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Original subtitles

SELECÇÃO OFICIAL FESTIVAL DE CANNES 2020

Produção

Argumento baseado na auto-ficção de

Um filme de

Desde Setembro que não fiz nada a não ser esperar por um homem.

Que ele me telefonasse ou que viesse ter comigo.

Continuei a trabalhar, ia ao cinema, às compras, lia...

Mas tudo o que fazia parecia ser...

... desligado da realidade.

Guardo vagas memórias da minha vida naquela época.

UMA PAIXÃO SIMPLES

Quando não conseguia dormir,

pensava no Porto, onde passei uma semana antes de o conhecer.

Lembro-me de todo o plano.

De todas as minhas caminhadas...

Lembro-me do meu quarto na ala do Hotel Albar.

Mentalmente, listo as coisas que poderiam ser encontradas lá.

Como todos os objectos, por exemplo.

Também penso na minha ida até à festa

onde o vi pela primeira vez nesse jantar.

Pensei em tudo o que aconteceu antes de nos conhecermos.

Como se um inventário perfeito me permitisse vivê-lo novamente.

Estou obcecada com a ideia de regressar ao mesmo quarto de hotel no Porto.

Desde que ele foi embora,

todas as minhas acções e pensamentos têm sido

uma repetição dos tempos antes de conhecê-lo.

Como se forçasse o passado a tornar-se de novo o presente.

Aberto à felicidade.

Não vou pedir-te nada.

- Mas tens mesmo de ir? - Sim.

- Fizeste os trabalhos de casa? - Iá.

Não se diz "iá", diz-se "sim".

O que comeste na escola?

Nada. Era ratatouille. Comida de cão.

Paulo...

Fica em Hiroshima comigo.

Ele caminha na minha direcção.

Pousa-me as mãos nos ombros.

Quer beijar-me.

Ele beija-me e eu fico perdida.

- Não há rede aqui? - Não faço ideia.

- Gostaste? - Dele sim, mas dela não.

Por que gostaste dele e não dela?

É igual em todos os filmes.

É uma mulher linda e cobiçada, habituada a estas coisas.

É uma fantasia masculina.

Há mulheres que nunca são amadas, embora sejam muito bonitas.

E mulheres menos bonitas que merecem amor e são invisíveis.

Estás a analisar demais, Hélène.

- Vamos tomar um copo. - Sim.

É o que está a dar agora. Há resmas de aplicações.

É possível ver quem está solteiro nas redondezas, inclusive na tua zona.

Experimenta. Funciona.

Nunca experimentei, mas a minha irmã continua a tentar.

Gostava de experimentar uma coisa desse género.

- Por que deveria eu tentar? - Porque estás solteira.

- Solteira? - Quase nunca vês o tipo.

Não acho que sejas como a mulher do filme.

Aqui serve?

Obrigada.

Tem um corpo e um rabo fantásticos.

- Isso ajuda. - Não, não se rale!

Um homem apaixonado fecha os olhos ao beijar?

Hélène...

Tem cuidado.

Ele é casado e vai voltar para a Rússia.

- Sê sensata. - Claro.

Esquece isso. A nós!

Não estou apaixonada por ele.

Não, é claro que não!

Pelo que dizes, estás apaixonada pelo amor em si.

No outro dia, quando fui buscar uísque à cozinha,

lembrei-me da minha tia.

A minha mãe sempre me disse

que a minha tia recebia a visita do amante à tarde.

Toda a aldeia sabia e contava fofocas sobre ela.

As pessoas culpavam-na por ser infiel

ou por fazer amor à tarde em vez de estar a limpar os vidros?

E pus-me a pensar nela com grande satisfação, não sei porquê.

É bom quando isso acontece. Eu cá acho que...

As mulheres que sentem uma necessidade repentina

e fogem da segurança e do tédio burgueses e são infiéis aos maridos

toca-lhes sempre um canalha que não tem nada a oferecer.

- Obrigadinha... - Não me refiro a ti.

"Uma mulher forte que desafiava as convenções da sociedade em 1660."

- Estou? - Tudo bem?

Sim.

- Então, e tu? - Estou bem.

- O que estás a fazer? - Estou a trabalhar.

- Podemos ver-nos? - Sim. Mas agora?

Daqui a vinte minutos. Pode ser?

Certo. Até já.

O amor é maravilhoso É fantástico

Demasiado complicado Para se explicar

Vai e vem em correrias É caprichoso

O amor é maravilhoso

É feliz ou infeliz É um dilema

Os amantes enfrentam Infinitos problemas

É um jogo perigoso Mas quando se ama

O amor é maravilhoso

Grita bem alto

Governa-nos a vida na Terra

Chora

E leva-nos as horas

O que quer que Façamos ou digamos

Quando nos ele arranca No seu redemoinho

Ganha proporções sobre-humanas

E quer se goste ou não Ele é uma corrente

Que nos mantém noite e dia

Sim, o amor é maravilhoso

Quero-te.

Mãe!

- Estou aqui há uma hora! - Porquê? Que horas são?

Que chata!

Não é caso para tanto!

Não podemos fazer nada a não ser nomear as coisas

e listá-las de forma banal e precisa, tentando não esquecer nada.

Tentando não esquecer nada...

- Onde estão os calções do futebol? - Os calções? Estão...

- Perdeste-os? - Não, eu vou encontrá-los.

Quem é esse tipo?

Não há tipo nenhum.

Cheree, Cheree

Meu amor

Meu amor

Amo-te

Cheree, Cheree

Minha fantasia em quadradinhos

Amo-te

Meu amor

Cheree, Cheree

Adoro-te, meu amor

Amo-te

Vem brincar comigo

Sonho em beijar-te há dias.

Meu amor

Amo-te

Amo-te, meu amor

Amo-te

Cheree, Cheree

- Sentes-te bem? - Sim.

Nunca senti isto com ninguém.

É tão bom foder contigo.

O objectivo da poesia é a poesia.

E nenhum poema é tão belo, nobre e digno de ser chamado assim,

como um poema escrito pela alegria de escrever poesia.

Baudelaire sabia disso.

Ele foi estigmatizado, humilhado e acusado

de ser falso, o derradeiro insulto, por escrever.

Aphra Behn, a autora sobre a qual quero falar, foi até chamada publicamente

de prostituta ou hermafrodita, monstro, metade homem, metade mulher.

Porque escrevia.

- Então? - Então?

Então o quê?

Conduzi como um louco para chegar aqui.

É para ti.

É uma pequena mensagem.

Não a leias agora. Lê no carro.

Podes atirá-la pela janela ou rasgá-la em pedaços.

Mas é não preciso.

É muito gentil da tua parte.

Diz à tua mulher que compraste uma camisa nova.

Obrigado.

PENSO EM TI TODOS OS DIAS

- O meu namorado deixou-me. - Posso fazer uma máscara?

- E tratar-lhe das pontas. - Não sei...

Sinto-me exausta.

Ando a antidepressivos.

Acho que é perceptível. De certa forma, estraga-me o cabelo.

Vou tratar de si. Relaxe.

- Onde deixei a minha bolsa? - Está aqui.

Obrigada!

- Obrigada. Adeus. - Adeus.

Vai nevar hoje.

Vai chover em Moscovo.

O sol brilha.

Está um dia bom.

Sabes, ando a estudar uma escritora chamada Aphra Behn.

Contei-te que ela era espiã?

Tinha dois nomes, por exemplo.

Ela espiava quem?

Da última vez estava a espiar

na corte belga, mas como foi presa, dedicou-se à escrita.

E tu...

Tens dois nomes?

Achas que sou espião?

O que fazes tu na embaixada se não és espião?

Trabalho na segurança.

Trabalho com gente importante.

Que fala de dinheiro e poder. E que anda obcecada com o Putin.

É complicado.

Como foste parar a isso? Já estiveste preso?

As tuas tatuagens... O que é isto?

Isto?

São rodas giratórias.

Giram juntas, mas em direcções opostas.

É a água e o fogo.

Assim como tu.

Somos nós.

Os franceses têm medo.

De quê?

Dos russos ou da Rússia.

Da guerra.

De tudo.

Mas tu não.

É por isso que gosto de ti.

E tu?

Não tens medo de mim?

- Não. - Não?

- Diz lá. - Não tenho medo de ti, Hélène.

Di-lo a sério.

- Não tenho medo de ti, Hélène. - Não, sem sorrir.

Não tenho medo de ti, Hélène.

Então, queres saber...

... se eu sou espião?

Quando éramos pequenos, o meu pai

queria que eu o meu irmão nos tornássemos pessoas importantes.

Como nos teus livros.

Fomos caçar pássaros.

E ele ensinou-nos a sermos pacientes e a ouvir.

Ensinou-nos a ser discretos e observadores.

Mas eu não quis ouvir.

Preferia colher frutos vermelhos.

Colher frutos vermelhos e dá-los à tua mãe?

A minha mãe?

Eu lutava muito, mas ela só dava os parabéns ao vencedor.

Ela dizia: "Tens de estar do lado dos fortes, não dos fracos."

Na Rússia, não gostamos de ser fracos.

Sabias que...

Alegra-me imenso ver-te, Alexandre.

Não quero saber de tudo o resto.

Que sejas casado, que não possa ligar-te, escrever-te ou enviar-te mensagens.

Que sejas tu a decidir quando nos encontrarmos.

Não quero saber.

Não sei quando voltaremos a encontrar-nos novamente.

Vou passar três semanas fora, ou talvez mais, com a minha mulher.

Obrigado.

A menina foi muito gentil.

E se fôssemos de férias para Florença amanhã?

- Que achas, querido? - Esqueces-te de que tenho aulas.

E esqueceste-te do despertador ontem.

Tens tempo. Não te preocupes.

Sexta-feira não tens aulas. Só perderás dois dias.

Não é ano de exame.

Vou escrever um recado para a escola.

Mãe, não quero ir.

Vem cá, querido.

Paulo!

Por que é que isto é branco?

- O quê? - Por que é branco e não castanho?

Porque todos os esquerdistas da cidade

escrevem mensagens nas paredes da igreja.

E o pastor passa todas as manhãs a pintá-la para as tapar.

Se te fores embora

Neste dia estival

Então podes também

Levar o Sol embora

Todos os pássaros que voaram

Nesse céu estival

Quando o nosso amor era novo

E tínhamos os corações em alta

Quando o dia era jovem E a noite longa

E a lua ficou petrificada

Devido à canção Do pássaro noctívago

Se te fores embora

Se te fores embora

Se te fores embora

Minha querida... O que se passa?

Não...

Ouve, pede três desejos.

Um dos três realizar-se-á. Mas tens de acreditar nisso.

Anima-te e não chores.

Mas e se tu fores Eu entenderei

Deixa-me apenas amor suficiente

Que dê para agarrá-lo na mão

Se te fores embora

Se te fores embora

Se te fores embora

Se te fores embora

- Vamos indo? - Vou já.

Vem daí.

Se te fores embora

Como sei que irás

Não sobrará nada

Para confiar no mundo

Confiar em salas vazias

Repletas de espaço vazio

Semelhantes ao olhar vazio Que te vejo na cara

Fui a sombra da tua sombra

Que achei que fosse Manter-me ao teu lado

Se te fores embora

Se te fores embora

Para estudar a literatura dos séculos passados,

há que tentar entender a vida daqueles que a escreveram.

Penetrar num mundo vago e familiar de uma época,

que, embora esteja atrás da nossa, é-nos estranha.

Então...

Então, em que consiste a vida de uma escritora?

Hélène, estás bem?

Podemos ver-nos?

Com licença.

Podemos ver-nos?

Isso foi há três semanas.

Não tens medo de que alguém nos veja na rua?

Não.

Onde foste com a tua mulher?

Por que queres saber?

Apenas para poder imaginar-te lá.

Ao lago Baikal. No sul da Sibéria.

É perto da Mongólia.

É o lago mais antigo e profundo do mundo.

É adorado como um deus. É sagrado.

E é antigo.

Tribos buriates vivem lá.

Eles...

Acreditam que os seus espíritos ancestrais

que vivem nas profundezas das águas, os protegem.

O que estás a fazer?

Estou só a filmar-te.

Para que eu possa lembrar-me de ti quando te fores embora.

Criam cavalos e cabras.

Parecem genuinamente felizes.

Vais levar-me lá?

Tiveste saudades minhas?

Sim.

Imensas.

Vais sair à rua com essa saia?

Vou.

Estás com ciúmes?

Os homens conseguem ver-te o rabo.

E então?

E então, não deves sair à rua assim vestida.

Então, devo ficar por aí escondida à tua espera?

Não quero que pareças uma galdéria.

Eu dou-te a minha opinião a teu respeito?

Quer dizer...

Tu bebes imenso e podes ter um acidente.

Podes matar alguém com o carro ou até matares-te a ti mesmo.

Eu dou-te a minha opinião a teu respeito?

Despe-a e não voltes a usá-la.

Respeito imenso as galdérias.

Merda!

O que se passa?

Adoro-te, meu querido. És tu a minha vida.

Come fruta e depois vai deitar-te. Tens de acordar cedo amanhã.

Posso ficar em casa do Antoine na Quinta-feira?

Quando é Quinta-feira?

Quando é Quinta-feira? Estás a perguntar-me quando é?

É entre Quarta e Sexta.

Tudo bem?

Não confirmaste se sempre vinhas na Sexta-feira.

- Ouve, tenho de ver se dá. - Pois, mas tens de vir.

Sim, tens razão, mas...

Só quero ver-te, sim?

Não há nada mais que eu preferisse.

Bastava ver-te o dia inteiro.

Hoje de manhã, estava...

O meu tipo é um vilão dos grandes que vive do VISA da madrasta.

Foi usado e abusado naquele fim-de-semana.

Ele decide deixar a madrasta divertir-se um pouco.

Afinal de contas, ela permite-lhe levar uma vida desaforada...

Atenta na Lua

Atenta no mar

Que a partir desta noite Devo viver sem ti

Enlouquecido de amor

Preferia estar morto

Enquanto a lua lá em cima Está a guardar-me

Restam apenas Todos os lamentos

Porque pequei Ao desejar-te tanto

E agora, ao recordá-lo

Apetece-me dizer

Atenta na Lua

Atenta no mar

Atenta na Lua

Atenta no mar

Que a partir desta noite Devo viver sem ti

Não me telefonaste.

Mas pensaste em mim.

E sonhou comigo, sra. Augoust.

Obrigada.

Mas não é sra. Augoust. É sra. August.

Sonhei connosco ontem.

Havia muita gente por perto. Esqueci os seus rostos.

Estávamos num carro grande.

Ao volante, ia um homem misterioso. Eu só o vi por trás.

Só lhe vi o pescoço.

Conduzia por estradas complicadas.

Tu sentaste-te ao meu lado e nem a boca abriste.

Até que ele desfez uma curva

e uma bela e vasta paisagem apareceu diante de nós.

De repente, senti-me leve.

Como se estivesse a voar.

E acho que voei mesmo.

E os outros? E eu? Onde estava eu?

Os outros? Não sei, desapareceram assim que o sonho terminou.

E tu também tinhas desaparecido.

Nunca me contaste o que bebes tu pela manhã.

Café.

E não comes nada?

Não.

A tua mulher prepara-te o café?

Não.

Onde moras na Rússia?

Em que rua de Moscovo?

Em Tverskaya. No centro da cidade.

Vem cá.

Vais passar o Natal à Rússia? Com a tua mulher?

Somos tão diferentes.

Ele gosta de fatos da Dior e de carros grandes.

Ele conduz depressa e dá sinais de luzes sem falar.

Como se amasse ser livre e estar bem-vestido numa auto-estrada francesa.

Odeia livros e coisas intelectuais. Adora coisas de Hollywood e Putin.

E isso é-me absolutamente igual.

Mas ele é casado e é mais novo do que tu, Helène.

Isso não me importa.

Bom dia, fala da Biblioteca de l'Arsenal.

A edição completa da obra de Aphra Behn, a autora inglesa, que solicitou,

não se encontra disponível. - Certo.

Se quiser, existe uma única cópia,

em Antuérpia, na Biblioteca Hendrik Conscience.

Obrigado, mas não mesmo posso falar agora.

Desculpe interromper.

Adeus.

Amo-te.

Amo-te.

Às vezes, frequentemente, faço amor com a minha mulher.

Às vezes, frequentemente?

O que significa isso?

Ela excita-te como eu?

Como poderei saber se esta não é a última vez?

Tenho de ir. Não me ligues para o telefone.

Isso é uma ordem?

Diz-me que não é a última vez.

Fica comigo. Apenas por uma noite.

Não te comportes como uma criança.

Pára com isso.

Fica.

Por favor.

Trancaste a porta?

Por que ages assim se não te importas?

Por que ficas à espera? É tudo o que tu fazes.

Não sei.

Que mais posso eu fazer?

Queres saber o que eu acho?

Acho que quando os homens conseguem o que querem,

entram em pânico e tornam-se travessos.

Isso também vale para o meu marido. Mas ele não se atreve a deixar-me.

Há grandes coisas a acontecer. Essas feministas

têm razões para gritar em voz alta. Eu apoio-as.

Há séculos que estamos à espera para falar.

Dependemos dos homens para o sexo, para a vida, para tudo...

É insuportável!

A questão não é essa.

Até as feministas se tornam submissas quando se apaixonam.

Muitas delas.

Talvez estejas apenas cega. Talvez ele não te ame.

Desculpa.

Não sou ninguém para dar-te sermões.

- Em que lugar vais jogar hoje? - Não é lugar, é posição.

Posição? Em que posição, então?

A avançado.

Vou ficar perto da baliza da outra equipa para marcar.

Sim? Muito bem! Então é esse o plano para hoje?

Gostaria de ver isso.

Mas não podes ir?

Não, tenho de trabalhar na minha pesquisa.

Já disseste isso da outra vez.

Da última vez, eu menti-te, mas hoje é verdade.

Talvez estejas a mentir agora.

Não te preocupes. Juro que irei na próxima.

Quero mesmo.

Também já disseste isso antes.

- A mãe do Malo leva-me a casa. - Certo.

- Bom dia, mãe. - Tem um bom dia.

Pára!

- Estás bem? - Quase me atropelaste!

- Magoaste-te? - Sim!

O que foi?

- Não vais deixar-me entrar? - Não.

- Tenho de trabalhar. - Não disseste isso ao telefone.

Não, lembrei-me agora.

Queres brincar a isto?

Não estou a brincar a nada.

- É isso o que tu queres? - Não.

- E agora? - Não.

Tenho de parar de ver-te, mas não consigo.

Não tem novas mensagens.

Para voltar ao menu principal...

Bom dia. Pode passar ao Alexandre Svitsine, por favor?

Sim.

Bom dia. É do consulado russo?

Sim, minha senhora. Quem está a falar?

Hélène Auguste.

Sim, foi abaixo. Gostava de falar com o Alexandre Svitsine, por favor.

O senhor Svitsine?

Gostaria de falar com o Alexandre Svitsine, por favor.

Dê-me um momento, por favor.

- Estás bem? - Sim, estou.

Sim, desculpa. Espero que não apanhar-te em má hora.

Vai ter comigo ao Hôtel d'Albion amanhã ao meio-dia.

- Pode ser? - Sim, sim.

Até amanhã.

Chegou à caixa postal. O cliente para o qual ligou...

Bom dia, posso falar com o Alexander Svitsine, por favor?

- Ele foi-se embora. - Perdão?

O senhor Svitsine partiu para Moscovo.

E quando voltará?

Não sei dar-lhe essa informação, minha senhora.

O coveiro culpado suspira E o realejo solitário chora

Os saxofones prateados dizem Que eu deveria rejeitar-te

Os sinos rachados e as buzinas Sopram-me com desdém na cara

Mas esse não é o caminho Não nasci para perder-te

Quero-te

Quero-te

Quero-te tanto

Amor, quero-te

O político bêbado salta Nas ruas onde as mães choram

E os salvadores profundamente Adormecidos esperam-te

E eu espero que eles me impeçam De beber pela minha chávena partida

E que me peçam Que eu te abra o portão

Quero-te

Quero-te

Quero-te tanto

Amor, quero-te

Todos os pais foram embora Amor verdadeiro, vivem bem sem ele

E todas as filhas deles me injuriam Porque eu não penso nisso

- Quer boleia? - Não, obrigada.

- Para onde vai? - Não sei.

- Tem carro? Veio a pé? - Desculpe?

- Veio a pé? - Sim.

- Esta zona é perigosa. - Eu sei.

- Parece estar meia perdida. - Estou à espera de um táxi.

- De um táxi? - Sim.

- Não está ninguém aqui. - Algum há-de passar.

- Devo chamar-lhe um? - Não é preciso. Obrigada.

Devo dar-lhe boleia?

Não, obrigada.

A não ser que me leve à estação ou até ao meu carro.

- Onde o estacionou? - Desculpe?

Onde estacionou o carro?

Não me lembro.

Espere... Desculpe, pareço estúpida.

Não, não é estúpida. Apenas se perdeu.

Estava perto da Place de l'Etoile. Perto de Etoile.

Etoile? É por ali.

- É por ali? - Tem de voltar para trás.

São cinco minutos de carro. A sério.

Eu também estou um pouco perdido. Podemos estar perdidos juntos.

Está um pouco perdido como eu.

E pensou: “Se ela está perdida e eu estou perdido, ela vai ouvir-me."

É possível que sim. Mas talvez eu tenha coisas a dizer.

A vida é cruel, não é?

Hélène!

O estás aqui a fazer?

- O Paul pediu-me para vir buscá-lo. - O quê?

- Ele fica comigo até Quarta. - Porquê?

Não te dás conta?

O que tens? Precisas de ir ao médico.

Não, isto é uma gripe.

- Vai passar. - O que é que vai passar?

- Paul, deixas-nos a sós? - Deixa lá, já estamos de saída.

Que merda é essa?

- Pára, não mexas nisso. - Andas metida nesta merda?

Não é da tua conta. Deixa isso. E tu, Paul, sai, por favor.

Passas o dia nua.

- Isso diz-me respeito a mim. - Isto não é para a gripe.

Não sou nenhum estúpido.

Passas o dia a foder, nem sequer cozinhas...

Não me mandes calar. Foi ele quem me contou.

- Sinceramente... - Está por conta dele há duas semanas.

Nem sequer compras comida e quase o atropelaste!

- Está tudo bem. - Como é que está tudo bem?

- Estás a enlouquecer. - Eu sei.

Deixei-te ficar com a casa, pago-te a pensão...

- Outra vez, não... - Todos os meses.

- Estás a perder o controlo? - Fiz merda, eu sei.

Isto é algum tipo de crise da adolescência?

- Estás um caco. - Pára lá com isso.

Desculpa, Paul.

E agora vais deixar-me chateado também!

Vamos, Paul.

Cretino...

Alexandre!

Alexandre!

Alexandre?

Tenho saudades tuas.

- Com licença. - Perdão.

Preciso de medicação.

Um calmante. Não consigo dormir.

Também preciso de um atestado para apresentar no trabalho.

Para tirar umas semanas de baixa.

Não consigo continuar nisto. Dou aulas na faculdade.

É complicado.

Quero dormir, mas não consigo.

Há quanto tempo está assim?

Conte-me.

Desde Setembro passado

que não fiz nada a não ser esperar por um homem.

Que ele me telefonasse ou que viesse ter comigo.

Continuei a trabalhar, fui ao cinema, às compras, lia...

Mas tudo o que eu fazia parecia ser...

... desligado da realidade.

Guardo vagas memórias da minha vida naquela época.

Das pessoas que vi...

Sem que ele soubesse, aquele homem ligou-me ao mundo.

Deu ritmo à minha vida. Medi o tempo através dele.

Tentei ser normal perto dos outros e não revelar nada.

Mas quando estava num grupo de mulheres

como, por exemplo, na caixa do supermercado, ou no banco,

perguntava-me se, como eu, elas tinham um homem que não lhes saía da cabeça

e, se não tinham, como é que sobreviviam.

Desisti de trabalhar na tese de doutoramento.

Não consigo sequer criar o meu filho.

Fui a Moscovo por umas horas só para respirar o ar que ele respira.

Foi bom?

Foi.

Isto é Tverskaya?

- Sim. - Sim?

- É o centro? - Sim.

É verdade que todos os homens Que conheceste eram jogadores

Que diziam ter largado o jogo De cada vez que lhes davas abrigo

Conheço esse tipo de homem E é difícil dar a mão a alguém

Que esteja a estender-se ao céu Apenas para se render

Que esteja a estender-se ao céu Apenas para se render

E ao varreres os jokers Que ele deixou para trás

Dás conta que ele não te deixou muito Nem sequer uma gargalhada

Como qualquer jogador Esperava a carta alta e desejada

Que nem valeria a pena jogar outra

Era só algum outro José À procura de uma manjedoura

Era só algum outro José À procura de uma manjedoura

E depois apoiando-se No parapeito da tua janela

Um dia ele dirá que Tu lhe causaste o desejo

De enfraquecer com O teu amor, calor e abrigo

E, de seguida, tirando da carteira

Um velho horário de comboio, dirá

Eu disse-te quando vim

Que eu era um estranho

Eu disse-te quando vim

Que eu era um estranho

Mas agora parece que outro estranho Quer que ignores os sonhos dele

Como se fossem o fardo de outrem

Já viste aquele homem antes E o seu braço dourado a dar cartas

Mas que agora está enferrujado Desde o cotovelo até ao dedo

E quer trocar o jogo Que ele joga por abrigo

Sim, quer trocar o jogo Que ele conhece por abrigo

Tu odeias ver mais um homem Cansado e a baixar a mão

Como se estivesse a desistir Do santo jogo de póquer

E enquanto ele fala dos seus sonhos Para conseguir dormir

Dás conta que há uma auto-estrada

Que se lhe enrola tipo fumo Acima do ombro dele

Que se lhe enrola tipo fumo Acima do ombro dele

Manda-lo entrar e sentar-se Mas há algo que te faz virares-te

A porta está aberta E não consegues fechar o teu abrigo

Tentas a maçaneta da rua Ela abre, não tenhas medo

És tu, meu amor Tu é que és a estranha

És tu, meu amor Tu é que és a estranha

OITO MESES DEPOIS

Estou tão orgulhosa!

Meu querido, vamos lá! São oito horas. Toca a levantar!

- Preferia quando te esquecias. - Preferias?

Vá, veste-te.

Mas espera até que eu me vá embora, por favor.

Bom dia.

Obrigada.

São 16,28€.

- Aqui tem. Bom dia. - Bom dia.

Desculpe, minha senhora. O seu carrinho não está vazio.

- Perdão. - Não se preocupe.

Querido, podes atender, por favor?

Não sei onde está.

- Estou? - Hélène?

Estou aqui.

Querido, podes ir dormir a casa do Malo? Liga-lhe a perguntar.

Não, não quero.

Podes ligar-lhe?

- Não atendeu. - Tenta os vizinhos, a Valentine...

Mas porquê?

Porquê?

Não vou a lado nenhum.

Faz isso por mim, sim? Não te preocupes, está tudo bem.

Vai lá preparar-te.

Onde vais ficar?

No hotel.

Fica aqui, então.

Não, estão à minha espera.

As pessoas com quem trabalho.

Vou levar-te de carro e volto de táxi.

Bebeste demais.

Tu tens medo por mim. Sou um homem de sorte.

A nossa história...

... está acabada?

Não vou voltar a ver-te?

Eu vou ligar-te.

Sabes o que significam essas palavras?

O teu filho, o Paul... Ele está bem?

Está.

É a primeira vez que me perguntas por ele.

Acabaste o teu trabalho a respeito da espiã?

Não encontrei nada.

Na verdade, até que encontrei muita coisa.

Ela era mais uma amante do que uma espiã.

O homem que voltou nessa noite não era o mesmo que amei durante um ano.

Esse regresso não aconteceu.

Nunca mais vou voltar a ver aquele homem.

Mas, com ele, vi do que sou capaz.

Quase tudo.

Graças a ele, aproximei-me da fronteira entre mim e os demais.

E aproximei-me dela o suficiente para imaginar cruzá-la.

Meu amor...

Olhando por uma janela lá do alto

Parece uma história de amor

Consegues ouvir-me?

Apenas voltou ontem

Afastando a distância

Quero-te perto de mim

Tudo o que eu precisava Era o amor que deste

Tudo o que eu precisava Para mais um dia

Tudo o que eu já conheci

Só tu...

Por vezes, penso no teu nome

E não passa de um jogo

E eu preciso de ti

Ao ouvir as coisas que dizes

Torna-se mais complicado ficar

Quando te vejo

Tudo o que eu precisava Era o amor que deste

Tudo o que eu precisava Para mais um dia

Tudo o que eu já conheci

Só tu...

Tudo o que eu precisava Era o amor que deste

Tudo o que eu precisava Para mais um dia

Tudo o que eu já conheci

Só tu...

Vai demorar muito tempo

E eu pergunto-me o que é meu

Não pode demorar mais

Pergunto-me se tu entendes

Que é apenas o toque da tua mão

Por trás de uma porta fechada

Tudo o que eu precisava Era o amor que deste

Tudo o que eu precisava Para mais um dia

Tudo o que eu já conheci

Só tu...

TRADUÇÃO E LEGENDAGEM darkdevil

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