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HIST�RIAS DE UMA VIDA
Cala a boca, rafeiro!
Cala a boca!
Coitadinho... Tratam-te t�o mal!
Porque atirou pedras ao c�o, Sr. Dujeux? Ele n�o lhe fez nada!
- N�o para de ladrar! - Isso n�o � raz�o.
� raz�o, sim. N�o aguento mais! N�o consigo dormir! Ladra dia e noite!
- Porque est� infeliz. - Quero l� saber!
Venha comigo, Paul.
Meu comandante!
Bom dia.
O gabinete do respons�vel?
Segunda porta � esquerda, meu comandante.
Chefe-adjunto Dujeux. �s suas ordens, meu comandante!
- Porque � que o c�o ladra assim? - � o c�o do detido, meu comandante.
O famoso c�o...
- Quantos detidos tem, de momento? - S� um, meu comandante.
O senhor foi � guerra?
Com certeza, meu comandante. Era ca�ador, fui ferido duas vezes.
A primeira, no ombro e a segunda... no Mame.
- Foi por isso que desde ent�o, eu... - Sim.
H� algum hotel aqui perto?
O Hotel dos Viajantes fica a 100m da Pra�a Principal.
- � modesto, mas... - Servir� perfeitamente. Paul?
Reserve dois quartos no hotel e deixe l� a bagagem.
- E depois venho busc�-lo? - N�o � preciso, vou a p�.
Indica-me o caminho?
Vamos l� ver o detido.
Ele tamb�m ladra de noite?
De noite tamb�m.
E as pessoas da zona n�o se queixam?
J� n�o h� por a� muita gente, depois da guerra.
Al�m disso, acho...
Com o devido respeito, meu comandante...
Eles lembram-se que estas celas estavam cheias de gente
sujeitos a tribunal marcial, por querem salvar a vida.
Isso quer dizer que tomam partido do prisioneiro?
N�o dele, em especial, mas ele � o �ltimo.
Al�m disso, esta hist�ria do c�o comove as pessoas.
� aqui.
De p�, Morlac!
Em sentido!
Tudo bem, Dujeux. Pode retirar-se.
Sou o chefe de esquadr�o Lantier du Grez, encarregado de julgar o seu caso.
Deixe-se estar assim, n�o me incomoda.
Bom...
Morlac... Jacques.
Agricultor na vida civil.
Mobilizado em Maio de 1915.
� isso.
Devem t�-lo considerado o sustento da fam�lia, e deram-lhe adiamento.
Depois foi afectado � zona de Champanhe.
E depois a sua unidade recebeu ordens para se juntar ao Ex�rcito do Oriente.
Chegou a Sal�nica em Junho de 1916.
Essa campanha nos balc�s nunca me convenceu.
N�s, no Somme, sempre consider�mos os tipos do Ex�rcito do Oriente
como uns cobardolas, com uma bela vida na praia.
Foi l� que se distinguiu.
Os meus parab�ns.
Deve ter sido uma ac��o de bravura excepcional para lhe darem a Legi�o de Honra.
Sobretudo, sendo um simples cabo. Deve sentir-se orgulhoso, n�o?
N�o percebo como � que algu�m que recebe a Legi�o de Honra
pode ser culpado daquilo que o acusam.
Depreendo que estivesse b�bedo...
A guerra destruiu-nos a todos, somos tomados por recorda��es...
E para lhes escapar, bebemos um copo.
E um copo a mais.
Foi certamente isso.
Apresente as suas desculpas, mostre-se arrependido e ficamos por aqui.
N�o estava b�bedo e n�o me arrependo de nada.
E ningu�m me obrigar� a pedir desculpa.
Tem o c�o h� muito tempo?
Desde o princ�pio.
Princ�pio de qu�?
Desde que a guarda me foi buscar.
N�o me arranja um cigarro?
S� tenho de enrolar.
E depois, agruparam-vos em Nevers para apanhar um comboio para leste.
E o c�o?
- O teu nome? - Morlac.
- Que n�mero cal�as? - O 42.
V� l�, vamos l�!
Anda!
Vem!
Passei parte da guerra com os ingleses no Somme. E muitos deles tinham c�es.
Quando me entregaram o seu caso, pensei neles.
Voc� criou com o animal um companheirismo de armas.
Isso constar� do meu relat�rio, contar� a seu favor.
N�o quero que escreva isso. � falso!
Nunca assinarei!
Calma, Morlac, o que foi que lhe deu?
Eu agi contra os oportunistas que enviam os outros para morrer em seu lugar!
O hero�smo, a coragem, o patriotismo!
Ainda h� desgra�ados que acreditam nessas parvo�ces!
O que diz � inaceit�vel, est� a insultar a Na��o!
A Na��o...
Eu j� dei muito � Na��o.
Chega.
Hoje ficamos por aqui.
Bom, o Hotel dos Viajantes...
Quando passar a pra�a principal, v� logo.
Deves ter sede, a ladrar dessa maneira...
Anda c�.
� chic�ria, n�o se arranja caf� a s�rio.
Norbert Seignel. Jurista.
Comandante Lantier du Grez, juiz militar.
- Est� aqui por causa do Morlac, n�o �? - Sim, � isso mesmo.
Conhece-o?
Gra�as � profiss�o e � idade, conhe�o toda a gente aqui na vila.
E mesmo na regi�o.
Quando o vi passar no 14 de Julho com o c�o,
estava longe de imaginar tal desfecho.
- O que pensou? - Fiquei muito surpreendido!
N�o se esperava tal coisa!
Antes da guerra, era um tipo pacato, um rapaz como os outros.
- Frequentou � escola? - Pouco.
Ap�s a escola comunal, foi para o campo ajudar o pai.
- Tinha amigos? - Camponeses como ele.
Encontravam-se nos dias de mercado ou em bailes ocasionais.
� o que eu penso, mas...
N�o se pode saber tudo.
- Algum envolvimento pol�tico? - Que eu saiba, n�o.
Mas aqui as pessoas votam como vota o padre.
N�o tinha mulher?
Acho que tinha.
O senhor que conhece toda a gente, deve saber quem �.
� a Valentine Dupraz.
Vive � sa�da da aldeia de Loges.
Ela tem fam�lia?
Morreram todos numa epidemia de sarampo.
Mas ela tem um filho.
De que idade?
Acho que tem tr�s anos.
� do Morlac?
N�o sei dizer.
N�o se pode saber tudo.
- Tenha um bom dia! - Igualmente!
Senhores...
Uma on�a de tabaco, por favor. E mortalhas.
Aqui tem, senhor...
- Capit�o. - Comandante.
E d�-me um isqueiro tamb�m.
Obrigado.
Adeus, senhores.
� o juiz militar, veio por causa do Morlac.
- N�o parece muito divertido. - Coitado do Morlac.
Ele � que n�o se devia ter posto com brincadeiras! Agora bem pode chorar.
Ningu�m est� a chorar. O Morlac � um casmurro.
� como o c�o, n�o p�ra de ladrar.
Como se chama a rapariga que quem o Morlac andava?
Valentine.
T�m um filho.
- � dos dois? - Dos tr�s ou quatro... Ou mais, sabe-se l�!
Estejam calados! Se fal�ssemos assim das vossas mulheres nas vossas costas...!
N�o te irrites, Mathilde. E serve aqui mais uma!
De p�, Morlac. Em sentido!
Muito bem. Obrigado, Dujeux.
Est� mais calmo?
Podemos recome�ar.
Fic�mos l�. Voc�s foram para leste.
O que aconteceu l�?
Ensinaram-nos a ser bons soldados.
Boa carne para canh�o.
E depois, direitos para a batalha.
Safa! O teu c�o � o melhor!
Teve uma licen�a nos primeiros seis meses?
Sim.
- Veio para aqui? - Sim.
- Com o seu c�o? - N�o, ele ficou l�.
A malta cuidou dele.
Depois foi transferido para o Ex�rcito do Oriente. Embarcou num barco militar.
N�o, era um cargueiro requisitado.
Morlac!
Olha o teu c�o!
O que traz ele na boca?
Toma l�! Um presente!
Deita!
Os oficiais aceitaram a presen�a do c�o?
Eles n�o apareciam.
Ficavam na messe, para n�o os vermos vomitar.
- E os oficiais subalternos? - Os oficiais subalternos...
At� lhes dava jeito que o c�o limpasse os por�es...
E como foi a chegada a Sal�nica?
Que s�tio t�o estranho! Nunca vi tanta gente diferente.
Havia franceses, ingleses, italianos, gregos...
tamb�m s�rvios, senegaleses,
arm�nios, albaneses, turcos...
At� anamitas!
Mas quem mandava era um general franc�s?
Mas comandava o qu�?
Ningu�m falava a mesma l�ngua! Ningu�m sabia o que fazer.
Fic�mos uns dias no porto, para descarregar o barco
com as gruas velhas que estavam sempre a avariar.
Isto n�o funciona.
Obrigado.
Os oficiais chegavam montados a cavalo.
Davam ordens e contra-ordens.
Ningu�m percebia nada.
Por fim, partimos sem saber para onde ir.
Mas depressa percebemos.
Quando nos cruz�mos com os desgra�ados que vinham da frente...
... percebemos que nos enviavam para uma matan�a.
Mas que matinal, Sr. Comandante! Ainda n�o abri a sala.
Mas sente-se. Eu preparo-lhe o pequeno-almo�o.
Conhece a aldeia de Loges?
Fica na estrada de Saint-Amand.
- Posso ir a p�? - Fica um bocado longe,
mas se quiser, empresto-lhe a bicicleta do meu defunto marido.
Mas tem de baixar o selim, ele era mais baixinho.
Senhor, senhor!
Por favor! A aldeia de Loges � por aqui?
- L� em cima, � esquerda. - Obrigado.
Bom dia.
� a Valentine Dupraz?
Sim, sou eu. Porqu�?
Sou o juiz encarregado do caso de Jacques Morlac.
J� desconfiava.
Podemos conversar? � sombra?
Venha.
Sente-se.
- S� tenho xarope. - Serve muito bem.
Obrigado.
� verdade que a sua fam�lia morreu numa epidemia de sarampo?
A minha m�e e a minha irm�. Sim.
E o seu pai?
Tamb�m morreu, mas n�o de sarampo.
Ent�o veio para c� quando os seus pais morreram.
Porqu� para aqui?
Aqui tenho a minha horta, as cabras.
N�o presto contas a ningu�m, entende?
H� quanto tempo conhece o Jacques Morlac?
�s tu, o Jacques Morlac?
Sim, porqu�?
- Disseram-me que vendes feno. - Sim.
Preciso para as minhas cabras.
O Lachat � que ma arranjava, mas morreu. Preciso doutro fornecedor.
De quanto precisas?
De uma carrada pequena.
Levas-mo?
Onde?
- Loges, conheces? - Sim.
Quando l� est�s, viras � direita. A minha casa � a seguir.
Eu dou com ela.
At� amanh�.
At� amanh�.
Aonde vais assim vestido?
Vou entregar feno.
E aperaltas-te todo para entregar feno?
Fico com um ar mais respeit�vel.
Arranca!
Respeit�vel?
Vestes-te sempre assim para entregar feno?
E tu usas sempre uma blusa branca quando trabalhas na horta?
Deves ter sede com este calor.
Tratamos do feno depois.
- Como � que ele se chama? - N�o se chama.
- N�o tem nome? - Dou-lhe comida e festinhas,
mas n�o me apetece dar-lhe um nome.
Vives aqui sozinha?
Sim, porqu�?
- Os teus pais? - Morreram.
Lamento.
Gostas de ler?
Depende.
J� leste "Os Tr�s Mosqueteiros"?
N�o. Enfim, ainda n�o.
L�. Vais gostar.
S� tenho xarope.
Se s� tens xarope, ent�o bebemos xarope.
Podes tirar o casaco, ficas mais � vontade.
E isto tamb�m...
E isto...
Ele n�o me morde, n�o?
N�o sei, j� vais ver.
Volto amanh� para tratar do feno.
Valentine?
Chega, Louis! Sei que foste tu!
N�o me obrigues a apresentar queixa � guarda!
- �s tu! - Quem � o Louis?
� um rapaz meio tonto que vive aqui ao lado.
N�o � perigoso, mas um dia tentou beijar-me.
� natural...
Gostei de "Os Tr�s Mosqueteiros".
- Leste um bocado? - Li-o todo!
Todo?! Mentiroso!
Ent�o faz-me perguntas.
Quem � a Sra. Bonacieux?
- A amante de d'Artagnan. Faz mais uma. - Deixa ver...
- A Milady de Winter? - � uma bela cabra.
E tu gostas de belas cabras...
P�ra!
P�ra!
- P�ra! - Espera...
Vou dar-te uma coisa mais s�ria.
Vais ler este.
"Os sofrimentos do jovem Werther".
"A vida humana � um sonho."
"J� outros o disseram antes de mim, mas esta ideia persegue-me."
"Esgotamo-nos a satisfazer as nossas necessidades,"
"e essas necessidades n�o fazem mais do que prolongar a nossa exist�ncia miser�vel."
� verdade, n�o �?
N�o sei.
- N�o percebi bem. - � Goethe, um escritor alem�o.
Este livro era do meu pai.
Ele tamb�m era alem�o. E judeu.
Na catequese falaram-nos dos judeus.
Ent�o esquece, os padres n�o percebem nada de judeus.
- J� leste esses livros todos? - Quase todos.
- Deves ter aprendido muita coisa. - Alguma.
E eu que n�o sei nada...
Isso n�o te incomoda?
N�o, n�o me incomoda.
O que me incomoda � que te v�s embora.
Amanh� direi � minha m�e que venho viver para aqui.
- E ela concordar�? - Vou dizer-lhe, n�o vou perguntar.
� realmente inquietante, mas n�o est� nada decidido.
- Um queijinho de cabra? - N�o, obrigada.
Dois queijinhos de cabra, mas n�o muito secos.
Acredita, o Georges conhece o vice-prefeito e ele confirmou.
Sempre � verdade?
N�o podemos ficar de bra�os cruzados e deixar que os alem�es fa�am o que querem!
� verdade, mas e a guerra?
N�o te preocupes, segundo o Coronel Rancet, n�o vai durar muito.
Foi ele que jantou l� antes de ontem?
Ele mesmo, querida. Ele disse que daqui a tr�s semanas, a nossa cavalaria estar� em Berlim.
Tr�s semanas?!
- Chefe Gabarre? - Ol�, Valentine.
- O tonto voltou a incomodar-te? - N�o � isso.
� verdade que v�o declarar a guerra?
N�o me dou com as altas esferas.
Deixe-se de evasivas, responda!
Vamos afixar a ordem de mobiliza��o geral amanh� de manh�.
Vendeste tudo?
Que se passa?
O que tens?
Amanh� � a mobiliza��o geral. Tens de te esconder.
Onde? Debaixo das tuas saias?
N�o tem piada! Eles vir�o buscar-te!
Sou o sustento da fam�lia.
Se a guerra n�o acabar, levar�o os homens todos.
Acalma-te.
A guerra ainda n�o come�ou.
Tem calma...
V� l�, tem calma...
Quero que fiques comigo.
Eu estou aqui.
Estive na vila.
E ent�o?
N�o trago boas not�cias.
Os boches resistem h� dez meses.
Os generais querem mais homens.
Os homens todos.
Vou ser mobilizado, Valentine.
Valentine!
N�o vai durar muito. Ser�o s� uns meses.
Somos mais que eles, eles n�o resistir�o.
Valentine?
Valentine...
Aonde vais?
Morlac!
Vou j�.
E n�s? E n�s?
Calma, Morlac. Vais sufoc�-la!
Calados!
- Ol�, meus parvos. - Ol�, Jacques!
Sabe de que o acusam?
Sim, mas n�o percebo raz�o para o executar por tal parvo�ce.
Sobretudo depois de lhe terem dado a Legi�o de Honra.
Um insulto � Na��o. Chama a isso parvo�ce?
Podemos ter em considera��o o m�rito dele, mas para isso, ele ter� de pedir desculpa.
Que diga que bebeu ou arranje outro pretexto, sei l�.
E ele recusa-se a faz�-lo?
N�o s� se recusa, como agrava o caso, fazendo declara��es irrespons�veis.
Desculpe.
Pronto, j� est�.
O caso Morlac ser� certamente um dos meus �ltimos casos.
Pode ser ego�sta, mas se conseguisse salv�-lo, partiria aliviado.
Mas ele parece estar decidido a ser condenado!
N�o sei porqu�.
Foi por isso que vim procur�-la, para ver se me ajuda.
- Tenho uma pergunta indiscreta. - Fa�a-a.
- Aquele menino � dele? - Sim.
- Ele sabe que tem um filho? - Escrevi-lhe, mas n�o recebi resposta.
Talvez ele n�o tenha recebido a carta.
Os meus respeitos, meu comandante. Sargento-Chefe Gabarre.
Bom dia, Chefe. Calha bem encontr�-lo.
- Tem uns minutos? - �s suas ordens, meu comandante.
Venha comigo.
Aqui t�m, duas cervejas.
Conhecia este Morlac, antes do seu feito glorioso?
- Um tipo estranho. - Estranho como?
N�o sei bem explicar, meu comandante.
N�o era muito soci�vel, quase n�o aparecia.
E a Valentine Dupraz?
Isso j� � outra coisa.
O pai dela era judeu alem�o.
E era membro da Internacional Oper�ria. Era um pacifista convicto.
Foi preso e...
Morreu na pris�o de Angers.
Penso que de tuberculose.
E a m�e dela?
Era daqui da zona.
Foi para Paris, aprender a costurar. Foi l� que conheceu o emigrante.
- Quer ser �til? - Sim, meu comandante.
Tente descobrir porque � que o Morlac n�o procurou a Valentine quando regressou.
- N�o vai ser f�cil. - Conto consigo.
Se descobrir alguma coisa, procure-me.
Comandante...
Ainda aqui est�s?
�s t�o casmurro como o teu dono!
Ora bem...
Se queres que ele saia, mostra-lhe que tem de pedir desculpa.
E depois, poder�o partir juntos.
Valentine!
Chefe Gabarre!
Falei com o Juiz Lantier.
Confia nele, � um homem compreensivo.
Ele s� quer uma coisa.
Libertar o Morlac!
Mas o Morlac insiste em ser condenado.
Sabes porqu�?
N�o.
- Tens a certeza? - Sim.
O Morlac veio ver-te, quando foi desmobilizado?
N�o tem nada com isso.
N�o me respondas assim. S� quero resolver as coisas.
O assunto � nosso, ningu�m tem nada que ver com isso.
No 14 de Julho, porque foste ver o desfile?
Fui como toda a gente.
N�o ter�s ido ver o Morlac?
N�o sei, talvez.
N�o me contas nada?
N�o, nada mesmo.
- Que se passa? - Onde est� o c�o?
- O c�o...? - Sim, onde est�?
H� bocado, estava ali deitado, meu comandante. Estava nas �ltimas.
- Julguei que tinha morrido. - Onde est�?
Em casa da velha, ao fundo da rua, eu mostro-lhe.
Ali ao fundo � esquerda, na primeira casa.
Vim ver o c�o.
J� viu em que estado o deixaram? Pobre bicho...
Ladrar assim sem parar, ao calor. Deu cabo dele!
Do que ele precisa...
... � de sombra, de comida e �gua.
Mas assim que melhorar, voltar� a ladrar diante da pris�o!
Canalhas de militares!
O Morlac cuspiu-lhes na cara! E eles vingam-se.
O bando todo!
Vendedores de canh�es...
Aqueles que mandaram os nossos meninos para a morte...
Como o meu filho
e os meus tr�s netos.
- Os quatro? - Sim.
No mesmo ano.
Em '15.
Os infelizes!
Se condenarem o rapaz, ser� uma grande injusti�a!
Mas n�o far� grande diferen�a...
Bebe, meu lindo!
Sim, meu lindo, bebe!
Mas quem � o senhor?
- Um amigo. - Do c�o?
Do c�o e... do dono.
Desculpe, tenho de ir. Obrigado... por ele.
Tens amigos muito estranhos...
Dou-vos o 15.
Bom dia, Comandante.
Lamento interromp�-lo, Paul, mas leve-me � pris�o.
- Perrine! - Sim, minha senhora.
De p�, Morlac! Em sentido!
Deixe estar, Dujeux, pode retirar-se.
Aviso-o j� que hoje ser� mais demorado.
Ora bem...
Quanto tempo ficou na frente?
Um ano.
Um ano de sofrimento para nada.
As ofensivas mal-amanhadas, a mal�ria, a disenteria...
E o que aconteceu em '17?
Os b�lgaros � nossa frente estavam entrin- cheirados, e n�s tamb�m nos enterr�mos.
Como em Fran�a...
As trincheiras, as casamatas...
E havia mais grupos aliados convosco?
Sim.
Espere, eu mostro-lhe.
N�s est�vamos aqui.
� esquerda, havia anamitas, uns desgra�ados...
O que faziam eles ali? Com o frio, ficavam roxos e j� n�o se mexiam.
Os b�lgaros, � frente...
E � direita, os russos.
Mas esses sabiam o que era o inverno.
As linhas quase se tocavam.
Eles tinham uma cadela.
O meu c�o foi atr�s dela.
E um dia, fui atr�s dele.
Tudo bem?
Ele � russo.
� franc�s! Anda c�!
- � o teu c�o? - Sim.
Falas franc�s?
Sim, um pouco.
O que � que ele canta?
Na nossa terra, h� revoltas em todo o lado.
Os oper�rios, as mulheres... Revoltam-se como os camponeses.
E dizem que j� n�o querem a guerra!
Demasiados mortos e mis�ria!
Sim, como no nosso pa�s.
Camaradas!
O Czar abdicou!
Os Czares! Acabou-se!
Acabou-se!
Que se passa? O que est�o a dizer?
O Czar! Acabou-se o Czar!
- O Czar abdicou! - Abdicou?
� revolu��o!
� vit�ria!
Na Zdorovie!
Ouviste? � a revolu��o, meu filho!
Est�s a ver?
� por ele que estou contente!
Pela sua vida, que ser� mais bela que as nossas!
E tu, tens filhos?
Sim.
Tenho um filho.
Estou farto deste buraco.
N�o podemos ir l� para fora?
Sim, vamos apanhar ar.
Vamos para o p�tio.
Meu comandante, o regulamento...
O regulamento fa�o-o eu. Venha, Morlac.
E como � que os russos souberam da queda do Czar?
Disse-me que n�o tinham comunica��es.
Mas os b�lgaros n�o. Recebiam not�cias e passavam-nas aos russos.
Mesmo estando frente a frente, nas trincheiras?
Sim, eles s�o todos primos. Russos, b�lgaros...
- E foi isso que desencadeou tudo. - Desencadeou o qu�?
O senhor n�o pode compreender.
N�s est�vamos nos abismos do inferno.
Mas algures, um povo expulsou um tirano.
A revolu��o tinha de continuar! N�o s� na R�ssia, mas em todo o lado!
E a primeira coisa a fazer, era p�r fim � guerra.
A sua revolu��o tem outro nome: chama-se um motim.
O senhor n�o compreende.
N�o quando s�o os dois lados da frente. O que era preciso era confraternizar!
� ambicioso, mas n�o muito realista... E os oficiais, partilharam o mesmo ideal?
N�o.
N�o os pusemos a par.
N�o pertenciam � nossa classe.
E qual era o seu plano?
N�o era complicado.
Os russos sabiam que havia muitos b�lgaros fi�is � causa.
Ao sinal, sa�amos todos das trincheiras e apert�vamos a m�o aos da frente.
E isso repetir-se-ia em todo o lado. Na frente oriental, mas tamb�m em Fran�a!
Confraternizar! Mandar a guerra � merda!
Sair dos nossos buracos de ratazanas!
Mas de p�, percebe? De p�!
Como homens! Finalmente, homens!
E o que acabou por acontecer?
Marc�mos para 12 de Setembro, �s quatro da manh�,
um pouco antes do nascer do sol, para n�o ficarmos muito �s escuras.
O sinal era a Internacional.
Os b�lgaros come�ariam a cantar, e n�s, franceses e russos, cantar�amos em coro!
�s quatro da manh�,
quando os ouvimos a cantar diante de n�s...
N�o imagina o que sentimos.
Foi um salve-se quem puder!
Uns minutos antes, �amos confraternizar, e acabamos a matar-nos � baioneta!
Foi pavoroso.
Tudo por causa dum c�o.
Para ele, os tipos da frente eram inimigos.
Passada uma hora, t�nhamo-los empurrado.
A nossa artilharia come�ou a metralhar,
sem perceber que j� t�nhamos passado as linhas b�lgaras.
E n�o falharam, os idiotas!
Foi a� que fui ferido.
Aqui est� ele.
Na linha da frente,
o Cabo Jacques Morlac p�s pessoalmente fora de combate 9 soldados-rasos inimigos.
Essa her�ica ac��o marcou o in�cio da vitoriosa contra-ofensiva das nossas tropas.
Em nome do Presidente da Rep�blica e pelos poderes que nos foram conferidos,
armamo-lo Cavaleiro da Legi�o de Honra.
Despachem-se, despachem-se!
Durante muito tempo, estive zangado com o meu c�o.
Sentia-me capaz de o matar.
E de repente, percebi.
Ele � que foi o her�i!
Leal, at� � morte, corajoso, sem d� dos inimigos...
Ele � que mereceu a minha Legi�o de Honra!
Quando percebi isso, perdoei-lhe.
Ele seguiu a sua natureza, tem uma desculpa.
Mas quem nos enviou para o massacre n�o tem desculpa!
As suas cita��es, as medalhas... Fazem isso para que nos batamos como c�es!
Bom...
Est�s com melhor cara.
A velhota tratou-te bem!
Sim, est�s farto.
Eu tamb�m.
Mas j� n�o falta muito tempo...
N�o te preocupes.
Louis!
N�o tentes escapar, eu encontro-te sempre!
Aproxima-te!
Sempre �gil, n�o �?
Mostra l� o que escondes a�.
Bravo! Linda truta!
E ent�o, Louis...?
Continuas a ir visit�-la, � Valentine?
N�o, juro que n�o!
N�o jures, Louis, eu sei que mentes!
� mais forte do que tu.
Claro que se n�o a incomodares, podes ir v�-la de vez em quando.
Mas de longe!
Louis, preciso que me ajudes.
Deves-me isso, n�o?
J� te safei muita vez, n�o �?
Conheces o Morlac?
Foi para a guerra.
Melhor!
Sim, foi, mas j� voltou.
Sabes bem.
Sim, Louis, tu sabes. Vais ver a Valentine todos os dias.
Eu conhe�o os teus h�bitos.
De manh�, escondes-te ao p� da horta dela
para a ver debru�ada sobre a hortali�a.
E � tarde, passas atr�s da casa dela,
para a espiar quando ela ordenha as cabras.
- Eu n�o lhe toco. - Acredito, mas pensa l�...
Depois de voltar da guerra, viste o Morlac em casa da Valentine?
- N�o sei. - Deixa-te de hist�rias, Louis!
Ele foi l� ou n�o?
- Sim. - Quando?
N�o sei as datas.
- Antes do desfile. - Muito bem...
E falaste com ele?
N�o.
- Explica-te! O que foi que ele fez? - Estava escondido.
Mas eu escondo-me melhor. Ele n�o me viu.
- Estava a ver o menino. - O menino?
N�o se deve ver bem, de longe.
Um dia, aproximou-se muito.
Ent�o a Valentine viu-o.
N�o, n�o podia ver.
Estava a ordenhar as cabras.
- Foi a �nica vez que o viste? - N�o.
Vi-o outra vez.
Quando ela estava gorda.
Gorda... Gr�vida?
Jacques?
Jacques, p�ra!
- Jacques! - Larga-me!
�s completamente doido! Deixa-me explicar! Jacques!
Jacques!
De certeza que n�o inventaste isso?
- Eu n�o minto. - Acredito.
Espero que digas a verdade.
Meu comandante!
- J� n�o tem idade para estes exerc�cios! - Obrigado, meu comandante!
- Procurava-o, tenho novidades. - Conte l�.
- O Morlac foi l� quando ela estava gr�vida. - Teve outra licen�a?
- Tr�s dias, para o funeral da m�e. - E claro que foi ver a Valentine.
Sim, mas quando l� chegou, viu um rapaz a lavar-se l� fora.
A Valentine apareceu � porta, e o Morlac veio-se embora.
- Tem a certeza? - Absoluta, meu comandante!
Bom trabalho, participarei aos seus superiores.
- Obrigado, chefe. - Obrigado, meu comandante!
Valentine?
- O que faz aqui? - Queria falar consigo.
Entre, convido-a para jantar.
- N�o. - Venha! V�...!
Quando conheci o Jacques, ele vivia na quinta.
Mas ningu�m o consideraria um campon�s.
H� seres assim.
Mas era ing�nuo.
N�o se apercebeu da gravidade das coisas, quando a guerra estalou.
Tentei explicar-lhe, emprestei-lhe certos livros...
Coma um bocado.
V� l�!
No in�cio, teve dificuldades, mas insistiu por minha causa.
Era a sua maneira de me dizer que me amava.
E levou um ou dois livros, quando foi mobilizado.
E levou o meu c�o.
Pode achar esquisito, mas quando o animal seguiu o Jacques para a guerra, fiquei feliz.
Pelo menos, levava um pouco de mim.
- E ele escrevia-lhe? - No in�cio, quase todas as semanas.
E um dia, veio de licen�a.
"O homem � naturalmente bom."
Este Jean-Jacques Rousseau � mesmo parvo!
Ele quer dizer que � a sociedade que torna os homens maus.
Que no fundo, o homem � bom. � isso?
Resumindo, sim.
N�o deve ter visto a guerra de perto...
� na guerra que os homens mostram a sua verdadeira natureza.
Matamo-nos uns aos outros, degolamo-nos no cheiro a gangrena,
de mortos que secam, presos no arame farpado...
... da putrefac��o.
Todos esses cheiros desta guerra de merda...
E quanto tempo � que ele ficou?
Duas semanas, o tempo de eu engravidar.
Eu sabia que ia acontecer, desejava-o.
Mas n�o lhe disse logo, esperei para ter a certeza.
Weber.
Morlac.
Chardon.
Loubiot.
A minha carta levou tr�s semanas a chegar!
Por causa da porcaria da censura!
O que tens? Tens um ar esquisito...
Vou ser pai.
Parab�ns, meu velho! Vamos festejar!
Sim...
Quando penso em que mundo vai nascer... Coitado do mi�do...
Sim.
Como lhe vais chamar?
Ele escreveu-me que estava feliz
e pediu que lhe chamasse Marie, se fosse menina, e Jules, se fosse menino.
Depois foi dif�cil.
Eu estava sozinha, � espera duma crian�a.
Escrevi ao meu padrinho,
um pacifista ferrenho que apoiava militantes que tinham desertado.
Disse-lhe que podia acolher um.
Como eu estava gr�vida, ele podia ajudar-me na horta e com as cabras.
Ele mandou-me um jovem que se queria esconder.
- E contou isso ao Morlac? - Devia t�-lo feito. Isso teria evitado...
Que ele o descobrisse?
Como sabe?
Porque sei que ele teve outra licen�a e que ele o viu sair de dentro de sua casa.
Garanto-lhe, senhor!
Nunca houve nada entre mim e o rapaz!
Nunca deixei de pensar no Jacques, eu s� o amava a ele!
S� o amo a ele.
�s vezes, de noite, vou l� fora e chamo-o, como se ele pudesse aparecer.
E voltar para mim.
Acha que sou doida.
De maneira nenhuma.
E ele nunca mais lhe escreveu?
Nunca mais.
E comunicou-lhe o nascimento do filho?
Sim, mandei fazer uma fotografia na vila.
Mandei-lha, nunca soube se a recebeu.
E quando a guerra acabou?
S� voltei a v�-lo quando fez o esc�ndalo e o prenderam.
Foi visit�-lo � pris�o?
Evidentemente. V�rias vezes. Mas ele n�o quer ver-me.
E o seu c�o? Porque o deixou ali?
Tentei lev�-lo para casa, mas ele n�o quis ir.
Suplico-lhe!
Diga-lhe que venha, eu e o filho esperamos por ele.
N�o � poss�vel!
- Ele n�o fez de prop�sito! - Ent�o h� que ter mais cuidado!
- Chega, v�o-se embora! - Sra. Perlinot, s� um sorrisinho!
- Fora, fora! - Ainda n�o paguei, envie-me a conta!
Sim, eu mando-a ao teu pai! V�, v�o!
Fora, fora!
Fora!
- Boa noite, Sr. Seignel. - Boa noite, Perrine.
Boa noite, Paul. Boa noite, menina.
- Foram dar um passeiozinho? - Sim, meu comandante.
Fizeram bem, est� mais fresco l� fora. At� amanh�, jovens.
Boa noite, comandante.
N�o consegue dormir?
Est� demasiado calor.
Isso n�o me aborrece. Seja como for, durmo pouco.
� curioso, se pensarmos...
Na verdade, temos o mesmo of�cio.
O mesmo of�cio?
A Justi�a, homem!
Eu sou jurista, o senhor � juiz...
Somos duas engrenagens da Justi�a.
A Justi�a...
Antes da guerra, eu era um jovem militar de carreira, idealista.
A honra, a tradi��o, a p�tria... Acreditava nisso tudo.
Nessa altura, � que eu devia ter sido juiz.
Teria condenado os homens, sem afli��es morais.
E teria feito muito bem, � assim que deve ser.
A Justi�a existe para proteger a sociedade.
Proteger de quem?
Quem � culpado? Quem � inocente?
� verdade que � complicado avaliar.
H� sempre alguma inoc�ncia no culpado e culpabilidade no inocente.
Essa afirma��o � sublime!
"A inoc�ncia no culpado e a culpabilidade no inocente".
Completamente incompreens�vel, mas muito belo. Boa noite.
Igualmente.
Paul?
V� buscar a minha mala e meta-a no carro.
Penso que vamos partir � tarde.
Aproveite a manh� para se despedir.
- E depois v� buscar-me � pris�o. - Muito bem, meu comandante.
Talvez seja a �ltima vez que nos vemos.
Vou sentir a tua falta...
Bom dia.
V� buscar o prisioneiro. Quero acabar o meu interrogat�rio no seu gabinete.
Meu comandante, o regulamento n�o autoriza a que...
J� lhe disse que esque�a o regulamento, fa�a o que lhe mandei.
- N�o tenho o direito de... - Ent�o vou eu busc�-lo.
Mas, meu comandante...!
Morlac, venha comigo, por favor.
Sente-se, Morlac.
- Deixe-nos a s�s. - Mas, meu comandante...
V�.
Este c�o � comovedor.
Ladra assim, porque sabe que voc� est� aqui.
Bom...
Retomemos os factos de que o acusam.
Estamos a chegar ao fim da instru��o.
Tudo aconteceu a 14 de Julho de 1919, na pra�a principal.
Em nome do Presidente da Rep�blica,
em recompensa da sua obedi�ncia cega,
da sua submiss�o aos poderosos
e dos seus instintos mais bestiais que fazem de si um her�i...
armo-o...
... Cavalheiro da Legi�o de Honra!
Ele � louco!
Guardas! Prendam este homem!
Larguem-no!
Larguem-no!
Voc�s bem veem que ele n�o sabe o que faz!
Jacques! Diz-lhes!
Diz-lhes!
Diz-lhes, Jacques!
Larguem-no!
- Larguem-no! - Acalme-se!
Sabia o que tal acto lhe podia custar?
V�, fuzile-me.
- Queria ver-me, meu comandante? - Sim, Lantier.
O adjunto Picard comandar� o pelot�o de execu��o do desertor Martel.
O senhor ir� representar o Conselho de Guerra.
Zele para que tudo se passe depressa e bem.
- Posso recusar, meu comandante? - Sim.
Se quiser dar por si na outra ponta da espingarda.
Deixe-se de afli��es morais, Lantier.
E n�o me venha chatear, n�o � oportuno.
- Pode retirar-se. - �s suas ordens, meu comandante.
Preparar!
Fogo!
Vou confessar-lhe uma coisa, Morlac. Come�amos a conhecer-nos bem.
Tudo nos op�e.
Eu fui para a guerra por voca��o, e voc� por obriga��o.
No entanto, estes quatro anos aproximaram-nos.
Quatro anos a viver em casamatas, a ser alvo dos mesmos tiros...
a contar os mortos...
Custa-me dizer-lhe, Morlac, mas dou-lhe raz�o.
Era preciso acabar com a guerra.
N�o entanto, esta cena rid�cula,
este ultraje � Na��o... N�o posso aceit�-lo.
E n�s temos de aceitar que nos atirem medalhas como ossos a c�es?
E voc� achou que ia inverter a ordem, dando a sua medalha ao seu c�o?
Pensou mesmo que o seu golpezinho de esplendor iria alterar a face do mundo?!
Era um princ�pio.
Vou dizer-lhe porque � que cometeu esse acto.
Diga, sou todo ouvidos.
Porque queria magoar a Valentine.
Porque haveria eu de lhe querer fazer mal?
Porque pensou que ela o tinha enganado.
E acha bem?
- Enganar um homem que foi para a guerra? - E tem a certeza de que ela o enganou?
- Eu assisti. - N�o.
- Assisti! - N�o, acreditou que sim.
Mas n�o assistiu. E fugiu.
H� outra coisa que nos distingue dos animais: � o orgulho.
A verdadeira raz�o da sua conduta foi o seu orgulho.
Em vez de ir ter com a Valentine e de lhe exigir a verdade,
preferiu armar uma confus�o. Fez o esc�ndalo por ela, contra ela.
- N�o � verdade. - Sim, � verdade.
Eu disse que tentaria compreend�-lo,
mas relativamente a essa quest�o, n�o consigo acompanh�-lo.
E como os meus superiores me deram liberdade de avaliar, eis a minha decis�o:
vai procurar a Valentine e ouve-a at� ao fim.
E sentir� vergonha por a ter julgado t�o mal e t�o depressa.
Acha que ela me vai receber de bra�os abertos?
N�o conhece as mulheres.
E tu conheces?
Quantas conheceste?
E o senhor?
Mais do que tu, de certeza. Ao longo do tempo...
Bom, o assunto est� encerrado.
Vai ter de assinar uns pap�is, mas depois...
Est� livre.
N�o vou l�.
� tarde demais.
Adeus, Morlac.
Vens despedir-te de mim?
Quem me dera levar-te...
V�... Vai ter com o teu dono.
Vamos embora, Paul.
Anda c�!
Desculpe se � indiscreto, mas queria perguntar-lhe se...
... se o assunto se resolveu bem.
Sim, espero que sim.
E a sua quest�o, Paul? Com a pequena...?
Parece-me que sim, esperamos voltar a ver-nos.
Que bom...
Um filme de
HIST�RIAS DE UMA VIDA inspirado no conto de
Adapta��o dos di�logos
com a prest�vel colabora��o de
M�sica original
Fotografia
Montagem
Produ��o
Produ��o
Tradu��o SARA DAVID LOPES
Ripadas e sincronizadas por: RicardoB/2019
HIST�RIAS DE UMA VIDA
FIM
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