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INSPIRADO EM FACTOS REAIS
Diz-me, tiveste de tocar na pilinha do teu pai?
Não.
Podes dizer-me. O pai pediu que mentisses?
Não.
Isto já está com melhor aspecto.
Há quanto tempo está a trabalhar no caso?
Oito meses.
O julgamento começa daqui a dez dias.
Venha comigo.
Hoje em dia, a maior parte das pessoas faz isto no computador.
Eu ainda uso papel.
O que é isto tudo?
Dossiers do processo.
- E aquilo? - As minhas questões.
Que questões?
Ambiguidades que existem nos dossiers.
Coisas pouco precisas.
Coisas que saltam à vista.
Não é como na televisão.
A defesa baseia-se maioritariamente na preparação e na leitura dos dossiers.
Qual é a nossa oportunidade agora?
Os depoimentos das crianças.
Há muita coisa errada neles.
- São contraditórios, irrealistas. - Mas os juízes acreditam nas crianças.
O Procurador Público e a imprensa,
a maior parte dos advogados.
Mas a coisa mais importante,
da qual tudo depende,
é a testemunha especializada do tribunal.
Porquê?
Normalmente, os juízes avaliam se uma testemunha diz ou não a verdade.
Mas, às vezes, têm dificuldade em fazê-lo.
Por exemplo, se for um louco a testemunhar.
Estará a dizer a verdade, mesmo que esteja a bater com a cabeça na mesa
de dois em dois minutos, durante a inquirição?
É difícil fazer essa avaliação.
- Como uma criança. - Exactamente.
Os testemunhos de crianças são com frequência difíceis.
As crianças dizem a verdade. As crianças mentem.
Como todos nós.
O problema é que, por vezes, as crianças não distinguem entre verdade e mentira.
Acreditam que está um monstro dentro do armário.
Viram-no, ele rugiu.
Sim.
E quando as crianças relatam um abuso...
devemos ser particularmente cautelosos.
É improvável que eles inventem uma coisa daquelas, mas é possível.
Como se chega à verdade?
Nesses casos, os juízes nomeiam normal- mente uma testemunha especializada,
um perito psicológico,
que supostamente os aconselhará, ajudará...
Está bem...
O nosso problema é este perito.
Porquê?
Ele nunca avaliou depoimentos de crianças antes.
Dizer que ele fez um trabalho muito desleixado, é usar um eufemismo.
Ele não teve em conta as contradições nos depoimentos
ou então não reparou simplesmente nelas.
A influência exercida sobre as crianças, embora seja óbvia,
nem sequer é mencionada no relatório.
Ele nem comparou os diferentes depoimentos.
Não viu simplesmente centenas de pequenas coisas, mas...
... receio que os juízes irão atrás da opinião dele.
Então, será uma questão...
... de arranjar um perito independente,
alguém de fora, que recomece tudo de novo.
E se o novo perito disser que é verdade?
Bem, nesse caso, é assim mesmo...
A sua mulher era muito bonita.
O senhor não é culpado da morte dela.
Isso não é da sua conta.
Esse perito...
é capaz de descobrir se alguém está a mentir?
Bem, nunca é certo.
Os chineses...
Um deles disse uma vez:
"Se uma pessoa coça a cabeça, está a mentir."
Isso é um disparate.
Foi estudado.
Há centenas de estudos científicos sobre isso.
Se as pessoas coram, suam, se olham para o tecto...
- Nada disso tem significado. - Então, o que é que tem?
Há toda uma gama de critérios de credibilidade.
Pormenores estranhos, narrativa errática,
falhas de memória, dúvida, incerteza, e assim por diante.
E neste caso?
As crianças foram influenciadas pela Reuth.
Algumas chegaram a fazer 35 depoimentos com ela,
e os depoimentos continuam vagos.
Nada é espontâneo.
Deviam estar a dizer o que a Reuth queria ouvir.
Porque é o tribunal a nomear o novo especialista?
Porque, em teoria, um especialista é tão bom como outro qualquer.
Provas intermutáveis.
Está com medo desse especialista.
Sim.
O que vai fazer?
Logo verei.
E se o primeiro especialista não aparecer no tribunal?
Deixe-se disso.
Muito bem. Como queira.
O senhor é que decide.
- O que diz o Perez? - Não nos pode ajudar.
Diz que não tem nada que ver com isto.
Preciso que ele saia, tenho de falar com ele.
Porque não pode falar com ele na prisão?
Na prisão, ele não me responderá.
Porque é que tem um peixe?
Estou a tentar mudar a minha vida.
Os seus honorários até agora foram transferidos.
Está bem.
Tenho outra coisa para si.
Venha comigo.
O que...
Uma prenda da cliente.
Mandei-o arranjar.
Tive de o vender há quatro anos, depois de o ter durante quinze.
Onde é que o encontrou?
Não compreendo porque é que conduz uma coisa destas.
Os bancos parecem um sofá velho.
Demasiado grande e lento, sem nada eléctrico e nem sequer tem GPS.
Este carro tem um leitor de cassetes e um rádio.
A cor chama-se "bege areia".
O senhor é que sabe.
Encontramo-nos em dois dias em Ottern.
Doutor?
Sim?
A sua mulher morreu há cinco anos.
Não quero que isso interfira no seu trabalho.
Vá-se lixar.
Merda...
Sim?
- Bonito. - O quê?
- Tive um igual. - Sim, está bem.
- O quê? - Tenho de pensar, deixe-me em paz.
Tem algum problema comigo?
Tenho um problema com toda a gente.
Que idiota!
- Dr. Schlesinger. - A Azra está?
Sim. O carro amarelo na ponte.
O amarelo...
Pois...
- Pode dar-me a chave do quarto? - Claro.
- Um quarto diferente, desta vez, talvez? - Lamento.
JULGAMENTO CONTRA DONO DE BAR COMEÇA ESTA SEMANA.
NÃO FOI ELE QUE COMEÇOU O CÍRCULO DA PORNOGRAFIA INFANTIL?
ELE ERA O CHEFE.
PENA DE MORTE PARA ESSES CABRÕES.
VIOLADORES DE CRIANÇAS DEVIAM SER PENDURADOS PELOS TOMATES.
ELE ERA ESTRANGEIRO?
O ADVOGADO DELE NÃO É MELHOR.
Malditos advogados!
Violadores de crianças!
Abusadores de crianças!
Abusadores de crianças!
EU DEFENDO ABUSADORES DE CRIANÇAS
Não tem importância. Era amarelo, de qualquer maneira.
- Vou tratar disto... - Não vai nada.
O julgamento é daqui a uma semana.
Agora temos de nos centrar nas provas, não nestes disparates.
São uns idiotas bêbedos, nada que nos ajude.
- É um carro de aluguer. - Não é, não.
Ligo-lhe mais tarde.
Mais café?
- Sim. - Bom dia.
- Aquele carro é vosso? - Não.
- Podem responder à vez? - O carro não é meu nem dela.
Está hospedado no hotel?
- Vítima. - Como?
O meu quarto tem 5 metros quadrados, e não tem mesa nem cadeira.
Está hospedado, então.
O Tribunal Constitucional Alemão
considera que celas de prisão com menos de 6 metros quadrados
são instalações desumanas.
Desculpe?
O meu quarto neste hotel é comparável a uma cela de alta segurança
em que trancam os prisioneiros com tendências suicidas
ou que destruíram o mobiliário da sua cela.
- Ou ambas as coisas. - Como?
Mas eu não tenho tendências suicidas,
ou não tinha, antes de me instalar naquele quarto.
Também não roubei nada.
Portanto, sou mais uma vítima do que um hóspede.
O Dr. Schlesinger é advogado e é nosso convidado.
Óptimo.
E viu alguma coisa ontem à noite?
Vi.
E então?
Quem foi?
Quatro homens bêbedos com capuzes na cabeça.
Todos entre 1,60m e 1,90m.
Todos com roupas escuras.
Nenhum deles visivelmente gordo ou magro,
ou com quaisquer características particulares.
Falavam alemão.
Não os vi chegar nem partir num veículo.
Usaram barras de ferro e tacos de basebol.
Porque é que não interveio?
Era só um carro.
Eu tenho 61 anos.
Porque não chamou a polícia?
Porque vocês teriam vindo.
Com as luzes azuis a piscar e as sirenes aos gritos,
a apontar lanternas para todo o lado, todos muito excitados.
Teria de me ter levantado, vestido e descido para ir falar convosco.
Àquela hora não havia café. Não me apeteceu.
É só um carro.
- É o seu dever. - Não é nada.
- O ataque foi dirigido a si? - Como?
"Defendo abusadores de crianças".
No original, falta uma letra.
Desculpe?
"Defend abusadores de crianças", faltava o "O".
- Era dirigido a si? - Não sei.
Estão neste momento 40 advogados neste hotel.
- Por causa do julgamento? - Não.
Os advogados viajam sempre em matilha para os hotéis. Está na natureza deles.
Importa-se de responder de maneira razoável?
- Tenho de ir. - Alto.
Alto?
O que é isto? O controlo fronteiriço?
- Tem de me acompanhar à esquadra. - Não, isso é que não tenho.
Se o Procurador lhe der ordens para me interrogar,
cumprirei com todo o gosto o meu dever cívico,
e dir-lhe-ei na esquadra exactamente o mesmo que lhe disse aqui.
Mas só nessa altura.
Agora tenho uma reunião.
- Mas... - O quê? Sim.
Eu também digo isso. Nunca me leva a lado nenhum.
- Ele é doido? - É advogado.
A acusação rejeita moção dos acusados Meier e Göbel
por questões de parcialidade dos juízes do tribunal criminal.
A avaliação razoável de todas as circunstâncias
dá motivos para duvidar da imparcialidade dos juízes.
Contudo, a decisão de hoje em manter as audiências preliminares
não justifica de modo algum a substituição dos juízes judiciosos.
Espero que respeitem este pedido.
Na minha opinião,
não há, por conseguinte, a mais ligeira dúvida
de que as crianças disseram a verdade sem terem sido influenciadas.
TRIBUNAL DISTRITAL
Fuma?
Não, obrigada.
Isto é um mosteiro?
Sim.
Jesuíta, acho.
Muito bem.
É o advogado de defesa do Perez, não é?
Porquê?
Beate Lenzen, do "Semanário".
A coisa está feia para o seu cliente.
O que quer?
Quero saber como é que o vai defender.
- Tálio. - Desculpe?
Nos anos 50, usava-se tálio no veneno de ratos.
Em 1958, Maria Rohrbach foi condenada
por um júri a prisão perpétua.
Teria misturado veneno de rato no chá do marido ao longo de semanas.
Dizem que ele teve uma morte horrível.
Umas crianças encontraram o corpo desmembrado num lago próximo.
Só faltava a cabeça.
Alegadamente, terá sido ela que lha cortou.
Dizem que deitou o tronco, os braços e as pernas a um rio.
E que queimou a cabeça no fogão.
A mulher declarou à polícia que estava inocente.
Ninguém acreditou nela.
Estou inocente.
Estou inocente, por favor...
Um perito encontrou grandes quantidades de tálio no tronco do homem.
Veneno para ratos.
E encontrou também grandes quantidades de tálio
no tubo do fogão da mulher.
A conclusão clara do famoso perito:
A mulher queimou a cabeça para encobrir o homicídio.
Sem sombra de dúvida.
Toda a gente ficou convencida.
A famosa testemunha especializada, o advogado de acusação,
os jurados, a imprensa, as pessoas da rua.
O juiz ficou de tal forma convencido
que até ordenou aos gritos à mulher que parasse de mentir.
Ela foi condenada
e enviada para uma casa de correcção, como ainda se chamava na altura.
E depois?
Uns anos mais tarde, houve um Verão muito quente.
O pântano no leito do rio cuspiu a cabeça supostamente queimada do homem.
Um advogado mandou então examinar o fogão da testemunha especializada.
E o fogão do tribunal.
E uma série de outros fogões na cidade.
Todos com o mesmo resultado.
- Qual? - Tálio.
Em todos os tubos.
Porquê?
O tálio é uma componente absolutamente normal da fuligem.
E o tálio no tronco do homem que o perito encontrara?
Bem, isso foi um simples erro de cálculo.
Se os cálculos do perito estivessem correctos,
o homem teria tido de beber dois frascos de veneno de rato
mesmo antes de morrer.
O que é tecnicamente impossível.
Bastaria beber um para morrer imediatamente.
Qual foi o resultado?
A mulher foi absolvida em novo julgamento.
E como é que o homem morreu afinal?
Deve ter sido atingido pela hélice de um barco.
Outro homem foi encontrado nas mesmas águas.
Também desmembrado, também sem cabeça.
Também pela hélice de um barco.
A verdade não assenta sobre a maioria.
E é exactamente assim que o vou defender.
Sim, obrigado.
- Viva, Dr. Schlesinger. - Bom dia.
Que idade tens? Onze?
Está aqui há muito tempo?
Parece bastante evidente.
Sim.
Da rua não se vê.
Sabia que os koalas dormem 20 horas por dia?
Sim?
Só comem folhas de eucalipto.
Que são incrivelmente venenosas.
Dormem aquelas horas todas para processar o veneno.
Também são esquisitos quanto aos eucaliptos com que se envenenam.
- São animais amorosos. - Muito estúpidos.
Pelo contrário.
Compreendem o mundo.
O que vamos fazer agora?
A varanda. Chapéu-de-chuva vermelho.
Não...
Meu Deus...
Sacana, estás a defender violadores de crianças.
Está uma pessoa ali estendida.
Deve ser um bêbedo.
Deseja alguma coisa?
- Preciso da sua ajuda. - Para quê?
Abuso de crianças.
Desculpe?
Não o tema mais apropriado para um mosteiro.
O que preciso realmente é de uma mesa.
Deve estar a fazer qualquer confusão.
Não, de maneira nenhuma.
Preciso mesmo de uma mesa. Uma mesa grande.
O meu quarto de hotel é uma cela de prisão sem mesa.
Mas eu tenho dossiers e sem eles não posso trabalhar.
É advogado.
Sou advogado de defesa do processo.
Entre. Sou o padre Kappler.
Schlesinger.
Tem aqui imenso espaço.
Já só restamos quatro. Acho que ninguém cá virá.
O mosteiro existe há 700 anos.
O scriptorium.
Absolutamente perfeito.
Está vazio, de qualquer maneira.
Tem imensos documentos.
Sim, como lhe tinha dito.
- Quem está a defender? - Não tem acompanhado o processo?
Aqui em Ottern, não há como escapar.
O dono do bar.
É o terceiro processo, certo?
Sim.
Ele está inocente?
Só virei cá de vez em quando.
Durante as pausas entre as sessões ou à noite.
- Não se importa? - De todo.
Gosto de ver o espaço a ser utilizado novamente.
Obrigado.
A porta à esquerda da entrada principal está aberta durante o dia.
Pode entrar e sair como lhe aprouver.
Senão, bata à porta. Eu estou acordado até tarde.
Se precisar de alguma coisa, estarei algures no segundo andar.
Obrigado, Sr. Padre.
Quer assistir à missa? É...
Não.
- Porque não? - Deixei a sua igreja há muito tempo.
Isso não é razão.
Não foi propriamente por causa do imposto eclesiástico.
Já não acredita em Deus?
Não acredito no pecado, que vocês acham tão importante.
Torna as pessoas pequenas e feias.
Em que acredita, então?
No ser humano.
Tradução (do inglês) CLÁUDIA BRITO
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