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BASEADO NO ROMANCE DE ERIN DOOM
PUBLICADO NA ITÁLIA POR ADRIANO SALANI EDITORE
Mamãe, onde é que machucou?
Aqui.
Já vai passar.
Parabéns, Nica. Com gentileza…
Com gentileza, a gente pode curar qualquer coisa.
- Um lobo! - Que lindo.
Não é lindo. Eu tenho medo de lobo.
É só porque alguém inventou que, nas fábulas, eles são malvados.
Mas não é sempre assim.
Nica, não estou vendo. Cadê o lobo?
Cuidado, o caminhão! Cuidado!
Não!
QUER SE JUNTAR A NÓS? E-MAIL loschulosteam@gmail.com
No Grave, nós contávamos muitas histórias.
Relatos sussurrados, contos de ninar.
ORFANATO SUNNYCREEK
Lendas na ponta da língua, transmitidas à luz de vela.
A mais conhecida era a lenda do fabricante de lágrimas.
Ela falava de um mundo onde ninguém conseguia chorar,
as pessoas viviam como almas vazias,
privadas de emoção.
Mas, escondido de todos, em uma imensa solidão,
havia um artesão solitário,
coberto pela escuridão,
pálido e encurvado
que, com os olhos claros como vidro,
era capaz de fabricar lágrimas de cristal.
As pessoas iam procurá-lo e pediam pra conseguir chorar,
pra poder provar um mínimo de sentimento.
O artesão inseria as lágrimas dele nos olhos das pessoas.
E aí, elas choravam,
de raiva, de desespero, de dor e angústia.
Viviam paixões lacerantes,
desilusões e lágrimas.
Eu não imaginava que existia um lugar assim.
Não imaginava quanta saudade eu iria sentir dos meus pais.
Mas, mais que tudo,
eu não imaginava que essa seria a minha história.
Você deve ser a Nica.
É o nome de uma borboleta.
Que estranho dar pra uma criança o nome de um inseto que morre em tão poucos dias.
Nós temos poucas regras aqui.
Ordem, respeito e obediência.
É só segui-las e não vai ter problemas. Essa mala. Pega.
Aqui, tudo é de todos.
Me dá esse colar. Não é permitido ter objetos pessoais.
- Mas isso era da minha mãe. - Ordem, respeito e obediência.
Não vai querer quebrar as regras já no primeiro dia.
Rigel.
Mas, pra mim, não era só uma lenda.
E, no Grave,
eu iria encontrar o fabricante de lágrimas.
Chorar não vai trazer de volta o que você perdeu.
Adeline, acompanhe ela até o quarto.
Anda.
Crianças, vão pra dentro.
Essa era da Julia. Ela foi adotada ontem.
Faz muito tempo que você tá aqui?
Eu sou muito… branca.
A Miss Margaret disse que eu pareço doente.
Vamos ser melhores amigas?
Nica. Eles chegaram.
Eu vou vir te visitar, eu prometo.
De jeito nenhum.
Vai e não olha pra trás.
Eu não teria aguentado sem você.
É sua, agora.
No Grave, eu sentia que eu estava numa prisão.
Durante aqueles anos, eu ficava o dia inteiro
desejando que alguém aparecesse para me tirar de lá.
Que olhasse nos meus olhos e me escolhesse,
entre todas as crianças do orfanato.
- Que me quisesse como eu era. - Sai daqui.
Apesar de não ser grande coisa.
Mas ninguém nunca me escolheu.
Ninguém nunca me quis, nem reparou em mim.
Eu sempre fui invisível.
Você está pronta?
Sim.
Eu estou com medo também.
Quer ajuda pra levar suas coisas?
É só isso que eu tenho.
Nós preferimos que todos compartilhem tudo.
Você se machucou?
Ah.
Ela tem o costume de cuidar dos animais e está sempre com os dedos machucados.
Bom, Nica.
Lembre tudo que aprendeu aqui.
Ordem, respeito e obediência.
E lembre-se de que é só um teste.
Nós podemos suspender a custódia.
Se você criar problemas, vamos te buscar, e a adoção vai ser cancelada.
Com certeza tudo vai ficar bem.
Certo.
Então, vamos indo?
Aquelas mãos.
Aquelas mãos brancas que deslizavam pelas teclas do piano.
Era ele o grande orgulho do Grave.
O menino de ouro,
a criança que todos desejavam.
Perfeito com todos, menos comigo.
Quem é?
É o Rigel.
Vocês viram a ficha do garoto. Têm certeza mesmo?
A casa é grande,
e a Nica vai se sentir menos deslocada.
Sim, mas cuidar de um adolescente já é difícil, imagina de dois.
O Rigel é um garoto extremamente problemático,
e só nós sabemos lidar com ele.
Não se preocupe, Margaret, sabemos o que estamos fazendo.
Fora que o período de teste é pra isso, né?
Certo.
Obrigado.
Eu sempre quis ter uma família,
uma casa,
uma vida fora do Grave.
Agora que finalmente estava acontecendo,
não conseguia acreditar que ele estava indo comigo.
De todas as pessoas do mundo, o Rigel era o último que eu queria ali.
E, mesmo assim, eu não conseguia odiá-lo.
Uma parte da minha alma tinha visto esse garoto tantas vezes
que eu não conseguia sentir o distanciamento que preferia sentir.
Entrem.
Nossa casa.
Não é nenhuma mansão, mas não falta nada.
A Anna é um pouco obcecada por limpeza, viu?
Já você é o oposto.
Vocês sabem tocar piano?
O nosso filho tocava.
Deixa eu mostrar os quartos.
Norman, você leva o Rigel?
Claro.
Vamos indo?
Eu pedi pra uma amiga me ajudar.
Espero que você goste.
Faz muito tempo que eu não tenho um quarto só meu.
PARTITURAS
Não sei se é o que você gosta.
Ah, se você não se importar, pode ir com essa aqui pra escola.
Acho que é do seu tamanho, era do…
Ou a gente compra uma nova.
Que isso, não precisa, de verdade, está perfeito.
Esse é seu uniforme pra amanhã.
E ele é o Klaus.
Né? Ele é um pouquinho solitário.
Mas sabe ser simpático quando quer. Né?
Posso entrar?
Olha, Rigel, agora que nós…
Agora que nós o quê?
Agora que nós estamos aqui, juntos,
eu queria que desse tudo certo com a Anna e com o Norman,
com a adoção.
Se quer que tudo dê certo,
fique longe de mim.
E não entra mais no meu quarto. Nem hoje, nem nunca.
Isso é uma ameaça?
É um conselho.
Mariposa.
A estufa lá fora é minha.
Eu cultivo e vendo plantas e flores.
E você também trabalha com flores?
Não, eu trabalho com dedetização.
Besouro, formiga, barata, rato…
Ah, mas é só de animais que já morreram ou que são muito perigosos.
E vocês se davam bem lá no orfanato?
A gente cresceu junto.
Somos como irmãos.
É, a gente se conhece bem, como irmãos.
Eu preciso ir no banheiro.
Vai lá.
Ah, Rigel é o nome de uma estrela, não é?
Seus pais deviam adorar astronomia.
No caso, foi a Miss Margaret que escolheu, eu não…
Não conheci meus pais.
Licença, eu tenho que sair um minuto.
Eu ainda conseguia sentir as marcas dos dedos dele,
como se eu tivesse sido marcada a fogo.
O charme venenoso dele era infeccioso.
Ele era infeccioso.
Você não devia fugir assim.
Nossos futuros pais ficaram preocupados.
É um jogo pra você, não é?
É só um jogo.
Você que quis isso, mariposa.
Fica longe de mim.
E se a Anna e o Norman perceberem que você me despreza tanto assim?
Que não é tudo perfeito como eles achavam?
Eles podem mudar de ideia.
Um dia, eles vão ver quem você realmente é.
Por quê? Quem eu sou?
Você é o fabricante de lágrimas.
Estava chorando?
Não.
Não mente, senão o fabricante de lágrimas vai te levar.
Você acha que ele existe mesmo?
Quem?
O fabricante.
Eu não sei.
Vai ver, inventaram a história
porque não querem que a gente tenha sentimentos.
Nós nunca vamos ser como eles.
Peter!
O Rigel tá mal de novo! Vem rápido, vem.
- Quê? - Você ouviu?
Pra cama, vocês! Já!
Tá tudo bem, tá tudo bem. Tá tudo bem.
Tá tudo bem, querido. Tá tudo bem.
Vamos, tá tarde!
COLÉGIO DE ENSINO MÉDIO BARNABY
Vocês entenderam o caminho?
- É fácil. - É só atravessar a ponte de ferro.
Tá bom.
Não se preocupa.
- Até mais. - Até de noite.
Toma cuidado, mariposa.
Foto do primeiro dia.
Sou Billie, comitê de recepção.
Aqui em Barnaby, levamos tudo muito a sério.
Vem comigo.
Nica é diminutivo de Nikita?
- É só Nica. - Hum.
Todo mundo tem essa cara no primeiro dia.
Você tinha que ver a minha. Aqui.
Eu adoro fotografar rostos, eu tenho foto de cada estudante.
Sabe, eu tenho até umas do Phelps.
A única que falta é da minha melhor amiga. É impossível fotografar a Miki. Ela odeia.
Vem que eu te apresento ela. Miki.
Ela é nova aqui.
Olá.
Eu juro que, por dentro, ela é um amor.
Em uma semana, eu como essa novata.
Bom dia, Nica. Bem-vinda.
Bom dia.
Eu sou o professor Kirill.
Vi que você tem ótimas notas em ciência.
Parabéns.
- Ouviu isso? - Calma, calma, calma.
Estão brigando!
Ei! Para, para!
Rigel!
Para! Ei, sai daí.
Para. Phelps! Vai, levanta.
- Levanta. Quer ser suspenso de novo? - Ele que começou, Kirill. Juro!
- Vamos explicar pro diretor? - Não.
Você é Rigel Wilde?
Quer ir pra enfermaria?
Então vai pra sala. Anda.
E, da próxima vez, vai ter advertência.
Vocês estão olhando o quê? Pra sala, todo mundo! Vai!
Vamos lá, gente.
Aí, vocês viram?
Mas é ele, seu irmão?
Ele não é meu irmão.
É, a gente não é irmão.
Já estava na hora de alguém dar uma lição naquele babaca do Phelps.
Oi?
Ainda estudando?
Fazendo um resumo.
Por acaso você sabe por que o Rigel não quis jantar com a gente?
Teve algum problema na escola?
Não, só tá cansado.
Que linda. Quem tirou essa foto?
A Billie, do comitê de recepção.
Você já fez amigos? Está gostando de lá?
Gostei dos professores, são gentis.
Pode estudar.
- Mas não vai dormir tarde. - Boa noite.
Boa noite.
Anna?
Oi?
Obrigada.
Obrigada você.
Tudo bem?
Tá, tá tudo bem.
Vai ficar parada me olhando?
Por quê?
- Por que deixou eles te escolherem? - Você acha que fui eu que decidi?
Você era a criança que todo mundo queria.
Mas nunca deixou ninguém te adotar.
O que mudou?
Volta pro seu quarto, vai.
Põe isso pra cobrir o gelo.
Nunca mais encosta em mim assim.
Sai.
Senão o quê?
Senão…
Eu não vou conseguir me segurar.
Eu sempre acreditei em contos de fadas.
E sempre sonhei em viver um.
E agora, tinha acontecido,
mas era o conto de fadas errado.
Bom dia!
Dormiu bem?
Sim.
Depois da escola, a gente pode comprar roupas pra você.
Pode ser.
- Leva pro Rigel, por favor? Obrigada. - Uhum.
Que parte da frase "não entra no meu quarto" não ficou clara?
A Anna que pediu.
Estou sendo legal, é tão difícil de entender?
Você acha que eu sou o fabricante de lágrimas.
O lobo da história.
Então me fala.
Que palavra você dá pra quem é legal com alguém que queria que desaparecesse,
senão hipocrisia?
Olha você.
Tremendo.
Até o som da minha voz te assusta.
Eu não sei o que você quer,
eu não entendo, Rigel.
Sabe por que as histórias terminam com "para sempre"?
Pra lembrar que tem coisas que nunca mudam, Nica.
Mas elas mudaram, sim. Não estamos mais no Grave.
Você tá insistindo em um final feliz, né?
Será que tem coragem pra imaginar um conto de fadas sem lobo?
Seu nome é Nica, né?
Igual à borboleta.
Você pesquisou o significado?
Eu pesquisei sobre você.
Espera aí.
Que foi?
Calma.
Que nojento.
Não, é tímido.
Ele estava se escondendo. A casca é a casa dele.
Mas, se quebrasse, ele iria morrer.
No fim, o que protege o caramujo…
é também o que pode fazer mal pra ele.
Então tá, obrigado por ter me salvado.
Na verdade, salvei ele de você.
- Enfim, prazer, eu sou… - Um estorvo.
Vocês estão ficando?
A gente… Não.
Te achei. Vamos indo porque tem prova.
Desculpa, Lionel, mas eu tenho que revisar tudo.
Eu tô muito nervosa.
É essa loja. Eles têm umas roupas lindas.
Anna, de verdade, não precisa.
Ah, vai, que isso.
Não é lindíssimo?
É.
Vai. Vamos entrar.
Anna, a gente já comprou tanta coisa.
- Bom dia. - Bom dia.
- Queria provar aquele vestido. - Já trago.
Obrigada.
Anna.
Você tá tão linda.
Sério?
Sério. Você é linda, Nica.
Não tenha medo de mostrar sua beleza.
Só um minuto que faltou o cinto.
Anna?
Ah, esse aqui vai ficar perfeito.
Nica?
Nica?
Nica? O que foi?
Nica.
Nica, respira.
Nica. Norman!
Nica.
Nica?
- Que foi? - Nica?
- Margaret sabia tudo da gente. - Tá ouvindo?
Ela conhecia os nossos medos e nossos desejos.
Conhecia meu amor pelos animais e meu medo do escuro.
O medo que o Peter tinha de sons altos
e o amor que a Adeline sentia por cabelos compridos.
Ela conhecia os sonhos nos quais a gente se agarrava para sobreviver ao Grave
e destruía cada um deles.
Ela destruía qualquer forma de amor.
Pra ela, o amor só existia para o Rigel.
Não, não!
Vai!
Graças a ela, alguma coisa dentro de nós se partiu.
Alguma coisa que fez a gente continuar sendo criança pra sempre.
Frágeis,
infantis e destroçados.
Não!
Toda vez, naquele breu, eu teria gritado até perder a voz,
se não fosse por aqueles passos na escuridão vindo ficar do meu lado,
por aqueles dedos quentes que procuravam a minha mão.
Depois disso, a dor desaparecia, e meu coração se acalmava.
Só importava aquele carinho, aquele alívio, sempre.
A Adeline.
E então?
Responda.
Eu não me comportei.
Você realmente merece um castigo porque foi uma menina desobediente.
Quem vai querer uma criança assim?
Eu vou ser boa. Eu vou ser boa.
E abaixa essas mangas.
Bem-vindos. Venham.
Quando o peso do passado ficava grande demais, eu pensava na Anna.
Não podia contar pra ela a verdade sobre mim,
mas ela estava lá pra me apoiar,
e eu não devia ter medo.
Eu estava longe, a salvo, livre.
E tinha a chance de ser feliz.
- Tchau! - Tchau.
- Vamos? - Bora!
Já levantou? Como você tá?
Melhor, obrigada.
Você dormiu tanto.
Estava precisando descansar, esses dias foram bem intensos.
Um pouco.
Sabia que o Klaus dormiu na sua cama a noite toda?
Verdade?
É. Ele percebeu que você não estava bem.
É, agora eu tô melhor.
Eu até pensei em voltar pra escola.
Tá.
Você se machucou?
As rosas.
Todo mundo tira os espinhos, mas eu gosto de deixar.
Pra lembrar que mesmo as coisas bonitas podem machucar você.
Posso?
Nica. Se tivesse qualquer coisa, qualquer problema, você me contaria?
Sim.
Por que tem tão pouca rosa hoje?
É que compraram todas pro Garden Day.
Garden Day?
É.
- Não sabe que dia é hoje? - Não.
Então, cada aluno dá uma rosa pra quem quiser, mas de forma anônima.
Tem um monte de cor, e cada uma tem um significado.
A gente deixa o armário aberto. Tomei a liberdade de abrir o seu.
E a graça é adivinhar quem foi que te deu.
- Parece divertido. - Uhum!
Divertidíssimo.
Ela critica, mas sempre recebe um monte.
Eu tô falando, olha só.
- Eu levo, tá, senão elas vão morrer. - Todas suas.
Você sabe de quem são?
Um aluno de psicologia que morre de amor por ela.
Agora é o meu.
Eu não consigo. Nica, abre pra mim?
Tá bom.
Não, não, não, não. Eu abro. Eu abro.
Me diz que tem, me diz que tem.
Isso!
É sempre ele.
Ele quem?
Eu não sei. Essa é a graça, mas ele sempre me manda. Ele deve ser tímido.
Ah, essa história me deixa louca.
Vai, Nica, é a sua vez. Abre.
- Não deve ter nada aí dentro. - Nunca diga nunca.
Eu nunca tinha visto uma rosa preta.
Que linda.
Significa amor atormentado, obsessivo,
que não tem nada de puro.
Por acaso você sabe quem te mandou?
Tenho que ir.
Você entra na toca do lobo e acha que vai sair inteira?
Foi você que me mandou isso?
Eu? Que te mandei uma rosa?
Me devolve. É minha.
Nica?
Tem um menino te esperando. O Garden Day deve ter sido bom.
Olha, eu e o Norman vamos ter um jantar de negócios, fora da cidade.
- Quer que eu deixe comida pronta? - Não, não precisa, obrigada.
Vai.
Vai, não deixa ele esperar. Ele parece ser legal.
- E aí? - E aí?
Você deixou isso na escola,
e tinha seu endereço, então…
Obrigada.
Quer tomar um sorvete?
Tá. Quero.
Tá bom, vem. Vamos lá.
Quantos anos você tinha?
Oito.
Era supernovinha.
O que os seus pais faziam?
Os dois eram biólogos.
Antes de eu dormir, eles me contavam como as células funcionavam.
Em vez de uma historinha de ninar.
Por isso falam que você é um gênio em ciências.
De repente, você vai virar uma das pessoas que mudam o mundo.
Dá aqui, eu jogo fora.
Não, pode ser útil.
Útil pra quê?
Pra curar a asa quebrada de um passarinho.
E…
também cura corações?
Um coração é mais complicado.
Eu acho melhor a gente ir.
Tá bom.
Cuidado. Mais pra cá.
Não. Não vou.
Cuidado.
Cuidado.
Isso.
Tá te molhando?
Ai.
Tô bem orgulhoso.
Te trouxe pra casa sã e salva.
Eu teria me afogado sem você.
Não, acho que você teria se virado bem sozinha.
Mesmo?
Olha, sabe…
Sua vida é muito diferente
da de todos os outros adolescentes que eu já conheci na minha vida.
Porque, além de ser forte…
você é lindíssima.
Eu tenho que ir.
Tá bom.
Então, até amanhã.
Até amanhã.
Uma voz dizia que eu estava olhando demais pro Rigel.
Mas, pra mim, sempre era impossível não olhar pra ele.
E essa borboleta era ingênua e corajosa.
Ou, talvez, só boba e desesperançosa.
Quantas vezes eu não vi as crianças do Grave esmagando borboletas?
Talvez não existisse só raiva e sofrimento dentro dele.
Talvez existisse luz também.
No fundo do meu coração, eu sabia que o Rigel não era uma pessoa ruim.
Eu não podia desistir dele.
Rigel.
- Rigel, o que foi? - Não me toca!
Só quero saber se você tá bem.
Por quê?
Ah, tá.
É a sua natureza.
Hum?
É mais forte que você.
Você quer me consertar.
Parece que você faz de tudo pra eu te odiar.
E você me odeia?
Me odeia?
Você me odeia, mariposa?
É isso que você quer?
É.
É isso que eu quero.
Eu não odiava o Rigel, eu só queria entendê-lo.
Talvez, um dia, todo o jeito dele de agir fizesse sentido pra mim.
Mas de uma coisa eu tinha certeza.
Fabricante de lágrimas ou não,
nada fazia meu coração tremer como ele.
Olha só como eu tô.
Foi seu irmão. Pedi pra ele parar, e ele me atacou sem nenhum motivo.
O que você fez com ele?
Vai perguntar pra ele.
Por quê?
Por quê?
O que que eu fiz pra merecer isso?
Não encosta em mim.
Me diz por quê.
Você é o meu fabricante de lágrimas.
Rigel!
Rigel, você tá com febre.
O que que foi?
Vem, vamos.
Vamos subir, me ajuda.
Me ajuda!
Vem, vamos subir.
Agora, informações do nosso repórter.
A rodovia continua bloqueada por conta dos alagamentos.
Todas as vias de acesso estão fechadas,
e ainda não dá pra saber quando o trânsito vai ser liberado.
As condições estão melhorando…
Vou ligar pra eles.
Mas os temporais e as chuvas fortes não pararam…
Tá.
Levanta o braço.
Encosta.
A região sul foi a mais afetada.
- Não atendem. - As chuvas não param.
Vai ver, estão dormindo.
Ligo de novo?
…rodovias do país.
- Oi, Anna! - Oi, Nica!
Tá tudo bem aí?
Sim, tudo.
Olha, nós ficamos presos na estrada por causa da tempestade.
Ah, não se preocupa.
Tô te achando estranha. Certeza que tá tudo bem?
Tá, é que o Rigel tá com febre. Onde é que tem remédio?
Tem no armarinho do banheiro.
- Eu devia ficar preocupada? - Não, relaxa, eu me viro.
- Tá falando a verdade? - Sim, eu tô, relaxa, Anna. Espera.
Espera, espera aí.
Ah, tá bom, eu achei.
- Que bom. - Depois a gente se fala.
Tá bom, eu te ligo. Tchau.
Os ventos estão vindo do norte
e trazendo essas nuvens carregadas.
O Rigel tá com febre.
…de vento devem acontecer nas próximas horas.
Você tem que tomar isso, Rigel.
Vem cá.
Abre a boca.
Fica comigo.
Fica aqui, por favor.
Miss Margaret?
- Sim? - A menina nova acabou de chegar.
Continua tocando.
Nós temos poucas regras aqui.
Ordem, respeito e obediência.
Me dá esse colar. Não é permitido ter objetos pessoais.
Mas isso era da minha mãe.
Ordem, respeito e obediência.
Não vai querer quebrar as regras já no primeiro dia. Rigel?
Você tá doente?
Some, mariposa.
Por que você não está na sua mesa?
Desculpa, Miss Margaret.
Eu só… Eu só fui pegar o sal.
- Vem comigo. - Não! Não, por favor!
Aprenda a se comportar.
Por favor, Miss Margaret!
O que aconteceu?
O que aconteceu? O que aconteceu? O que foi?
Chame um médico!
Mas o que foi isso?
Chama um médico!
Eu vi. Você se cortou de propósito.
Por que eu iria fazer uma idiotice dessas de propósito?
Me mostra o que você tá escondendo.
Vai embora.
Vai, mostra pra mim.
Mas…
é a correntinha da Nica.
Ela acha que você jogou fora.
Por que tá com você?
Pode ficar, se quiser.
Já sei. Você gosta da Nica. Você finge que não, mas gosta dela.
Não conta pra ela.
A Nica acha que você odeia ela.
Deixa ela pensar assim.
Rigel, é melhor eu voltar pro meu quarto.
Hum-hum.
Nica!
Rigel.
Como ele tá?
Melhor, a febre já passou.
Mas o que aconteceu?
Eu não sei.
Vai, vai descansar. Deixa que a gente cuida dele.
Que isso na boca dele?
Alguma coisa aconteceu naquela noite, nós dois sabíamos.
Mas agora, nós estávamos ali,
outra vez, igual quando a gente era criança:
Separados por aquela fronteira onde eu era a garota do Grave,
e ele, o fabricante de lágrimas.
E as coisas também tinham mudado com o Lionel.
A gente se via na escola, mas não se falava há dias.
Ainda bem que eu tinha elas duas. Era tão bom ter amigas.
Eu só tinha me sentido desse jeito com a Adeline.
Uau.
A Miki é milionária, mas não quer que ninguém saiba.
Ela tem vergonha. É normal, isso?
- Oiê! - Oi!
Pedi pra servirem um lanchinho. Vou só levar o cavalo pro estábulo.
- Tá bom. - Billie, mostra pra ela?
Uhum, tá.
Você não entendeu a diferença?
A bactéria é um organismo, mas é unicelular,
e vírus é uma cápsula de proteína.
Você devia substituir o Kirill. Eu ouço a voz dele e dá vontade de dormir.
Tô achando que a minha voz também tem esse efeito nela.
- Vou no banheiro rapidinho. - Vai lá.
Você não viu nada, tá?
Tudo bem.
Não conta isso pra ninguém.
Foi você, né?
A rosa branca.
Conta pra ela.
Eu perderia minha amiga. Não posso contar.
Você não sabe.
Sei, sim.
Tá supertarde, a gente tem que se arrumar. Por que vocês não me acordaram?
O que aconteceu?
Nada, não.
Você tá me evitando. Inclusive na escola. Por que você não atende o telefone?
Desculpa, Lionel, não deu. O que você tá fazendo aqui?
Eu gosto de você.
Mas tem que falar pro seu irmão não se meter.
Ele sempre vai estar na minha vida.
O que isso quer dizer?
O que rola entre vocês?
Você não entenderia.
Não cresceu num orfanato.
- Eu tenho que ir. - Espera aí.
- Me desculpa, eu compro outro. - Esse era o último.
Era pro Rigel, hoje é aniversário dele.
E você não pode dar alguma outra coisa?
Não.
Ele odeia presentes.
Isso era a única coisa que tinha um significado.
Eu tenho que ir.
Lionel não tinha como entender.
Pra ele, era só um globo de neve.
Pra mim, era um jeito de fazer o Rigel lembrar que ele podia brilhar,
como a estrela que tinha o mesmo nome que ele.
Nica, querida, você chegou.
Tudo bem?
Você não falou que ela era tão linda.
Vem, senta com a gente e me conta como tá sendo morar com esses loucos.
Se soubesse os segredos que tenho pra contar,
não ia mais querer eles como pais.
Meu nome é Dalma, e ela é minha filha, Asia.
Ah, e aquele cara que tá devorando os pães é meu marido.
A Anna me falou muito de vocês.
Por que morou num orfanato até os 16 anos?
Asia!
Já que ela sabe tanta coisa da gente, eu queria saber um pouco dela.
Rigel.
Oi, gente.
Me desculpa o atraso.
Senta pra gente comer.
Quem vai querer a primeira salsicha?
Nica, você pode atender?
Tá bom, eu vou lá.
Adeline!
- Oi! - O que que você tá fazendo aqui?
Eu que convidei.
Como fez pra sair de lá?
Eu já vou fazer 18 anos,
então eles me deixam sair pra procurar emprego na cidade.
E aí, a Anna me ligou ontem à noite e eu vim.
Vem, vamos entrar.
Ai, obrigada.
A Anna me contou que a sua irmã arrasa corações na escola.
Fica orgulhoso ou com ciúme?
Não tô nem aí pra vida amorosa da Nica.
Eu sei que você não gosta de aniversários,
mas esse é diferente.
É o começo de uma nova vida pra você e pra Nica.
Amanhã, vocês vão ser oficialmente Milligans.
Nós concluímos a adoção.
Estão zoando?
- Eram dois pelo preço de um? - Asia!
Vocês dois estão tentando substituir o Alan.
Faz meses que vocês não falam dele.
Eu não preciso falar do Alan pra lembrar dele.
Ah, não? O que parece é que vocês esqueceram dele.
- Como pode falar uma coisa dessas? - Como podem fazer uma coisa dessas?
Asia.
Você se prende a essa dor como se fosse uma rocha
que vai te puxar mais pra baixo.
Nós estamos tentando seguir em frente.
Adotando esses dois?
Não.
Fazendo o bem pra essas crianças que só precisam de amor.
Eu também preciso de amor, mas o Alan não tá mais aqui.
E eu nunca mais vou ver ele, não… vou poder falar o quanto eu o amo.
Desculpa, mas eu não aceito isso.
Ninguém vai substituir ele.
Asia!
Eu não sabia que a Asia namorava o filho dos Milligans.
Eu tinha imaginado,
mas a Anna e o Norman não falam disso.
Hum.
Todo mundo tem seus dramas.
Mas não deixa eles te envolverem.
Dá pra ver que eles te amam.
Todo mundo tem seus dramas, mas são dramas diferentes.
- O meu lugar não é com eles. - Mas como assim?
Você sempre quis ter uma família.
Eles não sabem quem eu realmente sou.
Não sabem de tudo que nós passamos.
Você devia contar.
Eu não quero que eles me achem perturbada,
inútil e feia.
Nica.
Você não é perturbada, nem feia, nem inútil.
Só tem que se libertar do Grave.
É impossível.
Não, não é impossível.
As coisas mudaram.
Depois que o Rigel saiu, a Margaret ficou diferente.
Ela fica trancada no quarto
e, às vezes, a gente ouve ela gritando e quebrando coisas.
Que mais?
Eu vi o Peter, outro dia.
Como ele tá?
Bem.
A família dele é fantástica.
Mas ele disse que é difícil se adaptar.
Ele quer formar um grupo pra denunciar a Margaret.
Não.
- Sim. - Não.
Nica. Seu depoimento seria fundamental pra gente.
Você foi a que mais sofreu, ela sempre te torturou mais que todos.
Ajuda, nós precisamos de você.
Eu não tenho coragem de encará-la.
Claro que tem. Você é muito mais forte do que pensa.
A Dalma e o George acabaram de ir embora.
Me desculpa, Nica.
Aproveitando, eu vou também, senhora Milligan. Vou pro orfanato.
- Tchau, Adeline. - Obrigada.
Tchau.
Você não precisava ter ouvido aquilo.
- A Asia tá fora de si. - Não faz mal.
Por que não conta pra Nica que veio pra cá pra ficar com ela?
Ela sempre sonhou com uma família.
Eu não posso tirar isso dela.
Rigel,
conta que era você que segurava a mão dela.
Até hoje, ela pensa que era eu.
Não existe um conto de fadas em que o lobo segura a mão da menina.
Vai lá, vai.
Tchau, Rigel.
Até mais.
Eu te amo.
Também.
Eu fico com dó da Asia.
Hum.
É que ela não entende onde o amor acaba e a dor começa.
E ela precisa lembrar que existe diferença.
Eu queria que a gente tocasse junto, que se perseguisse,
se tocasse.
Queria apagar a tristeza dele.
Queria apagar a Margaret, queria apagar o passado.
Queria que, de agora em diante, o Rigel não pensasse mais nela enquanto tocava.
E sim em nós.
Nas nossas mãos unidas.
Nos nossos corações entrelaçados.
A gente podia ser uma melodia cheia de imperfeições.
De falhas e defeitos.
Mas também cheia de risada, de deslumbramento e felicidade.
Eu não te dei nenhum presente.
Não importa.
Importa, sim.
Eu queria consertar isso.
Eu falei que não importa.
Deve ter alguma coisa que você quer.
Qualquer coisa.
Qualquer coisa?
E se eu pedisse pra ficar parada?
Exatamente aí.
Não se mexe.
Fica aqui, por favor.
Por favor.
Lionel, o que tá fazendo aqui?
Nica, sei que tá tarde, mas eu não consigo dormir.
Eu não paro de pensar em você.
Eu não suporto você vivendo com ele.
Eu não suporto ver ele sempre perto de você.
Vocês estavam juntos agora, né?
Você vestida assim…
O que ele te pediu de presente, hein?
Nica, você vai ser irmã dele.
E se ficassem sabendo?
- Acha que seus pais ainda iam te querer? - Vai embora!
Me desculpa.
Eu gosto muito de você.
Rigel?
Vai embora.
Eu não faço parte da sua história perfeita.
Pode ir com ele.
Eu não vou embora.
Eu quero ficar com você.
Vai pra cama, Nica, vai.
Continua se iludindo, acreditando em contos de fadas.
Mas nós dois somos um grande desastre.
Tem coisa que não dá pra consertar, Nica.
É verdade.
Nós somos um desastre.
Não somos iguais aos outros.
Mas talvez a gente tenha quebrado em mil pedaços
só pra poder se encaixar melhor.
A tua vida inteira, você quis ter uma família.
E você merece.
Merece ter novos amigos.
Merece um namorado normal.
Você é feliz aqui.
Eu sou feliz porque você tá aqui.
E depois?
E depois o quê?
Qual você acha que vai ser o final dessa história?
Eu só iria te fazer mal.
Não importava tudo que a gente tinha vivido.
Talvez fosse por isso que a gente se sentia tão conectado.
Nós dois sabíamos a verdade.
Eu e ele, eternos e inseparáveis.
Ele, a estrela, e eu, o céu.
Ele, o arranhão, e eu, o curativo.
Vai sair?
Vou estudar na casa da Miki, e depois a gente vai direto pra festa.
- Festa? - Na escola.
Legal. O Rigel vai também?
Eu não sei. A gente não tem se falado muito.
Eu percebi.
Bom dia, senhora Milligan.
- Oi, Billie. - Eu vou lá.
Tá, divirtam-se. E não voltem tarde, tá bom?
Não precisa se preocupar. Eu cuido dela.
- Tchau. - Tchau.
Oi?
Você não vai na festa da escola?
Rigel, o que está acontecendo?
Você tá assim desde o seu aniversário.
Anna, eu…
quero falar uma coisa.
Não ficou incrível?
Muito.
E como eu tô?
Tá bem.
- O vermelho não é melhor? - O que que você tem hoje?
Tá, eu conto. Estão prontas?
Eu sei quem me deu as rosas brancas.
Foi o Phelps.
Como é?
Hoje eu encontrei ele no mercado, e aí perguntei na cara dele,
e ele respondeu: "É, fui eu."
Mas eu sempre soube que era ele.
Não, não é ele.
Você sempre faz isso, não consegue ficar feliz por mim.
Billie, não foi ele.
E como sabe?
Porque fui eu.
Como assim?
Eu sou a pessoa que te dá uma rosa todo ano.
Mas por que você fez isso? Foi por dó de mim?
Pra eu não ficar sem nada? Diz por que você fez isso, Miki?
Porque tô apaixonada por você.
Eu estraguei tudo.
Tá tudo bem?
Tudo incrível!
A Miki tá muito triste.
Eu não quero nem falar sobre isso.
Essa noite, eu só quero beber até esquecer quem eu sou.
E aí? Você quer dançar?
Vai se foder. Vai se foder, vai se foder, vai se foder.
Qual o problema dela?
Lionel?
Olha, Nica, me desculpa.
Eu fui um idiota, mas…
É que eu tô muito a fim de você e…
E eu não tô lidando bem com isso.
Tá bom, e?
Então vamos dançar.
E fazer as pazes.
A minha cabeça tá girando.
Eu não tô acostumada.
Vamos pra um lugar mais de boa.
Por que você me trouxe aqui?
Olha isso.
Nossa.
Gostou?
Sim.
Para, Lionel.
Eu tô melhor. Vamos voltar.
Primeiro, você quer vir aqui,
e agora, quer ir embora?
Lionel, por favor.
Shh.
Lionel, para, sério. Me solta.
Me solta.
Billie. Billie!
Cadê a Nica?
Ah, eu não sei.
Ela tava aqui um minuto atrás, com o Lionel.
Espera, eu acho que vi eles indo pra lá.
Lionel. Me solta!
Socorro.
Some da nossa frente. Ãh?
Você acha que é bonzinho, né?
Você acha que é herói.
Quer ver como eu consigo ser o vilão?
Eu vou, mas isso não vai ficar assim!
Você tá bem?
Tem certeza?
Sabe quais foram as últimas palavras da minha mãe?
O lobo só é o malvado dos contos de fadas porque alguém decidiu que era assim.
E, se você é o lobo,
eu não consigo imaginar um conto de fadas sem você.
Eu sou cheio de espinhos.
Eu nunca tive medo de me machucar.
Vocês são nojentos!
Vai todo mundo saber o que vocês tão fazendo.
Lionel, por favor.
Ele devia te tratar como irmã, você não enxerga isso?
Quer ficar com ele?
Péssima decisão.
Vamos logo.
Te amo.
Nica?
Nica, tá ouvindo?
Oi.
Você tá no hospital. Aconteceu um acidente grave.
Vou chamar a Anna e o Norman, estão lá fora.
Espera.
Lá no Grave, quando a Margaret
me castigava,
não era você que segurava minha mão, né?
Era o Rigel.
É, era o Rigel.
Mas ele não queria que eu contasse.
Por quê?
Porque ele…
Oi!
Nica.
Que susto você deu na gente hoje.
Cadê o Rigel?
- Eu vou chamar o médico. - Tá.
Cadê ele?
- Cadê ele? - Fica calma.
Os médicos estão fazendo uns exames.
Quando souberem qual é a situação, eles explicam pra gente.
Eu quero ver ele.
Você não pode se mexer, Nica.
- Bom dia. - Bom dia.
O que aconteceu?
Vocês caíram de uma ponte muito alta.
O corpo dele aliviou a sua queda, mas ele está em coma.
Coma?
Infelizmente, a doença preexistente dele complicou o quadro clínico.
Doença preexistente?
Ele tem neuromas no cérebro.
Eles causam febre e muita dor de cabeça.
Sinceramente, não consigo entender por que ele nunca operou.
Quero ver ele.
A gente não pode ver ele.
A Margaret não tá deixando ninguém entrar.
A Margaret?
Nica.
O Rigel recusou a adoção.
Não, é impossível.
Estava bem decidido, não queria mais morar com a gente.
E então, a Margaret recuperou a tutela dele.
Aqui.
Ele deixou isso pra você, no seu quarto.
Me leva pra ver ele.
Por favor.
Eu sabia que, um dia, você ia destruí-lo.
Eu nunca deveria ter deixado ele ir embora.
A culpa é sua que o Rigel está em coma.
Eu preciso ver ele.
Não, Nica.
Você não pode ver ele, nem hoje, nem nunca.
Por favor.
Eu já te falei isso antes.
Chorar não vai trazer de volta o que você perdeu.
Agora, vai embora.
Ela queria me manter afastada do Rigel,
mas eu voltava lá todos os dias pra ficar perto dele.
E eu não era a única.
Amigos novos e antigos iam comigo,
e eu não desisti.
Mas o passado continuava me machucando, e ele parecia cada vez mais longe de mim.
Só tinha um jeito de libertar nós dois.
Chamo para depor, como 1ª testemunha, o senhor Peter Corrin.
Senhor Corrin, o senhor já foi submetido a violência física ou emocional
durante o período em que viveu no orfanato Sunnycreek?
Não.
Na sua declaração do dia 20 de fevereiro desse ano,
o senhor disse:
"Os castigos físicos eram parte do dia a dia.
Eu mesmo apanhei várias vezes e muitas vezes ficava sem comer."
O senhor lembra de ter dito isso?
Eu me confundi.
O senhor sabe que dar falso testemunho é crime?
Objeção, excelência.
Ele está intimidando a testemunha, que também é menor de idade.
Mantido.
Oi.
Oi.
Como ele tá?
Indo.
A Anna e o Norman me falaram que o julgamento começou.
Como tá indo?
Bem difícil.
Olha, eu queria te pedir desculpa pelo jeito que eu me comportei.
Eu entendo.
De verdade?
Eu sei o quanto dói
perder um grande amor.
Senhorita Milligan.
A senhorita foi adotada quatro meses atrás.
Tinha um menino com a família Milligan, se não me engano.
Sim. Rigel Wilde.
Pelo que eu soube, ele decidiu voltar pro orfanato Sunnycreek
e não aceitar a adoção.
Objeção, excelência. Não tem relevância.
Se me der um segundo, já vão entender a relevância da minha pergunta.
Continue, advogada.
A testemunha pode responder a pergunta.
Não é o que pensa.
Pode responder a pergunta, por favor?
O Rigel Wilde recusou a adoção?
Sim.
Então, um menino que finalmente tinha encontrado
uma família que o amava
de repente decidiu voltar pra um lugar
onde ele era constantemente torturado?
Não, não é assim. Ela não batia nele.
- Não ouvi. - Ela não batia nele.
- Batia nos outros? - Isso.
E por que ela não batia nele?
Pra ela, ele era como um filho.
Você está apaixonada pelo Rigel Wilde?
Objeção, excelência! Objeção!
Negado.
Responda a pergunta.
Sim.
Então, ela ia ser adotada com o rapaz que ela ama,
mas ele decidiu voltar pra mulher que ele considera sua verdadeira mãe.
Ele odeia ela.
É mesmo?
Eu acho que é você quem realmente odeia a Margaret Stoker,
que agora está sendo julgada graças a uma vingança pessoal.
Objeção, excelência! Isso é intimidação de testemunha.
Ela insultou a minha cliente.
Eu não tô me sentindo bem.
Isso é só o começo, você não pode desistir.
Ela nunca vai parar, você viu como ela me tratou.
Nós precisamos ter muita fé, Nica.
Uhum.
Vamos voltar, pode ser?
Tá.
Vem aqui.
Tudo bem, senhorita?
Tem certeza de que quer continuar?
Senão, podemos suspender a audiência até amanhã.
Não. Eu tô bem.
Então, por favor, continue.
A gente chamava o orfanato de Grave.
E não era porque a tinta dos muros estava descascando,
nem por causa dos porões úmidos onde a gente passava o dia trancado.
A gente chamava de Grave porque era a tumba das almas.
Eu não tenho cicatrizes físicas do que eles me fizeram.
E só agora
eu percebi que eu não estou aqui
só pra denunciar os abusos
que eles fizeram comigo,
com a Adeline,
com o Peter,
e com as outras crianças,
mas também pelo que ela fez com o Rigel Wilde.
O Rigel,
que a Margaret amava como um filho,
era obrigado a ficar olhando a gente ser torturado todos os dias,
sem poder ajudar.
A Margaret convenceu o Rigel que ele era um monstro.
Ela fez ele pensar que ele era o lobo dos contos de fadas.
E, se o mal te ama…
como você
iria ser amado ou dar amor?
Agora, o Rigel está em coma.
Mas, pela primeira vez, eu sei que ele está vivo.
Porque agora ele sabe o que é o amor,
e sabe que é amado.
Não me importa se vocês acreditam ou não.
E eu entendo por que alguns tiveram medo de vir depor e contar a verdade.
Provavelmente, porque suas almas ainda estão aprisionadas no Grave.
Naqueles porões sem céu.
Sem saber que, pra ser amado,
ou amar alguém,
você não pode ter medo.
Só precisa ter coragem.
Rigel.
Nós vencemos.
A Margaret não vai te machucar mais.
Olha como você me fez chorar.
Você é meu fabricante de lágrimas.
Todo mundo tem o seu.
É aquela pessoa que consegue te fazer chorar,
te destruir ou te deixar contente,
só de te olhar.
Eu te amo.
Te amo mais que tudo.
Nica.
Rigel.
Rigel.
Esse era o menino que tinha me olhado pela 1ª vez nas portas do Grave.
Aquela era a mão que tinha encontrado coragem pra segurar a minha no porão.
Aquele era o coração que ele nunca tinha encontrado coragem pra me entregar.
Mas que, em todos os momentos e lugares, gritava o meu nome.
E, mesmo que nossa história não pudesse ser um verdadeiro conto de fadas,
e que a gente sempre fosse aquelas duas crianças
que se conheceram em um orfanato,
talvez a felicidade também existisse pra gente.
Eu não estava mais sozinha.
Tinha encontrado uma família,
pessoas que me ensinaram o que era amizade,
e outras que se encontraram,
e se sentiram ouvidas e compreendidas.
Eu havia descoberto quantas nuances existem nos sentimentos,
o quanto é difícil ser você mesmo e deixar os outros te aceitarem.
E, no fim, eu entendi que o maior conto de fadas
está dentro do nosso coração.
O FABRICANTE DE LÁGRIMAS
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