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UMA SÉRIE DOCUMENTAL NETFLIX
Quando partimos na primavera de 2015,
andámos muito de carro, de um sítio para o outro.
ARQUIVOS DO PROCESSO DA PROCURADORIA DE NOVA IORQUE
Há quanto tempo trabalhas na gasolineira?
Podia trabalhar numa gasolineira?
É o que estás a dizer?
Acho que tinha a noção de que não queria ser identificada.
Se visse um polícia, não me desviava.
Só desapareci. Isso é crime? Eu não… Portanto, eu não…
Nunca senti que éramos fugitivos ou nos estávamos a esconder.
Ganhei dez paus.
Estás a raspar com vigor. Quanto ganhaste?
Ganhei dez paus.
Dez paus? Devíamos investi-los.
Alguma vez pediu para cobrir a tatuagem?
Sim.
Não me queria lembrar dela, nem que me perguntassem sobre ela,
então, não me importava de a cobrir.
Tinha caixas de pensos-rápidos grandes,
de um tamanho que a cobria perfeitamente.
Estava sempre a usá-los.
Ele também me disse para pensar num nome para usar.
Se conhecesse alguém,
que me perguntasse o nome, chamar-me-ia Emma.
Porque se chamava Emma?
Porque não podia ser Sarma.
"PARTE IV VAI FICAR TUDO BEM"
Se perguntasse o que estávamos a fazer,
dava-me uma resposta vaga, da treta.
Sabendo o que sei agora, íamos andar
de um lado para o outro, de casino em casino.
Fomos parar a Las Vegas. Claro que foi onde fomos parar.
Estivemos lá vários meses.
Ele tinha uma maneira de ir a slot machines de altas apostas
e ganhar muito.
Uma máquina a seguir a outra. Ganhava seis mil dólares.
Ganhava dez, 12 mil dólares.
E era como se ele fosse capaz de fazer com que isso acontecesse.
Habituei-me a isso.
Em Las Vegas, estive sozinha a maior parte do tempo.
Nunca tinha ido a Las Vegas.
Era frustrante ser tão difícil
encontrar comida minimamente saudável.
Achei frustrante não haver livrarias nem bancas de jornais.
Achei que era um sítio muito desagradável para se estar.
Ficava no meu quarto,
às vezes via as notícias e, ao mesmo tempo, estava a jogar
uns jogos no iPad.
Ou ficava inquieta e ia dar uma volta.
O tempo estava a mudar e, quando parti,
tinha uma mala com poucas mudas de roupa.
Agora era inverno e, mesmo em Las Vegas, estava frio.
Tinha de comprar um casaco de inverno, calças e essas coisas.
Ocasionalmente, íamos jantar fora
ou fazer algo juntos, mas não muito.
Ele tentou ensinar-me a jogar póquer e achou que eu seria boa nisso,
e que gostaria. E não sei qual era o propósito.
Foi a minha única participação no jogo.
Mas não gostei, porque não gosto de perder.
Há uma ideia de que o Anthony e a Sarma eram como a Bonnie e o Clyde,
a viajar pelo país, a ficar em motéis baratos…
JORNALISTA
… com dinheiro roubado a investidores,
e eram financiados
por essas centenas de milhares.
Não foi isso que aconteceu.
Eu sinto que o Anthony não sabia exatamente o que fazer a seguir.
Ele percebe que não ia conseguir tornar o cão imortal
e cumprir as promessas que fez à Sarma,
mas provavelmente também não entende
que também não há mais dinheiro para lhe roubar.
E fica à espera, sem ter a certeza do que fazer.
Houve algumas vezes em que me passei.
Não. Meu Deus, não. Agora não!
Deixa-me em paz!
Tens de te levantar e vestir! Vem comigo. Tens de vir.
- Porquê? - Porque tem de ser!
Porquê?
Sabia que se eu fizesse birra e começasse a gritar num quarto de hotel,
alguém podia chamar a Polícia e, de repente, acabava-se o jogo.
Então, de certa forma, sempre soube manter-me calada.
Tenta parar de chorar.
Sarma, preciso que pares de chorar. Está bem? Tenta parar.
Vamos falar de outra coisa.
Tirar daí o sentido.
O que quiseres. Está bem?
A porta não estava trancada. Eu não estava amarrada.
Podia ter-me levantado e fugido.
Por isso, não é…
muito fácil de entender.
Acho que era mais difícil reconhecer o que se estava a passar na altura.
Não gostava de estar no mesmo quarto com ele durante a noite.
Ele arranjava dois quartos ou uma suite com espaços independentes.
E chegou a um ponto em que o cheiro pessoal dele
se tornou repugnante para mim, por causa de toda a situação.
Eu não queria a relação física que tínhamos.
De uma forma estranha, lixada, vampiresca,
ele precisava da minha energia ou algo assim. Não sei.
Era algo muito nojento. Começou em Nova Iorque.
Lembro-me que ele me disse para levar vinho
do restaurante e eu não sabia porquê, porque ele…
Ele não bebia ou, se bebia, era… Ele bebia muito pouco.
Mas… Ele pediu-me para trazer um vinho do restaurante
que era para mim, não para ele.
Ele disse, antecipadamente:
"Tenho de fazer uma coisa e tu tens de fazer o que te digo,
e não é porque queira fazê-lo, mas tenho de o fazer,
e tu tens de alinhar, e fazer o que eu disser,
e não podes resistir." Como se tivesse de fazer aquilo.
Fazia parte de um processo.
Portanto, ele vendou-me os olhos e depois…
deu-me ordens, sabes,
e fez-me fazer isto e aquilo, e ajoelhar-me, e fazer…
E tudo coisas que eram extraordinariamente desconfortáveis naquela situação.
E acho que fiquei a chorar e ele depois pediu desculpa. A sério.
Enquanto dizia que nunca o voltaria a fazer e…
sabes, como se fosse…
algo que teve de fazer por algum motivo lixado e bizarro.
SEGUNDA FEIRA, 8 DE JUNHO
Sarma, por favor. Está bem? Não podes…
Tens de descer e beber um café.
Acho que ele…
fazia coisas que faziam parecer que estava a tomar conta de mim.
Trazia-me um cappuccino triplo
do Starbucks da receção e um pouco de aveia.
Era o meu pequeno-almoço.
Só me trazia um café e aveia.
Mas, naquele contexto, parecia
que ele estava a ter uma consideração extrema por mim.
Sarma, tens de te levantar e ir ao banco.
Ao menos, levantar-te.
Não tenho telemóvel nem forma de ligar.
Dou-te o telemóvel, mas…
Não quero o telemóvel para ler essas merdas.
Não tens de ler as mensagens. Não tens assim tantas.
Levanta-te.
Tens de te levantar.
Por favor. Está bem?
Estou a manter todos afastados. Está bem? Tens de te levantar.
Ele mandava mensagens do meu telemóvel,
porque eu pensava: "Eu não consigo fazer isto.
Não consigo fazer isto."
Vá lá.
Não podes desistir de tudo, porra.
Ele estava a contactar com a minha mãe e com as pessoas.
DE: SHANE FOX
GRANDE ABRAÇO NO SEU ANIVERSÁRIO. ESPERO PODERMOS CELEBRAR EM BREVE.
DE: MÃE DA SARMA
A SARMA SABIA QUE ERA O MEU ANIVERSÁRIO?
A TRANSFERÊNCIA FOI ENVIADA?
MÃE DA SARMA ESCREVEU: AMANHÃ OU QUANDO?
É CRUEL NÃO ME RESPONDERES! POR FAVOR…
SHANE ESCREVEU: NÃO É DE PROPÓSITO.
TENHO COISAS IMPORTANTES, ESTOU INDISPONÍVEL.
- O Shane/ - Anthony pedia dinheiro. A minha mãe dava-lho.
Queria ajudar a Sarma
e ajudá-la a sair de uma situação financeira
que descrevia como péssima.
E estava muito preocupada com a filha.
Ela faria tudo pela Sarma, e fê-lo.
DE: SHANE FOX
NÃO RECEBI OS 1500$,
PRECISO QUE MOS EMPRESTE.
PODE ENVIAR PELO MONEY GRAM, COMO ANTERIORMENTE.
PRECISO DE MAIS 12 MIL.
PRECISO DE 10 MIL ATÉ SÁBADO DE MANHÃ
ENVIE 14 MIL HOJE.
MORADA: CASINO HARRAHS PASSE UM CHEQUE À ORDEM
DA SUA CONTA PESSOAL NO VALOR DE 14,500 $
DEIXA-ME LOUCA PORQUE CUSTA TANTO DINHEIRO
ONDE É QUE A SARMA PENSA QUE ARRANJAS O DINHEIRO?
O XERIFE VOLTOU CÁ HOJE
À PROCURA DA SARMA OU DE FORMA DE A CONTACTAR
QUANDO RESOLVEM O PROBLEMA?
Ele disse: "Ela está mal, psicologicamente.
PAI DA SARMA
Não lhe ligue. Fica chateada. Ligue-me a mim."
O Anthony devia…
tê-la proibido de responder
até eu ameaçar chamar a Polícia.
A minha família estava cada vez mais preocupada e, por isso,
acho que ele se apercebeu que eu tinha de contactar com eles.
Portanto, ocasionalmente, punha-me a falar com o meu pai ou a minha mãe.
Quase como refém, passava-me o telefone, tipo: "Estou viva, estou bem."
Ele disse-me para não falar de nada
e dizer-lhes que estava bem, que estava tudo bem…
Porque eu também não sabia o que dizer.
A Sarma é adulta.
Então, até provem contrário,
tens de acreditar nela, porque não sabemos o que se passa.
E isso foi doloroso. Ela é minha irmã.
Considero-nos íntimas.
Passei por um período de luto, basicamente.
Senti: "Meu Deus. A minha irmã é alguém que não posso…
Não poderei mais ter uma ligação com ela.
Ela não quer uma ligação connosco."
Senti um luto pela perda da minha irmã.
Foi uma espécie de gigantesco
e autoimposto estado de negação.
JUNHO 2015
JULHO 2015
AGOSTO 2015
Nessa altura, acho que tínhamos partido há cerca de dez meses.
FEVEREIRO - MARÇO 2016
Sarm, vá lá. Não chores. Não podes desistir agora.
Está bem?
Vá lá, não deixes esse medo e essa raiva tomarem conta de ti.
Porque não admites que és um idiota do caralho?
E estás a torturar-me há quatro anos e meio, caralho.
Eu não fiz nada disso. Desculpa se te aborreci.
Mas o dia de hoje é importante. Amanhã também é.
Não posso passar o resto do dia contigo a gritar e a chorar.
Ele não me tinha pedido
para fazer nada há muito tempo, mas ele…
disse-me que tinha de pedir dinheiro emprestado a alguém.
Ele dizia: "Têm de ser 60 mil dólares.
Tens de conseguir esse valor."
Um amigo meu, de Nova Iorque, concordou…
emprestar-me algum.
Deixámos Las Vegas e começámos a dirigir-nos a Nova Iorque.
Parámos numa estação de serviço e ele saiu do carro.
Estive tão perto de pegar no carro e deixá-lo ali.
E deixou a carteira no carro, o que o teria deixado
numa situação difícil.
Foi só um momento em que estive prestes
a fugir, tipo,
evitar problemas, fazer alguma coisa.
E depois pensei naquilo.
Sabes, éramos casados
e todo o dinheiro vinha da minha empresa.
E fora todo levado, emprestado ou o que seja,
em meu nome, e eu dei-lho.
Legalmente, ele tem culpa de quê?
Quando estava a pensar nisso,
ele voltou ao carro.
E estivemos na cidade durante um dia, o que foi incrivelmente estranho.
Encontrei-me com um amigo que me deu muito dinheiro.
Não fui a lado nenhum, nem ao restaurante.
DONA DE RESTAURANTE DESAPARECIDA
Se ele deixa a Sarma em Nova Iorque,
vai tornar-se óbvio
que ele a enganou e que enganou a mãe dela.
Porque sabe o que fez.
Por isso, tem de a afastar de Nova Iorque
e esperar que, de alguma forma, contrária à razão,
tudo isto se dissipe.
Daí, acabámos por partir de novo.
Foi quando fomos parar ao Tennessee.
É uma espécie de história americana clássica.
Acabam num motel no meio do país.
Curiosamente, perto de Dollywood.
DOLLYWOOD AMA CADA MOMENTO
Senti que, o tempo todo, houve muito
que era surreal, mas que ficou muito mais no final.
Toda a área de Pigeon Forge
era tão bizarra e estranha, como de outra era.
BUTTONWILLOW TEATRO DA GUERRA CIVIL
Não sei porque fomos lá parar.
Acho que foram para lá
porque o Anthony não sabia mais para onde ir
e a Sarma estava apenas…
Não só tinha perdido todo o seu dinheiro, mas a sua…
perspetiva sobre a vida, a sua realidade, tinha-lhe sido sugada.
Nada fazia sentido. Então, porque não? Porque não estar ali?
Mas, em última análise, estavam no fim da linha.
Fomos parar a um hotel nos subúrbios da cidade,
onde ficámos 40 noites.
Ele dizia-me sempre: "Não te preocupes. Vai ficar tudo bem."
E eu dizia:
"Mas que porra? Estás sentado a jogar Call of Duty
e a fazer-me ir comprar a tua comida repugnante, e…
Estou aqui a morrer de tédio, a vaguear por aí."
Dava-me algumas centenas de dólares de cada vez,
para eu ter dinheiro para comprar comida ou algo assim.
Havia um Chipotle à frente.
Ia lá regularmente
e fiquei a conhecer o pessoal.
Fiz lá um amigo.
Chamava-se Dustin e ele era…
Mas não lhe contei nada sobre mim. Disse que me chamava Emma.
Foi a única pessoa que conheci enquanto estivemos fora,
com quem alguma vez falei.
Escapava-me e ia estar com ele.
Sentávamo-nos na esquina do Chipotle
a beber cerveja e a conversar.
Foi quase como uma espécie de pausa normal na vida dela,
mas preocupava-se que o Anthony descobrisse
que tinha um amigo no Chipotle,
porque o Anthony tinha de saber tudo sobre ela.
E isto não era… Sabes, seria algo
que o Anthony odiaria.
Não quereria que ela fosse amiga do Dustin.
Lembro-me da primeira vez que veio cá.
Tinha o Leon com ela e eu fiquei estupefacto.
Nunca fizemos nada espetacular.
Bebíamos cerveja e falávamos de política.
Fiquei intrigado com ela. Ela era tímida, mas extrovertida ao mesmo tempo.
Notava-se que escondia alguma coisa.
Não mentia, mas fugia às perguntas,
e eu sou uma pessoa muito direta.
Acho que foi isso que atiçou a nossa relação,
porque eu confrontava-a.
E sentia-se confortável comigo. Falava.
Depois olhava para o relógio e dizia: "Tenho de voltar."
Ela pediu-me: "Não mandes mensagem se eu não mandar primeiro."
Fiz sempre o que ela me pediu.
Quando ganhou confiança comigo,
contou-me o que se passava com o tipo com quem estava.
E ele não era boa pessoa,
e ela estava a tentar fugir dele, basicamente.
Como é que ele se chamava?
Não sei… Acho que era Chris.
Foi o nome que me disse.
Não era Shane.
- Não. - Nem Anthony.
Não.
RESTAURANTE HATFIEL & MCCOY TUDO O QUE PODES COMER
Entretanto, eles ainda não tinham nenhum processo.
O que acontece, por fim, é que parece que alguns investidores
contactaram as autoridades a dizer:
"Esta mulher está desaparecida." "Falta-nos algum dinheiro."
"O que se passa?" E depois emitiram um mandado pela Sarma e pelo Anthony.
TRABALHADORES REABREM RESTAURANTE APÓS DONA DESAPARECER
PROCESSO DE 280 MIL DÓLARES
ALEGA QUE LEVANTOU FUNDOS PARA "PROPÓSITOS IMPRÓPRIOS".
Os investidores que foram enganados
abriram processos.
Com esta quantia, é um crime.
O que pensava, naquela altura?
"Merda", sabe? Não sei.
O Anthony contactou-me do Tennessee.
Disse: "Desculpa, miúdo.
CONHECIDO DO ANTHONY
Acho que acabou e…" Sim, pediu desculpa.
E eu disse:
"Boa sorte e cuidado.
Só isso. Estão à tua procura. Têm um mandado, se queres saber."
E ele: "Sim, eu sei."
E eu disse: "Mais cedo ou mais tarde, vais ser apanhado."
O mais estranho foi que o Anthony veio ao meu quarto e disse:
"Isto vai ser…
mais um grande golpe", disse ele.
Como se fosse haver mais uma…
coisa terrível que tivesse de suportar.
VAI FICAR TUDO BEM
DEDICADO AOS CIDADÃOS
Recebemos uma chamada de um indivíduo em Nova Iorque
que nos disse que havia dois fugitivos na nossa área
que eles procuravam. Foi assim
que nos envolvemos no caso.
POLÍCIA DE SEVIER
Apurámos que um cartão de crédito fora usado
para comprar piza e asas de frango
de um Domino's Pizza localizado em Pigeon Forge.
Acho que estavam cá porque é um local turístico.
É muito fácil passar despercebido.
Localizámos o restaurante Domino's onde pediram a piza.
AGENTE, POLÍCIA DE SEVIER
Falei com a gerência.
Disse-nos que, de facto, entregaram uma piza
e só entregaram uma nessa manhã, e foi mandada
para o Fairfield Inn, em Sevierville, no Tennessee.
A piza foi encomendada no nome dele, Anthony Strangis.
Foi a piza que nos levou do Domino's até ao hotel.
Quando informámos o pessoal do hotel do que aconteceu,
pareciam muito chocados.
Não pareciam pensar que eles andavam fugidos.
Inventámos um esquema.
"Liguem. Chamem-no cá abaixo.
Digam que há algum problema com o cartão."
Usámos o esquema do problema com o cartão de crédito,
que na realidade havia.
Acho que os últimos dias, talvez uma semana,
não foram descontados do cartão.
A rececionista disse que seria um prazer
pedir-lhe para descer e discutir o pagamento.
Quando ele desceu,
aproximámo-nos por trás dele e detivemo-lo.
Quando foi detido e o colocámos no carro,
recebemos a informação do número do quarto de hotel.
Estava no quarto com o Leon
e estava deitada na cama a ler um livro.
E o Leon começou a ladrar porque havia
tumulto no corredor.
Estivemos sempre nos mesmos quartos, lado a lado.
Era ao fundo do corredor,
era estranho estar alguém à porta.
Passaram 45 segundos ou um minuto.
A porta do 317 abriu e uma jovem pôs a cabeça de fora.
E sem hesitar, por segurança,
o Detetive Brown disse: "Volte para dentro."
E quando vi, na minha visão periférica, soube logo.
Tinha estudado a fotografia e sabia que era a Sarma.
E disse: "Acho que é ela. Agarra-a."
Ela não estava muito bem.
Parecia estar muito magra e frágil.
A fotografia dela que recebemos
era drasticamente diferente da pessoa que encontrámos.
Quando contactámos com ela,
entrámos no quarto e ela deu-nos o nome fictício de Emma Donovan.
Reparei na caixa de pensos rápidos
na cómoda do quarto de hotel.
No braço esquerdo,
onde reportaram haver uma tatuagem,
ela tinha-a escondido com um grande penso.
Tirou-o sem hesitar e era o One Lucky Duck.
E confirmámos que era, de facto, a Sarma Melngailis.
Acho que ela ficou aliviada.
Sentou-se na cama e começou a chorar.
O detetive disse: "Está tudo bem. Acabou."
O que, em retrospetiva, foi interessante, vindo dele.
Como se ele…
entendesse melhor…
o que se passava.
Reparámos logo que os quartos eram lado a lado.
O Sr. Strangis estava num quarto. A Sarma estava no outro.
O dela estava limpo. O dele, desarrumado.
Caixas de piza. Asas de frango.
Roupa desarrumada. Pareciam completamente opostos.
Levaram-me para baixo e o Anthony estava lá.
E disseram: "Pode ir ver o seu marido,
dar-lhe um abraço e um beijo."
Acho que olhei para ele e disse,
tipo…
"Tem de ser?" Eu não… Não queria.
Quando ele viu que ela não queria nada com ele,
nem abraço nem beijo de despedida,
disse: "Tem de arranjar um advogado."
Acho que disse ao detetive um nome diferente
do que aí está. - Sim.
Quando me perguntam o meu nome, costumo dizer Emma.
Quando me perguntam o nome, costumo…
Não, o apelido era diferente.
Donovan.
Era um nome totalmente falso.
Bem, eu não sabia o que se passava.
Claro, mas este é o seu apelido, certo?
- Sim. - Está bem.
Lembro-me de olhar pela janela do carro.
E…
sentir-me atordoada.
Não sei como descrever. Estava dormente
e não funcionava.
A Polícia de Sevierville
prendeu dois fugitivos graças a uma encomenda de piza.
Os detetives dizem que Sarma Melngailis era procurada em Nova Iorque.
Era dona de um restaurante vegano em Manhattan
antes de desaparecer sem pagar ao pessoal.
Enfrenta vários processos judiciais e muitas acusações de crime.
Lembro-me de acordar, uma manhã,
com uma mensagem com…
GERENTE
… registos fotográficos policiais da Sarma e do Shane
no The Post.
Foi tão bizarro. Ele parecia a mascote do MacDonald's.
No clássico fato presidiário.
E, ao ver a Sarma, fiquei tão espantada.
Quando soube da aventura que ela teve
e que foi apanhada com uma encomenda de piza em Pigeon Forge,
peguei nas pipocas. Vamos a isto. Contem-me tudo.
EMPREGADO
FODA-SE…
FINALMENTE. PORRA!
Estava a trabalhar
e comecei a receber alertas de que ela fora detida.
Pensámos: "Foi apanhada."
E: "Meu Deus." Agora não há volta a dar.
ALGUÉM ESTÁ CHOCADO?
Quando ouvi dizer que os encontraram, tipo:
"Meu, é a sério." Tipo,
muito dinheiro e fraudes.
AQUILO É… PIZA?
NÃO, AMIGOS… É JUSTIÇA!
Não imagino a Sarma a ser presa
num motel a comer piza.
Parecia uma loucura.
VIGARISTA DERRUBA RAINHA VEGANA DE NOVA IORQUE
Quando ouvi a história, pensei:
EX-MULHER DO ANTHONY
"Sim, parece algo que o Anthony faria."
Fiquei estupefacta.
"Não acredito que fez algo tão grande."
QUEDA BIZARRA DA MENINA VEGANA DE NOVA IORQUE
Um amigo nosso disse: "A tua miúda está no jornal."
AMIGO DA SARMA
E eu: "O quê?" Sabes?
"Sim, meu. Está no jornal." Sabes…
Levou-me ao quiosque e lá estava ela.
Nessa altura, só fiquei feliz por ela estar viva.
Porque pensava que tinha morrido.
Quando soube que a Sarma foi presa,
fiquei horrorizada,
mas também aliviada e muito contente porque ela ia voltar.
Por muito que diga que não gostava daquele papel,
de mestre de cerimónias no restaurante
e de estar nas capas de livros,
e que não era verdadeiramente ela, ela odiou aquela foto detida.
Há algo naquela foto
que lhe retira toda a classe
e a ideia de quem ela era.
Foi bom saber que
haveria desenvolvimentos.
DESIGNER GRÁFICO
Que não fomos todos enganados para nada.
Parecia que se tinha safado.
PRISÃO DE SEVIER
Fizeram o habitual. Levaram-me as coisas.
Depois fui colocada…
numa espécie de cela inicial.
Enquanto estava nessa cela, o detetive veio falar comigo.
Lembro-me de fazer perguntas:
"E as minhas coisas? E o Leon?"
Ele disse-me que o Leon fora levado pela gerente do hotel.
Fiquei muito preocupada com o Leon,
porque eles disseram que iam cuidar dele. Não sei.
Não sabia o que iam fazer, o que lhe ia acontecer.
Após dois ou três dias, não tive notícias dela.
Não veio ao Chipotle. Então, recebi uma chamada
que dizia: "Tem uma chamada a pagar no destino
de uma reclusa da Prisão de Sevier."
Ela falou e disse: "Olá, é a Emma."
E eu atendi.
Lembro-me vagamente de perguntar
porque estava presa, mas não me quis dizer.
Pediu-me para ir buscar o Leon
e as coisas que ela tinha no quarto de hotel.
Então, fui buscar o Leon e tive-o dois ou três dias.
Ele brincava comigo, conhecia-me
da interação com a Sarma,
mas notava-se que sentia falta da mãe.
Eu ia tirá-la de lá.
Peguei no telefone e liguei para lá,
e comecei a falar com os detetives.
Tipo: "O que passa?
O meu cão?" Sabem? "Onde está o Leon?
O que se passa?" E ele diz: "Bem,
vamos mandá-los para Nova Iorque."
E eu: "E o cão?" "Bem, o cão está com umas pessoas."
"Não. O cão não vai ficar com campónios.
Vou aí abaixo buscá-lo."
Disseram: "Não sei se é boa ideia."
E disse: "Ouça, amigo.
Não tem gente suficiente aí para me impedir. Vou buscá-lo."
Saí logo de Nova Iorque, cheguei à Saída 5
na rodovia de Jersey.
E o pai dela contactou-me. Disse: "Estou com ele. Ele está bem."
Eu disse: "Está bem." Por isso, fiz inversão e voltei a Nova Iorque.
O meu pai tinha ido buscar o Leon.
E naquela prisão, não permitem visitas em pessoa.
Só falamos com alguém
numa espécie de versão merdosa do FaceTime.
Ela estava horrível. Quase irreconhecível.
De certa forma, acho que houve uma sensação de alívio
porque acabou.
Passava-me pela cabeça uma espécie de…
grande confusão: "Como é que pode ser?"
Ele perguntou-me se eu tinha problemas com drogas,
como se isto tivesse que ver com drogas, e…
Estava a chorar e disse: "Não."
Claro que adoraria poder dizer que sim, que ele
me tinha drogado, de alguma forma,
ou me tinha feito tomar algo que afetou o meu comportamento.
Seria ótimo se eu…
Se tivesse uma desculpa dessas.
Estive na prisão no Tennessee durante um total de dez dias.
Fui colocada no que eles chamam "os dormitórios",
que é onde as pessoas ficam mais…
numa base semipermanente.
A Sarma era muito calma e recatada.
Via-se que nunca tinha tido problemas. Era certinha…
COLEGA RECLUSA
… e conservadora, e os de lá não eram assim.
Nota-se mesmo a diferença.
A primeira impressão da Sarma foi: "Olha aquela mulher grande e assustadora."
E: "Ela vai tentar ficar com a minha comida e cobertores?"
Mas ajudei-a a fazer a cama.
Expliquei-lhe os horários dos banhos e dos telefonemas.
Era simpática. Não era a minha primeira vez.
Já estivera presa.
À noite, ficava frio,
e cada uma tinha um cobertor.
Por isso, muitas vezes, para aquecer,
acabávamos por nos abraçar a alguém.
Era mais fácil pôr um cobertor em baixo e partilhá-lo,
e aproximarmo-nos para aquecer.
Sou uma espécie de mãe.
Tento mostrar-lhes como se faz.
Pu-la debaixo da minha asa. Tornou-se uma boa amiga.
Perguntei-lhe porque permitiu que alguém a controlasse tanto.
Ela disse que fazemos coisas estranhas quando amamos alguém.
De madrugada, apareceram e gritaram:
"Levanta-te. Vais-te embora." E puseram-me num carro da Polícia.
Estranhamente, pararam na prisão masculina e foram buscar o Anthony.
E fomos levados para o aeroporto,
e estavam lá militares de Nova Iorque.
Houve uma transferência estranha em que colocaram as algemas deles em nós.
Os meus pulsos ficaram algemados ao cinto.
Surpreendentemente, permitiram-nos ficar juntos.
Ele pareceu logo preocupado.
Acho que queria alguma garantia ou algo assim, da parte dele.
Mas estávamos sempre à frente dos militares,
por isso não sabia o que dizer, perguntar ou fazer.
Depois fomos no mesmo veículo
até Rikers, e lembro-me de ele dizer:
"Não te preocupes. Vai ficar tudo bem, mas têm de me pagar a fiança.
Têm de me pagar a fiança para que eu possa fazer tudo ficar bem."
Deve ter sido a última vez que estiveram juntos.
Ela não entendia completamente
que este mundo para o qual tinha sido arrastada
estava a desmoronar-se à sua volta.
Acho que foi quando comecei a perceber
que o Anthony não tinha arranjado advogados
que me iriam salvar.
Sabes, estava sozinha.
E agora tinha de enfrentar uma muito estranha…
realidade.
De lá, pude ligar à minha irmã.
Ela disse-me a quantia que a minha mãe deu ao Anthony.
Quanto foi?
Acho que foram 400 mil dólares.
Lembro-me da reação da Sarma quando lhe contei. Ficou…
Conseguia-se ouvir como ficou stressada.
Eu e a minha mãe temos, num certo sentido, uma ligação,
porque todos nos perguntam:
"Como acreditaste nele? Como fizeste isso?"
Estávamos ambas a ser atacadas com os mesmos… com as mesmas críticas,
e na mesma posição de não conseguir explicar,
porque ninguém entende.
Há uma ligação, nesse sentido.
Mas também é triste que
eu sinta que ela devia ter uma reforma feliz e confortável.
Mas preocupa-se com coisas e sinto que isso é culpa minha.
Demorou algum tempo para o meu pai conseguir pagar a fiança.
Estive lá uma semana até conseguirem a quantia,
e depois fui libertada.
A fiança do Anthony foi definida um pouco mais elevada do que a minha.
A dele era 350 mil e a minha 300.
De qualquer forma, ninguém apareceu com a fiança.
Por isso, ficou em Rikers.
Enquanto estive em condicional,
não é que estivesse feliz,
a viver livre e feliz nesse ano.
Foi esgotante, aterrador e doloroso,
e estava a defender-me, e…
a sentir-me muito humilhada e horrível
em relação a tudo o que aconteceu, e a sentir que era culpada.
EMPRESÁRIA VEGANA
Sarma passou o dia a ser acusada no Supremo Tribunal de Brooklyn
onde enfrentou vários ex-empregados
que a acusam de não pagar.
Os cheques eram devolvidos
e suspeitámos.
EMPREGADO
Disseram-nos mentiras sobre mudanças de bancos e erros em transferências.
Investigadores dizem que Melngailis, proprietária,
roubou mais de 840 mil dólares aos investidores.
Pediu dinheiro para o restaurante e para pagar os salários.
Melngailis e Strangis gastaram dois milhões de dólares no Casino Foxwoods,
no Mohegan Sun e em viagens luxuosas pelo mundo.
Ambos enfrentam um máximo de 15 anos atrás das grades
e verão novamente o juiz em agosto.
O conceito geral era o de um esquema para defraudar.
EX-ADVOGADA DE SARMA
ACUSAÇÃO
Defraudar investidores no restaurante, empregados.
E roubou dinheiro. É aí que entra o furto,
porque houve uma alegação de que ela transferiu
com o intuito de roubar,
transferiu fundos para si e para o Strangis.
Algumas das acusações dariam 15 anos.
Não me parece que ela fosse
realmente condenada a isso.
Mas podia ter cumprido cinco, dez anos.
ESQUEMA FRAUDULENTO
TRANSFERIU UM TOTAL DE $ 1.6 MILHÕES
DAS CONTAS DO ONE LUCKY DUCK
PARA UMA DAS SUAS CONTAS PESSOAIS
E, DE LÁ, PARA A CONTA PESSOAL DE STRANGIS.
DESTA CONTA, STRANGIS GASTOU:
QUASE $ 1 MILHÃO EM FOXWOODS
MAIS DE $ 200 MIL NO RESORT MOHEGAN SUN
MAIS DE $ 800 MIL EM LOJAS DE ESPECIALIDADE
MAIS DE $ 70 MIL EM HOTÉIS
Ligou-me a advogada dela
a perguntar se podia testemunhar a seu favor.
Eu recusei.
Não conseguia…
fazê-lo. Ainda estava em negação.
O que ia eu dizer?
Eu e a Sarma entrámos em contacto.
Ela procurou-me quando a história se soube,
quando percebeu que ia cumprir pena,
e pensou que, se eu escrevesse uma carta,
isso podia ajudá-la com a sentença.
Então, escrevi a carta.
Queria ajudá-la tanto quanto pudesse,
porque me sentia tão mal por ela.
E sei como é ser levada pelo Anthony.
Sei o que é amar o Anthony.
"Há tantas mentiras para recordar.
Não quero. Ele fez-me a vida um inferno.
Um dia, ao chegar, vi uma chave de fendas na mesa.
Fui logo ao meu guarda-joias…
CARTA AO JUIZ
… e vi que não estava vazio.
O Anthony e o pai entraram-me em casa e roubaram-me bens.
Não chamei a Polícia.
O pai disse que empenharam tudo, mas recuperariam no dia seguinte.
Desapareceram em Las Vegas.
O Anthony roubou-me e deixou-me falida com um filho.
É um perigo para a sociedade."
O advogado do Anthony, claro,
negou que houve coação na relação,
que o seu cliente alguma vez abusou psicologicamente da Sarma
e que tenha prometido que o Leon seria imortal.
ADVOGADO DE STRANGIS
DISSE AO THE POST: "A MULHER É QUE GERIA A OPERAÇÃO, ERA TUDO COR-DE-ROSA…
… VIVAM À GRANDE E ELE NÃO SABIA QUE O NEGÓCIO ESTAVA A CORRER MAL,
O ESTILO DE VIDA MANTEVE-SE."
STRANGIS MANTÉM QUE MELNGAILIS TEVE UM PAPEL IGUAL NO ESQUEMA.
Podia negar, mas nós tínhamos provas
para apoiar que isto acontecera.
CULPA ABUSO PSICOLÓGICO DO MARIDO
Já tive casos populares,
mas isto teve uma atenção bizarra dos tabloides.
HISTÓRIA FICA AINDA MAIS BIZARRA
Estava na audiência em Brooklyn,
com os jornalistas do The Post e do Daily News.
Eles tiravam notas e ainda a apresentavam como
uma femme fatale loira
que é claramente culpada de extorquir os investidores.
E eu penso: "Há mais nesta história."
E ainda relatam que encomendou piza,
porque sem a piza,
a história não é tão boa, não largam isso.
A BERNIE MADOFF VEGANA:
ROUBA $2 MILHÕES E É APANHADA A PEDIR PIZA
Não há indícios de que consumiu a piza.
E eu sei que não.
Era vegana, mas quando os media começaram a ligar-me,
isso era importante.
VEGANA COM QUEIJO
Para mim, o importante
eram os milhões de dólares gastos num casino.
Quem se importa se ela se desviou das suas merdas veganas?
Acho que ela alegou:
"Isso era para ele."
Quem quer saber da piza deles?
O que aconteceu ao dinheiro?
VEGANOS LOUCOS E HIPÓCRITAS ESTÃO A DEIXAR-ME LOUCA
Há uma sensação de hipocrisia
que realmente, de várias formas,
acrescenta algo.
A piza do Domino's é essa peça.
De certa forma, os veganos apresentam-se
como sendo melhores que nós.
Não comem carne. Não matam animais.
Não prejudicam o ambiente como nós.
O facto de ela se envolver
num esquema criminoso como este…
não condiz com o que ela apresenta ao mundo.
SUPREMO TRIBUNAL
Apesar de o caso ter sido em Brooklyn em vez de Manhattan,
acho que houve um pouco de: "Vamos apanhar a magricela de Manhattan."
Sabem? "Tem de ser culpada."
'BERNIE MADOFF VEGANA' ANSIOSA EM TRIBUNAL
EX-FUGITIVA VEGANA 'FRÁGIL' RECEBE CADEIRA EM TRIBUNAL
ALGUÉM ARRANJE UM CHEESEBURGUER À RAPARIGA.
O Anthony ficou em Rikers basicamente durante um ano
no decorrer do processo legal.
Então, em última instância, quando se declarou culpado,
já tinha cumprido quase toda a pena, porque nunca saiu.
Foi condenado a esse tempo que já tinha cumprido mais um pouco,
e saiu em condicional por um período.
Não teria de procurar ajuda na área da saúde mental
nem houve nenhuma preparação
ou alguma coisa no sentido de proteger a próxima mulher
que se cruzasse com ele,
que ele fosse enganar e tentar o mesmo golpe.
E segundo o advogado que representou a mãe da Sarma,
o Anthony obteve
cerca de 450 mil dólares da mãe dela.
E ele nunca foi acusado desse crime.
Os factos relativos à mãe da Sarma
não faziam parte, diretamente, das acusações neste caso,
mas eram factos que surgiram ao avaliar o que aconteceu
e como aconteceu.
E isso foi muito triste e lamentável.
Preferia que, de alguma forma,
este tipo ficasse marcado para o resto da vida.
"Não lhe deem dinheiro.
Cuidado com o que vos diz."
Na verdade, eu dei dinheiro ao Anthony.
Carreguei o cartão telefónico dele com uns 100 dólares,
na conta prisional, queria que tivesse dinheiro para me ligar.
E lembro-me de ir ao escritório da Rikers para fazê-lo
e a rececionista dizer: "Ele não precisa.
Tem muito dinheiro." E eu: "O quê?"
MARIDO DA 'BERNIE MADOFF VEGANA' GANHA ACORDO
Todos os envolvidos achavam que também me declararia culpada.
Que só isso fazia sentido.
Acho que, em parte, porque
um julgamento…
custaria muito dinheiro
e, certamente, não era algo pelo qual eu queria passar.
'BERNIE MADOFF VEGANA' GANHA ACORDO POR ENGANAR INVESTIDORES
CONCORDOU DECLARAR-SE CULPADA DE FURTO, FRAUDE FISCAL
E UM ESQUEMA DE FRAUDE EM TROCA DE CINCO ANOS DE CONDICIONAL
DE ACORDO COM AS DIRETRIZES,
APENAS CUMPRIRÁ QUATRO MESES ATRÁS DAS GRADES.
UMA SEMANA ANTES DA PRISÃO
Antes de ir para Rikers, gravou.
Qual foi o propósito?
Não sei qual era o propósito. Foi apenas…
Acho que houve a ideia de que
algo assim acabaria por acontecer.
Porque não me entrevistar antes de ser presa?
Para ter os meus pensamentos em primeira-mão.
Diga-me o seu nome e o que faz na vida.
Chamo-me Sarma Melngailis. Atualmente, não tenho trabalho
nem nenhuma ocupação.
Vou para Rikers
durante três meses e meio, daqui a uma semana.
Porque vai para Rikers?
É uma boa pergunta. Porque vou para Rikers?
Ou porque vou presa?
O que aconteceu é algo que não se entende bem
dentro do sistema legal.
Porque não fugi? Ou fui embora? Ou chamei a Polícia?
É a grande questão.
Ninguém fala sobre assuntos
relacionados com manipulação mental.
Sabem, eu acreditei que aquelas coisas eram verdade.
A outra pessoa envolvida nisto comigo
esteve presa enquanto defendi a minha causa,
e agora saiu. Portanto, parece-me estranho
que ele saia e eu vá presa.
De alguma forma, aceitei e talvez seja…
uma forma de lidar com as coisas,
acreditar que tudo acontece por um motivo.
Chegará uma altura em que, por fim, isto fará sentido.
Não me preocupei ao pensar que ela ia estar na prisão.
Sabia que ela sabia cuidar dela.
E não fiquei preocupado.
As visitas que lhe fiz não foram tristes nem desagradáveis.
Sei que, numa das visitas, rimos.
Agora parece-me interessante
o quão adaptáveis os humanos são.
Tive esta sensação de:
"A situação é esta. Lidarei com ela."
Sabiam que era vegana. E eu não me consigo controlar.
Qualquer oportunidade que tenha para tentar convencer alguém…
No meu último dia,
quando ia sair, havia lá um guarda.
E sinto que nos 45 minutos em que estive à espera, a falar com ele,
acho que o convenci que ele devia comer menos carne.
E consegui. Sinto que ele pensou: "Está bem. Vou fazer isto."
Se pudesse fazer algo diferente, o que teria feito?
Teria enfiado aquele cabrão gordo num saco do lixo.
E mandado ao rio.
Sei que muitos querem culpabilizar
a Sarma por muito do que se passou,
e decerto de que é culpada de uma parte.
Decerto que cometeu erros, mas penso que, com certeza,
o maior foi…
deixar o Shane, Anthony, entrar na sua vida.
Parte de mim acredita que ela é uma vítima,
mas outra parte acredita que, sabes,
que ela…
é responsável por tomar as más decisões que tomou.
E depois também senti: "O que aconteceu à minha amiga?"
Sabes? "O que aconteceu à Sarma que conhecia?"
Não sentia que queria que lhe acontecesse algum mal,
mas queria que fosse responsabilizada, sem dúvida.
É demasiado inteligente para não saber o que se passava
ou o que estava a fazer.
De certa forma, sabia o que estava a fazer
e talvez estivesse demasiado envolvida,
e não conseguisse afastar-se, sabes?
Mas eu senti que ela sabia o que estava a fazer.
Passei muito tempo a analisar o crime da Patty Hearst nesta história.
Patty Hearst era herdeira da fortuna Hearst.
O rapto aconteceu a 14 de fevereiro de 1974. Que idade tinha?
Tinha 19 anos.
Foi raptada do seu apartamento em Berkeley
pelo Exército de Libertação do Sudão.
Rouba um banco em Berkeley, Califórnia.
E o debate era:
"Deve ser condenada por assalto à mão armada?"
Porque há uma ótima imagem dela
na câmara de segurança com uma metralhadora no banco.
Ela esteve lá, no banco, com uma arma.
Mas era uma rapariga muito privilegiada,
que levou uma lavagem cerebral de um culto de revolucionários.
Será? Ou tornou-se uma revolucionária?
Quando leio ou ouço outras histórias em que alguém…
Se envolveu em algum tipo de culto ou outra coisa,
eu entendi isso, e…
Mas também entendo que a maioria
não entende isso porque parece loucura.
"Como farias algo assim tão louco ou horrível?"
Acho que não mataria, se o Anthony me mandasse, já agora.
Mas entendo como poderia chegar a esse ponto.
É uma questão muito semelhante.
Se a Sarma levou uma lavagem cerebral,
devia ser condenado pelo que fez,
ou não devia?
Ainda não sei ao certo.
Acha que há hipótese de a Sarma ter casado
com o Anthony pelo dinheiro?
Não, claro. Diria que sim, é provável,
porque o restaurante estava, creio eu,
em muito má forma nessa altura,
e ela faria tudo para o salvar.
Isso é algo que poderia ser mal-interpretado
por quem não a conhecesse e à sua devoção pelo restaurante.
Que não soubesse que tudo se encaixa,
que ela não queria ter filhos.
O casamento significa algo diferente
para ela.
Ela representou-mo como, basicamente, uma combinação
feita por motivos financeiros.
Não era uma relação amorosa.
Nunca a descreveu como uma relação amorosa.
Houve sempre dinheiro envolvido.
Ela não casou com ele só porque o amava.
Não, sem dúvida que não. Ela não o amava.
Se ela casasse com ele e ele pagasse as dívidas dela,
isso seria um golpe dela para com ele.
Então, porque não? Vamos tentar.
E se a Sarma pensasse, inicialmente, que estava a dar-lhe um golpe.
Se fosse esse o engano, o golpe que estava aqui a acontecer,
e depois percebe: "Estou demasiado envolvida."
Isto faria totalmente sentido.
Pode-se contar essa história.
Digo-vos: eu não investiria o meu dinheiro com a Sarma.
Espero que ela reabra o restaurante um dia,
e pago pela lasanha.
Mas não darei as minhas poupanças para apoiar o sonho dela.
Pode falar dos danos colaterais? Sabe de que valor falamos?
Foram cerca de seis milhões e…
Foi um daqueles momentos para rir e chorar,
porque foi tão…
Quando passa uma certa quantia,
podiam ser seis milhões ou 60, porque é tão…
grande.
IMPOSTOS DE VENDAS $ 700 MIL
IRS PESSOAL $ 100 MIL
PESSOAL DE NOVA IORQUE $ 100 MIL
JEFFREY CHODOROW $ 2 MILHÕES
MÃE $ 400 MIL
GRANDES INVESTIDORES $ 850 MIL
PEQUENOS INVESTIDORES $ 300 MIL
OUTROS $ 1690 MIL
DÍVIDA TOTAL $ 6140 MIL
Ficaria contente que voltasse a existir.
É difícil imaginar como aconteceria.
Não estou em posição de pedir um investimento a ninguém.
Não posso fazer isso.
Nunca mais posso pedir nada a ninguém.
Acho que ela não desacreditou em todas as crenças
que tinha naquele culto
em que estava, criado pelo Anthony Strangis.
Não me surpreenderia
se ainda esperar que algo aconteça
e o Leon nunca morra.
Acha que está em paz com tudo isto?
Não.
Acho que, deliberadamente,
me treinei para ser otimista porque tem de ser.
Estou?
Olá, ouves-me?
CHAMADA COM ANTHONY
Ouço, sim.
22 MESES APÓS SARMA SAIR DA PRISÃO
Ia mandar SMS.
Sabes, tenho saudades tuas.
A sério?
É a minha resposta. Percebes que terias
de sair desse fato de carne e aparecer num unicórnio.
Eu sei, e já estou a trabalhar nisso.
Haverá algo.
Vais mudar de forma à minha frente?
Quero dizer…
Vá lá, estou a falar a sério!
Eu sei que sim.
Ainda te faço rir, isso é bom.
Não, não é bom.
É, sim.
Durante muito tempo, andei por todo o mundo,
em todos os sítios, e conheci muita gente,
durante muitos anos. Amo-te a ti.
És a pessoa mais inteligente que eu já conheci, está bem?
E és a coisa mais linda.
Fico lixada, porque tens razão.
Foi muito bom ouvir a tua voz.
Certo, Sarma. Boa noite.
Boa noite.
Legendas: Alexandra Pedro
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