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♪
♪ [Marulho]
♪ [Marulho]
[Gonçalves Ledo] Uma viagem longa e um embarque realizado às pressas
não pouparam ilustres nem serviçais.
Sofrendo com a escassez de água e alimentos,
tripulantes e passageiros da esquadra real
lembravam-se do que havia sido deixado em Lisboa
para ser saqueado pelos franceses.
♪
[Vômito]
♪
O que tinham à bordo era insuficiente para uma jornada
que duraria quase dois meses.
♪
Dom João tentava a muito custo passar serenidade à todos.
Mas em seus aposentos se desesperava pensando ter tomado a decisão errada.
♪
A famosa fúria de Dona Carlota aumentou quando o navio que a levava
foi tomado por uma infestação de piolhos.
Os homens lançaram as perucas ao mar
e as mulheres precisaram raspar a cabeça.
♪
Depois de passarem por Salvador, as naus com a Família Real
partiram rumo ao seu destino final: o Rio de Janeiro.
♪ Música de abertura ♪
♪ Música de abertura ♪
♪ Música de abertura ♪
♪ Música de abertura ♪
♪
♪
[D. Marcos] O que achas, Dom Fernando?
[D. Fernando] Não sei. Tenho cá minhas dúvidas.
O prédio do Paço não é um palácio.
Mas Sua Alteza deverá levar isso em consideração.
Espera.
Deixe-me ver isso.
Esse vai para os aposentos da Princesa. Anda, depressa, vai.
Dom Fernando, e o padre?
Já está avisado. E os canhões já estão carregados.
E o povo?
Ansioso. As ruas estão cheias.
♪
♪
Elias, vejo que tens mercadoria nova.
Sim, Paulo. Acabaram de chegar.
E outras estão a caminho.
Olhos de águia para negócios é o que tu tens, meu amigo.
[Risada]
Vislumbraste uma nova maneira de aumentar os réis da tua fortuna
com a abertura dos portos através de Dom João.
O Brasil precisa de mais homens como tu.
A fortuna é exagero do amigo.
Sou apenas um comerciante.
Se consigo juntar minhas patacas, é com muito suor e muito trabalho.
Mas não tiro de todo a tua razão, Paulo.
Também estou certo de que a corte precisará de muito escravos.
Sem dúvida. Aliás, quase toda a corte já desembarcou.
Faltam o Príncipe, a Princesa e a Rainha.
E quando Dom João desembarcar...
Ah, meu amigo, aí o progresso nos aguarda.
[Risos]
E então, te interessastes por algum?
Todos já cumpriram quarentena, estão fortes e dóceis para o trabalho.
Na realidade eu preciso de uma mucama.
Nova, de coxas grossas.
Como já lhe disse antes, meu caro amigo Paulo,
minha Ana do Congo não está à venda.
[Risos]
Principalmente pelo que estás disposto a pagar.
Ela me é de muita serventia.
Ah, disso eu não tenho a menor dúvida.
Seria de muita serventia para mim também.
Uma preta com aquelas ancas.
[Tiro]
Finalmente.
Vamos! O progresso nos espera!
- Sebastião! - Sim, senhor?
Leve os pretos para a quinta.
Rápido! Anda, vai! Vamos.
[Tiro]
♪
[Falatório]
♪
♪
Quis a vontade de Deus que Vossa Alteza
e a Princesa Carlota Joaquina chegassem em segurança
em nossa afortunada cidade.
Por isso eu, Dom Marcos de Noronha e Brito,
Vice Rei do Brasil e servo fiel de Vossa Alteza,
humildemente lhe dou as boas vindas
em nome de todos os seus súditos em terras dos Brasis.
♪
Glória a Deus nas alturas.
In nomine Patris et Filii et Spiritus sancti. Amem.
[Todos] Amém.
E viva Sua Majestade, o Príncipe Dom João de Bragança!
[Todos] Viva!
♪
[Gonçalves Ledo] O povo recebeu Dom João e sua corte
com uma mistura de espanto, reverência e curiosidade.
Os mais ricos apressaram-se em se aproximar
daqueles que tinham influência sobre Dom João.
E esses não seriam desapontados pelo Príncipe Regente de Portugal.
Afinal, acostumado aos rituais e à pompa da corte,
seria necessário distribuir muitos títulos de nobreza
para reproduzir na colônia o esplendor dos salões portugueses.
Um grande aparato burocrático
começava a se desenhar nas bajulações ao Príncipe
e muitas melhorias seriam acrescentadas ao Rio de Janeiro,
que se preparava para ser sede do Império Português.
♪
Os primeiros anos da corte no Brasil foram de enorme prosperidade.
Dom João criou a imprensa régia
e a Gazeta do Rio de Janeiro começou a circular.
Ele fundou o Banco do Brasil,
a Academia Militar e escolas de medicina.
Também inaugurou a Biblioteca Real e o Horto Real,
organizou seu ministério e o Conselho de Estado.
Dom Rodrigo foi nomeado
Ministro de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra.
O que agradou muito a Lorde Strangford.
Elias Antônio Lopes, após ter dado o Palácio de São Cristóvão
generosamente ao Príncipe Regente,
foi agraciado com a ordem militar de Cristo.
Paulo Fernandes Viana foi nomeado Intendente Geral de Polícia
e se esforçava para manter a ordem e a obediência à Coroa
em uma colônia transformada subitamente
em centro do Império Português.
♪
O patrão de Arrebita, além de virar Conde do Rio Seco,
ficou responsável pelas compras da Casa Real.
E sua fortuna não parava de crescer, de forma escusa, é claro.
♪
Todos tinham livre acesso a Dom João e se esforçavam em conduzir
as decisões do Príncipe Regente para os seus interesses pessoais.
♪
[Lorde Strangford] Obrigado, Ana.
Joaquim, se tem uma coisa de que me arrependo
é de ter te vendido esta preta.
Não me venha com chorumelas, Elias,
bem sabes quanto paguei-te por ela.
Pois se quiseres desfazer o negócio, te devolvo as patacas que me destes.
[Risos]
Espera. Espera, Joaquim. Pois te pago o dobro.
[Risos]
Senhores, vamos deixar a preta de Joaquim de lado.
Não creio que ele a venderá.
E nós temos assuntos muito mais importantes a tratar.
Tens razão, Lorde Strangford! Minha Ana não está à venda.
Paulo, meus informantes me disseram a respeito de uma tal reunião
dos comerciantes brasileiros. O que é que tu sabes a respeito disso?
Ora vejam!
Lorde Strangford e seu exército de espiões.
Na minha posição é sempre muito importante estar bem informado.
Pois eu não sei nada sobre essa tal reunião.
Estranho.
Tu és o intendente da polícia e não sabes o que tramam por aí?
O que querem esses bugres nativos?
Estão insatisfeitos com o que chamam de "invasão dos produtos ingleses".
Dizem que Sua Alteza está privilegiando os ingleses,
em detrimento dos negociantes brasileiros.
Ora, mas que absurdo.
Isso é perigoso. Pode explodir uma rebelião.
Eu já tenho o nome do líder.
É ele quem está insuflando os outros.
Seria importante que tu, Paulo, desses um jeito nisso.
Não se preocupem.
Eu já sei o que fazer com esses agitadores.
Não podemos nos esquecer que muitos estão se manifestando pelo fim
do comércio de escravos, e essas ideias,
elas vêm da Inglaterra, meu caro Lorde Strangford.
Antonio de Araújo e Dom Fernando parecem que estão à favor.
Ora, esse Araújo é um beócio.
Como pode-se imaginar a vida sem pretos para nos servir
e fazer o trabalho pesado? Isso é um despautério.
[Risos]
Araújo não é mais uma ameaça.
Dom João já deixou de ouvi-lo faz tempo.
Agora só resta a ele choramingar com Dona Carlota.
[Risos]
Deus nos livre de uma mulher como aquela.
Se o próprio marido a quer a léguas de distância.
Não nos amofinemos. As coisas estarão como sempre estiveram.
Ainda mais agora que nossas tropas em Portugal expulsaram os franceses.
Graças ao exército inglês, não te esqueças, Dom Rodrigo,
que Portugal agora é um protetorado militar da Grã-Bretanha.
Acho que a saída dos franceses de Portugal
pode acelerar o retorno de Dom João.
E isso devolveria o Brasil à condição de uma simples colônia longínqua.
Dom João me tem como seu fiel conselheiro.
E eu já o convenci que não é hora de retornarmos.
Tem cuidado, Dom Rodrigo.
Dona Carlota Joaquina não ficou nada satisfeita
com a solução dada à Banda Oriental.
Ela pensa que nós conspiramos para que ela não se sagrasse
a regente das colônias espanholas na América.
Conspiração é uma palavra muito forte, Lorde Strangford.
Digamos que apenas ajudamos Sua Alteza a tomar a melhor decisão.
[Risos]
A Banda Oriental ainda não saiu dos meus planos.
A hora de Buenos Aires está próxima.
Nossas tropas já estão posicionadas nas fronteiras.
E eu também conheço as ambições da Princesa.
Dom João não fará nada sem me consultar.
Aliás, é especialidade de Sua Alteza não fazer nada.
[Risos]
Vamos erguer um brinde!
À Sua Alteza Dom João, à nossa aliança com a Inglaterra,
e que tudo continue como está.
- Um brinde! - Um brinde!
Dom Rodrigo? O que tens, Dom Rodrigo? Estás bem?
Nada demais, eu acho que bebi um pouco.
Devias consultar um médico.
Não é a primeira vez que se sentes assim.
Médico faz mal à saúde, Joaquim. Não foi nada demais,
apenas um mal estar passageiro. Já estou bem.
- Então façamos mais um brinde. - Opa!
Outro?
Ao navio negreiro que chega amanhã com mais mercadorias.
[Risos]
[Ruído de faca]
[Latidos ao fundo]
Ai!
Vosmicê é maluco, hein?
Olha que o patrão pode chegar, Arrebita.
Pois que chegue.
Chegue e eu lhe direi que quero te fazer a corte
e que me casarei contigo.
[Risada]
[Lâmina]
Vosmicê tem medo que eu te fure?
[Risada]
Pode furar-me. Meu peito é todo teu.
Vem cá, coloca tua mão aqui.
Sentes? Não vês como te amo?
Não sentes as batidas descontroladas desse meu pobre coração imigrante?
Era isso que vosmicê dizia às mulheres brancas de Portugal?
Quantas deixou esperando, chorando no porto, Arrebita?
Fazer a corte, era só o que me faltava!
Até parece que se faz corte com escravas.
Eles ainda estão aqui?
Sim. Estão todos borrachos. Já se foram cinco garrafas de vinho.
Ana...
escreve o que eu estou te falando.
Assim que eu conseguir juntar o dinheiro para comprar tua alforria,
eu vou me casar contigo.
- É? - Uhum.
Serás uma preta liberta.
E não teremos que dar satisfação a mais ninguém.
[Joaquim Azevedo] Ana! Traz mais vinho!
Não te falei? Agora some daqui. Vai, vai, vai.
Vou te visitar no teu quarto hoje à noite.
Eu durmo com a faca ao meu lado, você toma cuidado.
Onde está a casaca que vesti ontem?
Estava muito suja, Alteza.
Não concordo. Não sei onde vês tanta sujeira.
Vossa Alteza a usava há mais de três meses.
Está bem, vá lá que seja.
Olha, se continuares assim, vais acabar virando um índio
e tomando banho todos os dias.
Rufino...
Sentes saudades de Portugal?
Ora, Alteza. Confesso que algumas vezes sim.
Portugal já se livrou dos franceses.
É, mas eu não estou certo
de que a Europa seja um lugar seguro para mim.
- Posso te confessar uma coisa, Rufino? - Sim, Alteza.
Gosto daqui. Gosto.
Gosto de passear pelos jardins de São Cristóvão,
de visitar o Horto Real, de veranear em Santa Cruz.
Até mesmo ao calor infernal estou quase me acostumando.
Eu gosto daquelas frutas da Bahia...
Ah! Como é mesmo o nome, Rufino?
- Mangas, Alteza. - Mangas.
Eu hoje não vi Pedro e Miguel.
Ainda há pouco os vi fazendo troça com os macacos nas gaiolas.
[Risos]
Meu senhor, a Princesa Carlota mandou avisar
que precisa falar com Vossa Alteza.
Lá vens tu com más notícias.
Já não nos falamos na missa matinal?
Um problema de cada vez, José Rufino.
Primeiro vamos ouvir o que os meus conselheiros têm a me dizer. Vamos.
[Falatório]
[Lorde Strangford] Senhores.
Sentem-se, senhores.
Então, Paulo. Resolveste o problema dos pretos ladrões?
Não completamente, Alteza. Ainda não sabemos aonde se escondem.
Porém, conseguimos capturar um deles e fazê-lo falar.
Descobrimos o nome do líder da rebelião. Manuel.
É um príncipe de Angola ou algo assim.
Porém, antes que nos dissesse onde fica o quilombo, o maldito morreu.
Certamente pelas chibatadas que levou.
Talvez devêssemos oferecer uma xícara de chá,
ou um queijo inglês ao preto. O que acha?
O chá não se deu bem no Brasil, pois aqui preferem o café.
Mas o queijo inglês certamente seria encontrado com facilidade.
Já o queijo da produção local...
A Inglaterra trata de negócios conosco.
É natural que aqui venha vender seus produtos.
É natural que a nossa antiga aliada
queira despachar qualquer tipo de quinquilharia para o Brasil,
pois com o bloqueio continental imposto pela França,
aonde mais poderiam vender seus produtos encalhados?
Creio que Dom Araújo está mais uma vez enganado.
Os nossos produtos estão espalhados pelos quatro cantos do mundo.
Por que é que o Brasil abriria mão de importantes itens
para a melhoria da vida de seus cidadãos?
Patins de gelo e aquecedores de colchão
não me parecem importantes em terras tropicais, senhor.
E nem deveriam pagar impostos mais baratos
do que os produtos produzidos no Brasil.
Alteza, é importante resolvermos o problema da...
da Banda Oriental.
A trégua proposta por Lorde Strangford foi desrespeitada,
a região degenerou para uma guerra sem limites.
Soldados de Artigas, revolucionários de Buenos Aires
e forças leais à Espanha estão em confronto.
Esse é o momento de uma nova invasão.
Não estou bem certo disso, Dom Rodrigo.
Uma guerra com a Espanha não é oportuna nesse momento.
Isso causará reações imprevisíveis aqui e na Europa.
A prata que escoa do porto de Buenos Aires
seria um reforço considerável aos cofres do tesouro.
Que convenhamos, Alteza, não está nada bem.
Gastar nababos numa guerra fortalecerá o nosso tesouro? Ora, francamente!
[Discussão]
[Falatório]
Basta! Não quero mais falar sobre esse assunto.
- Mas, Alteza, eu insisto... - Cala-te, Rodrigo!
Eu tenho suportado com enorme paciência
a interferência de interesses não autorizados
em todos os departamentos, em todas as medidas de meu governo.
Mas eu ainda julgo ter o direito de tomar as decisões da Coroa!
E não estou certo sobre o que devemos fazer na Banda Oriental.
A primeira invasão que me aconselhastes
quase arruinou os nossos cofres e não trouxe resultado nenhum.
Senhores, por enquanto ficaremos como estamos.
Essa indecisão pode fazer com que um governo revolucionário
- se instale em nossas fronteiras. - Não quero mais ouvir-te, Rodrigo!
E vamos encerrar essa reunião agora,
antes que eu tome medidas das quais não irias gostar.
Creio que deves te lembrar de que serves à Coroa Portuguesa.
Ou eu devo te reavivar a memória?
♪ Melodia dramática ♪
Chamem um médico, por favor!
Rodrigo! Um médico!
♪
[Gonçalves Ledo] A morte de D. Rodrigo embaralhou as cartas e o jogo virou.
Dom Fernando foi nomeado em seu lugar
e Antonio de Araújo recuperou o prestígio junto a Dom João.
♪
Após perder seu mais forte aliado em uma corte hostil,
Lorde Strangford viu sua influência declinar
e foi chamado de volta a Londres.
Afinal, com Napoleão finalmente derrotado,
a manutenção da aliança luso-anglicana perdia a importância.
Assim, Dom João se sentiu mais livre para viver suas indecisões.
♪
♪
♪
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