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Os anos 80, uma década de criatividade incrível...
Nascida de um enorme conflito.
Pensei: "Que raio fizeram com a nossa canção?"
Uma época em que novas vozes jovens exigem ser ouvidas.
Ele ter-me-ia levado para a rua e alvejado.
Afagando a América conservadora da maneira errada.
As letras dessas canções... Aquilo era mesmo pornográfico.
Por amor de Deus!
E quando o choque de culturas dos anos 80 fica explosivo...
nascem novas estrelas.
Levou-nos a outro patamar e fez de nós estrelas do rock.
É o início dos anos 80, e aqueles que já têm alguma coisa,
ainda ficam com mais.
As roupas caras, a musculação
e adivinhar o preço das ações, é o que está a dar.
Mas os não têm nada também querem ser ouvidos.
E, para três jovens,
a revolução começa num pátio da sua escola católica de Nova Iorque.
Darryl McDaniels, de 12 anos, está prestes a ouvir uma cassete
que nunca ouviu.
Ouvimos uma voz...
Quem andar por aí na cidade de Nova Iorque
Vai conhecer o Cheeba, o palhaço do disco
Não pares até chegares Ao topo da montanha
E ao chegares ao topo Dizem que atingiste o auge
E depois paraste
E nós: "Outra vez!"
O que o Darryl está a ouvir
é uma gravação do DJ local, Eddie Cheeba.
Queríamos ouvir mais 30 segundos daquilo.
Ficámos ali meia hora a rebobinar.
Era bom, soava bem,
atingia-nos lá dentro.
O Darryl e os amigos, Joseph Run Simmons
e o Jason Mizell também querem fazer aquilo.
Para nós, começou por ser um lançamento, era uma festa.
No início dos anos 80, passam a adolescência no sótão do Joey,
onde o Darryl compõe rimas.
O D é por eu fazer isto o dia todo
O M é pelas rimas que são todas minhas
O C é de cool, do mais cool que há
Para que são esses óculos
Para poder ver
E, em 1982,
o irmão de Run, Russell Simmons, promotor do partido do bairro, dá-lhes um nome,
os Run DMC.
Não são precisos instrumentos,
apenas dois gira-discos, um palco, pessoal e...
Dois rimadores.
Russell grava-os numa demo,
mas, se os rapazes brancos detestavam o disco,
odeiam o rap.
O Russell levou-a às principais editoras discográficas e recusaram-na.
O estilo do Hip Hop era tão novo,
que as pessoas consideravam-no uma moda de verão!
E potencialmente ilegal.
Agora, o Hip Hop usa a música dos outros,
protegida por direitos de autor.
JAMES BROWN É O ARTISTA COM MAIS SAMPLES DE TODOS OS TEMPOS.
Mas o produtor em ascensão Rick Rubin tem outra ideia.
Quer que os Run DMC deem um novo passo ousado para o mainstream...
regravando uma música de sucesso dos Aerosmith, as lendas do rock.
Achámos que fazer um cover integral de "Walk This Way"
era a coisa mais ridícula de sempre!
Essa não era a única coisa a bloquear o caminho.
Buongiorno, Giovanni.
Estávamos em turné e alguém disse: "Esses tipos querem gravar 'Walk This Way'
e estão a fazê-lo em rap."
E eu pensei nisso e achei:
"O que fizeram à nossa canção?"
Há a música rock...
E há a música rap.
Mas a música não se quer misturar.
- Um, dois e três. - Pronto.
Antes de Rick Rubin engendrar um plano louco,
coloca o novato do rap
e as lendas do rock juntas em estúdio.
Eu não sabia no que me estava a meter.
Vimos o grande sorriso do Rick e pensei:
"O que é isto?"
Éramos B-Boys negros e MCs
e DJs e criadores de grafíti de Nova Iorque,
então, quando lá entrámos pensei:
"Ora bolas!
São os Rolling Stones."
Não sei se eles sabiam quem éramos ou não.
Também não estávamos habituados a ouvir rap.
E é isto, pessoal
-Pessoal - Pessoal
É isto, pessoal
-Rocar com os Aerosmith, pessoal - Aerosmith, pessoal
No estúdio, as câmaras filmam o encontro de grandes mentes musicais
que rasgam o livro de regras.
Ao Estilo do Diggy
Faziam loops com a percussão inicial...
E estavam numa boa,
atiravam deixas de gangues
e foi uma loucura, meu.
O Jase mostrou exatamente ao Steve o que costumávamos fazer com o disco,
como costumava misturá-lo para fazermos o rap.
Sempre que o Jay dizia "Dah" e voltava para a traz no disco,
o Steven Tyler dizia ao Jay,
enquanto o Jay lhe dizia: "Quando é que me ouves?"
E o Jay dizia: "Pois é, Steve, nunca te ouvimos."
E o Steve dizia: "Uau".
Ninguém faz isto como os DMC
É o melhor que conhecemos E arranhamos assim
Ninguém faz isto como os DMC
Eu sei quando algo é bom, e sou o primeiro
a querer melhorar as coisas.
Porque é que esta versão vai ser diferente do original?
Porque nós vamos participar.
Os opostos não só se atraem, como fazem magia.
Não só no estúdio de gravação,
mas num vídeo clássico feito para a MTV.
Há um amante no banco de trás Que está sempre disfarçado
E falamos até o meu pai dizer
Tínhamos de fazer um vídeo e tivemos a ideia
de romper a barreira entre pretos e brancos, e olá!
Pego no suporte do microfone e...
E aquilo pareciam os desenhos animados antigos, a tremer!
Arrepanhou-me as costas
e fiquei tão lixado que achei que estavam... comigo
e voltei a arremessá-lo.
E foi aí que ela começou a ceder.
E depois a luz entrou e foi perfeito.
Caminha assim, fala assado
Isso levou-nos a outro patamar e fez de nós estrelas do rock,
fez de nós estrelas do rock.
O último álbum dos Run DMC já vendeu
mais de um milhão de cópias em apenas 13 semanas.
Topem isto.
Foi tão bom participar no derrubar de barreiras.
Como o filho de Deus, sabes?
E dei um beijinho à miúda Assim
EM 1986, OS RUN-DMC ASSINAM UM CONTRATO DE 1.6 MIL MILHÕES COM A ADIDAS
Há histórias de miúdos da faculdade
a dizerem que, por causa de "Walk This Way",
"no meu dormitório, negros e brancos conseguiam sentar-se juntos
e ouvir música."
Dá-lhe!
Com a junção do rap e do rock,
as velhas barreiras da divisão estão a desmoronar-se.
Mas se os adolescentes da América julgam poder ouvir só o que querem,
aí vem mais uma surpresa.
Ouvi as letras:
"Conheci uma miúda chamada Nicky, a masturbar-se com uma revista."
Pensei: "Isto é muito grosseiro para esta miúda."
É o verão de 1984,
com a economia a crescer,
está tudo bem na capital.
Mas um grupo de mães locais irá receber uma chamada de alerta.
Estava no quarto da minha filha e ela diz-me:
"Tens de ouvir o meu novo álbum, adoro este álbum.
É de um tipo chamado Prince, mas não ouças as letras."
Conheci uma miúda chamada Nikki
Um verdadeiro demónio do sexo
Conheci-a num átrio de hotel
A masturbar-se com uma revista
Fiquei parva.
E não consegui resistir
Quando vi a racha da Nikki
É muito grosseiro para esta miúda.
e pensei: "Isto não me agrada."
E isso levou-me a pensar: "Que mais haverá por aí?"
Foi como levantar uma pedra e espreitar por baixo dela
e ver imensas coisas.
Eram drogas e álcool.
A cabra foi destruída E vi a morte diante dos olhos
Aquilo era muito violento.
Apagam-se as luzes, espeto a faca
Tiro-lhe a vida O sacana está morto
E eram letras pornográficas.
Um impulso da pelve e o suor começa a arder
...como um animal
"...como um animal," por favor.
Senti que tinha de fazer alguma coisa.
Os outros pais saberiam disto?
PARAR O ROCK PORNOGRÁFICO - MY TURN/ - KANDY STROUT
Eu era jornalista e escrevi uma peça sobre isso para a Newsweek.
Acontece que Kandie Stroud não é a única mãe indignada em DC.
Com ela está Susan Baker, esposa do Secretário do Tesouro,
e Tipper Gore, esposa do senador Al Gore.
Mary Elizabeth Gore diz que ficou chocada com o que estava a ouvir.
Gore é mãe de quatro e esposa de um senador dos Estados Unidos.
As esposas de Washington criam o Parents Music Resource Centre,
o PMRC,
uma organização com uma intenção.
O objetivo era: "Meus senhores,
com todo o respeito, deixem-se de porcarias."
E há uma banda em particular
que querem atingir, os "Twisted Sister".
Aqui entra aquela luz brilhante
Fica mesmo ao teu lado
Aí vem a escuridão, é esta noite
A lâmina vai saltar
O PMRC dizia que "Under the Blade"
é sobre sadomasoquismo e bondage.
E eu pensei: "O quê?"
Eles falavam na letra sobre uma operação à garganta.
Uma operação à garganta!
Então, quando o PMRC
e as Esposas de Washington,
começavam a erguer as suas carantonhas,
ou as suas cabeças bem penteadas, diria eu...
Não as levámos a sério.
Ninguém levou isso a sério no meu mundo.
Pensámos: "Quem presta atenção
a um bando de donas de casa a reclamar."
É só rock and roll, mas muita gente não gosta.
Hoje, algumas músicas de rock são mesmo pornográficas,
e isso levou pessoas da Main Street
à Pennsylvania Avenue, para dizerem: "Basta."
De repente, isso tornou-se uma bola de neve
que foi crescendo cada vez mais.
ISTO JÁ FOI LONGE DEMAIS
"Apagam-se as luzes, espeto-lhe a faca, tiro-lhe a vida,
o sacana está morto."
Pelo amor de Deus.
Um miúdo não vai resolver matar alguém
só porque a canção o mandou.
Não ligo às palavras. Ouço a batida para poder dançar.
Esses miúdos põem o disco deles favorito dos "Twisted Sister",
e aí, a mãe e o pai entram e dizem:
"Tira essa porcaria." "O quê?"
Gostávamos de ver um aviso nos discos,
álbuns, cassetes
com material sexualmente explícito ou violento.
O PMRC elabora a lista dos 15 mais porcos,
uma lista dos piores infratores.
Acho que até festejámos, foi do tipo:
"Boa, estamos entre os 15 mais porcos!"
Mas isso não é motivo de riso para as esposas do PMRC,
que usam a influência dos maridos para levar os membros da lista
ao gabinete do diretor.
Tipper criou uma audiência no Congresso
através do marido, Al Gore.
Crê-se ser o maior evento de media
na história das audiências do Congresso.
Não sobre o orçamento ou o défice,
mas sobre as letras obscenas da música rock.
O evento nunca teria acontecido
se não fossem as esposas
de proeminentes senadores dos E.U.A.
As letras de rock passaram de: "Não consigo satisfazer-me"
a "Vou obrigar-te a comer-me vivo, de faca apontada."
Quando a gerência ligou a dizer:
"Perguntaram se querias depor."
Respondi: "Claro que quero."
Ele entrou ali com a sua t-shirt
e os cabelos louros deste tamanho,
que julgo que seria uma peruca.
Pensei: "Meu Deus."
Não me ia vestir a rigor
ou ser quem não era,
para impressionar aqueles senadores.
Sr. Snider, obrigado por ter vindo.
Nessa altura...
apercebi-me da gravidade daquilo...
e o terror instalou-se,
e pensei: "Meu Deus,
no que te foste meter?
Mas depois, a outra voz disse: "Sai dessa, meu!"
Tens trabalho a fazer, raios," e comecei a ler.
Gostaria de aproveitar esta ocasião para falar mais pessoalmente
e mostrar como pode ser injusta a noção
da interpretação e do julgamento lírico.
E como, muitas vezes, isso se resume
a pouco mais que um homicídio de carácter.
O Dee Snider foi... Ele impressionou-me, de facto.
A beleza da literatura, da poesia e da música é deixarem espaço
para o público pôr a sua própria imaginação,
experiências e sonhos nas palavras.
Como o criador de "Under the Blade",
posso afirmar categoricamente
que a única violação, bondage e sadomasoquismo da canção
estão na mente da Sra. Gore.
O Al estava furibundo.
Ter-me-ia mandado prender e matar,
se pudesse. Estava...
Os olhos lançavam chamas...
Mr. Snider, muito obrigado.
Obrigado pelo seu tempo.
Senti imenso orgulhoso no Dee Snider,
porque ele enfrentou-os.
CENSURADO
As audiências do PMRC tiveram fortes repercussões.
Elas puseram os seus avisos,
mas alguns artistas viram-nos como um distintivo de honra,
dizendo para si mesmos:
"Se não recebermos a etiqueta de aviso,
não fomos ofensivos quanto baste."
CONSELHO PARENTAL CCONTEÚDOEXPLÍCITO
A icónica etiqueta do conselho parental
torna-se o símbolo eterno da guerra cultural dos anos 80
entre a América conservadora e os seus filhos.
Todas as músicas que o PMRC tinha nessa lista,
as 15 mais porcas, são recordadas com carinho
por todos e cantadas estridentemente e com orgulho
em todos os bares de karaoke do mundo.
Nós não vamos aguentar mais
Nem pensar
Se os roqueiros adolescentes da América calaram os pais,
outro grupo de jovens rebeldes está prestes a enfrentar mais oposição
nas ruas de Nova Iorque.
Isto não é brincadeira nenhuma, é um crime,
Dá direito a prisão.
É o início dos anos 80,
e trava-se uma luta nas ruas de Nova Iorque.
É o homem do spray contra o homem.
Odeio grafítis.
Acho que é a coisa mais nojenta da cidade de Nova Iorque.
Mas para alguns dos que pulverizam as suas visões fluorescentes,
os grafítis são uma expressão profunda da sua criatividade.
Éramos meros adolescentes que pintavam por aí,
sem qualquer formação artística.
Aquilo era puro. Vinha das entranhas.
Como começaste a pintar grafítis?
Uns tipos entraram na cena e comecei a andar com eles.
Adoro grafítis, comboios.
Não tens medo de fazer isso, sendo rapariga?
Foi um dos poucos movimentos inter-raciais.
Havia miúdos brancos, miúdos negros e miúdos latinos,
e acho que o nosso movimento se baseava na rebelião,
atirávamo-los à cara.
A carruagem do metro torna-se a tela de eleição.
Punha-se uma marca em cada linha e cada divisão,
chama-se a isso "fazer a cidade."
Veem as nossas marcas em Queens, na baixa, na alta, em todo o lado.
As carruagens eram um veículo natural,
porque os grafiteiros exibiam arte,
enviando-a até à outra ponta da cidade,
para os da outra ponta a verem.
E os da outra ponta da cidade diziam:
"Uau" e faziam alguma coisa em resposta.
Basicamente, reenviavam-na para o Bronx, e era assim.
E expúnhamos a nossa obra a milhares e milhares
de pacóvios que iam trabalhar.
Então, tínhamos um público enorme.
Mas os grafítis não interessavam as autoridades.
Vou mostrar-lhes grafítis
como as letras na traseira daquela carruagem,
mesmo atrás de mim.
Aquilo é uma forma de arte?
Não sei, não sou crítico de arte,
mas posso dizer-lhes com toda a certeza que é um crime.
Tem o direito de permanecer em silêncio e não responder.
Compreende?
Sabia bem o que estava a fazer, isto não é nenhuma brincadeira,
é um crime, dá direito a prisão.
Sabendo travar uma batalha perdida,
a cidade lança um novo ataque aos rebeldes.
Se quiserem fazer algo com a vossa vida, usem a cabeça.
Ou a voz, mas não percam tempo a sujar tudo.
Deixem a vossa marca na sociedade,
não a manchem.
O Presidente da Câmara de Nova Iorque Ed Koch deixa a mensagem bem clara.
Deixem a vossa marca na sociedade,
fazendo algo na sociedade.
Estraguei um pouco o texto, mas perceberam a mensagem.
Mais ou menos.
Mas a onda de grafítis está a tornar-se num negócio.
Gosto de ganhar dinheiro. Vais à escola e o professor diz:
"Isso não vale nada, não se ganha dinheiro com grafítis."
E a gente diz-lhes:
"Quando foi a última vez que ganhou 2 mil dólares por mês?"
Tínhamos um grupo de miúdos sem formação escolar,
que criavam algumas das mais prolíficas
obras de arte de sempre.
Aos 16 anos, eu expunha em galerias e vendia os meus quadros
a torto e a direito.
O grafíti é mais um estilo, é uma cultura.
É toda uma cultura.
O movimento dá origem a artistas como Keith Haring,
Jean-Michel Basquiat e Fab 5 Freddy.
Todos os meus amigos me chamam Fab 5 Freddy, sabe?
E não tarda muito até a lista de glitterati
pintarem o rosto para a festa.
O Fab 5 Freddy disse-me Que toda a gente é mosca
O DJ roda, eu digo: "Ena pá"
O Flash é rápido, o Flash é fixe
O Francois c'est pas, O Flash não é um meu
E não se para
Quando a Blondie referiu o Fab 5 Freddy no êxito "Rapture",
canção de que gostei, aliás...
Conduz até bem longe
Conduz toda a noite Até veres uma luz
Isso foi ótimo para dar a conhecer os grafítis à America convencional
e por todo o planeta.
No limite...
Para não ser ultrapassada, Madonna saca da sua lata de spray
no seu êxito "Borderline".
E até o Andy Warhol e o Michael Jackson abraçam o grafíti.
Para os artistas urbanos da América,
o movimento do grafíti ficará na história
como um conto de fadas, das etiquetas até a riqueza.
Vem por aqui
O que vemos na década de 1980
são forças a erguerem-se.
De um lado, havia a América conservadora,
do outro, havia os artistas
dispostos a enfrentar essa onda enorme
e a dizer: "Não vamos aguentar mais."
Os anos 80, a década
em que a cultura pop entrou em guerra com os seus mestres
e mudou a América para sempre.
Legendas: Maria Júdice
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