Afrikaans
Akan
Albanian
Amharic
Arabic
Armenian
Azerbaijani
Basque
Belarusian
Bemba
Bengali
Bihari
Bosnian
Breton
Bulgarian
Cambodian
Catalan
Cebuano
Cherokee
Chichewa
Chinese (Traditional)
Corsican
Croatian
Czech
Danish
Esperanto
Estonian
Ewe
Faroese
Filipino
Finnish
Frisian
Ga
Galician
Georgian
German
Guarani
Gujarati
Haitian Creole
Hausa
Hawaiian
Hindi
Hmong
Hungarian
Icelandic
Igbo
Indonesian
Interlingua
Irish
Japanese
Javanese
Kannada
Kazakh
Kinyarwanda
Kirundi
Kongo
Korean
Krio (Sierra Leone)
Kurdish
Kurdish (Soranî)
Kyrgyz
Laothian
Latin
Latvian
Lingala
Lithuanian
Lozi
Luganda
Luo
Luxembourgish
Macedonian
Malagasy
Malay
Malayalam
Maltese
Maori
Marathi
Mauritian Creole
Moldavian
Mongolian
Myanmar (Burmese)
Montenegrin
Nepali
Nigerian Pidgin
Northern Sotho
Norwegian
Norwegian (Nynorsk)
Occitan
Oriya
Oromo
Pashto
Persian
Punjabi
Quechua
Romanian
Romansh
Runyakitara
Russian
Samoan
Scots Gaelic
Serbian
Serbo-Croatian
Sesotho
Setswana
Seychellois Creole
Shona
Sindhi
Sinhalese
Slovak
Slovenian
Somali
Spanish (Latin American)
Sundanese
Swahili
Swedish
Tajik
Tamil
Tatar
Telugu
Thai
Tigrinya
Tonga
Tshiluba
Tumbuka
Turkish
Turkmen
Twi
Uighur
Ukrainian
Urdu
Uzbek
Vietnamese
Welsh
Wolof
Xhosa
Yiddish
Yoruba
Zulu
Legendas: Lu�s Filipe Bernardes
Basicamente coexistem duas pessoas dentro de mim.
Gostaria de ser a Maria...
mas existe a Callas a quem devo ser fiel.
Procuro lidar com as duas da melhor maneira poss�vel.
Em momentos decisivos, quem deve vencer, Maria ou Callas?
Entendo que as duas andam m�o em m�o...
porque Callas tem sido Maria.
Na minha profiss�o, como cantora, minha pessoa est� l� o tempo todo.
Nunca fui dissimulada, sou �ntegra no meu trabalho...
portanto, se me escutarem atentamente...
sempre encontrar�o a Maria l�.
Madame Callas, como observou um renomado cr�tico,
devolveu o brilho de antanho ao t�tulo de prima dona.
Leonard Bernstein refere-se a ela como pura eletricidade.
Boa noite, Madame Callas.
- Boa noite, Sr. Murrow. - Seja bem-vinda de volta.
Muito obrigada.
Sei que muita gente acredita que voc� seja italiana...
ignorando o fato de que foi cresceu em Nova York, n�o � verdade?
Sim, n�o s� nasci em Nova York, e n�o no Brooklyn, como dizem,
sem desmerecer o Brooklyn, claro, apenas para esclarecer os fatos.
Sim, fui criada na Am�rica, em Nova York.
E me orgulho disso.
Madame Callas, quais s�o as lembran�as
mais v�vidas de sua �poca de estudante?
Devo dizer que foi uma �poca muito feliz, sem responsabilidades.
Lembro-me de um diretor muito severo que sempre dizia...
"Lembrem-se, crian�as, autocontrole, nunca se esque�am disso".
E lembro, embora seja dif�cil �s vezes.
E todo ano eu costumava cantar nas formaturas.
Eu era a pequena cantora da escola.
Cantava operetas, cantava...
bem, pr�ncipes chineses, marinheiros, esse tipo de coisa, que me lembre.
Nunca consegui pronunciar seu sobrenome.
Podia faz�-lo por mim?
- Em grego? - Em grego.
- Est� pronto? - Sim.
Kalogeropoulou. Meio comprido.
Por isso seu pai o mudou para Callas.
De fato.
Ele j� o tinha feito antes de eu ter no��o de qualquer mudan�a.
Minha m�o era muito ambiciosa e...
meu pai queria que eu recebesse educa��o musical.
Comecei com piano aos dez anos de idade...
Era a �poca de Deanna Durbin, Shirley Temple,
e minha m�e, claro, sonhava com a mesma gl�ria para mim...
e decidiu que eu deveria me tornar uma grande cantora.
Algum talento eu devia ter, claro, sen�o ela n�o teria insistido.
E eu n�o tinha como resistir, pois naquele tempo...
fazia-se o que os pais mandavam.
Queria que eu fizesse o qu�? Que protestasse, esperneasse?
Ainda mais com o temperamento forte como o de minha m�e.
Acho isso uma crueldade. Na verdade, que me perdoem,
mas deveria haver uma lei contra isso.
N�o se pode assoberbar uma crian�a com tanta responsabilidade.
N�o est�o preparadas.
Crian�a precisa ter uma inf�ncia maravilhosa, e eu n�o tive.
Antes tivesse.
Partimos para a Gr�cia em 1937.
Acabara de passar para o ensino m�dio.
Ent�o... fui para a Gr�cia mas n�o pude continuar meus estudos...
pois minha m�e optou por minha carreira como cantora.
Voc� gostou de sua inf�ncia, sua juventude?
Ah, sim, do pouco que tive, gostei sim.
Depois ent�o voltou para a Gr�cia...
- ...e continuou l� durante a... - A Guerra.
- Durante a Guerra. - Sim.
Que lembran�as voc� guarda dessa �poca?
Foi uma �poca dif�cil.
Confesso que foi meio dif�cil mas...
n�o faz mal a ningu�m. Faz bem passar por dificuldades.
Assim que cheguei � Gr�cia fui mandada para o Conservatoire...
mas havia o problema da idade.
O problema � que eu s� tinha 13 anos...
e s� podia entrar para o Conservat�rio com dezessete.
Mas eu era alta e poderia driblar a situa��o contando uma mentira.
Foi a primeira mentira da minha vida.
Minha m�o n�o permitia que me olhasse no espelho por mais de cinco minutos.
Precisava estudar. N�o podia perder tempo com futilidades.
Na verdade, devo a sua severidade...
a vasta e profunda experi�ncia art�stica que hoje possuo.
Consegui passar com louvor para o Conservat�rio de Atenas...
e fui parar nas m�os da grande professora...
que exerceu um papel essencial na minha
forma��o art�stica, c�nica e musical.
Elvira de Hidalgo,
a ilustre artista espanhola por quem tinha
devo��o e sou infinitamente reconhecida.
Al�m dos seus preciosos ensinamentos, sempre me ajudou...
e foi muito companheira durante minha vida em Atenas.
Com ela, mais que qualquer outra pessoa, me sentia em fam�lia.
Ela tinha uma express�o no seu olhar...
uma forma de interpretar os pap�is...
Enfim, ela sabia pouco de italiano e cantava em italiano.
Aquilo me impressionou. Ela n�o tirava os olhos de mim.
E com aquela boca, uma boca grande, seus olhos que falavam...
Aquilo me impressionou. Pensei comigo mesma, esta � especial.
E como aluna, como ela era?
Ah... perfeita.
- Como assim? - D�cil, inteligente...
Trabalhadora... trabalhadora... era uma coisa impressionante.
N�o era preciso repetir uma frase duas vezes.
Ela dizia, 'Oui, capito'.
No dia seguinte, estava tudo magn�fico.
Era tudo assim.
Ela era muito musical e grande m�sica,
entendia muito de m�sica...
Tocava piano muito bem.
Ademais, era a primeira a chegar e a �ltima a sair.
Era assombroso, pois como ela conseguia suportar...
ficar l� durante cinco horas?
Ela escutava todos os alunos.
As coloraturas, os tenores, tudo.
� por isso que ela tinha aquela...
no��o de cantar, de atingir notas altas.
"Mas ser� que consigo fazer o papel tal?"
Se continuar assim poder� sim, respondi.
Poder� fazer o que quiser.
Qualquer coisa. Mas s� se trabalhar como est� trabalhando agora.
Preferiria ter tido uma fam�lia feliz e filhos...
acho que esta � a principal voca��o de toda mulher.
Mas o destino me conduziu a esta carreira, n�o consegui sair e...
Muitas vezes me vi for�ada nessa dire��o,
primeiro pela minha m�e,
depois por meu marido.
Teria desistido de tudo com o maior prazer.
Mas destino � destino. N�o tem sa�da.
Madame Callas, gostaria de perguntar como se sente...
�s v�speras de sua noite de gala na �pera de Paris.
Jurei para mim mesma que cantaria aqui em Paris.
Assim, pe�o apenas que me deseje,
n�o s� por mim como por voc�s, pois voc�s merecem,
que eu cante como nunca. Este � meu �nico desejo.
Voc� tem a reputa��o de ser uma boa atriz.
Considera isso necess�rio?
Mas, claro, definitivamente.
Pode-se imaginar uma artista de teatro que n�o seja atriz?
Claro que n�o.
As pessoas deixariam de assistir a �peras.
�pera pode ser uma coisa boba...
mas tamb�m pode ser a coisa mais linda do mundo.
Tamb�m tem a reputa��o...
de ser uma das cantoras l�ricas mais explosivas do mundo.
Bem, n�o sei o que quer dizer por explosiva...
Tem-se falado muito nisso mas nunca entendi bem o que quer dizer.
A noite mais triste da minha carreira
fez-se preceder dos melhores ausp�cios.
Jamais podia prever a onda viol�ncia e crueldade...
lan�ada contra mim ap�s minha apresenta��o de 2 de janeiro...
t�o dolorosamente interrompida.
Os jornais, n�o s� de Roma e da It�lia,
mas da Europa e dos Estados Unidos,
traziam mat�rias extensas...
desprezando eventos pol�ticos internacionais...
e reservando suas primeiras p�ginas ao meu pobre nome.
Era o momento ideal para arrastar meu nome na lama...
e fazer-me pagar caro por tantos anos de sucesso.
Tudo tinha come�ado muito bem.
Sentia-me espl�ndida.
Chegamos � �pera e fizemos o ensaio
que deixou a todos satisfeitos.
Fui para meu camarim,
camarim gelado de um teatro fechado h� tantos meses...
cheio de correntes de ar.
Soprava um vento frio.
De repente, senti um arrepio...
e percebi sintomas de um princ�pio de rouquid�o.
Na manh� seguinte acordei e abri a boca.
Mas nenhum som, nenhuma palavra eu conseguia emitir.
Estava completamente af�nica, muda.
Norma estava anunciada para a noite seguinte.
Os ingressos estavam esgotados.
Todos se preparavam para ouvir a Callas.
Fui invadida de uma sensa��o de terror.
Haviam-me dado a alcunha de "A Tigresa'."
Na noite de 2 de janeiro, a Tigresa chega ao teatro...
espl�ndida, deslumbrante,
mas dentro do camarim, j� maquiada e vestida com o figurino,
estava quase sem voz.
Os cataplasmas haviam momentaneamente desinflamado a garganta...
mas n�o curaram a causa do mal.
Uma bronquite que, afinal, n�o podia ser curada em t�o pouco tempo.
De fato, terminado o efeitos dos paliativos,
estava af�nica.
Por raz�es de for�a maior, a apresenta��o est� suspensa.
Sim, o Presidente da Rep�blica estava presente naquela noite.
Mas havia no teatro outra personalidade
digno de maior respeito.
Uma personalidade cujo nome estava estampado em todos os cartazes.
Vincenzo Bellini.
N�o podia, em respeito �s exig�ncias protocolares estabelecidas,
ofender o grande m�sico,
devendo arranhar os outros atos de sua Norma,
ou melhor, cant�-los.
Assim, na noite de 2 de janeiro,
apresentou-se no Teatro da �pera de Roma...
o primeiro ato de Norma.
N�o da melhor forma, mas correta.
Minha ofensa foi n�o ter conclu�do os outros atos.
FORA CALLAS
No dia seguinte senti que meu linchamento come�ara...
com uma viol�ncia inaudita.
Entretanto n�o havia ofendido nem o p�blico nem as institui��es.
N�o havia ofendido o Presidente,
n�o havia atentado contra a vida do teatro l�rico italiano.
Sofria apenas de bronquite.
Vieram-me ent�o � mente as palavras de La Traviatta.
As palavras da minha Violeta,
agora acompanhadas da melodia t�o amarga.
Cos� alla misera, ch'� un d� caduta,
Di pi� risorgere, speranza � muta.
Adeus.
- Bem-vinda a Chicago como se sente? - Bem, obrigada.
Por que n�o quer falar com a imprensa, Srta. Callas?
Por que n�o fala conosco, ficou com alguma m� impress�o?
- Pode falar de Roma? - N�o vou falar de Roma.
Por favor, senhores, estou aqui por Chicago.
Maria, olhe para cima, por favor.
Madame Callas, nestes �ltimos anos...
especialmente desde que se associou ao Met,
a senhora vem recebendo uma enxurrada de publicidade negativa.
Como explica isso?
Tenho passado por situa��es exasperantes, como bem sabe.
Mesmo assim, tenho-as enfrentado com calma e paci�ncia.
O tempo cura muita coisa.
E acredito que o tempo provar� o que eu sou na verdade.
Chegou a um ponto que tive que
decidir quem dirigia o Met, Callas ou eu.
Na �poca o Diretor era eu.
Disse isso a ela e cancelei nosso acordo.
Ent�o voc� realmente despediu Maria Callas do Metropolitan.
Se prefere usar essa palavra desagrad�vel, sim.
Mas n�o diria que foi despedida, e sim cortada de sua associa��o.
Por que em Dallas e n�o aqui?
Pois eu tamb�m pergunto.
Por que ele n�o faz apresenta��es assim no Met?
Caso em que estaria l� com prazer.
Precisava ele dizer, "Oh, ela � uma mulher imposs�vel"?
Por que isso? Com certeza j� conheceu muitas outras pessoas imposs�veis.
Ele simplesmente descontou em mim...
o que n�o conseguiu descontar em tantas outras pessoas.
� o que chamo de coisa do destino. O azar foi meu.
Outros colegas meus j� o magoaram muito mais.
Por isso ele me respeita e com certeza me ama.
Mas � um fraco.
Acho que sofri as consequ�ncias de tantas outras...
ou seja, o copo transbordou e eu fui a gota d'�gua.
Claro que discutimos. Eu simplesmente recusei o contrato do ano que vem...
porque ele me ofereceu o velho repert�rio,
isto �, a velha montagem de Norma,
com aqueles arranjos enfadonhos,
Que j� interpretou in�meras vezes.
Norma, Barbeiro de Sevilha, Traviatta, Lucia...
Eu disse, sinto muito, n�o aceito rotinas.
Quero coisas novas, boas montagens,
Como aqui em Dallas, nesta cidade jovem, meu Deus!
Deve ser isso que o enfezou, sei l�.
N�o tenho outra explica��o.
Ontem recebi um telegrama dizendo, ou voc� me responde...
Deve ter sido por volta de 3:30...
Antes de eu vir para o teatro, e...
Ou voc� me responde amanh�...
ou se constituir� quebra de acordo e seu contrato ser� cancelado.
Meu Deus, qual � o problema dele?
N�o posso me apresentar naquelas produ��es abomin�veis.
E n�o posso aceitar mudan�a de artistas a cada apresenta��o,
Pronto, fiquem sabendo!
A cada apresenta��o, se fossem dez Macbeths
eram dez tenores diferentes e dez bar�tonos.
Sinto muito, assim n�o d�, isso n�o � arte.
Pronto, falei, � bom que todos fiquem sabendo.
Sabiam que ano passado fiz a Traviatta
sem sequer ter visto o cen�rio?
Nunca vi o cen�rio nem com quem ia contracenar.
Acham isso certo, acham isso s�rio?
Sempre mantive tudo em sil�ncio, s� meus amigos sabiam.
Nosso of�cio � muito s�rio.
Mas, engra�ado, isso nos ajuda.
Toda essa experi�ncia ajuda na nossa carreira.
Mas, enfim, sou um ser humano,
adoro me divertir espet�culos bonitos...
que n�o sejam pesados, dram�ticos...
s� trag�dias sem fim.
Quando n�o est� ocupada gravando ou ensaiando uma �pera...
J� sei o que vai perguntar, o que eu fa�o.
Nada. Nada, s� vivo a vida como ser humano.
Respiro bastante ar puro,
quando chove eu saio sem me importar se vou me molhar...
s� fa�o relaxar.
Cozinho um pouco, adoro cozinhar.
Por exemplo, agora que meu marido comprou uma casa no lago...
- Onde? - Na It�lia.
E estou louca para aprender a dirigir s� para sair e me divertir.
Devo admitir que tenho um hobby bastante rid�culo.
Meu marido sempre implica comigo mas...
� um tipo de mania, digamos assim.
Adoro receitas. Sei que nunca as usarei...
Mas sempre que vejo uma receita no jornal ou numa revista eu arranco...
e colo num livro.
� meu �nico hobby, � rid�culo.
Admito que �, pronto.
Ent�o vou lhe mandar uma que vi outro dia.
Obrigada, vou adorar.
N�o sei se � boa pois n�o sei cozinhar.
Mas h� outro hobby que gostaria de explorar. � o carrilh�o.
O problema � que meu ouvido � bom demais.
Sempre me irrita quando ou�o tocarem alguma coisa que me soa mal.
Mas adoraria tocar carrilh�o.
At� nisso acho que sou antiquada.
Antiquada ou n�o, j� pensou em fazer com�dias musicais?
J� pensei em com�dias musicais,
mas confesso que isso seria ir um pouco longe demais.
J� imaginou nesta idade eu fazendo com�dia?
Mas admito que talvez isso me divertisse de vez em quando.
N�o se incomode com o cachorro, � meu monstrinho da casa.
- Como se chama? - Toy.
Que outro nome se daria a uma coisinha dessas?
Acho mais dif�cil para uma mulher...
administrar uma fam�lia maravilhosa do que uma carreira.
- N�o d� para fazer os dois? - Fiz minha carreira...
N�o, os dois juntos n�o funcionam.
Duvido que ser uma boa m�e possibilite
uma carreira bem sucedida.
N�o no meu trabalho, n�o funciona.
Na minha carreira o trabalho � de tempo integral.
Estava louco para lhe fazer uma pergunta e imaginava como faz�-la.
Arist�teles Onassis � um amigo m�tuo,
� um bom amigo, acho-o um homem ador�vel...
e gostaria de saber quais as suas maiores qualidades, na sua opini�o.
Ora, pode perguntar. Ele � o melhor dos amigos, sempre disse isso,
e acredito que ele me considere sua melhor amiga.
Isso representa muito na vida.
Ele � encantador, muito sincero,
espont�neo.
- S�o qualidades muito boas. - Com certeza.
- Conhece-o h� muito tempo? - Foi em 1957, creio que em Veneza.
Est�vamos na praia, nos conhecemos...
nos tornamos bons amigos...
ainda somos e seremos a vida inteira, esperamos.
Foi o destino que fez nascer minha amizade com Arist�teles.
Fiz aquele cruzeiro a bordo do Christina
mais para agradar ao meu marido,
que sempre desejara andar nele.
Battista s� se interessava por dinheiro e status social.
O que fazer quando n�o se pode mais confiar no marido?
Eu via Meneghini mais como um escudo a me proteger do mundo exterior...
o que de fato ele fazia no in�cio, antes que
minha celebridade lhe subisse � sua cabe�a.
Battista deveria ter sido ter usado de mais diplomacia...
nas suas negocia��es com o teatro...
e eu tive que arcar com as consequ�ncias.
Era o in�cio do fim do nosso casamento.
N�o foi por causa de Onassis, nem pelo dinheiro.
Desde o in�cio do cruzeiro...
senti que Arist�teles era o tipo de amigo que procurava.
Me sentia atra�da pelo seu fasc�nio...
mas sobretudo pela sua forte personalidade...
e a facilidade com que chamava a aten��o de todos.
N�o s� era cheio de vida...
era mais uma fonte de vida.
Ap�s uma longa e exaustiva discuss�o com meu marido...
subi ao conv�s para tomar um ar e gozar de um pouco de solid�o.
Encontrei Arist�teles, que contemplava o mar, melanc�lico.
Tenho certeza de que nossa amizade come�ou naquele momento.
Senti algo que nunca tinha sentido antes...
e da qual precisava muito.
Ele me libertou, senti-me muito feminina com ele...
e passei a am�-lo muito intensamente.
Caros Walter e Judy,
passei momentos bel�ssimos no cruzeiro e
voltaremos duas semanas ap�s o previsto.
Sinto ter que lhes dar m�s not�cias: estou me separando de Battista.
Espero, meus amigos, que isto n�o seja fatal para fim.
Passo por um momento dif�cil, cheio de desilus�es.
Fico apavorada com o que dir�o os jornais.
Rezem por sua pobre amiga.
Pode nos dizer por que foi embora de Dallas?
- Sinto muito, n�o posso falar. - Quando vai voltar?
Esta tarde posso estar morta.
O que tem a dizer sobre o lit�gio judicial?
N�o darei entrevistas, se importam?
Srta. Callas, teve algum desentendimento em Dallas?
N�o darei entrevistas.
- Teve algum problema em Dallas? - Nenhum... n�o darei entrevistas.
- Por que interrompeu sua viagem? - N�o me empurre, por favor!
- Vai se casar? - J� falei... n�o vou responder.
Agora chega!
Srta. Callas, essa aten��o toda a perturba?
Ora essa, quando voc�s s�o bonzinhos eu at� sorrio.
N�s tentamos.
- S� n�o gosto quando me empurram. - N�o � nossa inten��o.
Se ficasse parada n�o empurrar�amos.
Mas preciso andar, n�o �?
Podia falar sobre sua seu desentendimento amoroso?
N�o se trata de desentendimento amoroso, � uma separa��o.
- J� falou com o Sr. Onassis. - Falo com todos os meus amigos.
Espera estar com o Sr. Onassis quando for para a Europa?
Espero estar com todos os meus amigos e com o Sr. Onassis, por que n�o?
N�o responderei mais perguntas.
Chega, senhores.
Seria t�o bom poder voltar para casa e
ter um ombro amigo para me confortar.
Era o que esperava do meu marido. Mas me enganei.
A gl�ria lhe subiu � cabe�a.
A gl�ria sobe � cabe�a das pessoas, n�o � minha.
A gl�ria me aterroriza.
� muito desconfort�vel l� em cima.
Para outras pessoas � inebriante, � um vinho que sobe � cabe�a.
Achei-o uma boa pessoa.
Minha m�e n�o estava bem de vida,
eu estava sozinha e acreditei que ele realmente me amava.
Mas acho que amava o que eu representava.
Ele queria tanto que eu fosse "A Divina".
Ele sugava das pessoas � sua volta,
visto que n�o era nada de especial.
Disse que foi perseguida. A que �poca de sua vida se referia?
Quando me separei do meu marido foi muito dif�cil...
e mesmo dois anos antes.
N�o sei por que, talvez fosse um modismo atacar...
me atacar.
E sou o tipo de pessoa que n�o se defende, pois acho in�til.
Primeiro porque os jornalistas sempre t�m a palavra final,
logo n�o adianta brigar.
E tamb�m n�o gosto de me defender.
Acho que o tempo se encarrega das coisas.
De que forma foi perseguida? Culpavam-na por...
Me culpavam por algumas coisas, me compreendiam mal,
Me viam como uma pessoa temperamental, explosiva,
que cancelava apresenta��es, isso e aquilo...
n�o tinha fim.
J� cancelei sim, mas muito pouco em compara��o com outros cantores.
Eu era muito famosa, o que � elogioso,
mas quando n�o estava bem n�o podia me apresentar.
E me culpavam por isso...
Essas coisas magoam...
e chega uma hora em que voc� precisa dar uma pausa para...
redimensionar as coisas e...
Disse que pretende se divorciar quando for aprovada a nova lei...
Sim... estou separada h� onze anos.
� muito tempo.
Arist�teles era ador�vel, honesto e temer�rio.
E suas brincadeiras o tornavam irresist�vel.
S� quando ficava irritado ele era dif�cil e inflex�vel.
Sabia se mostrar generoso.
E n�o apenas do ponto de vista material.
Era muito generoso.
Nunca foi mesquinho.
Nunca interferiu na minha arte, sen�o para dizer que...
n�o devia sentir-me obrigada a cultivar minha carreira de cantora.
Dizia que o estresse estava se tornando insuport�vel.
E, visto que j� havia cumprido meu dever,
as palavras s�o dele, n�o minhas,
tinha o direito de diminuir o ritmo
a aproveitar meu dinheiro bem merecido.
Queria que eu fizesse filmes...
pois achava que seria menos cansativo para mim.
Caro Walter,
provavelmente vou descansar durante os pr�ximos meses.
Devo isso a mim mesma e � minha voz.
Retomarei o ritmo no ano que vem.
Por ora, pretendo dar uma pausa at� cansar de tanto repouso...
e enquanto n�o sentir a vontade de voltar a trabalhar.
Na verdade, estou perdendo interesse pela minha arte...
diante da press�o que meu marido exerce sobre meu trabalho.
Quero voltar a amar minha arte desejando-a.
Preciso confirmar o que todos est�o dizendo.
Realmente mudou completamente. � outra mulher.
Est� feliz?
Bem, estou muito mais feliz...
mas nenhuma verdadeira artista pode ser feliz.
Diz-se que at� sua voz mudou em termos de qualidade.
Artistas se desenvolvem com os anos...
Digamos que agora a pessoa se torna um animal domado.
Antes se faz muita coisa por instinto.
Eu ainda o fa�o.
Na verdade quem assiste a duas performances minhas...
jamais ver� a mesma coisa.
Pois acredito que a performance deva ser instintiva.
Mas tamb�m aprendemos, sofremos, nos desenvolvemos, amadurecemos...
Assim, ao longo do caminho, claro, mudamos nossas interpreta��es.
Mas eu preciso sentir o que fa�o.
Preciso gostar das pessoas para estar com elas.
N�o consigo aprender a arte da hipocrisia.
Antes pudesse.
Aqui na Fran�a a pessoa pode fazer o que quiser.
Isso � uma coisa de que gosto muito.
Por isso escolhi ficar aqui uns cinco, seis meses,
pois viajamos muito
Sim, passo muito tempo em casa. Aqui a pessoa se sente � vontade.
A pessoa n�o se sente acuada, ningu�m te importuna...
e existe uma cortesia toda especial...
de amam e respeitar os artistas... existe uma fineza toda especial.
Ningu�m sai correndo para as portas para
te olhar como uma ave rara e tal...
ao passo que em outros pa�ses a pessoa sai pela cidade...
e ningu�m te deixa em paz nas ruas.
N�o se pode fazer compras.
Isso � ruim pois obriga a pessoa a ficar presa dentro de casa.
E � necess�rio respirar ar puro, se sentir livre...
Como mulher acho que sou perfeitamente normal.
Como car�ter, voc� quer saber da
mulher no palco da vida ou do teatro?
Dos dois talvez.
N�o, s�o duas coisas completamente diferentes...
contudo, s�o iguais. Ou seja, o fundo espiritual � sempre meu.
Isto me pertence e isto n�o se d� a perceber...
porque s� se v� a mulher simples que anda pelas ruas...
Uma mulher simples, feliz, alegre...
que n�o gosta de ser observada, porque...
francamente, tenho vergonha quando me param na rua...
e me elogiam, n�o sei onde meter as m�os.
Isso incomoda um pouco, claro. Enfim, fico envergonhada.
Talvez seja por timidez, sei l�.
Talvez seja dif�cil de acreditar...
pois todos t�m uma impress�o diferente de mim como Callas.
A mulher � simples, gosta de ver televis�o, dizer bobagens,
gosta de ouvir coisas bonitas, naturalmente,
de ler, desenvolver meu lado intelectual,
coisa que n�o sou...
porque nunca tive tempo.
Sempre tive que me dedicar ao palco, ent�o...
quanto a intelectualidade, eu aprendo aqui e ali, s� isso.
Querido e ilustre colega,
como j� disse em minha carta de Monte Carlo,
fiz uma cirurgia de h�rnia...
e n�o consentiram que eu fosse oferecer
ao meu amado regente Serafin...
o apoio que voc� me sugeriu.
N�o tenho, caro amigo, for�as f�sicas
para enfrentar as feras no meu encal�o.
Todos procuram me incutir confian�a...
mas n�o consigo esquecer daquela noite na �pera em Roma...
e o quanto eu sofri.
Se tivesse vinte, trinta anos, talvez fosse diferente...
e a leveza de esp�rito me ajudaria a
esquecer e levar a vida em frente.
Mas n�o est� mais em mim arriscar.
Sobretudo arriscar novas e cru�is feridas da alma...
que jamais h�o de cicatrizar.
Pelo menos � assim que penso agora.
N�o s�o palavras v�s.
Do fundo do cora��o lhe sou grata por tudo
de bom que escreveu a meu respeito...
e pelo respeito com que me trata.
Saiba que nunca o esquecerei.
Agrade�o tamb�m a sua mulher
Invejo como voc�s s�o unidos...
n�o existe riqueza maior na face da terra.
Olhando para tr�s, existem coisas que voc� gostaria de mudar...
ou aceita o pacote fechado?
Nossa, aceito o pacote fechado, claro.
Nunca sonhei que chegasse a uma posi��o t�o privilegiada...
quer com o que houve de bom ou de mau.
Tive a possibilidade de ter dentro de mim
algo que pude expor para as pessoas,
dar para as pessoas e ser entendida.
Acha pouco?
Por outro lado, n�o tive uma fam�lia...
como queria, mais isso ou aquilo, mas...
estar aqui j� � um privil�gio.
Poder falar, ainda que mal,
� um privil�gio.
Srta. Callas, como se sentiu voltando a Nova York...
no Metropolitan ap�s uma longa aus�ncia de sete anos?
Primeiro, uma imensa alegria de estar em casa.
Devo dizer tamb�m...
que todos os nova-iorquinos manifestaram bastante claramente...
que consideravam que eu tinha voltado para casa,
o que foi minha primeira sensa��o de alegria.
Antes de voltar, devo confessar que estava aterrorizada.
Eu n�o queria e ficava procurando desculpas para n�o voltar.
Dennis, o que o traz a esta fila, a Callas
ou voc� simplesmente � f� de �pera?
Maria Callas. Ela � a maior.
S� por ela eu faria isto, ningu�m mais.
E voc�, Lex, o que o faz enfrentar esta fila?
Vim especificamente para ver Callas.
Acho lastim�vel que ela tenha se ausentado
e agora que concordou em voltar...
perd�-la seria realmente um crime.
A mulher sem d�vida alguma � a maior cantora do s�culo...
Por que a acha t�o fant�stica?
Primeiro, sua t�cnica � magn�fica.
Como atriz n�o h� palavras que descrevam.
E seu magnetismo. Nem que fosse uma performance pior,
coisa que eu nunca ouvi,
mesmo assim ainda seria t�o magn�tica como sempre.
A mulher � simplesmente impressionante.
Cada frase, cada tour de force na
partitura tem um significado pra ela.
Aos seus olhos ent�o ela � puro g�nio.
Podes crer.
H� quanto tempo est� na fila?
Desde ontem �s 4:00.
O que fez esse tempo todo?
Fiquei sentado e s� atravessei a rua pra comer alguma coisa.
O que vai acontecer quando finalmente
ela aparecer depois de sete anos?
Receber� 30 minutos de ova��o, mais provavelmente de p�.
Mesmo que seja s� eu de p�, com certeza.
- Acha que ter� companhia? - Ah, sim, com certeza.
Assim que entrei em cena os aplausos foram ensurdecedores.
E voc� teve que ficar parada l�, congelada.
Exatamente, congelada em posi��o sem saber o que fazer...
mas sobretudo com grande emo��o.
Antes n�o estivesse emocionada... realmente estava chorando.
Mas tinha que cantar e continuei chorando por uns dez minutos.
Enquanto cantava estava emocionada demais
para fazer qualquer coisa direito.
Mas foi assombroso, realmente incr�vel.
O calor do p�blico americano � �nico.
Fizeram quest�o de mostrar o quanto me amam.
Eles merecem de fato o melhor de mim.
N�o tinha nem como come�ar a agradecer a tanta gente,
as cartas, os presentes, as flores,
uma adora��o como nunca tinha presenciado em cena.
Foi um momento �nico.
Acredito que o p�blico tem muito mais consci�ncia do que voc� imagina...
do esfor�o a que voc� se dedica,
...da aten��o, do amor que isso implica.
Sim, � verdade.
Muito amor, e muito reconhecimento, isso � engra�ado.
S� fazem me agradecer. Isso me espanta.
Mas voc� � uma mulher feliz.
Isso � verdade, preciso pensar mais nisso.
- � preciso pensar. - Sim, � verdade.
- � a melhor forma de s�-lo. - � que de vez em quando nem percebo.
Com que tipo de m�sica se sente mais � vontade?
A m�sica de Rossini, Donizetti, principalmente, Bennini.
- O bel canto. - Justamente, o bel canto.
Tem consci�ncia de que emprestou ao bel canto...
algo de particular que � voc� mesma?
Tenho no��o de que est� havendo uma maior aceita��o do g�nero.
Em vez de dizerem, ah, que chata essa �pera,
pois infelizmente � considerada uma chatice, mas...
evidentemente, se n�o for bem cantada pode mesmo ser... uma grande chatice.
Mas ao mesmo tempo � a maneira em
que posso melhor me expressar...
Ou seja, � meu universo, digamos assim...
me sinto como que sublimada...
� minha maneira de me expressar...
de levar ao meu p�blico...
um pouco de ilus�o de coisas melhores na vida.
18 de fevereiro de 1965.
Querida Elvira,
Minha gratid�o pelo seu afeto n�o tem limite.
Voc� me conhece. Sou t�mida e muitas vezes imprevis�vel.
Mas sabe me amar como sou.
Os ensaios correram magnificamente,
meus agudos como nos velhos tempos.
No terceiro ato tive um momento de p�nico e cansa�o mas...
mesmo assim segui em frente.
At� a �ltima cena me sa� muito bem.
Se conseguir me dominar, amanh� correr� tudo bem.
Estudo sem parar e penso em voc� com todo o amor e respeito.
Sua Maria.
Para Grace Kelly.
Querida Grace, queria lhe escrever antes mas estive muito ocupada...
botando a cabe�a em ordem e recuperando as for�as...
para enfrentar minha pr�xima apresenta��o.
Correu tudo bem, gra�as a Deus.
� muito extenuante.
H� sempre algum inimigo � espreita de alguma fraqueza minha.
N�o vejo a hora de terminar meu trabalho...
para descansar um pouco. Realmente preciso.
Espero muito rev�-los, voc� e Rainier, o mais breve poss�vel.
E obrigada, querida Grace, pelas belas flores e por suas cartas.
Ari mande lembran�as a voc�s dois.
Um abra�o, Maria.
Senhoras e senhores,
para dar in�cio � sua apresenta��o de hoje,
Madame Maria Callas precisou superar ontem...
uma grave crise de depress�o.
Consternados, e diante de sua coragem excepcional, n�s agradecemos a ela.
Por orienta��o m�dica,
ela est� impossibilitada de concluir sua apresenta��o.
Ela est� extremamente abalada...
e, junto a n�s, pedimos-lhes que a desculpem.
Querida Elvira, h� tanto tempo queria lhe escrever mas...
n�o encontro o tempo, ou melhor, a energia.
Estava exausta. Trabalhar a voz de novo e
mudar as t�cnicas durante os ensaios...
n�o fizeram bem para meus nervos,
tensos h� tantos anos, sufocados pelo medo...
e pela falta de confian�a.
Depois de Nova York meu corpo cedeu.
A press�o se tornou insuport�vel.
Fiquei um m�s de repouso mas...
evidentemente meus nervos n�o estavam preparados...
para um trabalho t�o �rduo como o de Norma.
O cansa�o que sinto � infinito.
E minha raiva � maior ainda
por n�o ter podido resistir at� o fim.
Encontrei um apartamento e me dedico a ele no momento.
Avenue Georges Mandel, 36.
Estou muito mais tranquila.
Uma tranquilidade que n�o chega perto de felicidade...
mas que todavia serve para curar meu sistema nervoso,
que era o verdadeiro culpado de tudo, como voc� me disse certa vez.
Estudo por conta pr�pria. Escuto meus discos,
que me mostram como eu cantava antes,
e meu gravador, que me lembra
o que fa�o e o que n�o devo fazer.
Se der certo melhor, se n�o, jogo tudo para o alto.
Comecei quando tinha 13 anos e agora estou com 41.
N�o � para me lamentar, mas s�o tantos anos.
O alma se consome, assim como a energia.
No fundo, tenho Arist�teles, que mais posso querer?
N�o acha que ele mudou muito, para melhor?
Voc� abdicou de sua cidadania, correto?
Sim, � correto.
- E vai retomar sua cidadania grega? - J� a retomei.
Qual a raz�o por tr�s disso, Madame Callas?
A verdadeira raz�o � que sou uma mulher livre.
Porque durante... hmm...
Pelas leis gregas, quem n�o � casado na igreja depois de 1946...
n�o � casado.
- Ent�o, voc� entende. - Entendo, sim.
Pretende casar-se com o Sr. Onassis?
Isso n�o � pergunta que se fa�a.
N�o, hoje sou uma mulher livre e fico muito feliz por isso.
Por isso abdiquei da minha cidadania americana, infelizmente.
Voc� entende, n�o?
Meu amor,
Saiba que isto � um mero presente de anivers�rio,
mas saiba que depois de oito anos e meio...
e depois de tudo pelo que passamos,
sinto-me feliz de lhe dizer de todo cora��o,
me orgulho de voc�.
Amo-o de corpo e alma...
e meu �nico desejo � que voc� sinta o mesmo.
Considero-me privilegiada por ter alcan�ado
os voos mais altos de uma dura carreira...
e agrade�o a Deus por t�-lo posto em meu caminho.
Voc�, que que tamb�m atravessou tormentas, conquistou seus louros...
e criou uma uni�o como a que temos hoje.
Procure, eu lhe pe�o, mantenha-se unido assim para sempre,
uma vez que sempre precisarei do seu amor e do seu respeito.
Sou orgulhosa demais para admiti-lo, mas...
saiba que voc� � o ar que respiro, meu esp�rito,
meu orgulho e minha ternura.
E se pudesse ler no meu cora��o o que sinto por voc�,
sentir-se-ia o homem mais forte e rico do mundo.
N�o � uma crian�a que lhe escreve esta carta,
� uma mulher orgulhosa, cansada e ferida,
que lhe oferece os sentimentos mais
nobres e jovens que jamais existiram.
Nunca se esque�a disso...
e continue terno como nestes �ltimos dias...
porque faz de mim a rainha do mundo, meu amor.
Preciso de afeto e ternura
Sou sua.
Fa�a de mim o que quiser.
Sua amada, Maria.
H� uma prece que eu fa�o, � s� minha.
Espero que n�o ria de mim.
Qual �?
De vez em quando pe�o a Deus que me ajude...
hm... d�-me o que quiser, n�o tenho escolha,
seja bom ou mau, mas d�-me tamb�m a for�a para super�-lo.
JACKIE RADIANTE VOA PARA PARIS
Querida Elvira, estou muito bem considerando as circunst�ncias mas...
� como se tivesse levado uma bofetada.
Chego a ficar sem f�lego.
Recebi tr�s telefonemas.
Um deles eu n�o respondi...
e aos outros dois eu respondi, mas para mim foi desastroso.
Como lhe havia dito, ele � um irrespons�vel...
e agora est� realmente infeliz.
Estou em Paris e procurarei botar minha cabe�a em ordem...
pois est� muito mal.
Estes meses s� estou tentando sobreviver.
Evito fazer grandes esfor�os...
pois meu esp�rito est� em convuls�o, assim como minha cabe�a.
Nem sei para onde ir para descansar um pouco.
Sinto-me totalmente perdida ap�s tantos anos de trabalho,
de sacrif�cios por um homem que me parece sem rumo.
� o c�mulo.
Veremos.
Contudo, se quiser, escreva para mim aqui.
Um abra�o afetuoso,
e espero que n�o se preocupe muito comigo.
Deus sempre foi meu guia.
Novamente Ele iluminar� meu caminho.
Espero que me d� for�as para superar mais esta crise.
Querida e doce amiga de sempre,
sua sempre, Maria.
Querida Elvira, obrigada por sua linda carta.
� cruel, � verdade, mas ele pagar� por isso.
Ver� que ele h� de pagar.
O pior de tudo � que nem me comunicou seu casamento.
Era o m�nimo que podia fazer, ap�s nove anos de relacionamento.
Pelo menos, n�o era para eu ter descoberto pelos jornais.
Mas vejo-o como um louco e como tal, apaguei-o da minha cabe�a.
� indispens�vel que eu volte a trabalhar o quanto antes.
Em todo caso, n�o posso fazer nada at� o ano que vem.
Mas estou bem diante das circunst�ncias...
a lhe agrade�o por todo seu afeto por mim.
Escreverei em breve para lhe contar dos meus projetos futuros.
Por enquanto ainda n�o decidi nada.
Todo meu carinho e respeito de sempre,
sua Maria.
H� nove anos levo uma vida escondida,
o que � humilhante para uma pessoa como eu.
E ningu�m se cura em dois meses.
E n�o tenho tanto tempo assim para me curar.
Ano que vem terei que cantar de qualquer jeito,
n�o importa o que custar.
Tenho que pensar na minha carreira.
� muito f�cil dizer, "Ah, muito obrigada,
durante oito, nove anos fizemos tudo para sermos felizes".
"Mas que gracinha", como dizem no cinema.
� f�cil falar.
O cristianismo diz, perdoe, n�o guarde ressentimentos.
N�o guardo ressentimentos, mas tenho meu orgulho e pronto.
Bem � isso, Greg, pode me levar para casa?
Essa publicidade fenomenal que envolve
sua amizade com Arist�teles Onassis,
em que medida isso limita sua vida?
Cria de fato uma barreira que impede que se encontrem...
por saber que os flashes v�o pipocar?
N�o � nada agrad�vel, claro, porque...
hm... n�o se fica � vontade...
ele � um homem casado, antes eu era uma mulher casada,
ainda sou, mas me divorciarei se a lei for aprovada...
E... bem, eles t�m criado problemas,
ele tem uma fam�lia, tem filhos,
Agora ele tem uma mulher, nunca a conheci.
Nunca... logo...
como n�o a conhe�o, poderia criar algum problema, n�o sei.
Espero que n�o.
Porque n�o sou do tipo que criaria problemas.
Mas tanta publicidade torna mais dif�ceis esses encontros, n�o?
Bem, n�o sei...
depende se o homem precisa de voc�.
Tenho certeza de que muitas vezes Onassis precisa de mim como amiga...
pois eu lhe diria a verdade.
N�o que voc�s homens gostem da verdade.
N�o.
- Enfim... - N�o gostamos?
Ora, adoramos, somos t�o gratos.
- Est� mentindo. - Somos muito gratos por isso.
Nunca � bastante.
Mas tenho certeza que o Sr. Onassis sempre me procuraria...
com seus problemas, sabendo que eu nunca os revelaria...
e que seria objetiva.
Aposto que est� se perguntando se eu precisaria da amizade dele.
Sim, eu imagino.
Procuraria ele com um problema?
Sim, mas tamb�m tenho muitos amigos...
que est�o ocupando essa posi��o,
quer dizer, sendo apenas bons amigos.
Procuraria... procuraria, sim.
Este � seu primeiro filme,
mas j� foi convidada para fazer outros?
J� me propuseram muitos filmes...
mas este foi o primeiro que achei digno de...
enfim, que n�o poderia recusar.
Para uma atriz � um papel maravilhoso.
- � amiga de Pasolini? - Sim, tornei-me.
Esta colabora��o com Pasolini foi realmente...
enfim, uma colabora��o muito emocionante...
muito real...
dia e noite.
Quando n�o me mexo, tudo bem, mas � s� me mexer...
Na vida tudo � uma quest�o de timing.
O que procuramos � encontrar o lado humano de Medeia.
Uma mulher.
Com todas as experi�ncias de uma mulher,
At� mesmo por isso, tudo � maior.
Um sacrif�cio maior... tudo � maior. O cen�rio � maior.
Mas a dor est� l�, a mesma, como com qualquer outra mulher.
Maior at�.
Gostaria de fazer mais filmes?
N�o tenho tanta experi�ncia, n�o sei o que resultar� desta experi�ncia...
assim, acho que dev�amos falar disso mais adiante...
quando eu tiver terminado este trabalho.
Mas devo dizer que este papel � o...
Pelo menos do jeito que o constru�mos,
n�o sei se voc� sabe,
n�o sei como o p�blico reagir�, mas...
N�o sei se existem papeis...
t�o dif�ceis e vastos como este.
Acho que estamos come�ando pelo final em vez do come�o.
Passo a palavra ao Sr. Pasolini, pois acredito
que ele j� me conhe�a melhor ultimamente.
Assim, ele poder� me julgar mais objetivamente.
O que eu sou, Pier Paolo, na verdade?
A coisa de que ela mais gosta � o trabalho.
- Isso � verdade. - Em seguida, a vida. A vida em si.
Sim, ent�o voc� me considera uma entusiasta da vida, eu participo...
Tem sentimentos muito fortes.
Quando est� feliz est� total e verdadeiramente feliz.
Quando est� triste est� total e verdadeiramente triste.
Sim, mas eu escondo, n�o �?
O amor tem seu lugar, n�o?
Mas o amor � uma coisa t�o dif�cil...
e paga-se um pre�o muito alto.
Meu Deus, o amor para mim � uma coisa muito nobre...
Nossa, � muito dif�cil.
Nos anos vindouros � bom ter em mente
que n�o posso cantar eternamente.
Se me considerarem apenas uma boa atriz, isso j� me basta.
E isso me abre uma porta, uma possibilidade de trabalhar...
nos poucos anos de juventude que me restam.
Por que diz poucos anos de juventude?
Uma boa atriz pode trabalhar at� qualquer idade.
� verdade, � verdade.
Mas estou falando do futuro. Claro, ainda sou jovem...
mas n�o t�o jovem assim.
Diz que precisa trabalhar, ent�o por que n�o canta h� quatro anos?
Eu n�o estava bem.
Havia minha sa�de, n�o posso dizer que tenha me quebrado mas...
desde minha inf�ncia tenho uma apar�ncia muito robusta.
Mas n�o sou.
E tamb�m tem a carreira, que foi muito dura...
e muito bonita...
os aborrecimentos e coisas assim, o f�sico acaba n�o resistindo.
Afinal, sou uma mulher.
Voc� tem algum projeto em especial,
algum desejo que gostaria de realizar?
Estou aberta a todas... a todas...
as tenta��es.
Agora que vou estrear, se gostarem de mim...
pode ser que me anime.
Lady Macbeth?
Isso me interessa muito. J� interpretei no palco...
ou seja, na �pera.
Confesso que fico muito tentada.
Tamb�m gostaria de fazer alguma com�dia.
Senhoras e senhores, a Senhora Presidente!
Est� aberta a 38a noite de gala do Sindicato dos Artistas.
Que se inicie o espet�culo!
Maria! Maria!
O QUE ARI ENCONTRA EM MARIA E QUE JACKIE N�O PODE LHE DAR.
No in�cio n�o permitia que ele entrasse em meu apartamento.
Voc� n�o vai acreditar.
Um dia p�s-se a assobiar com insist�ncia em frente a minha casa.
Como faziam os jovens gregos h� cinquenta anos,
que cantavam serenatas para suas amadas.
Tive que deix�-lo entrar antes que o La Stampa...
descobrisse o que estava se passando na Avenue Georges Mandel.
Aquilo me enfureceu na �poca. Chamei-o de canalha.
Usei outros adjetivos que n�o pretendo repetir aqui.
Foi mais tarde, quando ele voltou...
e eu j� come�ava a recuperar meu orgulho ferido,
que comecei a ver as coisas numa perspectiva mais sensata...
e mais realista.
Sua explica��o mais imediata foi de que seu casamento fora um erro.
Erro dele, e n�o de sua mulher, como eu havia dito na cara dele.
Conseguira exatamente o que eu queria.
A culpa era exclusivamente dele.
E seu assim chamado contrato nupcial
foi algo que nunca consegui entender.
ARI VOLTA PARA MARIA
ARI VOLTA PARA MARIA Eu o perdoei.
Assim come�ou minha grande amizade com Arist�teles.
Uma amizade apaixonada, por assim dizer.
ARI VOLTA PARA MARIA
Depois de seu casamento nunca mais brigamos.
Passamos a falar das coisas de modo construtivo.
Ele parou de ficar resmungando de tudo.
N�o havia mais nele nem em mim a necessidade de provar nada de nada.
Nem a n�s mesmos, nem aos outros.
Meu amor por Onassis foi um fracasso.
Minha amizade com ele, um sucesso.
Recentemente voc� disse numa entrevista de jornal,
"Acho que no fundo sou como qualquer adolescente americana.
Queria um pr�ncipe encantado, que aparecesse para me levar embora.
- � a mais pura verdade. - Acha que um dia aparecer�?
At� hoje nunca apareceu. Ou talvez tenha...
Hm... sabe de quem estou falando...
Foi o segundo homem, talvez o �nico, o n�o-marido... Sr. Onassis.
Entenda...
Hm...
Espera-se muito, talvez seja culpa minha,
eu ponho o homem num pedestal.
Esperei por muito e talvez tenha acabado me decepcionando
Deve ter sido culpa minha.
Ainda tem esperan�as?
- Esperan�a de qu�? - Que o pr�ncipe encantado aparecer�?
Na nossa idade n�o ser� um pr�ncipe encantado, pelo menos n�o na minha.
Espero um homem maduro que me aceite como sou,
- Deixaria de cantar nesse caso? - Naturalmente.
- Deixaria? - Bem, com esta idade, sim.
Dizem que Maria Callas deixou de cantar
por causa de Arist�teles Onassis.
Bem... isso at� seria poss�vel...
Podia te deixar sem resposta, mas enfim, � uma pergunta honesta.
Achava que quando encontrasse o homem
que amava n�o precisaria cantar.
Porque acho que uma mulher...
o mais importante para uma mulher...
� ter um homem s� seu...
e faz�-lo feliz.
Eu tenho integridade, e isso sai caro,
usando as palavras do Onassis,
paga-se um pre�o caro por integridade e honestidade.
Mas posso pagar esse pre�o.
Confesso que esta noite fiquei mais emocionada que de costume...
porque quando o p�blico demonstra tanto
amor eu preciso retribuir com muito mais.
E n�o tenho como me controlar.
Mas eu tentarei um pouco mais e cantarei a m�sica de sempre...
Oh, Mio Bambino Caro para meu p�blico caro.
� muito, muito gratificante...
Deviam estar aplaudindo o que esperavam ouvir...
N�o sei se eu merecia tudo aquilo.
Mas nunca se pode ir contra o p�blico.
Pareciam muito felizes, mas devo dizer
que tamb�m estavam muito gratos...
assim como eu, de eu ter conseguido voltar.
N�o d� para aplaudir apenas a lenda, sem se dar alguma coisa para...
Afinal o que � uma lenda? Foi o p�blico que me fez.
O que � uma lenda?
Acho que sou um ser humano de carne e osso.
Se n�o fosse, talvez tivesse cantado melhor.
Recebi um toque de Eros no come�o e...
Quando o p�blico te ama tanto, tanto mais a gente quer dar de si.
E o que eu mais quero nunca � o que eu gostaria,
nem mesmo nos velhos tempos.
Quando o vi pela �ltima vez ele estava calmo.
E creio que em paz consigo mesmo.
Estava muito doente, sabia que o fim estava pr�ximo,
se bem que procurava ignor�-lo.
N�o fal�vamos dos bons velhos tempos,
e nem dos maus, de resto.
Nos comunic�vamos um com o outro sobretudo em sil�ncio.
Quando eu estava para sair,
ele fez um esfor�o todo especial para me dizer:
Eu te amei, nem sempre como devia,
mas tanto e quanto pude.
Fiz o melhor que pude.
Escrevi nas minhas mem�rias:
Habito nas m�sicas que interpreto,
a �nica l�ngua que verdadeiramente possuo.
Na manh� de 16 de setembro de 1977,
Maria Callas faleceu de um ataque card�aco
em seu apartamento em Paris.
Tinha 53 anos.
Continuava a praticar em sua casa aguardando sua volta aos palcos.
Quero agradecer a todo esse p�blico que soube estar perto de mim...
nos momentos dif�ceis.
N�o s� nos momentos de gl�ria, eles me escreveram, me adoraram,
me compreenderam e, em geral, me amaram.
Por isso tamb�m sou-lhes muito reconhecida.
Sou muito reconhecida a todos.
� s�.
Legendas: Lu�s Filipe Bernardes Ajustes by DanDee
Can't find what you're looking for?
Get subtitles in any language from opensubtitles.com, and translate them here.