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Este � o sexto boletim da BBC.
Antes, ou�am umas mensagens pessoais.
"A sorte vem quando n�o � procurada."
"Feliz � aquele que, como Ulisses, fez uma grande viagem."
De Marie-Th�r�se para Marie-Louise:
"Um amigo vir� esta noite."
Al�?
Aqui � o Gravier. Atrapalho?
N�o, mas estou no metr�.
Se cortar... Al�?
O imbecil n�o tem sinal.
Queria falar comigo?
Bisson saiu com 40 mil euros em rel�gios?
Ele disse que os clientes n�o podiam se deslocar.
- Que idiota! - Ele � legal.
Sei.
Ele fez bem em te avisar.
Tem uma empresa e te paga para vender rel�gios.
Ent�o venda os rel�gios, cacete!
Eu n�o vou repetir. Voc� n�o pode perder esse emprego.
Lembre-se que fizemos empr�stimo pra comprar o apartemento.
Que n�o � grande coisa.
Al�m de velho, n�o � nosso.
Pegue.
Estou avisando, se perder seu emprego
e perdermos o empr�stimo,
acabo com voc�.
QUER SE JUNTAR A N�S? E-MAIL | loschulosteam@gmail.com
Pronto.
- Posso? - � claro.
Vai voltar para a Bulg�ria amanh�?
Vou.
� o meu preferido. O Moser 1948.
Rel�gio de luxo.
O Henry Kissinger usava um,
conselheiro do Richard Nixon.
Estou dizendo, mas n�o sei quem �.
Henry Kissinger.
Quanta gente!
Sente-se, coronel.
Com certeza.
N�o vim para ficar de p�.
Outro dia de merda com conversas intermin�veis
com esses in�teis.
- O pa�s est� ruindo. - Precisa do senhor.
- Com o senhor aqui... - Estou com fome.
Est� tudo aqui.
Pronto.
- Durmo com o senhor hoje? - Est� achando que estou de f�rias?
Os oficiais v�o se encontrar no Hotel Meudon hoje.
Posso relaxar por 20 minutos.
� pesado.
Sim, � de ouro 18 quilates, bem robusto.
� um Cartier Tank.
Para onde ele foi?
A tripa est� deliciosa.
N�o beba muito r�pido, � um Cahors. Pode te derrubar.
Bem, antes que me derrube,
veja l� embaixo se est� mole.
Certo, coronel.
Onde est�?
- O qu�? - Cad� o rel�gio?
Que rel�gio?
N�o fa�a isso. N�o � muito legal.
Muito bom, Fran�oise.
Devolva.
Vai me bater?
Vou gritar.
Eu n�o faria isso.
Este vinhozinho � bem forte.
� um Malbec.
Quieta, continue. Vamos.
Socorro!
- Pare! - Est� quase gozando, coronel.
Pare, piranha.
Pare!
- Chame a ambul�ncia. - Merda.
Tudo bem?
- Ele vai morrer? - Ainda n�o sei.
- Sabe o nome e sobrenome dele? - N�o fa�o ideia.
- N�o o conhece? - Eu o conhe�o h� 25 anos.
- E n�o sabe o nome? - Ele tem v�rios.
- Ele � militar. - N�o, � um velho prostituto.
- Sr. Bisson? - Sim.
- Sente-se, por favor. - Obrigado.
Certo...
O qu�?
N�o, s� pensei que...
Eu seria mais velha?
N�o � isso. Eu n�o sabia que quem me atenderia seria...
Uma mulher?
Quando falamos em doutores...
Est� decepcionado?
N�o estou, n�o.
- Tem problemas com mulheres? - N�o, nenhum.
� que n�o falo com elas, mas...
N�o com frequ�ncia.
Certo.
Antes de falarmos da agress�o que sofreu, fale de voc�.
Tudo bem?
Estou bem...
- � casado h� quanto tempo? - H� 23 anos.
- Quase 24. - Certo.
O casamento � bom?
�, fizemos sexo
h� pouco tempo.
Este, n�o. O outro.
Eu te ou�o...
Faz muito barulho.
Est� respirando muito alto.
Ainda ou�o.
Alphonse, voc� � meu tesouro.
Olhe para mim.
Eu te amo, querido.
- Voc�s t�m filhos? - N�o.
N�s nos conhecemos jovens.
Minha mulher � muito en�rgica.
Como temos os mesmos hobbies...
Quais hobbies?
Vamos! Mais forte, vamos!
- Vamos! - Espere.
Vamos, bate.
Vamos! Estou te irritando?
Ela me motiva com meu trabalho e os esportes,
para atingir minhas metas.
Preciso de disciplina.
N�o tive figuras de autoridade na inf�ncia.
Quando...
Quando minha m�e foi embora, meu pai me criou.
Ele era sempre muito...
O qu�?
Tenho que ir. Meu marido j� vai chegar.
Feche a porra da porta! Quantas vezes preciso dizer?
O qu�?
Distra�do.
Como � sua rela��o com ele?
N�o sei nada dele. N�o o vejo mais.
- D�i quando aperto aqui? - N�o.
- E agora? - N�o.
Tente erguer a perna.
- N�o consigo. - Fa�a um esfor�o, Sr. Bisson.
Estou fazendo um grande esfor�o.
� normal.
A paralisia � resultado do enfarto. Vai levar tempo.
Quando vou poder retomar minhas atividades sexuais?
Perd�o?
- Voc� ouviu. - O senhor teve um enfarto.
Um enfarto isqu�mico transit�rio pode ser sinal de derrame.
Trata-se da sua vida.
E o citrato de sildenafila deve ser a causa dos seus problemas de sa�de.
O que � isso?
Falou que tomava Viagra.
Toma com que frequ�ncia?
- Muito. - Como?
Todo dia.
Todo dia?
Por que faz isso?
O que acha? N�o � para jogar cartas.
O senhor tem rela��es todo dia?
Tenho. Voc� nunca faz sexo?
Fa�o, mas n�o todo dia.
Seu problema � esse.
Bem, seu problema � que vai morrer.
Qual � sua idade?
N�o estou te julgando.
- Falo como seu m�dico. - Est� bem.
- Falamos amanh�. - � claro.
- Oi, Alphonse. - � bom rev�-lo.
- Como vai? - Bem.
Pode entrar.
Estou atrapalhando?
N�o, imagine! Sente-se.
� bom voltar. Eu estava enlouquecendo em casa.
- A cicatriz est� sarando. - N�o foi nada.
Como foi na terapia?
Era uma mulher.
Bom, Alphonse... Imagino que j� saiba o que vou dizer.
N�o.
Bate, vai!
N�o est� reagindo, vai!
Vai!
Tudo bem?
- Oi. - Ol�.
- J� chegou? - Terminei cedo.
O que � isso? � quarta-feira, minha vez de cozinhar.
- Como cheguei cedo... - N�o bagunce as coisas.
A agenda j� � bem complicada.
Desculpe.
N�o se desculpe.
� claro que foi gentileza.
E agora pare�o ingrata, sempre reclamando.
Est� sendo chato, querido. Isso n�o � legal.
Desculpe.
Eu trouxe curativos novos.
Pode tomar banho com eles, s�o � prova d'�gua.
Se sua mulher viesse,
o que ela diria sobre voc�?
Sobre mim?
Ele � gentil.
Ele � gentil e um cara muito direito.
Eu o amo.
Quando o conheci,
eu tinha acabado de terminar com um babaca.
Ele se chamava Mikael.
Ele sa�a toda noite.
Bebia, cheirava coca�na...
Como eu era doida por ele, tamb�m me envolvi com essas coisas.
At� que descobri que ele sempre me traiu.
Isso me deixou doente. Literalmente.
Pensei comigo mesma:
"Nunca mais.
Nunca mais um homem assim. Nunca mais..."
Nunca mais amar?
O que ela diria?
N�o sei.
Que sou um cara legal.
Sim?
Onde?
Est� bem.
O qu�?
Era o Jacques.
O que ele queria?
Voc� � mesmo um masoquista.
Esse cara envenenou sua mente.
Vai voltar para ele?
- Quero respostas. - Ele n�o dar�.
NEUROLOGIA
Vai bagun�ar voc�, e vai sobrar pra mim.
Voc� veio.
O que houve?
Nada.
E com o senhor?
N�o � nada.
Espero.
- O senhor me disse... - N�o me chame de senhor.
O senhor vai morrer?
Vou.
Talvez n�o agora. Espere, n�o acabei.
H� 60% de chance de que eu tenha outro enfarto, e fatal,
pela vida que levo.
N�o brinca.
N�o consigo andar.
�timo, n�o �?
- N�o tenho mais ere��o. - �timo.
Eu quero ir para casa.
Mesmo que me rastejando.
Prefiro estar em casa, sabe?
- Certo... - Preciso de voc�.
Preciso de voc�.
- N�o posso sair sozinho. - V�rias mulheres podem te ajudar.
- N�o neste estado. - Se vira.
Alphonse! Eu sou seu pai!
- N�o � o que eu chamaria de pai. - Eu sei.
Posso falar disso,
contar coisas que v�o mudar seu olhar de reprova��o.
Vamos conversar sobre tudo, mas n�o aqui!
Olhe para mim.
Mandei olhar para mim!
Sou um velho.
Sozinho, morrendo,
e preso � cama.
A vida se vingou de mim.
N�o acha?
Sente-se, por favor.
Como v�, nada mudou.
Vai fumar?
N�o, � s� para sentir o cheiro.
Pronto.
Merda.
� estranho.
O qu�?
Estar nesta sala.
Voc� gritava comigo se eu pisasse aqui.
- Eu te protegia. - Era s� me mandar para o internato.
Podia viver como um porco. Mas n�o fez isso.
Odiava esta vida. Ainda odeio.
Como pagava o aluguel? Passava o dia na cama.
- Por isso, ela foi embora. - N�o fale dela.
Eu vim para isso, para falar dela.
- N�o tenho o que dizer. - Fale!
- Fale sobre minha m�e. - Espere.
- Quer ajuda? - N�o. Pegue.
Agora me escute.
Levei esta vida porque ela foi embora.
Esta vida que, ali�s, pagou por esta casa,
suas f�rias, seu maldito trem el�trico
e a escola particular que o reprovou.
Isso me permitiu te criar neste bairro
e te mandar a uma escola melhor do que a minha
para que n�o acabasse como eu.
As mulheres que voc� passou d�cadas desaprovando
n�o eram amantes, como pensa.
Eram o qu�?
Clientes.
Me pagavam para isso.
Bem, tenho que te ver de novo em breve.
E falar com o gerente do meu banco.
At� logo, Senhor Amor.
Eu me vendia. Pronto.
O que voc� vendia?
Isto.
Voc� nunca falou disso.
Voc� tinha seis anos e meio.
O que voc� diria na escola? "Profiss�o do pai: Prostituto."
Isto � esperma?
�.
Al�? Diga.
Boa noite. � a Ad�le.
- Como est�? - Bem.
Podemos nos ver?
N�o, lamento. Agora estou de f�rias.
S�rio? Por quanto tempo?
Algumas semanas.
Me ligue quando voltar para casa.
Tchau, meu amor.
Voc� ainda faz isso?
N�o tanto quanto antes,
mas ainda tenho umas clientes.
Envelhecemos juntos. Voc� conhece algumas.
Mas como voc�...
Tomo vitaminas.
Quando n�o funcionam, compenso com palavras,
- com os dedos... - Certo.
- Desculpe. - Pronto.
Desculpe.
Certo...
Certo, v�.
- Espere. - O qu�?
Seria legal se voc� viesse �s vezes.
Eu adoraria.
Voc� nunca fala muito. Fique calado, se quiser.
S� quero olhar para voc�.
Ei.
Faz umas compras para mim?
Quem �?
- Quem �? - Sou eu.
- Quem? - Eu, vov�. Abra.
- N�o. Falei para voc� n�o voltar. - Se eu mando abrir, abra a porta!
- S� quero conversar. - Vamos falar com o advogado.
Saia ou chamo a pol�cia.
Voc� chamaria a pol�cia?
� claro que sim.
Vai, vov�, abre.
- � o seu pequeno Louis. - V� embora!
Jacques, querido,
agora eu sei que ser esposa e m�e
n�o � vida para mim.
N�o me procure. Seria in�til.
Conheci algu�m,
e vamos embora.
Cuide bem do Alphonse.
Sei que voc� vai ser um bom pai
e que vai saber o que dizer
para explicar minha aus�ncia.
Talvez um dia ele entenda que eu n�o podia cuidar de voc�s dois.
N�o posso sacrificar minha vida como mulher,
passando camisas
e trocando fraldas.
Espero que tenham uma bela vida.
Muitos beijos para voc�s.
Laura.
Certo, eu ligo de volta. Obrigada.
Tem raz�o, senhor. Por isso que estamos aqui.
� claro. Que hor�rio fica bom para o senhor?
�s 18h.
E flores, sem problemas.
Sr. Bisson?
- Sim? - Pode me acompanhar?
Prefere venda ou avalia��o?
Na verdade, pode ser qualquer uma.
- Por quanto tempo trabalhou com rel�gios? - Por 15 anos.
J� n�o � mais t�o jovem.
N�o. Cada vez menos jovem.
- � especialista? - Entendo de rel�gios.
E tamb�m os perde.
- Sim. - Foi demitido por conduta inadequada.
Conhe�o o Chrono Time Square, Bruno � um amigo.
- O que aconteceu? - O que aconteceu?
- O que aconteceu? - O que aconteceu?
O Sr. Narcy te deu os documentos?
Deu, recebi tudo.
- Sente-se. - Obrigada.
Acho que o arquivo est� atualizado.
Preciso dizer
que contamos muito com o empr�stimo,
e a sa�da do Sr. Narcy � bem perturbadora.
Sinto muito que me ache perturbadora.
- Ol�. - Ol�.
- Estou atrasado. - Pouca coisa.
Tive que usar a bicicleta. H� um problema...
Com certeza.
Essa � a Sra. G�mier, substituindo o Sr. Narcy.
S�rio?
- Falei que ele ia se aposentar. - �.
N�o se preocupe. Peguei o arquivo
e vamos fechar o neg�cio, o seu projeto, Sr. Bisson.
Se estiver pronto.
� claro, mais do que nunca.
Tem os documentos?
- Sim. - Os impostos, contrato de trabalho...
- Estou com tudo. - Comprovantes?
Ent�o...
- Merda! - Tudo bem.
- Est� tudo bem. - Pronto.
Obrigada.
Certo.
Parece que temos uma boa taxa de juros
com um pagamento mensal de 1.650 euros.
Correto?
Por 26 anos.
Certo?
Perfeito. Vejo voc�s em breve.
Certo, obrigada.
Se precisar de mim, sabe onde me encontrar.
- Tenho seu telefone. - �timo.
- Sr. Bisson. - Tchau, obrigado.
Tchau.
Tem medo dela? Ela bate em voc�?
N�o.
Voc� falou que tem medo dela.
Olhe... Pegue.
Comprou no Briselaine's?
O que � Briselaine's?
O restaurante liban�s, � bom.
N�o gosta dessa?
� seca.
- Voc� n�o provou. - Vejo que � seca.
- Ou�a... - Deixe, tenho que comer mesmo.
Ela que causou essas marcas? Pode me contar...
Pare. N�o � verdade.
�, sim.
Tenho certeza de que ela bate em voc�.
Eu a vi duas vezes e ainda tremo...
- Ela foi mal-educada comigo. - Ela estava certa.
- O qu�? - O qu�?
Foi ao casamento com uma mulher b�bada que deu em cima do pai dela.
- �! - �.
Jacqueline.
Ela bebia muito, mas tinha muita grana.
E era divertida.
Fiquei seis meses com ela.
Ench�amos a cara, ela dormia, e n�o precisava...
Est� bem.
H� quanto tempo ela te bate?
Ela nunca encostou em mim, t�?
- E por que est� com medo? - Ela n�o me assusta fisicamente.
Tenho medo de decepcion�-la.
Por isso que n�o falei nada. Tenho que achar um emprego.
Sabe, voc� j� n�o tem 25 anos.
E n�o tem v�rios diplomas.
Sei como �.
Quando sua m�e foi embora, fiz besteira e fui demitido.
Sei como � procurar emprego aos 45 anos.
Naquela �poca, j� era duro...
Fico muito feliz por te ver.
O que posso dizer?
Voc� precisa melhorar a apar�ncia.
Est� na moda n�o ter estilo?
No meu ramo, isso � p�ssimo.
O que tenho de errado?
Nada.
N�o � jovem nem velho, � nulo.
No que est� pensando?
- Em nada. - Viu?
Certo, vamos.
- N�o, qual �? - Qual � o qu�?
� um Chazelles, n�o seja puritano.
- Pegue. - Vou beber e vou embora.
- Deixe-me terminar. - N�o, chega.
Posso ajud�-lo com as entrevistas.
S�rio? Como?
Apar�ncia � importante.
Passei anos vendo babacas que n�o se esfor�avam.
Maridos cornos mansos, filhos doidos.
� o gestual, seu casaco, como voc� fala.
Sempre digo: "Finja indiferen�a quando n�o tiver o que falar."
Compensa mais que falar besteira.
�. De que isso te serviu?
No ano passado,
ganhei oito mil euros em um m�s.
�s vezes, 12 mil.
Com ere��o meia-bomba.
N�o se trata de ficar duro.
� a hist�ria.
Trabalho para mulheres que t�m o mundo delas, e meu trabalho
� entrar no personagem e depois entrar na mulher.
Sim, Agn�s?
N�o, lamento. Estou de f�rias.
N�o posso ajud�-la.
Espere um instante.
No que est� pensando?
Em nada.
Nada.
Temos que encarar nossos dem�nios.
Perdoar � crescer.
Voc� fechou as portas.
A lei n�o permite que deserde seu neto.
- Posso fumar? - N�o, lamento.
Certo.
Ali�s, seu neto � seu �nico herdeiro.
- J� que ele... - N�o quero dar um centavo para ele.
E quando digo isso,
� nem a tampa da caneta Montblanc de G�rard.
- Entendo... - Ele � um traste.
Na �ltima vez, passei dias procurando
um isqueiro, joias, um cinzeiro. Ele � um viciado.
O garoto me quer morta.
Durante o invent�rio, ap�s a morte do seu marido,
foram citados m�ltiplos itens, legalmente...
Ent�o vou torrar tudo.
- Como assim? - �.
Se n�o posso doar nem decidir para onde vai meu dinheiro,
prefiro gastar tudo.
Mas precisa de dinheiro at� sua morte.
- N�o ligo. - N�o, senhora...
Sim!
Prefiro morrer no meio da rua a v�-lo com meu dinheiro.
Que bom que me quiseram aqui para a reuni�o.
O que eles querem?
N�o sei, fiz umas boas vendas.
Querem me mostrar a estrat�gia.
Certo, depois voc� me conta.
Preciso desligar.
Te ligo depois. N�o me espere.
Fico feliz por voc�. Beijo.
Obrigado. Beijo.
NATACHA G�MIER CONTADORA
S� uma vez.
S� vou fazer uma vez.
- Preciso de dinheiro. - T�.
Abaixe-se para eu ajeitar sua gravata.
- Uma gera��o de idiotas. - Nunca uso gravata.
Bem, voc� � um idiota.
A mulher que voc� ver� gosta de homens.
- Pronto. - Gravatas n�o importam.
Cale a boca.
Nessa situa��o, importam sim.
Pronto.
Tenha postura.
Adequada. Voc� parece infeliz.
Demonstre orgulho.
- Estou rid�culo. - N�o comparado a 20 minutos atr�s.
Use isto. Faz parte do personagem.
- N�o enxergo. - �timo, ela n�o � nenhuma modelo.
V� ao banheiro.
- O que voc� quer? - Pente e gel.
O pote verde na prateleira.
E fa�a a barba, caramba!
- Ela n�o vai ligar de n�o ser voc�? - Talvez seja melhor assim.
Ou�a.
Ela gosta de poesia.
Tipo "Clair de Lune".
Conhece Victor Hugo?
- Um pouco. - Tem que aprender sobre ele.
Para hoje?
Vou lhe dar uma pequena aula.
O nome dela � Ad�le, como a filha dele.
Filha dele?
Ad�le Hugo, filha do Victor Hugo.
A que se matou, a doida.
O que a Ad�le ama
s�o os poemas dele
para a outra filha que morreu, L�opoldine.
Ela se afogou. Est� ouvindo?
Certo.
Pegue aquele pequeno livro de couro ali.
Com a capa laranja.
- Este? - N�o, atr�s de voc�.
- Ali? - �, aquele.
- N�o se mexa. - Por qu�?
Abaixe-se.
Venha aqui, n�o enxergo.
- Ent�o me chame. - Certo.
Abaixe-se.
Mais.
Est� ficando calvo.
- Eu sei. - N�o herdou de mim.
Com certeza, n�o foi de mim. Vou passar p�.
- O qu�? Est� louco? - N�o.
Sou bem meticuloso e profissional. Tem que fazer jus ao dinheiro dela.
- Quanto �? - Oitocentos.
- Oitocentos? - �.
Oitocentos...
E se eu n�o conseguir?
Como assim?
Se eu n�o conseguir...
N�o me surpreenderia, voc� n�o � t�o velho. Espere.
- Pegue. - O que �?
Vai ajud�-lo. Tome duas.
Tenha uma boa noite.
Mostre seu sorriso.
N�o, melhore. Parece tenso.
N�o sorria como um idiota.
Um sorriso esperto, um pouco sacana, entre os dentes.
Sorria com os l�bios e com os olhos.
Estreite os olhos.
Nada mal. Meio assustador, mas melhorou.
N�o toque a campainha. Isso a assusta.
Se chegar na hora, e chegue, bata duas vezes.
Ela vai fazer a cena com a voz aguda dela.
Sim? Estou indo!
Tudo bem, voc� est� � vontade, j� dentro dela.
Voc� a ouve se aproximando.
Quase sente o perfume que ela usa h� 200 anos,
pois, vou lhe dizer,
ela j� n�o � uma debutante.
- Ol�. - Boa noite.
Perd�o, boa noite.
- Por favor, entre. - Obrigado.
Tiro os sapatos?
- Perd�o? - Por causa dos tapetes.
Eles aguentam.
Por favor, entre. Voc� parece um entregador.
Voc� est� bem?
Parece nervoso.
N�o estou.
� que achei voc� muito...
Refinada?
�.
Tomara que voc� perceba logo que n�o sou.
Merda! Acendi o fogo, mas apagou.
- Posso ajudar? - Deixe comigo.
Droga.
� um Henri Robert de verdade?
� o rel�gio que Sand deu a Chopin.
Parou quando ele morreu.
Custa uma boa nota.
"Uma boa nota"?
- Sim, caro. - Caro, �.
Presente do meu marido.
Sempre que me tra�a, ele me dava um presente.
Chamo esses dois anjos de Ren� e Martine.
Pela mulher do Ren� Monory, o secret�rio. Treparam por dois anos.
Martine, n�o o Ren�.
Este piano...
Chamo de Ruth.
N�o � um nome muito musical.
� a tradutora com quem ele trepou no voo para Praga.
Fiz uma fortuna sendo corna.
Isto vai funcionar.
O que est� fazendo?
O que eu quero.
Fique � vontade, Lucien.
� um Prunier, n�o vai te matar.
Ela vai te chamar de Lucien. Era o professor de Literatura dela.
Por isso, a obsess�o por Musset, Lamartine e Victor Hugo.
Como puro, e muito. H� quem goste com batata.
Com batata pode ser.
Use o vocabul�rio adequado.
N�o seja pedante, mas se esforce, escolha bem as palavras.
Gosta de poesia?
- Sim, muito. - Que tipo?
Victor Hugo...
Os rom�nticos.
S� Victor Hugo.
Ent�o, os rom�nticos.
�.
Hoje, o estilo efusivo dele � criticado.
Mas ele tinha uma bela mente.
�timos hemist�quios.
Deixando-se levar, os versos dele s�o uma dan�a.
Como uma valsa.
� verdade.
Tem raz�o, �...
A obra de Hugo � sempre assim. E os poemas dele...
S�o como...
�, s�o uma dan�a.
"Amanh� ao amanhecer, nos campos brandos,
- "deixarei, eu..." - N�o.
Por favor, n�o esse. � o popular dele.
Cometeu dois erros em uma linha e meia.
"No campo branco", durante o inverno.
- "Brando" n�o faz sentido. - Claro, � "branco".
- Gosta de Victor Hugo? - Gosto.
Muito, no duro.
Demais.
- Demais? - �.
Perd�o.
H�...
H� um lindo poema de Victor Hugo,
que acho que resume toda a obra de...
Victor Hugo.
Come�ava assim...
"�, poeta, sua can��es ou seja l� como as chame
seriam melhores se as esvaziasse.
As florestas suspiram,
mas tamb�m assobiam.
O azul reluz quando, �s vezes, a alegria irrompe.
- "Olimpo..." - Pare, n�o faz nenhum sentido.
E voc� n�o tem emo��o. Est� recitando.
Vamos terminar a garrafa, e pode ir.
Ouvir isso � como fazer amor com um cabide.
Al�?
Sophie! Voc� est� bem, querida?
N�o, estou sozinha.
Assistindo a um filme ruim com um ator ruim.
Os filmes mudaram muito. E pensar que pagam para ver no cinema.
Ela � uma velha cliente. Voc� a conheceu quando era crian�a.
Na �poca, ela era ruiva e j� era muito elegante.
Sim, querido? Vou chegar tarde.
Pare!
Brigitte vai me levar ao teatro.
Os Caprichos da Marianne, adoro essa pe�a.
Eu tamb�m.
"Desespere-se por quem, no meio da juventude,
rende-se ao amor imposs�vel."
Preciso desligar.
Seu beijo � delicioso.
- Desculpe. - N�o se desculpe.
Fa�a de novo.
Se ela gostar de voc� e convid�-lo � cama dela,
mergulhe nos olhos azuis dela, ainda s�o jovens como sempre.
Lucien! Meu pequeno Lucien.
- Diga que me ama. - Eu te amo muito.
N�o h� nada mais belo que uma mulher que se entrega ao prazer.
Na minha vida, falhei em tudo.
Fui p�ssimo na escola, n�o tive uma grande carreira.
Tra� a maioria dos meus amigos.
N�o fiquei com sua m�e. Fui um pai ruim, tudo isso.
Se eu acreditasse em Deus, teria medo do Inferno.
A �nica coisa que tenho
e que levarei para o t�mulo
� o sorriso da Magali.
Iluminava minhas noites frias.
Estou escutando.
A ternura da Marie-Claude...
Ria dos meus problemas,
fazia da cama um para�so.
Ela tinha tudo.
Promessas, esperan�a, suic�dio.
Ah, Marie-Claude...
O charme da Ad�le.
O sorriso dela era um poema.
Que livro � esse?
A pouca cultura que tenho, devo �quela mulher.
Sou eu. Comprei v�rias coisas no mercado.
A honestidade da Esther,
o modo sedutor como ela falava comigo.
Os rompantes da Agn�s. Ela era irm�, professora
e amante.
Nunca gostei...
Cada gesto dela era acolhedor.
N�o me ligue!
A excentricidade da Sarah. Ela n�o tocava piano,
mas sonhava em ser Barbara, e eu a ouvia por horas
enquanto castigava as teclas se achando Debussy.
Jacques.
A beleza da sua m�e.
Alphonse dormiu.
A beleza da sua m�e
com a qual ainda sonho.
A beleza dela tinha o cheiro de todas as outras
e das que vieram depois.
Essa � a magia de todas essas mulheres,
que deixaram minha vida um pouco menos ruim.
Qual � seu nome? O nome de verdade.
- Alphonse. - Alphonse...
Legendas: Daniel Frazao
Supervis�o Criativa Z� Roberto Valente
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