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-A outra também, Francesco. -Sim, Mestre.
Mestre...
Deixe, eu bebo.
-Francesco! -Sim, Mestre.
-Abram! Abram o portão! -Battista, tem alguém lá fora?
Lá fora!
O rei!
Pegue!
-O rei! -Espere lá.
O que é?
É o rei!
Ajude-me!
O rei!
Oh! Meu amigo.
Majestade...
-Não! Não se mexa! -Eu...
E não se agite!
Senhor...
E então, meu amigo, como está?
Pensava...
tantas coisas...
por fazer...
estudadas...
começadas...
Ao contrário, quantas coisas que você fez!
Quantas coisas...
por fazer...
começadas...
e nunca acabadas.
Quantos estudos...
anatomia...
estudos de peso e movimento...
o ''Tratado sobre a Pintura''...
Mas não! Os seus quadros são obras de arte!
Não, não...
Porém, Deus...
havia me dado o gênio para fazer...
Mas eu... eu...
Tendo assim chegado Francisco l, rei da França...
que costumava visitá-lo carinhosamente...
Leonardo que, por reverência...
havia se endireitado na cama...
mostrava o quanto ofendera a Deus e aos homens...
por não ter trabalhado em arte...
o quanto era necessário.
O que se transformou em paroxismo...
mensageiro da morte.
Começadas...
incompletas...
-Mestre! -Está morto.
Assim o espírito de Leonardo, que era diviníssimo...
sabendo que não poderia ter maior honra...
expirou nos braços daquele rei...
aos 75 anos.
Com estas palavras, Giorgio Vasari...
no seu livro...
''Vida dos mais excelentes arquitetos...
pintores e escultores italianos''...
escrito em meados de 1 500...
narra a morte de Leonardo da Vinci.
Mas é pura lenda.
Leonardo não morreu nos braços de Francisco l.
Cinquenta anos após sua morte...
quando Vasari escreveu essas linhas...
Leonardo já tinha se tornado uma lenda...
e Vasari inventou uma morte fabulosa.
O rei dos pintores...
morre nos braços do rei da França.
A lenda se apodera de Leonardo ainda em vida...
em virtude de seu gênio...
quase sobre-humano.
Pintor, escultor, escritor, físico, arquiteto, anatomista...
botânico, músico e mestre de mecânica.
Mas até porque muito pouco se conhecia...
e ainda hoje se conhce sobre ele.
Este homem...
que tantos e...
tantos volumes preencheu com sua escrita ao contrário...
anotando e desenhando, dia após dia...
tudo o que atingisse seu gênio ou sua fantasia...
deixou pouquíssimo escrito sobre si mesmo.
E de si mesmo...
deixou-nos apenas uma imagem.
Estamos na Biblioteca Real de Turim.
Mas é uma imagem de seus últimos anos.
Sobre os outros pretensos retratos de Leonardo...
não há nenhuma certeza.
Este é Platão, da Escola de Atenas, de Rafael...
que dizem Ter retratado Leonardo.
Este é um desenho de Leonardo...
talvez um auto-retrato.
Há ainda um desenho de um desconhcido...
muito posterior.
Foi sem dúvida um homem fascinante.
Tão agradável nas conversações...
que atraía para si os homens...
e com a palavra dirigia...
o sim ou o não âs pessoas.
E, por longos anos, viveu no esplendor das cortes.
Mas da vida de um homem tão conhecido...
o que se conhece no íntimo?
Pouco, ou nada.
De Rafael, de Michelangelo...
pode se dizer...
com suficiente exatidão quem eram e como eram.
Mas...
este Leonardo tão...
sociável, sem um amigo...
e de quem não se conhecem amores...
este Leonardo tão impassível...
aparentemente tão sereno...
e tão complexo e contraditório dentro de si.
Este homem que em Vida já é uma lenda...
que logo nos atrai e nos afasta quase assustados.
Como era realmente Leonardo?
É uma pergunta difícil de se responder.
Mas é uma pergunta fascinante.
Entrever alguma coisa...
para além da sombra que o circunda...
semelhante âquela que envolve as suas...
inquietantes figuras.
''A VlDA DE LEONARDO DA VlNCl''
PRlMElRA PARTE
Por muito tempo...
a primeira notícia documentada sobre Leonardo...
era uma declaração escrita pelo avô Antonio da Vinci...
tabelião no registro cadastral de Florença.
O nome de Leonardo consta com idade de 5 anos...
entre as bocas a manter, como então se dizia.
Mas em 1 936...
um estudioso alemão, Müller...
descobriu uma nota escrita pela mão do avô Antonio...
que se refere, justamente...
ao nascimento e ao batismo de Leonardo...
ocorrido em Vinci, um vilarejo da Toscana...
a cerca 20 km de Florença.
Antonio da Vinci escreveu...
na última página de um livro de registros...
1 452.
''Nasceu um neto meu...
filho de Piero, meu filho...
no dia 1 5 de abril, sábado, às 3 horas da madrugada''.
''Recebeu o nome de Leonardo''.
''Recebeu o nome de Leonardo''.
''Batizado pelo padre Piero di Bartolomeo da Vinci...
na presença de Papino di Nanni...
Meo di Tonino...
Pier di Malvolto...
Dona Lisa de Domenico di Brettone...
Dona Antonia di Giuliano... ''
A este batismo...
assistiram muitas pessoas...
todas elas individualmente citadas...
mas não a mãe
Dela só sabemos que era uma mulher de Vinci...
e que se chamava Caterina. Nada mais.
Quem era Caterina?
E por que o Jovem Sr. Piero, pai de Leonardo...
não a desposou, tendo reconhecido...
aliás, acolhendo na própria casa...
o filho que ela lhe deu?
Naquele tempo, o principal impedimento...
de um matrimônio era de ordem social...
por isso houve quem deduzisse...
que Caterina fosse somente...
uma modesta camponesa de Vinci...
de condições muito humildes para o Sr. Piero.
SeJa como for, esta Caterina tão misteriosa...
é a primeira, e talvez a mais importante...
na existência de Leonardo.
Poucos meses depois...
o Sr. Piero casa com Albiera degli Amadori...
uma moça de 1 5 anos.
Como dissemos, a família da Vinci...
cuJo sobrenome deriva da localidade de origem...
é uma das principais da região.
É uma família rica.
O pequeno Leonardo, muito provavelmente...
deve ter sido criado pela família.
Lindinho! É tão bonzinho! Nunca chora!
Sobretudo porque o matrimônio de Albiera e do Sr. Piero...
foi estéril.
Albiera não teve filhos.
Houve quem dissesse que a jovem madrasta...
não era rude com o pequeno Leonardo.
Mas...
como pode uma moça tão jovem...
de 1 6 anos...
que não consegue ter filhos próprios...
querer bem ao filho bastardo do marido?
Quanto ao Sr. Piero...
é um homem...
que acabou se casando quatro vezes.
Um homem, a seu modo, vivo e simpático...
mas que tinha interesses essencialmente materiais.
Toscano esperto...
tabelião público como o pai Antonio...
o Sr. Piero é ávido por dinheiro.
Vasari, na sua ''Vida'', conta este episódio...
muito significativo.
Passaram-se alguns anos.
Leonardo é um jovem pintor principiante...
mas já cheio de talento.
Certo dia, um camponês de Vinci...
escreve, na sua ''Vida'', Vasari...
-Bom dia, Sr. Piero. -Bom dia.
''Encontrando-se na vila...
o Sr. Piero foi procurado por um dos seus camponeses...
que de uma figueira cortada na propriedade dele...
havia feito uma roda de madeira...
para que Leonardo nela pintasse alguma coisa''.
Peça para que me pinte alguma coisa!
O que ele quiser, com tempo...
Quer que eu mesmo lhe peça?
Seria melhor.
Eu cuido disso. Vá, vá!
-Então, deixo-a aqui. -Leonardo!
Venha aqui. Ouça.
Gostaria de pintar algo, da sua cabeça?
''Então, Leonardo levou para o seu quarto...
lagartixas, grilos, serpentes...
borboletas, coruJas...
e outras espécies estranhas de animais similares...
do conJunto dos quais...
extraiu um animal horrível e assustador...
que pintou naquela roda de madeira...
com amor infinito''.
Este primeiro trabalho de Leonardo se perdeu...
e por isso não podemos mostrá-lo.
Mas deveria ser tão bonito...
que o Sr. Piero, escreve Vasari...
''tendo comprado, discretamente, de um mercador...
outra roda de madeira pintada...
com um coração atrevessado por uma seta...
deu-a ao vilão...
que lhe ficou agradecido por toda a vida''.
''Em seguida, o Sr. Piero...
naturalmente sem dizer nada ao filho...
vendeu secretamente a certos mercantes de Florença...
a roda que Leonardo havia pintado, por 1 00 ducados''.
Por este e outros episódios...
podemos assim imaginar o caráter do Sr. Piero...
que, de origem rural...
tem as virtudes, mas também os defeitos dos camponeses.
Ávido por dinheiro...
dissimulado...
guloso...
e sensual
Comparado com o pai, tão sensual e espaçoso...
pode se dizer que Leonardo...
representou em todos os aspectos...
o oposto.
Até 1 456...
isto é, até Leonardo ter quase 5 anos...
o Sr. Piero continua morando em Vinci...
mas os negócios dele...
Diga ao pessoal da chancelaria...
que restituam os documentos de uma vez. Entendeu?
...e os negócios do pai chamam-no a Florença.
E não se esqueça dos sinetes!
E você! Não se esfregue no chão!
Já disse mil vezes que as calças ficam gastas!
Elas não voltam a crescer! Não são de pele!
Os negócios não lhe permitem se dedicar ao filho.
Mamãe!
-Ah! Peguei você! -Socorro!
O único que cuidava dele era o tio Francesco...
irmão de Piero.
O tio Francesco não é muito bem visto em casa.
É um Jovem sem planos entre os 1 8 e os 20 anos.
Não tem ambições. Não será tabelião.
Não quer ficar estudando sobre livros.
O avô Antonio escreve, sobre ele...
com evidente desprezo numa declaração de renda...
''Mora na vila e não faz nada''.
Mas Leonardo sentia por ele grande afeto...
e teve por ele, quando adulto...
a indulgência que se tem por um irmão mais velho...
e um pouco incapaz.
Mas talvez seja mesmo este Francesco...
''que mora na vila e não faz nada''...
que ensinou ao pequeno Leonardo...
a utilidade de não se fazer nada.
Oh! Olhe!
Agora vou lhe ensinar, assim você aprende.
Esta grama é boa...
e esta é ruim.
Esta é boa para aos olhos.
Esta é ótima para as dores de barriga.
Esta é malva...
dá vontade de urinar.
Os olhos servem para olhar.
Olhar serve para ver.
E ver serve para entender!
E entender é útil para saber!
E o saber...
serve para nós próprios!
Está morta?
Sim, coitadinha, está bem morta!
Olhe como é bonita!
Sabe o que vamos fazer?
Veja...
vamos abri-la, assim vemos como é por dentro.
Talvez tenha nascido assim...
a ânsia que Leonardo sempre teve de conhecer...
de ver como as coisas são feitas por dentro.
Às vezes, levada até à crueldade.
Caterina, a mãe...
também morava em Vinci...
e via crescer aquela criança que lhe haviam tirado.
Quem é você?
Quem é?
Vai me dizer quem é?
Então, não quer me dizer?
Leonardo!
Leonardo...
sempre andando como um vagabundo!
Adeus! Viu como está crescendo?
-Tio, quem é aquela mulher? -É uma mulher, bobo, não viu?
-Mas quem é aquela mulher? -É uma mulher, vamos!
Vamos levar também estes livros para Florença?
Você quer deixá-los aqui, idiota?
Por volta de 1 456...
o Sr. Piero decide ir com toda a família...
ele e a segunda esposa, para Florença...
deixando Leonardo em Vinci...
dado que, entretanto...
Albiera, a primeira mulher, havia morrido...
e o Sr. Piero casara novamente com outra mulher.
O que está fazendo, Sr. Piero?
Francesca, filha de Lanfredini.
Está é a segunda madrasta...
que toca no pequeno Leonardo.
Leonardo vai ficar sozinho com o tio Francesco...
aquele que mora na vila e não faz nada.
Pegue, filho.
O vinho do adeus!
Chegaremos a Florença antes do anoitecer.
Saúde!
Tia, um copo para mim!
Pegue!
Vão embora logo com essas caixas!
Leonardo, Leonardo!
Já disse para não se esfregar! Não se esfregue!
Leonardo, quer um pouco?
Dê para mim!
-Por favor, se apresse Francesco. -Amarre-as bem!
Partam com as coisas!
Leonardo...
comporte-se, agora que vou para Florença.
Não faça asneiras.
Pegue, leve você!
Ouça, Leonardo, não se esfregue...
que as calças...
não são de pele como o bumbum...
e ficam gastas, não voltam a crescer. Entendeu?
Vamos, que já é tarde! Vamos!
-Vamos Francesca! -Como Albiera...
Francesca também não dará filhos ao Sr. Piero.
Mas ambos são Jovens.
O matrimônio deles é ainda recente...
e mais que esperança, têm certeza que os terão.
Florença, uma grande cidade.
O Sr. Piero, que foi nomeado...
ou está para ser nomeado...
tabelião do distrito.
Vinci, a pequena cidade do interior...
abandonada para sempre.
É uma partida feliz.
Procure se acomodar, pois o caminho é longo.
Vai ver como Florença é diferente!
Até logo, senhor patrão!
Boa viagem!
Tchau e boa viagem!
''E você não se esfregue, que as calças...
não são de pele como o bumbum...
e ficam gastas!''
A esses anos...
transcorridos em absoluta liberdade...
Leonardo deverá o excepcional vigor de seu corpo...
e o apaixonado amor pela natureza.
A natureza...
grande refúgio para quem se sente...
ou quer se sentir sozinho.
''Assim como a pedra, Jogada na água...
se constitui centro e causa de vários círculos...
também o som, produzido no ar...
se espande circularmente''.
Leonardo! O que está fazendo aí?
Passei toda a manhã procurando por você!
-Leonardo! -O que é tio? O que quer?
Volte para casa!
Seu pai voltou para pegar você!
Vai levá-lo para Florença!
Fique calmo!
Eh! Você!
Oh, Caterina!
Vou levá-lo para Florença.
Para que estude um pouco...
e não continue crescendo como um animal selvagem.
Vai ficar conosco, em Florença.
E você, Leonardo, diga adeus â Caterina.
-Diga-lhe adeus. -Adeus!
E agora vamos, que o caminho é longo.
Porém, Caterina...
casou com um certo Accattabrighe del Vacca...
O que faz sempre aí, na porta? Vamos entrar!
...cuJa existência é para nós tão misteriosa quanto a dela.
Pai, mas quem é aquela mulher?
É Caterina, a mulher do Vacca.
Sim, eu sei, mas queria saber quem é?
Quem muito pede, nada recebe.
Quem muito questiona, não acaba bem.
Nunca lhe disseram?
-Olha, aquela é Florença. -Como é grande!
Florença, naquele tempo...
era uma pequena cidade governada por uma família...
de banqueiros sábios e inteligentes: os Medici.
Florença é alegre, facciosa, bisbilhoteira.
É uma pequena cidade com apenas 60.000 habitantes...
mas seu pulsar e sua força econômica são tão grandes...
a ponto de ser chamada mestra do mundo.
Os Medici emprestam ouro a todos os reis da Europa.
Os artistas florentinos levam o sopro de uma arte nova...
a todas as regiões da ltália.
Esta arte nova é o Renascimento.
Em Florença...
no ano em que lá chega Leonardo...
vivem e trabalham...
os maiores talentos que tornaram célebre...
aquele século de ouro.
Leonardo foi mandado logo...
para a escola de letras e de música.
E em pouco tempo, escreve Vasari...
''...fez tantos progressos...
que, ao expor dúvidas e dificuldades...
ao mestre que o ensinava...
muitas vezes o confundia''.
Pois eu lhe digo que é uma bobagem!
E que não é conveniente!
E o que não é conveniente não deve ser feito!
Na escola, será bom até você querer.
Até mais que os mestres!
Suponhamos que o põe para estudar!
Acha que vai se tornar quem?
Um tabelião como eu ou como você?
Sabe que não pode ser. É um bastardo.
E quem é bastardo...
não se torna tabelião da República.
-Mas, há vezes... -Sim, sim...
vai dizer que há filhos bastardos de reis...
que governam cidades, províncias, castelos.
Mas isso não quer dizer nada!
Você é, por acaso, um rei?
Qualquer um se gabaria, por assim dizer...
de ser filho bastardo do rei da França.
Fique tranqüilo...
que o primeiro a se gabar seria o marido!
Minha esposa foi honrada por reis!
Mas de quem não é rei costuma se dizer...
''minha esposa enfeitou minha cabeça''.
-Posso servir? -Sim, sim.
Onde ficara nesta declaração de renda?
Francesco, que mora na vila e não faz nada...
e vai caçar grilos.
Leonardo, filho de Caterina...
hoJe casada com Accattabrighe del Vacca...
de nove anos. llegítimo.
No processo, tenho que declarar que é ilegítimo!
Senão irão perguntar.: e a mãe? Onde está?
Toda a discussão começou aqui. llegítimo!
Aqui está a declaração para o cadastro.
Seis bocas a cargo!
Se tivessem isso em consideração!
HoJe as taxas nos comem vivos!
Ouça o que lhe digo!
Fazer com que o garoto aprenda Latim não serve para nada.
Agora, no final do ano, tire-o!
E ponha-o numa oficina...
para aprender uma arte. Há tantas!
lmpostos... impostos... impostos...
Venha! Ajude-me a arrumar as camas!
Estou indo, Dona Francesca.
Há muitas coisas para colocar em ordem.
Sabe que a mão esquerda é a mão do diabo!
O sol nasce â esquerda! E até o relógio...
O que está dizendo?
Digo que o sol nasce â esquerda...
e que o relógio move as esferas da esquerda...
e até nas conchas, veja...
a espiral que as forma começa â esquerda.
Você está muito sabido!
-Venha comigo! -O que vai querer fazer?
São desenhos! Não fiz nada de mal.
Quer ficar calado?
Nunca ouvi um garoto falar tanto!
Já decidi.
Se ele quiser...
vai ficar na oficina de Mestre Verrocchio.
Se ele quiser.
-Andrea Verrocchio? -Salve, Mestre Verrocchio!
Vim até aqui porque preciso lhe falar.
Bom dia, tabelião Piero. Venha, venha!
Tenho aqui uns desenhos, uns rabiscos...
gostaria que lhes desse uma olhada.
Com prazer. Dê para mim.
A oficina de um mestre do século XV...
não se assemelha de modo algum ao ateliê de um pintor moderno.
É, antes de mais nada, uma oficina.
O artista do Renascimento é pintor, ourives...
ferreiro, artesão.
O produto dele é vivo.
Sim, é um produto vivo...
porque sempre corresponde a uma necessidade cotidiana.
Como... esta grande bola revestida de cobre...
que será colocada na cúpula de Santa Maria del Fiore.
Leonardo se lembrará dela anos mais tarde, escrevendo...
''Recorde as soldaduras...
com as quais se firmou a bola de Santa Maria del Fiore''.
''De cobre encravado em pedra...
como os triângulos da mesma bola''.
Aqui se fazem também quadros e estátuas de santos...
para que o povo a eles reze ajoelhado.
E mais...
retratos para recordar o rosto de uma pessoa querida...
louça para as mesas dos ricos e dos menos ricos.
Alfaias sagradas para as igreJas.
Pietro Perugino...
quase certamente, Botticelli...
e Lorenzo di Credi, então muito Jovem...
Já trabalham na oficina de Verrocchio.
Nada mal. São de seu filho?
Fico com ele, sim. Onde está o garoto?
Está esperando lá fora.
Leonardo!
-Você é canhoto, não é? -Sim.
-Como percebeu? -Pelo tracejado do desenho.
Eu receberei 3 liras por mês.
A alimentação e hospedagem Ficam por minha conta.
-Quando começamos? -Já!
-Já? -Sim.
-Lorenzo! -Sim, mestre!
-Traga um avental para este moço. -É para já, Mestre.
-De agora em diante vai viver aqui. -E minha casa?
Esta será a sua casa.
E lembre-se, são 3 liras por mês!
Não tenha receio!
E você, trabalhe com distinção.
Tchau, filho.
Ouça, pegue.
-Como se chama? -Leonardo, e você?
Eu me chamo Lorenzo.
Venha.
Esta é a bola que irá para a cúpula...
de Santa Maria del Fiore.
Pegue, Lorenzo.
Obrigado.
-O que servirão esta noite? -A omelete de sempre!
Leonardo iniciou seu aprendizado...
morando debaixo do teto de Verrocchio.
Como os alunos, naquele tempo, viviam...
uma vida em comum com o mestre...
não se livravam, âs vezes...
dos trabalhos mais humildes.
Passaram-se assim alguns anos.
Quatro ou cinco anos.
Cheguei em baixo.
Vamos, partam!
Mais uma vez a omelete de sempre!
Como manda a tradição, naquele tempo...
Verrocchio teri usado Leonardo..
como modelo para o seu David.
É verdade que aquele rosto afilado, inteligente...
recorda outro rosto que se encontra muito...
nos desenhos de Leonardo...
até numa de suas primeiras pinturas...
da qual se diz ser um auto-retrato.
Leonardo revelou ser desde cedo...
o mais dotado de todos os alunos da oficina.
Só Leonardo...
entre todos...
foi autorizado por Verrocchio, a pôr as mãos...
num dos anJos do retábulo de altar...
que lhe havia sido encomendado.
''O Batismo de Jesus''.
Eh! Vocês, filhas!
É com vocês!
O Perugini está pendurado nas lavadeiras.
Vamos dar uma chegada lá.
O que estão lavando?
E a lsabel, onde está? Não veio hoJe?
Ah! Bonita, bonita! Como é bonita!
É bonita como...
É bonita e gorda como uma pata!
Seu imbecil!
Venha, venha aqui, não vá embora!
Tenho uma camisa para lavar!
Eu pago, sabe? Vamos!
-A Lisetta é a mais bonita! -É muito fofa!
Olhe! Olhe!
Olhe para aquela! Desencoste-se!
Ouça!
Cuidado com as pernas!
Que são bonitas as que se vêm!
Passe depressa que está ocultando a paisagem!
Parem com isso!
Leonardo, você está sempre trabalhando, não come?
Até mais à noite na Rua das Virgens.
Venha, por favor!
O que é isso, arremessando sabão?
Venha buscá-lo, venha!
Mas não você, que é velha!
Mande aquela Jovem, aquela lá no fundo!
Eu lhe mostro a velha, imbecil!
Sabe que você está bonito?
Muito mais bonito...
Mas sabe que o seu anjo...
é 1 00 vezes mais bonito que o anjo...
pintado pelo Mestre Verrocchio...
cem vezes mais!
O que estão fazendo aí? Tratantes, vagabundos!
Perugino! Você será sempre um grosseirão!
E você também, Botticelli, vá trabalhar!
Sempre fazendo barulho! Basta que eu saia um minuto...
Sumam! Sumam!
Espere!
Então é melhor, não é? Muito melhor.
Melhor que o anjo que eu pintei.
Cem mil vezes melhor.
Vá! Vá!
Aquele bobo tem razão.
Continue! Ao trabalho! Ao trabalho!
Vamos lá com essa forja!
Basta que eu saia um minuto...
''E esta foi a causa...
pela qual Verrocchio não mais pegou em pincéis...
indignado por um garoto ser melhor que ele''.
Não só quadros ou estátuas de santos...
eram feitos na oficina do Verrocchio.
Os Medici, como todos os senhores inteligentes...
distraem o povo com festas, diversões, torneios...
e a oficina do Verrocchio trabalha para eles.
Força, força com esses estandartes, vamos!
Lá no fundo â direita! À direita!
-Botticelli, onde está você? -Estou aqui!
Vá levar para lá estes aqui, vamos!
Já vou! Giovanni, venha! Estes também, com os outros!
Naquele ano de 1 47 1...
Galeazzo Maria Sforza, senhor de Milão...
vem visitar Giuliano e Lorenzo de Medici...
senhores de Florença.
O cortejo! Tem cortejo, venham depressa! Venham!
Venham! O cortejo está passando. Venham!
É um ato de aliança política...
entre duas grandes famílias governantes...
porque em quase todas as cidades da ltália...
termina a época dos feudos...
reina agora um senhor como um pequeno soberano.
Leonardo, Leonardo!
O duque Sforza, o duque de Milão...
vai encontrar Lorenzo, o Magnífico! Olhe!
Atrás, vêm 90 carruagens com tecidos preciosos!
-O duque Sforza é aquele lá? -Não o duque já passou!
Mas que duque Sforza!
Esse não é ninguém! É um irmão do duque!
É tão escuro de pele...
que o chamam de Ludovico, o Mouro!
Este luxuoso cortejo vai em direção â própria morte.
No período de dois anos, dois atentados...
um em Milão e outro em Florença...
ocorrem contra os Sforza e contra os Medici.
Em Milão, Galeazzo Maria Sforza é assassinado...
e aquele ''ninguém'' que o seguia...
Ludovico, o Mouro, assumiria o poder.
Em Florença, Giuliano de Medici é apunhalado.
O irmão Lorenzo...
Lourenzo, o Magnífico, consegue escapar.
A sua vingança será rápida e impiedosa.
Não!
Não!
Deixem-me! Não!
Não!
É 28 de dezembro de 1 479.
Bernardo de Baroncelli...
que participou da conspiração dos loucos...
e que foi também...
um dos assassinos de Giuliano de Medici...
foi capturado pelos guardas de Lorenzo na Turquia...
onde havia se refugiado...
e foi levado à força para Florença...
para ser enforcado publicamente.
Está desenhando o enforcado?
Sim.
Voltem para casa!
Vão embora!
Para casa! Voltem para casa!
O que está escrevendo?
Barrete de cor escura...
gibão de cetim preto...
casaca de cor turquesa forrada de cauda de raposa.
Ainda está vestido como um turco. Que traje estranho!
É mesmo verdade...
que a mão esquerda é a mão do diabo!
Desconcertado...
perplexo...
seu amigo Lorenzo foi embora.
Deixou-o sozinho.
Se fores sozinho, serás todo teu.
''Se estiveres acompanhado por um companheiro...
serás teu pela metade''.
Escreveria mais tarde, com orgulho amargo, Leonardo.
Na verdade, não é fácil...
ligar o delicado pintor do anjo...
a este frio escritor.
Muito mais fácil...
se pensarmos que o que motiva Leonardo...
é somente uma insaciável sede de saber...
de conhecer... de ver.
Como a do garoto que corta a barriga da lagartixa...
às vezes a curiosidade é cruel.
E é por isso que o Leonardo...
nos parece muitas vezes um personagem desconcertante.
Que sirva para todas um exemplo.
Um episódio...
que o próprio Leonardo nos transmitiu...
e o qual se lê num dos códigos de anatomia.
É um episódio que aconteceu muito anos depois.
Mais de 20 anos depois
O mistério da máquina humana...
complexa máquina composta de músculos, ossos, sangue...
sempre fascinou Leonardo.
Assim, para estudar os cadáveres reais...
frequenta assiduamente...
o hospital de Santa Maria Nuova, em Florença.
Quantos anos tem?
Muitos!
Mas quantos?
Cem! Mais de cem.
E está doente de quê?
De velhice, senhor...
-de velhice. -De velhice.
''E este velho'', escreve Leonardo...
''poucas horas antes de sua morte...
me disse que tinha mais de cem anos...
e que nada sentia falhar em seu corpo...
a não ser fraqueza''.
''E assim, sentado na cama...
sem nenhum movimento ou qualquer incidente...
docemente, deixou esta vida''.
Assim escreve, com branda melancolia, Leonardo.
Depois, no mesmo tom e sem transições continua.
''E eu pratiquei logo anatomia...
ou seJa, cortei logo o cadáver...
para descobrir a causa de tão doce morrer''.
lnvade-nos uma sensação de calafrio...
a idéia de Leonardo esquartejando...
ou seja reduzindo a pedaços...
cortando com uma faca...
para ver como morreu este velho com o qual...
há menos de uma hora...
falou tão afavelmente.
A outra anatomia que fiz'', escreve Leonardo...
''foi a de uma criança de dois anos''.
Antonio!
Antonio! Oh! Antonio!
A criança que Leonardo observa e desenha...
é seu irmão Antonio.
Finalmente, o sr. Piero...
teve um filho de sua terceira terrível mulher..
Margherita di Francesco,
dado que o Sr. Piero...
Já em idade avançada...
casou pela terceira vez.
-Vamos! -Sr. Piero!
Vou acabar contando para sua esposa!
Leonardo!
Poderia imaginar que na minha idade...
eu conseguiria fazer um filho tão bonito?
Leonardo!
Dê-me um pouco de vinho!
-O que está desenhando? -Olhe!
Não, jogue! Jogue!
Nossa Senhora, o menino e o gato?
Coloque-me também e serei São José, não?
Olhe só para eles!
Divertindo-se, enquanto ele fica no frio!
Está perto da lareira, e a sala está quente!
Ela talvez tenha razão!
-Sr. Piero? -Sabe, as mulheres...
-Sr. Piero, estou chamando! -Sim?
Ficou surdo com os anos?
-Não ouviu? -Ouvi, sim! Estou indo!
Para o diabo o gato também!
O que deseja?
Posso saber porque temos esse bastardo sempre em casa?
Antes, no tempo das suas mulheres...
incapazes de lhe dar um filho verdadeiro...
dava para entender.
-Não... -Mas agora...
agora é uma desconsideração para com o seu filho!
Não percebe isso, sendo tão culto?
-Que exagero! -Ah! Para você é exagero!
Da Nossa Senhora do gato, tão almejada...
talvez nunca realizada...
restam hoje somente poucos esboços.
Em Leonardo fica...
um amargo e incurável desprezo pela...
tagarela mesquinhez da madrasta.
O Sr. Piero continuaria a ser escravo...
de sua gula e de sua luxúria.
Depois de Margherita, terá uma quarta mulher...
Lucrezia de' Cortegiani...
que lhe dará outros filhos.
Após a morte do sr. Piero, o menino do gato...
e todos os outros meio-irmãos que nasceriam depois, aliados...
se mobilizariam para contestar de Leonardo...
a herança a qual teria direito...
afirmando ser, ele...
ilegítimo.
Num dos seus cadernos...
muitos anos depois...
Leonardo escreveria...
secamente...
''No dia 9 de Julho de 1 504''
''Quarta-feira, às 7 horas... tabelião, meu pai''.
''Às 7 horas''.
''Tinha 80 anos''.
''Deixou 1 0 filhos homens e 2 mulheres''.
Sem comentários.
Nada mais.
Os últimos elos com a família...
assim se quebraram
''Salvo é aquele que se salva... ''
escreveria ele numa de suas páginas.
Este desenho é datado como.: Santa Maria della Neve...
2 de agosto de 1 473.
Leonardo está sozinho.
Não está sozinho.
A natureza é seu grande refúgio.
A natureza...
as coisas que o circundam...
se oferecem às pesquisas dele com seu rosto misterioso.
As folhas se alternam nos ramos...
segundo leis simétricas precisas.
Por quê?
É nos frutos, nas sementes...
que está o germe da nova planta...
daquela mesmo, não de outra.
Por quê?
Por quê?
Por quê?
Por quê?
Mas, ainda que solitário...
não é avesso à companhia dos homens.
Na Mansão di Careggi...
Lorenzo, o Magnífico...
reúne os filósofos, os letrados...
e os artistas de Florença.
Marsilio Ficino, Angelo Poliziano...
É todo um fervor de estudos, de discussões.
Escavam-se as estátuas antigas...
procuram-se os escritos dos autores gregos e latinos...
que ao longo da ldade Média...
ficaram sepultados nas bibliotecas dos mosteiros.
Leonardo, como sabemos...
não teve como concluir seus estudos.
Ele procura, como possível...
recuperar o tempo perdido...
aprender sozinho e, com dificuldades, o Latim.
Mas nestas reuniões...
como em todos os grupos de filósofos e letrados...
se discute, se discute.
A mente prática e positiva de Leonardo...
reage com mal escondida intolerância...
às muito sutis e estéreis discussões...
sobre a natureza e sobre a essência da alma.
Mas...
eu creio...
que no lugar de definir o que é a alma...
que é algo que não se pode ver...
muito melhor é estudar as coisas...
que podem ser conhecidas com a experiência...
porque é só a experiência que não falha.
E onde não se pode aplicar...
uma das ciências matemáticas...
não se pode ter certeza.
São, para Leonardo, anos de trabalho muito intenso...
e de estudos sem fim.
Tudo o atrai.
E seu pensamento se detém em tudo.
E contudo, apesar de tanto estudo...
são estes os anos mais fecundos do Leonardo pintor.
Nossa Senhora do Cravo...
Nossa Senhora Benoi...
Nossa Senhora Litta, ambas em São Petersburgo.
O retrato dito de Ginevra Benci...
e as duas Anunciações...
a do Louvre e a do Uffizi.
Mesmo nos flamengos se encontra muitas vezes...
um estudo igualmente minucioso da natureza.
Leonardo deve certamente ter visto...
o tríptico Portinari de Hugo van der Goes...
trazido justo naqueles anos para Florença.
Mas Leonardo tem muito pouco em comum com eles.
Ele é sempre um cientista...
que analisa cada detalhe...
para poder perceber melhor o conjunto.
Nunca é um artista minucioso que copia.
As flores do políptico de van der Goes...
ainda que belíssimas, são apenas, digamos...
um elemento decorativo.
O lírio do anJo de Leonardo faz parte da narração.
Está imerso na atmosfera do quadro.
Estas são as paisagens de Leonardo.
E esta é a paisagem de van der Goes.
-Conseguiu! -Como pôde?
-Com as mãos! -Dobrou-o!
Colegas, venham cá, venham ver!
Dobrou-o!
Vasari escreve...
''Havia naquele gênio tanta graça de Deus...
a ponto de todos os dias fazer modelos e desenhos...
que o seu cérebro não parava de idealizar''.
''E entre estes modelos havia um...
com o qual dizia e demonstrava...
poder levantar o templo de São João...
a fim de lhe colocar escadas embaixo''.
''E seus raciocínios eram tão convincentes...
que a todos conseguia persuadir''.
Ouçam, ouçam! Sabem o que disse Leonardo?
Que deseja levantar S. João!
Quer levantá-lo!
Para lhe colocar escadas embaixo!
Para mim, está ficando maluco!
Como sempre...
como sempre a admiração...
tem por companheiras a inveja e a maledicência.
Uma carta anônima...
no dia 8 de abril de 1 476...
leva uma gravíssima denúncia contra...
um grupo de Jovens florentinos...
entre os quais Leonardo...
ao magistrado dos oficiais noturnos...
que vigiam os bons costumes.
A denúncia em questão implica...
Bartolomeo di Pasquino...
ourives em Vacchereccia.
Leonardo de Piero da Vinci...
que está com Andrea del Verrocchio.
Desculpe-me por um momento.
A acusação é anônima.
E como todas as acusações anônimas é mesquinha.
Muito provavelmente é falsa, mas é grave.
Gravíssima.
A ser confirmada, naquela época...
poderia levar à morte infame pelo fogo.
Por favor, se quiser se dignar...
Sente-se, por favor.
Bem, gostaria de lhe dizer umas palavras sobre o...
Claro.
A alta consideração de todos nós por Sr. Piero...
nos aconselharia, no mínimo, a adiar...
Claro, entendo, mas pelo menos deveríamos...
-Podemos continuar? -Continue!
Baccino Farsettaio está no Orto San Michele.
Leonardo Tornabuoni.
É um Tornabuoni. Ouviu, não é?
Um Tornabuoni...
Não creio que isso possa agradar ao Magnífico!
Este Tornabuoni é primo, pelo lado materno...
de Lorenzo, o Magnífico.
Penso que seja melhor abafar tudo...
pelo menos por ora...
depois, particularmente... quem sabe...
-É melhor suspender! -Sim, sim.
-Parece-me! -É melhor.
É melhor.
Fica suspenso â espera de averiguações.
Obrigado.
Fica suspenso â espera de averiguações.
Porém, escrevam relatórios.
Averiguações, relatórios, documentos.
Fica tudo sepultado nos arquivos.
E esta acusação...
sobre a qual não se indaga...
para não desagradar a Lorenzo, o Magnífico...
como uma publicidade escandalosa...
esta acusação que fica, assim, pela metade...
murmurada por uma voz anônima...
sepultada pela hipocrisia de alquimistas bêbados...
consome ainda mais Leonardo por dentro.
Poder, como os pássaros...
voar, fugir, livre, para longe.
''O pássaro se eleva no alto''.
''É a força do ar que o sustém''.
É talvez deste estado de alma...
que nascem em Leonardo...
as primeiras intuições do vôo.
''O pássaro...
é um instrumento que age por força matemática''.
''Porque a asa faz tanta força contra o ar...
quanto o ar contra a asa''
O homem deve, portanto, poder...
reproduzir essas condições...
que permitem o vôo dos pássaros.
Mas há outro modo...
para escapar da curiosidade dos homens.
Mostrar-lhes somente o que queremos.
E somente após ter atingido uma perfeição tal...
que a admiração faça calar até a inveja.
Esconder, portanto...
todas as infinitas etapas preparatórias...
através das quais a obra vai se formando...
escondê-las nos segredos das anotações...
escritas com uma indecifrável caligrafia ao contrário...
que somente os iniciados podem ler com um espelho.
E estudar...
estudar, estudar.
Estudar cada detalhe...
porque cada coisa é composta por tantas pequenas partes...
que é preciso conhecê-las uma a uma.
Este estudo minucioso e obstinado...
acaba muitas vezes dispersando a força criativa de Leonardo.
De fato... 1 027 01 :59:1 9.1 8 01 :59:21 .03 a partir destes anos...
as obras de Leonardo são cada vez mais raras.
E os livros com as anotações...
dos estudos para os seus quadros crescem.
Entretanto, a obra espera.
Espera, âs vezes, durante anos, incompleta.
E, muitas vezes, incompleta permanece.
Neste não acabar...
nesta contínua busca... de conhecimento...
há, pode-se dizer, uma vontade obscura...
de adiar o momento em que...
a obra perfeita...
poderá ser mostrada.
Porque isso está, sem dúvida, no inconsciente de Leonardo...
ou seja, mostrar muito pouco de si mesmo...
e só o que é perfeito.
O resto, como suas figuras...
dissimulá-lo numa sombra cálida...
cúmplice...
protetora.
Para os frades de San Donato em Scopeto...
Leonardo pinta uma ''Adoração dos Magos''...
que, entre estudos e reflexões...
vai tocando por mais de um ano.
O contrato, do qual subsiste ainda uma cópia...
foi redigido com minuciosa argúcia...
pelo próprio Sr. Piero...
e prevê condições vantaJosas para o pintor.
Por isso, a impaciência dos frates e do prior...
crescem a cada dia.
Leonardo...
já se passaram meses!
Essa ''Adoração dos Magos'' nunca acaba!
Padre, a perfeição que eu quero...
A perfeição não é desta terra...
-Seja humilde! -Eu sou!
Porque sempre acho não ter estudado o suficiente.
Você recebeu 4 liras e 1 0 vinténs em junho.
-Não é verdade? -Sim.
Recebeu 28 florins em julho...
-Não é verdade? -Sim.
E ainda trigo, vinho...
Obriga-nos a chamar outro pintor!
Menos dotado que você...
mas que irá colocar o quadro no altar!
Às vezes...
nos dias de maior descontentamento...
retornava à oficina de Verrocchio...
para voltar a ouvir a voz dura e segura do mestre.
Para reencontrar o calor humano...
dos antigos colegas de oficina.
Mas o tempo passava.
Os companheiros não eram mais os mesmos.
No seu lugar havia novos alunos...
que, agora, o consideravam...
um velho.
Já está trabalhando com argila?
A oficina está sempre em movimento, não é?
Sim, trabalhando sempre.
Onde está o Mestre Verrocchio?
Vieram uns clientes importantes!
-De Veneza! -Está falando com eles.
-E quem são? -Vêem de Veneza.
Leonardo! Há quanto tempo não aparecia!
Sim, faz muito tempo...
-Mas o que tem? -Nada.
Vamos, eu conheço você. O que tem?
-Descontentamento. -De quê?
De mim.
Quem são?
Enviados da República Veneziana.
Vieram encomendar uma grande estátua equestre.
Um trabalho importante, uma mão cheia de dinheiro.
Estão aqui desde esta manhã.
Aqui os alunos pintam os modelos. 1 8 alunos.
Ficam por aqui uns 6 ou 7 anos...
segundo a habilidade ou a dedicação...
como Lorenzo, que ainda está comigo.
O Leonardo, agora, é bom demais para ficar aqui.
A minha oficina é esta que vêem.
Aqui tem espaço e comodidade...
e aqui faremos o modelo em argila e depois em gesso.
A fusão, porém, será feita em Veneza.
Em Veneza, é melhor.
O espaço me parece pequeno, pois a estátua...
A estátua que fez Donatello...
-Em Pádua... -para o Gattamelata...
tem mais de 1 5 metros.
-E meio -Até o rabo do cavalo.
1 8 metros até â cabeça do dedo do Gattamelata.
Seja como for, no testamento do Sr. Bartolomeo Colleoni...
Cem mil ducados deixados para a República de Veneza!
... é encomendada uma grande estátua equestre.
E portanto...
-o modelo requer espaço. -O modelo...
-vai ser feito aqui. -Onde, onde?
-Aqui no pátio. -Sim, está certo! No pátio!
Parece-me que aqui há espaço suficiente...
mesmo para uma estátua de 20 metros.
Mas assim, a descoberto? E se chover?
-Sim, e se chover? -Vai se molhar.
Antes, sobre o pátio...
produzirão uma cobertura de madeira e telas.
Sempre foi feito.
Para trabalhar abrigados em caso de chuva. Entende.
E no que se refere ao contrato...
Para as modalidades do contrato e do pagamento...
Para a elaboração de um contrato regular...
voltaremos amanhã.
Em todo caso, Sua Senhoria quer uma obra grande.
-Segundo as regras da arte. -Digna de Veneza...
e saberá vos recompensar generosamente.
É para um monumento equestre. Será uma obra grande.
Maior que o Gattamelata de Donatello.
Um trabalho de um ano para toda a oficina.
-Uma estátua equestre! -Lorenzo!
E os venezianos têm muito dinheiro!
Lorenzo, quem eram? Quem eram?
Pessoas importantes...
que trazem muito trabalho e muito dinheiro. Muito!
Voltemos ao trabalho, vamos!
Onde vão? Hoje é festa, não se trabalha!
Giovanni, venha aqui...
vá comprar pão, salame, ovos e uma fogazza!
Vá você também!
E vinho! Muito vinho!
Ponham as mesas aqui!
-Lorenzo, leve o quadro daqui! -Sim, Mestre.
Vamos!
Tirem as tintas! Não entornem nada!
Para festeJarmos não é preciso que se estrague alguma coisa!
Vamos, partam, depressa! Vamos!
Devagar, devagar com esse papel!
Oh! Cuidado que é caro!
Estou com tanta fome que não enxergo!
Perto de mim...
Está aqui o vinho!
Vamos beber!
Leonardo! Leonardo, onde está você?
-Venha, sente-se! -Sim, sente-se conosco!
Você também é da oficina!
-Bebamos ao Colleoni! -Viva o Colleoni!
Na verdade, aqueles eram muito estranhos!
Mas será suficientemente alto?
Quanto? 20 metros?
Como a estátua deles, de Donatello!
O pátio será espaçoso?
E se chover?
Nos molharemos! O importante é que paguem!
Amanhã, com o contrato, eu cuido deles!
Vai chover, mas dinheiro!
Na realidade, é um grande estorvo, não é?
O que se faz aqui? Não se bebe?
Vamos, passe o vinho!
-Está aqui o vinho! -Fique calado!
Não vê que está desenhando?
Já está desenhando, olhem!
Bonito!
Viram? Já sabe como fazê-lo!
Olhem, olhem a crina!
Não tão em cima!
Deixe-me ver!
Papel! Papel!
Desculpe, Leonardo.
Aqui, Mestre!
Saia daqui!
Para mim, tem que mexer o pescoço...
como se o dobrasse!
Sim, quando se puxam as rédeas..
o cavalo dá uma guinada!
Farei com que vire um pouco a cabeça...
assim, isso
Também de Leonardo...
temos numerosos estudos de cavalos.
Cavalos empinados...
cavalos enfurecidos...
focinhos, Jarretes, músculos.
Ele quer utilizá-los na sua ''Adoração dos Magos''.
Mas geralmente...
não se satisfaz em estudar a forma..
em captar com um traço genial o movimento.
Ele quer estudar o porquê daquela forma...
conhecer o porquê daquele movimento.
E inicia intermináveis estudos de anatomia.
Seus desenhos poderiam formar...
um tratado da anatomia dos cavalos.
E entretanto...
o quadro que está pintando para os frades de S. Donato...
continua ficando no mesmo ponto.
Bom dia, Mestre!
Bom dia.
-Leonardo! Vai embora? -Sim.
-Posso ver? -Por favor.
Devagar com essas cordas! Disse, devagar!
E essa escada, que não encoste no cavalo!
Para baixo!
E vocês não andem em cima do modelo! É de gesso!
Porém, o cavalo do monumento ao Colleoni...
para o qual Verrocchio...
fez certamente menos estudos preparatórios...
e menos averiguações anatômicas...
foi moldado.
Foi acabado! É esplêndido!
Foi até formado em gesso.
E agora vai ser desmontado...
para ser enviado com os moldes para Veneza.
Agora comecem a pegar a cabeça!
Lorenzo! Traga o resto das peças!
Estou pegando!
Leonardo!
Lorenzo!
Viu?
Está pronto! Já estamos desmontando-o.
Abaixo!
Viu-o antes que pusessem os moldes?
Vamos, desça!
Devagar!
Bonito, não é?
Um trabalho grandioso!
Pense só quando for de bronze!
Já iremos enviá-lo...
por terra e será uma grande viagem até Piacenza!
E depois nas barcaças pelo rio Po'.
Até a semana passada...
veio aqui um montão de gente para vê-lo.
Antes de ser coberto pelos moldes.
Passou por aqui meia Florença!
Que pena que você não o tenha visto!
Eu também vim vê-lo.
Quando?
A semana passada.
Era noitinha e no pátio não havia ninguém.
-Mas como não o vi?! -Você estava ocupado...
falando da viagem com o Mestre.
-Ele vai levar você? -Sim...
terei que ajudá-lo na fusão que se fará em Veneza...
e que será um grande trabalho.
Um a um, estão partindo todos.
Você, Perugini...
Sim, Perugini e Botticelli...
já estão em Roma...
trabalhando na Capela Sistina.
Por favor, parta com essas caixas.
É para Já!
Desçam devagar!
Devagar, devagar...
-aí está! -Mais palha, vamos!
Agora tirem as cordas!
-Partimos depois de amanhã! -E desmontamos tudo!
Mas quem irá a Veneza com o Mestre?
O Giovanni e o Andrea!
E também o outro Giovanni!
O de Empoli!
Então, a oficina vai ficar fechada!
Sim! Aqui o clima é de partida!
Vamos embora todos!
''A água que toca dos rios...
é a última que foi...
e a primeira que vem''.
''Assim, o tempo presente''.
Assim escrevia, um dia, Leonardo...
no Código Tribulzio.
O tempo foge.
O átimo não pode ser parado.
Minuto a minuto, o hoJe se torna ontem.
Leonardo já tem 30 anos...
e talvez aqueles últimos anos em Florença...
não tenham sido felizes.
Nestes anos, entre 1 47 8 e 1 481 ...
o que aconteceu, na realidade, com Leonardo?
No Código Atlantico, lêem-se palavras misteriosas.
''Quando eu fiz o Deus pequenino...
vocês me puseram na prisão''.
''Mas se fizê-lo grande...
me farão coisa pior''
Leonardo esteve na prisão?
Alguns desenhos de como escapar de uma prisão...
poderia nos fazer acreditar nisso.
Mas por quê?
Na primeira edição da ''Vida'' de Vasari...
lê-se uma frase que depois...
o autor tirou das edições seguintes.
''Tinha em sua alma um conceito tão herético...
que não se encostava a nenhuma religião...
dando o seu apreço...
muito mais ao ser filósofo do que cristão''.
Daqueles anos, se conhece tão pouco...
que se falou até de uma viagem sua ao Oriente.
Foram anos intensos de estudo...
que levaram sua curiosidade para todos os campos.
Mas qual é o balanço destes 1 0 anos?
Muitos estudos preparatórios...
muitos desenhos...
a ''Anunciação'' da Uffizzi...
talvez as duas Nossas Senhoras...
que se encontram no Hermitage de São Petersburgo.
E algumas obras menores que se perderam.
E é tudo.
Ele tem mais duas telas entre mãos...
trabalha nelas há mais de dois anos.
''A Adoração dos Magos'', que Já vimos...
e este ''São Gerolamo''.
Ficariam ambos incompletos.
Por quê?
lsto não é história e tão pouco lenda.
É pura suposição.
Mas são suposições no sentido de perceber...
o que foi, em cada momento... 1 336 02:1 3:01 .1 3 02:1 3:02.22 que moveu Leonardo..
para tentar descobrir o que ele esconde na alma.
Leonardo nunca, ou quase nunca...
se manifesta abertamente. Entre nós e ele...
entre ele e suas próprias obras...
percebemos quase sempre algo que num primeiro momento...
nos impede de compreendê-lo completamente
Leonardo quer, em cada momento...
ser conquistado.
Às vezes, com esforço...
muitas vezes com paciência.
Sempre com amor.
É um personagem esquivo, arisco...
difícil.
Talvez na civilizadíssima...
mas no fundo tacanha e provinciana Florença...
ele se sinte sufocado.
Esta perfeita...
minúscula cidade onde todos se conhecem...
todos sabem tudo de todos...
em que tudo é obeJto de discussões...
de exames, dissertações, fofocas...
se torno insuportável para ele.
Daquele processo que...
para não desagradar a Lorenzo, o Magnífico...
não se realizou...
talvez ninguém mais fale.
Mas muitos sorriem.
Todavia, outro ambiente, outra cidade...
menos árida e intelectual...
atenuarão o eterno descontentamento dele.
De propósito, Leonardo escolhe Milão.
Milão... onde uma corte faustosa...
talvez rude como um novo rico, mas viva...
domina uma cidade menos requintada que Florença...
mas mais laboriosa.
Ludovico, o Mouro, procura em toda parte...
gênios que confiram brilho ao seu domínio.
Leonardo decide partir repentinamente.
Muitas flores retratadas do natural.
Uma cabeça com a cara enrugada.
Alguns São Girolamo.
Uma cabeça de mulher.
Muitos desenhos de grupos.
lnstrumentos para navios.
lnstrumentos para a água.
Uma cabeça de garota com tranças.
Assim...
Leonardo se abstém de nos dizer porque razão parte...
mas nos deixa uma detalhada lista da sua bagagem.
Vasari nos dá outra versão desta partida.
Verdadeira? Não verdadeira?
''No mesmo ano, 1 494, foi convidado a ir a Milão...
para que tocasse perante o Duque...
que muito se deleitava com o som da lira''.
Primeiro erro de Vasari.
Leonardo deixa Florença doze anos antes...
em 1 482.
Continua Vasari...
''Leonardo levou um instrumento...
que fabricara com as suas mãos...
de prata, em forma de crânio de cavalo...
coisa bizarra e nova''.
''Em Milão, superou todos os músicos...
que para lá tinham ido tocar''.
''Pois ele era o melhor improvisador de rimas...
de seu tempo''.
Que Leonardo fosse um ótimo músico...
e um ótimo cantor, não há dúvida...
mas que ele tenha ido a Milão para cantar...
nos deixa perplexos.
Na verdade, antes de partir para Milão...
ele escreve uma longa carta...
que ainda hoje existe...
endereçada a Ludovico, o Mouro...
oferecendo-lhe os seus serviços...
de arquiteto...
escritor...
escultor...
mas, decerto, não de músico.
Seja como for...
verdadeiro ou não, este episódio...
Leonardo deixa Florença...
juntamente com dois companheiros.
Um deles é Atlante Migliorotti...
um músico.
E este fato de ser acompanhado por um músico...
é o único argumento que poderia Justificar...
a tese de Vasari.
O outro, é Tommaso Masini, de Peretola...
dito Zoroastro, habilíssimo operário...
de quem Leonardo muito se serviu...
e se serviria depois, para seus modelos...
e seus aparelhos de mecânica.
Zoroastro teria um papel importante...
na construção das máquinas para voar.
É um dia de primavera do ano de 1 482.
Leonardo vira as costas para Florença.
Milão o espera.
Milão rica, viva e laboriosa.
Situada no cruzamento das grandes estradas...
que unem a Europa à ltália.
Numa doce e macia planície...
toda sulcada de canais e de águas.
Milão, ano de 1 482.
Carta de Leonardo a Ludovico, o Mouro.
Continue.
Sei como fabricar pontes levíssimas e fortes...
facilmente transportáveis para perseguir os inimigos...
ou para fugir.
É prudente! Prevê as duas possibilidades!
Prossigo?
Sim, sim, continue.
Outra pontes fáceis e cômodas de colocar e tirar...
e sei como queimar e desfazer as do inimigo.
-No cerco a uma cidade... -O quê?
Repita!
E sei como queimar e desfazer as do inimigo.
No cerca a uma cidade...
sei eliminar a água dos fossos...
e fazer infinitas escadas...
e outros instrumentos pertinentes.
Sei como fazer ruir qualquer rocha ou fortaleza...
e sei ainda como construir bombas...
comodíssimas e fáceis de transportar.
Farei também carruagens armadas seguras e inatacáveis...
que entrarão nas fileiras dos inimigos...
e atrás destes poderão seguir...
as infantarias ilesas e sem impedimentos.
Carruagens armadas, inatacáveis.
lnatacáveis.
Claro!
Depois as infantarias, entre as fileiras...
Continuo?
Sim! Vá!
Sim, Excelência.
Em tempo de paz, creio satisfazer totalmente...
relativamente a outros, em arquitetura...
e na construção de edifícios públicos e privados.
Posso ainda fazer esculturas em mármore e bronze...
e também pintura...
em comparação com qualquer outro, quem quer que seJa.
-Leia devagar, leia devagar! -Sim, Excelência.
E poderemos também moldar o cavalo de bronze...
que será glória imortal e eterna honra...
da feliz memória do senhor vosso pai...
e da ilustre casa ''sforzesca''.
Entre!
Você... não é Leonardo... o músico...
que Lorenzo de Medici me mandou de Florença?
O que tocava aquele estranho instrumento...
como uma lira?
Sou eu.
Na carta que me escreveu...
me prometeu um montão de coisas.
-Muitas. -Eu também escrevi...
''Se algumas das coisas citadas...
parecerem, a alguém, impossíveis ou inviáveis...
me disponho a experimentá-las no vosso parque.''
É bem verdade que vocês, toscanos, são só conversa!
Eh! Cecilia!
Coloque-o â prova!
Dona Cecilia, é só o que peço.
Ah, as mulheres! Quanto mais caladas, melhor.
Venha cá, você e essa sua coisinha aí!
Cecilia Gallerani...
Como está o cachorrinho hoje, comeu bem?
Cecilia Gallerani tem 1 6 anos.
É a favorita de Ludovico, o Mouro...
que é oficialmente noivo de Beatrice d'Este...
que nessa época tem só 6 anos...
aguardando que sua futura esposa cresça...
se distrai com Cecilia.
Cecilia é doce, inteligente...
e apesar da sua idade...
é cultíssima.
Escreve poesias...
em italiano e em latim.
Entre ela e Leonardo nasceria uma...
delicada amizade.
Vá, vá! As mulheres em casa e os homens no trabalho!
Com a doçura inata das mulheres lombardas...
que parecem feitas de propósito...
para amenizar a positiva rudeza de seus homens...
Cecilia tempera com o seu sorriso...
a brutalidade das respostas do Mouro.
Ouça, quanto â carta, veremos.
Por ora, dê umas voltas em Milão...
que não é Florença, mas...
aqui se conversa menos e se trabalha mais. Vá.
Escreva!
A Sua Majestade... 1 528 02:22:00.1 7 02:22:02.05 Cristianíssima...
o Rei da França.
Ludovico, o Mouro, é rude, hábil e astuto.
Após a violenta morte...
do duque Galeazzo Maria, seu irmão...
não pensou em lhe suceder no ducado...
no lugar do filho dele, Gian Galeazzo.
Aliás...
deixou a Gian Galeazzo...
os títulos e as honras de duque...
mas, pouco a pouco, privou-o de qualquer poder efetivo.
O jovem Gian Galeazzo mora no faustoso palácio ducal...
enquanto Ludovico se satisfaz com uma residência...
quase modesta.
Mas do banco colocado no gabinete do seu secretário...
ele domina todo o ducado e reina em Milão.
Os primeiros anos de Leonardo em Milão...
não foram fáceis. Talvez, mais importante...
que este primeiro encontro com o Mouro...
é o encontro de Leonardo com a Lombardia.
Milão é realmente uma cidade laboriosa...
toda sulcada de águas...
que grandes barcaças percorrem...
carregadas de mercadorias.
Os barcos atravessam a cidade em todos os sentidos.
Estradas de água...
que facilitam o comércio e a indústria.
As águas dão vida aos moinhos e aos teares.
Sessenta mil operários têxteis...
trabalham a lã e a seda.
A água sempre fascinou a mente de Leonardo.
lnventor de mecanismos prodigiosos...
com os quais sonha libertar o homem...
da escravidão do trabalho...
ele não possui uma adequada força motriz...
para os mover.
O vapor, a eletricidade...
o motor de explosão ainda estão distantes.
Com que força motriz pode contar Leonardo?
Sobretudo com o ímpeto da água.
A água... não há remédio humano.
A água...
o elemento que nunca sossega.
Justo naqueles anos...
foi realizada uma grande obra na Lombardia.
A ligação do canal da Martesana...
com o circuito interior das embarcações.
Não somente a cidade...
mas toda a planície é cruzada por canais...
que, como veias, levam a todos prosperidade e vida.
Uma planície inconfundível...
doce e melancólica...
tão diferente da geométrica precisão...
da paisagem toscana.
Não é possível entender Leonardo...
se antes não entendermos a paisagem...
e o povo, da Lombardia.
Leonardo ficaria 20 anos na Lombardia...
os mais laboriosos.
Embora nunca esquecendo, pois não poderia...
sua origem toscana...
com todas as qualidades dos toscanos...
lógica, violência, racionalidade, perspicácia...
de agora em diante as suavizará com algo...
que aprenderia só na Lombardia...
a música triste e solene...
própria desta planície.
O fluir das águas...
a névoa...
as distâncias envolvidas pela bruma.
Leonardo reencontra as distâncias apagadas...
intuídas em suas paisagens da juventude.
Numa das páginas destinadas ao tratado de pintura...
que ele tinha em mente escrever...
anotara...
''Se pintares figuras em campo aberto...
pinta-as com uma névoa interposta...
de modo que os limites das sombras e das luzes...
não seJam rígidos e precisos''.
A névoa.
A névoa que ameniza...
que encobre, que confunde. E que nos defende.
Assim como nos defende...
à noite dos longos crepúsculos lombardos.
''Põe na mente, nas estradas ao anoitecer...
os rostos de homens e mulheres. ''
''Quanta graça e doçura se vê neles. ''
Também o povo da Lombardia é diferente.
As mulheres têm uma beleza doce...
e quase absorta.
''Enorme graça de sombras e de luzes...
se vê nos rostos daqueles que se sentam...
no limiar daquelas moradias que são escuras''.
Mestre Leonardo!
Mestre Leonardo, faz dois dias que o procuro!
Não se lembra de mim?
Sou de Predis. Ambrogio de Predis.
Ah, sim. Claro!
A confraria da concepção...
encomendou a mim e a meu irmão...
um políptico para o altar mor... Francesco Grande.
Na tela central...
querem uma Nossa Senhora.
Pagam 800 liras imperiais.
Eu e meu irmão pensamos em você...
para a tela central...
o da Virgem!
A Virgem junto a um anjo.
Um anjo...
nem homem, nem mulher.
Um anJo que sorri
Um anjo que sorri.
Após um ano de permanência em Milão...
talvez de inatividade...
talvez de restrições econômicas...
é este o primeiro trabalho encomendado a Leonardo.
O contrato foi redigido em 25 de abril de 1 483...
e ainda hoJe se encontra no Arquivo de Milão.
O quadro está no Louvre...
é ''A Virgem das Rochas''.
''A Virgem das Rochas''...
representa algo de novo na pintura.
Leonardo, à ilusória profundidade...
que confere às imagens e à perspectiva...
acrescenta a profundidade do ar.
''Há'', escreve Leonardo no seu tratado de pintura...
''uma outra perspectiva...
a qual chamo de aérea''.
A impressão que o quadro produziu foi profunda...
e abriu, para Leonardo, as portas da corte.
Quando você quer ver se a pintura...
se assemelha à pessoa retratada...
pegue um espelho...
e faça com que nele se espelhe a pessoa viva...
e compare a pessoa espelhada â sua pintura.
-É verdade! -Tem razão.
Bellincioni é o poeta da corte...
de Ludovico, o Mouro.
Poeta ruim, como poderão avaliar...
mas amigo de Leonardo.
Bellincioni escreveu um soneto.
-Lindíssimo! -Bellincioni?
Pode nos ler esse soneto?
Sobre o retrato de Dona Cecilia...
que Mestre Leonardo está fazendo.
''De que te zangas...
de quem tens inveja, natureza...
do da Vinci...
que retratou uma estrela tua''.
''Cecilia. Sim, belíssima é hoje aquela...
que a seus belos olhos o sol parece sombra escura''.
''A honra é tua...
ainda que na tua pintura pareça ouvir e não falar''.
''Pensa. Quanto será mais viva e bela...
-mais...'' -Meu Deus!
O meu cachorro!
''Quanto será mais viva e bela...''
Bellincioni, o meu cachorro!
Agradeça Ludovico...
Bellincioni, o meu cachorro! Por favor, corra atrás dele!
Musetto!
Dona Cecilia, voltando ao argumento de antes...
e como trabalho tanto com escultura como em pintura...
creio poder dizer qual das duas artes é a maior.
O escultor faz sua obra com a força dos braços...
â custa de muito suor...
e com a cara cheia de poeira de mármore...
parecendo um padeiro.
Enquanto o pintor...
se senta comodamente frente a seu quadro...
bem vestido...
movendo o levíssimo pincel sem o fragor do martelo.
Aliás, âs vezes...
âs vezes acompanhado por música.
Oh! A música!
Outra invenção do Mestre Leonardo?
Bravo!
Tem som, toca a sineta e bate no tambor.
lsto não estava escrito na sua carta.
Bravo! Eu bem disse...
que este Leonardo é mesmo um mago!
Então, o que acha deste retrato?
Se Vossa Excelência quiser ver...
Quero ver mesmo.
-É lindíssimo! -Lindíssimo!
É tão parecido!
Parece-se mesmo com ela.
Por que não tem o cachorrinho na mão...
no lugar daquela coisa?
Um momento, por favor. Pode ir.
O arminho é símbolo de fidelidade.
A fascinante beleza de ''A Virgem das Rochas''...
abriu a Leonardo as portas da corte.
E ele, com o assíduo capricho...
com o qual faz qualquer das coisas que empreende...
quis assumir a máscara do perfeito cortesão.
De resto, é ele mesmo que escreve...
''Quando falar com um homem do qual busca a benevolência...
fale mudando continuamente o argumento''.
''E quando vir que escuta atento, sem boceJar...
tenha certeza que aquilo de que você fala...
é a coisa que mais o deleita''.
Bravo!
Gosto de você porque diz sempre coisas interessantes.
Leonardo é inesgotável.
Louva o Mouro com alegorias bizarras.
Mas... o que é?
lsto dentro do barco, o que é? Uma amoreira?
Uma amoreira, que pode ser também...
Uma árvore de amoras.
Um mouro!
Um mouro, como disse Vossa Excelência.
Um mouro, que rege com firmeza a vela do ducado!
Oh! Bravo!
E as adivinhas! As adivinhas!
Uma adivinha. Uma adivinha desenhada.
Vamos ver!
-O que é isto? -O que é?
-Um sino. -Cecilia?
-O que está desenhando? -E esta é uma frigideira!
Um relógio, hora-agora...
Um sino, som. Sou-estou...
Uma frigideira, frito.
Agora... estou... frito.
Agora estou frito!
Outra!
-As profecias! -Mestre Leonardo, as profecias!
Por que não canta para nós, Mestre Leonardo?
E isto, o que é? Um vidente?
Ele também é, por acaso, um vidente?
É um monumento!
O monumento a Francesco Sforza.
-O monumento a vosso pai. -Não, não, é muito caro!
Com todo aquele bronze...
podem se fazer pelo menos 1 00 canhões!
-Um vidente! -Sim, sim!
O que é a coisa, que pelos homens...
é muito desejada e quando a possuem...
não sabem que a possuem?
Ouviu? Uma coisa muito deseJada.
Que quando se possui não se sabe que a possuímos.
Como, não se sabe?
Uma coisa que se tem, se sabe... !
Mas a vidência é assim mesmo!
DeseJa-se quando se possui...
mas se não se possui, não se deseJa!
É natural
Uma coisa muito deseJada!
Dormir!
Que quando não temos, procuramos ter...
e quando temos, não sabemos que temos.
É o dormir!
Certo, o dormir.
Há alguns caçadores de animais...
que quantos mais deles pegarão...
tantos menos terão.
E portanto, mais terão...
quantos menos deles pegarão.
O que é?
Quantos mais deles pegarão, tantos menos terão.
E quantos menos terão, tantos mais deles pegarão.
Mais deles pegarão...
Menos terão...
Quantos mais deles pegarão, tantos menos terão.
O que é?
O que é?
Quantos mais deles pegarão, tantos menos terão. O que é?
Ah! O que é?
O que é? Não, não, não!
Sabem o que é?
Os piolhos!
Os piolhos!
Não se espantem...
naquela época havia muitos piolhos...
não só entre os pobres, mas entre os senhores...
os quais vestiam trajes de ouro e brocados...
mas raramente trocavam a camisa.
E usavam perfumes caríssimos...
mas usavam muito pouco sabão.
As cortes...
e principalmente a de Ludovico, o Mouro...
eram, ao mesmo tempo, requintadíssimas e selvagens.
E Ludovico...
que deu festas que ficariam famosas na história...
representações que tiveram como diretor, cenógrafo...
e músico, Leonardo da Vinci...
não desdenhava os gracejos mais vulgares.
Senhores, peço-lhes!
Alongamos este episódio...
porque mostra um estranho aspecto...
do caráter de Leonardo.
Ele viveu durante anos entre os poderosos...
esforçando-se em obter-lhes favores.
Aparecia, como seus contemporâneos testemunham...
eloquente, alegre, mundano, elegantíssimo.
Para entreter a corte preparava estas...
charadas, estas adivinhações...
que ainda hoje podemos ler no Código Atlântico.
Porém, sentimos que...
nada o liga a esses fantoches.
Muitos anos depois...
quando os franceses invadiriam o ducado...
e deporiam Ludovico, o Mouro...
Leonardo...
que viveu quase 20 anos ao lado deste...
anota com gélida brevidade...
''O duque perdeu o Estado, as coisas e a liberdade''.
''E nenhuma obra foi acabada para ele''.
Mais verdadeiro, talvez...
seJa este Leonardo noturno.
O elegante cortesão...
que de dia propõe charadas às senhoras...
à noite, sozinho...
continua seus estudos de anatomia.
Mestre!
''Eu desfiz mais de dez corpos humanos...
esmiuçando toda a carne que rodeava a veias...
para vê-las a nu e poder desenhá-las''.
''E para fazer estes desenhos...
não basta o amor pela pesquisa...
porque poderia ser impedido pelo estômago...
dada a repugnância...
ou poderia ser impedido pelo medo...
habitando de noite...
na companhia de mortos esquarteJados e esfolados...
medonhos à vista''.
''E não sendo este o impedimento...
poderia faltar a habilidade para o desenho''.
''Todas estas coisas...
se eu as tive ou não...
serão os 1 20 livros que me disponho a escrever...
que o demonstrarão''.
Por que Leonardo iniciou estes estudos de anatomia?
Primeiro, só para conhecer profundamente os corpos...
que queria desenhar e pintar em seus quadros.
Mas ele não se satisfaz...
em desenhar o homem vivo em suas várias posturas...
quer saber o porquê dessas posições...
por que o braço...
assume uma certa posição e não outra.
E portanto estuda os músculos...
que dão movimento ao braço.
E não contente...
os ossos, que sustentam esses músculos.
Até aqui, seus estudos...
ainda que muito profundos...
são estudos de pintor.
Mas depois...
a sede de tudo conhecer, de tudo indagar...
leva-o a se apaixonar...
pela maravilhosa máquina que é o corpo humano...
não somente para a pintar, assim como parece por fora...
mas para buscar conhecê-la em seu íntimo...
na sua complexa realidade de veias...
de nervos...
de órgãos.
Partindo do problema...
de querer desenhar um braço que se move...
ele iria querer descobrir a razão...
que deu movimento ao braço.
Aos estudos que começou como pintor...
dá prosseguimento como cientista...
interrompendo-os e retomando-os...
durante toda a vida.
É inútil dizer que este tratado de anatomia...
que tanto contribuiria para a ciência da época...
nunca foi elaborado e nunca viu a luz...
porque, sempre, novos temas de pesquisa...
distrairam a atenção de Leonardo até deste proJeto.
Temas, digamos...
que se apresentavam sempre devido à sua arte de pintor.
Assim, se ocupando em dar cada vez mais...
relevo às próprias figuras...
ele se deparou, por exemplo...
com o problema da estereoscopia.
Por que nós vemos em relevo?
Por que os dois olhos...
o direito e o esquerdo...
nos dão, respectivamente, uma imagem diferente.
Uma, vista um pouco mais da direita...
a outra, um pouco mais da esquerda.
E a sobreposição destas duas imagens...
que abraçam, por assim dizer...
de um lado a outro, o obJeto...
nos dão a sensação do seu volume.
Mas como vemos?
Vemos através do olho.
Leonardo começa a estudar o olho.
''Eu digo que a visão...
é produzida em todos os animais...
através da luz''.
A luz que entra no olho...
penetrando a pupila.
''A pupila do olho...
muda de tamanho segundo a escuridão...
ou a claridade a qual está exposta''.
''Porque a natureza protege o olho...
ofendido pela luz em demasia...
restringindo a pupila''.
E aqui faz a natureza...
como aquele que, tendo muita luz em sua casa...
quase fecha a Janela''.
Dependendo da quantidade de luz...
a pupila fica mais ou menos aberta.
Mas como e por que...
se forma a imagem dentro do olho?
Pelo principio da câmara escura.
''Quando as imagens dos obJetos...
através de um pequeno furo penetram num vão escuro...
tais imagens se verão sobre um papel branco...
com suas próprias figuras e cores''.
''E assim acontece dentro da pupila''.
Leonardo está entre os primeiros que intuiram...
que o olho é semelhante a uma câmara escura.
Mas será assim de verdade?
Como se forma a imagem no interior do olho?
É preciso seccioná-lo, estudá-lo.
Mas por outro lado, o olho é mole como um bago de uva...
está cheio de líquido e é difícil de estudar.
Leonardo quebra a cabeça.
Como poder estudar o olho, no seu interior...
sem que se desfaça quando cortado?
Então, inventa o que, muitos séculos depois, seria...
o preparado anatômico.
''Na anatomia do olho...
para vê-lo bem por dentro sem derramar o seu humor...
tem que se pôr o olho inteiro na clara de ovo...
e deixar ferver.
Estando tudo sólido...
cortar o ovo e o olho transversalmente.
Descobre, assim, que o órgão da sensação luminosa...
é a retina...
formada por...
''...por aquele nervo que parte do olho...
e vai até ao cérebro''.
A retina, que vê, assim que atingida pela luz''.
Mas o que é a luz?
Leonardo enfrenta também o problema da luz.
E assenta as bases da fotometria.
Ou seja a ciência...
que estuda a intensidade da luz...
a qual se propaga por ondas.
''E assim como a pedra, lançada na água...
se faz centro e causa de vários círculos...
assim o som, emitido no ar, se expande circularmente.
E assim, cada corpo luminoso...
espalha e preenche circularmente...
as partes circunstantes de suas imagens''.
Assistimos, assim...
a uma das maravilhosas aventuras...
que caracterizam o gênio deste homem.
Partindo de um problema puramente pictórico...
outros problemas, todos concatenados...
se foram apresentando ao seu espírito...
e sobre todos ele quer indagar...
gostaria de resolvê-los todos.
Mas os problemas são como os anéis de uma corrente...
de uma corrente que nunca tem fim.
Até o tratado de pintura com que tanto sonhava...
nunca viria a ser escrito.
Ficam, ao contrário, tantas páginas disseminadas ali e aqui...
em esboços, anotações, capítulos, códigos...
e uma enorme quantidade de material de estudo que...
com a pintura...
teria uma ligação cada vez mais tênue.
De seus estudos de anatomia...
retornava de manhã, para a sua casa deserta.
''O duque decidiu mandar fazer o cavalo...
mas tem pressa. Cecilia''.
Decidiu mandar fazer o cavalo, mas tem pressa.
Tem pressa!
Cecilia, minha dona, Cecilia.
O cavalo.
O grande monumento equestre de Francesco Sforza. Por fim
''Eu percebi, em mim ser de não pouca utilidade..
quando, no escuro, se está na cama...
repetir com a imaginação as formas Já estudadas''.
''E isto é louvável e útil...
para confirmar as coisas na memória''.
A idéia de um enorme monumento...
em honra de Francesco Sforza, fundador da estirpe...
fora sempre um desejo de seus sucessores.
Quinze anos antes, em novembro de 1 473...
o duque escrevia a seu engenheiro Bartolomeo Gadio...
que lhe indicasse um escultor...
que fosse capaz de realizar o monumento em bronze.
Mas as medidas exigidas, colossais, 7 metros de altura...
na realidade amedrontavam qualquer um.
Matteo da Civate e os irmãos Mantegazza...
tinham proposto fazê-lo em chapa de cobre...
mas os Sforza queriam absolutamente que fosse...
todo fundido de cobre.
E deste cavalo, de que tanto se falava...
ninguém ousava se encarregar de fazê-lo.
Por isso...
a carta de Leonardo ao Mouro dizia simplesmente...
''farei o cavalo''...
quase como se referindo a algo notório.
Finalmente, o Mouro se decidiu...
e Leonardo não perde tempo...
porque o Mouro tem pressa.
Leonardo quer fazer um cavalo perfeito...
de uma beleza ideal.
Observa e desenha cada cavalo que encontra.
Encontramos isto entre suas anotações...
''Morello florentino do Sr. Mariolo...
cavalo grande...
tem um belo pescoço e uma linda cabeça''.
''Ronzino branco de Falconiere...
tem belas coxas traseiras. Está em Porta Comacina.
Grande cavalo cremoncino do Sr. Giulio''.
Numa primeira versão...
seguindo aquela figura de cavalo empinado...
que se repete muito na sua obra...
ele imagina Francesco Sforza atingindo um inimigo caído.
Mas depois volta para uma figura mais tranquila...
que reproduz o ''Rei Sol'' de Pavia...
e que se perdeu.
O Mouro tem pressa...
mas não hesita em distrair Leonardo...
com contínuas encomendas de trabalho.
Sobretudo a construção do Tiburio da Catedral de Milão.
Mas o que mais distrairia Leonardo...
seria a contínua construção de aparelhos e ornamentos...
para a maior festa que jamais tinha sido feita.
Uma festa que viria, por isso, a ser chamada...
''a festa do Paraíso''.
Cuidado! Devagar com isso...
e tudo a seu tempo!
Você, aí em cima!
Ponha sebo entre as engranagens...
que está rangendo muito, vão ouvir no salão!
É um mago! É mesmo um mago!
A festa do paraíso...
foi deseJada e encomendada por Ludovico, o Mouro...
por ocasião das bodas do duque Gian Galeazzo...
com lsabel de Aragão, filha do rei de Nápoles.
Este matrimônio faz parte da política do Mouro que...
naquela época...
ainda não manifesta sua intenção...
de se apoderar do ducado.
Mais devagar! Atenção â música!
-lsabel era muito Jovem... -Obrigada.
Agradeça a Ludovico, lsabel.
Obrigada.
As estrelas!
As velas das estrelas!
Acendam as duas de cima que estão apagadas!
Aquelas duas, â direita, que estão apagadas!
É mesmo um mago!
Foi cara mas... é muito bonita.
Prontos com o fogo!
Atentos, começam as graças!
Assim mesmo, a tempo!
E você prepare-se! A tempo!
Nós somos as três graças
Vindas em sua honra
Para a satisfazer e saciar
E trazer à Jovem coroa
Glória, glória, glória
Fique atenta.
Nós somos as três graças
Vindas em sua honra
Para a satisfazer e saciar
E trazer à Jovem coroa
E trazer à Jovem coroa
Glória, glória, glória
O vapor!
Pegue a tocha! Fique pronto!
Fogo vivo!
Venham com o carro!
Apaguem as tochas!
O vapor! Muito vapor!
Venha! Subam o carro!
O Sol!
Por isto, nem eu esperava!
Desta famosa festa do Paraíso...
de que todos os contemporâneos falam...
com estupor e admiração...
chegou até nós o libreto completo de Bellincioni.
Não nos chegaram os desenhos de Leonardo...
portanto o espetáculo a que estão assistindo...
é necessariamente uma reconstrução imaginária.
Pedimos desculpas pelos inevitáveis arbítrios.
Sala dos eixos...
castelo sforzesco, verão de 1 489.
Mestre Leonardo!
Sou eu, Alamanni!
-Trouxe a carta. -Obrigado.
Era meu dever de amigo e florentino...
vos informar desta carta.
A carta é para o magnífico duque de Florença...
e eu, como embaixador florentino...
tenho que enviá-la, mas...
antes vou lê-la a você.
Obrigado.
''O ilustríssimo Sr. Ludovico... a Vossa Excelência...
para que lhe mande de Florença...
para que lhe mande de Florença...
um mestre que seja capaz de terminar o cavalo de bronze...
do monumento a Francesco Sforza, seu pai''.
''Embora tenha atribuído a obra a Leonardo da Vinci...
ele acredita que este não consigará terminá-lo...
pelo demasiado tempo que nele emprega''.
Obrigado, Alamanni.
-Marco! -Sim, Mestre!
Marco!
-Desça, que vamos suspender! -Mas as tintas!
Não, só por hoje! Vamos suspender o trabalho!
-Traga os desenhos! -Está bem.
Milão...
Milão não é a única cidade.
E os Sforza não são os únicos senhores na ltália!
Não é pintando árvores...
que posso continuar fazendo cavalos.
Nem desenhando trapos e fantoches...
para as festas do Mouro!
Mas... já é um capítulo fechado. Estou partindo.
Deixo Milão.
Venham! Vamos embora!
O que aconteceu depois...
entre ele e Ludovico, o Mouro, não se sabe.
Mas a verdade é que Leonardo acabou não deixando Milão.
Com efeito, pouco tempo depois ele escreveu...
''No dia 23 de abril comecei este livro...
e recomecei a trabalhar no cavalo''.
Tudo parecia resolvido da melhor maneira...
mas ao contrário, por ordem de Ludovico...
ele recomeça a gastar seu tempo e seu gênio...
para montar novos espectáculos para a corte.
Desta vez, são as festas para o matrimônio...
do próprio Ludovico, o Mouro...
que vai desposar Beatrice d'Este.
Ah! Na oficina de Leonardo, agora...
há um novo aluno.
lsso, e com estas peles...
farão os trajes para os homens salváticos.
-Ah, isso, os trajes de pele. -Um moleque...
porque no meio do torneio...
farei inesperadamente irromper...
um grupo de homes selvagens...
-a cavalo. -Homens selvagens?
Vestidos como os bárbaros do Oriente...
de peles, ouro, plumas, escudos com pedrarias...
-os quais... -Os quais?
...inesperados...
porque é algo que ninguém pode saber...
-naturalmente. -Ah! Percebo.
Se lançarão contra as tribunas...
para raptar as se... vá embora!
Suma daqui!
...para raptar as senhoras que, não prevenidas...
-ficarão muito assustadas. -Mestre!
-Esperem aqui. -Faça favor.
Minha Dona Cecilia.
Quanto trabalho para uma festa...
que durará umas poucas horas.
Quando parte?
Agora. Passei para me despedir.
O Mouro nada pode fazer. Esposa é esposa.
E Beatrice sabe ser esposa.
Ele levou um tapa na frente de todos...
mas é a esposa.
Enquanto eu...
E assim nada mais me restava senão escolher...
entre o matrimônio...
ou o convento.
Não tenho vocação, escolhi o matrimônio.
O velho conde Bergamini, conhece-o?
Festas, diversões, torneios...
quanto do vosso gênio desperdiçado, Mestre Leonardo...
E eu...
quanto tempo...
quanto amor desperdiçado.
Quanto...
Adeus.
Ludovico, o Mouro, casa com Beatrice d'Este...
e Cecilia Gallarani é obrigada a abandonar Milão.
Assim, Cecilia...
a única mulher que talvez tenha inspirado...
um sentimento em Leonardo...
desaparece para sempre da vida dele.
Senhores, por favor.
Estes serão os trajes...
que vestirão os cavaleiros do torneio.
As bodas de Ludovico, o Mouro e Beatrice d'Este...
que fez 1 6 anos...
se realizam em 1 7 de Janeiro de 1 491.
Por ocasião destas bodas...
o conde de San Severino...
ordena, em nome deles, uma esplêndida festa.
A competição...
-Aldo! -Já vou!
A competição ordenada por San Severino...
Os seis cavaleiros prontos para o desfile!
...ordenada por San Severino ficou famosa.
Eleanora d'Este descreve-a numa longa e minuciosa carta...
ao marido Ercole, duque de Carrara.
''Hoje, por volta das 1 8 horas...
estes ilustres duques e outros senhores e cavalheiros...
e todas as ilustres senhoras duquesas e suas filhas e eu...
partimos do castelo e fomos para a praça...
para ver a competição.
-Giacomo! -O meu manto! Jogue-o!
Vamos, jogue!
Pegue!
E aqueles...
-estão todos vestidos? -Sim.
-Aqui está, Mestre -Estão todos prontos?
Você, está esperando o quê? Vá se vestir no salão!
-Arrume o chapéu! -Assim.
Aqui, este outro. O cinto.
Para baixo.
Vá, vá!
Deixe-me ver!
Sim, tudo bem.
Não deixem por aí os chapéus. Você também está pronto, vá!
Então, Andrea! Chame esses aí!
O que está fazendo com essas botas? Para cima! Para cima!
O que precisa para se arrumar? Depressa!
De quem é este chapéu?
Não deixem nada por aí! Vamos depressa!
Vistam-se que os cavalos estão prontos!
O que você está fazendo?
Feche tudo muito bem, senão quando galopar cai!
E agora damos a palavra a Leonardo...
assim, como escreve no Código Atlântico.
''Dia 26 de Janeiro...
estando eu na casa do Sr. Galeazzo da San Saverino...
para preparar a festa da competição...
e despindo-se alguns lacaios...
para provar uns traJes de homens selvagens...
Jacomo se encostou na carteira de um deles...
que estava sobre a cama com outra roupa.
E tirou o dinheiro...
que encontrou lá dentro.
Vamos, andem!
Eh, você!
-O que eu fiz? -Esta bolsa!
Jogou-a no chão, que eu vi!
-Não fiz nada! -O dinheiro, onde está?
-O dinheiro? -O que você quer?
Eu vi você jogá-la ao chão! Onde está o dinheiro?
-Não peguei nada! -A bolsa está vazia!
Você jogou-a ao chão, entendeu?
-Onde está o dinheiro? -Não peguei nada!
Deixe!
Restitua o dinheiro!
-Mas eu... não sei de nada. -É mesmo?
-Deixe-me! -Já viu?
-No casaco, aqui estão! -Deixe-me!
Pegou-os da minha bolsa!
Ladrão!
E mentiroso!
Ladrão...
mentiroso...
obstinado...
e guloso.
-Salay! -Sim, Mestre!
-Já moeu as cores? -Sim, Mestre.
-E agora, o que está fazendo? -Estou limpando.
E Leonardo escreve.:
''Jacomo... veio ficar comigo...
no dia da Madalena de 1 490...
com a idade de 1 0 anos''.
-E agora, o que está fazendo? -Acabando de limpar.
''No segundo dia...
que estava comigo...
mandei fazer, para ele, duas camisas...
um par de calças e um abrigo''.
''E quando pus o dinheiro de lado...
para pagar estas coisas...
me roubou o dinheiro da algibeira''.
E nunca foi possível fazer com que confessasse.
São 4 liras.
Com estranha minúcia, Leonardo escreve assim...
palavra por palavra...
como ainda hoJe podemos ler numa de suas páginas.
Salay! O que está fazendo?
Acabando de limpar e pondo azeite nos candeeiros.
ltem. Dia 7 de setembro...
roubou uma quantia em divisas...
de 22 moedas de Marco d'Oggion.
Onde os coloquei?
Estavam aqui no baú!
E depois do referido Marco...
tê-los procurado muito...
encontrou-os escondidos...
no baú de Jacomo.
São 1 lira, mais 2 liras em dinheiro.
ltem. Tendo-me sido doada...
pelo mestre...
Agostino da Pavia, uma pele turca...
para fazer umas botas...
ele, Jacomo, a roubou.
-Salay, o que está fazendo? -Eu?
Pergunto, o que está comendo?
-Nada! -Como, nada? Venha aqui!
Venha!
Anis. Balas de anis.
Aquela pele turca, a quem a vendeu?
A um fabricante de sapatos. Mas... por quanto?
-Por nada! -Então, vendeu-a!
Sim. Ah, não!
Não se vende por nada...
e você disse tê-la vendido. Por quanto?
Por... por... por vinte moedas.
Vinte moedas de anis?
Vinte moedas era uma cifra enorme!
Saibam que um par de sapatos custava, então...
três moedas.
Despesas para Saly no primeiro ano...
um manto, 2 liras.
6 camisas, 4 liras.
Um vestido forrado, 5 liras.
24 pares de sapatos, 6 liras e 5 liras em dinheiro.
24 pares de sapatos em um ano!
É suficiente para definir o garoto.
Quem é este Giacomo?
É filho de um camponês de Oreno...
e seu nome é Giacomo Capolotti.
Leonardo o apelidou de Salay...
que é o nome de um dos diabos...
que se encontram no poema de Luigi Pucci...
''ll Morgante Maggiore''.
Este diabo, que se instalou na casa de Leonardo...
continua cometendo erros sobre erros...
e Leonardo, com irônica paciência...
os anota, um depois do outro.
Tendo ido jantar com Andrea di Ferrara...
Salay jantou por dois e se portou mal por quatro...
quebrando três ampolas e entornando o vinho todo.
O que representa Salay na vida de Leonardo?
Talvez uma necessidade invencível de afeto...
alguém ocupando o lugar dos filhos que não teve...
ou da família que não tem.
Mas porque justo o Salay...
ladrão, mentiroso, obstinado e guloso?
''Salay milanês com uma graça e uma beleza indefinidas...''
escreve Vasari...
''a quem Leonardo ensinou muitas coisas da arte''.
Salay não aprendeu muito destas coisas da arte...
mas Leonardo continuou a mantê-lo próximo...
porque gostava dele...
e porque o examinava com a frieza de um cientista...
que estuda o comportamento de um animal selvagem.
-Fique quieto! -Não posso!
-Então, mexa-se! -Oh!
Em 1 493, o modelo de gesso do cavalo monumental...
destinado a Francesco Sforza...
por ocasião do matrimônio de Biancamaria Sforza...
e do imperador Massimiliano...
é exposto para a admiração de toda Milão.
Não podemos mostrar este monumento...
porque, na realidade, não sabemos como era.
Existem apenas alguns desenhos de Leonardo...
e nem sequer os definitivos.
Existe um pequeno modelo de cera...
particularmente bonito...
numa coleção particular de Florença...
estudado por Arturo Bovi...
e que poderia ser o mencionado por Vasari.
''Foi perdido um pequeno modelo de cera...
que se conservava perfeito''.
Ainda que não possamos mostrá-lo...
podemos fazer ouvir os louvores...
em versos e prosa...
dos contemporâneos que viram este monumento.
O poeta Baldassarre Tacconi.
''Ludovico Sforza...
manda fazer em memória do pai um grande colosso...
que nem a nobre Roma jamais vira maior''.
Lancino Cuzio.
''Na Corte Vecchia, oitava maravilha...
Leonardo Vinci levanta um grande cavalo...''
Obrigado, obrigado.
Mas, muito mais importante...
é o testemunho de Giorgio Vasari.
''Os que viram o modelo que Leonardo fez de terra...
grande...
admitem nunca terem visto coisa mais bonita...
nem mais soberba''.
O cavalo tinha 7 metros de altura...
dos pés ao topete da cabeça.
Para o fundir em bronze...
eram necessárias 200.000 libras de metal.
Vamos, acorde!
Desde este momento...
as páginas de Leonardo estão repletas de estudos...
para a fusão do colosso.
San Gallo e o frade Luca Pacioli, célebre matemático...
vieram visitá-lo na oficina.
200.000 libras!
Nunca ninguém fez algo semelhante!
Aqui, vejo cadinhos...
jamais costruídos por alguém
Para melhor utilizar o calor da chama...
estudei alguns fornos especiais.
E estes alambiques?
Como sempre levado pelos seus estudos...
Leonardo inventou, de passagem...
o alambique de câmara dupla...
que, como outras suas cem invenções...
ficaria ignorado entre suas anotações...
e seria reinventado só muitos anos depois.
Qualquer defeito não virá dos fornos, mas do bronze!
200.000 libras!
Hoje, o Mouro emprega todo o bronze em canhões!
HoJe, Ludovico, o Mouro, é finalmente duque de Milão.
O sobrinho Gian Galeazzo morreu...
segundo dizem, a seu mando...
mas é mais provável que tenha morrido...
pelos vícios acumulados ao longo de sua vida inútil.
HoJe, finalmente, Ludovico, o Mouro, é duque.
E a partir de hoJe...
a angústia e o medo...
se sentam companheiras inseparáveis ao seu lado.
Fortificar!
Sim, sim, fortificar!
Fortificar Vigevano! Novara! Fortificar Pavia!
Fortificar!
Fortificar!
Os franceses pressionam nas divisas do ducado...
cuJas finanças estão exauridas.
O novo duque fortifica.
Fortifica aterrorizado na idéia que lhe seJa tirado...
o que tanto penou para conquistar.
Até o bronze destinado para o cavalo de Leonardo...
Já está a caminho de Ferrara...
para ser transformado em canhões.
Que está esperando para enviar esses canhões?
Mandei-lhe todo o bronze que quis...
até o que já estava pronto.
Sim, para o monumento, Leonardo ficou furioso...
sem deixar de ter razão!
Mas o duque...
O que quer de mim, esse duque de Ferrara?
Diz que as despesas para a fusão...
-são muito altas, Excelência. -Eh, sim! Dinheiro! Dinheiro!
Não entendem que é melhor para eles que eu me defenda?
Os franceses estão na divisa do ducado.
Leio as anotações?
Leia!
Em Vigevano, 20 canhões e 30 grandes bombardas...
serão instaladas só após a construção da fortificação.
Sim, que esperem! Esperem!
O Mestre Zanino, bombardeiro, diz que...
diz poder fazer três canhões de um só jato.
De um só jato?
Não é possível!
No dia 1 6 de julho...
Caterina veio...
no dia 1 6 de julho de 1 493.
Caterina.
Quem é esta Caterina da qual vemos inesperadamente o nome...
numa das tantas páginas de Leonardo?
A mãe?
Na anotação da morte o pai...
Leonardo escreve estranhamente...
''Às 7 horas morreu meu pai''. ''Às 7 horas''.
Repetindo duas vezes ''âs 7 horas''.
Também agora ele repete...
''No dia 1 6 de julho, Caterina veio.
''No dia 1 6 de julho''.
O que isso significa?
Uma ligação inconsciente...
entre a notícia que se referia ao pai...
e que hoje se refere â mãe?
Mas seria mesmo a mãe?
Após tantos anos de distância, de abandono...
a mulher veio ficar com ele?
A humilde mulher de Vinci...
veio morar com o filho famoso?
Por quê?
Pode ter ficado só...
na miséria.
Não é uma serviçal.
Porque Leonardo não diz como é seu costume...
''Veio ficar comigo''...
ou então: ''Veio a 4 ducados por mês''.
Leonardo escreve simplesmente...
''Veio''.
Mas ele não escreve.: ''minha mãe''.
Escreve apenas.: ''Caterina''.
Caterina!
Sim, veja...
Espere aqui.
O que está fazendo? Suma, suma! Depressa!
À frente de todos...
ele continua a chamá-la de Caterina.
Caterina!
Salay!
Mas como a terá chamado no segredo de seu quarto?
Leonardo não deixa transparecer nada de si.
Fecha as portas atrás de si...
para esconder os seus sentimentos...
com um pudor quase mórbido.
Há ainda duas breves anotações sobre Caterina...
abrindo uma rara fresta na vida de Leonardo...
aparentemente tão pobre de amores.
A primeira diz...
29 de janeiro de 1 494...
Caterina, 1 0 moedas.
Em dinheiro, 1 0 liras.
Mas a outra...
a outra nos parece inesperada e imprevista...
numa das folhas do Código dito Foster.
''Despesas pelo sepultamento de Caterina''.
''Despesas pelo sepultamento de Caterina...
em 3 libras de cera, 27 moedas''.
''Pelo ataúde, 8 moedas''.
''Transporte e colocação de cruzes, 4 moedas''.
''Transporte do cadáver, 8 moedas''.
''Por 4 padres e 4 clérigos, 20 moedas''.
''Sino, livro, esponJa, 2 moedas''.
''Pelos coveiros, 1 6 moedas''.
Por que entre todas as palavras...
funeral, cerimônias, acompanhamento...
Leonardo escolheu a mais cruel e forte...
sepultamento?
Como se este episódio fechasse para sempre...
as secretas relações que ele manteve com Caterina...
que lhe sorria da porta de casa, quando menino...
por ali passava pela mão do tio Francesco.
''Aquela mulher, tio, quem é''?
E com a minúcia de sempre, anota as despesas.
As 3 libras de cera servem para as tochas...
porque os funerais na época ocorriam ao crepúsculo...
aquela hora, como ele escreveu, que...
''tanta doçura e graça e melancolia...
confere aos rostos dos homens e das mulheres no caminho''.
As despesas pelo ataúde nos fazem lembrar...
que então se transportavam os mortos descobertos.
Depois Leonardo anota...
o número dos padres... que acompanharam Caterina...
quatro.
Quatro padres e 4 clérigos.
Um funeral sem luxo, mas nem por isso pobre.
E ainda as despesas pelo sino...
que tocou durante todo o tempo do transporte.
Por último, os coveiros.
Mestre Leonardo!
Nas infinitas páginas...
densas de muitas anotações dos livros de Leonardo...
Caterina nunca mais seria mencionada.
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