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Essa hist�ria come�ou no elevador de um pr�dio em Paris,
entre o segundo e terceiro andar para ser mais preciso.
Sou claustrof�bico e por 2 horas
fiquei preso no elevador com minha companheira de infort�nio.
acabamos nos conhecendo.
In�s era a vi�va do famoso diretor franc�s Henry-Georges Clouzot,
um monstro sagrado,
um dos maiores diretores de todos os tempos.
Ela me falou de seu marido falecido h� 30 anos,
e de suas obras-primas que tanto me maravilharam.
O assassino que mora no 21,
O Corvo, Quai des Orf�vres,
O Sal�rio do Medo, As Diab�licas...
Ela tamb�m falou do eterno arrependimento de seu marido,
Inferno, de 1964.
Um or�amento enorme, uma filmagem maldita,
um filme que ele considerava o mais importante
e que nunca ningu�m veria.
Ela me falou sobre tais latas de filmes esquecidas,
a hist�ria dram�tica de sua filmagem.
Essas 185 latas de filme
s�o tudo que restam de Inferno.
13 horas de um filme exposto,
a g�nese de um filme que queria revolucionar o cinema.
185 latas de filme
sem serem vistas por mais de meio s�culo.
Sem trilha-sonora.
Essas latas, essas imagens,
nos contam a hist�ria de Inferno.
O Inferno, de Henri-Georges Clouzot
INFERNO de Henri-Georges Clouzot
N�o � verdade!
O in�cio desse filme � uma hist�ria de ins�nia.
Tive uma ideia
que era explorar
esse tipo de mal-estar que eu sofria toda noite
e que me impede de dormir.
Escrevi uma hist�ria de 50 p�ginas.
Bom, percebi muito r�pido,
enfim, ap�s ter terminado essas 50 p�ginas, infelizmente,
que era f�cil de explicar ao p�blico
um personagem com 10 obsess�es,
mas n�o se pode compartilhar essas obsess�es em 2 horas,
porque o personagem levou 10 anos com elas.
H� um lado patol�gico �bvio desse filme.
Semi-patol�gico...
O personagem principal...
por um per�odo que n�o posso definir porque tomaria muito tempo,
est� num estado patol�gico.
Por�m, frequentemente ele � perfeitamente normal.
Voc� tem interesse pessoal no m�rbido e no patol�gico?
N�o particularmente.
Mas o ponto de partida � voc�, n�o �?
N�o penso que sou um caso patol�gico.
Fui um dia, n�o sou mais.
Voc� foi?
Tive uma depress�o, sim.
Uma verdadeira!
N�o fa�o nenhuma alus�o a uma depress�o de celebridade.
Te digo... nada.
N�o procure...
Esque�a.
N�o procure.
Esque�a.
mais cedo...
Estava pronto para partir para Clermont com ela.
Mas ainda estamos aqui...
Como antes.
Como antes o que?
Inferno � a hist�ria de um homem, Marcel Prieur,
e sua mulher Odette.
Rec�m-casados, eles gerenciam um pequeno hotel
no centro de Cantal, perto da ponte Garabit.
Essas s�o as primeiras p�ginas do roteiro.
Um in�cio alegre, imagens de felicidade.
Agora, o filme come�a.
E como diz o roteiro,
ele come�a...
mal.
Cheguei � Colombe d'Or onde Clouzot morava na �poca.
Ele me deu um roteiro, mais ou menos 300 p�ginas.
E disse "Leia e vamos discut�-lo." era fim de tarde.
Uma hora depois ele me chama e diz "E ent�o? O que voc� pensa?"
Eu disse "Mal comecei."
Ele me ligou 2 vezes essa noite. Eu disse
"N�o, amanh� de manh�, se voc� quiser. N�o tenho tempo de fazer anota��es."
A gente se viu de manh� e fiz uma pergunta espec�fica.
Ele releu a cena para responder minha quest�o.
Foi um momento muito forte pois durou um longo tempo.
Eram 10 linhas.
Mas ele passou um tempo enorme fumando seu cachimbo,
lendo e relendo,
como se tentasse ver exatamente o que ele queria fazer e como.
Essa � uma imagem que nunca vou esquecer.
Clouzot viveu em Colombe d'Or por 10 anos.
Longe da agita��o de Paris, esta pousada perto de St Paul de Vence,
se tornou a Meca da arte francesa.
Ali voc� cruza com pessoas que contam no mundo do arte,
pintores, atores, escritores, m�sicos.
Depois que ele filmou Picasso,
desenvolveu uma paix�o pela pintura.
A depress�o e o drama da morte de sua primeira esposa, Vera,
est�o agora longe.
Em 1963, ele se casa com In�s,
termina o roteiro de Inferno sobre o qual trabalha h� v�rios anos,
e compartilha as primeiras linhas com outros clientes do hotel, como
Serge Reggiani...
Yves Montand, Simone Signoret,
e sua filha, Catherine All�gret, que teria seu primeiro papel.
Sinto como se sempre tivesse conhecido Clouzot.
Mam�e e Montand sempre estavam l�, eu, �s vezes, e Clouzot sempre.
Ele era uma parte do cotidiano de Colombe d'Or.
Ele devia pensar que o ci�me nunca tinha sido tratado como se deve.
Ele se lan�ou profundamente na dor do ci�me.
Algu�m t�o obsessivo... � patol�gico.
Atinge um estado de neurose.
Ele tratou uma neurose, N�o simplesmente o drama do ci�me.
A sensa��o que tive quando li o roteiro
foi algo totalmente f�sico.
Mais f�sico que intelectual.
Me lembro perfeitamente o que era a hist�ria,
mas o que ficou em mim n�o foram as cenas. Como poder�amos dizer
"� formid�vel! Que vis�o..."
N�o � isso. � algo...
que experimentamos quando progredimos no roteiro.
Porque a ansiedade e a neurose sentidas por Marcel, por Reggiani,
� t�o forte,
que a gente � tomado por algo fisiologicamente angustiante
ao ponto que voc� n�o pode respirar.
Clouzot e Romy Schneider.
S�o filmados juntos pela primeira vez.
As latas 5 e seguintes cont�m as primeiras imagens.
Primeiro momento de entusiasmo compartilhado: os testes de figurino.
Em 1955, Romy se tornou Sissi.
Agora, com 26 anos, ela � esta jovem estrela
que j� trabalhou com Welles, De Sicca, Siodmak e Visconti.
Para o p�blico, ela � ainda a inocente Sissi.
Para Clouzot, ela ser� Odete, a mulher sensual e sedutora,
objeto do olhar e do ci�me obsessivo de Marcel.
Era uma hist�ria impressionante,
escrita, penso, unicamente para Romy Schneider.
Romy que era, naquele tempo, uma das maiores atrizes francesas,
a despeito da origem Austr�aca.
Ao lado de Romy, Serge Reggiani ser� Marcel Prieur.
Ele tem 42 anos e j� havia trabalhado com Clouzot 15 anos antes em Manon.
Os 2 se conhecem bem e se encontram frequentemente no Colombe d'Or.
Os pretendentes ao papel s�o numerosos,
mas Clouzot discute com a produ��o.
Ele queria Reggiani.
As pessoas diziam que Reggiani tinha uma cabe�a de castanha esculpida.
Ent�o, ele era perfeito para o papel de um homem
que se torna um ciumento totalmente paran�ico.
Ele faria isso muito bem.
Entre os clientes do hotel Clouzot escolhe Jean-Claude Bercq
como Martineau, o mec�nico da vila pr�xima,
um bonit�o, jogador e sedutor.
Ele seduziu Odette? Foi o �nico?
Ao lado de Mario David,
o quarto personagem do trio, a peralta Dany Carrel,
ser� a inocente Marylou, a melhor amiga, cabeleireira local.
Na hist�ria imaginada por Clouzot, ela � anjo e dem�nio.
� ela que introduz a sedu��o
e a d�vida.
No cinema da �poca, Clouzot era um dos grandes.
Um daqueles diretores franceses
que conseguia os atores e o capital que quisesse
para fazer o que quisesse.
Era um filme grandioso em termos de or�amento e produ��o.
As pessoas estavam falando sobre o "filme de Clouzot".
Tamb�m o fato que ele tinha os americanos
era um elemento extra.
Clouzot n�o filmava h� 4 anos.
Seu �ltimo filme, A Verdade com Brigitte Bardot
tinha sido premiado em Veneza.
4 longos anos de espera.
E como o novo projeto parece fora do habitual,
as c�meras da �nica TV da �poca
vai para o Hotel George V onde Clouzot tinha se instalado.
Ele reencontra sua equipe habitual e seus gestos mec�nicos.
Encontrei um Clouzot muito diferente
daquele que tinha conhecido quando filmava Quai des Orf�vres.
Para come�ar,
ocupou uma su�te do George V para preparar o filme,
quando em outros tempos, se contentava com um pequeno escrit�rio num est�dio,
ou, como em Quai des Orf�vres,
no apartamento de meu irm�o na Rue des Bourdonnais.
era bem informal.
Mas agora, era um pouco � la Hollywood.
9h da manh�. Num hotel 5 estrelas, a f�brica de Clouzot come�a a funcionar.
Com uma precis�o de engenharia,
Clouzot come�a a prepara��o de seu novo filme, Inferno,
estrelando Romy Schneider e Serge Reggiani.
O car�ter obsessivamente ciumento do her�i � colocado em cart�es coloridos,
dependendo de seu humor e das a��es no tempo e no espa�o.
Loucura concebida como uma equa��o.
Em todo caso, os story boards, usados antes no Sal�rio de Medo,
est�o aqui aumentados.
Este sistema inteligente permite
logo saber o tamanho de um personagem no campo da c�mera
dependendo das lentes.
Clouzot exigia
uma prepara��o extremamente detalhada
de modo que, quando estava no set
pudesse se concentrar quase exclusivamente no desempenho dos atores.
A representa��o plana que voc� v� aqui,
� exatamente o que voc� tem no filme
se voc� respeita o tipo
e a altura da c�mera.
Algumas vezes ele dizia "Queria que voc� filmasse
uma garrafa de �gua mineral ao lado da mesa com uma lente de 75 mm."
Eu respondi "Isso n�o serve para nada"
"Voc� sabe disso.
"O que voc� obt�m com uma 75 se a c�mera est� a 80 cm
"ou se ela est� a 120 cm."
Mas ele precisava confirmar.
Ele via tudo em grande estilo.
Nisso foi muito criticado, na Nouvelle Vague, por ser muito meticuloso,
por planejar tudo no roteiro.
Era esta a principal cr�tica dos grandes cineastas.
Voc� tem que improvisar. Esta era a palavra de ordem.
Hoje � cinema de autor.
Cada gera��o tem sua pr�pria...
Ele tinha uma frase sobre isso. "Eu improviso sobre o papel."
Ele estava fascinado com "Oito e Meio" do Fellini,
que tinha sacudido o cinema na �poca.
Especialmente os cineastas da gera��o de Clouzot,
que faziam um cinema, n�o tradicional,
mas um certo tipo de filme.
E que de repente se encontravam diante de um fen�meno extraordin�rio,
o nascimento de um cinema totalmente diferente.
Penso que com Inferno
Clouzot queria fazer outro tipo de cinema.
Odette.
Odette!
Mr Martineau estava justamente me mostrando seus slides.
No escuro?
� verdade que est� escuro.
Mas com esse aparelho n�o precisa de luz.
Voc� sabe que horas s�o?
N�o. 8? 8.05?
8.20.
Como passou depressa!
Te esperamos para o jantar.
N�o se irrite. Estou indo.
� uma hist�ria de ci�me n�o muito interessante.
Penso que o filme n�o teria interesse
somente se os famosos testes
tivessem levado ele a algo totalmente novo, algo extraordin�rio,
um novo modo de tratar as imagens, de filmar,
um novo universo pl�stico.
Na �poca era muito "in"...
IRCAM, Boulez,
a m�sica eletro-ac�stica, op art...
Tudo isso era o ambiente dos anos 60.
Fal�vamos muito disso.
Come�amos como um pequeno grupo.
Havia, Winding, eu.
Talvez um assistente... Poucas pessoas.
Come�amos filmando uma exposi��o no Museu de Artes Decorativas
chamada novas formas.
Havia Yvaral, Vasarely e outros. Era sobre arte cin�tica.
O filme conta a hist�ria de um homem
que tem fantasias, � patologicamente ciumento,
E pensa que sua mulher o trai com qualquer um, homem ou mulher.
Cada vez que ele pensa que sua mulher o est� traindo,
ele tem crises de ci�mes
e o universo exterior se deforma.
O que era necess�rio era achar um jeito de deformar este universo.
Instabilidade... Gost�vamos dessa palavra.
Era exatamente o quer�amos capturar.
O desconforto visual
de pessoas observando algo
e o questionamento da l�gica visual.
Ele prop�s
a Jean-Pierre, Yvaral e a mim mesmo,
que recri�ssemos certos elementos no est�dio.
E rapidamente, essa representa��o dos objetos no est�dio
se transformou numa demanda de pesquisa,
para criar efeitos espec�ficos para o filme.
Marcel Prieur perde suas refer�ncias visuais e espaciais.
Mas o ci�me obsessivo distorce tamb�m sua percep��o de sons.
Como Clouzot planeja explorar
o universo sonoro da loucura de seu her�i?
� com Jean-Louis Ducarme, numa pequena caixa,
que um som original foi encontrado.
30 minutos de testes, que nos falam e contam um hist�ria.
O que ela v� nele?
Em Mar�o de 1964,
Clouzot faz seus primeiros testes de grava��o.
Com ele estava Ducarme, um jovem engenheiro de som,
do servi�o de pesquisa de uma r�dio p�blica,
e Gilbert Amy, um dos papas da m�sica eletro-ac�stica.
Ele me disse
"Tenho um projeto ambicioso de um filme,
"no qual quero que a m�sica, n�o somente, mas tamb�m o som,
"esteja n�o somente em primeiro plano, mas seja o condutor do filme."
"Isto �, come�amos com os sons, vozes,
"para chegar � proje��o, � filmagem do visual.
"E eu quero que voc� pense
"como trabalhar, como compositor,
"na manipula��o de vozes principalmente."
Claro que ele me explicou o projeto do filme,
o tema do ci�me, etc.
E o fato que a mente escuta vozes.
A mente do personagem principal, interpretado por Serge Reggiani,
escuta vozes que o lembram,
que mant�m o fen�meno de um ci�me m�rbido, patol�gico.
Sua ferida abriu novamente.
� sua ferida que est� aberta.
O que voc� pensa? Sua ferida aberta.
Voc� come�ou a imaginar coisas. Olhe.
Olhe.
Vai...
N�o tenha medo. Mostre alguma coragem.
Como voc� v�...
Ela est� aqui, aqui...
Aqui, aqui, aqui...
Essas agress�es sonoras s�o frases deformadas.
Ele come�a a multiplicar suas suposi��es.
E ele as multiplica tanto,
que ele repete muitas frases
das coisas que ele viu no seu cotidiano,
ou supostamente viu, mas realmente imaginou.
E essa progress�o
na complica��o de sua tortura mental
� traduzida na pr�tica pela sobreposi��o de vozes,
como quando um m�sico escreve uma fuga.
Tem a primeira voz, a segunda voz, ent�o o contraponto.
E quanto mais o tempo avan�a na hist�ria do filme,
mais isso toma dimens�es monstruosas.
No in�cio � somente balbuciado,
invertendo s�labas como na g�ria.
Mas isso cresce
e se torna totalmente incontrol�vel.
Se voc� est� nesse estado,
pegue umas f�rias e v� a um psiquiatra.
� mais ou menos isso.
Ent�o... Isso talvez o excita?
Brincamos de casinha agora.
A gente faz juju, nen�, kiki, papa, kiki...
Puta!
HumHum, ele � casado.
Todas as raz�es para ser corno.
Deixe ele excit�-la, passe suas m�os sobre ela todinha.
Eles n�o deixam tra�os, nem impress�es digitais.
Somente um momento, como uma lembran�a.
Espere, tenho minha chave.
� voc� que tinha que ser preso.
Dupla pris�o. Ei, puta.
Safada.
Nada.
Voc� est� salva.
N�o pense, se acalme.
Tudo est� em ordem.
Se acalme. N�o pense.
Calma...
Ok, da pr�xima vez a gente pega um t�xi.
- Odette. - Sim?
Voc� acha que est� exagerando?
Por que? Ele me paquera, Eu aproveito.
- Voc� pagou a gr�fica? - Sim, depois do almo�o.
Ele telefonou �s 3 perguntando pelo seu cheque.
Como eu disse, Eu passei l� depois do almo�o.
- Voc� ficou na sua m�e at� as 3? - Mam�e? Quem falou de mam�e?
Voc� n�o almo�ou com ela?
Ela tinha um aluno. Uma hora de escala, obrigado.
Passei na Marylou, Comemos rapidamente no mercado.
Voc� tinha clientes durante esse tempo?
felizmente, n�o tinha ningu�m.
at� as 3?
N�o perco meu tempo olhando o rel�gio.
Espera um segundo...
Voc� est� com ci�mes!
Ci�me...
N�o te culpo. Pelo contr�rio.
mostra que voc� se preocupa com sua mulher.
Bonita, n�o?
Deve ser cara.
Adivinha.
� de crocodilo... Deixa ver... 80? cem mil?
Voc� est� doente.
Onde eu iria arrumar 80 mil?
Ent�o quanto voc� pagou?
Quando voc� se fixa numa ideia!
Menos de 20 mil. Impressionado?
Certamente.
Mar�o 1964.
Clouzot e sua equipe se instalam durante alguns dias num est�dio em Boulogne
para o primeiros testes de c�mera.
Testes que tomaram de fato v�rios meses.
Quando a gente come�ou com estes testes,
com um pequeno or�amento pois �ramos poucos,
A gente come�ou n�o para fazer um filme como esse.
N�o me lembro exatamente quando,
mas um dia n�s vimos chegar
5 ou 6 pessoas dos EUA.
Eram os diretores da Columbia
e eles pediram para ver os primeiros testes.
Depois dos testes, depois de ver os testes,
eles disseram "Or�amento ilimitado".
Foi a� que o filme tomou uma dimens�o enorme que n�o estava prevista.
Eu cheguei nessa coisa totalmente delirante,
que foram os testes de Clouzot.
Foi chocante para mim...
tendo trabalhado em filmes franceses
do tipo mais convencional e tradicional,
Para entrar
num mix bizarro
onde havia todos os elementos do cinema tradicional,
com o melhor c�mera da �poca e os t�cnicos mais capazes,
que estavam todos ocupados fazendo coisas absolutamente bizarras.
E imediatamente ficou claro para mim
que eles n�o tinham ideia do que estavam fazendo.
Ele partiu para um mundo de testes
que era completamente novo para o cinema franc�s.
O mist�rio. E quando h� muito mist�rio, h� ironia.
Quando as pessoas n�o entendem,
eles preferem ironizar em vez de tentar entender.
Mas � verdade que foi bem intrigante.
Era esperado algo de excepcional.
Com Clouzot, s� poderia ser excepcional.
O que � interessante em Inferno
e o que faz dele, se n�o um projeto �nico,
pelo menos um rar�ssimo projeto na hist�ria do cinema
os recursos, o dinheiro,
n�o estava l� para fornecer 100 mil cavaleiros,
e construir grandes cen�rios.
Novamente, era um filme pequeno de certo modo.
Era para lhe dar, dar ao criador,
Clouzot neste caso,
a possibilidade de experimentar livremente,
de tentar diferentes ideias, ver se elas funcionam ou n�o.
Havia outra coisa.
Num certo momento do filme,
ele v� sua mulher no lago,
num bote com algu�m.
Ele pensa que h� uma hist�ria com esta pessoa.
E a realidade muda.
O lago, que � normalmente azul, se torna vermelho-sangue.
Isto cria uma imagem realmente surpreendente.
Hoje, � f�cil criar um efeito assim.
Na �poca, n�o havia esses truques de laborat�rio,
ent�o usamos a invers�o de cores.
Gravando normalmente no filme
o lago azul se tornar vermelho.
Mas o resto tinha que permanecer normal.
Que significava maquiar os atores em cinzas-esverdeado,
para que, uma vez invertido, eles voltem a ser r�seos.
Foi necess�rio encontrar todas as roupas em cores complementares
para que uma vez invertido, elas tivessem cores normais.
Era um trabalho herc�leo.
N�s t�nhamos raramente a ocasi�o de fazer testes como esses.
Normalmente faz�amos somente testes de c�mera, e era tudo.
Neste caso, pod�amos fazer testes,
gravando em filme e vendo o resultado.
E era formid�vel.
Em Inferno, as cenas cotidianas eram filmadas em preto e branco,
e as vis�es e fantasias de Marcel filmadas em cores,
as cores improv�veis da loucura.
Para produzir o que ele chamava de "imagens shock",
Clouzot podia contar com dois t�cnicos excepcionais:
Claude Leon, diretor de fabrica��o do Lab LTC,
que n�o hesitava em parar tudo para fazer seus testes enigm�ticos de impress�o.
e Michel Deruelle, respons�vel da maquiagem,
que experimentava formas in�ditas:
atores cobertos de paet�s ou azeite,
batom azul, maquiagem multicolorida.
N�s trabalh�vamos numa liberdade total.
Clouzot deixa a gente fazer o que a gente quer.
vem nos ver de vez em quando.
Simp�tico.
gentil, um pouco sarc�stico, algumas vezes,
principalmente de bem.
e ent�o, quando os objetos estavam prontos,
sem que ele nunca tenha dado uma data precisa para t�rmino,
ou uma urg�ncia particular para algo,
ele os testa e a gente os experimenta.
N�s t�nhamos a sensa��o
que ele n�o entendia o que est�vamos fazendo nem porque.
e ele tinha a impress�o que
a gente podia ir muito mais longe, e que, nossa parte, ficava aqu�m do poss�vel.
Ent�o, havia uma tens�o
por�m, nada compar�vel � tens�o pela qual passavam os atores.
Dezenas de latas com testes de cor,
vis�es e obsess�es enigm�ticas, nenhuma expl�cita no roteiro.
Por dias sem fim, no calor dos cen�rios de Boulogne
Clouzot procura integrar seus atores em estranhas imagens cin�ticas.
Percebemos que Clouzot tinha uma vis�o muito particular
dos objetos expostos
Me lembro
que havia uma obra feita de tri�ngulos que vinham em nossa dire��o.
Havia uma d�zia de tri�ngulos assim, completamente modernos.
E rapidamente, na conversa,
enquanto Winding fazia a luz, Clouzot dizia,
"N�o, Andreas, assim n�o d�, a coxa esquerda na sombra."
Ele via, realmente, outra coisa, muito sexual
em coisas que, aparentemente, n�o eram.
Eu tinha me tornado, na �poca... me lembro, isso me fez rir.
o especialista do coito �tico.
Ele me fazia usar o zoom, cada vez mais acelerado,
cada vez mais acelerado, como um orgasmo, para chegar no orgasmo final.
N�o sab�amos para que, essa quantidade de testes serviria.
Toda noite nos encontr�vamos para ver as provas,
e fic�vamos fascinados, maravilhados por tudo,
ou curvados de tanto rir,
porque tinha dado tudo errado, o que acontecia muitas vezes.
Mas esta acumula��o de pesquisa, em dire��es diversas
nos parecia uma esp�cie de reservat�rio
no qual ele poderia intervir no momento certo para construir algo.
Junho 1964.
Fim dos testes.
Milhares de metros de experi�ncias
e uma estrela, Romy.
Clouzot via nela a mulher sensual que assombra os pesadelos de seu marido ciumento.
Por Clouzot, Ela aceitou tudo.
Decidiu confiar nele at� o fim,
como em nenhum outro diretor anterior.
Durante os testes, percebi
que Clouzot era o diretor mais dif�cil que tinha encontrado.
Dif�cil n�o num sentido negativo, esse homem nunca est� satisfeito.
Ele � um perfeccionista. Ele quer que cada tom, cada luz ou gesto
seja exatamente, at� o menor detalhe como ele tinha imaginado.
Eu me perguntava, como suportar 18 semanas de filmagem com Henri-Georges?
6 de Julho 1964.
A filmagem come�a em Garabit no Cantal.
Uma loca��o ideal: um hotel remoto, um lago, uma ponte,
e, � claro, trens.
Ap�s alguns dias, o pequeno hotel tur�stico muda de face,
e o ambiente � bem menos familiar.
Com a equipe,
reunida em volta de Mario David, Bernard Paul e Dany Carrel,
h� divers�o e muito trabalho.
A imprensa local anuncia a chegada de estrelas do cinema,
todos v�o morar l�, no Hotel Garabit.
Ap�s semanas, decoradores e e equipes de constru��o est�o no trabalho.
O Hotel Garabit se torna o Hotel do Lago.
4 semanas foram previstas para as sequ�ncias de exterior,
antes das 14 semanas no est�dio em Boulogne.
Cada �ngulo foi filmado por alguns segundos, para aprova��o.
Tudo � previsto no detalhe.
Bernard Paul, o primeiro assistente, n�o hesita a atuar como silhueta.
Pois agora, � necess�rio trabalhar bem r�pido.
Dentro de exatos 20 dias, o lago artificial, criado alguns anos antes,
vai ser esvaziado pela Electricit� de France
para suprir a regi�o com eletricidade.
E depois nenhum take ser� mais poss�vel.
Clouzot era ciente deste problema.
havia outros hot�is, outras linhas de trem ao lado de outros lagos
Mas este era o cen�rio dos sonhos de Clouzot.
Ent�o ele vai r�pido, com todos os recursos necess�rios.
Mas aqui vemos um trem, todos dias � mesma hora,
que faz rosnar a estrutura em metal da ponte.
�nibus de turistas que passam, e sempre este barulho irreal,
que dispara � cada vez que passa, a crise de ang�stia e ci�mes de Marcel.
Essa filmagem tomou propor��es realmente Hollywoodianas.
3 equipes de c�mera,
e n�o qualquer uma.
Armand Thirard,
que tinha feito Quai des Orf�vres, Retour � la vie, Manon...
Sal�rio do Medo.
Claude Renoir, que tinha feito O Mist�rio de Picasso.
Andreas Winding.
O grande c�mera Florent Dumaitre.
Ele chegou a trazer Louis N�e,
que era o velho c�mera de Thirard.
N�e tinha sido o c�mera do "Joana D'Arc" de Dreyer.
O cham�vamos de "mil�metro da moldura".
Cada c�mera tinha uma equipe completa.
C�mera, primeiro assistente, segundo assistente.
assistente de m�quinas, e mais dois ou tr�s assistentes, eletricista.
Era um ex�rcito, sem mencionar os figurantes e tudo mais.
N�o consegu�amos comer todos juntos.
Era necess�rio dividir em dois grupos, pois havia gente demais.
Recebeu o correio?
Uma carta de meu irm�o.
Onde ele est� agora?
Na Alemanha.
Alemanha?
Guardo os selos para o filho da minha costureira.
- Voc� vai sair? Para onde? - Para casa da mam�e.
De novo?
Eu j� te disse, ela est� doente. Eu prometi ajud�-la.
Voc� me disse?
Realmente o doutor tem raz�o. Voc� tem que se tratar.
O meu �nibus! Diga-lhe que estou indo. At� mais.
Eug�ne, espere minha mulher, ela est� chegando.
De qualquer forma, que coragem!
Escrever para ela no meu hotel.
Imagino...
N�o estou louco, menina.
Ah n�o...
N�o estou louco.
N�o estou louco... ah n�o, menina, n�o estou louco
n�o estou louco, n�o estou nada louco.
Nem um pouco louco!
Mete isso na sua cabe�a. N�o sou nem um monstro, nem um louco.
Nem sou um monstro...
Nem louco.
Ent�o, o que aconteceu de fato no Hotel Garabit?
Alguns personagens fechados num hotel, num vale,
um filme de ambi��o enorme,
e uma equipe que compreende cada vez menos o que se passa.
Na realidade, como na fic��o,
os elementos de um estranho huis clos come�am a acontecer.
Todos n�s que est�vamos pr�ximos dele,
os diretores de fotografia, os c�meras,
todos que devem ir o tempo todo, nas loca��es ap�s a filmagem,
tinham direito de morar ali.
Eu aproveitei, ali�s, para alugar uma casa a alguns quil�metros do hotel.
Eu disse "Fiquem com meu quarto, eu o deixo de bom grado."
Porque ele tinha o mau h�bito de acordar as pessoas �s duas horas da manh�,
j� que tinha ins�nia, para discutir o plano de trabalho do dia seguinte.
Eu n�o gostava nem um pouco deste g�nero de exerc�cio
Me lembro de uma coisa que me fazia rir.
Ele n�o suportava que as pessoas parassem de trabalhar aos domingos.
Ele queria continuar, mesmo nos domingos.
Ele queria que continu�ssemos a estudar as loca��es.
Clouzot ficava esperando no lobby do hotel e o primeiro c�mera que passasse
e dizia "Vamos dar uma olhada juntos" e eles iam.
Claude Renoir n�o queria.
Percebendo isso, ele ia no toilete onde havia uma pequena janela por onde ele sa�a.
Na �poca Clouzot estava um pouco estranho. Seu assistente ficou louco.
Clouzot telefonava �s 3 da madrugada, quando ele de repente tinha uma ideia.
E como Clouzot tinha ins�nia, ele n�o deixava ningu�m dormir.
Nenhuma das pessoas pr�ximas
fazendo o filme com ele, para ele, ao mesmo tempo que ele.
Todos estavam exaustos.
Como ele n�o dormia, n�o queria que os outros dormissem.
Ent�o, quando ele tinha uma ideia,
era preciso estar dispon�vel para tomar notas.
Para ele, dev�amos estar dispon�veis de manh� at� a noite.
Colados com ele. Quando ele acordava, t�nhamos que estar l�.
No caf� da manh�, est�vamos l�.
Colados com ele. �ramos suas coisas.
�ramos seus dedos, sua respira��o.
N�o estou louco, menina. Oh, n�o.
N�o estou louco...
Fixa��o macia, normal ou forte...
No microfone Robert V�dal.
Ontem, a ONU se reuniu em New York
numa sess�o especial para discutir um problema desprezado muito tempo:
�guas territoriais.
Os debates terminaram mais cedo que o esperado...
De New York, Marcel Auffret.
Ontem, a ONU
se reuniu em sess�o extraordin�ria...
Te encontro finalmente!
Ah minha querida, n�o d� para te perder.
- Olhe a cara que fiz. - Minha pobrezinha! Mostre-me, r�pido!
- Olhe! - Como � bonita!
E agora nossos comerciais.
Queda de pre�os das bolsas de crocodilo!
Um presente de amor. Uma bolsa para um par de...
Doure uma grande quantidade de cebola...
Para temperar mais forte, se pode dourar meu amor...
A tarde de ontem passou como um raio.
Talvez n�o tenha a apar�ncia de confeito, mas o caramelo...
Aten��o, habitantes de Barbezieux!
Um envelope contendo um chaveiro
foi perdido na rua principal da cidade.
Esse envelope n�o possui nenhuma identifica��o.
Evidentemente. De qualquer forma, que coragem!
Escrever para meu hotel.. Imagino...
O endere�o foi escrito por uma mulher...
Ele pediu � secret�ria para escrever o endere�o.
Como ele � esperto!
A amiga est� l� para arrumar tudo.
A comida. O �libi infal�vel.
Marcel?
O que voc� est� fazendo aqui?
Voc� est� vendo... Espero mam�e.
Telefonaram do Cr�dit Hotellier.
Cr�dit Hotellier
N�o � perto daqui. Onde est� o carro?
Na Joana d'Arc.
Na rodovi�ria
T� bom.
N�o � poss�vel. Voc� est� me seguindo.
Por que eu te seguiria?
Dif�cil de dizer porque uma filmagem d� errado.
O filme avan�a, mas lentamente.
Apesar de um calend�rio apertado, Clouzot gasta horas em algumas cenas,
refazendo indefinidamente alguma sequ�ncias.
Ele � cada vez mais detalhista.
Ele parece ansioso, nervoso.
Suas 3 equipes est�o prontas. Sempre prontas...
Mas prontas para qu�?
Em princ�pio, podia ser inteligente.
Poderia funcionar.
Mas na pr�tica, foi catastr�fico.
Teoricamente, tem uma equipe n�mero 1
preparando o plano n�mero 1.
Clouzot est� l�, � claro, para indicar o plano.
E depois, como em todos os filmes, � necess�rio preparar.
Ent�o, durante a prepara��o, ele ia ver a equipe n�mero 2.
E com a equipe 2, ele arrumava o plano n�mero 2.
Exceto que na pr�tica,
Ele ia de manh� ver a equipe n�mero 1 e ele n�o se mexia.
Ele n�o tinha vontade de ver os outros. Ele queria ver a prepara��o,
e os outros n�o faziam nada. Eles esperavam e n�o tinham nada a fazer.
Porque eles nem sabiam o plano que tinham que fazer.
Foi assim quase todos os dias.
Penso que ningu�m compreendia
porque este filme mobilizava tantos recursos
e finalmente n�o chegava a nada.
Havia sempre um elemento que nos fazia parar,
e isto tomava um longo tempo sem chegar a um resultado.
me lembro que a equipe chegava �s 7, 7:30 da manh�.
Todo mundo estava l�,
e frequentemente fic�vamos at� 10 da noite.
Esperando ou mudando uma cena.
� estranho. Eu que o tinha conhecido eficaz.
Quando a gente v� Quai des Orf�vres,
� um filme feito com uma incr�vel precis�o.
Nada est� fora do lugar.
� realmente de joalheria.
mas agora,
ele ficava longos minutos ao lado da c�mera.
Ele parecia um pouco perdido.
Marcel, o que est� acontecendo?
O que aconteceu com voc�?
Um acidente? Voc� est� doente?
Responde. � grave?
Estou bem, deixe-me.
De onde voc� veio?
N�o faz assim. Voc� me d� medo.
Posso te ajudar?
Marcel...
Minha pobre Odette. Eu sei de tudo. Vi voc�s, Martineau e voc� no rio.
E ent�o?
Estou cansado. N�o quero falar.
Eu segui voc�s! Basta. Basta?
N�o?
Quando voc�s desceram na ilha, foi para brincar de castelo de areia?
Foi por isso que voc� partiu como um louco, sozinho?
Foi por isso que tremi o dia todo e voc� ficou doente de tristeza?
Claro, descemos na ilha. Fui descansar, percebe?
- Deitada na grama? - N�o, em p� numa perna s�!
Olha para mim, imbecil.
Voc� n�o v� que te amo?
Que sou tua mulher?
Olhe meus olhos, s�o bonitos, n�o?
� culpa sua. Foi por causa de voc� que chorei a tarde toda.
Me dizia...
"O que fa�o sem ele, se ele n�o volta? Se algo lhe acontece?"
Teria terminado para mim tamb�m. Tinha decidido isso.
Odette...
Me deixa!
Voc� n�o me ama mais.
Se n�o te amasse, n�o estaria aqui.
Eu tamb�m quis morrer.
Meu querido.
De verdade?
Voc� pensou isso?
Isto te machucou tanto?
Acabou.
Acabou.
Nunca mais.
Me prometa, Marcel.
Meu cora��ozinho.
Me abrace. Mais forte.
Mais perto.
Romy Schneider era uma grande estrela.
Uma "vedette" como se dizia na �poca. Ele tinha um forte car�ter.
Al�m disso, os atores chegavam um pouco tensos
pois Clouzot tinha a reputa��o
de ser duro com os atores.
Diziam que ele era c�nico, que ele torturava.
Isto era parte de sua marca.
Ele queria que suas ideias passassem pelos atores,
e que os atores traduzissem e interpretassem suas ideias.
O que nem sempre era f�cil,
especialmente com personalidades fortes como Reggiani,
que tinha uma vis�o pessoal de seu personagem
e do personagem que lhe tinha sido proposto.
Reggiani estava de p� atr�s com Clouzot.
Ele brincava o tempo todo, o que desesperava Clouzot.
Ele estava perpetuamente em rea��o
e a gente sentia que sua ideia era
"N�o vou ser sacaneado, N�o vou ser sacaneado por Clouzot".
"Conhe�o a Clouze", como ele o chamava,
"e n�o vou ser sacaneado."
A rela��o entre Reggiani e Clouzot era um pouco tensa.
N�o sei o que era, mas eles tinham algo a acertar.
Ele o fazia correr atr�s de uma c�mera num carro, por quil�metros, o dia inteiro.
Ele n�o aguentava mais.
Se voc� faz isso com um ator n�o o faz fazer 10 vezes,
faz-se um teste com ele e est� terminado.
mas ali, ele o esgotou. Ele estava realmente esgotado.
Ele leva ao excesso de tal modo que as pessoas...
Ou elas desmoronam ou...
Se elas desmoronam, ele fica contente.
E diz "Bom, vamos filmar!"
Inferno, 390A, take 7.
Estou com ci�mes.
Ci�mes.
Ci�mes de quem? De qu�?
N�o sei, mas isso me mata.
algumas vezes, sinto como se estivesse saltando pela janela.
A gente n�o pode continuar assim a noite toda.
Se voc� n�o quer ser razo�vel, eu o serei pelos dois.
Te incomoda se eu for na cidade?
T� bom... N�o vou mais.
Nunca mais?
Nunca mais. Se sente melhor agora?
Sim.
Claro, agora � tarde demais.
O que est� feito, est� feito.
mas o que eu fiz?
Por que me pergunta? Na ilha, onde voc�s estavam comendo docinhos?
J� te disse, estava cansada, descansei.
Voc� descansou por meia hora?
5 minutos.
Mentira. Voc�s sa�ram 11.30. Cheguei �s 12. Voc�s tinha acabado de levantar.
- Levou tempo para voltarmos. - Com um barco a motor?
N�o paramos na ida, mas na volta. Pela �ltima vez,
Sa�mos �s 11.30. Fomos at� a barragem.
Paramos na volta porque meus bra�os estavam cansados.
Foi para descansar os bra�os que voc� rolou na grama.
Eu tinha acabado de deitar quando o sino tocou.
Voc� mente. Estou cansado de suas mentiras!
Agora voc� vai me dizer a verdade. Diz, agora!
T� bom, dormi com Martineau.
N�o somente na ilha, em todo lugar!
Na casa dele, no carro, na cama dele, na sua cama.
Quando voc� estava no mercado.
A gente nunca fica satisfeito.
Ent�o. Feliz agora?
Henri-Georges gritava, claro.
Serge nunca gritava.
Ele ia embora.
Romy gritava e Henri-Georges tamb�m.
Ent�o isso criou...
Quando os dois gritavam, n�s, espectadores sab�amos.
Quando Henri-Georges gritava com Serge, sab�amos.
Mas quando Serge ia embora, a gente n�o sabia o porqu�.
A medida que Clouzot se isola e refaz seu filme constantemente,
as equipes suportam cada vez menos o ambiente de trabalho.
Christian de Chalonge, um dos primeiros assistentes,
um figura-chave da produ��o,
� incapaz de acompanhar o ritmo de mudan�as constantes.
Ele deixa repentinamente a produ��o.
A filmagem fica atrasada, muito atrasada.
� absolutamente necess�rio acelerar o ritmo.
Pois o lago vai ser esvaziado em alguns dias.
Mas Clouzot n�o entende isso.
Ele continua a refazer os di�logos e cenas j� filmadas.
E, apesar da incompreens�o geral,
sua dire��o dos atores fica cada vez mais exigente.
Quando se faz um filme,
n�o se pode escapar totalmente � no��o de produtividade.
� imposs�vel.
A gente se dizia "Ele quer realmente terminar esse filme?"
Clouzot estava sozinho. Ele conduzia tudo sozinho.
No roteiro est� registrado "escrito, dirigido e produzido por..."
Ele era o arquiteto de todo este empreendimento.
O que faltou nesse filme o tempo todo foi um produtor.
N�o quero dizer um produtor como um vigilante,
mas um produtor como algu�m a quem falar,
a quem se confrontar, algumas vezes com quem se contrariar.
Porque sen�o a gente parte da loucura, do sem limite.
E n�o sabemos muito bem o que estamos buscando.
Vamos...
Se acalme...
Voc� est� no seu quarto...
Seguro...
Nada aconteceu...
Nada...
N�o acredito...
N�o � verdade...
N�o � verdade...
N�o � poss�vel...
Precisamente...
Detalhes... Precisamente...
Se acalme.
Eles querem explica��es.
Detalhes... Por que? Como?
Em 20 de junho, a equipe acorda e fica sabendo da partida de Reggiani.
Sofrendo de dores ap�s alguns dias,
Ele foi embora da loca��o na v�spera, para nunca mais voltar.
Dizem que � Brucelose.
Tudo deve ser refeito,
e Clouzot tem que encontrar outro ator e r�pido.
Foi no fim de uma filmagem.
Fim da tarde.
Devia ter sido...
algo que estava cozinhando desde o in�cio,
sejamos claros.
Mas nesse momento foi certamente mais forte.
E Serge disse que n�o estava l�
para ser insultado e ouvir os gritos de man�aco esquizofr�nico,
e que ele partia e n�o tinha nada a perder.
Clouzot tentou um processo.
Reggiani dizia "Foda-se." Foi assim.
Ele tinha uma doen�a misteriosa,
o que n�o espantou ningu�m que estava com Reggiani.
E as pessoas diziam tamb�m que ele estava t�o tenso,
Ele tentava se proteger, antes que algo acontecesse,
Ele tinha tanta preven��o contra Clouzot
que isto provocou uma rea��o nervosa.
Eu n�o sei qual � a boa teoria brucelose ou semi-depress�o.
Ele tinha conscientemente aceitado o risco de pesquisar,
mas de pesquisar com 100 pessoas junto com ele.
O que era uma empreitada muito corajosa, mas muito arriscada.
Todo diretor conheceu esta experi�ncia
que faz que de repente n�o sabemos o que fazer.
Toda a equipe em volta.
Porque as pessoas te amam e te respeitam. Eles esperam, t�m confian�a.
Dizem "Ele vai encontrar." Mas estamos sob press�o.
Ele deliberadamente se p�e em perigo.
Para substituir Serge Reggiani,
Clouzot traz Jean-Louis Trintignant � Garabit.
Um encontro fugaz. O que aconteceu entre eles?
Depois de alguns dias, Trintigant vai embora sem ter filmado um �nica cena.
Ent�o, durante alguns dias ainda,
cada noite Clouzot escreve novas cenas e imagens
para os atores dispon�veis.
Novas vis�es.
Novos pesadelos para Marcel.
O importante � filmar. Filmar at� o fim.
Algumas imagens ainda.
Clouzot estava filmando uma cena num barco,
um pequeno barco no lago.
havia duas mulheres, acho,
Dany Carrel e Romy Schneider.
Era uma cena em que as duas se beijavam.
Ele estava l�, fumando seu cachimbo.
Est�vamos muito perto, 3 ou 4 metros.
E de repente as pessoas correram.
Clouzot tinha tido um infarte.
Chamamos uma ambul�ncia e ele foi para o hospital.
Foi muito r�pido.
Tenho o sentimento que era a opini�o geral
num jantar que tivemos em St Flour.
V�rios atores estavam l�, inclusive Romy Schneider.
Ela falou uma teoria...
que tinha ca�do bem, que n�o dava para continuar.
As coisas estavam indo mal.
Ele me ensinou o que outros diretores tinham me ensinado antes e depois.
� preciso ir ao limite de sua loucura.
� preciso ter responsabilidade at� o fim.
Num certo momento, todos se perguntavam "Onde ele quer chegar?"
"Ele vai direto para uma parede."
� o momento onde � preciso saber continuar.
N�o acredito muito em inspira��o.
Acredito que existe um trabalho cotidiano
e que de tempos em tempos as ideias v�m ou n�o.
mas � exatamente como uma semente que plantamos no solo.
cada manh�, regamos e ela cresce o que quiser.
E tamb�m n�o acredito que adianta puxar as folhas para que ela cres�a mais r�pido.
Pois ela tem ra�zes, e � tudo!
Em 1968 Clouzot fez um �ltimo filme, A Prisioneira,
no qual ele experimenta de novo a arte cin�tica.
Ele morreu em 1977 e permanece um dos grandes da hist�ria do cinema.
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