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♪
♪
[Batidas na porta]
[Batidas na porta]
♪
Sou eu, irmão.
[Ruído de porta]
♪
[Falatório]
♪
Boa noite, meus queridos irmãos.
[Todos] Boa noite.
Peço desculpas por meu atraso.
Precisei desviar-me de algumas ruas muito movimentadas para meu gosto.
Seja muito bem vindo, irmão Ledo.
É com muita alegria que recebemos aqui em nossa loja
um membro da Comércio e Artes. Queira tomar o seu lugar, por favor.
Meus irmãos, nós precisamos fechar a nossa posição
em relação às últimas deliberações das cortes portuguesas.
Os nossos delegados foram recebidos com muita hostilidade,
e ficou muito evidente que Portugal nos quer novamente submissos.
Não podemos aceitar, de maneira nenhuma,
voltarmos à condição de uma colônia explorada.
Sendo assim, eu proponho que nos manifestemos
pela imediata separação de Portugal.
E que partamos para uma monarquia constitucional,
sob a liderança de Dom Pedro.
[Falatório]
Senhores, concordo.
Para mim não restam dúvidas dos rancores e ressentimentos
que os portugueses nutrem por nós brasileiros.
E a ideia de manter o Brasil subjugado a essa gente é intolerável.
Irmãos, o Brasil precisa caminhar com as próprias pernas.
O que querem mais os portugueses?
O antigo monopólio comercial sobre os nossos produtos?
O cancelamento da nossa assembleia constituinte?
A volta de Dom Pedro a Portugal?
Meus irmãos, o que mais teremos que ouvir desses sanguessugas?
Querem que voltemos ao ponto que estávamos
antes de Dom João e a sua corte se mudarem para o Brasil?
Meus irmãos, o fato de Dom Pedro permanecer no Brasil
foi um sinal muito claro
de que devemos tê-lo à frente de nossa independência.
Ele foi muito firme ao rechaçar as tropas invasoras portuguesas.
É o líder que nós precisamos nesse momento.
Se me permitem, meus senhores,
creio que a nossa liberdade está além de uma simples separação de Portugal.
Seja mais claro, Ledo.
Dom Pedro aceitou o título
de “Defensor Perpétuo e Protetor do Brasil”
e até agora tem sido firme na sua oposição às ordens de Portugal.
Ele sabe que a independência é inevitável.
Mas se continuarmos sob a liderança de um Imperador da dinastia Bragança,
o que de fato mudará em nosso futuro?
Então, qual é a sua proposta, irmão Gonçalves Ledo?
República. Esse é o nosso destino. Assim como nos Estados Unidos.
A revolução tem que ser completa para que possamos crescer
como um país realmente livre do autoritarismo.
[Falatório]
Irmãos, irmãos.
Realmente, se tomarmos como exemplo os americanos,
pensamos numa ruptura radical com Dom Pedro.
Mas eu penso que devemos olhar para nossos vizinhos da América Espanhola.
Lá as ideias republicanas levaram à guerra civil.
Se isso acontecer aqui no Brasil, estaremos divididos.
Será muito mais fácil para Portugal dominar as províncias dissidentes.
Estamos divididos, Bonifácio.
Não existe consenso entre as províncias.
Bahia, Pernambuco, Maranhão, Piauí, Pará
estão alinhados com o governo português.
E contestam a liderança do Rio de Janeiro.
Querem se tornar províncias autônomas.
Obedientes apenas às ordens vindas de além-mar.
Mas se Dom Pedro nos deixar, irmãos, a desunião se alastrará.
Somente a figura de um Imperador poderá unir o nosso país.
Eu ainda acho que manter Brasil, Portugal e Algarves
da maneira que Dom João decretou é o melhor para os nossos negócios.
Ser governado por Portugal,
através de uma constituição não será de todo mal.
Senhores, eu estive nas assembleias das cortes,
como os meus irmãos bem sabem, e posso garantir
que os ideais liberais dos representantes portugueses
valem apenas para Portugal. Nunca o serão para o Brasil.
[Falatório][Homem] É verdade. É verdade.
Meus irmãos, nós somos um país imenso, gigante,
desconhecido ainda em grande parte. Quase não temos uma população livre.
Nós convivemos diariamente com o flagelo da escravidão.
Não temos estradas suficientes, não temos educação,
não temos costumes, meus irmãos.
Uma república, ela poderá vir um dia,
mas não agora. Ainda é muito cedo.
O que nós precisamos agora
é unir o povo em torno da figura de um Imperador.
Mandar às favas os portugueses.
Dom Pedro não aceitará as ordens vindas de Portugal.
Por isso, ele convocou a assembleia constituinte, irmãos.
[Falatório]
Irmãos, se não conseguirmos chegar a um consenso entre nós,
o que será do Brasil?
[Falatório] ♪ Melodia dramática ao fundo ♪
♪ Música de abertura ♪
♪ Música de abertura ♪
♪ Música de abertura ♪
- Arrebita... - Oh!!! Mas o que é isso, Ana?
Então é este o trabalho que tanto te cansa, né, senhor Arrebita?
Meu Deus do céu, queres me matar do coração?
Desculpa, senhor arquivista. Vejo que o senhor está bem atarefado.
Manter-me informado faz parte de minha função.
Se não sabias disso, fica sabendo.
E o que fazes aqui?
Vim te trazer umas cocadas fresquinhas que acabei de fazer.
São para você e para o Marrocos. Onde ele está?
A Princesa Leopoldina está aqui. Marrocos está com ela.
E como ela te pareceu hoje?
Sorumbática como sempre.
Pobre Princesa...
ela é tão gentil e carinhosa com todos.
Outro dia ela fez festa com nosso Manoel.
Não merecia o marido que tem.
Nem todos tiveram a tua sorte, né?
Não seja tão convencido, Arrebita.
[Risos]
Você também foi premiado quando se casou comigo.
- Ah, fui? - É...
Ou você acha que todas as mulheres caminham do Catumbi até aqui,
sob esse sol, para trazer guloseimas ao marido?
[Risos]
Está bem, está bem, está bem.
Meu tesouro. Era isso que querias ouvir?
Era.
E essas cocadas estão divinas,
acho que não chegarão às mãos de Marrocos.
Deixa de ser guloso, homem. Contarei ao Marrocos se comer todas.
- E o que diz o jornal? - O mesmo.
Neste até defendem a deportação de todos os nascidos em Portugal.
Mas o que faremos se você tiver que voltar a Portugal?
Não te preocupes, isso não vai acontecer.
São apenas ideias desses republicanos insanos.
Dom Pedro permite que isso seja publicado?
Liberdade de imprensa, Ana.
Todos têm liberdade de dizer o que pensam.
O próprio Dom Pedro também escreve para os jornais.
E os negros?
O que tem os negros?
Quem escreverá por eles?
Lá vens tu com tuas ideias.
Você disse que todos têm liberdade, não foi?
Há quem escreva por eles.
Agora precisas ir, tenho muito a fazer.
Arrebita, eu quero aprender a ler.
Mas era só o que me faltava. Já não te ensinei a escrever teu nome?
Sim, mas é muito pouco para mim.
Olha, eu quero aprender a ler jornais.
E daqui a pouco vais me pedir tabaco.
Muito bem. Se meu marido não me ensina a escrever,
eu procurarei um professor que me ajude a juntar as letras.
Mas não tenho tempo, mulher.
Recado dado. Passe muito bem, senhor arquivista.
Não sejas tão rebelde, mulher.
Até logo, Arrebita.
Até logo, Arrebita.
Ana...
♪ Melodia dramática ♪
[Gonçalves Ledo] Tendo que governar em meio a muitos problemas,
o príncipe regente nomeou José Bonifácio líder de seu governo
e este apressou-se em convocar um conselho de procuradores
para redigir uma constituição,
com a qual Dom Pedro governaria à revelia das ordens de Lisboa.
Mas nada parecia ser suficiente para que as revoltas cessassem.
Aconselhado por Bonifácio, Dom Pedro partiu para controlar
uma rebelião que havia explodido em Minas Gerais.
Quando chegou à Vila Rica, ao invés de resistência,
Dom Pedro encontrou uma população encantada
com o fato de poder ver de perto um membro da realeza.
A figura imponente do Príncipe Regente
desfez qualquer intenção de rebeldia entre o povo
e esfriou as ambições daqueles que, como eu, desejavam a república.
[Gritaria] [Comemoração]
[Gritaria] [Comemoração]
Quem é este que está desobedecendo minhas ordens em São Paulo?
Coronel Francisco Inácio de Souza Queirós.
É o comandante da força pública. Está mancomunado com o João Carlos,
presidente da Junta Provisória Paulista.
Lavro então um decreto dissolvendo essa junta de patifes.
Sim, isso deve ser feito, Dom Pedro.
Mas eu receio que a distância de Vossa Alteza de São Paulo
possa enfraquecer os efeitos desse decreto.
Nós precisamos ser mais fortes, como nós fomos em Minas Gerais.
O Ministro Bonifácio sugere então que meu marido viaje até São Paulo?
Perfeitamente, Princesa.
Isso está ficando muito perigoso.
E se sequestram o Príncipe e o mandam para Portugal?
O que faremos?
Sinceramente, eu não acredito nessa possibilidade.
Decerto os interesses de Portugal
ainda são defendidos por muitos aqui em nossas terras.
Mas a autoridade de Dom Pedro, sua coragem e astúcia militar
são o único consenso que nós temos, Princesa.
São Paulo é importante demais para ser perdido.
Devemos montar uma guarda numerosa e bem armada
- para acompanhar meu marido. - Não te preocupes, Leopoldina.
Sei me defender.
E uma guarda numerosa só irá retardar a minha cavalgada.
Sim, Vossa Alteza pode partir com um grupo diminuto como deseja.
Eu já dei ordens para que uma guarda de honra
esteja à sua espera em sua chegada.
Seu caminho será por Santa Cruz, subindo depois pelo Vale do Paraíba.
Não me assusta a distância, Bonifácio.
Mas eu quero que tu e minha esposa estejam à frente do governo
enquanto eu estiver viajando.
Leopoldina ocupará a regência na minha ausência.
Qualquer novidade de Portugal, mande me avisar.
Ainda não morreram minhas esperanças
de encontrarmos o respeito dos portugueses.
Não quero trair minha família.
As cortes devem aceitar que governarei Brasil e Portugal de onde bem quiser.
Alteza, as últimas ordens das cortes portuguesas são aviltantes.
Ofendem o povo brasileiro e vossa pessoa em particular.
Chamam Vossa Alteza de um “mancebo vazio de experiência”.
Os deputados portugueses afirmam que Dom Pedro
“não é digno de governar” e exigem que volte imediatamente a Lisboa.
Quanto ao nosso Brasil, dizem que somos uma terra inculta,
selvagem, terra dos macacos, dos pretos, das serpentes.
Sinceramente, eu não vejo como poderemos evitar essa separação.
Ou nos tornamos um país independente
ou voltaremos a ser serviçais explorados novamente.
Escreverei, pois, um manifesto às cortes portuguesas
e os mandarei comer merda, que é o que merecem!
Pedro, não é necessário que te iguales a eles com esse linguajar.
E Padre Luís já lançou um manifesto resposta contra esses insolentes.
Sim, Alteza, o Padre Perereca já deu uma resposta à altura.
Desculpe, que grosseria a minha.
Eu quis dizer o Padre Luís Gonçalves, Princesa, perdão.
Não fiques rubro, Bonifácio.
Padre Luís tem ciência do apelido que ganhou no Rio de Janeiro.
E eu também.
Mas esse Padre me agrada.
Sempre foi muito amigo de minha avó.
Sim.
E se mostrou muito solícito à minha família.
Eu tenho lido suas publicações.
Prepare tudo, Bonifácio, eu quero partir amanhã bem cedo.
Sim, Dom Pedro. Eu farei tudo que for necessário.
Com licença, Princesa, Dom Pedro.
Sinto-te amuada, meu amor.
O que se passa em teu coração?
Por que tanta tristeza?
É somente a preocupação com minha segurança?
Ainda não superaste a perda de nosso João Carlos?
Diz-me o que é preciso fazer para te ver sorrindo novamente, Leopoldina.
Pedro, a dor da perda de um filho
é um espada fincada no coração de uma mãe para sempre.
Igualmente para um pai.
Mas não é só isso que me entristece.
Eu...
vejo que teremos que defender o Brasil
e meu retorno à Europa fica cada vez mais impossível.
Eu estarei ao seu lado quando chegar a hora da separação de Portugal,
como é o meu dever.
Mas não exijas de mim mais do que isso.
Pois eu não posso ser sorrisos
quando meu marido me trai constantemente.
Não devias dar ouvidos à mexeriqueiras, Leopoldina, é isso.
Não vês a confusão em que estou metido?
O que mais tu queres de mim?
Devolvo-te essa pergunta, Alteza.
O que queres tu de mim?
Que me alegre por ser constantemente vigiada
enquanto tu cais na esbórnia com teu alcoviteiro Chalaça?
Espera, Leopoldina.
Não vês que meu amor de matrimônio é teu?
Tu és a mãe de meus filhos.
E quantos outros filhos teus estão espalhados por aí?
Por favor, Leopoldina, não digas asneiras.
Talvez os serviçais do palácio tenham razão.
Tu devias ter te casado com uma tia ou prima portuguesa.
Não com uma estrangeira como me chamam.
Quem disse isso?
Diz-me, Leopoldina,
e eu o colocarei a ferros pelo resto de sua maldita vida.
Isso não importa, Pedro.
O momento da ruptura luso-brasileira se aproxima à galope.
Temos de estar unidos
para achar uma solução a esse Brasil por qual já tenho grande afeição.
Falas de amor de matrimônio?
Pois esse eu também te ofereço, como é minha obrigação.
Mas e o teu amor de devoção?
Será um dia meu?
[Suspiro]
[Ruídos da natureza]
[Gonçalves Ledo] Quando entrou em São Paulo
Dom Pedro estava certo de que sua autoridade seria respeitada
e os revoltosos subjugados.
Mais uma vez, todos seriam seduzidos
pela figura altiva daquele que era anunciado como “o redentor do Brasil”.
Mas ele sabia que nada estava assegurado.
E que precisava demonstrar força.
[Passos de cavalos]
[Ruídos da natureza ao fundo]
[Passos de cavalos]
Alteza Real, Príncipe Regente da Casa dos Bragança
e defensor perpétuo do Brasil.
Vossa Alteza é o astro luminoso que, raiando no horizonte,
vem dissipar as espessas nuvens negras que cobriam a nossa São Paulo.
Aqueles que pensaram em me trair, onde estão?
Ficarei alguns dias aqui
e presidirei a escolha de um novo governo provisório.
Quem tiver o direito de voto
deverá exercê-lo de acordo com sua livre consciência.
E todos, todos devem saber
que o Príncipe Dom Pedro de Orleans e Bragança,
pelos desígnios herdados de meu pai, o Rei Dom João VI,
é o legítimo soberano do Brasil.
♪ [Falatório ao fundo]
♪ [Falatório ao fundo]
Finalmente, Chalaça. Não vejo a hora de partir para Santos.
É, mas tu sabes que deves cumprir com o que se espera
- de uma figura real, não é? - Tu sabes que eu não sou assim.
Que esses salamaleques todos me enchem os bagos.
Prefiro estar na taberna com os amigos.
Ou no lombo de um animal cavalgando.
É, não sei se nós temos amigos sinceros aqui para irmos à taberna.
Preciso me divertir, Chalacinha.
- Já providenciastes o que te pedi? - Calma, Pedro, calma.
Já descobri onde vivem as prostitutas da cidade,
mas nós temos que ter discrição, né?
Essa noite eu arranjo tudo, mais tarde,
quando a cidade estiver deserta.
Essa noite talvez eu tenha outros planos. Quem é aquela?
Chama-se Domitila de Castro Canto e Melo. Mas é casada, Pedro.
Canto e Melo? É parente do Francisco?
Irmã. E Francisco quer falar contigo.
O que estás esperando, homem? Traz Francisco aqui.
♪
[Chalaça ao fundo] Francisco.
♪
Alteza.
Chalaça disse-me que queres falar comigo.
Sim, Alteza, é sobre minha irmã.
E o que tem tua irmã?
Domitila casou-se muito jovem e o marido sempre a maltratou.
É um beberrão e gasta tudo na jogatina.
Minha irmã não suportou o sofrimento e deixou-o,
mas ele a persegue e já a esfaqueou.
Mas que beócio.
E agora ele busca justiça querendo a guarda dos meus sobrinhos
e a acusa de adultério.
Eu peço sua ajuda, Alteza, para darmos um fim nisso.
Não te preocupes, Francisco. Passa ao Chalaça o nome desse maldito.
Eu o despacharei para bem longe de tua irmã.
Obrigado, Alteza.
♪
Senhores, muito boa noite. Estão a degustar bom vinho português?
Estou gostando muito da minha estada em São Paulo.
Com licença.
- Senhora Domitila. - Alteza.
Vosso irmão contou-me da má sorte em vosso casamento.
O meu irmão é um bom homem,
mas não devia ocupar Vossa Alteza com os meus problemas.
Uma mulher de rara beleza como tu não deves sofrer com brutalidades.
Ao invés disso, deve ser tratada como uma rainha
e levada a viver no paraíso.
E onde fica o paraíso, Alteza?
Eu creio que não se possa vê-lo aqui na Terra.
Isso é o que dizem os padres.
Mas acho que posso provar-te o contrário,
- se assim desejares, é claro. - O paraíso não pode ser recusado.
Especialmente se for oferecido pelo Príncipe Regente.
Mas o paraíso também não deve ser exposto a todos.
Muitos olhos nos vigiam, senhora Domitila, olhos invejosos.
Vossa Alteza tem toda razão.
Talvez pudesses me visitar em meus aposentos mais tarde.
Tenho certeza que lá teríamos mais calma para conversarmos
sobre o que deve ser feito para que tua vida seja mais feliz.
Como Vossa Alteza desejar.
♪
Alteza.
Nós precisamos de uma decisão.
- Querem tua prisão, Bonifácio? - Sim.
As últimas ordens de Lisboa são nesse sentido.
Afirmam que estou por trás da desobediência do Príncipe Regente,
veja a senhora mesma.
Exigem que Dom Pedro volte imediatamente à Lisboa
e que a nossa assembleia de ministros seja dissolvida.
Se acatarmos essas ordens, o Brasil deixa de existir.
Portugal sabe que não podemos aceitar isso.
Eles nos empurram para a independência.
Mas sem o Príncipe aqui...
As tropas portuguesas já partiram para o Rio de Janeiro.
E os nossos ministros? O que dizem?
Eu posso reuni-los em algumas horas,
mas posso garantir que eles apoiarão a independência.
Notícias de São Paulo?
Sim, a intervenção de Dom Pedro foi vitoriosa.
[Sussurra] Ai, graças a Deus.
A rebelião está completamente extinta.
Os líderes do levante já cavalgam para o Rio de Janeiro
para se apresentar a mim e à Vossa Alteza,
conforme ordens do Príncipe.
Eu fui preparada para reinar,
mas eu nunca pensei que me encontraria em uma situação tão difícil.
O que estou prestes a fazer
vai contra tudo o que aprendi no seio de minha família.
O que meu pai pensará de mim? E se Pedro não apoiar minha decisão?
Princesa, o Imperador Francisco se orgulhará da filha que tem.
E a senhora está mantendo o reino unido,
e honrando o seu casamento.
Proteger o seu trono e os seus súditos é o destino de Vossa Alteza.
Eu não sei se meus súditos desejam a manutenção de meu trono.
A Revolução Francesa contaminou o mundo inteiro.
Tudo era mais fácil quando o direito divino garantia o poder dos reis.
Alteza, a república é uma preocupação para depois,
agora precisamos livrar o país da exploração portuguesa.
O povo sabe disso.
Até mesmo aqueles que desejam participar mais diretamente
das decisões do governo.
Está bem, Bonifácio.
Reúna os ministros.
Assinarei o decreto separando os reinos.
E que a história me julgue.
Certamente, Alteza.
Com licença.
A senhora é a Princesa Regente. E está cumprindo seu dever.
Flora, minha amiga. Eu gostaria de ter a tua certeza.
Eu não sei se Pedro concordará comigo. Nem se meu sogro me perdoará.
Eu estou certa que diante das circunstâncias,
Dom João apoiará sua decisão.
E Dom Pedro se lembrará das últimas palavras do pai ao deixar o Brasil.
E eu...
tenho um enorme orgulho de estar ao lado
da mulher mais forte que já conheci.
[Suspiro]
Eu preciso escrever uma carta a Pedro.
Sim.
Manda me trazer papel e pena.
Sim. Sim, Alteza.
Com licença.
Pedro, Domitila está aqui.
Podes ir, Chalaça.
Tua beleza não para de me surpreender.
Pareces mais linda agora do que mais cedo.
Temos muito o que conversar, minha querida.
Precisamos livrar-te desse teu marido violento.
Me informei sobre ele, chama-se Felício e é alferes, certo?
Acho que não será difícil transferi-lo para os confins do Brasil.
Agora...
Tu foste corajosa quando abandonaste teu lar.
Mesmo sofrendo abusos desse homem
é certo que o povo paulista deve ter-te condenado.
Como vês, eu me informei sobre tudo, minha querida.
O embusteiro ainda falsificou tua assinatura
em um contrato de partilhas, não foi isso?
Já mandei Chalaça providenciar que tudo seja reparado,
pois eu não admito...
[Trovão]
[Ana suspira]
Pronto. Manoel já está dormindo, podemos continuar.
Mas, Ana, já está tão tarde. Amanhã levanto cedo.
Nada disso, Arrebita. Nós temos um trato.
"P" com "O", "Po".
Por...
Tu...
Gal... Portugal.
Ex... Ex...
Exige.
Exige...
A...
"V" com "O", "Vol".
Ta...
De...
Dom Pedro.
"Portugal exige a volta de Dom Pedro."
Muito bem, estás aprovada, agora vamos para a cama, meu amor.
Acho que teu professor merece uma bela de uma recompensa.
Ainda não, Arrebita. Ainda tenho muitas letras para juntar.
Mas que ideia fixa é essa? Vamos antes que o menino acorde.
Me dá alguma coisa para ler, vai. Depois cuido de ti.
Está bem, está bem, está bem.
Quero então que leias com bastante atenção o que vou escrever aqui.
Esforça-te. Pois é muito difícil.
♪
♪
Pronto. Leia.
To... da...
mu... lher...
Toda mulher...
De... deve...
obe... obe...
obedecer...
o...
seu...
ma... ri...
[Risos]
Continue.
Você está mongando de mim, Arrebita. Eu não quero mais ler nada.
Ótima decisão, amanhã continuamos, prometo.
Agora vem, vamos para a cama, vai.
Eu só sossegarei quando enfileirar todas essas letras
e ler um jornal de cabo a rabo.
Estás perto disso, Ana. Estás bem perto disso.
Não, muito. Tu não imaginas como estás perto.
Ah, Arrebita...
♪ [Sussurros]
[Trovão] [Chuva ao fundo]
Agora entendo a fama das mulheres paulistas.
E que fama é essa, Alteza, posso saber?
Chama-me Pedro, por favor.
Acho que já somos íntimos para isso.
Muito bem, Pedro...
que fama é essa que dizes terem as mulheres de São Paulo?
[Risos]
De serem fortes, de serem decididas.
E também dominadoras.
[Risos]
Desde o começo do povoado foi assim.
Os homens eram bandeirantes
e partiram para o interior para caçar índios e pedras preciosas.
E nós tivemos que dar conta de chefiar as famílias.
Nós não tivemos escolha.
O que não me disseram é que eram tão deliciosas.
Então, pelo visto já experimentastes muitas paulistas.
Não, decerto que não, minha querida.
Mas pela amostra que tive em teus braços já me dou por satisfeito.
Fazia tempo que eu não ficava tão pleno.
O apetite de Dom Pedro também é famoso.
É?
Não precisas escondê-lo de mim.
E também não queiras me iludir com elogios vãos.
Eu não sou estúpida, Pedro.
Eu sei que quando eu me levantar daqui,
vestir as minhas roupas e sair por aquela porta
eu serei apenas mais uma que se deitou com o Príncipe Regente.
Voltarás ao Rio de Janeiro e eu ganharei de ti apenas o esquecimento.
Pois tu estás enganada, Domitila.
Se te digo que o que se passou entre nós foi diferente, tu deves acreditar.
Embora eu mesmo não saiba entender muito bem o porquê.
Mas sei que nos veremos em breve, com toda certeza.
Amanhã parto para Santos.
Preciso inspecionar nossos fortes, visitar os parentes de Bonifácio.
Mas depois volto a São Paulo e quero estar contigo.
Terei que retornar ao Rio, lá isso é verdade.
Mas venho te ver sempre que for possível.
Antes mesmo do que esperas.
Tu não te livrarás de mim tão facilmente, Domitila.
É?
♪
♪
[Rangido de porta]
[Relincho ao fundo]
Bregaro, aqui estão.
Vocês devem partir imediatamente, entenderam?
- Sim, senhor Ministro. - Escutem.
Não me interessa que arrebentem uma dúzia de cavalos,
nem quantas noites vão ficar sem dormir.
É muito importante. Agora vão!
Vamos.
[Relincho]
♪
♪
♪
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