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♪
♪
Senhor, já acabamos.
Obrigado, Osório, podem descansar.
- O senhor não vem? - Agora não, Daniel.
Vou ficar mais um pouco, preciso terminar essa revisão.
- Até amanhã, senhor. - Até.
Boa noite.
♪
[Rangido de porta]
♪ Suspense ♪
[Baque]
O que é isso? O que--
[Golpes] [Gemidos]
O que é isso? Me solta. Me solta. O que estão fazendo?
Não! Não!
[Gritos]
♪ Música de abertura ♪
♪ Música de abertura ♪
♪ Música de abertura ♪
E o que mais ela disse, Plácido?
Disse que sente muitas saudades do senhor.
E que não vê a hora em que seu estado de saúde melhore
e os médicos lhe deem alta.
Médicos...
Meu pai sempre me alertou sobre eles.
Já me sinto muito melhor, Plácido. Preciso ver Domitila.
Majestade, seu acidente foi grave.
Acho que o senhor deve cumprir o período de repouso.
Pouco tempo ainda falta.
Não me acostumo a ficar preso, Plácido.
O que querem aqueles constitucionais republicanos
é que eu fique aqui, isolado,
enquanto tramam contra mim na Assembleia.
O ministro Bonifácio está lá fora novamente
aguardando para ver Vossa Majestade.
Disse que não vai embora sem falar com o senhor.
Bonifácio não é mais ministro.
Perdão, Dom Pedro, é o costume.
Certamente está preocupado com o ataque ao Malagueta.
Eu, no lugar dele, também estaria.
Todos o acusam de estar por trás do atentado ao Luís Augusto May.
Mas ele nega. A situação dos Andradas não é nada boa.
Alguns deputados querem que sejam expulsos da Constituinte.
Mas se Vossa Majestade me permite,
acredito que a sua atitude não poderia ter sido mais correta.
Assim acabaram as insinuações de que Vossa Majestade, o Imperador,
é um fantoche na mão do seu ministro.
E se Bonifácio ainda estivesse revestido da autoridade
do seu ministério, não seria difícil para os republicanos
envolver Vossa Majestade no ataque hediondo contra o jornalista.
Eu sei disso, Plácido.
Se Bonifácio não tem nada a ver com o que foi feito no Malagueta,
não tem com o que se preocupar.
Mas se foi o verdadeiro mandante dessa violência,
que assuma as consequências.
Diga a ele que não quero vê-lo. Não temos mais nada a tratar.
Farei isso, Majestade. Com prazer.
Plácido, pode me dar licença? Eu preciso conversar com meu marido.
Certamente, Majestade. Com licença.
Pedro, o que mandaste fazer com Maria Flora?
Ora, o que mandei fazer?
Não quero mais ninguém da família dos Andradas em volta de nós.
Ela que volte para Santos e que leve seus irmãos com ela.
Ela era minha amiga!
Uma Imperatriz não tem amigas entre a criadagem.
Ela era sua dama de honra e será substituída.
Pedro, Bonifácio te foi fiel desde que teu pai voltou a Portugal.
Defendeu-te em várias situações
e foi importante na proclamação da independência.
Esqueceste de tudo que esse homem fez por nós?
Bonifácio mostrou-se fraco diante da Assembleia, Leopoldina.
E suas ideias de libertação dos pretos e divisão das terras improdutivas
só me trouxeram problemas.
Achas que os donos das terras e os comerciantes de escravos
iriam continuar me apoiando?
Com essas falácias que ele aprendeu em Coimbra?
Os braços dos pretos são o motor da nossa economia, Leopoldina.
Além do mais, o que ele fez com o jornalista é imperdoável.
Pedro, nós dois sabemos que Bonifácio só cumpriu as tuas ordens.
Não digas asneiras, mulher.
Nunca mandei que Bonifácio aleijasse o May.
Isso é responsabilidade dele.
Estás envenenado pelos alcoviteiros da tua amante.
Devias ter mais respeito pelos que te trouxeram até aqui.
Deverias ter mais respeito por mim, que sou tua mulher.
Leopoldina, eu não estou disposto a ouvir tuas lamúrias.
Há muito que não recebo minha mesada estipulada
em nosso contrato de casamento.
Os ordenados de minha criadagem estão atrasados.
Eu estou nas mãos dos agiotas.
Sabes que atravessamos por tempos difíceis, Leopoldina.
Não temos dinheiro para que desperdices com tuas caridades.
Todos têm que se sacrificar. Mais necessitado estou eu.
Os soldos de minha tropa também estão atrasados.
E o que achas que vai acontecer se Bonifácio e seus irmãos
resolverem fazer oposição ao teu governo?
Pois eu te digo o que vai acontecer:
mandarei dissolver essa maldita Constituinte.
Ordenarei que meus soldados cerquem o prédio da cadeia velha
e prenderei todos os que resistirem, é isso que vai acontecer!
Ficaste louco?
Pensas que o Brasil aceitará ser governado por ti sem uma Carta Magna?
Pedro, somente uma Constituição pactuada entre o povo
poderá ser fiadora do teu governo.
Não vês o que está acontecendo em Pernambuco?
Todos morrerão em Pernambuco. Todos!
O Almirante Cochrane já partiu com sua esquadra para lá.
E por terra minhas tropas já sitiaram Recife.
Enforcarei todos esses malditos traidores.
Querem uma Constituição?
Pois muito bem, eu mesmo lhes darei uma.
Mas a minha Constituição será muito melhor
do que a que esses pés de cabras, chumbos ou corcundas querem fazer.
A minha Constituição será a mais liberal de todas, Leopoldina.
Mas a minha pessoa permanecerá inviolável e sagrada.
Eu sou o soberano, eu sou o Imperador do Brasil.
O Imperador!
Socorro! Plácido! Soldados!
Acudam, pelo amor de Deus. Socorro!
♪ Melodia dramática ♪
[Gonçalves Ledo] Em 1823, chegaram da Europa notícias
de que uma rebelião comandada por Dom Miguel, irmão de Dom Pedro,
havia destituído as cortes constitucionais de Lisboa,
e reconduzido Dom João VI à condição de monarca absoluto.
Isso foi um balde de água fria para os revoltosos das províncias brasileiras
que ainda resistiam em aderir à independência.
Parecia que a sorte do Imperador estava mudando.
E ele saberia aproveitar os fatos ocorridos em Portugal
para faturar algum prestígio e aumentar o seu poder.
♪
Senhores deputados,
venho em nome de Sua Majestade, o Imperador Dom Pedro,
comunicar que esta Assembleia está dissolvida
por perjurar ao seu solene juramento de salvar o Brasil.
Todos devem deixar o recinto de maneira pacífica,
evitando maiores problemas.
♪ Melodia dramática ♪
Amigos, não temos mais o que fazer aqui.
O que resta é cumprir o que Sua Majestade ordena.
♪ Melodia dramática ♪
Senhor José Bonifácio de Andrada e Silva,
o senhor e seus irmãos estão presos
por conspiração contra o Império Brasileiro.
♪ Melodia dramática ♪
♪ Melodia dramática ♪
♪ Melodia dramática ♪ [Marulho ao fundo]
[Gonçalves Ledo] Depois da dissolução da constituinte,
José Bonifácio foi deportado para a França.
Lá, se converteu em um ferrenho crítico de Dom Pedro.
O ex-homem forte do governo tomaria conhecimento
de que o Imperador iria cumprir o que havia dito à sua esposa.
♪ Melodia dramática ♪
Diante de uma nova Assembleia perplexa,
Dom Pedro anunciou a primeira Constituição brasileira,
que ele mesmo havia outorgado,
e que surpreendeu por ser uma das mais avançadas da época.
Nas letras frias de seu texto,
a lei determinava que a Igreja Católica
continuaria sendo a religião oficial do Império.
Mas todos teriam liberdade de culto para professar outra fé.
A liberdade de imprensa e de opinião também estavam asseguradas,
e ninguém poderia ser preso ou condenado
sem amplo direito de defesa.
É óbvio que Dom Pedro cuidou também para que sua autoridade
fosse preservada através do chamado Poder Moderador,
que, na prática, o mantinha na posição de chefe supremo da nação
e monarca absoluto.
♪
O que o Imperador esqueceu de dizer é que sua Constituição
excluía dos direitos políticos os índios, as mulheres,
os analfabetos, os menores de 25 anos, os pobres em geral.
E, principalmente, os escravos.
Para votar e ser candidato,
era necessário ser do sexo masculino e comprovar renda.
E a elite brasileira continuou fazendo vista grossa
para a barbárie da escravidão.
♪
O romance de Dom Pedro com Domitila continuava quente,
à despeito da opinião do povo que o criticava.
Críticas que aumentaram ainda mais
depois do nascimento da menina Isabel Maria,
filha do Imperador com sua amante.
♪
Enquanto isso, Leopoldina definhava, mergulhada em profunda tristeza.
E sem nenhuma esperança de receber o amor do marido,
ou mesmo de voltar à sua pátria.
♪
A amargura da Imperatriz
só encontrava paralelo na vergonha de Arrebita.
Às vezes, um pensamento gruda na cabeça de um homem
e o consome dia e noite.
Aquela ofensa teimava em não deixar o peito do português
e se tornava um espinho oculto,
que o machucava e o fazia sangrar dia e noite.
Foi aí que eu tive uma ideia.
Bom dia. Posso ajudá-lo, meu senhor?
Está procurando alguma coisa?
Sim.
Por acaso tens aí algum livro que fale de honra.
O senhor pode ser mais específico?
Procuro um livro. Um livro que fale de honra.
A honra de um homem. Um homem casado.
E uma ofensa irreparável.
Seria um romance?
Talvez.
Um romance seria bom. Seria.
Mas eu acho que se essa história fosse baseada em fatos reais,
seria mais interessante.
Falamos de traição?
Não necessariamente.
Nem sempre é na traição da mulher que a honra do homem é atingida.
Por acaso tu queres me dizer alguma coisa?
Não, não. Não, senhor livreiro.
Quem sou eu para dizer-te alguma coisa, imagina.
Senhor letrado.
Cheio de conhecimento, rodeado por livros.
Não poderia dizer-te nada.
Podemos voltar ao assunto do livro que procuro?
Por favor.
Eu procuro um livro que fale de um homem honesto,
chefe de família,
apaixonado por sua esposa,
que sofreu um ultraje muito grande.
Uma grande humilhação diante de todos.
E essa afronta é comentada pelo povo.
E aonde esse homem passa,
as pessoas dizem maledicência uma nos ouvidos das outras.
Por ter vindo de um homem poderoso, esse homem pacato, honesto,
resolveu não fazer nada,
ao invés de tomar a única atitude decente num momento como esse.
Creio que não tenho o livro que procuras.
Nem tampouco estou gostando do rumo dessa prosa.
Peço para que te retires, por favor.
A história ainda não acabou, homem.
Eu preciso terminá-la.
Esse homem tem um filho e a sua esposa está grávida de outro.
Agindo com covardia
estaria esse homem condenando sua prole a viver de cabeça baixa,
o resto da vida, por uma herança deixada pelo pai?
Ou seria mais digno que esse homem perdesse a própria vida
para honrar a sua família?
- É um grande dilema, não achas? - Eu não te conheço!
E não te dou a ousadia de comentares a minha vida.
Já te disse para saíres.
Se não vais, chamo a guarda.
Está aqui.
Esse livro ainda está aberto, homem.
Mas o final ainda não foi escrito.
Cabe a ti terminá-lo.
Passar bem.
♪ Suspense ♪
- Bom dia, Arrebita. Como estás? - Estou bem, Majestade.
Pareces nervoso, aconteceu alguma coisa, meu amigo?
Não. Não.
São esses analfabetos que insistem em frequentar a biblioteca,
mas nada importante. E a senhora? Como está?
Em que posso lhe servir?
Eu preciso ver aquele livro sobre borboletas.
Ontem capturei uma espécie que não conheço.
Eu nunca vi mais linda. Podes pegá-lo para mim?
Claro, Majestade.
♪
- Aqui está. - Muito obrigado, Arrebita.
É isso. E como está tua esposa?
- A novidade está próxima, não? - Sim, Majestade.
A barriga está grande, mas Ana está bem, graças a Deus.
Ela tem sorte. Tu és um homem bom.
E ela vai te dar o segundo filho, não é isso?
Sim. Sim.
Já eu não lembro de passar um ano sem parir.
A fertilidade do Imperador é famosa.
Oh, meu Deus, desculpe-me, Majestade, eu não queria ofender nem ser abusado.
Não te preocupes, Arrebita. Não me ofendeste.
- Arrebita? - Sim, Majestade?
Eu e meu marido vamos dar uma festa no Palácio da Quinta.
Vamos comemorar a nova constituição e o fim das revoltas ao Norte.
Queremos que não só os magistrados,
membros do clero e altos funcionários estejam presentes.
Desejamos que o povo brasileiro
esteja plenamente representado nessa recepção.
Eu gostaria muito que tu e tua esposa comparecessem.
Majestade. Seu convite me honra, mas eu não posso aceitar.
Peço humildemente que me compreenda.
- E por quê? - Sou um homem simples.
Trabalho com orgulho para Vossa Majestade, mas...
minha mulher é negra.
E o que tem isso? Pelo que sei, ela é forra e ninguém é dono dela.
Além disso, pelo que me contaste dela,
vou gostar muito de conhecê-la.
Mil perdões, Majestade, mas eu não posso aceitar.
Eu não aceitarei um não como resposta.
Eu sei o que se passou na tasca do Abílio.
E é por isso mesmo que eu quero a ti e a tua mulher na minha festa.
E digo-te que tu deves ir de cabeça erguida,
como eu também procuro andar pela cidade.
O que tua mulher fez foi digno e tu deves te orgulhar dela.
A bofetada que Ana do Congo deu no Imperador
representou a vontade de muitos brasileiros.
E que fique cá entre nós, a minha também.
Até mais ver, Arrebita.
♪
[Ruídos de portas]
♪
[Falatório]
[Ruídos externos]
♪
♪
♪
[Aplausos]
[Falatório ao fundo]
♪ [Falatório ao fundo]
♪ [Falatório ao fundo]
Belíssima apresentação, Majestade.
Esse hino inspira nossos corações e nos faz acreditar em dias melhores.
Obrigada, Padre.
A música é a mais completa expressão da alma humana,
e tem o poder de nos levar a outros lugares.
É verdade. A música é dom de Deus.
Eu gostaria de compor uma música
que me levasse de volta ao seio de minha família.
O Imperador Francisco respondeu os seus recados?
Não, Padre.
Apesar de saber o que passo com meu marido, meu pai nada pode fazer.
Princesas como eu são como dados
que se jogam e cuja sorte ou azar dependem do resultado.
Eu entendo. Estou condenada.
♪
Não fale assim, Majestade. Deus é o justo juiz.
Ele lhe dará a redenção no momento certo.
A senhora precisa ser forte.
Estou tentando, Padre.
Estou tentando.
Mas começo a crer que se é muito mais feliz quando solteira.
Agora só tenho preocupações e dissabores,
que engulo em segredo, pois reclamar é ainda pior.
♪
Bonita festa, não é, Chalaça?
Nem parece que estamos prestes a entrar em guerra na Cisplatina.
Ah, mas há hora para guerras e hora para festejos, Francisco.
E além do mais, a Bahia, Pará, Maranhão e Pernambuco, todos esses,
todos esses queriam se separar do Brasil, e o que aconteceu?
Vencemos.
Por que seria diferente na Cisplatina?
Não sei, Chalaça. Acho que a comparação não é apropriada.
A maior parte da população do Rio da Prata
é composta por espanhóis que nunca aceitaram a anexação do território.
É certo que a Argentina irá apoiar as tropas
que contestarem o controle brasileiro.
Eles não reconhecem nossa independência.
Chalaça, corremos o risco de perder a Cisplatina.
Mas relaxa-te, homem. Aproveita o bom vinho francês.
Não falemos de guerras esta noite, está bem?
E Dom Pedro?
Confirmou a nomeação?
Sim, Chalaça. Está decidido.
Mas isso aqui não demora a virar um circo, Plácido.
♪
♪
Pronto, meu amor.
Já deixei Manuel com a tia Siara. Podemos ir.
A charrete está lá fora nos aguardando.
Podes ir.
Só vou guardar esses papeis e já saio.
♪ Suspense ♪
♪ Suspense ♪
Sabes por que estamos aqui, Ledo?
Dom Pedro nos quer por perto.
Quer ter certeza que a sua constituição nos agradou
e que não criaremos mais problemas para ele.
[Risos]
A legitimidade de um soberano está longe de ser alcançada
por uma constituição imposta.
Ela só pode ser aceita se for delegada pelos representantes do povo.
Meus irmãos, o Imperador é matreiro.
Também devemos agir com astúcia.
Estão vendo?
Aquele pode ser o Imperador, mas não é o nosso dono.
O que vejo ali é um homem como qualquer outro
que quer nos submeter ao seu domínio arbitrário.
Acha que pode nomear e demitir quem quiser.
E dissolver a Câmara dos Deputados quando bem entender.
[Risos]
Substituímos a opressão de Portugal pela tirania de um Imperador.
♪
Pois o que eu vejo ali, meus irmãos,
é o melhor instrumento que temos no momento para chegarmos à república.
Então, viva a República!
Viva!
[Risos]
Tenho muita curiosidade em conhecer sua terra, Lorde Chamberlain.
Sempre ouvi maravilhas da Inglaterra.
Se não se incomodar com o frio, tenho certeza de que vai gostar.
E os castelos são magníficos, não é mesmo?
Eu sou suspeito para falar.
Este palácio aqui já pertenceu ao meu pai.
Eu sei, Senhor Mario. Eu sei.
Seu pai deu-o a Dom João quando veio para o Brasil.
Conheço a história.
Seu pai devia ser um homem muito generoso... e rico também.
Meu pai trabalhou muito
e me deixou uma boa herança que cuido de fazer prosperar.
Fico feliz em saber.
É...
Uma pena que muitos brasileiros não valorizem o trabalho duro
que os comerciantes fazem para fazer esse país progredir.
Ao invés de apoiar aqueles que arriscam seu dinheiro
trazendo riquezas para o país,
ficam contaminando o Imperador e o povo com ideias libertárias.
Eu creio que, no seu caso, as riquezas às quais se refere
são navios negreiros abarrotados de escravos.
Vejo que o cônsul é bem informado.
Além de conhecer a história de meu pai,
também conhece o negócio da minha família.
Sim. Também sei que os lucros do tráfico negreiro são astronômicos.
Um escravo comprado em Luanda por 70 mil réis
é vendido no Brasil por 240 mil réis.
Ninguém pode negar que é um excelente negócio.
Pelo menos para os traficantes de escravos.
Traficante é uma palavra muito forte, Lorde Chamberlain.
Há 300 anos que nossas lavouras de cana de açúcar, de algodão,
de tabaco, nossas minas de ouro e diamantes são tocadas pelos pretos.
E isso não mudará.
Mas talvez a Inglaterra queira nos ver como um país
empobrecido e totalmente dependente.
Será que é isso que está por trás dessa campanha inglesa
contra o comércio de escravos?
Ou será que eles querem só que os pretos se rebelem contra os brancos
como aconteceu em São Domingos?
O fosso de desigualdade aberto no Brasil
pela exploração da mão de obra escrava um dia vai cobrar seu preço.
- E isso não depende de nós. - Hipócritas. Hipócritas.
São todos hipócritas.
Os que se manifestam a favor da liberdade e dos direitos para todos
também tem seus escravos. Muitos os compraram de mim.
Isso é verdade. Os brasileiros estão acostumados a não fazer nada,
a só ver os negros trabalharem.
Estão convencidos de que os escravos são necessários como animais de carga.
Felizmente não são todos.
Lorde Chamberlain, nós, cristãos, quando compramos,
compramos um escravo na África, estamos na verdade o livrando da morte
ou de um destino muito pior nas selvas africanas. São canibais.
Praticam a idolatria e a homossexualidade.
Muito bem, senhores. Vejo que estão se entendendo.
Longe disso, Majestade.
Longe disso. Com sua licença.
O que disseste para o cônsul, Mario?
Esse inglês janota precisava ouvir umas verdades.
O que ele propõe é uma afronta à dignidade,
à soberania e aos interesses da nação brasileira.
Pois não quero que o afrontes.
Precisamos da Inglaterra na nossa independência.
Controla tua língua.
E Vossa Majestade pretende assinar o acordo com esses embusteiros?
Talvez. Se isto for necessário, sim.
Mas não te preocupes, Mario.
Nem sempre o que é assinado é o que é cumprido.
♪
Meu amigo. Confesso que não esperava te ver aqui.
Somos convidados da Imperatriz.
Mas isso é uma grata surpresa.
Como vai, Ana?
Bem, obrigada.
- Esta é minha esposa. - Boa noite.
Meu amigo Arrebita.
Já pensava que não virias.
- Essa deve ser Ana do Congo. - Majestade.
Eu ouvi falar de ti. Tens em teu marido um grande admirador.
E apaixonado também. Não é mesmo, Arrebita?
Sim, Majestade.
Eu estou muito feliz que estejam aqui.
Eu quero que aproveitem bem a festa. Venham.
♪
♪
- Leopoldina fez isso para me afrontar. - Calma, Pedro, calma.
Até porque afronta por afronta, a tua será muito maior.
Olha quem chegou.
[Falatório]
Por que pararam de tocar, idiotas? Vamos, toquem!
♪
Parem a música!
Amigos e senhoras, para quem não conhece,
eu gostaria de apresentar-vos a Baronesa de Santos,
e informá-los de que eu a nomeei primeira dama da Imperatriz.
Assim sendo, a partir de hoje,
ela conviverá com todos no Palácio.
E acompanhará a Imperatriz em todas as suas reuniões,
assim como em todas as suas excursões.
Além disso, assumirá lugar de honra logo após a Sua Majestade
em todas as ocasiões públicas.
Dito isso, acrescento que não admitirei qualquer desfeita
a essa senhora que tanto me honra com sua presença em nossa festa.
Fica com Domitila, Chalaça.
- Pedro, o que vais-- - Fica com Domitila!
Por que pararam de tocar, estafermos? Querem passar a noite na prisão?
Toquem.
Amigos, que continue a festa. Hoje é um dia de alegria.
♪
Volta para o salão agora, Leopoldina.
Tu perdeste o resto de vergonha que te restava.
Eu não me submeterei a isso, Pedro. Eu prefiro a morte.
Não estou te pedindo.
Como teu marido e Imperador estou te ordenando.
Volta para a festa e não me envergonhes diante dos convidados.
Como não pude ver quem tu eras
logo nos primeiros dias que cheguei ao Brasil?
Tu me enganaste com teu jeito sedutor
e me fizeste acreditar que seríamos felizes.
Trazer aquela rameira para dentro do nosso palácio...
Controla tua língua, mulher.
Eu não faço nada que não esteja de acordo
com a história de meus ascendentes. Não são assim os monarcas?
Ou será que és tão pura e ingênua, Leopoldina,
que ignoras que até mesmo Luís Quinze tinha suas concubinas?
Olha para ti, Leopoldina.
Estás acabada e sempre andas desalinhada.
Sai daqui agora, Pedro. Sai!
Não quero te ouvir nem te ver na minha frente.
Tu vais voltar comigo para aquele salão
e cumprir o teu dever de Imperatriz. Não me faças perder a cabeça.
E o que vais fazer? Vais me agredir novamente?
Já não chegaste ao mais raso que um monarca pode chegar?
Não penses que vou permitir
que o Imperador sufoque o homem que há em mim.
Tenho meus limites. Não queiras me pôr a prova.
♪
Meu amor, fique um pouco sentada. Eu preciso dar atenção aos convidados.
♪
♪
♪
♪
Acho que não devíamos ter vindo aqui.
Estou com o estômago embrulhado com o que vi.
Não devemos nos meter nisso, Ana.
Não compete a nós julgar os atos do Imperador.
♪
Agora eu quero ver essas mulheres me afrontarem.
Acham que são melhores do que eu só porque têm seus maridos ao seu lado.
Se soubessem que quase todos aqui foram até mim pedir favores
e beijaram minha mão, teriam mais respeito.
Tudo se acalmará com o tempo, Baronesa.
Com licença, senhores.
Baronesa... desculpe, mas onde a senhora vai?
Eu vou me apresentar oficialmente à Imperatriz,
como é o meu dever.
[Falatório ao fundo]
Meu Deus.
♪ Suspense ♪
Majestade.
É uma honra servir à Imperatriz do Brasil.
Eu gostaria que soubesse que pode contar comigo para o que precisar.
Eu devo admitir que tu és corajosa.
Seria uma virtude se não fosse tu quem és.
Dentes bons na boca de cachorros.
Eu sou convidada do Imperador.
E como Vossa Majestade ouviu, agora eu serei sua dama de honra.
Eu acho que a senhora deveria se conformar e tratar-me melhor.
Pode ser baronesa ou dama de honra,
mas nunca deixarás de ser quem tu és de verdade.
Eu sei que tu gostarias de estar em meu lugar, não é mesmo?
Sentada neste trono, mulher de Pedro e mãe de seus legítimos herdeiros.
Infelizmente, minha cara,
eu lamento te informar que isso nunca acontecerá.
Tu és apenas mais uma com as quais ele se deita.
Assim como tua própria irmã.
Não é?
Com quem ele também tem um filho bastardo.
Eu sou quem ele ama de verdade.
O coração do Imperador me pertence e não a Vossa Majestade.
Eu também lamento informá-la disso.
Tu és apenas mais um objeto nas mãos do Imperador.
Um objeto que ele usará e jogará fora como tantos outros.
E só te restará trabalhar em algum bordel
ou viver de favores dos que hoje te subornam e carecem de caráter como tu.
- Estás me ofendendo. - É Majestade!
Majestade...
é assim que tu deves te dirigir à mim.
E a tua presença aqui ofende a todos nós reunidos nesses salão.
Ofende a mim e ao Brasil.
Se tivesses alguma dignidade, irias embora agora.
Não me parece que o Imperador deseje que eu me vá.
E como serva fiel de Sua Majestade, só me resta cumprir sua vontade.
Se eu fosse a senhora, faria o mesmo.
Pois mesmo sendo uma plebeia e Vossa Majestade a Imperatriz,
nós duas devemos obediência ao mesmo homem.
E é isso que nos torna iguais.
Não esse trono onde Vossa Majestade está sentada.
Com sua licença, Majestade.
Eu te avisei que isso não daria certo, Pedro.
Poderias ter feito o que querias de outra forma.
Faço do jeito que eu quiser, Chalaça. Não te esqueças quem sou eu.
Preciso tomar um ar.
Me deem licença, por favor.
- Aonde você vai? - Vou circular um pouco.
Acho que vi alguns frequentadores da biblioteca.
Com licença.
♪
♪ Suspense ♪
♪ Suspense ♪
Ora vejam!
Parece que o senhor livreiro também gosta de jardins.
♪ Suspense ♪ [Arrebita respira ofegante]
E o que tens aí no teu bolso?
♪ Suspense ♪ [Arrebita respira ofegante]
♪
♪
♪
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