All language subtitles for ReMastered S01E06 The Miami Showband Massacre

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Original subtitles

UMA S�RIE DOCUMENTAL ORIGINAL NETFLIX

IRLANDA DO NORTE, 1975

Chamamos "Tumultos" aos 30 anos de conflito na Irlanda do Norte.

Nesse per�odo, morreram cerca de 3700 pessoas

e mais de 40 000 ficaram feridas.

Como consequ�ncia,

uma gera��o de adolescentes cresceu sem desfrutar das divers�es

que s�o garantidas a crian�as de outros locais.

Por isso � t�o importante que sobreviva algum tipo de entretenimento.

� poss�vel que muitos sal�es de baile tenham de encerrar,

devido ao que aconteceu ao grupo mais popular da Irlanda.

Esse grupo esgotava qualquer sala, a norte ou sul da fronteira.

Chamava-se Miami Showband.

Bem, eu escovo os meus sapatos

Esqueci os meus Blues num dia de trabalho

E fiz-me � noite

Os Miami Showband eram a banda mais charmosa da Irlanda.

Muitas vezes, n�o ouv�amos a m�sica, s� ouv�amos gritos.

Andando no meu carro Brilhando como uma estrela

Sinto que as coisas...

Parec�amos sardinhas em lata, nem nos importava se nos mago�ssemos.

Quando entr�vamos, fic�vamos s� com um p� no ch�o.

Eram as nossas superestrelas.

Eu estava absolutamente delirante.

Era o l�der de uma das melhores bandas do mundo.

Os Beatles irlandeses.

BANDA DE COVERS CAI EM ARMADILHA FATAL

Fiquei de rastos.

TR�S MEMBROS MORTOS A TIRO

Porque haveriam de querer fazer mal aos Miami?

Toda a gente adora a m�sica.

O meio das bandas de covers n�o voltou a ser o mesmo.

A m�sica morreu na noite em que eles morreram.

Acha que o ataque aos Miami Showband foi aleat�rio?

N�o acho que foi aleat�rio, acho que eles eram o alvo.

Os irlandeses ficaram chocados.

Estou determinado em descobrir quem matou os Miami Showband.

Mesmo que isso me conduza a altos respons�veis do governo brit�nico.

Passaram-se mais de 40 anos, mas estamos prestes a saber a verdade.

Nasci e cresci em South Tipperary, na Rep�blica da Irlanda.

BAIXISTA

Fica a sul da �rea onde come�ou o conflito na Irlanda do Norte,

que faz parte do Reino Unido.

O meu pai era nacionalista.

Ele queria que a Irlanda se unificasse.

� isso que os irlandeses querem.

Mas n�o odi�vamos nem desgost�vamos dos brit�nicos.

O meu pai alistou-se

para combater no ex�rcito brit�nico quando rebentou a Segunda Guerra Mundial.

Eu fui educado a respeitar os militares.

Representavam tudo o que havia de bom.

Jamais suspeitei do estado irland�s

ou do brit�nico.

N�o percebia nada de pol�tica.

Os meus pais testemunharam

o que a pol�tica podia fazer

e ficaram satisfeitos quando escolhi tocar um instrumento

e dedicar a minha vida � m�sica.

- Ol�, rapazes. - Prazer em ver-te.

Como est�s?

Em 1962, 1963, os Beatles conquistaram o mundo.

Ouvi "Love Me Do" na r�dio.

Por isso, com apenas 11 anos de idade,

decidi que ia fazer parte dos Beatles.

Ama-me

Um dia,

um rapaz perguntou-me se queria tocar baixo no grupo dele.

Eu nunca tinha tocado baixo.

Mas pensei: "Se o McCartney toca baixo, ent�o, eu tamb�m posso tocar."

E, assim que lhe toquei,

foi como se me tivessem ligado a uma tomada.

Toquei at� ficar com bolhas grandes nos dedos.

Comecei a melhorar e a perceber o instrumento.

Oh, desce e vem dan�ar

Ao ritmo do rock and roll

Foi assim que comecei.

Desce e vem dan�ar...

Progredi rapidamente.

Nessa altura, o conflito na Irlanda estava ao rubro.

IRLANDA DO NORTE

Carreguem o canh�o!

Mais bombas na Irlanda do Norte deixam as ruas cheias de destro�os.

N�o haver� paz enquanto n�o reconhecerem

que a Irlanda do Norte faz parte do Reino Unido e continuar� a fazer.

Unionistas do Norte, na sua maioria protestantes,

querem que a Irlanda do Norte continue a fazer parte da Gr�-Bretanha.

E os nacionalistas, na sua maioria cat�licos,

querem uma Irlanda unida.

A IRLANDA PARA OS IRLANDESES

Protestantes e cat�licos n�o voltar�o a ser amigos. Agora, h� azedume.

O grupo paramilitar mais forte do lado lealista � a UVF,

a For�a Volunt�ria do Ulster.

Do lado republicano, temos o IRA Provis�rio,

o Ex�rcito Republicano Irland�s.

ATENTADO DO IRA

� medida que aumentou o terrorismo de ambos os grupos paramilitares,

quem sofria mais eram os civis.

Mas, enquanto isto acontecia,

as bandas de covers eram populares

na Irlanda do Norte e na Rep�blica da Irlanda.

Deixem-me ouvir um pouco Dessa m�sica rock and roll

Da forma que escolheres

Essas bandas tocavam as m�sicas populares da altura,

tudo o que fosse dan��vel.

O meio das bandas de covers era incr�vel.

F� DOS MIAMI SHOWBAND

Porque, nessa altura, havia o conflito e aquilo era um escape.

Era como uma terapia vestirmo-nos bem e ir assistir a uma banda.

Na altura, havia muitas bandas destas,

mas o maior espet�culo do pa�s era a Miami Showband.

Tive de fazer uma audi��o,

mas n�o tinha d�vida alguma de que ia ser escolhido.

Estava muito confiante.

Nem sequer sabia o teu nome

VOCALISTA DOS MIAMI SHOWBAND

Eu n�o quiz saber porque estava � procura

Mas estavas destinada Desde sempre a ser a tal

Lembro-me do vocalista, o Fran O'Toole, porque era um �cone.

As raparigas adoravam-no.

As raparigas tinham a fotografia do Fran no quarto e coisas assim.

Chegou mesmo a ser considerado o maior cantor Soul da Irlanda.

Era genial.

FRAN ALCAN�A FAMA INTERNACIONAL

Este programa � o Me and My Music.

� sobre can��es que componho com o meu amigo Des Lee.

O Des era o l�der.

Levava a composi��o a s�rio e colaborava com o Fran.

A m�sica era tudo para n�s.

O meu instrumento principal era o saxofone.

O Brian McCoy era um m�sico muito respeitado.

TROMPETISTA DOS MIAMI

Era um grande trompetista e idolatrava a fam�lia, os filhos e o c�o.

Ray Millar era o baterista.

Era muito divertido e isso notava-se quando tocava.

E o nosso guitarrista, o Tony Geraghty, era um m�sico muito dotado.

Rapidamente nos torn�mos amigos.

Ele olhava para mim, sorr�amos

e p�nhamos algo especial na m�sica. Era uma esp�cie de telepatia.

Viv�amos todos na Rep�blica da Irlanda, em Dublin,

mas �ramos extremamente populares na Irlanda do Norte.

Cometiam-se atrocidades terr�veis.

Mas, no meio de tantas mortes e caos,

�ramos populares em ambos os lados da fronteira,

no norte e no sul, e t�nhamos um p�blico misto.

Ao olharmos para a assist�ncia,

n�o distingu�amos um cat�lico de um protestante.

Tinham o mesmo ar, falavam igual.

Na altura,

eu n�o sabia qual era a religi�o dos membros da banda.

Ray Millar e Brian McCoy eram do norte e eram protestantes.

Os outros membros eram cat�licos.

A religi�o ou pol�tica nunca foram problema.

A �nica coisa que importava na banda

era se toc�vamos bem.

S� isso, a m�sica era a nossa religi�o.

Como todas as bandas de covers da altura,

atravess�vamos a fronteira para norte todas as semanas.

Eu acreditava que os m�sicos eram imunes ao conflito.

Nenhuma banda tinha sido afetada pelos problemas da Irlanda do Norte.

Por isso,

aquilo que nos aconteceu a 31 de julho foi um grande choque.

IRLANDA DO NORTE

�amos tocar no Castle Ballroom, em Banbridge,

que fica na Irlanda do Norte.

DISCOTECA

N�s v�nhamos de Dublin, na Rep�blica da Irlanda.

Cheg�mos ao local.

Estava tudo normal.

E, nessa noite, teriam gritado:

"Clap Your Hands, Stomp your Feet."

Era o grande �xito do Fran.

Bate as palmas

Bate os p�s

Lembro-me de "Clap Your Hands, Stomp Your Feet",

porque est�vamos a um metro do ch�o quando a tocaram.

Foi a loucura! Fic�mos malucos quando tocaram!

Toc�mos a �ltima can��o

e o p�blico come�ou a gritar.

Gritavam: "Mais, mais." N�o se ouvia mais nada.

Quando sa�mos de Banbridge eram aproximadamente 02h00.

Seguiam cinco pessoas na carrinha porque o Ray, o baterista,

voltara para Antrim no carro dele.

E uns dez, quinze minutos depois,

vimos as tochas...

... a mandar-nos parar.

O Brian voltou-se para n�s e disse: "Malta, temos uma opera��o stop."

Quando entr�vamos da Irlanda do Norte, pod�amos ser parados pelas autoridades.

Nessa noite,

mandaram-nos sair da carrinha.

Sa�mos. E fic�mos junto � carrinha.

Vi uns cinco soldados, todos armados com metralhadoras.

Os soldados foram muito simp�ticos, at� brincaram connosco.

Mas, depois, apareceu um homem que parecia ser o respons�vel.

Assim que ele chegou, todos assumiram uma atitude profissional.

Quando falou, tinha um sotaque ingl�s muito distinto,

sofisticado e afetado.

N�o tinha sotaque da Irlanda do Norte.

Quando se era parado numa opera��o stop na Irlanda do Norte,

n�o era normal ouvir-se um sotaque brit�nico.

Para mim, essa voz distinguia-se de todas as outras.

O Brian deu-me uma cotovelada

e disse: "Vamos sair daqui depressa, isto � o ex�rcito brit�nico."

Eu senti-me seguro.

Para mim, um militar era sin�nimo de lei e ordem.

Estavam ali para nos proteger.

Foi ent�o que ouvi soldados a abrir a nossa carrinha Volkswagen.

E, de repente...

A carrinha explodiu, deflagrou um inc�ndio assustador.

Come�aram a disparar, ouviu-se gritos.

Ouviu-se choro. Foi um caos.

E o impacto da bomba que explodiu na carrinha projetou-me por cima da vala

para o campo.

Tudo � minha volta ficou vermelho.

Tudo acontecia em c�mara lenta. Tentei fugir, ouvi disparos.

Os soldados vieram atr�s de n�s no campo

e come�aram a disparar.

Ouvi o Fran dizer:

"Por favor, n�o! N�o disparem! Por favor, n�o disparem!"

Ouvia pessoas aos gritos,

a dizer...

... "De certeza que os cabr�es est�o todos mortos?"

Ouvi uma voz vinda da estrada, com sotaque da Irlanda do Norte:

"Vamos! Matei os cabr�es com dundums. Est�o mortos."

Fui at� � estrada principal.

Parecia uma zona de guerra.

Havia sangue por todo o lado.

E corpos desmembrados.

Chamei o Fran, o Brian e o Tony.

Nenhum deles respondeu.

E o Stephen estava a gemer.

Gritei: "Stephen?

Vou � esquadra de Newry pedir ajuda."

CIRCULAR � ESQUERDA

SERVI�O DE URG�NCIA HOSPITALAR

Na manh� seguinte, fui trabalhar e descobri que tinham feito uma emboscada

aos Miami Showband.

ENFERMEIRA

E que tinham morrido tr�s membros.

Um estava nos cuidados intensivos.

Fui atingido

com uma bala dundum, uma bala explosiva.

Quando me atingiu,

dividiu-se em 16 peda�os dentro do meu corpo.

Fiquei muito mal.

Todo o pessoal estava com receio que ele n�o sobrevivesse.

Est�vamos todos...

... revoltados.

Pedi a Deus que ele sobrevivesse.

Contava que o Brian chegasse �s 02h00.

Adormeci e n�o ouvi ningu�m a entrar.

Por volta das 07h00, o cunhado do Brian telefonou-me.

Disse-me que fizeram uma emboscada a uma banda.

ESPOSA DE BRIAN

E eu disse: "N�o sei, estou com um mau pressentimento."

Liguei a r�dio para ouvir as not�cias das 08h00.

E anunciaram que o Brian morrera.

Quando acordei no hospital,

perguntei como estavam o Tony, o Fran e o Brian.

"Quando os posso ver?"

E s� me diziam: "Alguns est�o bem, outros nem tanto."

Mas tiveram de me dizer que eles tinham morrido.

De todo o dinheiro

Que aqui gastei

FUNERAL DE FRAN O'TOOLE UM DE AGOSTO DE 1975

Eu gastei-o em boa companhia

E todo o mal

Que aqui fiz

Infelizmente, n�o foi para ningu�m sen�o para mim

Ent�o enche-me o copo de despedida

Boa noite e que a alegria Esteja com todos voc�s

FUNERAL DE TONY GERAGHTY

SAL�ES DE BAILE FECHADOS ENQUANTO FAM�LIAS FAZEM LUTO

Na manh� ap�s o massacre,

fui levado para uma sala por agentes da pol�cia

que me pediram que os ajudasse a fazer um retrato-rob� de algu�m

que tivesse participado no ataque.

E havia uma coisa de que me lembrava muito bem.

Sempre adorei o Buddy Holly.

Um dos rapazes tinha uns �culos de arma��o escura e grossa.

E encontraram parte dos �culos na estrada.

Foi assim que apanharam um dos homicidas.

POL�CIA NO ENCAL�O DOS HOMICIDAS

Prenderam dois homens e acusaram-nos de homic�dio.

� medida que ia melhorando,

tomei consci�ncia de que era testemunha.

Est�vamos muito nervosos por termos de depor na Irlanda do Norte.

Mas eu disse ao Stephen:

"Temos de fazer isto pelos rapazes.

Temos de ir a tribunal e ajud�-los a condenar estes tipos."

RELATO SINISTRO DO MASSACRE

Quando vi os homens que mataram os meus amigos,

n�o os reconheci. O Des reconheceu um.

Os familiares dos acusados gritavam-me:

"Um dia, apanhamos-te. N�o importa o s�tio nem o local."

Quando mencionava que, na noite do incidente,

chegou um oficial brit�nico ao local e que ele era o respons�vel pela opera��o,

ningu�m ligava nenhuma.

Diziam sempre que eu estava enganado ou que n�o importava.

Na altura, n�o estava interessado no julgamento. S� queria que acabasse.

Se eram culpados, prendessem-nos. Se n�o eram, libertassem-nos.

Temos dois membros da banda original: o Ray,

o nosso baterista,

e o Stephen, no baixo. S�o dois membros do grupo original.

- E voc�. - Sim, somos tr�s.

Voltar a juntar a banda foi uma grande ingenuidade.

S� quer�amos esquecer aquilo.

Sem tocar uma �nica nota,

os Miami voltaram a ser a maior banda de covers da Irlanda.

Principalmente devido � compaix�o geral que receberam.

Havia ainda mais p�blico.

A histeria.

Eu tinha a sensa��o de que nos iam ver e n�o ouvir.

Era mais voyeurismo do que gosto pela m�sica.

Se os pudessem ver

N�o devia ter voltado. Estava extremamente traumatizado.

N�o demorei muito tempo a recuperar fisicamente.

Era jovem, tinha s� 24 anos.

Mas o que aconteceu marcou-me

e impediu-me de ter uma vida normal.

O nosso manager convenceu-me a permanecer at� ao ver�o.

Estava desejoso de sair da banda.

A Anne e eu decidimos ir para Londres e recome�ar do zero.

Quer�amos viver no anonimato.

Pensei: "Nunca mais terei de me preocupar com isto.

Vou ficar aqui e esquecer aquela noite.

Vou reprimir isto.

Isto j� n�o faz parte da minha vida, � passado."

Vivemos em Londres cerca de 17 anos.

Mas, fizesse eu o que fizesse,

aquilo estava sempre l�.

Enquanto vivemos em Londres, a Irlanda mudara.

Decidimos que era seguro e que pod�amos voltar para l�.

Mas surgiam d�vidas acerca do homic�dio dos membros da banda.

ASSASSINADOS

Pediram-me que depusesse no tribunal de Barron.

Isso sugeria que os respons�veis por aquilo que nos acontecera

n�o eram uns meros rufias.

Talvez valha a pena esclarecer essas d�vidas.

Disse:

"Devo-o aos rapazes que morreram e aos nossos amigos.

E devo a mim pr�prio obter respostas. Esperei muito tempo."

Ent�o, conheci Margaret Urwin,

que se dedicara muito a investigar casos, incluindo o nosso.

Obviamente, os Miami Showband foram um alvo escolhido.

A inten��o era, sem d�vida alguma,

que a bomba os matasse a todos.

Mas a bomba explodiu precocemente.

Foram encontrados os corpos de dois homens junto aos destro�os da carrinha.

Os homens que morreram foram Harris Boyle e Wesley Summerville.

As suas tatuagens identificam-nos

como membros da UVF, For�a Volunt�ria Protestante do Ulster.

BANDA POP ASSASSINADA EM EMBOSCADA DA UVF

Obviamente, conhecia o nome UVF, For�a Volunt�ria do Ulster.

Mas n�o sabia nada acerca deles at� come�ar a minha investiga��o.

Os paramilitares lealistas como a UVF estavam dispostos a tudo...

FOR�A VOLUNT�RIA DO ULSTER

... para manter a uni�o com a Gr�-Bretanha, incluindo matar.

- T�m armas? - Sim.

- E est�o dispostos a us�-las? - Sim.

- J� as usaram? - Sim.

Fizeram muitas deten��es nos dias ap�s o ataque.

MEMBRO DA UVF NO MASSACRE

Dois deles foram condenados: Thomas Raymond Crozier

e James Roderick McDowell.

Que tamb�m eram membros da UVF.

"Mortes como as dos Miami Showband t�m de acabar", disse o juiz,

ao condenar McDowell e Crozier

�s penas mais longas da hist�ria da Irlanda do Norte.

Havia outro nome que vinha sempre � baila.

O bra�o local da For�a Volunt�ria do Ulster, UVF,

tinha sido assumido recentemente por Robin Jackson,

conhecido como "Chacal".

Robin Jackson foi, provavelmente...

JORNALISTA E ESCRITORA

... o maior homicida da hist�ria do conflito na Irlanda do Norte.

Diz-se que Jackson cometeu entre 50 e 135 homic�dios,

pela sua pr�pria m�o ou com o seu bando.

Os reclusos que cumpriram pena com Jackson,

que n�o estiveram envolvidos no ataque, disseram-nos que ele levantava a camisa

e mostrava as queimaduras provocadas pela explos�o da bomba.

Robin Jackson foi chamado para ser interrogado

acerca do massacre dos Miami Showband.

Fui agente da pol�cia durante 37 anos.

DIRETOR DA FOR�A ESPECIAL

Era diretor dos servi�os secretos da divis�o onde Jackson vivia.

Jackson era o nosso criminoso mais procurado.

Foi considerado suspeito de participa��o no massacre

devido ao local do crime,

que foi onde Robin Jackson nasceu,

o facto de ser um dos cabecilhas da UVF,

e ao facto de ser parceiro de Boyle e Summerville.

Mas n�o havia provas circunstanciais nem concretas.

E o Jackson n�o disse nada no interrogat�rio.

N�o ficou detido.

Como eu tinha de saber mais,

falei com dois antigos agentes dos Servi�os Secretos Brit�nicos.

Em meados do in�cio dos anos 70...

EX-OFICIAL DOS SERVI�OS SECRETOS

... estive colocado na Irlanda do Norte.

Era oficial s�nior de informa��o.

Mas, na verdade, fazia parte do departamento de guerra psicol�gica.

Competia-me recolher informa��es sobre como perturbar

as organiza��es terroristas.

Est�vamos perante a��es extremamente violentas.

As pessoas j� n�o se lembram da viol�ncia.

Tinha de recrutar informadores

dentro das organiza��es que nos dessem informa��es,

para combatermos todos os tipos de terrorismo.

Tanto do lado protestante, como do cat�lico.

No final da minha carreira, trabalhei essencialmente para o MI6.

O MI6 � o equivalente brit�nico da CIA nos EUA.

Ou seja, s�o espi�es.

Sab�amos quem eram os respons�veis pela viol�ncia,

qual era a sua motiva��o pol�tica

e aonde queriam chegar.

Est�vamos a monitorizar Harris Boyle e aquele grupo espec�fico

porque sab�amos que eram terroristas.

Robin Jackson, o Chacal, era um rufia emergente na �rea.

Foi assim que chegou � organiza��o.

Acredito que Jackson esteve envolvido no ataque aos Miami Showband.

Os terroristas montaram uma opera��o stop,

vestidos como membros do Regimento de Defesa do Ulster.

Ou seja, pareciam membros do ex�rcito.

O Regimento de Defesa do Ulster era o ex�rcito da Irlanda do Norte.

Os dois homens foram detidos pelo homic�dio dos m�sicos da banda.

McDowell e Crozier eram membros do UDR, no ativo.

Muitos paramilitares lealistas infiltraram-se no ex�rcito local

e usavam as suas armas para matarem pessoas.

Podem disparar tudo de uma vez, mas t�m de ser r�pidos.

TREINO DA UVF

Conseguem avaliar pela press�o no gatilho. Aperta e solta.

Robin Jackson tamb�m pertencera ao Regimento de Defesa do Ulster

no in�cio da d�cada de 1970.

At� 1972, roubaram cerca de cem armas de uma base de reserva do UDR.

Foi gente de dentro da base.

Achamos que Robin Jackson foi um dos que participou nesse roubo.

A pol�cia fez uma busca em casa dele

e encontrou muni��es que ele n�o deveria ter.

Mas deixaram-no em liberdade. Porqu�?

Quase todas as armas

que foram usadas no ataque � nossa banda eram do UDR

ou da pol�cia da Irlanda do Norte.

Todas.

Os oficiais s�niores apressaram-se a negar

que havia envolvimento da pol�cia ou do ex�rcito no ataque.

O OUTRO ACUSADO � THOMAS CROZIER

Depois, Crozier foi acusado.

EX-MEMBRO DO UDR

Major, as pessoas t�m dificuldade em entender

como os homicidas dos Miami Showband entraram para o UDR.

Se... n�o se sabia nada acerca deles,

quando se candidataram,

ent�o, n�o havia como impedi-los de aderir.

Eu seria uma das pessoas que acharia que eram apenas duas ovelhas negras.

Que eram renegados ou excep��es.

Recusava-me a acreditar que houvesse algum conluio.

O conluio � a colabora��o entre grupos terroristas,

o ex�rcito e a pol�cia.

Queria acreditar que o sistema funcionava.

2005 foi um marco importante.

Foi o 30� anivers�rio do massacre dos Miami Showband.

MISSA EM MEM�RIA DOS FINADOS

Volt�mos a reviver tudo,

n�o apenas eu, as fam�lias e os amigos,

mas todo o pa�s, norte e sul.

� dif�cil voltar aqui, hoje.

Ao local onde tudo aconteceu.

Obrigou-me a pensar no que acontecera de uma forma que ainda n�o pensara.

Que est�vamos a lutar pela verdade.

Talvez mais do que a lutar por justi�a.

Senti um dever.

Estava determinado em avan�ar.

BANDA CAI EM ARMADILHA LETAL

E, em 2005, houve progressos.

Conheci Alan Brecknell quando ele estava a investigar

o homic�dio do pai dele, que fora morto pelo mesmo bando

que matou os membros dos Miami.

Foi assim que comecei a colaborar...

INVESTIGADOR

... em 2005, 2006.

A pol�cia da Irlanda do Norte formou a Equipa de Inqu�rito Hist�rico

com o �nico objetivo de obter respostas para as fam�lias...

... para rever cada morte.

Documentos dos Servi�os Secretos foram finalmente divulgados.

Foram encontrados por inspetores da Equipa de Inqu�rito Hist�rico.

Achei que era apenas mais um grupo que queria o meu depoimento.

Afinal, foi extremamente importante.

Foram divulgadas novas informa��es perturbantes

que se centram neste homem, Robin Jackson, comandante da UVF.

Uma das armas analisadas que foi usada no ataque aos Miami,

era um pistola Luger e foi encontrada dez meses ap�s os homic�dios.

Encontraram tamb�m um silenciador enrolado em fita isoladora.

Encontraram impress�es digitais de Jackson no silenciador.

Mas o departamento de an�lise cometeu um erro ao elaborar o relat�rio.

Disseram que encontraram impress�es na fita.

Robin Jackson j� trazia uma desculpa

para haver impress�es dele na fita.

Algu�m o avisara.

H� que fazer a pergunta:

porque � que algu�m da pol�cia deu informa��es a Robin Jackson,

o maior patife lealista da Irlanda do Norte na altura?

O resultado da equipa de inqu�rito entregou-nos a pol�cia de bandeja.

Deram-nos um forte ind�cio.

A equipa de inqu�rito descobriu que o inspetor que interrogou Jackson

fez uma queixa contra agentes que avisaram Jackson.

O relat�rio foi entregue aos superiores e, depois, evaporou-se.

N�o aconteceu nada.

N�o h� registo do que fizeram ao relat�rio, nem das repercuss�es.

E essa n�o foi a primeira vez que ele escapou � justi�a.

Em 90 segundos,

o centro de Dublin ficou devastado.

DUBLIN, IRLANDA UM ANO ANTES

Morreram 33 pessoas e cerca de 300 ficaram feridas.

� a maior atrocidade do conflito at� � data.

Este local j� foi alvo de ataques, mas nada que se compare a este.

Explodiram tr�s bombas em Dublin,

� hora de ponta.

Depois,

cerca de hora e meia depois,

explodiu outra bomba em Monaghan, na Irlanda do Norte.

A atrocidade de 1974...

ANTIGO PRIMEIRO-MINISTRO IRLAND�S

... foi um ano antes do ataque aos Miami.

Um ataque foi em maio de 1974 e o outro foi em julho de 1975.

Sei e estou convicto

de que participantes no ataque aos Miami tamb�m participaram

nos ataques de Dublin e Monaghan.

Os tr�s lealistas principais identificados foram o c�rebro dos ataques.

Harris Boyle, major da UVF,

e um homicida lealista, conhecido como Chacal.

Permitiam que essas pessoas conhecidas cometessem atrocidades.

T�nhamos informa��es e nunca fizeram nada contra eles.

O capit�o Holroyd estranhou

que n�o lhe pedissem para investigar os ataques,

j� que ele era o oficial respons�vel pela �rea onde os suspeitos residiam.

Temos uma lista de nomes a que chamamos "Lista Protegida".

Colin Wallace facultou uma lista um ano antes do ataque aos Miami...

... de pessoas que ele sabia que eram paramilitares lealistas.

E essa lista inclui os nomes de alguns envolvidos no ataque aos Miami.

Colin Wallace pediu permiss�o

para investigar algumas pessoas da Lista Protegida.

Mas nunca lha deram.

Se tivessem detido o Jackson e as outras pessoas da lista,

se os tivessem prendido e acusado de crimes,

n�o teriam matado os nossos amigos.

Na minha opini�o, a UVF tinha grandes liga��es

a membros dos Servi�os Secretos Brit�nicos.

Era o oficial de informa��o mais novo do Minist�rio da Defesa.

Tinha uma folha de servi�o exemplar.

E, do dia para a noite, fui afastado.

Porqu� essa mudan�a repentina?

A �nica conclus�o a tirar � que havia membros de grupos terroristas

a colaborar ou a trabalhar para os Servi�os Secretos Brit�nicos.

Acreditamos que esse dado e outras provas contra ele demonstravam

que Robin Jackson era um agente.

Um agente � algu�m que trabalha para os Servi�os Secretos Militares,

MI5 ou MI6.

Havia um indiv�duo que...

... andava a matar pessoas e era controlada pelo estado.

Na minha perspetiva, o estado era c�mplice.

Eu sabia disso, muitas pessoas sabiam. Mas o que pod�amos fazer?

S� pod�amos avisar o sistema.

E se o sistema n�o nos permite agir, ent�o, n�o fazemos nada.

N�o podia continuar a neg�-lo.

Houve conluio, havia um sistema organizado.

E eu tinha de descobrir aonde chegava.

N�o tenho qualquer interesse em castigar,

mas tenho todo o interesse em mudar o sistema,

porque n�o � correto matar inocentes.

Dificilmente mudo de opini�o.

Mas, quando mudo, nada me faz voltar atr�s.

Quanto mais descobria, mais me apercebia

que havia ali algo �bvio.

O oficial brit�nico que esteve no local.

Comecei a pensar...

Talvez a raz�o pela qual a exist�ncia desse oficial brit�nico tem sido negada

em tantas ocasi�es,

seja porque ele, afinal, � algu�m extremamente relevante.

Depois, quando insisti com a equipa de inqu�rito

que queria saber mais acerca do oficial, disseram-me:

"N�o era um oficial brit�nico.

O McDowell imitou o sotaque brit�nico para o enganar."

N�o fazia sentido nenhum.

Porque � que um homem, que sabia que ir�amos morrer da� a minutos,

haveria de disfar�ar o sotaque?

N�o havia ningu�m de balaclava.

Era rid�culo.

Pareceu-me que a equipa queria que a culpa fosse dos irlandeses.

A equipa foi formada pelo governo brit�nico

e obedecia ao governo brit�nico.

Acredit�vamos que as suas conclus�es seriam justas,

precisas e imparciais.

Mas n�o foram.

Houve um esfor�o concertado para lan�ar qualquer pessoa do norte,

fosse do UDR ou da pol�cia,

aos lobos.

N�o queriam envolver as institui��es brit�nicas.

Quando eu rejeitei isso,

encurralaram-me ap�s uma reuni�o.

Foi muito intimidante.

"N�o sabemos quando come�ou a envolver o ex�rcito brit�nico nisto."

Fiquei preocupado, porque pensei:

"Como provo que andei a falar do ex�rcito brit�nico

e n�o do UDR, nestes anos todos?"

Ent�o, fui para casa e disse � minha esposa:

"Sinto que eles ganharam esta disputa."

E ela resolveu o problema num �pice.

Tinha recortes de jornais

de uma entrevista que eu dei duas semanas ap�s o incidente.

E eu disse, preto no branco, que o Brian McCoy, nosso trompetista,

dissera: "N�o te preocupes, s�o do ex�rcito brit�nico."

Enviei o recorte � equipa e disse:

"Podem rever a vossa conclus�o com base nisto?"

E recusaram-se a admitir que lhes enviei o recorte.

N�o preciso de inqu�ritos para saber que houve conluio.

N�o preciso de inqu�ritos para saber que havia um oficial brit�nico no local,

a comandar a opera��o nessa noite. Disso tenho a certeza.

A equipa de inqu�rito n�o me ia dar respostas acerca do oficial.

Percebi que tinha de procurar outra fonte de informa��o.

As pessoas �bvias, com quem t�nhamos de falar,

eram os detidos, os que cometeram o crime.

Crozier e McDowell.

J� tinham sido libertados, ao abrigo do processo de paz.

Ap�s dois anos de conversa��es, uma gera��o de chacina

e d�cadas de divis�o e azedume, chegou uma era de paz.

Os reclusos que eu e Tony Blair libert�mos,

na sua maioria, receberam penas de pris�o perp�tua,

alguns deles de 40 anos.

Para chegar at� eles,

precis�vamos de permiss�o dos l�deres da organiza��o de que faziam parte,

a UVF, a For�a Volunt�ria do Ulster.

PREPARADOS PARA A PAZ PRONTOS PARA A GUERRA

A UVF n�o vem nas P�ginas Amarelas.

SEGUNDO BATALH�O DA UVF POR DEUS E O ULSTER

N�o podemos pedir � telefonista que ligue para a UVF.

Mas lembrei-me que o Fran O'Toole tinha um amigo

que esteve envolvido no processo de paz, segundo me disseram.

Era uma esp�cie de elo entre a UVF e os governos brit�nico e irland�s.

O Stephen Travers contactou-me.

Lera muito acerca do meu trabalho...

REVERENDO, NEGOCIADOR DE PAZ

... com os paramilitares lealistas.

Achava que eu lhe podia abrir uma porta.

Ele disse-nos:

"N�o poder�o encontrar-se com Crozier e McDowell.

Mas talvez vos consiga reunir com os l�deres da UVF."

Eles dizem sempre que � o n�mero dois da hierarquia.

O nome de c�digo seria "Artes�o".

O Chris telefonou-me e disse:

"Est� um t�xi l� em baixo � nossa espera, vamos ter com o sujeito agora."

Olhei para ele e disse: "O pior que podem fazer � matar-nos!"

Isso pareceu-me perfeitamente l�gico.

Mas isso mostra como eu estava feliz

por estar prestes a obter respostas.

O "Artes�o" sentou-se

e tirou uns apontamentos escritos � m�o, umas oito ou nove p�ginas.

E disse: "Eu sabia que este dia chegaria."

O "Artes�o" disse-me que...

... o plano era que n�s cheg�ssemos a casa, s�os e salvos,

e s� ent�o � que a bomba explodiria.

E emitiriam uma declara��o de que podiam atingir Dublin

e o cora��o da Rep�blica da Irlanda.

Mas o agente que recolheu provas no local disse-me

que o rastilho era de dez a 15 minutos.

A bomba teria explodido...

... e matado os passageiros.

Perguntei ao "Artes�o" pelo oficial brit�nico.

Para ser sincero...

... fiquei surpreendido. N�o negou que esteve l� um oficial brit�nico.

Disse...

"Esse bife correu um grande risco." Foi isto que me disse.

Mas desde ent�o que se fala num nome.

Em 1987, no Parlamento Brit�nico,

discutiram a identidade desse oficial.

Vou ler o que disseram.

Vou citar.

"Tem sido avan�ado

que o capit�o Robert Nairac �, muito provavelmente,

a pessoa que organizou o ataque

que vitimou os tr�s membros dos Miami Showband." Fim de cita��o.

O Parlamento revoltou-se

com afirma��es infundadas de Livingstone acerca da Irlanda do Norte.

Entre elas, a alega��o de que o capit�o Robert Nairac,

morto pelo IRA em 1977,

poder� ter planeado v�rios homic�dios na prov�ncia.

Diga-me, porqu� este insulto gratuito � mem�ria dos mortos?

Quanto mais me envolvia na pol�tica, ia descobrindo coisas estranhas.

ANTIGO MEMBRO DO PARLAMENTO

N�o se sabia ao certo o que se passava na Irlanda do Norte.

Alguns horrores foram levados a cabo por soldados brit�nicos, ilegalmente.

Nairac n�o era um psicopata louco que gostava de matar.

Achava que estava a ajudar a Gr�-Bretanha, a longo prazo.

Julgamos que Robert Nairac fez parte da 14� Companhia de Servi�os Secretos,

um grupo contrainsurgente brit�nico, algo escuso.

Dizem que a voz com sotaque brit�nico

que se ouviu na estrada, naquela noite, era dele.

Foi visto com Jackson.

Foi visto com Harris Boyle, que morreu no local do ataque.

Sabe-se l� quem era Robert Nairac.

Quando o conheci, disse-me que trabalhava para o mesmo oficial do MI6 que eu.

Conheci o Robert Nairac.

Acho que ele era de tal forma entusiasta

que poderia ter sido manipulado pela comunidade dos servi�os secretos.

Mentiu-me acerca do motivo da sua presen�a ali.

Mal recebia informa��es,

realizava opera��es que o Colin e eu achamos, agora,

que passavam por usar as informa��es em conluio com os terroristas.

IRLANDA DO NORTE

As informa��es dos colaboradores do bando indicam

que o capit�o Robert Nairac, da Unidade Especial Brit�nica,

teve um papel essencial no ataque aos Miami.

Foi ele quem entregou a bomba e as armas para a opera��o

no parque de estacionamento deserto deste Cash & Carry em Portadown.

N�o duvido que, se estas alega��es acerca de Nairac forem verdadeiras,

ent�o, ele s� cumpriu ordens.

Temos � de chegar aos espi�es do topo do MI5

que estavam dispostos a autorizar miss�es como esta.

Dispostos a matar inocentes,

pessoas completamente inocentes como os m�sicos dos Miami.

Estamos a falar de trai��o no cora��o do estado brit�nico.

Sou o Excelent�ssimo Michael Mates.

Fui membro do Parlamento durante 36 anos e oficial do ex�rcito durante 20.

MEMBRO CONSERVADOR

Durante quanto tempo acha

que o povo da Irlanda do Norte poder� dizer que � brit�nico?

Enquanto n�s formos vivos e quanto eles quiserem.

No final da minha carreira militar, fui cinco vezes � Irlanda do Norte.

Estivemos muito perto de entrar em guerra...

Teria havido guerra, se n�o fosse territ�rio brit�nico.

E isso era o p�o nosso de cada dia.

As duas comunidades matavam e ripostavam.

Ambas as partes fizeram coisas terr�veis.

E o problema arrastou-se.

E, a tentar ajudar,

estavam os soldados brit�nicos e as for�as de seguran�a.

Est�vamos mais atentos �s atrocidades do IRA do que �s da UVF.

Atiradores do IRA continuaram a disparar tiros espor�dicos.

Neste momento, estamos em guerra com o ex�rcito brit�nico.

Simbolizam algo neste pa�s...

MEMBRO DO IRA

... que � odiado h� s�culos.

O dom�nio do imperialismo brit�nico na Irlanda.

Os soldados brit�nicos perceberam logo quem era o inimigo.

E n�o eram os protestantes.

Era muito raro os extremistas protestantes atacarem os militares.

Pensaram: "Estes sujeitos podem ser muito perigosos,

mas estamos do mesmo lado."

Onde eu vivo, o nosso �nico inimigo � o IRA.

S� o IRA?

Sim, � o IRA,

os atiradores e bombistas.

Permitiram que terroristas protestantes agissem sem grandes restri��es.

Trabalhavam para as for�as de seguran�a

e eliminavam...

... membros que sabiam ou que suspeitavam ser do IRA.

- Quando digo for�as de seguran�a... - Matavam-nos?

Sim, assassinavam-nos.

Os brit�nicos usavam uns habitantes locais contra outros.

Apoiavam o lado que achavam que ia ganhar.

Neste caso, era a UVF.

E usaram-nos para derrotar o IRA.

� isso que os brit�nicos fazem, foi assim que edificaram o seu imp�rio.

Fizeram-no no mundo inteiro.

O ex�rcito brit�nico, a mando dos militares,

come�ou a executar t�ticas claramente excessivas e ilegais.

Mas sei que foram consideradas legais pelas autoridades.

Pelas minhas autoridades e pelos meus pol�ticos.

E as ordens vieram do topo.

Colin Wallace e eu envi�mos uma carta de 32 p�ginas � Sra. Thatcher.

ANTIGA PRIMEIRA-MINISTRA BRIT�NICA

Era uma lista de opera��es ilegais na Irlanda do Norte.

E n�o aproveitaram essas informa��es.

Permitiram que as pessoas envolvidas continuassem a fazer o mesmo.

O governo declarou v�rias vezes

que a Irlanda do Norte faz parte do Reino Unido.

E continuar� a fazer.

A menos que os seus habitantes e o Parlamento decidam em contr�rio.

Ela devia ter intervido e n�o o fez.

Negou ter visto os documentos.

Quando mencionei o assunto dos Miami Showband no Parlamento,

foi um momento bizarro, porque a Sra. Thatcher era imponente.

Tinha uma postura inabal�vel.

Olhava-nos a todos de cima. Mas, quando lhe fizeram perguntas,

ela nem olhou para mim, pareceu curvar-se.

Percebi que, nitidamente, aquele era um assunto sens�vel para ela.

A Sra. Thatcher est� a fazer tudo para impedir a investiga��o

e n�o se podem fazer estas alega��es numa democracia

sem que elas sejam investigadas.

Quanto mais provas via, percebi que o governo brit�nico,

atrav�s do seu ex�rcito,

nos escolheu como v�timas inocentes.

Queriam matar-nos para atingirem o seu objetivo pol�tico.

Fomos escolhidos

porque as autoridades brit�nicas queriam que o governo irland�s...

... fechasse a fronteira.

IRLANDA DO NORTE

Para que o IRA, ap�s cometer uma atrocidade,

n�o pudesse atravessar com facilidade para a Rep�blica, que era mais segura.

Ent�o, decidiram incriminar...

... os viajantes mais inocentes e cr�dulos.

Pessoas que atravessavam a fronteira.

E n�s ter�amos ficado conhecidos

como terroristas que transportavam bombas do IRA.

Quando um governo decide...

... matar os seus pr�prios cidad�os

e matar os cidad�os do seu vizinho mais pr�ximo,

n�o h� como desculpar isso. N�o h� circunst�ncias atenuantes.

Escolheram matar pessoas em nome do bem maior.

Essas pessoas dir�o

que o fazem em nome do seu pa�s. E, provavelmente, fazem.

A ironia � essa. Mas isso n�o � democracia.

Queriam tudo.

Queriam ser piores do que os terroristas

e afirmar que cumpriam a lei.

Fui contra isso e expressei-o.

Tornei-me um motivo de vergonha.

Tive de ser rapidamente substitu�do antes que descobrisse mais coisas.

Consequentemente,

foi afastado da Irlanda de uma forma muito desagrad�vel.

Levaram-me para Netley,

que � um hospital psiqui�trico militar muito conhecido.

Mantiveram-me l� ilegalmente durante um m�s.

Acima de tudo, e � esta a liga��o ao caso do Colin Wallace,

tinham de me desacreditar

para que n�o acreditassem no que eu dizia, por muito v�lido que fosse.

A sa�da de Holroyd e Wallace ficou ensombrada.

As autoridades usavam-me para fins il�citos,

conscientemente,

e eles n�o queriam admitir que autorizavam essas atividades.

A minha sa�da da Irlanda do Norte, bem como a minha audi�ncia disciplinar,

foram uma fraude.

Depois, acusaram-me de homic�dio.

Um colega meu desapareceu.

E encontraram o corpo a boiar num rio.

O patologista disse que encontrara uma les�o no nariz

que fora provocada por um golpe de artes marciais,

ou seja, por algu�m com treino militar.

Acabei por ser condenado a uma pena de dez anos.

Os argumentos contra Wallace eram muito fracos.

S� havia provas circunstanciais.

N�o tenho d�vidas de que Colin Wallace n�o cometeu este crime.

ANTIGO MEMBRO DO PARLAMENTO

Acredito que ele foi incriminado.

Por quem?

Pelos servi�os secretos deste pa�s.

N�o conv�m eliminar o mensageiro, � prefer�vel desacredit�-lo.

Se eliminarem o mensageiro, as pessoas come�am a fazer perguntas.

Queriam dissuadir as pessoas que pensavam em fazer den�ncias.

N�O SEJA DELATOR

O sistema, para se proteger,

faz tudo para destruir...

EM DEFESA DA NA��O

... quem denuncie abusos de poder.

Sermos usados como pe�es

no jogo pol�tico deles...

Senti vergonha.

Como tinha imenso respeito pelos brit�nicos,

senti que estava a trair coisas que eu amava.

Torna-se um fardo demasiado pesado

e n�o conseguimos viver.

Muitas manh�s, acordo...

... e lamento muito estar acordado.

Recentemente, diagnosticaram-me mudan�a de personalidade duradoura.

Nunca tinha ouvido falar nisso.

Passamos por uma situa��o

e, depois dessa situa��o,

somos uma pessoa totalmente diferente.

Eu era um m�sico convencido

e confiante.

Eu...

... adorava a minha vida. A minha esposa adorava a vida que tinha.

�ramos muito felizes juntos e...

... de repente, aconteceu aquilo.

Lembro-me de perguntar � Anne, a minha esposa:

"Eu mudei mesmo depois daquilo?"

E ela disse que foi como ter de aprender a viver

com uma pessoa diferente.

E ter de aprender a amar uma pessoa diferente.

A �nica coisa para a qual sempre tive jeito

foi tocar este instrumento.

Era a �nica coisa que conseguia fazer

sem me preocupar, sem pensar nisso.

Nem tinha de ensaiar, era natural.

E eu perdera isso.

Durante muito tempo, senti que n�o teria mais utilidade nenhuma.

E percebi que essa pessoa...

... ficou num campo,

no dia 31 de julho de 1975.

Em 2006,

um pol�cia chamado James O'Neill telefonou-me.

Era o agente que esteve no local do ataque.

Foi chamado para recolher provas de manh�.

Quando estive com ele, tinha apontamentos impec�veis.

Percebia-se que era muito profissional.

Mas tamb�m trouxe as fotografias das aut�psias.

Disse-me que tinha fotografias dif�ceis de ver.

E eu disse que estava preparado para as ver.

E eram horr�veis.

Eram fotografias dos rapazes na morgue.

Tinham ferimentos muitos graves. Eram terr�veis.

Ap�s o incidente, reprimi tudo isso.

E percebi que, at� essa altura,

n�o aceitara a sua morte.

Pensava que era um pesadelo. Que era um erro.

Apesar de terem passado muitos anos.

Para mim, o Tony n�o morrera.

O Fran O'Toole era imortal, era uma grande estrela.

O Brian McCoy deve estar com a fam�lia.

No fundo, sabia que aquilo n�o era racional.

Mas ao v�-los assim...

... soube que tinham morrido.

E houve uma altura em que pensei...

... que tamb�m estava morto.

E que n�o aceitava a minha morte.

De vez em quando, penso nisso.

Fiquei aliviado por n�o me ver nas fotografias.

De certa forma,

eu queria resolver estes conflitos, esta dor dentro de mim.

E isso s� � poss�vel dando estes passos. Foi um passo gigantesco.

Foi a confirma��o de que dev�amos continuar a investiga��o

com mais determina��o.

Foi o terrorismo brit�nico

na Irlanda

que me envolveu nisto.

E, agora, vou at� ao fim.

Quero que este superpoder se prepare.

Porque eu n�o vou desistir.

Mataram os meus amigos e deixaram-me entregue � morte.

Tentaram incriminar-me a mim e � minha fam�lia como terroristas.

Agora, acordei e vou derrot�-los.

Lev�mos o MOD a tribunal, o Minist�rio da Defesa Brit�nico.

Quero que a Gr�-Bretanha reconhe�a o seu crime

e que diga que isto n�o se repetir�.

O Stephen e eu trabalhamos muito juntos

por causa do julgamento em Belfast,

no Supremo Tribunal.

� chocante

que as autoridades envolvidas

nos tenham deixado � espera mais de 42 anos

para obtermos justi�a.

Tentaram tudo o que � golpe baixo.

Adiaram e prevaricaram.

Tivemos aquilo que designam de "instru��o geral".

Inundaram-nos com papelada.

Fizeram todo o tipo de patifarias.

Mas isso, de certa forma, s� nos d� mais determina��o.

Tenho comigo Stephen Travers, dos Miami Showband...

PROGRAMA DE PAT JENNY QUATRO DE JANEIRO DE 2018

- Bem-vindo. - Obrigado, Pat.

Temos lutado para ter acesso aos documentos da instru��o.

Acho que a 30 de agosto,

o juiz concedeu-nos 82 de 84 documentos.

TRIBUNAL ORDENA A DIVULGA��O DE MAIS DE 80 DOCUMENTOS

Entretanto, receberam informa��es do governo irland�s.

� extraordin�rio.

Acabei de receber esta carta da For�a Volunt�ria do Ulster.

O governo irland�s tinha na sua posse uma carta,

h� j� 30 anos,

da UVF,

que dizia ao governo irland�s

que o MI5 tinha pedido � UVF para matarem o Charlie Haughey.

ANTIGO PRIMEIRO-MINISTRO IRLAND�S

E informaram o nosso governo

porque queriam que eles soubessem que n�o queriam ter nada a ver com isso.

� uma carta em papel timbrado. N�o sabiam que usavam este papel.

Mas parece que usavam.

Tem data de cinco de agosto de 1987.

E diz:

"Colin Wallace e Fred Holroyd estavam a dizer a verdade quando revelaram

que os servi�os secretos brit�nicos ordenaram homic�dios e raptos..."

Nesta carta, queixavam-se do tratamento dado � UVF,

por parte do MI5, admitindo que trabalhavam para eles.

O MI5 deu-lhes detonadores

e bombas defeituosas.

E dizem: "Foi isso que aconteceu no caso dos Miami Showband."

Algo t�o fundamental como esta carta teria encerrado o assunto h� 30 anos.

- Prazer em v�-lo. - Como est�?

- Muito bem. E o Winston? - Estou bem, obrigado.

O ataque deu-se num contexto...

CONTACTO DA UVF

... o ataque aos Miami Showband.

Pelo que sei, dada a minha proximidade com os l�deres

da For�a Volunt�ria do Ulster,

que n�o havia qualquer inten��o,

por parte dessa opera��o da UVF,

de matar membros da banda.

Sabe que eu n�o aceitaria isso.

Os factos dizem precisamente o contr�rio.

Mas n�o acho que...

... seja �til estarmos a discutir sem�ntica.

O que aconteceu foi uma cat�strofe.

Uma das coisas que impede a reconcilia��o e as feridas de sararem,

� o facto de nenhuma das partes aceitar a responsabilidade,

nem os paramilitares lealistas, nem os republicanos ou o estado.

� bom que nos possamos sentar e que me diga o seu ponto de vista,

e que eu possa dizer que n�o estou nada de acordo.

Ainda assim, n�o nos levantamos e sa�mos daqui a dizer

que n�o podemos tirar algo bom daqui.

Sim, acho que isso � importante

e temos de garantir

que eventos passados n�o fa�am parte da pol�tica do futuro.

E acho que esta mensagem simples tem de ser divulgada,

de que n�o deve haver mais v�timas.

� muito motivador ouvir isso.

Espero que isto seja o in�cio de um processo

e n�o apenas um encontro.

Sim, sem d�vida.

Que venha a ter mais participantes.

� significativo que os respons�veis por aquela atrocidade terr�vel

se tenham sentado connosco

e tenham jurado tentar retificar o mal que foi feito.

E o facto de ele ter dado a cara e falado para a c�mara,

em nome da organiza��o, isso � tremendo.

EVENTO VERDADE E RECONCILIA��O FEVEREIRO DE 2018

Relativamente ao tipo de justi�a que queremos... eu quero a verdade.

E, se houver uma amnistia,

eu sou a favor.

Uma amnistia condicional, se as pessoas disserem a verdade.

Os verdadeiros l�deres que queremos t�m de pegar nestas atrocidades e dizer:

"Ningu�m aqui tem o monop�lio do sofrimento e da perda."

E ningu�m tem o monop�lio das patifarias que se fizeram nos �ltimos 40 anos.

Acho que o meu �nico prop�sito de vida � este.

N�o teria admitido isto h� alguns anos. Isto definiu-me.

Talvez possamos fazer a diferen�a, de alguma forma.

Isso d�-me amor pr�prio.

Talvez me tire daquele campo.

Embora o dinheiro

Que aqui tinha

Gastei-o em boa companhia

E tudo o que fiz por falta de perspic�cia

Para a mem�ria agora J� n�o me lembro

Ent�o enche-me o copo de despedida

Boa noite e que a alegria Esteja com todos voc�s

A �nica coisa que quis ser foi baixista.

S� isso.

Hoje, quando toco m�sica, volto a ser a pessoa que era.

Porque...

... � a �nica coisa

que me resta daquele tempo.

Bem, de todos os camaradas Que aqui tive

A m�sica � uma l�ngua comum.

� apreciada e adorada por toda a gente,

independentemente das suas opini�es pol�ticas ou religiosas.

N�s un�amos comunidades.

Quando toc�vamos, o sectarismo ficava � porta.

� esse o poder da m�sica.

E quem comete estes atos tem medo do que � belo.

Tem medo do que a sociedade tem de bom.

O som da m�sica vai perdurar muito mais do que o som das armas e das bombas.

Ent�o enche-me o copo de despedida

Boa noite e que a alegria Esteja com todos voc�s

HOLROYD CONTRATOU UM ADVOGADO

PARA ELIMINAR O REGISTO DE INCAPACIDADE MENTAL

DA SUA FOLHA DE SERVI�O.

NUNCA LHE FOI PERMITIDO REGRESSAR AO EX�RCITO.

COLIN WALLACE PASSOU V�RIOS ANOS DETIDO,

MAS ACABOU POR SER ILIBADO DA ACUSA��O DE HOMIC�DIO,

AP�S SER DETERMINADO QUE HOUVE PERJ�RIO NO SEU JULGAMENTO.

O GOVERNO BRIT�NICO AINDA N�O REAGIU �S PROVAS

QUE LIGAM O MI5 AO ATAQUE AOS MIAMI.

STEPHEN E DES CONTINUAM A LUTAR PELA VERDADE.

Legendas: Georgina Torres

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