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Original subtitles

DEDICADO A ALE COHN

VIGIL�NCIA CUIDADO COM O C�O

�REA VIGIADA

SORRIA, ESTAMOS FILMANDO

PROTEGIDA POR JESUS

VIGIL�NCIA DUPLA

VIZINHAN�A EM ALERTA

Ei! Ei!

Ei! Ei!

Ei!

LIVRO PARA COLORIR COM ADESIVOS

"Clube del Moro", na 100, a r�dio n�mero um da Argentina.

R�DIO CL�SSICA

AL�

O d�lar come�ou o dia...

Quero transar com voc� A noite toda

Quero que me beije A noite toda, no carro

No carro

Vamos mudar o cen�rio

Vamos para outro lugar

Suados Por caminhos inexplorados

Vidros emba�ados

Meio esfuma�ados

Viajando pelo seu corpo No grau, meio que voando

S� voc� e eu

Sozinhos na estrada

Vem, gatinha Se solta, sai do s�rio

Voc� fica t�o louca Tira toda a sua roupa

Parados na beira da estrada Voc� jogando comigo

Quero te ter a noite toda

Quero te pegar a noite toda No carro

No carro

Quero transar com voc� A noite toda

Quero que me beije A noite toda, no carro

No carro

Vidros emba�ados

Bancos reclinados

Quem v� sente at� inveja S�o recalcados

Eu n�o me importo Se o carro balan�ar

Porque somos dois le�es Se pegando na neblina

Vidros emba�ados Meio esfuma�ados

Viajando pelo seu corpo No grau, meio que voando

Voc� fica t�o louca Tira toda a sua roupa

Parados na beira da estrada Voc� jogando comigo

Quero te ter a noite toda

Quero te pegar a noite toda No carro

No carro

Quero te ter a noite toda

Quero que me beije a noite toda No carro

No carro

CHAMADA DE "EU" ATENDER, RECUSAR

Al�?

Al�?

Bom-dia. Bem-vindo a bordo.

Prazer. Eu sou o Dr. Enrique Ferrari.

Quique, como meus pacientes me chamam.

Voc� est� a�? Al�?

Ol�.

Muito bem. Eu sou o dono do carro.

J� fui roubado 28 vezes.

Parece mentira. Mas se contar, foram 28 vezes.

- Com voc�, 29. - Deixe-me sair!

Deixe-me falar. Teremos tempo para conversar.

Voc� est� dentro do meu 4x4.

Ele tem um alarme conectado ao meu celular

e posso trancar todas as portas remotamente.

Ele � todo blindado.

Ele n�o sai do lugar. A suspens�o � travada.

� � prova de som.

Vidros blindados e filmados. Inclusive do para-brisa dianteiro.

S� o que n�o � blindado � o tanque de nafta.

Cabe 120 litros e est� cheio.

Pode virar uma bomba.

Caso decida meter o louco.

Sabe o que acontece?

Sou vi�vo. Nasci em Quilmes h� 60 anos.

Tive uma inf�ncia normal, como todo moleque de classe m�dia, na �poca.

As portas das casas ficavam destrancadas.

Estamos t�o mal

que sentimos falta da vida de meio s�culo atr�s.

O que voc� faria, se pegasse seu filho roubando?

N�o sei.

Resposta errada.

Estou com sede. Ouviu?

Al�!

Vou denunci�-lo, desgra�ado.

Estou morrendo de calor aqui. Eu quero �gua!

Quando eu sair daqui eu vou te matar, desgra�ado!

Eu vou matar voc�! Voc� e toda a sua fam�lia!

Tire-me daqui!

M�NIMO

CHAMADA DE "EU" ATENDER, RECUSAR

Vamos tentar de novo.

O que voc� faria, se pegasse seu filho roubando?

Estou com sede. Deixe-me sair, filho da puta.

Se acertar a resposta, eu te dou �gua.

O que voc� faria, se pegasse seu filho roubando?

Eu puxaria a orelha dele e o levaria at� a pol�cia.

Quem?

- � pol�cia. - N�o. Errou.

N�o � pol�cia, juiz, professor, nem advogado.

� o seu filho. Voc� tem que dar o exemplo.

J� chega. Eu entendi.

Sabe de uma coisa? Escuta.

Em dezembro, dois caras invadiram a casa da minha filha

enquanto ela estacionava o carro.

Ela sabe, porque eu a ensinei a n�o fazer contato visual,

a entregar o dinheiro guardado para esses casos...

Mas n�o foi o suficiente.

Eles roubaram at� a escova de dentes dela.

Pare, por favor. Eu quero sair.

Eles pegaram meu neto e puseram uma arma na cabe�a dele.

Cinco anos de idade. Entendeu?

Tr�s horas com a arma apontada pra ele.

Depois disso, eles venderam a casa e foram morar em Barcelona.

Estou morrendo de sede.

Que tipo de m�dico voc� �?

Boa pergunta! Adivinhe.

Que tipo de m�dico eu sou? Vai, tente adivinhar.

N�o sei. Deixe-me sair.

Eu n�o sou cardiologista. Nem cl�nico, nem cirurgi�o.

Vamos, arrisque. N�o sobraram tantos assim.

Pare de encher meu saco.

Vou te dar uma dica. Eu trabalho onde os outros brincam.

�gua!

Ei! Ei!

Ei!

Ei! Ei!

Ei!

Ei!

Ei...

Ei!

Ei!

Amigo!

Ei!

MULTA POR PARA-BRISAS FILMADOS

Seu RG, por favor.

- �gua. - Passa o RG, cara.

Estou com sede.

Me d� seu nome, sobrenome e identidade...

E eu te darei �gua.

Ciro.

Ciro Berm�dez.

36, 87...

9027.

Zero, dois, sete. �timo.

Se quiser �gua, tem uma mangueirinha a�.

VIZINHAN�A EM ALERTA

Vizinhan�a em alerta.

E da�?

Eles usam isso nos carros, nas casas...

Nos com�rcios.

N�o serve pra nada.

Agora mesmo deve ter um monte de alarme disparando por a�.

Um monte.

Tipo, um show.

Estou machucado e com febre.

- O que eu fa�o? - � uma consulta?

Sim.

Bem...

Claro que vai depender do estado geral da pessoa.

Mas machucado e com febre, as coisas mudam.

O tempo urge. O que aconteceu?

Fui baleado na perna.

Nossa! E como foi?

Eu atirei em mim mesmo, sem querer.

E ainda est� sangrando?

N�o. N�o muito.

Qual � a cor da pele ao redor da ferida?

- Amarela. - E est� quente?

Sim, sim.

N�o parece nada bom.

Vou ligar o aquecedor.

Se estiver com febre, voc� vai sentir frio.

N�o, n�o.

Hoje eu acordei cedo.

Sa� �s 7h pra correr, tomei caf� da manh�,

fui ao laborat�rio buscar os exames da semana passada...

E � isso. A mancha se espalhou.

Estou todo invadido por dentro.

N�o tem problema.

Com otimismo, me resta pouco mais de um ano de vida.

N�o � t�o ruim.

Muita coisa pode acontecer em um ano, sabe?

Se organizar direitinho, d� pra mudar o mundo.

Ou um pedacinho do mundo, o que tiver mais � m�o.

Eu estava lembrando de datas e lugares.

Coisas que aconteceram comigo nos �ltimos anos.

E anotei.

Escute.

Em agosto de 1998, eu fui jantar com uns amigos.

Na sa�da, vi que roubaram duas rodas do carro, um Peugeot 205.

Em janeiro de 2001, entraram no meu quintal

e roubaram os m�veis do jardim, coisas da piscina

e a carne pro churrasco.

Em mar�o de 2006, um assalto � m�o armada

no Restaurante La Taba, de Vicente L�pez.

Roubaram todas as mesas, e um velho tomou uma coronhada.

Em abril de 2008, invadiram o carro da minha esposa

em um sem�foro em San Miguel e fizeram compras com o cart�o dela.

Eles escolhiam e ela pagava.

"Tia, quero uma TV nova. Tia, eu quero um Samsung."

Em outubro de 2009, eu fui a River.

Um flanelinha arranhou meu carro porque n�o paguei 700 pesos antes.

Em agosto de 2011, entraram na casa dos meus pais

quando meu pai estacionava o carro.

Minha m�e estava na rua, abrindo o port�o. Eles j� eram velhos.

N�o tinha ningu�m armado, mas bateram muito neles.

Vou desligar. � uma emerg�ncia. Depois, a gente continua.

Filho da puta!

N�o volte aqui! V� � puta que te pariu!

Voc� vai ver s�!

Se voltar aqui, n�s vamos te matar!

Eles s�o in�teis. � sempre a mesma coisa!

Eles n�o fazem nada. Eu j� cansei!

Esse bairro n�o presta.

Sapr�trofos.

Biologia do colegial.

Eu reprovei.

S�o uns bichos escrotos que comem as sobras dos outros...

E mant�m o equil�brio da natureza.

Tem muita gente por a� com muita coisa sobrando.

E essas coisas precisam ser distribu�das,

para todo mundo aproveitar.

Este lugar est� cheio de pessoas pobres...

Com leis feitas pelos ricos, para os ricos

e que eu n�o vou cumprir, nem que eu tome um tiro.

Sim. Ladr�o.

Igual ao meu pai, igual ao meu av�.

FILHO DA PUTA

Eu fa�o o que voc� mandar.

O que voc� quiser. Juro que vou me comportar.

Eu quero ir para casa.

N�o se preocupe. Voc� n�o est� perdendo nada.

Estou tomando caf� da manh� e lendo o Clar�n.

"Coreia do Norte realiza um novo teste nuclear."

Aquele gordo � doido.

"Del Potro entre os dez maiores tenistas da hist�ria."

Olha s�! Ele � um monstro.

"Mate engorda?

Quinze mitos e verdades sobre nossa bebida nacional."

"Portenhos. Entre os mais infi�is do mundo."

Bem... Eu acordei de bom humor hoje.

Ent�o, voc� tem sorte. Tem um alfajor atr�s do freio.

Espere. Est�o me ligando no outro celular.

Al�?

Seja breve. Estou em outra liga��o.

Sim, precisa vir aqui. Mas o que aconteceu?

A bolsa dela rompeu? Ela fez algum esfor�o?

Diga que ela precisa ir ao PS e falar que � minha paciente.

Sim, nos vemos daqui a pouco.

Desculpe. Era a minha secret�ria.

�gua.

�gua.

E um baseado.

Tem uma mo�a vindo com um cachorro.

Esse cachorro vale mais de mil d�lares.

Pontualmente.

Primeiro a esposa sai, e fica de vigia mais adiante.

O cara abre o port�o e sai com o carro.

Enquanto ela vigia na cal�ada.

Ele deixa a mangueira para travar a porta.

Que f�cil.

Eu ataco, enquanto ele reza pra eu n�o achar todo o dinheiro.

Ot�rio.

Aqueles moleques s� carregam um celular na mochila.

O velho engata a primeira e sai.

Depois, olha pelo retrovisor a esposa entrando em casa

e vai embora.

Mendigo filho da puta. Ontem foram duas ma��s podres.

Hoje ele vai comer pizza.

Ei!

Ei!

Aqui! Aqui dentro!

Socorro!

Ei!

Ei...

Ei!

Ciro?

Tenho not�cias de Irina e Lionel.

- O qu�? - Foi o que voc� ouviu.

Como sabe os nomes deles, filho da puta?

- Nem pense em fazer nada com eles. - N�o se preocupe.

Est� tudo bem. Eu n�o fiz nada.

Pelo contr�rio. N�s conversamos e expliquei tudo para eles.

Que eu era da lot�rica, que Ciro Berm�dez tinha apostado

e que eles podiam retirar os 100 mil d�lares na hora, em dinheiro.

Voc� foi � minha casa?

Sim.

Calle 106, Torre 3, apartamento 10-E, San Benito.

E, claro, a Irina aceitou o dinheiro que eu levei.

Cheguei a sugerir que ela n�o vivesse mais de aluguel.

Que comprasse um im�vel

e usasse o restante pra dar uma boa educa��o � crian�a.

Ela � uma garota jovem e bonita.

E sempre ter� a chance de refazer sua vida.

Eu n�o fiz nada com voc�, filho da puta.

Voc� fez muito pouco para ter uma fam�lia t�o linda.

Voc� n�o merece, sabe?

E eu puxei sua ficha.

Interessante.

Voc� j� matou algu�m?

Assim... O que voc� sentiu?

N�o. N�o.

Eu n�o matei ningu�m.

Dizem que a primeira morte � horr�vel, mas as outras...

Depois da primeira, as pr�ximas voc� nem sente.

Eu n�o matei ningu�m. Voc� enlouqueceu?

Voc� n�o matou ningu�m?

E os irm�os Salerno, daquela oficina de Barracas?

Lembra?

Voc� entrou para roubar, e como o cara resistiu...

Voc� atirou nele.

O cara puxou uma faca.

Te�filo Mendoza, motorista de �nibus, 64 anos.

Voc� o agrediu para assaltar os passageiros.

Ele estava a dois dias de se aposentar.

- O velho reagiu. - Pois �!

Villa Ballester, assalto � m�o armada.

Cristina Beruti.

Voc� e outro roubam o carro e a carteira dela.

E perto dali, atropelam Mercedes Torres, que morre no local.

Voc� j� passou por uma casa para menores...

Seu curr�culo � extenso.

Eu errei. E paguei.

O que mais voc� quer?

Nada.

Voc� � o escolhido.

Voc� est� condenado.

Como eu.

- Oi, aqui � a Irina... - E o Lionel.

Esta � a "bat-caixa postal". Deixe seu recado ap�s o "bat-sinal".

Irina...

Eu fiz merda de novo.

Lio...

� o papai.

Isso.

Pode sair.

Boa sorte.

LIGAR OU DESLIGAR MOTOR

C�mbio de merda!

Caralho!

Senhor?

Precisa pagar pela comida e sair.

Vagabundo de merda. N�o ouviu o que eu disse?

O que foi? N�o sabe falar?

Por favor.

Quero ver meu filho.

Imposs�vel. N�o mesmo.

Se eu n�o conseguir sair, eu me mato.

E acabo logo com isso.

Um...

Dois...

E a�? O que aconteceu?

Ol�?

A bala ficou presa?

Domingo � ruim pra tudo. At� para se matar.

O que fazemos aos domingos? Lavamos o carro...

Comemoramos os gols.

Comemos o dia todo esperando a segunda-feira.

Olhe para mim.

Olhe para mim.

Olhe para mim.

Olhe, eu estou na sua frente.

Luz, c�mera, a��o!

Consegue me ver?

Sim.

Finalmente nos conhecemos.

Eu sa� do hospital s� pra lhe cumprimentar.

Muito prazer. Sou o Enrique.

Surpresa.

Eu trouxe o que voc� pediu.

Seu �ltimo desejo.

Um baseadinho.

Eu comprei pra voc�. Eu n�o fumo.

Tome.

Vai. Fuma.

Isso.

Para mim, eu trouxe...

Amendoim com chocolate.

Eu adoro.

E a ferida?

Vamos ver.

Tire a m�o da�.

Precisa drenar. N�o grite.

N�o grite.

Precisa drenar.

- D�i? - Sim.

- D�i muito? - Muito. Muito.

- De um a dez, quanto? - Dez!

Vai melhorar.

Mas tanto faz.

- Doutor... - Margarita. Est� tudo bem?

Sim, eu posso ajudar. Estou na Rep�blica Dominicana.

A beb� j� vai nascer?

- E a frequ�ncia das contra��es? - Dois minutos.

Prepare a bolsa, chame o marido e v�o devagar para o hospital.

O Dr. Ernesto Flores atender� voc�s.

Ele sempre atende o pessoal quando eu n�o estou l�.

Anote o n�mero. 15-3-176-5432.

E como eu digo,

na barriga de uma m�e gr�vida h� sempre um tesouro.

N�o!

Socorro.

Socorro.

Socorro.

Socorro.

Vem aqui, desgra�ado.

Solte-me, filho da puta.

- Volte aqui. - Solte-me, filho da puta!

N�o, pro carro, n�o.

- Pro carro, n�o. - Vai voltar, sim.

Socorro!

- Me ajuda! - Parado a�! Pol�cia!

- Me ajuda! - Largue a arma!

Socorro, esse cara � louco. Ele me trancou no carro.

Socorro!

Calma. Vamos resolver isso entre homens, n�s dois.

Vamos tomar um caf� e conversar. Voc� n�o tem nada a ver.

Nem voc�, nem a pol�cia, nem ningu�m.

- Ent�o, pode ir embora. - Socorro.

Vai arriscar a sua vida por um salariozinho? Parab�ns!

Mas n�o � o que voc� pensa. Voc� est� enganada.

Esta arma � dele. Ele queria roubar meu carro.

Ele atirou em mim, olha. E voc� est� apontando pra mim.

Chega! Largue a arma!

Ap�s duas horas de tens�o, a situa��o continua a mesma.

Agora, eu pergunto a voc�s, que est�o do outro lado,

que est�o a� no est�dio...

O que acontece com a nossa sociedade?

At� onde esses infratores n�o s�o as v�timas?

J� pararam pra pensar na educa��o eles recebem?

Que oportunidades eles j� tiveram na vida?

Ele � o ladr�o. Eu sou a v�tima!

Isso � fazer justi�a com as pr�prias m�os.

- Isso mexe muito conosco e... - � culpa dos Direitos Humanos.

O promotor pediu para voc� se acalmar

- e nos dizer o que voc� quer. - Eu n�o quero nada!

Voc�s a�, me falem. Quero saber.

O que eu fa�o? Mato ou o entrego � pol�cia?

Pra ele sair amanh� mesmo.

Farei o que voc�s escolherem. Mas ser� culpa de todo mundo.

- Mate-o! - Sem hipocrisia. De cora��o.

Mesmo que fiquemos mal. Quero a verdade. A verdade!

- Precisamos do Amadeo, o negociador. - Ele est� aposentado. N�o d�.

- Ligue para ele. - No Twitter, em tudo!

Senhora, por favor.

Policial, eu trouxe comida para o homem e para o ladr�o.

Senhora! Senhora, por favor!

Estou com fome.

Oi.

- E a�? Como vai? - Como vai?

- Tudo bem. - Obrigado por vir.

N�o, por favor. Eu n�o tinha nada pra fazer.

Eu estava vendo pela TV.

- Quer um colete? - N�o, obrigado.

- E? - Venha comigo.

Boa noite.

Ol�, doutor.

E a�, rapaz?

Vou me apresentar.

Sou Julio Amadeo, mediador da pol�cia da cidade.

Estou aqui para ver se...

Se eu posso ajudar.

Doutor, tem algo que eu possa fazer por voc�?

Sim. Tem algo, sim.

� sobre os coc�s de cachorro.

Eu saio do meu consult�rio na Rep�blica �rabe S�ria,

ando dez quarteir�es at� o parque de Palermo...

S�o dez pr�dios por quarteir�o. Cem edif�cios.

E dez c�es por pr�dio.

S�o mil cachorros.

Cada um faz dois coc�s por dia.

S�o dois mil toletes, Julio. Dos quais me esquivo diariamente.

Porque os donos...

Eles levam o saquinho, mas se n�o vigiar, n�o fazem nada.

Com licen�a, Enrique.

Largue a arma e entregue para o rapaz.

Voc� e eu sabemos que ele n�o tem nada a ver com isso.

O problema � outro.

O problema � saber sobre o que � justo ou n�o.

E � isso que estou fazendo.

Estou cansado de ouvir:

"Voc� teve azar. Ainda bem que eles n�o estavam drogados.

- Eles foram legais com voc�." - S�o pretos filhos da puta!

- Eles n�o s�o daqui... - Sil�ncio! Sil�ncio!

Esse desgra�ado vai pagar!

Doutor?

Pe�o que pense um pouco agora.

Voc� est� com raiva.

Mas n�o � do rapaz. N�o tem a ver com ele.

Voc� est� com raiva do mundo.

E eu entendo. N�o � s� voc�.

Estamos todos com raiva, com muita raiva.

N�o importa. Pelo menos, eu agi.

Sen�o, o que resta? Morar em outro pa�s?

Olhe. Olhe essas pessoas.

Olha que espet�culo, Julio!

Ele j� aprendeu.

- Solte-o. - N�o.

Pra qu�? Pra justi�a resolver?

Filhos da puta! Eles entram por uma porta e saem por outra!

Eu creio na minha justi�a, e ponto final.

Eu cacei o cara. � meu!

Eu tamb�m estou com raiva!

Mas sabe o que difere a sua raiva da minha?

� que eu sei que isso n�o vai adiantar!

Esse bairro est� dominado. Somos roubados todos os dias!

Vamos ver. Quem j� foi roubado aqui?

Levantem as m�os. Quem tem cerca em casa?

Quem tem alarme?

Quem tem medo de levar as crian�as pra escola,

e vigia os port�es antes de entrar?

Ele n�o tem nada a perder.

Por isso, na cabe�a dele, ele sempre vai ganhar.

� um samurai desgra�ado.

Palmas para a pol�cia que veio hoje! Muito bem!

Vou ter que arrastar. Pra ver se ele se cansa.

Doutor...

Deixe-me levar um pouco de �gua pra voc�s.

Seguran�a! Seguran�a!

Pronto.

Seguran�a! Seguran�a!

- N�o, n�o. - Preto maldito!

Ela... � minha amiga.

Vai.

Largue a arma.

Vai.

- Taboada, Taboada... - Positivo.

Vai com a Tapia.

Agora ficou bem mais tenso. O sujeito est� armado.

Esperem. Esperem um pouco.

Obrigado, minha filha.

O momento � tenso. Ele est� armado.

�gua. Ele pediu �gua. Mas n�o era pra ele.

A situa��o ainda � tensa...

- Me d�. - Doutor...

Pense um pouco.

Voc� � um homem formado.

Olha, eu vou te contar uma hist�ria.

A hist�ria de um menino que mora com o irm�o mais novo,

com a m�e dele, uma dona de casa,

e o pai, que trabalha num frigor�fico.

Uma fam�lia normal, digamos.

Um dia, o homem sai de casa para trabalhar

e nunca mais volta.

Foram alguns meses dif�ceis para a fam�lia sem o pai, mas...

Bem, o tempo foi curando.

Os meninos continuaram com seus amigos, estudando.

A mulher encontrou um homem, um dentista vi�vo do bairro.

E voc� vai me perguntar o que quero dizer com isso.

Quero dizer que, seja como for, n�o importa o que voc� fa�a,

o mundo continua girando.

Anos se passaram, e o menino virou um rapaz. Ele tinha 20 anos.

E um dia, pela janela de sua casa, ele v� um cara maltrapilho,

um homem carente na chuva, na rua, olhando para ele,

mas ele n�o d� import�ncia.

Dias depois, ele sai de casa para ir � escola

e v� um movimento na rua, algu�m deitado no ch�o.

O cara estava morto. Tinha sido atropelado.

Era o mesmo sem-teto que, dias antes, estava de olho nele.

E ele o reconhece.

O sem-teto era o pai dele.

E o garoto...

Era eu.

Olhe, doutor, serei franco.

Olhe nos meus olhos.

Esses olhos j� viram de tudo.

Eu n�o tenho esposa. Ela j� faleceu.

N�o t�nhamos filhos. N�o pod�amos, sei l�.

E tenho poucos amigos.

Meu melhor amigo era o Coquito, um gato que morreu de velhice.

Eu n�o tenho poupan�a, nem nada. Vivo da aposentadoria da pol�cia.

E eu lhe asseguro que n�o quero ter mais nada.

N�o tenho nada a perder.

Menos do que voc�.

Sabe a �nica coisa que eu tenho?

Tr�s cervejas na geladeira.

- N�o relaxe, doutor! - Solte o rapaz. Ele j� aprendeu.

E largue a arma.

E quando tudo isso passar,

passe l� em casa pra tomarmos uma cerveja,

comer pizza e conversarmos em paz.

Vai, vai. Solte-o.

Mate-o!

- O que foi? - E se eu n�o quiser?

Voc� sabe bem o que acontece.

- Eu o mato e eles me matam? - Mate-o. Atire nele.

Anda! Vai ser bom pra ele. Ele n�o sentir� mais nada!

Mas olha, o peso dessa morte � voc� quem vai carregar.

Largue a arma. Poderia ser o seu filho.

- Filha! Eu tenho uma filha. - Certo. A sua filha.

- Ela n�o mataria ningu�m. - Certo.

Mas seria filha de um homem que, h� cinco horas, amea�a matar um rapaz.

E a�? Vai mat�-lo aqui, na frente das c�meras?

Na frente das c�meras? S�rio?

Eu trouxe muitos beb�s ao mundo!

- Mate-o! Um a menos! - Ele precisa pagar!

- Cadeia nele! - Queremos seguran�a!

Solte-o, seu louco!

- Tem que matar todos eles! - Ele tamb�m � gente!

Vamos acabar com todos eles!

O que voc� �, afinal? Um assassino qualquer?

- Mate-o! - Ele tamb�m � gente!

- Solte o rapaz! - Ele � um ser humano!

Vamos. Vamos!

- Obrigado. - Pegue-o! Pegue-o!

Parado! N�o se mexa!

Abaixe a arma, por favor.

Parado! Parado! Anda, encoste a� no carro!

Pegamos o rapaz. Estejam preparados.

J� chega, Enrique.

Certo. Tudo pronto aqui.

Por favor.

J� estamos preparados.

No aguardo.

Vamos, vamos!

N�o, pra tr�s! Pra tr�s!

Pra tr�s! Depressa!

Caralho! Que merda!

Anda, anda! Sai da�!

Saiam da�! Anda, anda!

Nesse momento, o bairro todo est� em choque.

Os vizinhos aguardam, ap�s horas de bloqueios policiais...

E o pa�s est� chocado com o caso de Enrique Ferrari, o obstetra.

O caso teve um final tr�gico e surpreendente, como todos sabem.

E que se soma a outros casos de justi�a com as pr�prias m�os.

Na ocasi�o, Enrique Ferrari,

ou "o m�dico samurai", como a imprensa noticiou,

extrapolou todos os limites, e virou um caso priorit�rio

que abriu um novo debate sobre o que mais preocupa os argentinos:

a inseguran�a.

Ciro Berm�dez, o ladr�o que ficou preso na SUV,

pode ser solto nas pr�ximas horas.

Os restos daquela noite de f�ria ainda est�o pelo bairro.

A 4x4 estava parada perto de um im�vel vazio.

Era uma gaiola com rodas, uma ratoeira mesmo.

Os colegas e amigos dizem que o obstetra

era um m�dico muito amado e respeitado na cl�nica San Giuliano.

N�s fomos � rua para saber a opini�o das pessoas.

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