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SEGUNDA PARTE
Leia!
Os trabalhadores que trabalham nos navios...
Continue, continue!
Os trabalhadores que trabalham nos navios...
Continue!
...reclamam por não receberem já...
Sim, continue!
-Os artesãos da Catedral... -O que eles querem?
dizem que os trabalhos prosseguem lentamente...
-por falta... -por falta de fundos, sim.
Continue!
-O frei Vince... -O quê?
o frei Vincenzo de Castelnuovo...
prior do dominicanos...
no convento de Santa Maria delle Grazie...
-escreve... -Fique atento, você!
O que esse prior deseja?
Reconstruí toda a lgreja de Santa Maria delle Grazie...
toda a parte de trás, como se chama...
a ábside! Mandei o Bramante fazê-la!
Vou ser enterrado lá, quando for o momento.
O Solari já está fazendo o monumento!
O que querem de mim, esses frades malditos?
Continuam se recomendando... do Excelentíssimo...
Sim, a benevolência, a benevolência!
Aqui está a benevolência!
Bem, se ê pela benevolência...
diga-lhes que podem contar com ela.
O Mestre Leonardo escreve...
O que tem ele, tambêm, para escrever? O Mestre Leonardo?
Leio?
Sim, leia.
''Lamento muito que por ter que ganhar meu sustento...
tenha que interromper a obra que Vossa Senhoria...''
Pule! Pule!
''Conhecendo a mente de Vossa Excelência...
como eu estou para receber meu salário há dois anos...''
Dois anos?
Mas não são dois anos!
Continuo?
Sim, continue.
''Do cavalo nada digo, já que conheço os tempos.''
lsso mesmo! É melhor nada dizer!
Afinal, o que querem de mim todos eles?
Refiz a Catederal, e a lgreja de Santa Maria delle Grazie...
refiz uma centena de canais...
onde se pode ir de barco do Tesino ao Adda!
E esse Leonardo já deveria saber disso...
porque foi ele que inventou as eclusas que, não por dentro...
aliás não por fora, se abrem por dentro!
Plantei tantos milhares de amoreiras...
que se encontram bichos da seda atê debaixo da cama!
Estou com dificuldades!
Dificuldades!
E tenho que pensar tambêm nos franceses.
Chame os dois amanhã.
Sim, Excelência. Quem Excelência?
O prior, não? E o outro... o Leonardo!
Dê-me! Quente ou frio ê a mesma coisa!
Beba você primeiro.
Nunca se sabe.
Você que ê cientista...
-acha que vai me fazer bem? -A vós não sei...
mas a ele certamente, pois está sendo pago.
Estes toscanos são todos uns linguarudos!
Vá! Avancem, os dois.
Portanto, portanto. Portanto...
para lhes demonstrar e a você tambêm...
a minha benevolência...
pensei que o famoso Mestre Leonardo, aqui...
que ê o meu pintor...
lhes pintará no convento toda uma...
toda uma parede do refeitório.
Uma última ceia.
Assim terão um afresco de meu famoso pintor e você...
Eh, Mestre! É com você!
Você será pago pelos frades.
Pelos frades?
Mas... Excelência...
Vamos lá, vamos lá! Que o dinheiro sai todo daqui!
Gostaria só que pensasse que no refeitório, os irmãos...
O que fazem os irmãos no refeitório?
Comem!
E como o Mestre Leonardo...
o excelentíssimo pintor, excelentíssimo...
não ê propriamente...
Não ê propriamente rápido. Eu sei. Paciência!
Enquanto ele trabalha, vocês comem na cozinha.
Mas querem que lhes mande quem? Um caiador?
Que com um pedaço de escova faz toda a parede de uma vez...
e acaba deixando uma porcaria como a de Montorfano...
que já está lá no refeitório!
Aliás, olhe...
já que ê você que irá lá, apague tudo aquilo!
Que quando vou ao convento para o jejum...
já que se come mal por causa do jejum...
não consigo mais ter aquilo na frente dos olhos.
-Mas Excelência... -Está bom, está bom assim!
A graça de Deus!
Bem, e você, o que faz aí com essa cara?
Marchesino!
Quando vêem o rosto de Marchesino Stanga...
o meu tesoureiro, ficam todos contentes.
Frades e pintores.
Ouça, dê 1 00 ducados adiantados a meu amigo...
Ah, sim, Leonardo. Leonardo!
''A Última Ceia''.
A última ceia era um tema que já tinha sido tratado...
outras vezes na pintura italiana.
Desde a primeira monumental composição de Giotto...
na Capela de Scrovegni...
em Pádua.
Andrea del Castagno em Florença...
Andrea del Castagno retomara o tema...
conservando o detalhe de São João...
reclinando a cabeça sobre o peito de Jesus.
Mas dispondo os apóstolos de frente para o espectador.
Menos Judas, isolado do lado de cá da mesa...
quase consciente de sua traição.
Francesco Botticini, por sua vez...
retomara o mesmo esquema...
com poucas variantes, como se vê.
A não ser, a de ter dobrado a mesa, em forma de ferradura.
O belíssimo afresco de Domenico Ghirlandaio...
no refeitório de São Marcos...
repete mais uma vez as ceias tradicionais.
Leonardo inicia logo uma longa série de esboços.
E um desenho, conservado na Academia de Veneza...
nos mostra a sua primeira idéia.
Este desenho talvez não seja original.
Provavelmente estamos perante uma cópia...
feita por um aluno.
A cópia de um primeiro esboço...
do qual não há mais vestígios...
e que se compunha desta forma...
repetindo, mais uma vez o modelo clássico.
E não podia satisfazer Leonardo.
''Tendo assim dito, Jesus...
com comoção no coração, proclamou abertamente...''
''Na verdade, na verdade lhes digo...
um de vocês vai me trair.''
Um de vocês vai me trair.
Os discípulos olharam uns para os outros...
incertos de quem falasse.
Um deles, o predileto de Jesus...
estava apoiado no peito de Jesus.
Apoiado no peito de Jesus.
Jesus disse: ''Para onde eu vou, vocês...
não podem ir''.
Para onde eu vou, vocês não podem ir.
Jesus disse...
''Para onde eu vou vocês não podem ir''.
Estas palavras...
isolam Cristo numa solidão inatingível.
A sombra da morte que Ele saber estar perto...
já o coloca muito distante dos discípulos.
Envolve-o num longo silêncio...
que será quebrado bem mais tarde com as palavras...
''Amem-se uns aos outros''.
Solidão.
Mandamento de amor.
Talvez... saudade de amor.
''Se fores sozinho, serás todo teu''.
Tambêm Leonardo procurou a solidão.
E pode ser que só agora...
perceba que esta solidão ê como o vazio.
Nenhum afeto e talvez atê nenhum amigo...
dão um sentido a seu longo e trabalhoso estudar.
Os alunos são egoistas.
Salay nunca saiu de sua mediocridade.
A mãe morreu tendo sido até ao fim...
para ele, Caterina.
Está nele ou nos outros, o defeito?
Como sempre, a culpa talvez esteja...
metade de um lado, metade do outro.
Pode ser que os outros...
achem muito penosa a esfera rarefeita em que ele vive.
E ele não ê suficientemente humilde.
''Se fores sozinho, serás todo teu''.
Ele está só. Mas quanto lhe custa estar só?
De agora em diante os desenhos da ceia...
representam um Cristo solitário.
Nem João, o discípulo predileto, está perto dele.
Deixou de reclinar a cabeça no peito dele...
como se lê no Evangelho...
e como o tinham representado Giotto e Andrea del Castagno.
Sozinho, entre os apóstolos...
Cristo não fala mais e não acusa.
Está absorto num pensamento interior seu...
já muito distante do tumulto que suas palavras...
''Um de vocês vai me trair'' suscitaram.
Mais distante do que o distante céu...
que se afasta atrás da sua cabeça...
na última luz da tarde.
Agora que criou o centro emotivo do afresco...
e fixou a idéia principal...
Leonardo, como sempre, começa a indagar...
a estudar.
E o refeitório da Santa Maria delle Grazie com o andaime pronto...
e o grande espaço do afresco já marcado na parede...
fica vazio.
É assim que trabalha, mestre Leonardo?
Eh! Senão me escaparia da memória!
ldêias para os apóstolos...
um que bebia, larga o copo, um outro fala a um terceiro...
e o que ouvia se vira para ele com a faca numa mão...
e na outra o pão já cortado.
-Um outro... -Desculpe...
não imaginava que os quadros eram escritos!
A pintura ê uma poesia muda.
E por hoje trabalhou o suficiente.
Porém, é mesmo nesse momento...
que Leonardo começa a trabalhar.
Vasari escreve...
''Gostava tanto de ver certas cabeças bizarras...
que poderia seguir qualquer um de quem tivesse gostado...
por um dia inteiro''.
''E o memorizava para poder desenhá-lo, depois...
como se o tivesse na sua frente''.
''Leonardo ia lá de manhã cedo e subia no andaime.
E desde o nascer do sol até o entardecer...
nunca largava o pincel...
esquecendo-se de comer e de beber''.
Palavras de Matteo Vandello, famoso escritor...
na sua vívida descrição de Leonardo do tempo...
em que trabalhava no refeitório da Santa Maria delle Grazie.
Paciência, irmãos, tenham paciência!
Acabará, acabará.
Ele lá dentro e nós aqui fora na chuva!
-Salay, prepare as tintas! -Sim, mestre!
-Salay! -Sim, mestre!
Azul marinho!
-Está com fome? Quer? -Quem dera!
Pegue, coma.
''Depois, durante dois ou três dias...
-suspenderia a pintura... -Salay!
O azul!
e ficaria só examinando o que havia pintado''.
Matteo Vandello, que nos descreve Leonardo assim...
era sobrinho do prior da da Santa Maria delle Grazie.
Tinha, então, só 9 anos...
e estudava com outros garotos no convento.
-Venham! Venham! -Vamos ver!
-Olhem, que bela pintura! -É grande!
Que bonita!
Vamos ver!
Que bonita!
Mas se não está acabada como pode dizer que ê bonita?
Viu? Tem todos os apóstolos!
-Aquele ê São João! -E aquele, São Pedro!
Aquele ê Judas!
Judas se parece com o prior, tio dele!
Calado!
Seu imbecil!
O pintor! Está chegando o pintor!
-Vamos sair! -Onde quer ir, está louco?
Vamos nos esconder!
Corram, lá para baixo!
Não, aí vão ver! Venha aqui!
A porta! Esqueceram-se da porta!
Muitos anos depois, quando já era grande e famoso...
Vandello conta o seguinte numa de suas novelas.
''Partia muitas vezes da Corte Vecchia...
onde trabalhava naquele cavalo de terra e...
''Partia muitas vezes da Corte Vecchia...
onde trabalhava naquele cavalo de terra...
e em pleno meio-dia, quando o sol está no auge...
ia, caminho afora, direto para Grazie.
-O que ele faz com esse chapêu? -Schiu!
Em cima do andaime, pegava o pincel...
dava uma ou duas pinceladas numa das figuras...
e depois descia logo e ia a outro lugar.
Cuidado! Para baixo!
-Já foi embora! -Veio fazer o quê?
Nada!
Deu uma pincelada e foi embora.
Será por acaso maluco?
Agora para fora, garotos!
Já fizeram sua parte. Vão brincar.
Você tambêm, Matteo. lsso. Vá.
Esta...
atormentada pesquisa...
não aniquilou, porêm, a idêia inicial.
O tumulto e a agitação dos apóstolos...
parecem tornar ainda mais inatingível...
o solitário silêncio de Jesus...
para cujo rosto...
que sobressai pensativo sobre o cêu do anoitecer...
convergem todas as linhas da composição...
e os gestos dos apóstolos...
compostos com admirável sabedoria...
em grupos de três...
e de três.
Dois grandes arcos de círculo...
unem entre si os dois grupos da direita...
e os dois grupos da esquerda...
e no cume de cada um destes dois arcos...
estão os dois pólos dramáticos da composição.
À direita, a cima de todos, está o rosto de Felipe...
que personifica a candura, a fê...
ê o apóstolo que seguiu Cristo na primeira convocação...
e Felipe foi posto acima de todos.
À esquerda, mais abaixo de todos...
está o rosto de Judas.
A linha que une os rostos de Judas e Felipe...
passa exatamente sobre o rosto de Cristo.
Mais uma palavra sobre a têcnica...
usada por Leonardo na sua pintura...
que não pode ser chamada de afresco.
O afresco, como diz a palavra...
''pintado a fresco''...
se executa pintando o reboco ainda fresco...
recentemente colocado sobre a parede.
O reboco ainda fresco absorve a tinta...
que nele fica profundamente incorporada.
Mas esta têcnica exige rapidez e não admite hesitações.
Em caso de erro, deve-se raspar tudo: reboco, tinta...
e aí se recomeça.
Nada de mais estranho ao espírito de Leonardo...
que ama aperfeiçoar a sua idêia...
atravês de um longo aprofundamento...
de uma longa atividade interna...
que se traduz numa não menos atormentada execução.
Seu pessoalíssimo modo esvaecido de trabalhar...
não se adapta ao afresco.
Por isso...
Leonardo, abandonando as têcnicas tradicionais...
sobre o primeiro reboco ainda tosco...
coloca um segundo reboco, como um estuque compacto.
Sobre este estuque...
ele espalma um estrato de imprimadura...
como sobre uma tela antes da pintura.
Sobre a parede assim preparada...
ele vai pintar com têmpera forte.
À moda antiga, ou seja...
com cores dissolvidas em gema de ovo.
Este artifício permite a Leonardo...
trabalhar sobre a imensa parede...
com a mesma minúcia e paciência...
com as quais teria pintado uma tela.
Mas...
infelizmente, os três estratos sobrepostos...
o gesso, o estuque, o reboco...
se dilatariam diferentemente...
e absorveriam a umidade diferentemente...
rachando-se.
Em 2 de janeiro de 1 497, Beatrice d'Este...
a pequena esposa obstinada e voluntariosa...
de Ludovico, o Mouro...
a que mandou embora as favoritas de Ludovico...
a que levou Ludovico a eliminar Gian Galeazzo...
e a se fazer proclamar duque...
vem à lgreja de Santa Maria delle Grazie.
Está doente, sofrendo.
A gravidez já avançada...
se apresenta muito difícil e dolorosa.
Ah! Mestre Leonardo!
Está aqui pintando ''A Última Ceia''!
Todos dizem maravilhas dela.
Estamos passando pelo claustro para ir...
estamos indo rezar no túmulo da pobre Bianca...
pobre filha, nem quinze anos tinha...
o pai dela, o Mouro, o duque, a adorava.
Mas que bela pintura...
Temos que partir.
Esta noite temos um baile...
Mais uma festa...
Mas João...
Por que João...
não tem a cabeça apoiada no ombro de Jesus?
Porque...
porque naquela hora ninguêm pode confortá-lo.
É verdade, ninguêm pode confortá-lo.
Vamos! Está ficando tarde.
-Lorenzo! -Estou tão cansada!
Naquela mesma noite, em plena festa...
Beatrice teve um grave mal estar.
Beatrice!
Beatrice!
Ajudem! Vamos levá-la daqui!
Beatrice! Beatrice!
O que ela tem? Abram passagem!
Suma, suma!
Lá, em cima da cama.
Devagar.
Cuidado.
Devagar.
Beatrice...
Beatrice...
o que tem, Beatrice?
Um mêdico, depressa!
Depressa! Um mêdico! Depressa!
Um mêdico!
O que ela tem? O que ela teve?
Está muito mal...
a criança, um parto prematuro.
O que ela tem?
O que ê?
A música...
-Peça que cantem. -O quê?
A música...
Ah, sim...
a música, a música.
Marchesino.
Marchesino!
A música.
-Sim, a música! -Não interrompam por mim...
Senhores!
Senhores!
A duquesa quer...
que a festa continue.
Toquem!
E aí, está ouvindo?
Agora tem música.
-Está ouvindo? -Não a ouço...
Sim, sim. Tem música. Está ouvindo?
Beatrice, está ouvindo a música? Está aí!
Beatrice!
Beatrice!
Assim, em plena festa...
Beatrice morreu.
À meia-noite.
As tábuas e os andaimes, levem-nos para lá!
As tábuas e os andaimes, levem-nos para lá! Força!
-lsso, assim, todos juntos. -lsso, todos juntos! Força!
-Comecem a levá-los embora! -Levem-nos embora! Força!
-Vamos! -Vamos!
Lá no fundo do refeitório!
-Para lá, vamos! -Para lá, vamos!
Salay, o que está fazendo sozinho?
-Venha aqui ajudar! -Estou dando ordens daqui de cima!
-Que ordens, vamos! -lsso, empurrem todos juntos!
Em fevereiro de 1 498...
podia se dizer que a pintura estava acabada.
A admiração que suscitaria seria imensa.
lnfelizmente, durou poucos anos intacta.
Levemos tudo embora!
Tem que ficar tudo pronto, hoje o duque vem vê-la!
Salay parece um pavão com aquela capa nova.
Tragam as estacas!
Ponha-as em ordem!
Salay é sempre o mesmo. Agora tem dezesseis anos.
Cada vez mais bonito...
cada vez mais vaidoso e presunçoso.
Ah! Marco, podemos levar embora o andaime?
Sim.
Depressa rapazes, força!
E a seu modo, num modo quase animalesco e selvagem...
dedicado a Leonardo...
que continua anotando minuciosamente.
A caligrafia ao contrário de Leonardo...
lê-se num espelho por transparência.
''Dia 4 de abril de 1 497. A capa de Salay''.
''4 braças de tecido, 1 5 liras''. ''Em dinheiro, 4 liras''.
''Veludo para ornamentação, 9 liras''. ''Em dinheiro, 1 lira''.
''Fechos, camisetas, manufaturas''.
Leonardo anota todas as despesas...
e no final acrescenta...
com o mesmo tom distante...
''Salay rouba dinheiro''.
-Coloquem o tapete! -Podem ir embora.
-E as cadeiras? -Duas?
Duas, sim! É o que o duque quer...
mesmo a duquesa não estando.
Vamos, arrumem! Tirem a serradura!
-Estiquem o tapete! -Desfaçam as dobras!
-Continuem, vamos! -Preciso de ajuda!
A obra de arte ainda não está acabada...
mas os três estratos de reboco já começam a rachar.
Temos que pensar que o destino favorece...
uma vontade insuspeita de auto-destruição...
que, nunca confessada...
se esconde na alma de Leonardo?
Caso...
ou destino adverso...
quase toda a maravilhosa obra deste grande artista...
se esfarela assim que acaba.
Em seguida, veremos exemplos mais graves.
Ou ê perdida...
ou fica escondida...
como as inúmeras invenções deixadas nos seus escritos...
entre a poeira dos arquivos...
que são encontradas só quando...
sêculos depois, às vezes, a humanidade, com esforço...
as inventou outra vez.
Todavia...
naqules poucos anos em que sobreviveu intacta...
''A Última Ceia'' fez escola no mundo.
Ainda que 50 anos depois...
Vasari tenha escrito que parecia...
como uma mancha confusa.
lnfelizmente, até a sorte adversa...
pareceu se enfurecer contra aquela obra prima.
Em 1 652, os frades cortaram um pedaço dela...
para abrir uma passagem entre a cozinha e o refeitório...
da forma que os alimentos...
não chegassem muito frios à sua mesa.
Ainda bem que esta porta era mesmo necessária.
Entretanto, a obra do tempo continuava inexorável.
Os soldados de Napoleão...
transformaram o refeitório em estábulo...
apesar da ordem contrária que Napoleão...
como diz Stendhal...
escreveu, montado, sobre seus joelhos.
E em agosto de 1 943...
a zona de Santa Maria delle Grazie foi intensamente bombardeada.
O afresco...
fora protegido com sacos de areia...
e, a princípio, essa frágil defesa pareceu aguentar,
como que por milagre.
Mas a guerra recrudescia...
e a chuva caía...
e ninguêm podia se ocupar de ''A Última Ceia''.
Em 1 946, após a reconstrução do refeitório...
foi iniciada uma paciente e sábia obra de restauração...
mas o estado atual de ''A Última Ceia'', infelizmente...
é este que podem ver.
Aquela rachadura era como...
que um sinal premonitório de um desabamento.
Em um ano e meio...
todo o mundo no qual viveu Leonardo...
se desfaz e desmorona.
Os estrangeiros...
os franceses...
sempre chamados para socorrer os senhores italianos...
nas miseráveis rivalidades que dividem...
os pequenos estados da península...
aprenderam o caminho das armas.
Luís Xll invade o ducado de Milão...
reinvidicando uma presumível hereditaridade de sua avó...
Valentina Visconti.
Os Franceses ocupam Alessandria...
chegam às portas de Milão.
Calma, irmãos.
Tenham calma.
Calma.
Senhor Duque!
Na noite de 2 de setembro de 1 499...
Ludovico, vencido, antes de fugir de Milão...
vem rezar pela última vez no túmulo de Beatrice d'Este...
a jovem esposa.
Vão! Vão!
Para o Mouro, deixar Milão é também deixar Santa Maria delle Grazie...
lugar, para ele, particularmente caro.
Alí tinha gastado trabalho e dinheiro...
mandara colocar a tumba dele e de Beatrice.
Queria ser sepultado na Santa Maria delle Grazie.
Tinha mandado decorar o refeitório...
com o afresco mais belo do mundo.
E agora tinha que fugir, deixar tudo...
a Santa Maria delle Grazie, Milão...
o ducado que com paciente astúcia tinha conquistado.
Mais umas vez derrotado pelos franceses...
morreria prisioneiro na França.
Com apenas 57 anos.
Em 6 de outubro de 1 499...
os franceses entram na cidade.
Luís Xll entrou solenemente...
assistindo a um Te Deum na Catedral.
E uma seção de bombardeiros gascões...
se exercitou contra o maravilhoso...
modelo de cavalo de Leonardo.
Com Salay e Luca Pacioli...
Leonardo deixa Milão.
Anotou com a sua costumeira, gélida precisão...
''O duque perdeu o Estado, as coisas e a liberdade...
e nenhuma obra foi acabada para ele''.
Antes de partir...
Leonardo fechou e trancou, inutilmente...
a pequena vinha fora da porta Ludovica...
que apenas poucos meses antes, o Mouro...
sempre em dívida para com o seu excelentíssimo pintor...
lhe tinha oferecido.
Não era grande coisa...
1 6 metros, ou seja menos de 1 hectare...
mas Leonardo, em cima dela fizera mil projetos.
Ele ficou durante 20 anos a serviço de Ludovico...
e teme as represálias dos francesas...
que, com efeito, tomariam posse daquela vinha.
Assim se dirige para Mântua...
onde lsabella d'Este, irmã de Beatrice d'Este...
reina num pequeno estado.
Que acolhida lhe reservaria Mântua?
''A água que tocas dos rios...
é a última que foi...
e a primeira que vem... ''
Seguir o silencioso e infinito caminhar do tempo.
Abandonar obras que custaram sangue e dor.
Voltar às incertezas e às necessidades...
com 50 anos.
A partida de Florença, numa manhã de primavera...
fora uma libertação.
A partida de Milão neste frio dezembro...
é uma fuga.
Mântua...
é um minúsculo estado onde lsabella d'Este...
casada com Francesco Gonzaga...
reina numa corte pequena, mas requintada.
lnteligente, culta, brilhante...
lsabella adora a pintura, a música, a literatura...
não só por inclinação natural...
mas atê por estar consciente da lustre...
que, naqueles sêculos, as artes, refletiam para os senhores.
lsabella, incansável, manda escrever...
escreve para conseguir, de cada ilustre pintor...
pelo menos uma obra.
Uma obra-prima para acrescentar às que já possui.
Obras-primas...
para mostrar aos príncipes e embaixadores...
que passam pela região.
Desculpe, vou apresentá-lo sem cerimônia.
Somos uma família simples.
lsabella!
Os embaixadores querem se despedir...
antes de partir para Veneza.
Oh, senhores!
Surpreendem-me, aqui no meu estúdio!
Excelentíssima marquesa...
Na intimidade de minhas coisas...
de minhas pinturas...
Perugino...
Mantegna...
-Sinto-me entre amigos. -Grandes amigos!
Vossa Excelência ama as pinturas?
Muitíssimo!
Então...
venha Excelência.
É uma salinha que quero te mostrar.
Nós a chamamos a càmara dos noivos.
Os afrescos são de Andrea Mantegna.
Por favor!
Desculpe por introduzi-lo assim numa de nossas salas...
mas a beleza das pinturas...
lhe fará esquecer esta pequena ofensa à etiqueta.
Oh!
O violeta!
O violeta daquele traje!
Nunca me canso de admirá-lo!
E este azul!
O marquês Ludovico...
e a marquesa Barbara de Hoenzollern.
-Por favor, entre! -É extraordinário!
-Obrigado -Por favor.
-Entretenha-os. -Mas ê claro.
Em outra ocasião...
a chegada de um artista como Leonardo...
teria coberto lsabella de felicidade.
Vá, vá.
lnfelizmente, hoje...
as condições de seu pequeno estado são precárias.
Os franceses, donos de Milão são vizinhos perigosos.
O que diriam, se a corte de Mântua...
se tornasse refúgio daqueles que hoje...
fogem de Milão?
Não, peço-lhes.
Venha. Chegou um seu amigo.
Também Cecilia Gallarani...
como outros náufragos da corte milanesa...
procurou refúgio junto a lsabella...
a qual, ainda que não querendo rejeitá-los...
sabe que a presença destes fugitivos a compromete.
Mestre Leonardo!
Não, sois um príncipe da arte...
e como tal tem que ser recebido.
Venha, tenho uma surpresa para vós.
Cecilia!
A condessa Bergamin!
Caro mestre...
vê-lo de passagem por Màntua...
nos torna profundamente felizes.
De verdade.
Quantos acontecimentos!
Quantos tristes acontecimentos...
nestes tristes meses de outono!
Chega, chega!
Então, para onde vais? Para Veneza?
Sim, para Veneza!
Mas terá que ficar uns dias!
Preciso de uma obra sua.
Mantegna, Perugino, mas sem um Leonardo...
o meu estúdio não ê o meu estúdio!
Lembra-se Cecilia...
quando lhe mandei um mensageiro...
pedindo que me enviasse, ainda que por um dia...
o retrato que lhe havia feito Leonardo?
Oh! Se tivesse tempo de fazer meu retrato!
Leonardo...
que provavelmente tinha pensado em ficar em Mântua...
compreende que não pode aí permanecer.
Zoroastro, a bagagem está pronta?
Sim, mestre.
Bom dia, meu filho!
Já me despedi de Sua Excelência.
Vamos partir já?
Ah! Fez uma cópia!
Sim, para levar comigo...
e, quem sabe, transformá-la em pintura.
-Zoroastro! O cavalete! -É para já!
Assim paga, com um magnífico desenho...
hoje no Louvre...
a sua dívida por aqueles poucos dias de hospitalidade...
Leonardo se despede.
Oh! Que bonito!
Bonito! Obrigada! Mas...
uma pintura, uma verdadeira pintura...
com aquela sua magia de luzes e sombras...
Este retrato de Vossa Excelência...
pretendo transformá-lo em uma pintura.
-Oh, vai levá-lo embora? -Não, fiz uma cópia perfeita...
mas a imagem mais viva de Vossa Excelência...
conservo-a aqui.
Tenho certeza.
Certeza de que sua promessa será mantida.
Certeza.
Adeus!
Se fossem outros tempos!
Leonardo não irá manter a promessa.
Partiu de Mântua, deixando na irrequieta marquesa...
a mágoa de uma grande ocasião perdida.
Se fossem outros tempos...
Os tempos são difíceis.
O rei da França, da vizinha Milão...
pensaria até em invadir Mântua.
lsabella iria ao seu encontro toda bondosa...
com um vestido de lírios de ouro...
que é o emblema francês...
e um quadro de Mantegna para lhe oferecer.
E ela, pequena mulher...
salvaria assim o estado.
Mas não se perdoaria pela partida de Leonardo.
Perseguiria-o durante anos...
por meio de cartas e embaixadores.
Deixada para trás a pouco hospitaleira Mântua...
Leonardo se dirige mesmo para Veneza.
Leonardo foi certamente para Veneza.
Naquela breve estada teria tido contatos...
com o senado e com os senhores?
Não sabemos...
mas deve ter tentado fazê-los...
pois eram uma necessidade premente.
Ele pensou logo em conquistar...
o restrito grupo de aristocratas desconfiados...
que governava a Sereníssima...
enfrentando o grande problema de Veneza...
como defender a cidade dos Turcos.
Poucos meses antes, o Doge Antonio Grimani...
foi duramente derrotado pelo sultão...
e Veneza teme, atê, ser invadida por terra.
Ele escreve...
''Meus ilustríssimos senhores...
tendo eu visto que os turcos não podem vir para a ltália...
de nenhuma parte da terra firme...
sem passar pelo rio lsonzo...
pensei não poder defender...
outro lugar com tamanha força...
com a qual deve ser defendido o citado rio''.
Não sabemos se estes esboços de cartas...
se referem a um específico encargo...
ou se são projetos que Leonardo pensa apresentar.
Mas como Veneza pode ser assaltada...
sobretudo pelo mar...
uma inesperada invenção, absurda em sua temeridade...
brilha aos olhos de Leonardo.
Zané, assim mesmo, Zané!
Zané, coloque devagar as pedras na sandália!
Ponha-as devagar, para que não afunde tudo!
Que o barco fique assim, com água pela metade...
para se firmar bem!
Com água pela metade, isso!
Não ensine.
Não ensine, e será excelente.
Ah, sim.
Chame um costureiro.
Um costureiro às escondidas...
e mande fazer o traje em casa.
Em segredo, sim!
Em segredo!
Aqui em baixo está o homem.
Uma máscara...
com os olhos de vidro...
para poder nadar debaixo de água.
E no fôlego...
rosto...
fechadura.
No render da guarda...
explodir os navios por baixo incendiar todos as galês!
São precisos...
uma espêcie de cinta...
um gibão, meias e um odre para soprar.
Um odre para o ar.
Sem ar, irá para o fundo, puxado pelos sacos de areia.
Cheio de ar, voltará à superfície da água.
Uma máscara com olhos de vidro.
Levar uma faca, que corte bem...
em caso de ser apanhado por uma rede.
Estas frases entrecortadas, confusas...
por vezes incompreensíveis para nós...
Leonardo pensou-as de verdade, e escreveu.
Ele teve a inesperada intuição...
de uma nova arma terrível, destruidora...
para oferecer a Veneza.: o submarino.
E para o apoiar...
homens que nadem e ajam debaixo de água...
os mergulhadores.
Este Leonardo imprevisível, exaltado...
transtornado pelo aflorar de idêias que o perturbam...
surge a nossos olhos assim: vivo e preciso.
Das nervosas anotações...
de uma das páginas do Código Atlàntico...
como de uma radiografia.
O homem superior...
melancólico...
irônico, como o sorriso de suas figuras...
ê arrastado pelo entusiasmo como um garoto...
diante da possibilidade de uma empreitada...
jamais tentada pelo homem...
e que ele irá tentar.
Por isso recomenda a si próprio o segredo...
''não ensine e será apenas excelente''.
E como um garoto, sonha pôr fogo às galês... ele próprio!
Se não se renderem dentro de quatro horas...
irão para o fundo!
Também esta frase se lê no Código Atlântico.
Esta é uma empreitada quase absurda.
Assaltar a frota turca e fazê-la ir pelos ares...
com navios submarinos e mergulhadores...
por um instante, Leonardo sonha realizá-la ele próprio.
Em segredo, mandará costurar seu traje.
Ele mesmo incendiará as galés.
Ele terá eterna fama de audácia...
e isso lhe trará grande riqueza.
Será rico, poderoso...
livre para se dedicar a seus estudos.
E para ter certeza que não o enganem, anota...
''Faça um acordo... que deixe claro...
que metade do resgate pelos prisioneiros...
seja seu.''
''Sem exceções.''
''E o depósito do dinheiro e o pagamento...
seja feito atravês do Manetto.''
Este Manetto...
é Alvise Manetti, pessoa de sua confiança.
Nunca acabamos de descobrir Leonardo.
Achamo-lo frio, árido.
Tão elevado em suas meditações...
que nos dá uma impressão inumana de gelo...
como um cume sempre nevado por ser muito alto.
Mas logo depois...
talvez contra a vontade dele...
o vemos na mesma altura nossa...
transtornado pelo entusiasmo de uma invenção...
inaudita para aqueles tempos...
mas envolvido por uma emoção...
que nunca suspeitaríamos nele.
Por uma emoção que...
ousaríamos dizer infantil.
O espantoso assombro que sempre nos comunicou...
cede o lugar à comoção...
e, afirmamos, atê ao afeto.
Como e porque...
eu não escrevo...
o meu modo...
de ficar debaixo da água.
lsto, eu não quero divulgar, nem publicar...
pela natureza ruim dos homens...
que o usariam...
só para assassinar no fundo dos mares...
destruíndo os navios...
e afundando-os...
com os homens que estão dentro deles.
As horas exaltadas da noite já passaram.
O sonho de grandeza e destruição virou...
e assim deve permanecer, um sonho.
Um escrúpulo moderníssimo, aliás atualíssimo...
pensem no inventor da bomba atômica...
contêm Leonardo.
O escafandro e a frota de submarinos...
que reluziram na sua fantasia numa hora de exaltação...
ficarão para sempre sepultados...
numa das páginas de seus livros secretos.
Zoroastro!
Zoroastro, vamos!
Senão, nunca vamos partir!
-Onde está o mestre? -Na praça.
Está bem.
Mestre!
Mestre!
Espere!
Em Florença...
enquanto ele estudava minuciosamente...
a anatomia do cavalo...
Verrocchio moldava e levava a um bom desfecho...
o seu monumento a Colleoni.
E agora, o cavalo moldado por Verrocchio...
está aqui, na praça, feito em bronze...
podendo desafiar os séculos.
Enquanto os restos do cavalo dele...
desfigurado pelos gascões...
estão se desfazendo debaixo da chuva.
Quanto trabalho...
quanto gênio desperdiçado...
quantos estudos começados e não acabados.
Mas não é tarde.
Ele também, Leonardo, vai fazer.
Tem 50 anos...
e com as mãos ainda consegue...
dobrar e quebrar uma ferradura.
Não se perderá mais em estudos e em sonhos.
Agora acumulou até conhecinento demais.
Não irá mais devagar.
lrá fazer.
Vamos partir, mestre?
Sim.
Salay, pare! Venha!
Olhe!
-Florença! -Como ê pequena!
As salas e moradias pequenas reavivam o gênio.
As grandes o desviam.
Vamos!
A Florença que Leonardo reencontra...
nesta primavera de 1 501...
é muito diferente da Florença que ele deixou 20 anos antes.
Sobre a cidade alegre e rica de Lorenzo, o Magnífico...
esplêndida de obras de arte...
sobre a cidade despreocupada e pagã...
se projetou uma sombra.
Vá! Sobre os homens frágeis e caídos!
E vocês logo morrerão!
Logo morrerão e não saberão nem o dia, nem a hora...
e todavia...
Gerolamo Savonarola pregava São Marcos...
sacudindo a alma dos florentinos...
com a ameaça da danação e do pecado.
Todas estas vaidades...
têm que ser queimadas no fogo para a salvação de suas almas!
E somente assim...
Ao fogo! Para a salvação de suas almas!
Ao fogo os ouros...
as pratas...
as pedrarias...
e as demais coisas que...
Por 4 ou 5 anos...
guiada pela palavra ardente de seu profeta...
Florença chorou, fez penitência.
Queimou muitas das estupendas obras de arte...
que os gênios do século XV criaram...
consideradas corruptoras e imorais.
Mas depois se rebelou...
e lançou o próprio Savonarola ao fogo.
Assim, um quadro popular da época...
ilustra a morte de Savonarola.
Hoje, a cidade, passado o pesadelo...
procura esquecer e se recompor...
mas algo se perdeu para sempre.
Aquela alegre serenidade...
aquele espírito de juventude despreocupada...
que acompanhou o esplêndido sêculo XV.
Os tempos mudaram...
-e quem os exprime hoje... -O que fazem?
ê um jovem pequeno, contorto...
Eh! Dê-me a maceta!
com as mãos nodosas...
que tem, hoje, pouco mais de 25 anos.
Desconfiado, violento, fechado em si mesmo...
e ao mesmo tempo aberto às confessões mais gritadas!
Michelangelo é o antagonista nato de Leonardo.
A presença do novo gênio irritado da nova geração...
e a do mestre...
sereno na plenitude de seus anos...
a contemporânea presença deles...
no restrito círculo de Florença...
É o mestre, olhem! O velho está passando!
fatalmente os levará a um choque.
Já ê carnaval! Lá vão os reis magos!
Na verdade, queres dizer a bruxa dos reis magos!
A primeira disputa de ambos...
acontece na frente de um enorme bloco de mármore...
que jaz há anos...
abandonado junto a Santa Maria del Fiore...
e que os dias pediram aos senhores...
para nele esculpirem uma estátua.
Então mestre...
a base tem 8 metros por 6...
-e o comprimento... -Oito por 6.
-8 metros... -e o comprimento...
e o comprimento...
o comprimento...
o comprimento ê de 24 metros.
-Bela pedra, não ê? -Bonita!
Que pena, exposta à água e ao sol...
está um pouco estragada pelo tempo.
Como ê que está tão interessado...
por este mármore?
Não escreveu que o pintor ê muito superior ao escultor...
porque o pintor trabalha com a mente...
enquanto o escultor trabalha com os músculos?
O trabalho dos músculos...
deixe para os jovens, que são mais robustos!
Jovem!
Endireite-a!
Por que deveria eu endireitar as coisas que você entortou?
Venha, vamos!
Piero Soderini...
Supremo Magistrado da República de Florença...
entregou aquele disputado bloco de mármore...
a Michelangelo...
que dele faria o seu Davi.
Leonardo aceitou a realização, para os frades dos servos...
uma Santa Ana com a Virgem e o Menino.
-Vamos! -Por aqui!
O desenho...
que iria ser transformado em pintura...
ficou pronto na primavera de 1 501.
Os frades foram conquistados por ele.
lrmãos...
por favor, vão.
Agora virão as pessoas para vê-lo.
Que não os encontrem no claustro!
lrmão!
A imagem ainda não foi benzida!
Mas ê tão bonita...
lrmão...
abra a porta, deixe as pessoas entrarem.
lrmãos, já pode abrir...
-o prior mandou abrir! -A expectativa ê enorme!
Entre, entrem! Entrem todos!
Entrem, irmãos.
-Por favor. -Por favor.
E agora, ouçamos outra vez Vasari.
''Duraram dois dias as idas para vê-lo...
de homens e mulheres, jovens e velhos...
como se fossem às festas solenes...
para ver aquela maravilha de Leonardo...
que provocou espanto em todo o povo''.
Em frente, irmãos! Em frente!
''Porque se via no rosto daquela Nossa Senhora...
tudo o que de simples e belo...
pode conferir graça a Mãe de Cristo''.
O desenho, verdadeiramente estupendo...
se encontra hoje em Londres...
na National Gallery.
Fazendo um esboço?
O que lhe parece?
Para mim é bonito mas...
Esse ê só o desenho. Vamos esperar o quadro feito...
se ê que o pintará!
Meu Deus! O desenho ficou assim.
Leonardo nunca pintou o quadro.
Anos depois...
não se sabe exatamente quando...
Leonardo, aproveitando, infelizmente...
em grande parte, a ajuda de seus alunos...
pintou outra Santa Ana, muito semelhante a esta...
que hoje se encontra no Museu do Louvre.
Michelangelo tinha razão.
Todavia...
após ter pousado os olhos sobre o desenho milagroso...
ele nunca mais desenharia como antes.
Uma certa...
macieza de matizado ficaria grudada...
talvez com mágoa para ele, aos seus dedos.
Ímola.
Esta belíssima e famosa...
planta da cidade fortificada de Ímola...
foi desenhada por Leonardo em outubro de 1 502.
Dado que, nova e inesperadamente...
Leonardo abandonou Florença...
para se pôr a serviço de um príncipe guerreiro...
e se dedicar exclusivamente à arte militar.
Com uma carta-patente...
de 1 8 de agosto de 1 502, que se conserva ainda hoje...
foi nomeado Engenheiro-chefe...
de todos os castelos e fortalezas...
pertencentes a este príncipe.
''A todos os nossos lugares-tenente...
castelões, capitães, soldados e súditos...
mandamos e ordenamos...
que, a nosso disponível e diretíssimo colaborador...
arquiteto e engenheiro-geral Leonardo da Vinci...
o qual, por nossa comissão...
deve ser considerado dos lugares...
e fortalezas de nossos estados...
se permita a passagem livre para tudo...
segundo suas ordens...
e em conformidade com seu parecer''.
''E que ninguêm ouse agir contrariamente a isto...
para que não incorra na nossa indignação''.
Muito bem.
''1 8 de agosto de 1 502, Cesare.''
Cesare é Cesare Borgia, Duque Valentino.
Filho do Papa Alessandro Vl...
que nutre por ele um afeto feito de amor e de medo...
inteligente, cruel, lindíssimo...
o jovem Borgia não conhece obstáculos...
no caminho da sua ambição.
Talvez tenha matado o irmão...
para ser o único príncipe herdeiro.
Esta carta...
lhe propiciará percorrer nossas possessões...
com toda a segurança.
Agora...
com o pretexto de sujeitar, à lgreja, a Romagna...
está conquistando um Estado na ltália Central...
com astúcia, coragem...
e às vezes com a mais cínica traição.
Partindo desta nossa praça-forte...
visitareis todos os nossos castelos...
propondo e executando, se necessário...
as obras que vos parecerão mais convenientes.
Pesaro, Cesena, lmola...
Este encontro de Leonardo...
com o príncipe lindíssimo e cruel
é uma estranha e breve aventura...
que chega ao fim após um ano.
Nada pode parecer justificar uma colaboração...
entre estes dois seres, tão profundamente diferentes.
Nada pareceria justificá-la...
a não ser uma inconsciente atração de Leonardo...
tão sinuosamente meditativo e tímido...
por um homem de ações fulminantes e impiedosas.
Assim como não podemos negar que Leonardo sempre sofreu...
ele, tão calmo, honesto e contrário a toda violência...
o fascínio do horrível.
As caricaturas, os cadáveres esquartejados...
e em menor escala...
mas, nem por isso, menos significativa...
a indulgência para com as transgressões de Salay...
ladrão e mentiroso.
''Espelho profundo e escuro''...
dele disse Baudelaire.
''Difícil, enxergar-lhe o fundo''.
A partir deste momento...
passam pelas folhas de Leonardo...
freneticamente...
máquinas militares...
gigantescas bombardas.
Afinal, de arte e engenharia militar...
ele havia sempre se ocupado.
Na famosa carta, escrita a Ludovico, o Mouro...
ele se oferecia, antes de mais nada...
como inventor e engenheiro militar.
Eis, por exemplo entre os desenhos...
que certamente remontam àquela época...
carruagens destinadas a ceifar o inimigo.
Mas além destes...
que representam sobretudo uma fantasia...
mesmo no campo militar...
ele se mostraria um precursor.
Aqui estão umas bombas com asas direcionais...
como as que se usam nos bombardeamentos aéreos...
granadas de explosão múltipla...
recordemos que então os canhões...
lançavam simples, grandes bolas de pedra ou de ferro.
Canos de canhão de novo tipo.
Mas sobretudo metralhadoras...
e carruagens armadas.
Mas o problema, que mais de qualquer outro...
durante o tempo que fica a serviço do Borgia...
interessa a Leonardo, é o da defesa.
Por isto, ele predispõe baterias orientáveis...
que criem um verdadeiro fogo de interdição...
como se diz hoje...
ou de obstrução.
Estudos de castelos e de fossos...
ocupando-se do moderno problema...
do ocultamento das tropas.
Todavia...
não sabemos porque... de repente...
assim como havia se colocado a serviço dele...
Leonardo abandona Cesare Borgia.
Toda esta ardente aventura não durou nem um ano.
No início de março de 1 503...
Leonardo deixou o Duque Valentino...
e voltou para Florença, onde...
do banco do hospital de Santa Maria Nuova...
retira 50 ducados.
O fascinante Duque Valentino...
nada lhe deixou.
Para sobreviver...
vai ter que recorrer à sua poupança.
Sim, 50 ducados.
Nanni, escreva 50!
Por favor, pode assinar?
Em 4 de maio de 1 504...
o ''Davi'', de Michelangelo, está completo.
Aquele bloco de mármore disputado com o Leonardo...
se transformou numa estupenda estátua.
O jovem gigante, que pesava 1 8 mil libras...
demorará três dias, arrastado por 40 homens...
para atravessar as estreitas ruas de Florença...
até chegar ao lugar e à posição a ele destinados.
Este lugar e esta posição...
tinham sido decididos numa tempestuosa reunião...
no Palazzo Vecchio.
Senhores, por favor! Voltem a seus lugares!
A reunião tem que ocorrer em ordem!
Diga você, Pietro Perugino.
-Eu digo que... -Por favor, um de cada vez!
Pietro Perugino.
O grão de mármore ê macio...
com o sol e a chuva ficaria estragado.
Por favor!
Por favor, um de cada vez!
Senhores, senhores!
Diga, Sr. Botticelli!
Para mim, este Davi tem que ficar coberto.
-Atê o Sangallo, vê? -Claro!
Senão a estátua não duraria nem 1 00 anos!
Senhores, senhores...
Senhores!
Senhores, por favor!
Fale, Mestre Leonardo!
Pietro Perugini...
disse uma coisa certa.
O bloco ficou muitos anos ao ar livre...
e Pietro Perugini tem razão, o grão do mármore ê macio.
Eu proporia a Loja dos Lanzi...
que poderia ser pintada de preto, no fundo...
para fazer sobressair...
-o branco da estátua. -Este...
este ê mesmo um parecer de pintor!
É aqui, em frente do Palazzo Vecchio que tem que ficar!
Ele ê jovem! Não tem medo da chuva! Não sofre de gota!
Bem disse Dante...
soberba!
lnveja! E avareza!
São as três fagulhas que mantêm os corações acesos!
De novo se reacendeu...
a rivalidade entre os dois grandes.
Só 20 anos de idade os separam...
mas, na realidade, pertencem a dois séculos diferentes.
Leonardo pertence ao século XV...
é filho do Magnífico.
Michelangelo é um homem do século XVl...
é filho de Savonarola.
Rivalidade inscanável pelo soberbo caráter de um...
e pelo rancoroso caráter do outro...
e da qual Florença, cidade pequena e curiosa...
desfrutava como se fosse um espetáculo.
O episódio seguinte...
não ê extraído da ''Vida'' de Vasari...
mas de um anônimo biógrafo de Leonardo.
''Passando Leonardo pela Santa Trindade...
da Pancaccia degli Spini...
onde estava reunido um grupo de homens de bem...
e onde se disputava um passo de Dante...
chamaram Leonardo...
para que lhes explicasse esse passo.
-Discute-se... -No qual 51 0 e 5...
Vejamos...
ê de verdade um dos passos mais difíceis.
Por acaso passou Michelangelo...
e Leonardo disse...
Perguntem ao Michelangelo, que conhece tão bem Dante!
Você explica melhor, Mestre da Vinci!
E explique-nos tambêm...
sobre aquele cavalo de Francesco Sforza...
que fez em Milão para ser concluído em bronze...
e não conseguiu completá-lo...
e o deixou na metade, que vergonha!
Quebra-pedra! Nariz quebrado! Palhaço! Palhaço!
Salay, sempre lhe ensinei a não mentir.
Não falar contra a verdade.
Bom dia!
Uma batalha bem maior...
será logo travada entre os dois.
Os senhores pensaram em você...
como um de seus filhos mais ilustres...
para realizar este grande afresco...
nesta nova sala.
A parede...
Estamos no Palazzo Vecchio...
na grande Sala do Conselho, recentemente acabada.
Piero Soderini, Supremo Magistrado da República...
encarrega Leonardo de pintar uma das paredes.
Aqui está, a parede...
a sua parede ê esta!
Vai pintar a Batalha de Anghiari...
em que os florentinos derrotaram os milaneses.
Fumaça, cavalos, sangue, tumulto...
em suma, veja você!
E...
o contrato, será lavrado o mais breve possível.
-Está bem? -Está bem.
-Mas com o outro... -Silêncio!
E assim, o primeiro passo foi dado!
Já falou com o outro?
-Sim, fique tranquilo! -Tudo pronto!
Vamos medir.
-Deixei as folhas no gibão. -Já vou, mestre.
-E o outro? -Silêncio!
O outro quem ê? Enfim ê...
Michelangelo!
Mestre, sou o frei Pietro da Novellara.
Recebi nestes dias uma carta muito urgente...
da Exma. Marquesa lsabella de Màntua.
-Ah! De Sua Excelência? -Sim, a qual lhe pede...
-lhe pede com insistência... -Mestre!
Mestre! Desculpe-me.
Mestre!
Mestre...
esta parede...
esta parede para você...
e esta, esta aqui...
esta parede, sabe a quem ê destinada?
A Michelangelo!
Ouvi-os falar lá fora. Falavam e riam.
A outra parede darão a Michelangelo...
pelo gosto de confrontá-los.
E ele tambêm pintará uma batalha.
A batalha de Cascina.
-Falava, padre? -Ah, sim!
A Excelentíssima Marquesa lsabella...
pede...
em memória à sua visita a Màntua...
pede que lhe envie um quadro...
mesmo pequeno, mesmo pequeníssimo.
Certamente, assim que tenha tempo.
Sim, sem qualquer limite de tempo.
Bem, uma tela sua, ainda que pequena.
Certamente.
Então, espero?
A batalha de Cascina.
Desta vez, Leonardo se entrega ao trabalho.
Nenhuma hesitação...
nenhum arrependimento desta vez.
Ao lado, em comparação com a de Michelangelo...
ele pintará a sua própria batalha.
Na sala do Papa, em Santa Maria Novella...
construiu um andaime engenhosíssimo...
para traçar em tamanho natural...
o desenho que...
uma vez levado para o Palazzo Vecchio...
seria decalcado sobre a parede.
Leonardo pesquisou minuciosamente...
sobre a batalha.
A batalha de Anghiari, entre florentinos e milaneses...
tinha acontecido que ocorrera 60 anos antes.
Assim, pôde interrogar alguns idosos...
que dela tinham participado.
Havia 40 esquadras de cavaleiros..
e 2.000 soldados de infantaria.
Do outro lado de Nicolô Piccinino...
estavam os exilados florentinos...
entre os quais Rinaldo degli Albi...
-com uma esplêndida armadura... -Outros ainda! Outros ainda!
-Claro! -Outros ainda!
O Patriarca, de manhã cedo...
subiu o morro e viu chegar, de Borgo San Sepolcro...
Nicolô Piccinino com suas tropas...
-numa grande nuvem de poeira! -Não!
Mas a maior batalha foi a de Ponte sul Ponte...
-Recordo-me. -Claro! E ele estava.
-Eu estava, estava. -Lembra-se?
Sim, lembro bem.
Já passaram 65 anos, mas minha memória ainda ê boa...
mesmo sendo velho. Mas nunca esqueço aquela manhã.
-Aquela foi uma batalha... -Na verdade, morreu só um homem...
Mas o combate foi grande...
-Então, vamos embora? -Sim.
Leonardo quer demonstrar aos florentinos...
que não ê somente um pintor da graça ou...
o mórbido pintor da penumbra que todos conhecem...
mas que tem tambêm agressividade e unhas.
Parede contra parede, as duas batalhas...
a batalha de Anghiari e a batalha de Cascina...
a dele e a de Michelangelo, que se enfrentarão.
Esta é a medida de si...
que quer dar aos florentinos e aos jovens que o contestam.
Aos gritos de Michelangelo, ele oporá os seus gritos.
''Tendo o pássaro grande asas e pouca cauda...
e querendo se elevar...
baterá com força as asas...
e dando uma volta receberá o vento debaixo das asas...
o qual, vento, o empurrará para o alto imediatamente''.
''Como o corvo...
ave de rapina...
que eu vi indo para Fiesole...
sobre o lugarejo de Barbiga em 1 505, no dia 1 5 de março''.
De repente, com uma tenacidade...
quase igual ao dos estudos para a Batalha de Anghiari...
que nem por isto ele interrompe...
Leonardo se entrega ao grande sonho...
de dar asas ao homem...
o sonho do vôo humano.
De 1 4 de março 1 505 a 1 5 de abril do mesmo ano...
Leonardo transcreveu para este pequeno código...
grande parte dos estudos preparatórios...
por ele empreendidos para o vôo humano.
Este precioso código passou...
como quase todos os livros de Leonardo...
por uma série de aventurosas vicissitudes.
Foi perdido, encontrado, roubado...
desmembrado, recomposto...
Como primeira coisa, Leonardo...
estudando porque o pássaro voa...
descobre o primeiro princípio da mecânica...
ou seja que a cada ação corresponde...
uma reação igual e contrária.
''Tanta força se faz com a coisa contra ao ar...
quanta força faz o ar contra a coisa''.
Para estudar a resistência do ar...
ele desenha e constrói uma asa batente.
E estudando a resistência do ar...
ele inventa, digamos assim, de passagem...
o pára-quedas.
''Se um homem tiver um pavilhão de pano de linho...
de 2 4 metros por 2 4...
poderá se lançar de qualquer altura sem sofrer danos''.
Mas para perceber como acontece o vôo...
com infinita paciência...
observa ao vivo, durante horas, o vôo dos pássaros.
''Como as asas são mais velozes a pressionar o ar...
do que o ar ao fugir de debaixo das asas...
o ar se condensa, e faz com que o pássaro saia...
em movimento contrário ao das asas. ''
''São as linhas dos movimentos dos pássaros na sua elevação...
feitas sobre duas linhas...
das quais uma é sempre curva, à maneira de um parafuso...
e a outra é retilínea e curvilínea''.
''Para ter verdadeira ciência...
dos movimentos dos pássaros no ar...
é necessário estudar, primeiro...
a ciência dos movimentos dos ventos...
que iremos comparar com os movimentos da água. ''
''Quando a ave, com o seu bater de asas quer se elevar...
levanta os úmeros...
e bate as pontas em direção a si própria...
conseguindo condensar o ar que, assim empurrado...
manda o pássaro para o alto. ''
Naturalmente, todos os seus estudos...
concentram-se sobre uma asa que bate...
como a dos pássaros.
Estuda-a em todos os seus detalhes...
mas aplicando, à sua asa, todas as partes móveis...
que hoje encontramos na asa do moderno avião.
Não ê este o lugar...
para um tratado sobre o vôo de Leonardo.
Se temos uma ambição...
não ê apenas a de exaltar o cientista ou o artista...
mas tambêm a de perceber, atê onde for possível...
o homem Leonardo.
Certo...
com uma daquelas raras frases, inesperadas e fugazes que...
submersas entre...
observações, anotações, invenções...
encontramos, às vezes, em seus códigos...
também no pequeno código do vôo...
no canto de uma página, a última...
lemos, quase rabiscada...
na ânsia ou no frenesi da anotação...
embaixo deste desenho de uma igreja...
uma frase que nos revela inesperadamente...
o homem Leonardo.
''lniciará o primeiro vôo, o grande pássaro...
do alto do Monte Ceceri...
enchendo o universo de estupor''.
''Enchendo de sua fama todas as escrituras...
e glória eterna ao ninho onde nasceu!''
lniciará o primeiro vôo, o grande pássaro...
do alto do Monte Ceceri...
enchendo o universo de estupor.
lniciará...
o primeiro vôo...
lniciará o primeiro vôo... o grande pássaro...
O primeiro vôo...
O universo de imenso estupor!
Enchendo de sua fama todas as escrituras!
Do alto do Monte Ceceri!
O primeiro vôo... O primeiro vôo...
O primeiro vôo...
Podemos estar enganados...
mas já ouvimos uma vez, a voz geralmente branda de Leonardo...
dissolver-se num grito exaltado de orgulho.
Em Veneza...
quando, perante os seus olhos...
entreviu a possibilidade de navegar embaixo da água...
empreitada jamais tentada pelo homem.
Esta tambêm seria uma empreitada jamais tentada pelo homem.
''A este instrumento para voar...
composto para o homem...
só falta a alma do pássaro...
cuja alma terá que ser imitada...
pela alma do homem. ''
A breve fantasia acabou.
Leonardo é de novo ele, preciso, distante e frio.
E minucioso, como sempre.
Neste mesmo breve código...
onde há pouco escreveu febrilmente...
a sua exaltada frase de orgulho...
''lniciará o primeiro vôo'', anota...
''No dia 1 5 de abril recebi 26 florins...
do camerlengo de Santa Maria Nuova. ''
Para nós, é este o homem Leonardo.
Leonardo se prepara para pintar a Batalha de Anghiari...
cujo desenho foi decalcado sobre a parede...
no dia 6 de junho.
Como veremos em seguida...
a Batalha de Anghiari se perdeu.
A reconstrução...
obviamente aproximada, que lhes oferecemos...
se baseia nos desenhos que nos ficaram...
e nos profundos estudos feitos...
pelos mais célebres estudiosos de Leonardo.
A parede foi preparada para o afresco...
com um fundo para o qual Leonardo mandou comprar...
como ainda se lê nos livros administrativos da Prefeitura...
663 libras de gesso...
89 de pez grega e 223 de óleo de linho.
6 de junho.
É sexta-feira, um dia funesto.
Esta infausta data...
e os infaustos acontecimentos que a acompanham...
se conhecem há apenas poucos anos.
Num dos dois códigos...
recentemente encontrados na Espanha...
lê-se, pelo punho de Leonardo...
''Dia 6 de junho, sexta-feira.''
''Ao soar das 1 3 horas, comecei a dar cor ao palácio...
e no momento de pousar o pincel...
acabara-se o tempo...
e tocou o sino chamando um condenado em juízo''.
''E o desenho se rasgou...
e quebraram os vasos das tintas...
choveu fortemente até de noite...
e o tempo ficou como de noite''.
Leonardo anota assim,
com minuciosa amargura estes presságios.
Quase com o pressentimento...
de que a grande obra, que se prepara a fazer...
surja numa atmosfera de mau agouro.
Eu vi! Precipitou! Voava!
A lenda diz que Tommaso Masini...
sem que Leonardo soubesse...
para experimentar o aparelho inventado pelo mestre...
lançou-se do alto de uma escarpa...
e por falta de força ou por um golpe de vento...
acabou caindo, ferindo-se gravemente.
Ah! Do lado de lá do riacho, talvez!
Não, não, eu vi bem!
-Não está aqui! -Olhe, olhe!
Oh, Meu Deus!
Oh, coitadinho!
Mas ê um homem! É mesmo um homem!
Hoje, mais ninguém crê nesta tentativa.
Mas fato ê que, inesperadamente...
os estudos de Leonardo dão uma virada decisiva.
Ele entende que a asa batente ê uma utopia inatingível...
e que o próprio helicóptero por ele inventado...
precisa de uma força motora...
que não pode ser a força muscular do homem.
Para realizá-lo seria preciso aguardar o motor de explosão.
Então, encaminha-se para uma asa parada, mas não rígida...
que permite o vôo equilbrado, o que é hoje vôo de asadelta.
Atê que, a certo ponto, Leonardo, derrotado...
abandona o seu magnífico sonho.
Dele, não há mais vestígios nas páginas de seus livros...
o sonho permaneceria sonho.
Não chegaria voando...
não desceria como um anjo do cêu...
enchendo o universo de estupor...
sobre aquela amada e odiada praça de Florença...
o ninho onde nasceu.
A esta, acresce outra dura derrota...
mesmo naquela época.
Mestre! Mestre! O fogo está pronto!
Leonardo, como já dissemos para ''A Últina Ceia''...
não é um pintor de afrescos.
Ainda que, desta vez...
ele tenha traçado em poucos meses...
o enorme e belíssimo desenho da Batalha de Anghiari...
e planeje pintá-lo no mais breve tempo possível...
Vão! Podem ir!
não quer ficar preso pela apressada técnica do afresco...
e experimenta uma nova técnica sua.
Ponham mais feixes, ê preciso muito calor!
Pintar a óleo e logo depois secar com um calor violento.
Este experiência é importante.
Dela adotaria-se uma nova ténica...
em todo o afresco.
Naqueles anos pintava um retrato...
que trazia sempre com ele...
ao qual de vez em quando dava um toque...
definindo-o com infinita paciência.
Eh! Eh!
Acorde! Não, não, chega!
Olhe, está perfeito. Conseguimos!
É uma antiga têcnica dos romanos.
Encontrei a receita em Plinio. Toque! Toque!
O processo foi logo estendido à grande parede da sala...
cuja parte central já tinha sido pintada.
-Salay, os sacos! -Eh, vocês!
Venham com os sacos!
Alí, como contrapeso! Aí no fundo...
-coloquem no chão! -As traves, aqui?
Os feixes, lá!
Venham com o guincho!
Salay, uns sacos como contrapeso!
Sim, mestre!
Depressa, depressa!
Os fogareiros devem ser colocados na altura certa!
Em frente! Vão para lá!
-Vocês tambêm! -Desça!
Levante o guincho!
Eu disse, lá! Levante! Levante!
E você aí em cima, controle a roldana!
-Aí em cima, está bem preso? -Acho que sim, Mestre!
Levante, levante! Levantem!
Vamos experimentar o guincho.
Tem que ser içado devagar!
E aí em cima...
-está sustentando bem? -Muito bem!
Todos prontos! O último fogareiro apoiado lá!
Sim, lá!
-Então, mestre? -lcem!
Devagar.
Mais para cima!
Devagar!
Para cima!
Cuidado, o fogo deve ficar bem encostado na parede!
Vocês ponham mais lenha!
Quieto!
Mestre!
Está secando! Está secando!
Está cozinhando como um ovo!
Minha nossa que calor!
Em uma hora, com este fogo...
-estará tudo seco! -Se não fosse o fogo, tocaria!
Conseguiu, mestre, conseguiu!
Olhe daquele lado, onde não há chama!
Não há chama alí, não chega lá!
-Mais fogo! -Levante o fogo!
Eu disse mais fogo!
-Abaixem! -Abaixem, depressa! Abaixem!
Abaixem, para pôr mais lenha! Mais lenha! Mais lenha!
Ponham mais feixes! Mais feixes!
O fogo tem que pegar toda a parede!
Lá em cima!
Mais fogareiros, depressa!
Mais fogo! Mais fogo! Tragam os fogareiros, depresa!
Lá em cima, onde não chega o calor!
Parem!
Abaixem um pouco!
O fogo não chegou lá em cima.
Seriam precisos 1 0 fogareiros!
Da metade para cima...
o calor não foi suficiente...
e a pintura está irremediavelmente perdida.
Não, não!
Já não serve! Desçam!
-Como? O que aconteceu? -Viemos correndo!
-Padre? -Sim...
a marquesa me escreveu novamente...
por causa daquela pintura...
pequena...
mas não me parece, este, o momento.
Mais tarde... desculpe.
Vão cozinhar as fogaças!
Mas um velho como ele...
deveria conhecer os provêrbios!
Quem deixa o caminho velho pelo novo...
Calado, insolente!
Uma pena!
Ainda que, como pintura, não me agradasse.
Leonardo não ê homem que faça voz grossa!
Do modo que viram, Lomazzo, outro biógrafo de Leonardo...
conta como a pintura se destruiu.
Vasari diz somente que a pintura coou.
Contudo, Leonardo abandonou para sempre...
o afresco, apesar dos protestos dos senhores.
Por quê?
Como era, esta batalha de Anghiari...
ela, tambêm, como tantas coisas de Leonardo...
que se destruiram?
Alêm daqueles desenhos já mostrados...
há ainda algumas cópias...
uma em Florença...
muito sumária...
uma outra em Munique...
dita a Tábua Doria, a mais fiel entre todas.
A existência destas cópias nos diz que a pintura...
ainda que danificada...
não ficou completamente destruída...
mas que sobreviveu a ponto de poder ser copiada...
até que Vasari foi encarregado...
de pintar novamente toda a sala no século XVl.
Uma outra cópia no Louvre...
esta última feita por um grande Mestre...
Pier Paul Rubens.
É um desenho...
cujo grau de fidelidade ê uma incógnita.
Representa o episódio central do grande afresco...
o que Vasari chama...
''a luta pelo estandarte''.
Este pequeno esboço de Leonardo...
ilustra, evidentemente, o mesmo episódio...
e confirma que o desenho de Rubens...
se refere mesmo à Batalha de Anghiari.
Naturalmente...
a pintura seria bem diferente...
isso fazem crer os dois belíssimos traçados...
preparatórios para o desenho.
Mas tudo, na obra, tem algo torto, forçado.
Leonardo quis bater os jovens no campo próprio deles...
com as mesmas armas deles.
Manifestar-se em voz alta, se não gritada...
ele, o homem da voz baixa...
das penumbras...
dos subentendidos.
E, no fundo, errou.
Ele sabe que errou...
e pode ser que no âmago da alma...
a ruína da obra não lhe desagrade.
Daqueles anos...
dois ou três anos de intenso trabalho...
acesos pela incofessa vontade de derrotar aqueles jovens...
de se mostrar mais jovem que os jovens...
não lhe ficou nada.
Nada do vôo, nada da Batalha de Anghiari.
Nada.
lsso fez com que os jovens decretassem...
que o velho estava acabado.
Acabado?
Certamente cansado.
Mas naqueles anos...
atormentados de entusiasmo e ânsia passados em Florença...
entre um sonho e outro...
Leonardo pintou também um retrato...
não muito grande.
É uma mulher ainda bonita...
mas já no declínio da juventude...
que em pose pacata...
com uma mão sobre a outra...
e ambas abandonadas nos braços de uma poltrona...
em frente de uma paisagem mágica...
de rochas e de águas...
dirige seu olhar ao espectador...
enquanto seus lábios esboçam apenas um sorriso.
Quem era esta mulher, não se sabe ao certo.
Vasari diz ser uma certa Lisa...
esposa de Francesco de Giocondo...
outros apontam Ginevra Benci...
outros ainda, uma florentina, amada por Giuliano de Medici.
Quem era realmente, a nós pouco importa.
Talvez não seja nem um retrato.
De fato, ê estranho o caso de um retrato...
que nunca chegou às mãos do cliente.
Dado que Leonardo manteve o quadro em seu poder...
e o carregou sempre para todos os lugares.
Para Milão, onde voltou.
Para a França, onde acabou morrendo...
e onde o quadro ficou...
e onde, hoje, ê a jóia mais preciosa do Louvre.
Talvez tenha havido um modelo de mulher...
mas somente como um pretexto...
já que o quadro não retrata com precisão...
alguma mulher ou alguém...
representando apenas a alma de Leonardo.
Não sem razão...
num quadro pintado em Florença...
e que deveria, segundo a tradição...
representar uma mulher florentina...
ele pintou no fundo uma paisagem...
que com tamanha precisão lembra...
o rio Adda em Paderno.
Aquela paisagem lombarda tão cara a ele...
e aquele céu da Lombardia tão belo, quando está bonito.
Se nos é permitida a estranha expressão...
''Mona Lisa'' é um retrato autobiográfico.
Naquele sorriso inquietante...
irônico, amargo e todavia sereno...
na frente daquela paisagem silenciosa...
mora o melancólico conhecimento...
daquele que sabe.
É esta a resposta que, talvez inconscientemente...
Leonardo dá aos arrogantes jovens da nova geração.
Aos gritos violentos deles...
ele opõe apenas o silêncio...
e um sorriso.
Pode ser que nem todos a quem era dirigida...
tenham percebido esta resposta...
ou não a tenham ouvido...
ou não tenham entendido seu verdadeiro significado.
Mas um jovem, que então tinha 20 anos...
a compreendeu.
Nascera em Urbino...
e tinha a alma e o rosto doce como sua terra natal.
-Pietro! Perugino! -Leonardo!
Estou contente em revê-lo.
Nele havia uma grande sede do belo...
e em sua alma nem o mais ínfimo vestígio de inveja.
-Está em Florença? -Sim.
Trouxe-lhe Rafael de Urbino.
Sabe...
gostaria... gostaria mesmo de vê-la.
Está bem.
-Precisa de mim, mestre? -Vá!
Está aqui.
Ah!
Engenhosa!
-Engenhosa, esta porta! -Bem...
Entre! O quadro está ali.
Ah! Aqui ê imenso!
Para que lhe serve um estúdio tão grande?
Bem, sabe...
Rafael! Está ali, entre!
...sabe, este estúdio o construí...
sou sempre um apaixonado por...
A cidade mudou. As pessoas mudaram.
Mudou atê o modo de viver...
-e em poucos anos... -Eh!
será mais difícil.
Lembra-se de quando estávamos na oficina de Verrocchio?
É claro que me lembro...
-E estes desenhos aqui? -Estudos...
estudos de uma máquina que queria construir...
pendurada lá em cima.
Mas...
e Rafael...
o que está fazendo?
Rafael!
Está contente? Já a viu!
Vamos.
Fazendo o quê?
Estou cansado, não me encontro mais em Florença.
Nem me parece mais estar em casa.
-E o que vai fazer? -Talvez volte para Milão.
-Adeus! -Adeus, Pietro!
A impressão provocada em Rafael foi profunda.
Em dois de seus mais belos retratos...
''La Muta'' e ''Maddalena Doni''...
a influência é evidente.
Mestre, aquele jovem não era Rafael de Urbino?
Sim.
Olho, olhou, e não disse sequer uma palavra?
Não.
Em 1 de junho de 1 506...
Leonardo deixa Florença e volta para Milão.
Mestre Leonardo!
Segurem-no na porta!
Tenho ordem de reconduzi-lo à presença...
do Excelentíssimo Supremo Magistrado Pier Soderini.
Conte, conte tudo.
São o aval que poderão depositar...
no Banco de Santa Maria Nuova. São 1 50 florins de ouro.
É ouro. É ouro.
E não dinheiro de cobre...
como aquela vez que queria me pagar...
com um saco de dinheiro sem valor.
São 1 50 florins.
E agora que paguei a caução...
-posso partir? -Mas esse afresco...
essa Batalha de Anghiari, quando vai terminá-lo?
Será feito, será feito.
E lembre-se. Damos-lhe três meses.
Três meses.
Três meses! Três meses de licença, como a um militar.
Três meses para voltar e honrar o compromisso...
que assumiu com a república...
e realizar aquele afresco...
para o qual recebeu tanto dinheiro.
Se alguma vez terminá-lo, esse afresco...
Quem sabe...
Mestre! Mestre Leonardo!
A Exma. Marquesa me escreveu...
dizendo ter lhe enviado uma carta pelo Sr. Angelo del Tovaglia...
por aquele quadro.
Como, está partindo?
Tambêm a mim, a Exma. Marquesa escreveu de Màntua...
que não tendo a possibilidade de lhe pintar um quadro...
lhe bastaria uma pequena obra sua...
do seu agrado...
um pequeno menino Jesus entre os doutores...
se lhe aprouver...
Certamente, certamente.
Tranquilize a Exma. Marquesa, tranquilize-a!
Outra partida!
Nunca terá paz?
Está nele...
ou na dura necessidade dos acontecimentos...
este irriquieto destino...
que o empurra sempre de um lugar para outro...
de uma cidade para outra?
Leonardo parte de Florença como um vencido.
Como será acolhido em Milão?
Desaparecidos os duques, os Sforza...
desaparecido o Mouro...
que passa seus últimos anos em França...
prisioneiro no Castelo de Losh...
a Lombardia é agora uma província francesa.
A violenta perseguição contra quem serviu o Mouro...
é algo que já caiu no esquecimento.
Mas isso não é garantia de ser bem acolhido.
Todavia, Leonardo deixa Florença sem saudade.
Os concidadãos são para ele estranhos...
como sempre foram o pai, as madrastas, os irmãos...
todos.
Menos o tio Francesco.
Aquele tio Francesco que é, hoje, um velho tranquilo...
e um pouco desmemoriado...
que mora sempre na cidade...
e continua não fazendo nada.
Está cheio de dívidas...
e é roubado por todos... mas não tem importância.
Mais baixo, devido à idade...
diante deste sobrinho tão grande e famoso...
que a caminho de Milão...
pára em Vinci para cumprimentá-lo...
sorri imutavelmente sereno.
Nunca pára, não ê?
Sempre fora, de um lado para o outro.
Aqui, as coisas não vão bem, sabe?
Precisaria de jovens para trabalhar...
mas eu estou sozinho.
Sabe que a Dona de Bretonna morreu?
Como o teu jovem dorme! Adormeceu e aí ficou!
De vez em quando, um de seus irmãos passa por aqui...
''Tio, tem algo de bom, na horta? Tem ovos?''
Vêem só para isso!
E assim as despesas são tantas, tantas...
Não, não Leonardo, não deve...
Tio...
Leonardo, espere!
Leve isto...
-ê da sua horta! Colhi-as... -Não posso, estou partindo!
Colhi-as esta manhã, de propósito para você!
Não tio Francesco, obrigado mesmo.
Pegue Leonardo, pelo menos isto...
-ê da sua horta! -Já tenho tanta bagagem!
Coma você, eu tenho que partir!
-Onde vai? -Para Milão!
Para Milão?
-Mas lá estão os franceses. -Vamos!
Gente ruim! Gente ruim!
Leonardo!
Leonardo...
Em junho de 1 506, após seis anos de ausência...
Leonardo volta para Milão.
-Nós tambêm vamos, mestre? -Não! Esperem por mim.
Volto em seguida.
Eh, não! Já estão exagerando! Atê sentados na mesa!
Suma, suma com essas coisas!
Padre Agostinho, por favor...
me ajude a pôr a outra mesa! Aqui não se vive mais!
E tão pouco se come!
Dois anos, antes! Dois anos inteiros!
O refeitório ficou fechado para fazer aquela pintura...
e agora todos aqui pintando e desenhando...
como se estivessem na escola!
Este ê um lugar para comer!
A escola deve ser feita em bancos.
E lhe digo que essa pintura ê uma verdadeira desgraça!
Aliás, aí seria preciso uma porta...
que dê para a cozinha.
-Sim, uma porta! -Claro, pois as coisas...
chegam aqui meio frias, e nem se podem comer!
E o prior diz.: ''Paciência''!
Paciência que nada!
Por que não vão estudar na escola?
E depois, digo, não é bom...
todos lá fora, ao meio-dia, no claustro...
É! Mas aquele aí... não ê Leonardo, o Mestre?
Leonardo está aqui!
É Leonardo, o Mestre! Venham!
O que aconteceu na Grazie...
aconteceu talvez com maior ênfase...
na lgreja de San Francesco Grande...
diante de ''A Virgem das Rochas''.
Nunca, no mundo...
houve pinturas mais estudadas, imitadas.
Mestre!
Essas duas obras que Leonardo deixou em Milão...
tornaram-se, na sua ausência...
o próprio modelo da pintura.
O Mestre!
Em Milão, Leonardo descobre que ê ''O Mestre!''
Sua arte...
destinada a deixar uma marca indelével...
em toda a pintura lombarda...
se impôs de uma maneira triunfal.
Mestre Leonardo!
Carlos d'Amboise, marechal do exército francês...
e governador do Ducado de Milão...
é um valente guerreiro e um entendido em arte.
Jovem e requintado, ama tudo o que é belo...
as mulheres bonitas e as coisas bonitas.
Acolhe Leonardo como um príncipe...
feliz por ele ter decidido...
se transferir novamente para Milão.
Ficaria feliz de poder ficar aqui...
mas não creio poder ficar mais de três meses.
Apenas três meses.
Depois tenho que voltar para Florença.
Tenho compromissos com os senhores de lá.
E alêm disso...
Pier Soderini...
Mas não ê possível! Nós o esperavamos!
Sua Majestade não permitirá que vá!
Sabe que quando viu ''A Ceia''...
queria mandar serrar toda a parede...
para levá-la para França?
Vieram engenheiros de Paris...
mas a empreitada era muito difícil!
Não, vai ficar.
Nós escreveremos a Pier Soderini.
Responda assim.
Ao Exmo. Sr. Marechal Carlos d'Amboise, etc...
com todos os títulos, etc...
que tivemos a honra de receber a carta dele...
a respeito do seu desejo de reter em Milão...
o mestre Leonardo da Vinci...
mas...
mas...
mas que o dito mestre Leonardo...
tome nota...
recebeu uma boa soma em dinheiro...
para começar somente uma grande obra...
que deveria ter feito e não fez.
E portanto lamentamos...
mas que o mande de volta para Florença, e já!
Sua Majestade, Luís Xll, rei da França.
Perdoe-me...
ê o embaixador da cidade de Florença?
Sim, claro Majestade!
-E qual ê seu nome? -Pandolfini, Majestade.
Ah, Sr. Pandolfini...
sendo embaixador, ê conveniente que...
os seus senhores em Florença me escutem, e muito bem.
lnforme-os de que eu quero que o mestre Leonardo...
pintor, fique em Milão, atê à minha chegada à cidade.
Meu Sr. Pandolfini...
escreva o que lhe estou dizendo para Florença e...
me mostre a carta...
antes de entregá-la a seu mensageiro.
Gostaria de fazer notar a Vossa Majestade...
que, em Milão, Vossa Majestade está em casa...
e muito melhor do que meus senhores...
pode ordenar a Leonardo que não parta!
Faça como lhe disse.
Quais são as obras de Leonardo...
que Vossa Majestade quer obter?
Ainda não sei, talvez lhe ordene...
que faça o meu retrato.
Leonardo da Vinci ê um pintor de enorme gênio, Majestade...
Eu sei.
-E o senhor, conhece-o? -Sim, claro.
Há anos! Há muitos anos!
Então, meu Sr. Pandolfini...
escreva diretamente ao Mestre Leonardo...
que não deixe Milão...
no aguardo que os senhores de Florença lhe escrevam.
Este colóquio...
ocorrido em janeiro do ano de 1 507...
no castelo real de Blois, na França...
nos chegou, palavra por palavra...
assim como acabaram de ouvir...
num relatório enviado pelo espantado Pandolfini...
aos senhores de Florença.
Mas Luís Xll não fica satisfeito com isso.
Escreva já uma carta.
Aos Exmos. Senhores de Florença.
Escreva.
Muito queridos...
Muito queridos e grandes amigos...
''Muito queridos e grandes amigos...
dado termos necessidade do mestre Leonardo da Vinci...
pintor de sua cidade de Florença...
escreva-lhe para que não parta da citada cidade...
atê minha chegada...
como já disse a seu Embaixador.''
-Ou seja? -Ou seja, escreva-lhe...
que não parta de Milão, assim como disse a seu Embaixador.
''E nos dará grande prazer com isso.''
-Ou seja? -Ou seja, ficaremos gratos.
''Escrito em Blois, em 1 3 de janeiro de 1 507. Luís.''
Do Castelo de Blois. Luís.
Queridos amigos!
Chama-nos de queridos amigos e depois...
escreva, faça, ordene! Luís.
E tudo isso por um ''borra-paredes''!
Sente-se e escreva!
Responda assim.
À nobilíssima, cristianíssima Majestade Luís Xll...
por vontade de Deus, rei dos franceses.
Respeitadores de seu pedido...
temos o prazer em conceder...
a nosso ilustre cidadão Leonardo da Vinci...
como ê desejo de Sua Majestade...
''A água que tocas dos rios...
é a última que foi...
e a primeira que vem''.
''Assim, o tempo presente''.
E o tempo presente...
talvez pela primeira vez na sua vida...
que parece tão vazia de acontecimentos...
mas que na realidade é tão intimamente atormentada...
é para ele um tempo de paz, de repousante doçura.
Tendo esquecido Florença se estabeleceu em Milão...
numa pequena casa perto de São Babila.
Mas grande parte de seu tempo...
vai passá-lo em Vaprio d'Adda...
na mansão de Gerolamo Melzi...
capitão das milícias milanesas.
O filho de Gerolamo...
Francesco Melzi...
Conseguiram! É o Salay! O Salay com os caçadores!
Conseguimos! Conseguimos!
Nós conseguimos!
Vamos! Vamos!
Um pato! Não o peguei!
Do outro lado!
Por aqui, vamos!
Francesco Melzi tinha 1 7 anos.
Assim diz Vasari...
que o conheceu muitos anos depois...
e que o interrogou longamente, antes de escrever a vida de Leonardo.
''Francesco Melzi, gentil cavalheiro milanês...
no tempo de Leonardo era um belíssimo jovem...
e muito amado por ele...
assim como hoje ê um belo e gentil velho.''
Cheio de talento...
nobre e generoso...
nutre por Leonardo uma admiração...
e uma devoção completas.
Em contraste com Salay...
que até agora ocupou espaçosamente...
a vida do mestre...
caprichoso, rebelde...
talvez atê insolente...
sempre ávido de dinheiro, que com mil desculpas...
pede emprestado e depois nunca devolve...
Em contraste com Salay...
ladrão, obstinado, mentiroso e guloso...
Francesco Melzi vem de uma família nobre.
É nobre de aspecto...
de coração, de sentimentos.
Salay, como um turbilhão...
desapareceria da vida de Leonardo.
Melzi nunca o abandonaria.
O seguiria por toda parte, até para França.
Adaptaria-se a ele, velho e doente...
os cuidados mais humildes.
Daria-lhe assistência até à morte.
Aí está! Está aqui!
Estão novamente aqui! Ouça como grita Salay!
Está aqui! Vou pegar!
-Peguei! Venham! Venham! -Estamos chegando!
Peguei pela asa! Venham com o barco! Força!
Dê! Dê-me!
Minha nossa, a água está fria!
Sinta!
Louco!
Vamos, suba!
E não seja louco!
Em Vaprio, onde é hóspede de Melzi...
por ordem de Carlos d'Amboise...
Leonardo estudava um grande canal navegável...
entre o lago de Lecco e Milão.
Pessoal!
Neste canal navegável...
infelizmente nunca realizado...
-para superar os desníveis... -Pegue os cães!
para superar os desníveis do terreno...
Leonardo inventa um sistema de comportas sucessivas.
A solução encontrada, 400 anos depois...
pelos engenheiros do canal de Panamá.
-Mestre, sabe árabe? -Por quê?
Eu não entendo nada!
Tenho tantos vocábulos na minha língua materna...
que lamento mais não entender as coisas...
do que ser falho em palavras.
-Consegue ler? -Não.
Consegue ler?
''Concha perpêtua''.
Mas está escrito ao contrário!
Para Leonardo...
este é um longo, sereno período de relfexão...
e de recolhimento.
Em Milão, no seu estúdio junto a São Babila...
reordena as páginas de suas anotações...
que já formam volumes.
-Desenhe, Francesco, desenhe! -Sim, mestre.
-Mestre, estes livros... -Do outro lado, Andrea.
Aqueles desenhos que estão na mesa...
perto da anatomia.
São estes os desenhos que queria, mestre?
Não, colque-os aí.
Francesco...
Nestas folhas...
que poucos anos após a morte de Leonardo se perderiam...
estão esboçados numerosos tratados...
que, um dia, ele deseja publicar.
O tratado da pintura...
o livro da mecânica...
o tratado sobre as águas...
e sobretudo o livro de anatomia...
para o qual já aprontrou 1 40 desenhos.
Francesco!
-Ouça, Francesco! -Sim, mestre!
Você que sabe como estão distribuídas as folhas...
aquelas que tinha ontem entre mãos, onde estão?
-Estão aí, mestre! -Francesco, Francesco!
Francesco, por favor, venha aqui...
que eu não as encontro...
Francesco, Francesco!
Está bem arrumado!
Onde vai?
Pode me dar aquela folha...
aquela folha que eu quero?
Majestade!
Luís Xll, em 2 4 de maio daquele ano...
entrou solenemente em Milão.
Quis logo ver Leonardo...
e, coisa extraordinária para um rei...
dirigiu-se ao estúdio dele.
Majestade!
Oh! Aí está ele!
Aí está nosso querido e amado Leonardo da Vinci.
Meu caro mestre...
Estou muito contente por o senhor de Florença...
nos ter dado a permissão de retê-lo a nosso serviço.
E ê uma verdadeira alegria, para mim...
estar no seu estúdio, entre tantas obras-primas.
Meu Deus, como ê bonito!
-É o rei! -É ele mesmo!
É uma verdadeira maravilha!
É, quase toda, obra de meus alunos, majestade...
e está longe de estar acabada.
Ainda não está acabada?
Oh! Mas aquela senhora!
Pago o que quiser, mas vou levá-la para França.
Por sorte ê um quadro...
e não uma parede, como ''A Última Ceia''!
Majestade, ainda não está acabada.
-Nem esta, está acabada? -Ainda não.
Mas se Vossa Majestade...
quiser ver os projetos do novo canal...
Sim, vejamos os projetos.
Será uma obra grandiosa!
D'Amboise...
aquela vinha que tinha sido tomada...
O mestre Leonardo ê mais uma vez dono de sua vinha.
Para vos manifestar a nossa admiração...
decidimos vos conceder um privilêgio...
de 1 2 onças de água.
-1 2 onças de água? Como? -Sim, 1 2 onças de água.
...do Canal de S. Cristoforo.
Vejamos os projetos deste canal, D'amboise...
desse canal do qual me disse tantas maravilhas.
1 2 onças de água...
naquela êpoca em que a água se vendia como o ouro...
eram realmente um presente de rei.
E aquela vinha que lhe havia oferecido Ludovico, o Mouro...
e que os conquistadores lhe haviam confiscado...
para Leonardo, de origem plebêia...
representavam a terra à qual estava profundamente ligado.
Um lugar estável onde permanecer um dia...
para ele, que sempre errara de uma cidade para outra...
assim como poderia, um dia, ser a casa dele em Vinci.
Porque a casa em Vinci ê dele...
ou melhor...
deveria ser.
Há alguns meses, o tio Francesco...
o grande amigo das brincadeiras da infància...
morreu.
E para quitar as dívidas, pobre velho...
para com o grande sobrinho...
que sempre o ajudou com suas posses...
lhe deixou a velha casa de Vinci...
com a pouca terra que a circundava.
Vocês...
vocês não gostavam de Francesco!
E sempre aproveitaram dele em vida!
E de mim não gostam mesmo!
De quem gostava mais, de Francesco ou de mim?
De você!
Ele sabe que não posso alienar meu herdeiro.
Deram esse dinheiro ao Leonardo?
Não!
Quiseram que eu fosse herdeiro...
para que não pudesse, como herdeiro...
mandar-lhes o dinheiro que deveria receber do Francesco!
O Sr. Piero, o pai...
tinha morrido três anos antes...
sem deixar testamento.
Os sete filhos homens, legítimos...
com base na ilegitimidade de Leonardo...
o excluiram resolutamente da sua herança...
e dividiram entre si os bens paternos.
Leonardo não reclamou, não abriu a boca.
Mas agora os irmãos querem lhe negar novamente...
e sempre pela sua ilegitimidade...
o pouco de terra que o tio Francesco lhe deixou.
O velho ficou, por anos...
abandonado em Vinci, perto de Florença...
e só ele, Leonardo...
em suas viagens de uma cidade para outra...
passava para visitá-lo.
Só ele enviava-lhe dinheiro para o sustento.
Só agora que morrera...
aqueles covardes pequeno-burgueses...
lembravam-se do tio...
para negarem a ele, grande e famoso...
dois palmos de terra...
alegando a ''legitimidade'' deles.
Como está decidido em partir...
aqui tem esta carta.
''Ao Exmo. Supremo Magistrado Pier Soderini.
''Chega hoje aí, o Mestre Leonardo da Vinci...
pintor do cristianíssimo rei...
ao qual demos, com grande dificuldade, uma licença...
por querer ele resolver o caso com seus irmãos...
por uma herança que lhe deixou um tio.''
''Para que possa retornar logo...
para que possa retornar logo, pedimos a V. Exa....
que essa causa seja imediatamente...
está claro? lmediatamente resolvida...
prestando ao mesmo toda a ajuda possível''.
Esta ê uma carta minha.
E esta...
''A nossos queridos e grandes amigos...
aliados confederados...
Supremos Magistrados e Senhores de Florença.''
Esta ê uma carta escrita por Sua Majestade...
para que o processo seja ''o mais breve possível''.
Vá a Florença e volte logo.
Deste jeito, vai ver, será uma questão de dias.
Não foi uma questão de dias.
Dia após dia, a causa nunca era discutida...
e nem se dava início aos procedimentos.
As cartas do rei e do marechal da França...
tinham assegurado a Leonardo...
somente calorosas, mas vãs promessas.
Mestre, o Exmo. Supremo Magistrado...
pede desculpa por não podê-lo receber.
Está em conselho. Pede que espere confiante.
Esperando confiante...
Leonardo morava na casa de Piero di Baccio Martelli...
rica família florentina, aparentada com os Medicis.
Sente-se.
E escreva.
A Sua Senhoria reverendíssima...
o Cardeal lppolito d'Este.
Achando que meu irmão mais velho...
não quer me manter no testamento...
ainda que a razão esteja do meu lado...
gostaria de pedir à Vossa Reverendísima Senhoria...
uma carta...
comendatória para o Sr. Raffaello Geronimo...
a quem o Supremo Magistrado entregou a causa.
Depois do rei da França...
e depois do governador de Milão...
Leonardo invoca, assim...
também a ajuda do Cardeal d'Este.
Mas os dias passam...
e a causa continua sem solução.
Mestre!
O Exmo. Supremo Magistrado pede desculpa...
por estar impossibilitado de recebê-lo...
mas assegura que a causa está em andamento.
E que os processos já transitaram para o tribunal.
E assim, um dia, nas escadas do Tribunal...
encontra Nicolô Machiavelli.
Mestre Leonardo?
E a causa? A causa?
Ah! Meu Sr. Nicolô... Vai mal, mal!
A causa continua no mesmo ponto.
Pedi que escrevesse, ao rei da França...
depois pedi que escrevesse, ao governador de Milão...
e agora ao Cardeal lppolito d'Este...
mas a causa continua no mesmo ponto.
Meu Sr. Leonardo, seu irmão Giuliano...
não ê tabelião aqui em Florença?
E a causa ê de Florença!
Você conhece o tribunal, a burocracia, os arquivos!
Acredite.
Um Sr. Giuliano que faz intriga aqui perto...
vale muito mais que um rei da França escrevendo de longe.
E então, Sr. Nicolô, o que me aconselha?
Ande, ande tambêm pelo tribunal.
Bata nas portas, toc, toc, toc: ''Posso?''
''Caro secretário...
sei que as coisas dependem só do senhor...
que ê uma pessoa muito poderosa...''
Outro serviço. Toc, toc, toc: ''Posso, sr. Arquivista chefe?''
''Eu sei que a causa está em suas mãos...
se quisesse começar a dar andamento ao processo... ''
Outro serviço.: Sr. Giovannino, você estipula as datas...
e marcar a data da causa depende só do senhor...
acredite, ficarei muito grato. ''
Dê-me ouvidos, faça o que lhe digo.
Leonardo seguiu o conselho de Nicolò Machiavelli...
e foi bater na porta, de serviço em serviço.
Desculpe, me desculpe.
Estive lá em baixo, nos serviços do têrreo...
-porque tenho uma causa... -Causas, causas, na outra sala!
Vá, vá! Aqui não tratamos de causas.
Papelada! Vil papelada!
Do outro serviço me mandaram...
Ouça, desculpe...
do outro serviço me mandaram vir aqui...
por uma causa que eu tenho e que...
Não lhe explicaram bem. É outro o serviço!
-Aquele outro. -Disse o outro.
Desculpe, estive no serviço ao lado por uma causa...
e me mandaram vir aqui.
A minha causa ê com o tabelião Giuliano da Vinci.
-Sabe, ê meu irmão. -Entendo, mas lamento...
essa causa não ê comigo.
Mas se no outro serviço me disseram para vir...
Talvez seja aqui, mas não comigo...
do outro lado, com o outro oficial.
Do outro lado. Experimente!
Chega! Não aguento mais! lsto ê coisa de prisão!
Eu quero que a causa seja datada e discutida!
Não posso gastar a vida, indo de um serviço...
para outro serviço!
Dirija-se àquele serviço, depois àquele outro serviço!
-Amanhã! Depois de amnhã! -Mas vejamos o relatório...
que Leonardo escreveu pessoalmente a Machiavelli...
e que se encontra escrito no Código Atlàntico.
''Meu Sr. Nicolô fui procurar no registro...
se estava lá o nome de meu irmão.''
''O livro não estava lá''.
''Fui mandado a vários serviços antes de encontrá-lo...
por fim fui ao datador...
e pedi-lhe que, dado a causa ainda estar por ser marcada...
que mandasse lê-la e marcá-la amanhã.''
''Ele respondeu que amanhã seria impossível...
que era algo muito difícil...
por exigir muitas coisas, muitas coisas...
as quais não podem ser feitas.''
A causa nunca foi resolvida.
A pulga...
vencera o leão.
Vocês dormem todos sobre esta papelada!
-É uma vergonha! -Com o tempo, Leonardo...
se adaptou a qualquer situação.
E assim se conclui este seu segundo encontro...
com a justiça e a burocracia.
E ainda hoje...
alguns perguntam como pôde o Leonardo desabafar...
representando os homens deste modo.
Leonardo não amou os homens.
Não foi um santo, como S. Francisco...
que os ama apesar deles mesmos...
ou um profeta, como o Savonarola...
que os ama porque os flagela...
ou um passional como Michelangelo...
que os ama e os odeia...
porque precisa de estar em contínuo conflito com eles.
Leonardo não podia amá-los.
Ofendiam-no, a avidez deles, a preguiça...
e a obstinada soberba da ignorância dos mesmos.
No prefácio dos cadernos de anatomia, ele escreve...
''Muitas vezes, quando vejo alguns homems pegar um livro...
temo que, como o macaco...
o levem ao nariz...
ou perguntem se ê coisa que se coma.''
''A inteligência que foi dada ao homem...
ê um bem incomparável.''
''E, no entanto, muitos homens...''
ele descreve cruamente....
''nada mais podem ser chamados...
do que trànsito de alimento e produtores de esterco...
porque deles, no mundo...
nada mais, que privadas cheias, permanece''.
Foi arisco...
aristocrático...
solitário...
mas também escreveu...
''Não me sacio em servir''...
e escreveu...
''não me canso de ser útil''.
Cada ser humano serve como pode...
e como sabe os outros homens.
E como ele os serviu, toda a sua obra o atesta.
Aqui bastará uma brevíssima menção...
sobre a disposição urbana por ele imaginada.
Enquanto os seus contemporàneos...
quando lhes foi oferecida a ocasião...
como a Rossellino em Pienza...
para projetar e construir uma cidade com planta sadia...
idealizaram cidades cenográficas...
maravilhosas praças ladeadas por ricos...
e, muitas vezes, inúteis palácios...
Leonardo, de início...
enfrentou três problemas fundamentais...
a ''transitabilidade''...
os serviços higiênicos, ou seja, os esgotos...
e a descentralização.
A cidade por ele imaginada...
é atravessada por canais...
que levam as mercadorias aos mercados.
Mais alta que estes canais...
uma primeira rede de estradas...
para os carruagens, os cavalos e o trânsito veloz.
Ainda mais alta, no nível das habitaçòes...
outra rede de estradas para os pedestres.
E aqui está, moderníssima...
uma disposição de casas em terraços.
Ar, esgotos, luz, vias de transporte.
Cidades satêlites semi-rurais...
que circundariam a metrópole industrializada.
Era assim que ele servia os homens.
lnfelizmente, atê estes projetos...
que teriam subvertido a própria estrutura de Milão...
permaneceram projetos.
Em março de 1 51 1, o Marechal D'Amboise...
aquele que, mais que um protetor...
fora para ele um amigo...
morre inesperadamente.
Uma daquelas pequenas e complicadas guerras...
em que estão envolvidos...
todos os pequenos estados em que a ltália se divide...
ocorre novamente.
E os franceses deixam a Lombardia.
Leonardo passa esses tumultuosos dias...
em Vaprio d'Adda, na mansão dos Melzi.
Foram os últimos dias daquele período de paz e felicidade.
Uma das folhas de anatomia ainda está datada...
Vaprio, 2 de janeiro de 1 513.
Mas ele sabia que não poderia ficar...
que precisava partir.
Os novos donos de Milão, logo se enfureceriam...
contra os que tinham trabalhado para os franceses...
assim como os franceses tinham perseguido...
quem tinha prestado seus serviços a Ludovico, o Mouro.
Depressa! Vocês tambêm!
Vamos, garotos!
-Outra vez, aos 60 anos... -Vamos partir!
Leonardo é obrigado a voltar ao caminho, numa viagem...
-que se apresenta sombria. -E vocês!
As bagagens!
Giuliano de Medici, irmão do novo pontífice Leão X...
lhe oferece hospitalidade e trabalho em Roma.
E outra vez, aos 60 anos...
Leonardo deixa a casa, hábitos, amigos...
-Mestre, está tudo pronto. -por uma cidade desconhecida.
Mas desta vez, além de Salay, como sempre egoista e ruidoso...
é acompanhado por um amigo...
Francesco Melzi.
Não sabemos se o jovem Melzi deixou em Vaprio...
uma mãe, ou irmãos, ou outras pessoas queridas.
Sabemos que não quis abandonar o Leonardo.
Vamos cavalo!
Leonardo escreve...
''Partimos de Milão para Roma...
no dia 2 4 de setembro de 1 513...
com Gianfranco de Melzi, Salay, Lorenzo e Fanfoglia. ''
Roma.
Sem comércio e sem indústria...
a população gravita e vive em volta da corte papal.
Logo na saída dos muros...
o abandono de um campo desolado e deserto.
A malária e a febre.
E a vasta extensão dos pântanos pontinos.
Giuliano de Medici, irmão do novo Papa Leão X...
é o jovem príncipe que, em Roma...
oferece hospitalidade a Leonardo.
Cultíssimo, requintado...
estava profundamente doente da alma e de corpo...
-e não viveu muito tempo. -Olhe para isto...
e me diga...
ê a vida ou a morte, a senhora do mundo?
O Giuliano tinha quase uma mórbida obsessão pela morte.
Não ê covardia, e nem ê por causa dela...
se alguêm, para evitar sorte mais cruel...
odeia a sua própria vida...
e que seja a morte...
se ela for o remêdio para o mal em que se encontra.
Quantos a morte já livrou do afã...
mas muitos que têm a morte como ruim...
quando ela pode ser doce ainda não sabem.
Vossa Senhoria...
não teria podido escrever versos mais belos.
Mas eu penso que a natureza...
ê mais breve em seu criar que o tempo em seu consumir.
E por isso ordenou a morte...
para deixar lugar a outras formas de vida.
E assim, a própria morte ê fonte de vida.
Atê todo este pàntano morto...
poderia ser fonte de vida.
Grande empreitada...
sanear os pàntanos pontinos.
A solução proposta por Leonardo...
como sempre foi genial.
Muito semelhante à solução tomada no ano de 1 928.
Os trabalhos começaram.
Giuliano financiou a empreitada.
Mas a cruel rivalidade...
e obstáculos levantados pelo povo de Sezze e de Priverno...
impediram que se concluíssem.
Em Roma, Leonardo se estabelece no Vaticano...
em algumas salas que Giuliano...
mandou recuperar propositalmente para ele.
Estas despesas de recuperação...
pode ser lidas ainda hoje num livro de despesas...
dos serviços técnicos do Palácio Vaticano.
E aqui, se abre um dos mais misteriosos capítulos...
da atividade de Leonardo.
Durante todo o tempo que fica em Roma...
estuda e prepara um aparelho...
que procura, por todos os meios...
manter rigorosamente secreto.
É, evidentemente, um espelho.
Até Vasari escreveu...
''No Vaticano se ocupou de espelhos''.
Por ter procurado e obtido...
dois trabalhadores especializados em espelhos.
São ambos alemães.
Um mestre, Giorgio...
e outro mestre, Giovanni, conhecidos como ''dos espelhos''.
Mestre Leonardo!
O que ê?
É que eu preciso do modelo em madeira completo...
com todos os detalhes.
De outro modo não entendo em que estou trabalhando.
Nós, na Alemanha, quando trabalhamos em algo...
Não ê necessário, basta que executem peça por peça.
Mas eu tenho que saber o que estou fazendo!
Você ê pago por aquilo que ê lhe ê encomendado.
Mas eu sou pago pelo Sr. Giulano de Medici...
como você tambêm ê!
-Acabe com isso! -Você ê...
-Bem, ê verdade. -Vamos, vamos!
Mestre!
Mestre... como pode tolerá-lo?
Francesco...
a paciência nos protege das injúrias.
Assim como a roupa do frio.
-Oh, bom dia, senhora! -Bom dia. Precisa de nós?
O que está acontecendo? Que gritaria ê essa lá fora?
-lsso, este aqui, vos agrada? -Não, não.
-Está fechado! -É bonito!
-Está fechado! -Um momento, vamos pedir...
Heinz!
Pegue as pinças!
lsso! Feito!
lsso, olhe!
Não, este para você é maravilhoso!
Sim, é mais bonito...
lsso, este é de...
Mestre Giova', quanto custa este espelho?
Não está sendo pago para fazer espelhos...
para vender a todo mundo.
Nem para transformar meu laboratório numa feira.
Eu faço...
e não pode me proibir!
Vai esvaziar este pátio em uma hora.
Velho imbecil!
Não! Quebrar espelhos traz azar!
Sou eu que trarei azar...
a este burro que manda fazer espelhos curvos ao contrário...
e que mantêm em segredo tudo o que faz.
A este alquimista...
a este necromante.
A este necromante!
Vá, Francesco. Pode ir.
Talvez, encorajado pelo mesmo Giuliano de Medici...
que sofre daquele doentio fascínio pela morte...
Leonardo retomou, com renovado fervor...
seus estudos anatômicos.
Ele tenta descobrir o próprio porquê da vida...
e escreve...
''O espírito é uma potência ligada ao corpo...
porque por si só não pode se sustentar. ''
E escreve...
''A alma quer estar com o seu corpo...
porque sem os órgãos do seu corpo...
nada pode ver, nem sentir''.
Mestre!
Lamento! Segundo ordem do lntentendente Geral...
não pode mais ter acesso à càmara mortuária.
Mas, o magníficio Sr. Giuliano...
É uma ordem do lntendente Geral.
-Sr. lntendente Geral... -Lamento!
Lamento, mas ê uma ordem vinda de cima.
-Do Cardeal! -Mais importante!
Muito mais importante.
Houve uma denúncia contra vós...
por artes mágicas e necromancia...
feita por vosso servidor alemão.
Sua Santidade não quis levá-la em consideração...
mas decidiu interromper estes repugnantes...
-Mas são estudos... -Estudos repugnantes nos mortos.
''llustríssimo Senhor Giuliano...
lamento muito... ''
''Lamento muito...
ter que me dirigir a vós...
contra a malvadez deste alemão''.
''Ele quer...
a todo o custo...
obter os modelos acabados em madeira...
para levá-los ao país dele...
o que eu lhe neguei''.
A segunda coisa, é que montou uma loja...
que encheu de espelhos para mandar para as feiras''.
''Passa seu tempo com os guardas suíços...
matando pássaros para estas antiguidades''.
''Mas, sobretudo, ...
impediu que fizesse a anatomia, através do Papa...
censurando-a...
não permitindo a minha entrada no hospital''.
Dói o coração...
ver um homem como Leonardo...
ter que se abandonar a estas misérias cotidianas...
porque um empregado obstrui seu trabalho.
Sobretudo quando pensamos...
o que poderia ter sido esse trabalho.
Juntando os longos estudos sobre os espelhos côncavos...
sobre a aberração cromática...
sobre os instrumentos por ele inventados...
para obter espelhos com grandes raios de curvatura...
se pensou que ele estivesse trabalhando...
num grande telescópio de reflexão.
Um telescópio, para sermos claros...
com base no princípio daquele de Monte Palomar.
Leonardo está cansado...
inquieto.
Chegou à idade em que um homem...
tem a necessidade do calor de uma casa...
do silencioso afeto de uma família...
para se sentar com repousada calma frente a si próprio.
Reexaminar sua vida passada.
Mas ele não tem uma casa.
Nunca teve.
Quando jovem, foi mandado para a oficina de Verrocchio.
Aquela que deveria ter sido a sua casa...
esteve sempre ocupada pelas numerosas mulheres...
e pelos numerosos filhos do Sr. Piero.
Desde então, mudou muitas vezes de cidades e patrões...
até esta cidade que não ama.
Mas nem Roma o ama.
Na corte papal ele é um ser isolado...
aparentemente cercado de respeito.
É um estranho respeito, repleto de mal estar e medo.
O velho, no interior de seu laboratório...
dá seguimento aos estudos secretos de alquimista...
e àquele terrível hábito de cortar cadáveres...
Mestre!
-e quanto aos afetos... -Mestre, ê tão tarde!
O único conforto...
é a constante amizade de Francesco Melzi.
E Salay?
Está no quarto dele.
Lorenzo fechou o armazêm lá em baixo?
Sim, mestre.
-E o laboratório? -Sim.
Deixe a porta aberta para que Salay possa entrar...
quando voltar...
se voltar.
O ambiente romano ruidoso e boêmio...
parece ser, no entanto, condizente com Salay.
Aquele garoto que ''roubava dinheiro''...
tem hoje 35 anos.
Apesar de toda a paciência de Leonardo...
ele se tornou um pintor medíocre...
talvez atê triste...
e descontente com uma vida...
que não lhe deixou nada nas mãos.
Porque o único grande bem que havia lhe oferecido...
a amizade e o afeto de um homem como Leonardo...
foi ele, com suas próprias mãos...
que o estragou.
O que faz aqui?
Fui ao laboratório para ver se estava tudo fechado.
E você o que faz aqui?
O que representa?
Se o viu, já sabe.
Você tambêm o viu. Ele lhe mostrou.
O que ê?
É um jovem que, com a mão...
aponta para fora do quadro.
O quê? Aponta para o quê fora do quadro?
Ele disse a você.
Ele disse.
Não faça barulho!
Está bêbado.
Vou morrer assassinado.
Pobre Salay.
Na verdade, morreu com um tiro de espingarda...
disparado não se sabe por quem...
poucos anos após a morte de Leonardo.
Durante o período romano...
Leonardo pintou, além daquele quadro...
também uma Leda que não chegou a nossos dias.
Só ficaram uns desenhos.
E duas versões, das quais, esta, é a mais fidedigna.
Rafael, lembrando sempre...
a muda admiração perante a ''Mona Lisa''...
fez um desenho daquela Leda...
que na postura...
recordava muito a sua ''Galatea''.
Em toda a corte papal...
Rafael, de alma gentil, que é hoje rico e famoso...
como já era em Florença...
talvez seja o único a admirar e defender abertamente...
Leonardo.
Aqui o encontramos, apresentando a Leão X...
''A Pesca Milagrosa''...
um dos desenhos para os tapetes de parede...
destinados à Capela Sistina.
Belo.
Verdadeiramente belo.
Ainda bem que São Pedro não se assemelha a Leonardo...
como o seu Platão da escola de Atenas!
Leonardo, Santidade...
ê o mais alto pensador de nosso tempo!
Oh, como pensador... ele pensa!
Atê demais.
Há um tempo lhe pedi um pequeno quadro.
E ele começou logo a destilar óleos e ervas...
para a tinta que iria usar no quadro acabado.
Pelo que disse, para mim mesmo...
meu Deus!
Ele pensa no fim, antes de começar a obra!
Em janeiro de 1 51 5...
Francisco l subiu ao trono da França.
É muito jovem, tem 20 anos.
Culto, inteligente, corajoso...
seguindo os passos de Carlos Vlll...
e de Luís Xll, ele também vai para a ltália.
Em 13 de setembro, em Melegnano...
enfrenta e derrota os milaneses.
A batalha dura dois dias...
deixando ao todo 1 8. 000 mortos.
Francesco l conseguiu assim...
escancarar as portas da ltália.
O precário equilíbrio que sustentava...
os pequenos estados da ltália...
fica mais uma vez comprometido.
É preciso mudar.
O Papa Leão X vai rapidamente a Bologna...
fazendo-se preceder e acompanhar...
por todos os artistas e as celebridades...
que tornam mais faustosa a sua corte.
E no cortejo, entre outros, segue também Leonardo...
como um rico objeto a mostrar...
e dele se gabando junto ao estrangeiro.
Leão X se apressa a ir a Bologna...
para se encontrar solenemente com o rei vencedor...
e evitar qualquer movimento...
em detrimento dos estados da lgreja.
Não..., por favor!
Um momento.
Não, por favor, Senhoras!
Senhoras!
Mestre Leonardo!
Meu pai...
meu coração se regozija de vê-lo.
Mais ainda...
se pudesse vê-lo conosco na França.
Mover-se o amante
pela coisa amada
Se a coisa amada for vil
O amante se torna vil
Quando o amante se chega ao amado
Lá repousa
Quando o peso é pousado
Ali se pousa
Ali se pousa
Desde 1 51 6, Leonardo vive na França...
na residência de Cloux, em Amboise.
Francesco Melzi, o fidelíssimo...
o acompanhou.
Salay, por sua vez, ficou na ltália.
Era muito tarde...
quando percebeu o que perdera.
Francisco l concedeu a Leonardo...
uma renda básica...
mais que um servidor...
o considera um amigo.
Alguns anos depois, Benvenuto Cellini escreveu...
''Não quero deixar de repetir as palavras...
que ouvi dizer do rei, sobre ele...
as quais proferiu na presença...
do Cardeal de Ferrara...
do Cardeal de Lorraine...
e do rei de Navarra''.
''Disse não acreditar que outro homem nascido no mundo...
soubesse tanto quanto Leonardo...
não tanto de esculura, pintura e arquitetura...
quanto por ele ser um grandíssimo filósofo. ''
Desenhe, Francesco, desenhe!
Mesmo na França, nunca cansado de estudar...
projetou um canal entre o Loire e o Chère.
Mestre...
o que indica aquele dedo?
Desenhe, Francesco, desenhe.
O que indica?
Sei lá?
Os dias transcorrem aparentemente serenos...
naquele refúgio oferecido pela magnificência de um rei...
que nada lhe pede em troca.
Que belo rio, o Loire.
Mas não ê o Adda!
Sabe que dia ê hoje?
24.
24 de junho.
Em Florença, ê festa de São João.
Em Florença.
''Em 2 4 de junho, dia de São João...
ano de 1 51 8 em Amboise...
no Palácio de Cloux''.
Agora, sentindo que sua jornada...
está chegando ao fim...
uma invencível melancolia lhe invade a alma.
Parece conformado.
E escreve...
''A vida bem passada é longa. ''
E escreve ainda...
''Como um dia bem passado permite um melhor dormir...
assim uma vida bem usada oferece um alegre morrer''.
Talvez seja destes dias...
um desenho que representa um velho.
Ele mesmo, Leonardo.
Frente ao estudo do redemoinho produzido pela água...
contra um poste fincado no meio de uma corrente.
O velho...
como que escutando a água...
a água que vem do rio...
o velho, apoiado ao tronco de uma árvore...
com um bastão entre as mãos...
como quem se sentou após um longo caminhar...
olha em frente, mais que pensativo...
quase angustiado por um pensamento.
Um grande pensamento.
Até agora, suas pesquisas...
tiveram como único e exclusivo guia...
a experiência.
Aliás, o experimento.
''A experiência é a mãe de toda certeza''.
''A sabedoria é filha da experiência.''
''Nenhum estudo humano...
poderá se chamar de ciência verdadeira...
se não passar pela demonstração matemática''.
Esta forma mental tão rigorosa...
tinha portanto que levá-lo a considerar...
com grande ceticismo...
qualquer religião revelada.
''Se duvidarmos da certeza das coisas...
que passam pelos sentidos...
quanto mais teremos de duvidar...
das coisas rebeldes a esses sentidos...
como a essência de Deus, da alma e dos semelhantes''.
A tal ponto que Vasari disse...
''Criou-se em sua alma um conceito tão herege...
que não se apoiava a qualquer religão...
estimando muito mais o ser filosófico...
que o cristão''.
Mas este experimentalismo...
tão profundamente radicado nele...
nunca se tornou materialismo.
Ele sempre teve um senso...
profundamente religioso da natureza...
considerada um todo maravilhoso e vivo.
''A natureza ê forçada pela razão da sua lei...
que nela vive infusamente''.
Este conceito de uma natureza viva e maravilhosa...
o leva, num primeiro momento...
a reconhecer, na própria natureza, a divindade.
Mas, pouco a pouco...
talvez no limite extremo da vida...
este pensamento evolui.
''Que gênio poderá penetrar na natureza...
que língua poderá explicar essa maravilha?''
''Certamente nenhuma''.
lsto, leva o discurso humano à contemplação divina.
Mestre!
Pensava...
cada coisa ê tão perfeita, tudo ê tão perfeito que...
ê impossível que nenhuma coisa por si só...
seja causa de sua criação.
Vamos.
Estes são os estudos e os volumes da mecànica e...
um tratado das águas.
Sempre tive a intenção...
de escrever um tratado sobre as águas.
Estes são...
-os desenhos do vôo... -Do vôo?
Estudei uma máquina.
Uma máquina.
Estes são os estudos de anatomia.
Mais de 20 cadáveres...
Há alguns meses uma paralisia...
atingiu a mão direita de Leonardo.
...todos os nervos e os ossos.
E aqui...
ainda não em ordem...
estão os esboços para um tratado sobre pintura...
-e a perspectiva... -Oh, aquele quadro!
Lamento Excelência, mas...
ainda não está acabado.
Um testemunho importante...
sobre os últimos dias de Leonardo...
nos foi deixado por Antonio de Beatis...
secretário do Cardeal de Aragão.
Antonio!
Sim, Excelência.
Viu estes quadros?
A beleza!
Por favor, não fique aí...
''O Sr. Cardeal foi, conosco...
visitar o Sr. Leonardo da Vinci, florentino.
''Velho, com mais de 70 anos''.
Leonardo devia parecer bem mais velho...
porque naquela êpoca tinha apenas 65 anos.
''Ele mostrou a Sua llustre Senhoria...
três quadros''.
-Ah! Uma mulher de Florença! -''Um...
de uma certa mulher florentina...
Antonio, por favor, tome nota.
um de Nossa Senhora e filho no colo de Santa Ana...
-e um de São João Batista... '' -Vossa Senhoria...
este São João está pronto.
A perfeição destas pinturas ê tamanha, que...
Mestre, mas...
mas tem a cruz!
Antes não tinha.
E agora tem.
Um pouco de ar...
Sim, mestre.
É 23 de abril. Dia santo.
É o ano de 1 51 9.
Magistrado...
Fique patente a qualquer pessoa que...
perante nós, em pessoa...
o Sr. Leonardo de Vinci, pintor do rei...
perante nós ditou seu testamento...
e suas disposições conforme sua última vontade.
Segue recomendando a sua alma...
a nosso Senhor Deus.
Doa e cede ao sr. Francesco de Melzi...
cavalheiro de Milão...
todos e cada um dos livros...
que o testamento representa...
e outros instrumentos e retratos...
da sua arte de pintor.
lgualmente doa e cede a Baptista de Milanis...
seu servidor, metade de uma vinha...
que possui fora dos muros de Milão.
E a outra metade dessa vinha a Salay Milanese.
lgualmente, a Maturina, sua servidora...
uma veste de bom pano preto, forrada de pele...
um rolo de pano e dois ducados...
como remuneração de seus bons serviços.
Ordena e deseja que a soma de 400 escudos do sol...
depositados em Santa Maria Nuova de Florença...
sejam entregues a seus irmãos de sangue...
residentes em Florença.
lgualmente, quer e ordena que o Sr. Francesco de Melzi...
seja o único executor do testamento.
Battista...
no corredor.
Maturì...
na mesa do mestre.
Giovanni...
no meu quarto.
Luz... làmpada.
Luz...
luz...
làmpada.
Quantas palavras se sabem...
làmpada...
luz...
lanterna...
e Francesco.
Palavras que são...
coisas precisas...
pessoas, sentimentos...
cada coisa tem uma palavra, mesmo a mais pequena...
grãozinho, formiga...
e todas estas infinitas palavras que se conhecem...
e as coisas aprendidas, estudadas...
e as lembranças...
todas estas coisas que são a nossa riqueza acumulada.
Que são nós mesmos...
num instante.
No instante anterior estou vivo...
e, em apenas, um instante depois...
estou morto. Não sou mais nada.
Não fica mais nada.
Nada, não!
E isto?
E estas obras?
Quadros, estudos?
Coisas pobres, Francesco, coisas pobres.
Nada...
-não fica nada. -Mestre!
Mas a lembrança!
A lembrança de nós...
que os outros continuam...
e continuarão a carregar dentro de si!
Talvez isso...
só isso.
Boa noite.
Vá dormir...
e não fique atê tarde.
A laterna estraga os olhos.
Nove dias depois...
em 2 de maio de 1 51 9...
Leonardo morria.
Leonardo morria.
Francesco Melzi...
dava assim a notícia numa carta aos irmãos em Florença.
''Sr. Giuliano e seus respeitáveis irmãos...
venho certificá-los da morte de Mestre Leonardo, seu irmão...
e meu, como ótimo pai...
cuja morte ê impossível a mim...
exprimir a dor que senti''.
''E enquanto estes meus membros...
ficarem unidos...
eu possuirei uma perpêtua infelicidade...
e merecidamente''.
''Porque era muitíssimo o amor que me dedicava diariamente.''
''Doeu a todos a perda de um homem tal...
que não está em poder da natureza...
fazer outro igual''.
Leonardo morreu.
Mas um trágico destino...
continua enfurecido contra ele.
Francesco Melzi, enquanto viveu...
conservou as obras dele com admiração...
mas os herdeiros e depois o tempo deixarão que se dispersem.
Em parte, destruirão-nas...
como muitas vezes já havia lhe acontecido em vida.
Até as ossadas deles se perderam.
A lgreja de S. Fiorentino...
onde foi sepultado em 2 de agosto...
dez anos depois foi devastada...
pelos huguenotes durante as guerras religiosas.
No tempo da Revolução Francesa...
o chumbo que revestia os caixões ainda existentes...
foi fundido para fazer projéteis...
e as ossadas...
jogadas numa vala comum.
E lá jazem...
ignoradas entre as outras...
as de Leonardo.
Como ignorados e incompreendidos...
pelos cegos das gerações posteriores...
ficariam por longos sêculos os escritos dele.
As profêticas descobertas de quem...
mais do que qualquer outro homem...
tinha sabido, com olhos profundos...
investigar por dentro os mistérios da natureza.
Mover-se o amante
pela coisa amada
Se a coisa amada for vil
O amante se torna vil
Quando o amante se chega ao amado
Lá repousa
Quando o peso é pousado
Ali se pousa
Mover-se o amante
pela coisa amada
Se a coisa amada for vil
O amante se torna vil
Quando o amante se chega ao amado
Lá repousa
Quando o peso é pousado
Ali se pousa
Ali se pousa
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