como reis.
Éramos mestres do nosso próprio destino.
Nós ditávamos o tom.
Estávamos cheios de iniciativa.
Tínhamos uma vida plena.
Completa, eu diria.
Alguns anos após a Intifada,
fui convocado à sede da Administração Civil
em Beit El.
Para minha surpresa, entrei em um escritório
e lá estava o antigo governador militar israelense.
Percebi que ele fora promovido
após a história da vaca
e se tornou conselheiro para assuntos árabes.
Ele apertou minha mão
e só conversou comigo.
Não fui convocado para interrogatório,
não havia nada importante a dizer naquela época.
E durante a conversa, ele fez uma pergunta estúpida:
"Onde estão as vacas?"
Tradução e legendas: Troskim.
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