Afrikaans
Akan
Albanian
Amharic
Arabic
Armenian
Azerbaijani
Basque
Belarusian
Bemba
Bengali
Bihari
Bosnian
Breton
Bulgarian
Cambodian
Catalan
Cebuano
Cherokee
Chichewa
Chinese (Simplified)
Chinese (Traditional)
Corsican
Czech
Danish
Dutch
Esperanto
Estonian
Ewe
Faroese
Filipino
Finnish
French
Frisian
Ga
Galician
Georgian
German
Greek
Guarani
Gujarati
Haitian Creole
Hausa
Hawaiian
Hebrew
Hindi
Hmong
Hungarian
Icelandic
Igbo
Indonesian
Interlingua
Irish
Italian
Japanese
Javanese
Kannada
Kazakh
Kinyarwanda
Kirundi
Kongo
Korean
Krio (Sierra Leone)
Kurdish
Kurdish (Soranî)
Kyrgyz
Laothian
Latin
Latvian
Lingala
Lithuanian
Lozi
Luganda
Luo
Luxembourgish
Macedonian
Malagasy
Malay
Malayalam
Maltese
Maori
Marathi
Mauritian Creole
Moldavian
Mongolian
Myanmar (Burmese)
Montenegrin
Nepali
Nigerian Pidgin
Northern Sotho
Norwegian
Norwegian (Nynorsk)
Occitan
Oriya
Oromo
Pashto
Persian
Polish
Portuguese (Brazil)
Portuguese (Portugal)
Punjabi
Quechua
Romanian
Romansh
Runyakitara
Russian
Samoan
Scots Gaelic
Serbian
Serbo-Croatian
Sesotho
Setswana
Seychellois Creole
Shona
Sindhi
Sinhalese
Slovak
Slovenian
Somali
Spanish (Latin American)
Sundanese
Swahili
Swedish
Tajik
Tamil
Tatar
Telugu
Thai
Tigrinya
Tonga
Tshiluba
Tumbuka
Turkish
Turkmen
Twi
Uighur
Ukrainian
Urdu
Uzbek
Vietnamese
Welsh
Wolof
Xhosa
Yiddish
Yoruba
Zulu
O COMISSÁRIO MONTALBANO O LADRÃO DE MERENDAS
TELEFONE
- Estou ? - "Com quem estou a falar ?"
Espere, como assim "Com quem estou a falar" ?
- Mas isso digo eu ! - "É o agente Catarella.
"É o Dr. Montalbano ?"
Sim, Catarella, sou eu. O que aconteceu ?
"Desculpe, não o reconheci.
- "O doutor estava a dormir ?" - Não, Catarella, estava a dançar.
Claro que dormia, são cinco da manhã !
Porque ligas a esta hora ?
"Um morto em Mazara del Vallo."
- Mazara del Vallo ? - "Sim, mesmo ali, doutor."
Catarella, e que raio temos a ver com isso ?
- Estamos em Vigata ! - "Olhe que o morto..."
"Cresce a longa lista de incidentes de pesca com os países da África,
"desta vez custou a vida a um homem.
"O pesqueiro Santa Maria de Porto Salvo,
"enquanto pescava em águas internacionais,
"foi atacado por uma patrulha.
"O Vice-comissário Augello,
"disse que o navio-patrulha disparou uma rajada de metralhadora,
"acertando num marinheiro tunisino legalmente a bordo."
Bom dia.
Alguém me pode dizer o que se passa ?
Não descarregue o mau humor !
Antes de informar Augello, mandei ligar para si.
Se me mandaste ligar pelo Catarella,
então és um imbecil. Ele não entende nada !
- E ? - O pesqueiro de Mazara.
Ouvi sobre isso na televisão.
- Era de Mazara ? - Sim e não.
Não é um bom dia !
Não, ele era tunisino, mas embarcou em Mazara.
Tinha documentos legais.
E pescavam em águas internacionais ?
- Tenho cara de imbecil ? - Catarella !
- Sim ? - Se o cadáver está aqui,
porque me falaste em Mazara ?
Veio de Mazara, trabalhava ali.
Catarella, pensando nisso, se é que és capaz,
se um turista de Bergamo morresse em Vigata,
dirias que foi em Bergamo ?!
Mas este morto é um morto "de passagem".
- Ele foi baleado... - Tudo bem, Catarella...
Eu leio o relatório. Não estou para ninguém.
Certo, Comissário !
TELEFONE
(...)
- Estou ? - "A senhora Lívia ao telefone.
- "Passo-lhe a chamada ?" - Sim, passa-ma.
- "O senhor disse..." - Catarella, passa-ma !
- "Estou ?" - Lívia ?
- Olá ! - "Olá, uma ova !
"Tenho tentado ligar-te a manhã inteira."
Esqueci-me de ligar o telefone. Vais rir-te.
"Não quero rir. Tentei às 7h30, às 8h, às 9h..."
- Lívia, esqueci-me de o ligar. - "Esqueceste-te mas foi de mim !"
- Hoje não. Estou de mau humor. - "Eu também ! Adeus !"
Desculpe por bater tanto, não queria.
Juro que te dou um tiro ! O que foi ?
Ligaram, há um tipo dentro de um elevador.
O que foi ? Comissário !
O que é isso de um tipo num elevador ?
Porque não chamam os bombeiros ? Tirem-no daqui !
Catarella, vamos.
E então ?
Está um morto no elevador.
- Bom dia, Comissário. - Bom dia.
- Por favor, deixem passar. - O corpo de um homem assassinado !
Tenham consideração !
Cosentino Giuseppe, segurança. Encontrei o Sr. Lapecora.
- À vontade. - Obrigado.
Galluzzo, afasta-os, não há nada para ver.
Não se preocupe. Todos fazem o que eu digo.
Eu moro neste prédio.
- Que bom, ainda bem ! - Obrigado.
- Comissário. - Bom dia.
O Pasquano já veio de Montelusa ?
Deve estar no porto.
Avisa-o. Se Jacomuzzi e os peritos estiverem,
fá-los vir também.
Relaxe, Cosentino.
O Sr. Lapecora era casado ?
Com Antonietta Palmisano. Eles moram no 4.o andar,
dois abaixo de mim.
Onde está ela ?
Saiu de manhã cedo para visitar a sua irmã em Fiacca.
Ela disse à minha mulher ontem à noite, já que se falam.
A viúva ainda não sabe que é viúva.
O homem morto, o Sr. Lapecora, qual era a profissão dele ?
Comerciante. Ele tinha o escritório no número 28 da Salita Granet.
Percebi.
A que horas encontrou o cadáver ?
Acabei de trabalhar às oito...
Deviam ser umas 8h15 o mais tardar quando chamei o elevador.
- Chamou ? - Sim.
No rés-do-chão ?
Não. Lembro-me bem que chamei o elevador.
Sabe em que andar estava parado ?
Pensei nisso, Senhor Comissário.
Dado o tempo que levou,
acho que devia estar parado no 5.o andar.
- O Lapecora não era do 4.o ? - Está certo.
É uma mina de informações.
Sempre ao dispor, senhor Comissário !
- Relaxe. - Sim.
Por favor, deixem-nos trabalhar, ainda não sabemos nada.
Vou ao 4.o e 5.o andares, enquanto isso tenta descobrir
tudo sobre o Lapecora.
Vou ver se viram alguma coisa.
Já interroguei Cosentino, o segurança...
Diga-nos qualquer coisa !
Senhora ?
Ei, espere !
Senhora ?
Sra. Piccirillo, abra !
Quem é ?
Sou o Comissário Montalbano para falar consigo.
- Não sabemos nada ! - Abra ou trago um mandado.
Quem está em casa ?
A minha filha.
Chame-a, por favor.
Luigina ! Chega aqui !
Olhe, nós não fizemos nada.
O Sr. Lapecora estava no 5.o andar.
E então ? A Sra. Gullotta também mora neste andar.
Chega, mãe ! Diz-lhe tudo !
O quê ?
Está bem, então.
Está bem.
Hoje de manhã, a minha filha ia ao cabeleireiro,
chamou o elevador, veio logo.
Devia estar parado no andar de baixo, no quarto.
Que horas eram ?
Poderia ter sido às 8h, ou mais tarde.
Abriu a porta, viu o Sr. Lapecora no chão,
apanhou um susto.
Vi, pensei que estava bêbado. Tinha uma garrafa de vinho.
Parecia como se ele tivesse feito chichi nas calças.
A rapariga achou nojento. Fechou a porta.
E naquele momento, alguém abaixo chamou o elevador.
Então voltámos para casa. Cinco minutos depois,
a Sra. Gullotta disse que o Lapecora estava morto
e não bêbado, Comissário.
- E é tudo. - Não, isso não é tudo.
É muito pior. Porque acho que vocês perceberam logo
que o Lapecora estava morto. E fingiram.
Fingiram nem o ter visto. Porquê ?
Não queríamos que falassem de nós.
Senhor Comissário, somos pessoas respeitáveis.
Respeitáveis ?
Ah, estou a ver.
Seria melhor se o Sr. Lapecora fosse encontrado
por alguém "pior".
Deixaram-no ali.
E se estivesse vivo ?
Então ?
Bom dia. Sou o Comissário Montalb...
Eu sei, eu sei !
A mulher não pode ouvir.
Trouxe a garrafa ?
- Qual garrafa ? - A que estava junto ao cadáver.
- Não era do Sr. Lapecora ? - Não, é minha.
Não entendo. Explique isso melhor.
Hoje de manhã, voltando das compras,
encontrei o Lapecora no elevador, estava morto.
Eu entendi imediatamente.
- Chamou o elevador ? - Porquê ? Estava no rés-do-chão.
Ah, e o que fez ?
O que poderia fazer, filho ? Tenho a perna esquerda aleijada.
Os americanos deram-me um tiro. Carregava quatro sacos.
Não podia subir as escadas assim.
- Subiu com o morto ? - Que remédio !
E quando o elevador chegou ao meu andar,
o mesmo que o do homem morto,
a garrafa de vinho caiu do saco.
- Está a perceber ? - Sim, estou.
E o que fiz ?
Abri a porta de casa, pus os sacos lá dentro
e saí de novo para buscar a garrafa.
Mas já era tarde.
Porque alguém chamou o elevador.
- Certo ! - Obrigado.
E o que aconteceu ?
Então o elevador desceu novamente para o rés-do-chão.
E comecei a descer as escadas,
e quando, finalmente, cheguei lá, qual o nome dele... ?
- Cosentino, o segurança. - Sim, ele mesmo.
Estava em frente ao elevador,
e não deixava ninguém aproximar-se.
Então, falei-lhe na garrafa
e prometeu que iria informar as autoridades.
- Autoridades. É o senhor ? - De certa forma.
- Então falou-lhe na garrafa ? - Não.
E o que vou fazer agora ?
Se a minha mulher descobre que perdi a garrafa,
mata-me.
Tem que acreditar em mim, Comissário.
Ela conta o meu dinheiro.
- Vamos resolver o problema. - Confio, Comissário, obrigado.
- Adeus. - Obrigado.
Olha, vem cá. Procura o Galluzzo.
Jacomuzzi, então ?
Não acabei. Eu aviso.
E a faca ?
Faca de cozinha desgastada. Cabo de madeira.
Já agora, encontrei uma escama de peixe entre a lâmina e o cabo.
- Uma escama de peixe ? - Sim, de peixe !
Jacomuzzi, resolveste o caso !
Que tipo de peixe é esse ? Sargo ? Dourada ? Salmonete ?
Diz-me senão fico ansioso !
Montalbano, porque estás sempre a gozar connosco ?
Tenta usar o cérebro um pouco !
Se estivéssemos no Saara
e me falasses da escama de peixe na faca que matou um turista,
poderia fazer sentido.
Que importância tem, numa cidade onde 19 970 moradores comem peixe ?
- E os outros, porque não o comem ? - Estão a ser amamentados !
- Galluzzo. - Aqui, Comissário.
Controla o apartamento do morto.
Não deixes a viúva entrar até eu chegar.
- Percebido ? - Tudo bem.
- Fazio ! - Já vou !
Vai ao 5.o andar, até às Piccirillo.
São pessoas de bem, mãe e filha. Omissão de eventos.
Leva-as para a esquadra, faz o máximo de barulho possível.
Todos devem pensar que foram presas.
Quando eu chegar lá, vamos deixá-las sair.
Vou a pé. Tenho vontade de andar.
Espera, faz-me um favor. Depois de levares as duas para a esquadra,
compra uma garrafa de Corvo Bianco.
Leva-a ao Sr. Culicchia, 4.o andar.
De Corvo Bianco ?
Ao Sr. Culicchia no 4.o andar. Vejo-te na esquadra.
Doutor !
- Um telefonema para si, é urgente ! - Quem é ?
O chefe em pessoa.
- O Augello voltou ? - Não, ainda não.
Estou, Comandante ? Bom dia !
Caro Montalbano !
Queria dizer que acordámos agora com a capitania do porto
"que o caso do morto tunisino seja transferido para Mazara."
Ocupava-se do caso pessoalmente ?
Não, o Dr. Augello.
"Então diga-lhe que o relatório da autópsia"
e o relatório balístico devem seguir para Mazara.
De acordo, é para já. Adeus.
Adeus.
Mimi, como vai isso ?
Tudo bem, tirando isto do corpo no barco de pesca.
- E tu ? - Nada de especial !
Nada como isso que poderá ser um incidente internacional !
Como foi com o Presidente ? Lembraste-te de fazer a vénia ?
Esquece ! Há quanto tempo trabalhamos juntos ? Quatro anos ?
Se quisesse o teu lugar nestes quatro anos,
seria pelo menos vice-comandante da polícia !
- A sério ? - Sabes o que és ?
Um vaidoso ! E eu só penso em tapar-te buracos.
Agora tapo eu o buraco. O teu caso está a ser transferido para Mazara.
O que isso significa ?
Ficas de mãos vazias, eu com o caso do assassinato do elevador.
É 1-0. Adeus, Mimi !
Vou trabalhar. Deem as chaves à viúva quando ela descer.
Está no sexto andar a conversar com a minha mulher.
- Como reagiu ? - Quase desmaiou.
Tivemos que a segurar.
Mas quando se recuperou, perguntou se ele foi assassinado.
Talvez não me tenha explicado.
Se a minha mulher morrer, pergunto se foi assassinada.
Desculpe, mas é lógico.
Percebi, Cosentino, mas já tinha percebido.
Sempre às ordens.
- À vontade. - Obrigado.
Vamos.
- Ele saiu sem a carteira ? - Sim, como chegaste lá ?
Porque...
- Comissário ! - A senhora, mexe-te.
- Ele foi baleado ? - Não.
- Foi estrangulado ? - Também não.
- Como foi morto ? - Com uma faca.
- Faca de cozinha ? - Provavelmente.
Que fez o seu marido ontem ?
Foi trabalhar.
Costumava ir lá às segundas, quartas e sextas-feiras.
Sendo hoje uma quinta-feira, ele poderia ter ficado em casa.
Sim.
Mas vestiu-se com pressa e a senhora sabe aonde... ?
Não, não sei. Ele não me contou nada.
Quando saí, ele estava a dormir.
Não acha estranho que, assim que você saiu,
o seu marido de repente acordou e vestiu-se à pressa.
Deve ter recebido um telefonema.
Tinha inimigos ?
Não, absolutamente nenhum.
Suspeita de alguém ?
Suspeitar ? Não. Ter certezas ? Sim !
E quem teria sido ?
A amante dele. O nome dela é Karima, com um "K".
Uma mulher tunisina. Encontravam-se no escritório.
A morena ia lá com a desculpa da limpeza.
- Uma tunisina. - Sim.
Mas como descobriu ?
No ano passado, no verão,
chegaram três cartas anónimas, uma após a outra.
- Posso vê-las ? - Queimei-as.
Eu não guardo essas porcarias.
O que diziam ?
Todas a mesma coisa. Diziam:
"O seu marido, Aurelio, três vezes por semana,
recebe uma mulher chamada Karima."
Foram escritas com aquelas...
... aquelas letras recortadas de jornais.
Como nos filmes.
Confirmou isso de alguma forma ?
Está a perguntar-me se eu espiava
para ver quando aquela mulher
entrava e saia do escritório do meu marido ?
Absolutamente não,
nunca me humilharia a fazer certas coisas.
Mas...
... consegui confirmar.
Sim ?
E como ?
Um lenço sujo.
Batom ?
Não.
Queimei-o. Isso também.
Galluzzo.
- Comissário, as chaves ? - Cala-te e abre.
Comissário, venha ver !
É o escritório do Sr. Lapecora ?
Quantos anos ele tinha ?
- Sessenta e cinco. - Caraças !
Experimenta este perfume.
Amanhã de manhã vens cá, sem ser visto e esperas.
Se a tunisina não sabe nada, virá cá amanhã e tu prende-la.
É difícil ela não saber.
- Porquê ? Quem lhe diria ? - Comissário, as pessoas falam.
Falaste com o teu cunhado da Televigata ?
- Não, não. - Se falaste, vou ficar lixado !
Comissário, juro, não falei.
É razão para vires amanhã cedo.
Vamos lá.
"As autoridades fizeram tudo para tapar a verdade,
"mas a Televigata conseguiu descobrir a identidade da vítima:
"Aurelio Lapecora, 65 anos."
São uns inúteis !
"Dois crimes num dia: um recorde para a cidade.
"O ataque covarde da Tunísia..."
TELEFONE
(...)
Estou a comer massa com brócolos, quem incomoda ?
- "Sou eu, querido, Lívia." - Lívia !
"Quem fez massa com brócolos ? A Adelina ?"
- Sim. - "E tu comes isso ?
"Como pode um polícia empregar a mãe de alguém que prendeu ?
- "Ela vai envenenar-te." - Por favor, Lívia !
A Adelina é uma mulher inteligente.
- Onde encontro outra ? - "Sim..."
- Olha... - "Diz-me, querido."
Desculpa por esta manhã.
- Tenho saudades. - "Mesmo ? Tens a certeza ?"
Muito, Lívia.
"Salvo, no próximo sábado vou apanhar o avião para te ver."
- Sábado ? - "Sim, estarei aí ao almoço."
Ótimo ! Tens a certeza ?
- "Absolutamente !" - Não é cansativo para ti ?
"Já comprei o voo. Até sábado. Por favor, deita essa massa fora."
Adeus.
- Bom dia. - Olá.
- A tunisina está aqui ? - Sim.
- Como a encontraram ? - Foi o Mancuso da imigração.
Uma combinação.
Vamos lá.
Bom dia.
BATE À PORTA
Bom dia.
Senhora... precisamos de... mas não, senhora...
Não, mas... deixe-me... senhora. Esquece isso ! Fazio !
Senhora, por favor. Senhora, só um momento.
Senhora, só um momento !
Nós...
Nós... o quê ?
Nós... Karima.
Queremos a Karima.
- Ela tem um filho ? - Cinco anos, foi com ela.
Quero saber mais. Procura um intérprete árabe, rapidamente.
Despacha-te.
Meu nome, Salvo.
O meu nome é Aisha.
Aisha ? Salvo, Aisha.
Prazer.
Aisha ?
Karima e François.
Sim.
- E o marido dela. - Não, irmão dela, Ahmed.
Irmão. E onde está ele ?
Não sei.
- O agente Buscaino. - Às ordens.
- Aisha ! - Contei-lhe um pouco a história.
Pergunte quem é o pai de François.
Karima não lhe disse quem era.
Ela trouxe alguém para casa ?
Era uma boa rapariga.
Que nunca faria "haaram". Nunca ia fazer algo ilícito.
Alá é grande e misericordioso, mas se me está a enganar,
Alá fica zangado e vamos ter problemas.
- Diz que o "tio" está certo. - O tio ?
- É o Comissário. - Eu ?
É por respeito.
Fazio !
Então ?
Um tal de Fahrid veio várias vezes. Tinha um carro grande.
Quando ela viu Karima pela última vez ?
Quando estiver com a Karima, que me ligue.
Diz que é importante. É sério.
François e Karima estão em risco. E ela.
Espero assustá-la bem.
Lembre-se.
Ligue.
É importante.
É muito importante.
Sim.
- Sim ? - Sim.
Boa.
Comissário !
Venha, venha.
Podem ir.
- Karima. - É da Karima ?
300 milhões ?
Silêncio ! Calma, por favor !
Silêncio !
Comissário, incomodaram-no com esta parvoíce ?
Estava apenas a passar. O que se passa ?
Desde ontem que um miúdo rouba as merendas das crianças.
- Sim ! É verdade. É verdade. - Esta manhã... Silêncio !
- Fez o mesmo esta manhã. - Comissário !
Comissário, olhe ! Ele magoou-o.
- Alguém o reconheceu ? - Não !
Silêncio !
Oficial, continue a investigação e mantenha-me informado.
Claro, Comissário ! Todos para casa agora !
É o Montalbano.
Bom dia. Não há sinal da rapariga tunisina.
Não haverá.
- Fazes palavras cruzadas ! - Só para passar o tempo.
- Posso ir agora ? - Não, fica aqui. Nunca se sabe.
- Mas porquê ? - Nunca se sabe, Galluzzo ! Nunca.
- Galluzzo ! - Comissário !
- Onde estava isto ? - Aqui.
- Há outras ? - Sim.
Pega-as. Rápido.
- "Sim ?" - Sim.
- "Quem é ?" - Senhora Lapecora ?
- "Sim." - É o Montalbano, desculpe,
mas precisava de uma informação. - "Estou à disposição."
Poderia dizer-me quando recebeu as cartas anónimas ?
"Claro, lembro-me bem. A primeira foi a meados de junho."
Vê os primeiros números de junho.
- "Em Julho e outra em Setembro." - Sim. Os de Julho e Agosto.
Obrigado, desculpe o incómodo, foi uma grande ajuda.
- "De nada." - Adeus.
"Adeus."
As edições de Julho.
Olha aqui.
A de 27 de Agosto.
TELEFONE
(...)
(...)
Estou ?
"Falo com o Comissário Montalbano ? Em pessoa ?"
Sim. Quem é ?
"Clementina Vasile Cozzo e gostaria de lhe contar uma coisa
"sobre o assassinato de ontem." - Como sabia que estava aqui ?
"Vi-o a entrar. E estou a vê-lo neste momento.
"Olhe para fora, Comissário.
"Vê-me, Comissário ?"
- Sim. - "Espero-o, Comissário."
- Entre. - Obrigado.
- Entre. - Senhora.
Por favor, entre.
- Obrigada, Pina, pode ir. - Com licença.
Venha, dê uma olhada.
Vê ?
Vê como posso ver o escritório ? À noite é ainda melhor.
- E o que viu ? - Vou-lhe dizer,
mesmo que o meu vocabulário seja mais limitado.
Uma vez, à noite, deviam ser umas quatro da manhã,
não conseguia dormir e ouvi dois bêbados a passar.
Olhei para fora
e vi que as luzes do escritório de Sr. Lapecora estavam ligadas.
Mas ele não estava lá.
Estava lá a rapariga tunisina que lhe faz a limpeza de dia
e um jovem.
Ele estava ao telefone, mas não foi difícil perceber
que não estavam ali para telefonar.
Vi-os de novo quatro ou cinco vezes, sempre à noite.
Agiam como se fossem os donos.
Mas não faziam nada.
Viu a rapariga a cortar pedaços de jornal ?
Não cortavam jornais, não. Vi-a atender o telefone.
Mas nunca costumava passar os telefonemas ao Sr. Lapecora.
Era uma mulher perigosa, Comissário,
e o Sr. Lapecora estava completamente enfeitiçado por ela.
Catarella, acorda ! Alguma chamada ?
Duas para o Dr. Augello, uma para Fazio.
Catarella, não quero saber deles, apenas se houve para mim !
- Apenas para si ? Não ! - Obrigado !
- Galluzzo. - Sim, Comissário !
Olha...
... viste papel timbrado no escritório do Lapecora ?
- Não, acho que não. - Verifica, está bem ?
- Fazio, alguma coisa ? - Bem, Comissário.
Lapecora tinha uma empresa de importação-exportação.
Anos depois, reabriu-a.
E o estranho é que de 94 até agora, não houve nenhuma transação.
- Faturas ? - Não !
- Porque reabriu ? Tenho um palpite. - Eu também, diz tu.
A empresa pode ter sido um disfarce,
uma fachada para encobrir algum tipo de tráfico.
Vai ser difícil apanhá-los, mataram-no e levaram tudo.
Comissário ! Agora que pensei bem, houve uma chamada para si.
Não entendi quem foi. Deve ter sido um parente.
- De quem ? - Seu, doutor.
Chamava-lhe pelo primeiro nome, "Salvo, Salvo !"
- E depois ? - Estava a gemer, com dores.
Parecia uma mulher velha. Disse: "Ai, ai...
Ai, ai, sha, sha... "
Aisha ! Aisha !
Bom dia, Comissário.
- Karima e François ? - Nada. Alguém fez uma visita.
- Comissário... - Não, vamos lá, vamos lá...
- Ela estava aqui ? - Visitava uma amiga em Montelusa.
- Era tarde, ficou lá. - Levaram a poupança ?
Não.
Não, não, não.
Diga-lhe para o deixar ali.
A senhora teve sorte.
Se a encontrassem, matavam-na.
Aisha !
Diz-lhe para pegar nas coisas dela. Leva-a para Montelusa à amiga,
tem de ficar lá por mais alguns dias por segurança.
Está bem ?
Calma.
Bom dia ! Há alguma coisa para comer ?
Dr. Montalbano, há sempre algo para si aqui !
- Obrigado. - Arianna !
O Dr. Montalbano está aqui !
- Bom dia. - Bom dia. Tome.
Obrigado. Ia para casa.
Calogero, vou fazer um telefonema ! - O senhor é o chefe por aqui !
- Obrigado ! - "Estou ?"
- Lívia ! - "Acabei de chegar.
"Desculpa, o avião teve um atraso de duas horas.
"Não avisei. Estavas preocupado ?"
Claro ! Liguei a cada 15 minutos, mas ninguém estava em casa.
- Ia ligar ao aeroporto. - "Desculpa, a culpa não foi minha.
"Quando chegas ?
- "Salvo ?" - Olha, agora não posso.
Estou numa reunião em Montelusa. Daqui a uma hora.
Olha no frigorífico ou no forno, deves ter algo feito.
"Esquece. Não como o que a Adelina prepara.
- "Espero, comemos juntos." - Não ! Eu já comi uma sandes.
Daqui a pouco estou aí.
- Adeus ! Bem-vinda. - "Adeus, despacha-te."
Calogero. Tu és um demónio ! Forças-me a pecar !
- Olá. - Olá.
Amor, cheiras a peixe frito.
Sim, interroguei um tipo numa loja de peixe por uma hora.
O Fazio prendeu-as como se fossem assassinas.
- Que tonto ! - Porquê ?
- És um machista sacana. - Mas porquê ?
Mãe e filha perdem a reputação à frente do prédio inteiro
e o outro tipo, como se chama ? - Culicchia.
Porque é homem, anda num elevador com um corpo
e compras-lhe vinho ! Achas isso justo ?
- Vamos lá, Lívia. - Não, estou a falar, Salvo !
E o pobre menino em Villasetta ?
Deve ser muito pobre para ter de roubar as merendas !
Deve ter sido abandonado e isso não é bom !
Meu Deus !
Para de ser parvo agora !
- Jesus. - O quê ?
- Jesus. - Estás bem ?
És um génio, Lívia !
- Sim ? Catarella, o Fazio está ? - Que queres fazer ?
Fazio ! Daqui a meia hora, quero-os todos prontos na esquadra.
Se falta alguém, armo confusão.
- Salvo... - Veste-te.
- Onde vamos ? - Veste-te.
- Onde vamos ? - Apanhar o ladrão de merendas.
São 4h00, temos de estar aqui ainda por muito tempo ?
Por favor, Lívia, por favor !
Por favor ? Porque quiseste que viesse ?
- O que ele disse ? - Que temos de esperar.
Está stressado, disse-lhe que devia tirar férias, mas ele não quer.
Lívia !
Olha.
Não vejo nada.
Ali está ele !
Escuta, quando o apanharmos...
faz-lhe festas, abraça-o, tenta acalmá-lo. Está bem ?
Vai !
Devagar, com calma !
Gallo, seu animal, com calma !
Não, não. Vem cá, está tudo bem. Isso mesmo, relaxa.
Isso mesmo, relaxa.
Tranquilo, querido, não tenhas medo !
Não tenhas medo, está tudo bem.
Sim, tudo acabou agora,
está tudo bem, não te preocupes.
- Foi boa ideia trazê-lo para cá ? - Claro.
É contra a lei.
E se ele fugir ?
Não acho que o fará. Vou dormir.
"Não o fará" !
Lívia ?
Estás a dormir ?
Lívia ?
Lívia ?
Chega aqui.
Boa !
Pouco ! Senão o castelo desmorona.
Assim.
Ajoelha-te, assim.
Um momento.
- Olá. - Olá.
- Onde encontraste ? - O quê ?
- A pá e o balde ? - Augello trouxe-os de manhã.
Que simpático ! Tu compraste bolos.
Fazem mal.
Sim. O teu amigo Augello não sabe. Foi ele que os comprou.
E agora têm que comer ou deitamos fora.
Tens mesmo que ir hoje ?
Esqueci-me de dizer. Cancelei o voo.
Quero ficar aqui mais alguns dias. Como fazias com ele ?
Mas desagrada-te ?
- A mim ? - Sim !
Claro que não !
O que fizeram ?
Conversámos.
Passei a manhã a tentar convencê-lo que a mãe vem buscá-lo.
- Ele contou-te alguma coisa ? - Não muito.
No outro dia, a mãe Karima, chegou com pressa,
estava assustada e disse-lhe que tinham de sair já.
Enquanto fugiam, veio um carro dirigido por um certo Fahrid...
Ensinou-me a escrever o nome.
- Também sei como se escreve. - 'Foge, corre, não pares.
'Não te vires, François ! Corre, corre, sai daqui !
'François, corre !
'Corre, François ! Corre, corre !
'Corre !
'Corre, sai daqui !'
E, assim, François foi deixado sozinho.
Escondeu-se dois dias nos arbustos perto do mar, não voltou para casa,
temendo que Fahrid estivesse lá à espera dele.
Mas ontem a noite encontrámo-lo.'
É mais ou menos isso.
O que estás a pensar ?
Que o menino é órfão.
François, como fizeste isso ?
- Agora vou tirar este. - Olha.
"Vai levar para casa o marinheiro infeliz morto.
"Tudo o que sabemos dele é o nome, Ben Dhahab,
"de trinta e dois anos, de Sfax..."
Olha, é o meu tio !
O que disse ele ?
"O meu tio ! "
Pergunta-lhe se é o seu tio verdadeiro.
Que tipo de pergunta é essa ?!
A Aisha chama-me de "tio" ! Sou tio dela ?
Por favor, pergunta-lhe !
- Ouve, François... - Ahmed é o irmão da minha mãe.
Sim ?
Este é o teu tio ? Como se chama ?
Ahmed Moussa.
E a tua mãe é Karima Moussa ?
Vai estar no ar à meia noite.
Transmites também ao almoço ? À noite é pouco.
Às ordens. Mas tens que me dizer uma coisa.
Este menino é o ladrão de merendas ?
Sim, chega de perguntas.
Quando souber mais, serás o primeiro a saber.
Ragonese acha que é piada, mas eu não.
Fazes bem. E enquanto mostras a foto, faz uma voz
como de alguém que esteja a falar de algo doloroso e dramático.
Agora és realizador ?
Diz que uma velha mulher tunisina desesperada veio ter contigo,
pedindo para mostrar a foto porque não teve nenhuma notícia
da filha nem da criança, Karima e François.
- Karima e François. - Exatamente.
- Certo. - Sim ?
- Obrigado. Adeus ! - Adeus !
Deixa-o dormir aqui.
Não achas estranho que uma noite um pescador tunisino seja morto
e na manhã seguinte o Lapecora, amante da irmã do morto ?
Como podem os dois factos estar relacionados ?
Vamos manter a separação.
Vê porque tinha um nome falso,
eu trato do assassinato do Lapecora e do desaparecimento da Karima.
Se nos encontrarmos, nunca nos conhecemos antes.
Não fiques tão nervoso !
De qualquer maneira, Ben Dhahab pode não ser um nome falso.
Pode chamar-se Ben Ahmed Dhahab Moussa.
Os nomes árabes são tramados !
- Volto para Vigata. - Espera ! O que fazemos ?
E perguntas-me a mim ?
Sabes quem o conhecia aqui, se os documentos eram legais ?
Precisas que te diga para fazer isso ?
Não, mas é bom ouvir-te dizer.
- Vamos lá. - Onde ?
Alguém que conhece o tipo ! Seja qual nome.
Bem, eu notei que algo estava errado.
Liguei para Tunes para informar da tragédia.
Quando disse ao pai que Ben estava morto,
ele riu e disse que Ben Dhahab estava no quarto ao lado.
Depois desligou.
E daí ? Talvez existam dois homens com o mesmo nome ?
Certo.
O nome Ahmed Moussa diz-lhe alguma coisa ?
O que tem a ver ?
Ben Dhahab pode ser de facto o Ahmed Moussa.
O quê ?!
Porquê ? O que sabe sobre Ahmed Moussa ?
É um terrorista. Há uma grande recompensa por ele,
mas ninguém o conhece, ninguém sabe como ele é.
Eu ajudei o Ahmed Moussa ?!
Alguma coisa não está certa.
- Como ? - Como embarcou.
Ahmed deixa Mazara com um objetivo, que desconhecemos.
Comunicou ao capitão ou à tripulação ?
Penso que sim. Estavam todos de acordo,
caso contrário, teria mudado o rumo e desembarcado.
Ele era um terrorista, pode ter obrigado.
Mas em terra, o capitão e a tripulação iam à polícia.
Não tinham nada a perder. Vamos.
Assumindo que Ahmed não planeia matar-se, temos duas hipóteses:
ou ia desembarcar ilegalmente na costa da Tunísia
ou tinha que se encontrar com alguém pessoalmente.
- Acho mais convincente. - Sim.
- O inesperado acontece. - A Guarda Costeira aparece.
Exatamente. Neste ponto existem muitas possibilidades !
Vamos dizer que a Guarda Costeira não sabe que Ahmed está no barco.
Ordenam que parem, tentam fugir, disparam uns tiros.
Ahmed Moussa é atingido por acaso. Parece a morte do Kennedy.
Ouve esta: Ahmed, em vez de encontrar o tipo,
vê outro, que atira.
Ou encontra o tipo certo, mas discutem e atira nele.
- Com a metralhadora ? - A metralhadora ?
Essa derruba um avião !
Foi a Guarda Costeira da Tunísia ?
Vi a foto da mulher na televisão, a tunisina que desapareceu.
Na quinta-feira passada, de manhã, por volta das 9h30,
estava de bicicleta, a ir de Vigata para Montelusa.
Em Villaseta, havia um carro estacionado.
- Lembra-se que tipo de carro era ? - Sim.
Um Mercedes cinza. Com um homem e uma mulher lá dentro.
Parecia que se beijavam. Mas quando cheguei mais perto,
a mulher parecia olhar para mim, como se me quisesse dizer algo.
Mas o homem puxou-a e abraçou-a novamente.
- E o que fez ? - Nada.
Reconheci-a quando vi a foto dela hoje.
- Obrigado. - Ainda não terminei.
O que vi não parecia certo, anotei a matrícula.
- E tem isso aqui ? - Claro !
Obrigado. Fazio !
Muito obrigado. Foi muito útil.
- Adeus, Comissário. - Leva o padre Jannuzzo.
- "Estou ?" - É o Montalbano.
Queria falar com o Comandante, é urgente.
- "Um momento." - Obrigado.
- "Estou ?" - Comandante.
- É sobre a mulher sequestrada. - "Diga, Montalbano."
Precisava de localizar uma matrícula o mais cedo possível.
- "Sim." - Sinto muito incomodá-lo,
mas a última vez tivemos que esperar um mês.
- "Dê-me o número." - Sim. RG...
... 280567.
- ... 67. - "67. Está bem."
- Está bem... - "Eu aviso."
Obrigado, Senhor Comandante, adeus.
E se a mãe desapareceu ? O que lhe acontece ?
Não sei, Lívia. Mesmo. Não te apegues muito.
É tão inteligente.
O Mimi veio hoje e trouxe-lhe um quebra-cabeças.
Mimi... mais uma vez ?
O François disse que os quebra-cabeças são chatos,
porque cada peça encaixa apenas noutra,
segues o padrão de quem o desenhou.
Um com diferentes soluções é muito mais interessante.
Ele disse isso ?
Não é extraordinário para uma criança assim ?
Hoje são muito precoces.
Até se habituam a dormir sozinhos.
E se ele acordar ?
Se acordar, vou consolá-lo.
Eu quero a minha mãe.
Eu perdi a minha mãe também, quando era mais novo que tu.
Chorei muitas noites na almofada para o pai não ouvir.
Não estavas sozinho.
Tens razão.
Eu tive o meu pai.
O que acontece agora ? Vou para um orfanato ?
Não.
Não.
Eu prometo.
- Galluzzo. - Às ordens.
Sim.
Mimi, queria agradecer-te pelo quebra-cabeça.
Foi muito gentil.
Olha...
Este é o endereço em Montelusa onde a Aisha está hospedada.
Percebeste ? Agora pega num dos nossos carros
e leva-a para a minha casa em Marinella.
Diz que o tio Salvo mandou, sou eu.
E sem bagagem porque ela vai voltar a Montelusa esta noite.
- Percebeste ? - Está bem.
E cuidado. Vai agora.
- Então, Sr. Lopíparo. - Lopiparo, Lopiparo.
Exatamente. Conhece a viúva Lapecora, cujo marido...
Costuma visitar a irmã e fala sempre dela durante a viagem.
- E viu-a na quinta passada ? - Claro. Até tivemos uma discussão.
- Teve uma discussão ? - Sim.
- Porquê ? - Naquela manhã partiu para Fiacca.
Quando chegámos a Cannatello, ela saiu,
disse que tinha de voltar, esqueceu-se de uma coisa.
Cannizzaro, o motorista do autocarro, deixou-a sair.
Depois passei eu, a caminho de Vigata.
Parei e ela apanhou o meu autocarro.
- E porque discutiu com ela ? - Porquê ?
Não queria pagar o bilhete. Disse que já tinha pago uma vez.
Preciso de tantos bilhetes como passageiros.
- Obrigado, Sr. Lopiparo. - Adeus.
Adeus.
Fazio.
É um génio. Como chegou a isso ?
O François, enquanto brincava, fez-me pensar nisso.
Porque o fez ? Ciúmes da empregada tunisina ?
Foi a ganância. Chamou a atenção do Lopiparo,
quando fez todos os possíveis para não ser vista.
Aqui estão as chaves da casa de Lapecora.
Na sala vais encontrar uma prateleira com loiça.
- E se a viúva estiver ? - Não, está fora da cidade.
Pega numa das chávenas e não deixes qualquer impressão digital.
- E se perceber que falta uma ? - Que se lixe.
Liga ao Jacomuzzi e diz-lhe que preciso da arma do crime.
Se não a puder trazer, vais tu buscá-la.
Há mais de uma hora que me estão a interrogar
e tenho de trabalhar. Que querem de mim ?
O governo da Tunísia declarou oficialmente
que foram eles a matar o tunisino, não foi ?
Primeiro, existem algumas contradições.
Disse que o ataque foi em águas internacionais.
Eles dizem o contrário.
Bem, devem ter calculado a posição incorretamente !
Estávamos em águas internacionais e quando os vimos no radar,
ninguém pensou que poderia ser uma guarda costeira tunisina !
- E depois ? - Eles sinalizaram para pararmos,
pensámos na fiscalização italiana, e então parámos.
Ouvimos falar em árabe.
Então, o tunisino que estava connosco foi ao convés e acendeu um cigarro.
E atiraram nele. Então nós fugimos.
Sr. Prestia, sabemos que a sua sociedade cooperativa, a Copemaz,
lhe pediu para contratar alguém, e você escolheu Ben Dhahab.
Eu não o conhecia.
Quando veio a bordo, cinco minutos antes da partida,
pensei que ele era o tipo que me mandou a Copemaz.
Acontece com frequência. Eles trocam de lugar.
- O importante é ninguém protestar. - Compreendo.
Então não podia saber que Ben Dhahab era um dos maiores nomes
dos traficantes de droga.
- Não é ? - Tráfico... ?
Do que fala, Comissário ? Qual tráfico de droga ?
Caro Sr. Prestia, serei honesto. Eu...
Está a ficar feio para si, muito feio.
Não ! Não, não ! Eles prometeram-me que...
- Prometeram o quê ? - Que eu não teria chatices !
E quem lhe prometeu isso ?
- "Deu-lhe o nome ?" - Não exatamente.
Deu-nos um dos seus cartões
que guardava como se fosse um tipo de garantia.
"Uma garantia ? Claro, é isso."
- Como ? - "Explico.
"Algum tempo atrás, o presidente recebeu um pedido.
"Foi convidado a dar apoio a um repórter tunisino
"numa reportagem do seu povo.
"Ele precisava de um barco. Sua Excelência deu-me a tarefa.
"Foi-me dito que Prestia era fidedigno.
"Mas Prestia tinha medo de ter problemas com o emprego."
Tudo claro, senhor.
É o suficiente. Espero não incomodar mais.
- "Espero o mesmo." - Obrigado !
- É parvo ou faz-se ? - Tens razão e eu acho...
TELEFONE
Sim ?
- Não quero... - "Não é para si."
É para ti ! O Comandante.
Comandante, é o Montalbano, o que aconteceu ?
Montalbano, em que tipo de caca nos está a meter ?
Caca ? O que eu fiz ?
Pedi para verificarem a matrícula que me deu.
Sabe o que disseram ?
"Que se quisesse conhecer o nome do dono,
"teria que pedir por escrito, especificando as razões."
Comandante, sem problema. Conto tudo.
- "E depois pode..." -Não percebeu ou não quer perceber ?
O número está interdito ! Pertence aos serviços !
Ah, desculpe.
- Contou o que se passava ? - Montalbano, está a gozar ?
Como poderia ter dito ? Não sei o que está a fazer !
Entendi, senhor Comandante. Obrigado.
- "Adeus, Montalbano !" - Adeus !
TELEFONE
(...)
- Estou ? - Lívia ?
Ouve com cuidado.
O telefone ainda não está sob escuta.
Do que falas, Salvo ?
"Não faças perguntas, apenas ouve.
"Galluzzo vai levar a senhora a Montelusa.
"O François voltará a vê-la."
Assim que Galluzzo sair, liga ao Mimi. Encontra-o, onde estiver.
Diz que tens de o ver, ele vai.
"Prepara uma mala para o François."
- O que... ? - Cala-te.
Diz ao Mimi que a criança tem de desaparecer da face da terra.
"Não lhe perguntes onde a leva. Não deves saber."
Lívia, não chores.
Não vou chorar.
- "Estás-me a ouvir ?" - Sim.
"Quando o Mimi sair, liga ao Fazio.
"Diz-lhe que a criança fugiu, que vá procurá-la e que o sigam.
"Enquanto isso eu chegarei.
"Uma última coisa: liga para o aeroporto de Palermo"
e marca o voo para Génova ao meio-dia, assim levam-te. Certo ?
- Sim. - "Tenho de ir."
Adeus.
- O que está a acontecer ? - Nada.
Foi assim que aconteceu:
Ahmed Moussa fez com que Fahrid montasse uma operação.
Tem a ajuda de Karima, irmã de Ahmed.
Chantageiam Lapecora e usam a antiga empresa dele de fachada.
- Percebes ? - Sim.
Boa. Ahmed vai a uma reunião importante,
comprar armas ou ter apoio para a organização.
Vem para Itália sob um nome falso, que lhe dão os serviços.
A reunião é em alto mar, mas é uma armadilha,
o nosso serviço fez um acordo com Tunes.
E tenho a certeza que Fahrid estava nisso também.
A Karima acho que não.
O menino é uma testemunha. Tens medo por ele.
Claro, ele reconheceu o tio na televisão, identifica o Fahrid,
que, tenho a certeza agora, matou a Karima.
Que vamos fazer agora ?
Tu não, Valente.
Tenho de desviar a atenção.
Montalbano, o que posso dizer ? Boa sorte !
Para ti também.
Olá.
Encontraste o François ?
- Passou em casa antes ? - Vim direto de Mazara. Porquê ?
Podemos ir ao seu escritório ?
Sim.
Então ?
Sou polícia.
Talvez não tão bom como o senhor, mas ainda polícia.
E ?
Sabia que ele tinha fugido ?
A Lívia telefonou-me e disse-lhe para entrar em contacto contigo.
Mas o facto é que ela me disse que não o conseguiu encontrar.
Não se preocupe, sabia o que fazer. E fi-lo.
- E o que queria ? - Fazer um pouco de barulho.
Fui a todas as casas do bairro, perguntei a cada um que encontrava
se tinham visto uma criança.
Ninguém o viu, Comissário, mas sabem que a criança desapareceu.
Muito bem, Fazio, e obrigado.
- O que faço agora ? - O máximo de barulho possível.
A polícia, as esquadras provinciais, os bombeiros.
Descreve o menino e mostra-te preocupado.
Apenas telefonemas, nada por escrito.
Comissário, tem a certeza que eles não vão realmente encontrá-lo ?
Relaxa, ele está seguro.
"Pela investigação no sequestro
"e provável assassinato de Karima Moussa,
pedia o nome do dono de um veículo. Por favor, é com urgência."
Há quanto tempo estamos juntos ?
Quatro... talvez cinco...
Oito anos.
Estamos juntos há oito anos.
E às vezes até falamos sobre casamento,
mas nunca o fizemos, Salvo.
Estamos felizes nesta situação
e porque o nosso egoísmo e a nossa preguiça vencem sempre.
Preguiça, egoísmo ? Do que falas, Lívia ?
- Temos dificuldades objetivas. - Tretas ! Sempre a mesma desculpa !
Desculpa.
Desculpa, às vezes não aguento mais a tua hipocrisia.
Ao menos, o teu cinismo é mais genuíno.
Quero uma resposta clara: quando vamos casar ?
- Então, Salvo ? - Se dependesse só de mim.
- Já chega ! - Espera...
Tomei comprimidos para dormir, o voo sai ao meio-dia.
- Adeus. - Ouve.
Não !
Casamos quando estivermos velhos demais para ter filhos,
e não percebemos que Deus, ou outra pessoa no seu lugar,
tinha enviado um filho !
Tenho tentado ligar-lhe. Desligou o telefone ?
Porquê, Fazio ?
O corpo de uma idosa foi encontrado em Villaseta.
Galluzzo e Gallo estão lá !
Não acho que tenha sido um acidente.
Partiram-lhe o pescoço.
Posso dizer algo mais depois da autópsia.
Adeus.
Comissário !
Fui ver a amiga onde estava hospedada.
Ninguém a procurou. Mas insistiu em voltar a casa.
E hoje cedo, apanhou um autocarro.
Tu e Gallo para Vigata. É o funeral do Lapecora.
No final da missa, diz à viúva para ir à esquadra.
Se armar confusão, não hesitem em usar a força.
Vemo-nos lá.
Este dinheiro pertence a uma mulher que julga morta
e o herdeiro é o filho menor. - Sim.
Então quer que este dinheiro seja vinculado a uma conta
para o rapaz lhe aceder quando chegar à maioridade ?
Exato.
Desculpe, mas porque não guarda a caderneta
para lha entregar quando for a altura ?
Quem sabe se vou estar vivo ?
Certo.
Vou estudar o assunto.
- Daqui a uma semana falamos. - Sim.
- Seria uma boa ideia investir. - Pode cuidar disso.
- Tome a caderneta. - Não. Eu poderia perdê-la.
Deixe-me dar-lhe um recibo.
Não se preocupe. Adeus, senhor notário.
- Comissário. - Sim.
Se o menino herdar o dinheiro, a morte da mãe deve ser provada.
Está bem, obrigado.
- Salvo. - Olá. Mimi, procurava-te.
- Onde está a criança ? - Com a minha irmã.
- É um lugar seguro ? - Muito.
Moram a 4 km da aldeia, numa casa no campo,
um dos meus sobrinhos tem a mesma idade do François.
Ele vai ficar bem.
- Mimi, obrigado. - De nada.
Não, obrigado, a sério.
- Galluzzo ! - Sim !
Enviaste o fax do nome do dono do Mercedes para Roma ?
- Sim. - Manda outro.
Tem a ver com o assassinato das duas mulheres tunisinas.
- Das duas ? - Das duas, sim.
Aisha Adouani e Karima Moussa. Despacha-te, mexe-te !
Entra !
- Como queres ? - Um homem sentado aqui.
- Senta-te. - Tenho de sentar ?
Sim, o que esperas ? Senta-te.
Vês a câmara ?
- Não. - Já estás a ser filmado.
- Não faz barulho nenhum ! - Isto é um achado !
Deixa-me explicar isto.
Para gravar, levanta e pressiona este botão vermelho.
Para voltar atrás, puxa isto para baixo,
o "play" puxa para cima.
- Posso rever aqui ? - Não, tens que abrir.
- Lá está. - Este sou eu !
Fiquei bem.
Fazes tudo errado ! Explico-te de novo.
- Não, percebi. - Mesmo ?
Já te disse !
Estão a tratar-me como uma criminosa !
Maltrataram-na ?
Comissário, é uma detenção.
Quem falou em detenção ? Há um mandado ?
Não, Comissário.
Fazio !
Gallo, podes ir.
Senhora, sinto muito mesmo, desculpe a inconveniência.
São apenas alguns minutos do seu tempo.
Sente-se.
Corrija-me se errar.
A senhora disse que na manhã em que o seu marido foi morto,
não viu nada de estranho.
O que devia ter reparado ?
Que a porta do escritório, sempre aberta, estava fechada.
Abri quando fui à casa.
Que diferença isso faz ?
Nessa manhã apanhou o autocarro para Fiacca, saiu em Cannatello,
apanhou o autocarro contrário e voltou para Vigata.
Esqueceu algo ?
Foi o motorista ?
Foram os dois motoristas.
Bem, eles estão certos.
Só que não aconteceu nessa manhã, mas dois dias antes.
Enganaram-se no dia.
A faca que matou o seu marido é da sua cozinha.
- Reconhece-a ? - É uma faca.
Facas há muitas.
E reconhece esta ?
Olha onde estava. Levaram-na.
- Então é sua ? - Claro que é !
É do serviço bom.
Porque precisa disto ?
É simples, senhora.
Vou metê-la na prisão.
Está louco ?!
Vou-lhe contar a história.
Nessa manhã, acorda e vai à casa de banho.
O escritório estava fechado.
Não pensou nisso, pensou depois.
Vai à cozinha, tira a faca da gaveta, põe-na na mala e sai.
Vai para Fiacca, desce em Cannatello e volta a Vigata.
Lá encontra o seu marido pronto para sair, discutem os dois.
O marido vai para o elevador, segue-o e esfaqueia-o.
Segue para o rés-do-chão e sai na porta principal.
Teve muita sorte, ninguém a viu.
Porque teria feito isso ?
Porque não fechou a porta do escritório ?
Não, senhora.
Estava lá a Karima, a amante do seu marido.
Disse agora que não entrei no escritório !
Não precisava, sentiu o cheiro do perfume que a Karima usava.
Eu senti quando entrei no escritório.
Só por curiosidade.
Porque não matei imediatamente a mulher ?
Sabia que a Karima, ao vê-la com uma faca, iria gritar.
O seu marido chegava e ia desarmá-la. Agiu normalmente,
poderia apanhá-los depois.
Segundo o senhor, porque só matei o meu marido ?
Quando voltou a casa, a Karima tinha saído.
Desculpe, mas se não estava lá, quem lhe contou tudo isso ?
As suas impressões digitais, na chávena e na faca.
- Não ! Na faca não ! - Porque não na faca ?
A faca não é minha !
- A faca é sua também. - Não !
- Há uma impressão digital. - Não pode ser !
Porque esfaqueou o seu marido com as luvas que tinha para sair.
A impressão digital não foi desse dia, mas do dia anterior,
quando limpou o peixe, depois a lavou e pôs na gaveta.
A impressão não está no cabo, está na lâmina, mesmo na junção.
Se quiser, colhemos as digitais e comparamos.
Ele mereceu a morte que teve.
Divertia-se com a prostituta na minha cama.
Quer fazer-me crer que o fez por ciúmes ? Desculpe, não acredito.
Recebeu cartas anónimas. Poderia surpreender no escritório.
Não faço essas coisas.
Enlouqueci quando descobri que se encontravam na minha casa.
Senhora, enlouqueceu alguns dias antes disso.
Quando descobriu que o seu marido levantou muito dinheiro da conta.
Comissário...
300 milhões !
300 milhões para essa vadia !
Se não o tivesse parado, dava-lhe tudo a ela.
Era capaz de lhe dar até a casa.
A minha casa.
300 milhões para essa vadia !
Maldito seja, malditos todos.
Boa noite, Comissário.
Fez-me esperar.
Sou o coronel Lohengrin Pera.
Lohengrin.
Os seus pais tinham imaginação !
Sabe porque estou aqui ?
Permita-me, Coronel, estou com fome.
Vamos pôr as nossas cartas na mesa, é melhor para os dois.
- E trouxe aquele carro. - O carro. Interessante.
O seu chefe contou-lhe que a matrícula estava blindada.
Corrija-me se estiver errado, mas queria que aparecêssemos.
- Dou-lhe isso. - Adelina, a empregada,
é uma ótima cozinheira, mas para arrumar... se faz favor.
Continue, estou a ouvir.
O senhor já leu os escritos de Mussolini ?
Não são as minhas obras favoritas.
Num deles afirma que o povo deve ser tratado como um burro:
o chicote e a cenoura.
O meu avô dizia o mesmo, mas era um camponês, e falava do burro.
O que tem Mussolini ?
Era uma metáfora.
Os seus faxes para descobrir o dono do carro,
o interrogatório do capitão do barco,
a chamada ao Gabinete do Presidente...
... foram os golpes de chicote para que saíssemos da toca.
E a cenoura ?
As declarações à imprensa depois da detenção da viúva Lapecora.
Podia ter-nos arrastado nesse caso.
Mas não o fez.
Só queria informar que outros elementos estavam nas suas mãos.
Certo ?
Tenho um sabor horrível na boca, é do bolo.
O que não é bom.
Ainda não se quer abrir comigo ?
Compreendo.
Então continuarei.
Serei explícito e breve.
Dois anos atrás, os colegas em Tunes pediram-nos
para participar numa operação delicada,
que deveria levar à prisão de Ahmed Moussa.
Um momento. Disse "prender", percebi bem ?
- Diz que não sabia... - Precisamente.
Não sabíamos que iam matá-lo.
E foi apenas o primeiro dos contratempos,
se puder usar a palavra.
Voltemos atrás. A operação começou quando os nossos colegas em Tunes
descobriram que Karima, a irmã favorita de Ahmed,
morava na Sicília.
Ignorava por completo que o Fahrid,
o braço direito, foi comprado pelos serviços.
Então, quando Fahrid sugeriu abrir uma base na Sicília,
o Ahmed aceitou logo.
A fachada era a empresa de Lapecora.
O isco estava na água.
Tínhamos que esperar que o peixe mordesse.
Desculpe.
Sim, tudo bem.
Estou a falar.
Desculpe.
Fazendo-o crer na possibilidade de negociar a compra de armas,
Fahrid trouxe Ahmed à Itália.
O encontro com o misterioso traficante era em alto mar.
Ahmed veio a Mazara
e o capitão, sob pressão de Spadaccia, aceitou levá-lo.
Conheço o resto.
Porque não veio o capitão a Mazara depois do assassinato ?
Spadaccia não o avisou ?
Claro. O preço do passeio foi o dinheiro que Ahmed tinha com ele,
70 milhões que o capitão dividiu com a tripulação.
Não esperava um homicídio.
Perdeu a cabeça e veio a Vigata, o porto mais próximo.
Estragou o seu jogo.
Caso contrário, teriam feito desaparecer o corpo
e encobriam o caso, certo ?
Contei-lhe o que podia.
É a sua vez.
Conte-me tudo o que sabe.
Levou-me em alto mar, não me esqueço daqueles em terra.
O Fahrid,
quando ele soube do assassinato, decidiu continuar a operação,
eliminar todas as testemunhas.
Lapecora e Karima.
Ou quer que acredite que não sabiam disto ?
Pode não acreditar em mim, mas não sabíamos.
Acredito. Mas a estupidez parece-me ainda pior que a má-fé.
Voltemos ao Fahrid.
Antes, convenceu Lapecora a deixar entrar Karima em casa,
prometendo-lhe uma noite de paixão.
Disse à Karima para observá-lo, caso decidisse denunciá-los.
Ele fez isso para eliminá-los juntos e sem problemas.
Infelizmente houve... um contratempo,
como diz o senhor.
Na manhã seguinte, a mulher de Lapecora ia-se embora,
Karima vê que é inútil ficar e volta a casa.
Descobre nas notícias que o seu irmão Ahmed foi morto.
Apavorada, não sabe o que fazer.
Volta ao Lapecora, que é o único em quem confia.
Mas está morto.
Porque está certo de que ela voltou ?
Porque a vi.
Estava apavorada.
Não sabia que a esposa dele o tinha matado. Pensou no Fahrid.
Então volta para casa e tenta fugir com a criança.
Tenho de admitir que entendeu tudo antes e melhor que nós.
Mas devo pedir-lhe para refletir agora.
Um momento.
Preciso de ter a certeza de uma coisa.
A Karima foi morta ?
Infelizmente sim. Como lhe disse, não tínhamos previsto...
Poupe-me as suas desculpas da treta !
Certo e grave é que duas mulheres inocentes foram mortas
e podiam ter sido salvas !
Montalbano, compreendo a sua amargura.
Mas estou preocupado com as consequências
deste caso desagradável.
Na infeliz hipótese que estas informações deixem esta sala.
Não se ofenda pelo que vou propor,
mas tem que me dizer qual é o seu preço.
O meu preço ?
Mas eu saio barato. Muito barato.
Continue.
Que o corpo de Karima seja encontrado amanhã de manhã.
E que esteja perfeitamente identificável.
- Porquê ? - É problema meu !
Desculpe, mas não é possível, não sabemos onde foi enterrada.
Pergunte ao Fahrid.
- Ele voltou à Tunísia. - Chame os seus amiguinhos.
O jogo acabou. Não temos nada a ganhar em abri-lo novamente.
Peça qualquer coisa, isso não.
Que pena.
Quer ver como saiu a gravação ?
Que gravação ?
Montalbano, está a brincar. É do seu próprio interesse.
Vê isto ?
Vê isto ?
Se mostrar esta gravação, pode começar a vender na rua.
Se me disser onde está a Karima, destruo a gravação, prometo.
Não tem escolha.
Percebeu ?
Percebeu ?
- "Estou ?" - Nicolò, é o Montalbano.
- "E quem mais poderia ser ?" - Desculpa.
A câmara que me emprestaste ?
- "Sim. Partiste-a ?" - Bem, não !
Queria umas informações.
Para gravar, a alavanca deve ser puxada para cima ou para baixo ?
- Para baixo, não é ? - "Para cima."
Pois, isso. Obrigado, Nicolò.
O que fizeste, Montalbano ?!
"Rete Libera a relatar do campo de Sommatino.
"Esta manhã, num telefonema anónimo,
"foi encontrado neste bebedouro abandonado atrás de mim,
"como acontece muito na bonita terra da Sicília,
"o corpo de uma jovem em estado de decomposição.
"Fechado num saco.
"Uma mala ao lado do corpo permitiu a identificação.
"Uma cidadã tunisina, de 34 anos, que morava em Vigata,
"Karima Moussa.
"Os telespetadores lembrar-se-ão do seu desaparecimento,
"juntamente com o seu filho de 5 anos, François.
"Infelizmente ou felizmente, ainda não foi encontrado.
"Rete Libera, Nicola Zito."
'Querida Lívia, sei que esta carta vai surpreender-te por duas razões.
'A primeira é que só te envio cartões postais ou telefono.
'A segunda, pela qual também ficarás contente,
'é o seu conteúdo.
'Trata-se de François.
'Não voltámos a falar dele desde a tua última noite aqui,
'quando me deste a entender que poderia tornar-se nosso filho.
'Lembras-te quando ele fugiu ?
'Ele disse-me que não queria acabar num orfanato.
'Eu prometi-lhe que nunca ia acontecer.
'Anteontem fui visitá-lo. O Mimi levou-me.
'Escreve-lhe a agradecer pela sua generosa amizade.
'François abraçou-me forte. Os olhos brilhantes, não chorou.
'Acho que não chora facilmente.
'Não me fez a pergunta que receava sobre Karima, a mãe dele.
'Em vez disso disse, em voz baixa:
'"Leva-me para a Lívia".
'Estou a ficar patético, vou mudar já de registo.
'Pela lei, François não existe,
'porque o seu nascimento não consta nem na Tunísia nem na Sicília.
'O juiz de Menores em Montelusa explicou
'que a adoção por uma mulher não casada, é quase impossível.
'Segundo ele, para acelerar as coisas, deveríamos casar.
'Por isso, prepara todos os papéis.
'Abraço-te e beijo-te.
'Salvo.'
Adaptação e Legendagem RTP - Conteúdos Adaptados
Can't find what you're looking for?
Get subtitles in any language from opensubtitles.com, and translate them here.