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O que fazes aqui?
- A Imma está em casa? - Tina!
És uma bailarina?
Imma, primeiro arranjas-te, depois brincas.
Sim, só um minuto.
Querida, vamos lavar-te e vestir-te
e depois podes brincar com a Tina.
- Porquê? - Porque sim.
Não quero ver o papá.
Estás a magoar-me!
Posso penteá-la?
Quero tranças como as dela.
Está bem.
O Nino nunca vinha ao bairro, raramente via a filha.
Normalmente, levava-a eu a um restaurante ou um café
para ele falar com ela uns minutos.
Finalmente, naquele dia disse que passava por lá.
Eu já não queria saber dele,
mas não queria que me achasse negligenciada e envelhecida.
Tinha medo que a Lila aparecesse.
Sabia que ela, se quisesse,
era capaz de chamar a atenção de um homem.
Sentia-me agitada e, ao mesmo tempo, letárgica.
Tinha escrito uma carta ao Nino
com uma lista dos problemas
que me parecia estarem a afetar a vida da nossa filha.
Enviei-a e esperei notícias dele.
Como não tive notícias, decidi ligar-lhe
e percebi que era difícil contactar um membro do parlamento.
Meninas, ele chegou!
Estranhamente pontual.
Olá, Lenù. Para variar.
Percebeste tudo? Não fales comigo. Não brinques com a Dede e a Elsa.
Concentra-te na Imma.
Se quiseres, não falo contigo.
Faz o que escrevi na carta.
Leste-a?
- Li o quê? - A minha carta.
- Que carta? - Escrevi-te há um mês.
Não recebi nada. Para onde a enviaste?
Esquece. Seja como for, a Imma precisa de um pai.
- Sim... - Se visses como ela gosta do Enzo,
como procura a atenção do Pietro, quando vem ver a Dede e a Elsa.
Imagino.
Era bom que viesses pelo menos uma vez por semana.
Vou tentar, mas ando muito ocupado.
A partir de agora, vais arranjar tempo.
Prometo que sim.
Onde está a pequena Imma?
Quero dar-lhe três beijos e uma trinca.
Estás tão bonita!
Que tranças fabulosas! Quem te penteou?
Fui eu.
- E quem és tu? - A Tina. Filha da Lila.
- Muito prazer. Sou o Nino. - Muito prazer.
- Olá, Nino! - Meninas!
Estão tão crescidas!
- Estão ótimas. - Obrigada.
Também tenho uma coisa para vocês.
- Para ti. - Obrigada.
- Isto é para ti. - Obrigada.
- Gostas? Sim. - Fantástico.
Mas agora, há surpresas para a Imma!
Anda cá. Vamos ver.
O primeiro presente é este.
Olha, são canetas de feltro, até escrevem em tecido.
Mostra-me. Que giras!
Há mais dois presentinhos para a Imma!
- É meu! - Vamos ver.
O que são? Borrachas coloridas?
- Gostas, querida? - Sim.
Vamos ver este.
Um estojo de lápis para uma princesa!
Tina,
anda à tia.
Dede, dá-me o meu casaco.
Esperem lá.
Esquecemo-nos do presente da Tina.
Vês?
Toma uma caneta maravilhosa para ti.
- Obrigada. - Gostas?
Quer que escreva o meu nome?
- Sabes escrever o teu nome? - Sim.
É igualzinha à mãe. Vamos ver. Toma.
É muito esperta.
Mas acho que a Imma também sabe escrever o nome. Vamos ver.
Eu sabia que ela era esperta.
Imma, vamos ver o carro mais bonito do mundo?
- Sim. - Vamos!
- Nós também vamos. - Claro.
Vamos lá abaixo, está bem?
Não demorem, para almoçarmos depois.
Quem adivinha a cor do carro?
Quem acertar ganha um prémio.
Teria o Nino deixado de andar atrás da Lila?
E a Lila, será que ainda gostava do Nino em segredo?
A Lila imaginava a filha ao lado daquele homem alto e magro
e pensava que, se tudo tivesse sido diferente, Tina podia ser filha dele.
Quantas vezes a Lila reconhecera os traços do Nino na Imma.
Como ele tinha acabado de reconhecer as feições da Lila na Tina.
Nino!
Nino!
Nino!
Estás ao colo? Já és grande.
Olhar pela janela
e ver nuvens por baixo, que sensação!
- Está pronto. Elas têm de comer. - Vamos embora...
- Nunca andei de avião. - Tens de andar.
Onde está a Tina?
Com a Dede e a Elsa.
Não, ela não está com elas.
Ela estava aqui. Os miúdos são assim.
Uma vez, não encontrava o Gennaro. Fui à escola e ele não estava lá.
Fiquei aterrorizada, mas ele andava na estrada.
- Meninas, viram a Tina? - Não.
Como correu a busca ontem à noite?
Procurámo-la a noite toda, por todo o bairro.
O pai dela estava fora de si.
Há quem diga que a viu com um homem perto do túnel,
ou no jardim, com outro homem.
Outra pessoa viu-a a correr atrás de uma bola
e ouviu um estrondo ao passar um camião.
O camião seguiu para a estrada.
E levaram a menina.
A pequena Nunzia Scanno desapareceu há mais de uma semana.
Tem quatro anos e todos lhe chamam Tina.
Homens, mulheres e crianças continuam à sua procura.
Não confiam nos investigadores, que interrogaram membros da família.
O primeiro foi o ex-marido da mãe de Tina, Stefano Carracci.
Pouco depois de ser libertado, sofreu um ataque cardíaco.
O tio da rapariga, Rino Cerullo, também foi detido.
Apesar de já ter estado envolvido em tráfico de droga, roubo e extorsão,
parece que não tem nada a ver com o desaparecimento da menina.
O irmão da menina, presumível toxicodependente,
foi também interrogado, mas libertado imediatamente.
Um grande esforço para cooperar na busca
foi feito pelos irmãos Michele e Marcello Solara,
homens de negócios nascidos e criados no bairro,
donos de uma pastelaria de renome e de outros negócios,
conhecidos após a investigação publicada no L'Espresso
pela escritora Elena Greco, também nascida e criada...
- Estamos a incomodar? - Olá, Enzù.
- O que querem? - Viemos em nome de todos.
De todos, quem?
Das pessoas do bairro. Todos aqui gostam de vocês.
Estamos a fazer os possíveis para trazer a Tina para casa.
Ontem, fomos verificar o acampamento dos ciganos, cabanas e caravanas.
Ninguém nos engana. Vamos descobrir tudo.
Soubemos que um camião tinha sido destruído à pressa
- e fomos a todos os sucateiros. - Chega!
Foram vocês que levaram a Tina!
Fizeram-na desaparecer, porque querem tudo,
até uma parte da nossa empresa, e nunca vos demos.
E agora têm a lata de aparecer aqui?
- O que estás a dizer? - O que é que te passou pela cabeça?
Vão-se embora e não voltem.
Não te enerves, estamos aqui para ajudar.
Compreendemos a dor que sentes.
Não, não entendem. Ninguém entende.
Vão-se embora, ouviram?
Enzo, para. Eles vão-se embora.
Entendemos o que sentes.
Se tivessem levado o Silvio, teria enlouquecido como tu.
Pior ainda.
Não te preocupes, vamos trazer-te a menina.
A Lila nunca achou que os Solara estivessem envolvidos.
Em vez disso, durante muito tempo,
pensou que a Tina tinha sido levada por um cliente dela,
que sabia quanto valia a Basic Sight
e queria dinheiro em troca da rapariga.
Umas semanas depois, as coisas pioraram.
Uma manhã, desapareceu outra pessoa.
A Nunzia disse que o Rino não tinha ido dormir a casa
e que o Pinuccia andava a vasculhar o bairro à sua procura.
Ninguém sabia de nada, ninguém o procurava, exceto ela.
Ninguém se preocupava em procurar um drogado.
Perguntaram ao Gennarino se tinha notícias do tio
e ele hesitou.
Só no dia seguinte decidiu cooperar.
Não quis que a Lila e o Enzo o acompanhassem na busca,
mas resignou-se à vinda do pai.
Não consigo respirar.
Eras um idiota em miúdo e ainda és.
Merecias morrer assim! Merecias!
É assim que vais acabar! O que queres de mim?
Achas-te melhor do que ele ou eu? Agora ages como um pai?
A ideia de ser teu filho enoja-me!
A partir de hoje, os únicos que respeito no bairro
são a mãe e o Enzo.
Mereciam morrer.
Já! Cambada de idiotas!
Nem mortos encontrarão paz! Não vos deixam entrar nem no Inferno!
Com a morte do irmão,
a Lila passou, em pouco tempo, de mãe que suscitava piedade
a uma louca que semeava terror.
E tal como acontecera à Melina, na nossa infância,
cada vez a evitavam mais, como se a sua presença desse azar.
A certeza de que a Tina estava viva absorveu-a completamente
e isso, a meu ver, conduziu-a à Imma.
Queria a Imma sempre com ela. Até a deixava lá dormir.
Não percebo, onde está ela agora?
Não sei.
Ela vai voltar.
Mas quando?
- Sentes-te só? - Não sei com quem brincar.
Nem eu.
Quando é que ela volta?
Mete-te na tua vida! Cala-te! Bebe!
Bom dia.
- Ela dormiu sozinha? - Sim.
Esta manhã, chamou-me para fazer xixi e veio dormir conosco.
- Acordou o Enzo? - Não te preocupes.
Bem, obrigada.
Adeus.
Adeus.
Tinha perdoado a Lila pelos excessos, mas não podia aceitar isto.
Tratava a Imma tão duramente como a nós, adultos,
e mostrava cada vez menos interesse na Dede e na Elsa.
Chamava-lhes "jovens meninas" com sarcasmo explícito.
As minhas filhas também mudaram de atitude para com ela.
Aos olhos delas, o desaparecimento da Tina apagou a autoridade da Lila.
- O que queres? - Um pouco de vinho.
- Mãe, tenho 16 anos. - Também posso beber?
Estou farta de vocês.
- E porque nos tiveste? - Às vezes, também me pergunto.
A tia Lila não queria outro filho.
Porque dizes isso?
- Ela nunca chorou. - Lágrimas não são dor.
Sem lágrimas, onde está a dor?
Está lá e, muitas vezes, uma dor ainda maior.
- Queres saber o que penso? - Diz lá.
Ela perdeu a Tina de propósito e agora quer perder o Gennaro.
Para não falar do Enzo. Vês como ela o trata?
Onde vais buscar essas ideias? Não repitas isso!
Metes-me nojo! Dás-me a volta ao estômago! Sai daqui!
Meto-te nojo? Também tu!
Temos de fazer alguma coisa.
Mãe, por favor!
Temos de chamar a Polícia ou ela mata-o!
A tia Lila faz bem em bater-lhe.
Ele arranja problemas para comprar heroína.
És igualzinha a ela.
Dede, por favor, não vás!
Lila!
- Lenù, o que queres? - Estás a exagerar.
A Dede quer chamar a Polícia.
Vai para dentro e diz às tuas filhas para taparem os ouvidos.
Meteu-se na droga e ficou um selvagem.
Odeiam-te porque não respeitas ninguém.
Quem devo respeitar?
És má!
Para! Estão a dizer coisas horríveis!
Vão para o vosso quarto.
- Não vos quero ouvir mais. - Pois, não queres ver nem ouvir.
Sabes que ela falta à escola? Falsifica a tua assinatura.
Sua cabra!
Para com os palavrões! Vai para o teu quarto!
Onde vais?
As coisas pioravam todos os dias.
Anda.
Na minha última viagem a Milão,
decidi que não voltava a pedir à Lila para cuidar das minhas filhas.
Vão já para casa!
- Já disse que vamos para casa. - Porquê?
- Cá fora é perigoso. - O quê? Estás doida?
Já disse que temos de ir!
A minha mãe confiou-me as minhas irmãs. Decido eu.
Quando a tua mãe não está, sou eu a vossa mãe.
Uma mãe de merda. Perdeste a tua filha e não choraste.
O que estás a fazer?
Vamos para casa!
Não só respondeste, como disseste uma coisa horrível.
A tia Lila está louca.
Acha que temos de nos barricar em casa para evitar o perigo.
Não saímos durante dez dias. Ela nem foi às compras.
Comíamos sempre congelados.
Não gosto de congelados.
A Lila não enlouqueceu,
talvez tenha exagerado, mas queria proteger-vos.
Num sítio chamado Chernobyl explodiu uma central nuclear.
A radiação pode atingir-nos.
Ela nem nos deixava ligar a televisão.
Porque não nos disse o que se passava?
- Não sei. - Não vês que é louca?
Ela nunca falava, tratava-nos pior do que ao Gennaro.
A tia Lila teria feito o mesmo com a Tina.
Pensa na tortura que deve ter sido cuidar de vocês
e imaginar a filha dela algures, sem ninguém a cuidar dela.
Anda.
- Podemos dormir contigo? - Está bem.
- Lavaram os dentes? - Sim.
Não acredito, mas não importa.
Pensei em encher o frigorífico com comida congelada,
para poderem fazer o jantar, se me atrasar.
A comida congelada é cara.
Já agora, quanto te devo?
Quando ganhares mais do que eu, falamos disso.
Ainda gostas do teu trabalho?
Nunca gostei.
Lembro-me que gostavas muito.
Não, não te lembras.
O Enzo gostava e eu obriguei-me a gostar também.
Sempre fiz isso, até com os sapatos.
Não queria saber dos sapatos.
Foi ideia do Rino e queria ajudá-lo, porque ele era bom nisso,
muito melhor do que o meu pai.
Ele podia ter sido famoso.
Rico e famoso, como o designer Ferragamo.
Se não gostas deste trabalho, arranja outra coisa.
Estou bem assim.
Além disso, o Enzo está com a cabeça nas nuvens. Se não ajudar, fechamos.
Ambos têm de ultrapassar a dor.
Que dor, Lenù?
- Temos de ultrapassar a nossa raiva. - Então ultrapassem a vossa raiva.
- Estamos a tentar. - Tentem com mais convicção.
A Tina não merece isto.
Deixa a Tina em paz.
Pensa nas tuas filhas.
- Eu penso. - Não o suficiente.
Disseste-lhes que não chorei pela Tina?
Para! Achas que lhes dizia uma coisa dessas?
A Dede chamou-me mãe de merda.
- É só uma miúda. - Uma miúda mal-educada.
O que queres, Lenù?
Estou assim porque perdi a minha filha.
Ela pode estar viva ou morta,
mas não consigo lidar com nenhuma dessas possibilidades.
Se estiver viva, está viva longe de mim,
num sítio onde acontecem coisas horríveis, que vejo claramente.
Estão diante dos meus olhos dia e noite.
Se estiver morta, eu também estou.
Morta por dentro.
É mais insuportável do que a morte real, que é morte sem sentimento,
enquanto esta nos obriga a sentir tudo todos os dias,
a acordar,
a lavar-me, a vestir-me, a comer, a trabalhar, a falar contigo,
que não entendes ou não queres entender.
Contigo, a ver-te toda arranjada, acabada de sair do cabeleireiro,
com as tuas filhas bem na escola, que fazem tudo na perfeição,
que não estão destroçadas por este pardieiro, até combina com elas e
torna-as ainda mais confiantes e convencidas,
ainda mais certas de que têm o direito de ficar com tudo...
Fico com o sangue a ferver.
Vão-se embora e deixem-me em paz.
A Tina ia ser melhor do que todos vocês,
mas eles levaram-na.
Já não aguento mais.
Ela nunca disse nada disto, nunca falava da Tina,
mas falava muitas vezes do Rino.
Atribuía todo o mérito do negócio do calçado ao seu irmão,
para manter viva e compacta a imagem do rapaz
que a tinha defendido do seu violento pai.
Eu sabia que as pessoas organizavam a memória para sua conveniência.
Senti que, se ela decidisse fazê-lo,
teria extraído da massa emaranhada do seu cérebro palavras deste tipo.
Às vezes, pensava que ela tinha pensamentos indescritíveis,
que eu nem conseguia imaginar.
Lembras-te de quando, nesta rua,
a levava às cavalitas?
Se pudesse assumir a tua dor, fá-lo-ia.
Obrigada, Lenù. Já fazes muito.
Obrigado pelo que fazes por nós, mas tens de ter paciência com a Lila.
Conhece-la melhor do que eu, ela vai recuperar.
Lenù, vou a Avellino na sexta-feira.
Tenho de ficar uns dias em casa de uma tia doente.
- Fazes-lhe companhia? - Sim, claro.
Lenù.
- Como estás? - Olá.
Olá, Lenù.
Sabes onde vamos?
Vamos à biblioteca e depois, comer. Queres vir?
Estás aqui! Não te encontrava.
Anda à biblioteca.
Não, temos de ir embora. Noutra altura, com certeza.
Conto com isso, Lenù. Assim, dizes aos miúdos o que devem ler.
Tu e as tuas filhas são um exemplo para nós.
Estudar torna-vos boas.
Se não estudarem, não lerem,
como a Lila e todos nós fizemos, ficam más.
Ser mau é uma coisa horrível, certo?
Raios!
- Está estragada. - Não importa.
Eu trato disso, levo-a ao joalheiro.
Não importa, já disse.
É o meu dever. Devolvo-ta como nova.
Vamos, o Silvio tem de comer.
Comer? Nem pensar. Para a biblioteca.
Agora ainda te defendes pior.
Nunca mais vais ver a pulseira.
Lila!
Lila!
- Ouviste o vento? - Sim.
Se soprar com mais força, o bairro cai.
Estou a brincar!
Tenho beringela no forno, almôndegas e piza de endívias.
Anda jantar conosco.
Não, traz-me o jantar. Não quero ir a tua casa.
As tuas filhas enervam-me.
Lila!
Estou na casa de banho, anda.
No início, a Dede parecia-se contigo.
Agora começa a parecer-se com o pai.
Com a Elsa era o oposto, parecia-se com o pai e agora contigo.
Um desejo, uma fantasia...
... circula mais depressa do que o sangue.
Não entendo.
Lembras-te quando pensei que o Gennaro era filho do Nino?
Sim.
Acreditei mesmo nisso.
O rapaz era igual a ele.
Era a cara chapada dele.
Queres dizer...
... que um desejo pode ser tão forte que parece realizar-se?
Não.
Quero dizer que, durante uns anos, o Gennaro foi mesmo filho do Nino.
Não exageres.
Estou a exagerar?
Não gozes comigo. Quando me dói a anca, coxeio um pouco.
Nada te dói.
Inventaste o coxear para a tua mãe não morrer de vez.
E acabaste a coxear mesmo.
Não há nada de errado nisso. Eu observo-te.
Deixaste de ser filha e tornaste-te mãe.
Só me dói um bocadinho.
Achas que quando a Tina tiver 42 anos vai ser assim?
Provavelmente.
Percebes o que estou a dizer? Criei um filho do Nino.
Tal como fizeste com a Imma.
Durante muito tempo, não via nada do Nino na Imma,
nenhuma semelhança profunda, exceto o tom de pele.
No outro dia, ela passou a mão pelo cabelo, assim...
Vi o pai dela fazer esse gesto milhares de vezes.
Não acho que a Imma o imite. Não sei de onde veio.
Falar contigo ajuda-me. Fazes-me pensar.
Tento escrever, mas não consigo orientar-me.
Escrevo umas páginas, fico satisfeita e,
no dia seguinte, volto a lê-las e fico perdida.
Não sei por onde começar.
Ajudas-me a estabelecer ligações entre coisas distantes.
Saber que precisas de mim faz-me sentir melhor.
Mãe, não encontro o termómetro.
A Dede diz que tem febre.
Já vou.
Se precisares de alguma coisa, liga-me, a qualquer hora.
Só precisava de meia frase da Lila
para o meu cérebro ser ativado, libertando a minha inteligência.
Sabia que me ia sair bem, sobretudo porque ela,
com umas meras palavras desarticuladas,
garantia à minha parte mais segura que eu tinha razão.
Escrevi sobre a minha anca, sobre a minha mãe.
Disse a mim mesma que ser adulta era isto,
reconhecendo que precisava dos incentivos da Lila.
Eu era eu e consegui arranjar espaço para ela dentro de mim
e dar-lhe uma forma que se aguentasse.
Mas ela não queria ser ela própria, por isso não podia fazer o mesmo.
- Bom dia. - Bom dia.
Escrevi até tarde.
- O café está pronto. - Obrigada.
- Como estás? - Bem. Nada de febre, esta manhã.
Ainda bem.
- A Imma está com tosse. - Eu ouvi.
Não tens febre. Como te sentes?
Dói-me muito a garganta.
Mostra-me. Abre. Mais.
Sim, está um pouco vermelha.
Vou levar o pequeno-almoço à Lila e depois tratamos da garganta.
Para de tirar o açúcar!
Quem será a esta hora?
Já nem se consegue dormir!
Trouxe-te o pequeno-almoço.
Para quê? Não dormi a noite toda.
Tenho as entranhas a sair-me pela barriga.
Porque estás aí parada? Entra!
Trouxe-te bolo.
É melhor fazer-te um chá de camomila.
Seja como for, comi o mesmo que tu e estou bem.
- Então o que se passa comigo? - Não sei.
Estás com o período?
Quando me vem o período, não fico assim.
Depois, trago-te qualquer coisa da farmácia.
Agora, acalma-te.
- Não tens nada em casa? - Não, só aspirina.
- A Dede e a Elsa não têm nada? - Não, não precisam.
É verdade...
Perdoa-me, são todas perfeitas, não precisam de nada.
- Queres discutir? - Não, és tu,
a dizeres que é a dor do período!
Bebe o chá de camomila. Vou à farmácia e volto já.
- Olá, Lenù. - Carmen!
Queria dizer uma coisa, há muito.
Não te queria processar. Desculpa.
Os Solaras obrigaram-me, eu nunca o teria feito.
Não falemos mais disso.
O que foi?
- Vamos ver. - É perigoso!
Anda!
- Carmen. - Já vou.
Com licença.
Desimpeçam a área, afastem-se!
E as mulheres deles?
Uma fugiu imediatamente e deixou os filhos.
A outra levou o filho e sabe-se lá onde está.
- Quem os matou? - Não sei.
Um tipo vestido de preto matou-os e entrou num Ford vermelho.
- Viu-o? - Não. Ouvi dizer.
- Viram alguma coisa? - Não.
- Afaste-se, por favor. - Sim.
Lila!
Mataram os Solara. Agora, em frente à igreja.
A Tina saiu da minha barriga outra vez e vai vingar-se de todos.
Ela matou-os.
Tradução: Iyuno
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