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"E PROSSEGUIMOS, BARCOS CONTRA A CORRENTE,
ARRASTADOS DIRETO AO PASSADO". F. S. FITZGERALD
Subpack e sincronia by DanDee
Se as barragens impedem os sedimentos,
temos que explodi-los.
Não temos escolha.
Olha, já estou indo para aí.
Já vou, tenho um negócio urgente.
Tenha um bom dia.
É difícil para as autoridades, mas não vai provocar um tsunami.
Terceiro ataque de tubarão este ano na ilha da Reunião.
Pedaços do surfista foram encontrados.
As buscas continuam.
Bom dia, sr. Kerbec.
Bom dia, sr. Kerbec.
Bom dia, sr. Kerbec.
Bom dia, sr. Kerbec.
DIRETORIA
3 perfis.
Um contrato dinâmico de investimento limitado.
O contrato Golfinho.
Um contrato garantido que privilegia produtos monetários.
O contrato Tartaruga.
Contrato misto.
O senhor não esqueça seu compromisso às 18h?
Muito bem.
Nos vemos na próxima semana?
SENTE-SE
E OLHE...
Parabéns pra você
nesta data querida
muitas felicidades
muitos anos de vida
Da parte de todo mundo.
Aquilo com que você sempre sonhou.
Obrigado.
Com o que eu vou sonhar agora?
Espere só um segundo.
Você volta?
-Vem dançar. -Não estou com vontade.
Não seja chato. Vem.
Você sabe que eu não gosto. Por que insiste?
Sei lá, porque sempre espero que você aceite.
Você viu a vodca?
Tudo bem, Brigitte?
Sr. Kerbec!
Você bebeu demais. Quer um táxi?
Cuidado,
está fazendo algo do que vai se arrepender no escritório.
Pode soprar as velas, meu coelhinho.
Já fez...
Tivemos uma ótima ideia sobre contrato misto.
O que o senhor acha de... contrato Morcego.
O lado animal duplo, meio roedor, meio pássaro.
Morcego não é pássaro.
É sombrio demais para um seguro de vida.
Vai buscar duas taças de champanhe, por favor.
-Está bem. -Vamos.
Me mostre essa poltrona?
Vem.
Desenho de quem?
Art Vandelay, um designer steampunk que eu gosto muito.
Inspirado pela máquina do tempo, Wells.
Não conheço. Mas deve ser rico porque custou uma fortuna.
Falando sério,
você não vai levar para o escritório?
Não é o estilo da companhia. Seu pai nunca faria isso.
Duas taças.
Com licença.
Saúde.
Foi muito legal.
Desculpe, só tinha gente do seu trabalho.
Não entendo, você tinha amigos antes.
Por que nunca fala deles? Que loucura.
Por que não os vê mais?
Quem é o cara em todas as fotos?
Tem algum irmão escondido?
-Onde achou essas fotos? -Na sua mãe.
Numa caixinha no seu quarto de adolescente.
Então, quem é? É estranho eu nada saber sobre ele.
Não quero que você mexa nas minhas coisas.
Você é inacreditável.
Organizo uma festa surpresa de aniversário
e a única coisa que você diz é que eu mexo nas suas coisas?
Por que você grita?
Grito porque tenho que falar por dois.
Você nunca fala nada.
Não se sabe o que pensa, não se sabe o que sente.
Quem sabe não sinta nada.
Eu achei que te agradaria.
O que você sabe do que me agrada?
O que você sabe?
OS ARQUIVOS DA AMIZADE
SE UM DIA TIVER VONTADE DE IR, É AQUI.
Alô?
-Thomas? -Quem é?
É o Yann. Que louco você ter...
Pare de falar, eu não estou. Mas pode deixar um recado.
Oi, Thomas, é o Yann.
Nunca imaginei que teria o mesmo número.
E as mesmas mensagens bobas também.
Aqui está o meu número, 06...
Yann?
Oi.
Tudo bem?
Roger? Traz uma vodca de maçã para mim?
É para já.
O que é isso?
Quer mais um chá ou uma bebida de homem?
Não, obrigado.
Roger, duas?
Duas vodcas de maçã, já vai.
É porque bebi muito ontem.
-Foi meu aniversário. -Agora entendi.
Porque está tão destruído. Achei que você envelhecera.
Mas é porque caiu na balada até o amanhecer.
Mais ou menos. Até meia-noite...
e meia.
Sei, uma festona.
Quantos anos você fez então?
Como você.
Vem cá. Roger? Esqueceu da gente?
O que você faz?
Retomei a corretora do meu pai.
Legal! Corretora de quê?
Seguro de vida. E você?
Hamburger forever.
Ainda trabalha lá?
Forever.
-Casado? -Não.
E você?
-Tem filhos? -Não.
E você?
Ainda temos muito tempo. Não tenho pressa.
Estelle, minha mulher, e eu gostaríamos...
Gostaríamos de ter...
Ainda tem tempo, não tem?
Roger.
Mais uma rodada, por favor?
Ele ainda não morreu. Ele já era velho na época.
Sei, mas eu acho esse cara imortal.
É um highlander.
Ele tem que ser decapitado!
O último que sobrou.
Quê?
Nada. Estou feliz de te ver.
Eu também.
À sua grana. Saúde. Vira!
Ainda tem sua moto?
Você ainda deve ter sua vespa?
Vendi faz tempo.
Você é louco. Eu nunca venderia a minha.
Foi daquele acidente?
Foi a derrapada do século, cara.
Vamos.
Suba.
-Não vou subir. -Me poupe.
-Só um capacete. -Quem liga? Aqui.
Vai, corretor!
Segure-se!
Impressionante você ainda morar aqui.
Entre.
Nossa, nada mudou.
A nós!
-O que é? -Clos du Cigalou.
Clos du Cigalou.
A gente bebia isso quando era pobre.
Bom e barato.
Excelente.
Bebeu rápido!
-Quer outro? -Talvez, mais tarde.
Fui eu que mandei isso?
Como éramos bobos!
Tendo visto a letra, eu devia ter uns 12 anos?
Você ficou com as minhas?
Na minha mãe.
Mesma caixa de sapato, mesmas piadas bobas.
Aqui é a caverna do Ali Baba!
O que é isso?
Deixa ver.
Uma lista de convidados.
Lembra das suas festas de aniversário?
Todo mundo queria vir.
Não como a de ontem que parou à meia-noite.
E meia.
Seu aniversário de 18 anos.
Como você lembra de tudo?
É difícil esquecer.
-Max! -DJ Mad Max!
O cavaleiro da noite!
A águia dos decks.
O cara mais maneiro da escola.
O cara mais pirado, completamente louco.
Emma...
Emma Latour, seu grande amor.
-Quem deixou quem? -Não lembro.
Geraldine Fragonard. NinfoFrago.
Diziam que tinha calcinhas comestíveis.
-Justine, Melanie... -Laetitia.
-Você vomitou no casaco dela? -Não.
Vincent, o garanhão da turma.
-Feliz aniversário, Yann! -O lagosta.
O apelido era por causa do tatoo.
Por que uma lagosta?
Era um escorpião. Mal desenhado.
Natasha Cachou, Philippo...
Philippo! Preciso devolver seu walkman.
-Ainda dá para devolver. -Não sei onde eu guardei.
Bartarin, o cara do haxixe.
O haxixe dele fazia a gente falar sem vogais.
A gente o chamava pizza de espinhas.
Não, era Fred Fournier.
Fred Fournier era Crunch.
-Crunch era você! -Mentira.
-É verdade! -Olha. Viu?
Vi.
Virginie Romanée.
Eu estava a fim dela.
Todos os meninos da escola estavam a fim da Virginie.
-Ela era pura. -Não usava sutiã.
Era a moda.
-Quem são? -Não sei. Penetras.
Sem penetra, não é festa de verdade.
Teve algum penetra no seu aniversário?
Não teve.
Samy, o terceiro mosqueteiro.
Não era o Max?
Não, era Samy. Ele até me emprestou o livro.
-Você o leu? -Li.
Vamos procurá-los no Google. Tem internet aqui?
Está brincando? Tenho melhor.
Uma máquina de guerra!
-Minitel? -Isso mesmo. Preciso mijar.
Quem diria que ainda existe?
Está brincando? É indestrutível!
Resiste a temperaturas extremas.
Derruba café nele, ainda funciona.
Uma coisa que eu sei: A resistência virá do Minitel.
-Você usa para quê? -Para tudo.
Listão telefônico.
Tudo.
Darei um Google em casa se não te importar.
-Aceita um beck? -Não, obrigado.
Parei de fumar 10 anos atrás.
É diferente, sem tabaco.
Uso chá. Darjeeling.
Dá um gostinho picante. Experimenta.
Não mesmo.
Relaxa um pouco, parece um velho.
Um velho?
Seus pentelhos estão brancos? Deixa ver.
Tem pentelho branco!
Seu saco precisa de andador?
Você agora assiste novela?
Você tem o saco do Yoda.
Todo enrugado, com esperma vencido dentro.
Você se enxerga?
Sua roupa.
Sua moto.
Seu quartinho de estudante.
Seu cérebro travou.
Preso por um feitiço.
Que feitiço?
Condenado a viver sua adolescência para sempre.
Você também foi enfeitiçado.
Parece que foi projetado no futuro.
Além da sua idade real. Olhe para você!
Você parece ter 65!
Não pareço retardado.
Vou embora. Adeus.
Isso, deixe o navio!
Não sei por que eu te chamei.
Eu nunca deixei o Titanic!
Desculpem. Perdão.
Sim, Brigitte?
Um sr. Thomas para o sr. Kerbec.
Pergunta o que ele quer.
Ele precisa falar com o senhor,
diz que tem uma ideia do caralho.
Estou ocupado.
Prossigam, por favor.
Ainda está de pé o jantar?
Preciso ir, mãe. Te vejo à noite.
Ele não está. Quanta teimosia.
É o meu amigo. É só um minuto.
Não pode entrar!
Eu te vi!
-Eu o vi. -Não foi ele.
Não foi?
Acorda, idiota!
Muito bem.
Nos vemos na próxima semana.
Encontrei alguém a quem não via desde o colegial.
Achei que nunca mais o veria.
Achei que me deixaria feliz...
Mas, na verdade, aquilo me aterroriza.
Continuaremos na próxima semana.
Senhor diretor.
A sua secretária disse que você estava viajando pelo mundo.
Foi rápido.
-Quer cerveja, querido? -Não, obrigado.
Falamos que viajaríamos pelo mundo.
Para comemorar o vestibular. Como eu não passei.
Por que você está aqui?
Thomas me contou suas aventuras.
Eu não sabia que você fazia teatro.
Era facultativo.
Era para atrair as meninas.
Lembra como brigamos para ser o Cyrano?
A gente achava que, sendo o herói,
ele pegaria todas as mulheres.
Mas não pegava nada por causa do narigão.
Estamos ocupados. Pode ir embora?
Não temos pressa.
"O digo sem dobra nem mancha,
Levo comigo, apesar de você".
O que era?
"Seu brilho". Vem, eu te acompanho.
Obrigado pela cerveja.
Pensei no que você disse. Está certo, estou enfeitiçado!
Me sinto anacrônico.
Tenho um plano. Uma ideia do caralho.
E preciso de sua ajuda.
Retiro o que eu disse. Você não é amaldiçoado.
Claro que sim. E você também.
Sua mulher me confirmou. Ela perguntou de você.
Como você era, se você ria, dançava.
Os casos de envelhecimento precoce podem ser sérios.
Chega de bobagem, Thomas.
Lembra o nosso lema?
Em caso de problema, um ajuda o outro.
Trocamos o nosso sangue. No início da AIDS!
-Não lembro. -Promessa é promessa.
O que é?
Merengue de camarão com azoto líquido e tarama em pó.
É uma receita do El Bulli. Agora faço cozinha molecular.
Me lembra as aulas de Química.
Me lembra quando Bobo Frett congelou Hans Solo
antes de entregá-lo ao Jabba. Meu único choro no cinema.
Mentira, você chorou no Rei Leão quando o pai morre.
Eu não chorei.
Tive que te tirar do cinema de tanto que você chorava.
Espero que você chore tanto assim no meu enterro.
Está tudo bem, Edith?
Tudo, só não quero uma cremação em segredo que nem o pai dele.
Se ele acha que aquilo nos poupou da tristeza!
Você quer mesmo falar disso agora?
Olhe, na época eu não soube encontrar palavras, eu lamento.
Sabe, Estelle, se trata de uma família com lacunas enormes
no quesito ritualização da morte.
Veja o resultado: negação absoluta.
Eu não estou em negação.
-Está sim. -Está.
Eu só não quero falar disso.
Eu quero um funeral de verdade.
Com todo folclore: velório,
cantos litúrgicos, marchas fúnebres e todo mundo chorando.
Mãe, por favor.
-Já escrevi tudo numa carta. -Para!
Você deveria fazer o mesmo, pode acontecer de repente.
Você sabe a minha idade?
A mesma do seu pai quando morreu.
Eu não devia ter falado disso.
Desculpem-me.
Yann reencontrou seu amigo, Thomas.
Meu pequeno Thomas!
Inseparáveis, lembra?
Um amigo de verdade. Teria feito qualquer coisa para você.
Se você matasse alguém,
ele ajudaria a se livrar do corpo.
O que quer dizer com isso?
É uma imagem.
Tipo: "Se estivesse preso, ele te ajudaria a fugir".
Isso, ou se tivesse pedido para ele pular no Rio Sena,
ele teria pulado.
Está bom, entendi.
Lembra quando você teve uma conjuntivite purulenta?
Seus olhos estavam colados, parecia um filhote de toupeira.
Thomas vinha todos os dias em casa para ler para ele.
À noite, você me contava tudo.
Os planetas longínquos,
os mundos paralelos, como se os tivesse visitados.
Você era louco por esse livro. Eu não entendia nada.
Histórias loucas.
Por que os Morlocks pegaram minha máquina?
Porque estava certo de que eram eles.
Se os Elois eram os mestres,
não poderiam pegar minha máquina de volta?
Por que tinha medo do escuro?
VISITE AS GRUTAS DO PERIGORD
É BEM ESCURO!
BOM APETITE, AMIGÃO!
Obrigado. Tenha uma ótima refeição.
Bom dia, é para viagem?
Então, qual é sua ideia do caralho?
Uma farra?
Uma farra. Uma festa.
Como antigamente. Nas mesmas condições:
na sua mãe,
com todos os amigos da escola, os da lista da playboy.
Como aquilo pode te ajudar?
Essa festa será um tipo de portal.
Uma saída pela qual vou poder escapar.
Yann, não brinca.
Vamos abrir uma fenda espaço-temporal
para quebrar minha maldição.
Uma fenda espaço-temporal?
Isso.
Você pirou.
Sabe de uma coisa?
Aquilo talvez viesse quebrar a sua maldição também.
Poderá sair dessa velhice precoce.
Você lembrará como é uma festa de verdade.
Não vai acabar à meia-noite.
E meia.
Isso vai reacender a sua chama.
O escritório.
Oi, Brigitte.
Sim, estou muito atrasado.
Está tudo bem?
Não, na verdade, estou passando mal.
Tchau, Brigitte, obrigado.
Sua desculpa estava bem ruim.
Ah, é?
Ele estava aí esperando a onda.
O tubarão deve tê-lo confundido com...
com uma tartaruga ou uma arraia.
E comeu a metade da perna.
Felizmente para o papai.
A onda chegou e ele conseguiu surfar até a beira.
Numa perna só?
Está sendo repatriado esta noite.
Pensei encontrá-lo no aeroporto.
Tudo bem. Pegue um dia e vá buscá-lo.
Obrigado, chefe.
-Vai. -Maldito tubarão.
Maldito surfe.
Com seu toco.
Saúde.
Então, você topa, fazer essa festa?
Sério? Como antigamente?
Igualzinha.
-Com todos os amigos? -Como antes.
No pior dos casos, será divertido.
-Não é meio serial killer? -Não.
Agora, só resta ligar.
Com quem começamos?
Precisamos de música.
-DJ Max. -Mad Max!
Não é a sua turma, palhaço.
Eu sei, palhaço é você.
Quem é você?
É um desafio.
Estar em todas as fotos dos cursos de conclusão.
Olha o passarinho!
Topam ou estão cagando?
Sorriso!
Sorriso!
Sorriso!
Tudo bem, rapazes?
-Mad Max! -Tudo bem.
-Oi, Max. -Dá um beijo.
-Tudo bem? -Tudo.
Entrem.
Nossa, um telefone sem fio!
Não mexe.
Não, caras, vocês são legais, mas não vai ser possível.
Um jantar, quando quiserem,
mas uma festa daquelas vai me deprimir.
-Você não pode recusar. -Precisamos do DJ Mad Max!
DJ Mad Max. Tinha esquecido disso.
Vendi todo o material.
-Você vendeu seus LPs? -Tomavam espaço.
Vendeu o Banana do Velvet que podíamos lamber
para ter uma viagem de LSD?
Era mentira.
Não era. Você experimentou?
Pai, quebrei a xerox.
Droga. Alguém te viu?
Acho que não.
Vá se esconder no banheiro e me espere.
Meu filho. Está fazendo o estágio de 8ª série.
Você tem um filho na 8ª série? Quantos anos ele tem?
Ele tem...
a idade de estar na 8ª série.
Venham em casa hoje à noite.
Topam? Tenho uma surpresa para vocês.
Está bem.
Uma surpresa! Peraí, o que será?
É uma surpresa.
-Se eu disser, não é mais uma... -Surpresa.
Muito bem, o cérebro está a mil.
Pense na festa. Não será a mesma sem você.
Você é o nosso 3º mosqueteiro.
Samy era o 3º.
Eles eram 4.
Não, apenas 3, como no título.
Ainda não o leu?
Claro que eu li. Athos, Portos, Mortos...
Escutem, francamente, entre nós...
Não quero ser desmancha-prazeres,
mas dar uma festa...
-Igualzinha. -Igualzinha
Não é um pouco regressivo? É melhor andar para frente.
Para andar para frente, preciso voltar para trás.
Não entendi.
Vai ser uma noite divertida. Amigos, garotas.
Todas as meninas vêm. E aquela Frago!
Ela passava Nutella na boceta!
Era uma lenda.
Coloque de volta essa plaquinha, pare de mexer.
-Está tudo bem? -Não está tudo bem não.
Se um babaca da diretoria vier, perco 4 pontos.
Ainda mais se estiver amassado. Não me diga que o amassou?
-Não o amassei. -Não amassou? Me dá isso.
Droga, ele amassou! Você é mesmo um moleque!
Você se enxerga?
Vai perder pontos por causa da plaquinha?
Todo seriozinho no seu terno cinza.
Cadê o Mad Max?
Para com isso! Você é idiota?
Mad Max não existe mais. Acabou. Morreu.
Calma, a gente só veio falar de uma festa.
Não estou a fim. Está claro?
Olha, a gente fala disso à noite na sua casa. Certo?
Olá!
Frago! O que está fazendo aqui?
Estamos na minha casa.
Não é possível!
Por que não falou para gente, palhaço?
Era uma surpresa, palhaço.
Eu também tenho uma surpresa.
Olá.
Emma!
Por que nos perdemos de vista?
Talvez porque você tenha me deixado de repente.
Esqueceu?
Vocês estavam juntos?
Achei que você soubesse. Perdão.
Não sabia, mas tudo bem.
Fiquei chateada, na época.
Não entendi sua reação. Mas agora, tudo bem.
Você não é o único a ter partido meu coração.
Meu namorado acabou de me deixar por uma garota de 18!
De resto, o que faz na vida, fora ser deixada.
Você não mudou!
Ah, vai...
Você é grosseiro.
Trabalho no Observatório.
Ensino astrofísica e dinâmicas gravitacionais.
Astrofísica, de verdade?
Então, preciso falar da festa que estou organizando com Yann.
-Que festa? -Na verdade, você não pode vir.
Tem que ser exatamente como era no colegial.
A gente não se conhecia, então, não pode vir.
Vamos provocar um choque espaço-temporal.
Vai, não estou brincando.
Se você vier, vai estragar tudo.
Pode ser perigoso para você e para mim.
Que merda é essa? Você fumou?
De onde vem o vinho?
Não sei, foi o Thomas que trouxe.
É ótimo.
-Que porcaria é essa? -É meio áspero.
Por que você trouxe isso?
Porque é o preferido de nós 3.
É o seu preferido, Max? Clos du Cigalou?
Nunca. Você me conhece! É horrível, não dá para beber!
Uma mistura de vinhos da União Europeia.
Não, ele só precisa pegar um.
Só precisava estar num decanter.
Pois é, precisava.
Não vamos decantar essa merda!
Mas podemos jogá-lo no lixo.
Seria uma pena, eu trouxe 6 garrafas.
A gente queria saber se é tinto ou rosé.
Seria uma negação
da conjetura de proteção cronológica de Hawking
ou do conceito de coerência de Novikov, se vocês preferem.
Estão entendendo?
Simplificando: para viajar no tempo,
tem que abandonar o postulado de causalidade
que faz que o efeito aconteça...
depois da...
Depois da causa.
A causa.
Admitir que o passado não passou, que ainda existe.
E isso é contrário à 2ª lei da termodinâmica.
Sinto muito, mas seu choque espaço-temporal
já era.
O único jeito de voltar ao passado é através da memória,
dos sonhos.
Posso acender? Por favor, posso?
Querida, isso te enjoava.
Ela não vai enjoar com isso.
-Agora, sou uma garota crescida. -Pronto.
O que você faz, Estelle?
Engenheira hidróloga, cuido das margens do Sena.
É verdade que se encontram coisas inacreditáveis?
Tiraram os restos de uma píton de 40kg.
Claro, há muitos cadáveres animais, e humanos também.
Infelizmente.
Perdão, não queria quebrar o clima.
Como você conheceu o Yann?
Numa festa. Eu estava dançando e ele...
Estava sentado num sofá, olhando para mim.
Passou a noite sem se mexer, olhando para mim.
Tinha alguma coisa muito atraente.
Um mistério. Algo sombrio.
Sei o que você quer dizer.
Alto, sombrio, atormentado.
Ah, sim, eu também achei isso muito atraente.
Isso e o shortinho apertado, nas aulas de esporte.
Aquilo era nojento.
Vocês têm filhos?
Não temos.
Queríamos, mas está complicado.
A gente não sabe por quê, toda vez que engravido...
Não vai interessar a eles, querida.
São seus amigos.
-Podemos nos abrir, não? -Com certeza!
Eu ralei antes de ter minha filha.
Tive vários abortos espontâneos.
O pior é que não há enterro. O luto fica impossível.
Você tem uma filha? Que ótimo, como se chama?
Você não vai falar mesmo?
Não quero expor nossos problemas no jantar,
entre o queijo e a sobremesa.
A mim, me faria bem. Pode ser que para você também.
De jeito nenhum.
Você já bebeu o bastante.
De jeito nenhum.
Você está me deixando pouco à vontade, Estelle.
Está se exibindo na frente dos meus amigos.
É uma total falta de pudor.
Comporte-se.
Olhe,
não posso ficar fingindo que está tudo ótimo, como você.
Não posso ficar. Agora, eu que fiquei sem jeito.
Tchau. Me desculpem.
Não tem problema.
Estelle!
-Para. -Por favor, fique.
Ambos estamos tristes, mas cada um do seu lado.
Alguém quer mais alguma coisa...
Querida, tudo bem?
Não estou bem.
Te avisei.
Cabeça reta. Respire.
Droga, sujou tudo, é nojento. Eu falei, nada de baseado!
-O que tem nisso. -É só chá.
É forte, mas é chá.
Não tem graça. É chato.
Quando começaram a sair, Geraldine e você?
Numa festa de seus 18 anos.
Eu estava mijando. Ela veio.
Tentei a sorte. Achei que não rolaria.
Ela era meio selvagem na época, talvez lembrem.
Ela usava mesmo as bolas da Geisha na aula?
Para! É minha mulher.
Era bobagem, chega.
Gente, não inventem coisas.
A gente pega o meu filho e vai.
-Não é para... -Certo.
Perdão, a gente vai baixar a música.
Com licença.
-Oi. -Oi.
Pai, o que está fazendo aqui?
Vim te buscar.
Falamos duas horas, nem é meia-noite!
Não tem problema, vou esperar aqui.
Sério?
Seu filho está certo. As coisas começam à meia-noite.
Salvo nas festas ruins que acabam à meia-noite.
E meia.
Perdão.
Esse casaco é de alguém.
Alguém que gostava de festa antigamente.
Nico, venha cá.
Esse casaco é meu!
Mãe disse que eu podia.
Mesmo?
-Tudo bem então? -Tudo, divirta-se.
Legal.
Olá.
Olá.
E aí, Max, não te dá vontade?
A sensação do vinil nos seus dedos?
Vocês nunca desistem!
Não acham essa festa meio careta?
Eu gosto.
Não quero que meu filho faça as bobagens que a gente fazia.
Sobretudo as da mãe dele.
Para com isso!
-Chega dessas piadas. -Max, relaxa. O que houve?
Lembra do Jacquard?
Ele espalhou boatos que Geraldine era "open bar",
a ninfomaníaca, a coisa das bolas da Geisha,
o Nutella, toda essa merda.
Eu sei a verdade, ela me contou.
Uma noite, numa festa,
ele deu shots de tequila para ela.
Quando ela estava trêbada,
ele tentou estuprá-la.
A gente foi babaca.
Pois é, a gente foi bem babaca.
Não podiam saber.
Tentei achar esse filho da puta, para...
Procurei na Internet e nada.
Posso tentar com meu Minitel.
O Minitel não existe mais.
Oficialmente, mas...
Estão certos, aqui é muito careta.
Caras, voltei!
DJ Mad Max!
Suma.
Isso é só merda.
Agora sim.
Escutem isso!
Vamos dançar.
Não seja chato. Vamos dançar!
Vamos!
Estou vivo!
Vocês são jovens, não são? Vamos botar fogo aqui!
As mãos no ar,
tirem o dedo do cu e vamos!
Você ligou para Estelle, por favor, deixe um recado.
Sou eu.
Olha...
Sinto muito. Não sei o que deu em mim.
Me senti... vulnerável.
É difícil falar disso...
Que saco! Saco! Saco!
Sou o cavaleiro da noite!
A águia dos decks!
Mad Max! Mad Max!
Eu topo! Vamos fazer a porra dessa festa!
Eu topo!
Estou vivo, porra!
Estou vivo!
-O que houve? -Vou contar para vocês.
Bom dia!
Foi Nico que os trouxe de volta, ele nem tem carteira.
E não foi só isso. Nico, vem cá.
Acham graça?
Marcador permanente!
O que vai dizer no escritório? Que foi uma brincadeira?
Muito engraçado. Eu não vou assim.
É só esfregar um pouco mais.
Na Internet, dizem que só com cirurgia a laser.
Use um chapéu e pronto.
Ou um turbante, como os sikhs.
Eles nunca tiram o turbante.
Nunca mesmo.
-Nem para o RG. -Nem no barbeiro.
Vi a foto de um cara em quem enxertaram pele da bunda.
Chega, Nicolas! Estou com dor de cabeça.
Seus nazistas!
Bravo! Pode rir!
É lindo o pai de família!
Agora levantem. Ajeitem tudo que está fedido.
Desentupam a pia, cheia de vômito.
Tem um pouco do meu,
mas as camadas de cima são de vocês.
E me esqueçam para essa sua festa nostálgico-regressiva.
Está nojento aqui!
Droga!
Caras...
Vamos nos perder de vista de novo.
Seria mais razoável.
Foda-se.
Prosseguimos.
Está certo.
Como os morcegos.
Enquanto ninguém falar que não somos pássaros,
continuamos voando.
-Morcegos. -Morcegos.
Prosseguimos, mas vou pra casa tomar banho.
O morcego não é um pássaro?
Estelle?
Abra, por favor.
Não.
Se eu te deixar entrar, vai continuar tudo como antes.
E acabaremos nos separando.
Nunca te deixarei.
Sua mãe me contou. Eu sei tudo.
Abra ou eu quebro a porta!
Para, Yann!
Abra, eu imploro.
Não.
Você continua sozinho, agora.
Tomou banho e continua com a mesma roupa?
Cala a boca.
Acho que seria melhor ela ficar com outro cara.
Um com quem teria filhos.
Sabem por que não funciona?
Ela engravida, mas nunca vai além do quarto mês.
Quando meninos, a gente se achava
tão distante da morte.
Isso me dá vertigem.
Como você imagina o além?
Você acredita no paraíso, no inferno, essas coisas?
Você, não?
Não, acho que não.
E no Valhalla também não?
Nas Valquírias em cima de lobos gigantes de fogo?
As planícies dos índios americanos,
onde todos os bichos falam, não?
Os portos cinzentos dos elfos
na estrada de Valinor, não?
No Nirvana do Curt Cobain, você acredita?
Acredito sim.
Então...
A coisa boa de morrer...
é que você finalmente sabe.
-É uma história louca. -Claro que é.
Se eu não os fizer sair,
eles morrerão.
Todos os dias, tem gente morrendo.
Braddock!
Estou te avisando. Olhe aonde você pisa.
Piso aonde eu quiser.
Muitas vezes na cara das pessoas.
Bom dia, Yann.
Pode entrar, querido,
estava te esperando.
Bom dia, Yann.
É normal a gente se ver de novo.
A gente nunca se despediu.
Era para te proteger.
Você me protegeu.
Nunca te vi doente ou morto.
Você era muito novo.
Como eu faço agora?
Não consigo lidar com a morte. Não sei como fazer.
Não há o que se fazer.
É só aceitar.
Lembra quando soltávamos pipas no parque?
A gente mandava bem.
Ia alto, muito alto.
Você estava impressionado.
Está vendo? A vida e a morte...
Elas nos escapam.
É que nem pipa.
Puxamos os fios, mas, na verdade...
É o vento.
Só o vento.
Espere.
Deixa tocar mais um pouco.
Por favor, pai.
Virginie Romanée...
-Onde anda você? -É o Yann Kerbec!
Estou fazendo uma festa com Thomas Chevalier.
Ainda não sabemos quando, mas você toparia?
Perfeito. Bartarin topa.
Ele tem que vir com o haxixe.
Você pode trazer o haxixe?
-Ele diz que nunca teve haxixe. -O quê?
Estou feliz por estar aqui.
Estivemos 10 anos juntos na escola.
É a primeira vez que me convidam.
Não é só pelo meu haxixe?
Claro que não.
Esse negócio deixa paranoico.
Tá pegando.
Tudo bem?
Meu primo de Perpignan me enganou!
Vocês sentem alguma coisa?
Não sinto nada.
Nada mesmo.
Está louco? Está surdo? Não tenho haxixe.
Só tive uma vez, era do meu primo de Perpignan.
Foda-se o primo.
A gente se fala então.
Se não tiver haxixe, não vai ter festa.
Oi, Virginie, é o Thomas. Thomas Chevalier.
A gente tá organizando uma festa com amigos da escola
e gostaria de saber se você...
Me liga então. Beijo. Até logo.
Na verdade, você é muito romântico.
Viado.
Philippo? Oi, é o Yann Kerbec.
Não sabe onde vive a sua filha?
-Último ano, liceu Montaigne. -Acho que não quer me dizer.
Thomas, o ex-namorado dela.
-Estamos organizando uma festa. -Como assim, "por isso mesmo"?
-Gostaríamos que você viesse. -Como ousa?
Recuperar seu walkman.
O walkman.
Topa? Ótimo. Maravilha.
A gente se liga então.
Alô, Natasha, como vai? É o Thomas Chevalier.
Guardei uma ótima lembrança de você, por quê?
Ótimo, Lagosta. A gente se fala!
Até logo.
Laetitia?
Oi, aqui é o Thomas Chevalier.
A gente quase saiu junto na conclusão do segundo grau.
Grande, moreno, fortão...
Pulseira de couro.
Eu nunca vomitei no seu capuz.
Pelo visto, só vai ter homens.
A Virginie vai ligar
e...
Só.
-Vincent Montluc. -O que tem?
Era uma lenda. Um aspirador de garota.
Pensa.
Se o gato vier,
todas as minas virão.
Ele vai ser nossa isca.
Isso.
Vá nos informando.
Tchau, Vincent.
Ele vai pensar.
Mau sinal.
Quando ele fala isso, é que já decidiu.
O gato não vem.
Melhor assim. Teria roubado todas as minas...
Quais minas? Não tem menina.
Esse é o problema.
Ele tem que vir. Vamos convencê-lo.
Vamos falar com ele cara a cara.
Ele mora aqui.
A gente não vai cruzar o país atrás desse idiota.
De lá, estaremos pertos do Samy. É a oportunidade.
Espere.
Podemos ver a Virginie também.
Está no caminho.
Uma jogada de 3 tabelas?
-Morcegos! -Morcegos!
-O que disse para o seu patrão. -Nada. Eu me demiti.
O que você disse?
Que minha mãe morrera.
Nossa!
-E morreu como? -Numa caminhada.
Encontrou um urso-pardo, e ele a comeu.
Urso-pardo na França?
Não, no Canadá.
Foi por isso que eu tirei 3 dias.
Sua mãe deu mole.
Não pode sair menstruada numa caminhada.
Isso atrai o urso-pardo.
Me mostre um pouco do que sua vespa é capaz.
Mais rápido! Mais rápido!
Por favor, senhor policial, é o enterro da mãe dele.
Não chore.
Vai, segure, cara.
Tudo bem, então.
Podem ir.
Obrigado.
Com o aspargo e os escargots, sugiro um Pouilly.
É uma safra boa.
-Não tem um Clos du Cigalou? -Cigalou?
-Alô, Brigitte. -Você não é sommelier?
Fale a verdade.
Que minha mãe foi devorada por um urso.
Que vou repatriar o que restou do corpo.
Meu avião vai decolar.
Para o Canadá. Obrigado. Até logo.
Pouilly Fuissé está ótimo.
E alguma coisa para equilibrar a mesa? É muito irritante.
Claro.
-Você é neurótico. -Isso não te incomoda?
Da mesa balançar... posso balançar com ela.
Já trago para vocês.
O que tem na sua mochila?
A tenda.
-A tenda? -Sim.
Posso pagar o hotel.
Não precisamos do hotel. Vamos acampar.
Lembra quando a gente fugiu para viver ao relento?
Tom Sawyer e Huck Finn?
Tinha sua faca suíça e sua vara de pesca para gente comer.
Eu tinha batata frita e bolachas, caso necessário.
Huck e Tom.
Samy tinha emprestado um livro para gente.
Alguma coisa safada.
Tinha uma frase, nunca esqueci:
"Passava batom nos seus lábios...
Como se fossem os da sua boca".
Oi, Michel.
Então, a sua mãe foi comida por um animal selvagem?
Isso, um urso-pardo.
Ela e eu acabamos de falar. Acha que somos palhaços?
Sou seu patrão, Michel, caso você tenha esquecido.
Cuidado, Yann.
Não estou te ouvindo.
Inacreditável.
Parece ser um mala, esse cara.
Por que não o manda embora?
Não é tão simples.
Mas você não é o patrão?
Sou, mas tenho sócios, tenho que prestar contas.
Tenho um diretor-adjunto que se diz amigo, mas só enche o saco.
A metade de um amigo, é a metade de um traidor.
Eu também te traí.
-Como assim? -Te deixei na mão.
Me empreste seu telefone?
Você é doente!
Estamos livres. Ninguém mais para incomodar.
É isso a liberdade? Cortar os contatos?
Estamos numa aventura.
Minha linha privada.
Ótimo.
-Oi, mãe. -Então, estou morta?
-Posso explicar. -Você me quer morta?
Não te quero morta.
-Tenho meus defeitos, mas... -Posso falar?
Por que morta? O que eu te fiz?
Droga!
Porra!
Muito bem.
Revê-la me deixa nervoso.
Eu gostava mesmo da Virginie, sabe.
Por que nunca tentou?
Achei que eu tinha a vida toda, que tinha que esperar o momento.
Talvez seja agora.
-Tente, o que tem a perder? -Está certo.
Vou declarar meu amor, ela vai derreter.
Morcego... Morcego...
Bom dia.
Quem é você?
E vocês? Quem são?
Somos amigos da Virginie.
Sou o marido dela.
Foram vocês que deixaram recado sobre uma festa nostalgia.
Foi isso?
Ela ia retornar a ligação,
mas não deixaram número.
-Bom trabalho! -Pare.
Entrem!
"Amo aquele que me ama.
Será culpa minha
se não é o mesmo
que eu amo a cada vez.
Eu sou...
assim como eu sou".
Yann, Thomas e eu nos conhecemos quando pequenos.
Todo ano na mesma turma de escola.
Por que se chama Thomas como eu?
Deve ter deixado grandes lembranças na sua mãe.
Sabe o que ele fazia no almoço?
Molhava sua salsicha no iogurte.
Eu nunca fiz isso.
Mentira.
Eu lembro, mas ele fez pior.
Parece que foi um século atrás.
A última vez que falamos, foi no século passado.
Mas a gente nunca falou. Vocês nunca falaram comigo.
Não sei por quê, eles me ignoravam.
Uma vez, na 7ª ou 8ª série,
me virei para pedir um apontador.
Eu só disse: "Me emprestem o apontador?"
Ficaram olhando para mim. Devem ter me ouvido.
Nunca responderam. Fiquei muito magoada.
Talvez fossem tímidos demais.
Eu intimidava vocês?
A ponto de não falar comigo?
A gente falava sim, te convidava para nossa festa.
Não, pediam a Vincent Montluc me convidar.
Ele chegava todo se achando e falando:
"Yann e Thomas dão uma festa, quer vir?"
Aí, ele piscava o olho e dizia: "Estarei lá".
Funcionava. Você vinha.
Teria funcionado com você também.
Eu era jovem. Amava aquele que me amava.
Como no poema do Prévert.
Você não tocava piano? Quer tocar alguma coisa?
Não sei se eu consigo.
Perdi tudo.
Acho que a gente não esquece.
Aquilo tudo permanece em algum lugar.
Droga! Tá louco?
Estou vivo!
Café?
Vamos dobrar a barraca mais tarde.
Esperemos que diminua.
Não, porque agora... Ah, está bem.
Engraçado, não tem ninguém nessa época do ano.
Não vimos muita gente.
Não mesmo.
Quando abrir, vamos entrar.
São 5h30. Deve abrir daqui a 2 ou 3 horas.
Tempo de acabar vários cafés.
Se você sonha com ela, é que ainda a ama.
Acha que ela também sonha comigo?
Conhece a história de mestre Zhuang
e a borboleta?
-Quem? -Mestre Zhuang.
Sonhou que ele era uma borboleta.
Quando acordou,
indagou-se quem sonhara que era quem.
Ele ou a borboleta?
Então, eu poderia estar nos sonhos da Estelle.
Poderia.
Mas, você? O que está fazendo no sonho da minha mulher?
Quantos quilômetros ainda?
Uns 350.
Tudo bem?
Indo rápido, são umas 9 ou 10 horas sem parar.
No mínimo!
O que falamos para o gatão?
Vamos fazer uma oferta irrecusável.
Qual oferta?
Estou brincando. É uma frase do Poderoso Chefão.
Sei.
Mas qual é a oferta.
Não tem oferta. Tirei do Poderoso Chefão.
Quer dizer que não tem oferta?
Você é surdo mesmo.
É um diálogo de um filme.
Você o viu. O vimos juntos.
"Vou fazer uma oferta que ele não terá como recusar".
A gente vai falar isso?
Esqueça.
Vamos?
"Amigo sempre chega tarde e vai embora cedo demais".
Dá um certo medo.
Sei por que ele está aqui.
Passou o rodo no norte, agora vai conquistar o sul.
Não brinca. Precisamos conseguir.
Estou tão feliz de vê-los!
-É o gatão? -Acho.
-Vocês vão dar uma festa? -Sim.
Posso ir?
Por que a gente te convidaria?
Porque se eu for, todas as minas virão.
Pensem!
Posso?
Tudo bem, garotas?
Nojento!
Kerbec e Chevalier!
Impressionante, vocês continuam iguais.
Mas você teve uma alteração.
O vento aqui provoca rugas.
Barrigão e calvície também?
E sobre a festa? O que tem para pensar?
Não quer vir?
Imagine, não sou eu que não quero.
Eu gostava de suas festas.
É a minha mina.
Vou apresentar para vocês.
Sofia?
Sofia!
Vem cá, boneca.
Querida, te apresento Yann e Thomas.
-Bom dia. -Bom dia.
Amigos de colegial.
São eles que davam aquelas festas.
Vocês que não querem me convidar.
Sei o objetivo do Vincent numa festa:
seduzir todas as meninas.
Não quer confiar em mim, por favor?
Vai.
Não vai se arrepender. As minas vão pirar te revendo.
Todas perguntaram: "O Vincent vem?"
É mesmo?
Todas.
Vou dar um jeito.
Vou me trocar.
-Tchau. -Tchau.
Agora, tem...
Tem algo que não entendi.
Você pegou todas as meninas da escola, você era o gato.
Passou o rodo nas meninas.
Só nos restavam restos, mas agora...
Você está feio, gordo, calvo.
Tem a casa mais brega da região.
Você continua aspirador de minas.
Tipo avião a jato!
-Como? -O que você tem?
Ondas à sua volta? Algum campo magnético?
Ah, vai, não peguei todas as meninas da escola.
Peguei?
É, talvez eu tenha.
Virginie?
Que Virginie?
Romanée?
Não me diga que você a comeu.
-Preciso saber. -Não.
A gente só trocou uns beijos num fim de festa. Você estava.
Eu lembro, você ficou puto.
Bem, me desculpe.
Me senti mal depois por causa disso, eu juro.
Já que estamos fazendo revelações,
preciso te contar algo.
Não leve a mal.
Foi muito tempo atrás.
Tive um caso com a sua mãe.
Um caso? Não entendo.
-Ele pegou a sua mãe. -Nada disso. Um caso mesmo.
Não uma noite de sexo sujo. Não. Uma noite de amor.
Está brincando?
Só de lembrar, tenho uma bola de fogo crescendo dentro de mim.
Você pegou a mãe dele?
-Pegou a minha mãe? -Calma.
Você é um merda!
Era puro amor.
Vamos embora.
É esquisito ler no recreio.
O que é?
A interpretação dos sonhos do Freud.
Tenho muitos livros.
Acabei agora "Os Três Mosqueteiros".
Eu também, li os três.
-O que foi? -Depois eu te explico.
-Samy! -Afastem-se, por favor.
-Nós o conhecemos. -Não faça confusão.
-Samy! Somos nós aqui! -Oi, amigos! Venham!
Como vai?
Ótimo.
Desculpem-me, não os reconheci.
Que péssimo segurança você é.
Mosqueteiros!
Como você acabou aqui?
Não ia estudar psicologia?
Estudei. Tenho um doutorado de psicopatologia social.
Mas, enfim, 4 anos de desemprego...
Vou ao banheiro.
Te liguei várias vezes.
Deixei muitos recados, você nunca retornou.
A gente se sentiu culpado. Poderíamos ter feito algo.
Nós também deixamos muitos recados.
Não creio que seja uma boa ideia.
-A nossa festa? -Sua festa...
Como dizer de um jeito simples?
É um psicodrama
a serviço da negação.
Me poupe do seu jargão.
Estou muito bem. Largue-me.
Tudo bem, se você diz. Não quero apressar.
Estou aqui para conversar, se você quiser.
Vou voltar ao trabalho.
Até mais.
Quer dançar?
Quantas vezes terei que dizer que eu não danço?
Venha dançar, caubói, a gente faz uma batalha.
Para.
Você sabe o que eu quero.
Claro que você sabe.
Preciso de você.
Me pega, sou toda sua.
-Aqui? Mas... -Esquece deles!
Eles não são reais. Nada disso é real.
Mas, você...
Você é real?
Sou real se você quiser. Você decide.
Quem você acha que é?
Para, querido, por favor.
Você, já para dentro. Eu resolvo!
Se mexer de novo com minha mulher. Você está morto!
Relaxa. Não leve a mal.
Isso, vai embora!
Nossa...
Peraí, você não vai dirigir nesse estado.
Vamos...
-Dormiremos na praia. -Relaxa.
-Você é inconsciente, desce. -Me largue.
Não te largo. Vai sonhando. Desce.
Você é que está sonhando.
Thomas!
-Porra de lixo! -Thomas?
Está bem?
Nossa!
O quê?
Está vendo aquelas luzes lá?
É a ilha do Levant.
Onde meus pais se encontraram.
Numa praia do campo naturista.
Voltaram todos os anos.
Dizem que eu fui concebido lá.
Engraçado pensar que tudo começou lá.
O que foi?
Nada.
Fala!
Engraçado imaginar que, antes mesmo de falar com ele,
sua mãe já tinha visto o pau do seu pai.
Idiota.
E nós?
Você lembra de como nos conhecemos?
Lembro.
Você sempre sozinho no pátio da escola.
Encostado na árvore.
Todo mundo achava que você era autista.
Um dia, sentei ao seu lado.
E você disse...
Essa árvore é minha.
Essa árvore não é de ninguém, caubói.
Sério, encontra outra árvore.
O que vai fazer? Bater em mim?
Não amola, babaca.
Não me chame de babaca, seu retardado.
Não me chame de retardado, seu babaca.
Então, qual é o seu nome?
Yann.
Thomas.
Vamos dar um pulo na água?
Thomas?
Thomas?
Thomas?
Thomas?
Calma, estou aqui.
Thomas?
Vamos continuar nos vendo?
Não nos perderemos mais de vista.
Boa noite, caubói.
Boa noite.
Yann, acorda.
Estelle?
Acorda.
Acorda, Yann.
Venha para cama, agora.
O número que você ligou não existe...
Na verdade, ele foi assassinado.
Kurt Cobain? Que bobagem!
Max! Você viu o Thomas?
Não vi não.
Meninas!
Viram o Thomas?
Bartarin, onde está o Thomas?
Philippo!
Viram o Thomas?
Samy!
Tarde demais, ele já foi.
Yann? O que foi?
O que foi, meu amor?
Me fala.
Meu amor, o que foi?
É aqui.
Plantaram essa árvore.
E dispersaram suas cinzas à volta.
Todo mundo estava lá.
Todo mundo, menos eu.
Me chamaram pedindo que eu fosse.
Dizendo o quão importante era,
para dizer adeus.
Não tive coragem.
Obrigado.
Você quer dançar?
NOSSO FUTURO
Subpack e sincronia by DanDee
Legendas - DREI MARC Tradução: Anne Fryszman
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