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Original subtitles

Esta � a �ltima aquisi��o do museu,

chama-se "A Implac�vel Evanesc�ncia de Nossas A��es",

da artista israelense Ruth Kachanovsky.

Atrav�s da obra, a artista aborda o tema da transcend�ncia.

S� vejo um bando de lesmas nojentas, iguais �s do meu jardim.

A ideia � refletir sobre as coisas passageiras da vida.

Observem os rastros que as lesmas deixam, as marcas.

� uma met�fora sobre a finitude e a insignific�ncia de nossas vidas.

Afinal, estamos todos condenados a desaparecer no anonimato.

Vejamos.

Eu entendi o conceito, � muito bonito,

mas � inconceb�vel os maus-tratos �s lesmas

por parte da artista e do museu.

Como?

Lesmas s�o seres vivos com sentimentos.

� desumano exib�-las nesta caixa iluminada que mais parece um campo de concentra��o.

Desculpe, mas�

Sem desculpas, isso � explora��o animal.

Francamente, acho que as lesmas n�o sabem que s�o parte de uma obra.

E n�o parecem que est�o sofrendo. Est�o bastante relaxadas.

C�nico de merda.

Basta, amor. Vamos.

Eu n�o esperava por essa.

O MUSEU

A artista chegou ontem em Madri e j� foi informada sobre o evento.

Seu nome � Mariel Bernab�.

Eu sei quem �.

Sim, eu imagino.

Podemos repassar os detalhes.

Sim, por favor.

Os convidados chegar�o �s 19h.

O evento deve come�ar �s 20h.

Ser� no audit�rio do museu,

com 300 convidados e o traje ser� formal.

No dossi�, h� umas renderiza��es da proposta do palco.

O evento ser� apresentado pela ministra e apenas voc� e a artista falar�o,

assim n�o ser� longo.

Ok.

Antonio, precisamos que escreva algumas palavras para a ministra.

Um resumo da artista e a raz�o para levar o pr�mio.

Perfeito, prepararei algo.

Que seja breve, por favor.

Nada de discurso sobre a arte contempor�nea.

E simples, n�o gosto de linguagem de especialista.

Sim, claro. Muito simples.

Ap�s a cerim�nia,

comidas e bebidas ser�o servidas no sagu�o do audit�rio.

A lista de convidados est� no final do dossi�.

S�o todos funcion�rios p�blicos, celebridades da arte e da cultura,

empres�rios, membros patronos. Enfim, todos VIPs.

Vejo que h� muito mais homens do que mulheres.

Antonio, � uma piada? Continue, por favor.

H� tamb�m um plano de assentos para convidados no dossi�.

Podemos revisar, se quiser.

XXVIII PR�MIO DE EXCEL�NCIA EM ARTES VISUAIS - MARIEL BERNAB�

- Bom dia. - Bom dia, diretor.

Obrigado.

Filha da puta.

Leo, Zoe e Andr�s querem falar com voc�.

Podem entrar. Marisa, uma pergunta. Mariel Bernab� ligou?

Ela j� deveria estar em Madri, n�o?

Sim, ela est� em Madri,

mas n�o temos not�cias desde que chegou.

Deus, que pesadelo.

� dif�cil falar com ela, j� que n�o tem celular.

Enviei diversos e-mails, mas ela n�o respondeu.

Encontre-a.

Continuarei insistindo. Seu filho Josep ligou.

N�o. Como est� Miguel?

Bem, obrigada. Devo mand�-los entrar?

Sim, por favor.

Podem entrar.

- Obrigada. - Obrigado.

Do que precisam?

Recebemos um fax da Sociedade Protetora dos Animais.

� a obra com as lesmas.

Dizem que � maus-tratos e querem que as libertemos imediatamente.

- Isso � uma piada, certo? - Pior que n�o.

Est�o loucos?

Viu as reclama��es nas redes sociais?

Sabe que n�o leio os coment�rios.

Est�o acabando conosco. Veja.

LESMAS T�M SENTIMENTOS!

T�, n�o mostre mais nada. J� foi o suficiente.

H� muitas reclama��es contra o museu por maus-tratos aos animais.

A humanidade chegou ao pico da estupidez.

Andr�s, escreva uma boa resposta

com justificativa legal para Zoe publicar, ok?

Leo, ajude-os

- com argumentos sobre a obra. - Claro.

Essa gente est� lobotomizada.

� inacredit�vel.

Comunicado oficial.

Em resposta � pol�mica gerada pela obra

"A Implac�vel Evanesc�ncia de Nossas A��es",

da artista Ruth Kachanovsky,

o museu informa que�

as lesmas da obra est�o sob constante supervis�o

de um entomologista e um veterin�rio.

S�o hidratadas e alimentadas diariamente com insetos e vegetais,

como parte da dieta habitual.

Al�m disso, as lesmas s�o de uma esp�cie fora do perigo de extin��o,

logo, a inclus�o na obra n�o causa nenhum impacto ambiental.

E o tamanho da obra

foi desenvolvida para que as lesmas possam deslizar,

e assim, realizar suas atividades de forma normal,

em uma maneira� n�o traum�tica.

Sim? O que acharam?

Acho que voc� cobriu tudo. Vamos publicar.

- Certo. - �timo.

Obrigado.

Bom dia.

Ol�, bom dia.

Quantas pessoas esperando, n�o?

� o efeito lesma.

Todos querem v�-las antes de serem retiradas.

O comunicado n�o funcionou.

Pior ainda, teve efeito contr�rio. Foi como jogar gasolina no fogo.

Desculpe, achamos que funcionaria.

Agora estamos recebendo mensagens de �dio contra o museu.

Leia-me algumas.

"Libertem as lesmas."

"O comunicado do museu � pat�tico,

tentando nos convencer de que algo errado est� certo."

"Pare a explora��o animal."

Todos contra, nenhum a favor?

Vamos ver� Um a favor.

"Nunca mataram uma lesma? N�o acredito nesse debate.

Voc�s n�o t�m o que fazer?

Todos os dias passam por um mendigo

deitado no ch�o e o ignoram,

mas, 'coitadas das lesmas'."

N�o achei mais nenhuma a favor, o resto � tudo contra.

Menos mal. A humanidade n�o est� completamente perdida.

J� saiu no notici�rio tamb�m,

e a premia��o de excel�ncia art�stica � nesta semana.

Sim, todos est�o vindo. Temos que dar um fim nisso.

Tenho uma ideia.

Mas vou precisar da autoriza��o da artista.

Vai pedir para retirar a obra?

Kachanovsky aprovou.

- Certo, j� podemos come�ar. - Por favor.

Marisa, encontrou Mariel?

N�o tem como.

- Luis, voc� tamb�m n�o viu Mariel? - N�o, eu n�o a vi.

Estou preocupado, a premia��o � nesta quinta-feira.

Ela est� em Madri, mas n�o deu sinal de vida.

Ela n�o usa celular, n�o responde aos e-mails.

- Mas sabe como ela �. - Lamentavelmente, sim.

De qualquer forma,

ela precisa vir ao museu antes para assinar uns pap�is,

uma burocracia do Estado.

Eu n�o a vi.

Se quiser, posso enviar por e-mail.

- Sim, eu agrade�o. - Sem problemas.

Mas vamos nos ver, n�o? Voc� vem ao evento, certo?

Claro que sim.

Recebi o convite. N�o se preocupe.

Por Deus, eu n�o perderia por nada.

Assim poderei ver a obra das lesmas.

O museu de arte moderna volta �s not�cias�

ATIVISTAS CONTRA ABUSO ANIMAL

�devido a uma obra pol�mica.

A obra em quest�o � uma caixa acr�lica com lesmas vivas.

Devem se perguntar: "Isso � arte?"

Isso fica a seu crit�rio,

mas milhares de pessoas pediram,

pelas redes sociais, que parem com o abuso dessas lesmas.

H� dias,

a hashtag "libertem as lesmas" est� nos assuntos do momento.

Devem estar se perguntando sobre a resposta do museu.

V�o libertar as lesmas? V�o retirar a obra?

� o que vamos descobrir agora.

Com licen�a, estamos ao vivo. Obrigada.

Sigam-me. Perd�o, pessoal.

Como podem ver, a obra continua aqui, assim como as lesmas.

Significa que o museu ignorou as queixas?

A resposta est� neste aviso na parede, que diz:

"Devido �s m�ltiplas queixas sobre o potencial abuso de seres vivos,

a artista e o diretor do museu decidiram matar e embalsamar as lesmas,

para dar fim ao sofrimento de uma vez por todas."

Esta � a resposta do museu

- ao assunto do momento� - Come insetos?

E n�o fica triste por comer tais criaturas sens�veis?

E no mundo dos esportes�

Relembrando a todos da equipe,

se houver qualquer queixa sobre as lesmas,

a resposta protocolada dever� ser:

"As lesmas n�o est�o mais sofrendo, pois est�o mortas.

Muito obrigado. A dire��o."

- Ol�, bem-vindos. - Ol�.

- Alguma not�cia de Mariel? - N�o.

Antonio, como vai?

Bem, Eleuterio, obrigado. Senhora, obrigado por vir.

- Tudo bem na academia? - Muito bem.

O museu est� incr�vel. Faz tempo que n�o venho.

Fazemos o que podemos.

Diga-me, essa Mariel Bernab�, n�o era sua esposa?

N�o. Quer dizer, sim. Mas foi em outro s�culo.

H� mais de 40 anos. Nem me lembro mais.

Quero deixar claro que n�o foi minha sugest�o.

As outras juradas que insistiram.

Na verdade, eu fui contra, mas perdi.

N�o precisa de tanta explica��o.

Excusiato non petita�

Claro.

Adiante, por favor. Pode entrar.

V� para a puta que te pariu.

- Antonio. - Sim.

- At� mais tarde. - Claro.

Ministra.

- Oi, Antonio. Como vai? - Muito bem, obrigado.

- Tudo em ordem? - Tudo organizado.

Obrigada pelo discurso. Est� �timo.

Onde est� a homenageada? Eu gostaria de conhec�-la.

Ela ainda n�o chegou.

Est� um pouco atrasada.

- Com licen�a. Ministra, por favor. - Claro.

Meu Deus�

Antonio, como vai?

Conseguiu falar com Mariel? Ela n�o chegou, estou preocupado.

Calma, ela confirmou que vem.

N�o acredito que vou entregar um pr�mio a ela.

Que pesadelo.

Do que est� falando? Ficou maluco? Isso � genial, Antonio.

As obras de Mariel valem o dobro agora, e voc� ganha uma parte.

Prefiro ganhar nada a ter que passar por isso.

Posso ficar com a sua parte, ent�o?

Seria um prazer.

Vamos, anime-se.

Est� na hora.

Ela est� fazendo isso de prop�sito.

- Mariel, finalmente. O que aconteceu? - Nada.

Bem, sente-se.

Por sua coer�ncia,

pelo trabalho profundo e comprometido que construiu ao longo dos anos,

o Minist�rio da Cultura tem a honra de premiar a artista, Mariel Bernab�,

com a medalha de excel�ncia art�stica.

Este instrumento � chamado de "tinya".

Vem da Cordilheira dos Andes.

As mulheres de l� tocam em cerim�nias� N�o como esta, claro.

Mas�

Mas essa foi uma exce��o.

O que esse pr�mio significa?

N�o sei o que significa para voc�s,

mas para mim, representa tudo que h� errado.

Arte como competi��o � uma merda.

Museus est�o virando parques tem�ticos.

Os minist�rios est�o cheios de burocratas e at� mesmo parasitas.

O mundo da arte, hoje em dia, � nada al�m de um circo para esnobes.

Eu queria estar aqui em pessoa para dizer que rejeito esse pr�mio.

Muito obrigada. Boa noite.

Mariel, espere, por favor.

Mariel.

Mariel� Mariel, espere um momento, por favor!

Mariel, pe�o por um segundo de sua aten��o.

- Tamb�m quero dizer algo. Por favor! - Antonio�

Mariel!

Mariel! Mariel! Pode esperar um segundo, por favor?

O que quer?

Quero dizer que concordo totalmente com voc�.

O mundo da arte � imundo, repulsivo.

Mas n�o acredito

que pense que seu ato antissistema possa causar algum dano no mundo da arte.

Pelo contr�rio, isso o fortalece.

Sua rejei��o adiciona uma porcentagem de cr�tica que o pr�prio sistema precisa,

para mostrar-se aberto e tolerante. Entende?

Sua rebeldia acaba consolidando todo o sistema.

- Terminou? - N�o!

� verdade que todos ali s�o palha�os,

e que o Minist�rio da Cultura est� cheio de in�teis e ignorantes,

a come�ar pela pr�pria ministra.

Mas artistas como voc�,

com sua suposta superioridade moral, s�o ainda piores.

Eu estou farto.

Ent�o, eu gostaria de dizer que o mundo da arte,

o Minist�rio da Cultura,

e o museu agradecem pela sua arte.

Muito obrigado por tudo, Mariel.

Vejo que continua o mesmo imbecil de sempre.

Pode ser, mas sabe que tenho raz�o.

Antonio! Antonio! O microfone!

� bom que todos tenham ouvido seu grande discurso.

Por uma vez na vida, voc� disse o que realmente pensa.

Quer comprar um quadro?

S�o bons de verdade, n�o como o que tem l� dentro.

Bom dia, diretor.

- Bom dia. - Quer expuls�-lo?

N�o precisa.

Arrogante de merda.

Bom dia.

COLE��O PERMANENTE

Sr. Antonio, e os contratos permanentes?

Nossa situa��o de trabalho � insustent�vel. � o �ltimo aviso.

N�o temos outra op��o sen�o usar a for�a. Considere-se avisado.

Avise se precisar de algo. Estou aqui para ajudar.

N�o. A parte sobre a ministra foi muito pesado.

Ele n�o merece isso. Estou at� enjoada. Por favor�

Bom dia.

A ministra j� ligou sete vezes, Antonio.

Ela pediu para ligar.

Legenda: Jacqueline Gomes

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