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Original subtitles

É só agarrá-lo com a mão e segurá-lo bem, para não lhe escorregar.

Acho que não quero fazer isto.

Tem de fazer ou continuará tudo na mesma.

Só que não consigo.

Consegue. Não tem ciência nenhuma.

Quer que ponha as mãos na massa?

Bem pode dizê-lo.

Que vou dizer na confissão?

Já ouviu falar no orgasmo grego?

Tem a ver com a libertação da ira.

- Não sei se consigo dar conta do recado. - Consegue, sim.

É só deixar que o seu corpo cumpra a sua função.

- Já fez isto antes? - Não. Vai ser a minha primeira vez.

Para mim, também.

A primeira vez custa sempre.

Calma.

Coragem.

Sua puta!

- Nome? - Michalina.

- Apelido? - Wislocka.

- Local de trabalho? - Clínica de Planeamento Familiar.

Profissão?

Médica.

- Que tipo de médica? - De senhoras.

Costuma desancar homens desta maneira?

- Só quando batem nas minhas pacientes. - Então, ele caiu das escadas?

Já chega.

Lembre-se que fez isto por amor.

Com que lida exatamente nessa clínica, cidadã?

Com o amor, senhora agente.

Com o amor.

Ouve.

Tens alguma fantasia sexual?

Que queres dizer?

Há algo que gostasses de fazer comigo ou com outra mulher?

Com outra mulher?

Talvez sonhes com algo e tenhas vergonha de dizer.

Acabámos de o fazer.

Certo.

Adeus.

Vês, Boruta? Nunca vamos descobrir.

Todos sonhamos em desempenhar um grande papel na vida.

Com uma plateia cheia de admiração.

Contudo, a plateia que nos pode dar a sensação de segurança e apreço

só pode ser constituída por um ser humano amoroso

que caminhe ao nosso lado...

“Vulva”, não. Evoca tristeza e vergonha.

VARSÓVIA, 1972

“Pipi”, não. Não é nenhuma miúda.

- “Vagina”? - Demasiado anatómico.

- “Pito”. - Quê?

“Pito”.

Surpreende-me. Não é um nome masculino?

Por isso é que tem de publicar o livro.

Obrigada.

Na nossa editora, andam todas a disputar o seu manuscrito.

Eu própria já o li várias vezes. Estive três noites sem dormir.

Acho que os convenci. A editora é favorável. É capaz de resultar.

- Que idade tem, querida? - Vinte e cinco.

Então, começa a querer ramboia.

Não bebo assim tanto, doutora.

Refiro-me à sua vida íntima. Já teve algum orgasmo?

Há de ter. Não tenha pressa.

Como vamos trabalhar juntas, pode chamar-me Mishka.

- Tereska. - E este é o Boruta.

Vou lutar por esse livro o mais que puder, doutora.

Mas não vai ser fácil. Tem inimigos.

Eu? Inimigos? Nunca ouvi tal coisa.

O Departamento de Cultura recebeu

dez críticas ao livro de peritos reputados.

São todas negativas.

Uma objeção recorrente envolve

“o conteúdo sexual chocante e a linguagem não académica”.

Senhor, é um livro informativo que lida com problemas sexuais dos casais.

Como pode ser chocante?

Então, quer promover isso?

Não. Quero consciencializar as pessoas disso.

Socialismo é iluminismo, não é?

Claro.

Mas isto é uma imundice obscena.

Não gosta de sexo?

Calma. Todos o praticam.

Mas porquê falar dele?

Porque o praticam mal.

Acho que não estou a perceber bem.

Eu explico-lhe.

A mulher também pode tirar prazer do sexo.

Ele pode ser mais que uma obrigação marital.

Não estará a ir demasiado longe?

Diga-me sinceramente: havia alguma mulher entre os críticos?

- Não. - Eles estão com medo.

Os livros sobre sexo têm sido escritos por homens.

A força do Sztuka kochania é o género da autora.

- Então, é você a força do livro? - Sim.

- Sabe porquê? - Não.

Porque vejo a miséria das mulheres polacas todos os dias.

Porque estou a gastar o meu latim? Vocês sabem o que faço.

Bem, sim.

Sabemos alguma coisa.

Fez parte de um triângulo amoroso.

- Que importa isso? - Então e a ética da autora?

É algum padre?

Estamos a falar da vida sexual de 30 milhões de polacos.

É importante, até na vida dos homens socialistas.

- Mas falar nos problemas... - Do sexo.

... do sexo, obrigado, causa ruturas familiares.

Não. Não está a perceber.

Mantém as famílias unidas.

Não me lembro de nunca ninguém ter levantado o problema

de carências nacionais nesta área em nenhum nível da administração.

Não faz ideia das operações que já fiz na sequência de abortos ilegais.

É um esqueleto no armário.

Certo. Depois informamos a gerência da editora da nossa decisão.

Adeus.

De onde veio?

- Que quer dizer? - De onde veio?

Não estou a perceber. Nasci em Varsóvia.

Veio de uma vagina.

E você também não veio do ar.

Viu isto?

Fiquei todo a suar.

Ela é completamente passada.

Não quero uma guerra com a Igreja.

Não gosta de sexo?

Precisamente. Vete-o.

- Um triângulo amoroso? - Um dia, conto-lhe.

- Disse algo errado outra vez? - De todo.

Doutora?

Doutora?

Doutora?

- Conseguimos, doutora. - Aprovaram-no?

Quê? Não, sou eu. Lembra-se de mim? Fui sua paciente.

Tinha problemas com o meu marido. Recomendou que me fantasiasse.

- Eu lembro-me. E que tal? - É simplesmente maravilhoso.

É a maior. Agora, dá-me tanto prazer.

O meu homem toca-me como se eu fosse um tambor africano.

- Muito bem. - Nem sei como agradecer.

- Ora essa, querida. Boa sorte. - Obrigada.

Após anos de casamento, há que apimentar as coisas.

Certo.

- Ora, ora. - É ele.

É muito bonito.

É um génio. Um biólogo.

- É demasiado velho para ti. - Nada disso.

Seremos como Pierre e Marie Curie.

Bem sabes quanto as miúdas gostam dele.

Idiotas.

Não percebem nada de biologia.

- Está cheio de musgo. - Não deixes que a tua crie musgo.

Wanda!

Está um bocado parado.

Raios me partam! Afogou-se.

Não é falta de educação espiar assim?

Este é o Staszek. A minha cara fica mais acima.

- Eu sou o Stach. Olá. - Michalina.

- Eu sou a Wanda. - É uma amiga minha.

Nem uma palavra.

- Que se passa aqui? - Que é que lhes deu, rapazes?

Não assustem a minha mulher.

Tudo bem. Os soldados também precisam de uma pausa.

Saltem para a água. Ninguém vos verá aqui.

- Não diga a ninguém. - Não digo.

VARSÓVIA, 1941

Espera.

Espera, Stas.

Mishka!

Raios!

- Ao menos, podias fingir gostar. - Combinámos que não mentíamos.

Tu não me amas.

Amo, mas nunca mais para de doer.

Mas sabes o quanto preciso disto.

Podias, pelo menos...

Se tivesses sido mais meigo à primeira, talvez agora não doesse tanto.

Diz-me:

és uma alma com um corpo ou um corpo com uma alma?

Que achas?

Claro que sou um corpo com...

... uma mente.

Eu sou uma alma e não preciso de um corpo.

A alma consegue viver sem o corpo.

- Após a morte. - Temos de ir andando.

- A sério? - Queres comer?

Próximo.

Alimentar pulgas é como jogar à roleta russa.

A hipótese de sermos infetados é de uma em seis.

Interessante.

Próximo, por favor.

- Está mesmo calor. - Sim.

Tem de estar atenta às horas,

pois as pulgas nunca sabem quando parar de se alimentar.

Continuam a comer até rebentar.

As suas estão magras. Ainda agora começaram.

Estou a tentar imaginar que estou noutro lado.

Então, desculpe.

- Então? Estás bem? - Não. Sinto-me como se estivesse bêbeda.

Também estou esquisito. Começa a afetar-nos.

Duas mulheres vivem com um académico que adoram.

- Também é biólogo? - Algo assim.

Tem uma ligação espiritual com uma e dorme com a outra.

É isso que queres?

Tive tantas saudades dela.

Vais vê-la amanhã.

Não me lembro da última vez que a vi.

Porque precisas da Wanda? Tens-me a mim.

Somos como irmãs, lembras-te?

Queres que seja o vosso académico?

Stas!

Stas! Deixa-me ler!

Saia!

- Que é isto? - Mexa-se!

- Sou alemão! É a minha mulher! - Rua!

Saia.

- Têm de sair todos até à noite. - Sim, senhor.

Que disse ele?

Que tiram toda a gente daqui até à noite.

- Venha comigo. - Cale-se, sua rameira.

Eu vou sozinha.

Não pedi nenhuma rameira.

Estão cá duas pessoas por pura coincidência.

Ele é alemão e ela é mulher dele.

Não deviam estar aqui.

É bonita.

Pode ver mais coisas bonitas.

É simpático querer salvar os seus amigos.

“Deixo-lhe o meu amigo como garantia. Pode matá-lo, se eu fugir.”

Sim.

- Schiller. Gosta de Schiller? - Sim.

É o meu poeta favorito.

Infelizmente...

... veio bater à porta errada.

Rameira!

Não sou desses.

- Saia. - Enganou-se na morada.

Eu sabia que o maricas não ia gostar.

Venha.

Levantem-se! Depressa! Rua!

Despachem-se!

- Rua! - Rua!

- Saiam! Mexam-se! Rua! - Eu vou sozinho.

- Todos! Saiam! - Calma, por favor.

- Entrem! Despachem-se! - Subam.

Esperem!

Esperem, por favor!

Isto é para si.

Eu e a minha mulher.

- Sim, está aí. - Espere!

- Façam favor. - Obrigado.

- Bom dia, doutora. - Bom dia.

Preciso ver a Dra. Wislocka.

Credo! Só tenho duas mãos.

Sente-se e espere.

Está bem. Obrigada.

- Doutora? - Que é? Agora, não.

Dê-me um segundo.

Quando pode ver-nos, doutora?

Calma, minhas senhoras. Vou ver-vos a todas. Calma.

Só um momento.

Conheço-o. Veio cá com a mulher na semana passada.

Ela é virgem após dois anos de casamento. São incompatíveis.

- Olá. - Olá.

Bem, mostre-me lá a maravilha que tem nas calças.

Quê?

Não se acanhe. Sou médica. Baixe as calças.

Você é muito bonito. O tamanho não importa.

O que importa é a fantasia e a técnica.

- Conhece a posição dos ombros? - Pés aqui.

O meu colega explica-lhe tudo. Tenham uma conversa de homem para homem.

Tem de perceber que a sua vagina não é uma fonte de dor e de vergonha.

É uma fonte de poder, alegria e prazer.

Tudo o que quero é engravidar.

Durante o orgasmo, o útero contrai-se e relaxa

e é aí que a fertilização é mais fácil.

Então, se tiver prazer, engravido?

Pelo que estou a ver...

... o clítoris é recuado em relação ao óstio vaginal.

- Quê? - O clítoris. Levante-se.

A prega de pele com um botão, por baixo da sínfise púbica.

Tem aí um botão de rosa.

Imagine um careca num caiaque.

- Masturba-se, querida? - Pensei que não era saudável.

Como pode a autoestima não ser saudável? Deite-se ali.

De lado.

Puxe os joelhos para cima.

Agarre-os com as mãos.

Agora, contraia os músculos vaginais.

Contraia e relaxe. Contraia e relaxe, ritmicamente.

Inspire, expire.

Inspire, expire.

- Inspire... - Não sinto nada, doutora.

- Gosta dos Red Guitars? - Prefiro jazz.

Ótimo.

Muito bem.

O amor é isto mesmo, querida: improvisação.

Deite-se. De costas.

Vamos fazer isto de forma diferente.

Confortável? Relaxe. Vou despertar-lhe a vontade.

Toque-se lá em baixo.

Suavemente.

Ouça a música.

Está a ouvir o saxofone?

Imagine que o saxofone são os seus dedos.

E improvise.

CABELEIREIRO

Michalina! Já era hora de me vir visitar.

O caminho é o mesmo.

Não perco a esperança. Um dia, será minha.

- Veremos. - Ótimo.

- Isto chega para pagar estes tangos? - Sim.

Olá, rapazes.

- Olá. - Credo!

Assustaste-me, Mishka.

Olá, querido. Não estás no instituto?

Tenho muito para ler. Também te fazia bem.

Acabei de vir da universidade.

Exatamente. Os conhecimentos não são tudo.

Tens de aprender a usá-los. O estudo não te ajuda nisso.

Anda cá.

Meu Deus, Mishka!

Esta semana, não comemos manteiga.

És o máximo.

Arranjei-te fertilizante.

- Fresco? - Fresquíssimo. De há uma hora.

Wanda, anda cá.

Que é?

Qual está maior?

Como é óbvio, a da esquerda.

Precisamente.

Qual o grau de certeza?

A urina das grávidas contém estrogénios.

A planta regada com ela cresce mais. Daí termos duas, para compararmos.

- Tens a certeza? - Absoluta.

Estamos a dar isso agora nas aulas.

- Jesus! - Mishka?

Olha o que Weigl publicou sobre o tifo.

Que andam a conspirar?

Vês?

Fizemos bem em alimentar as pulgas.

- Isto está desatualizado. - Porquê?

- Esta investigação tem dois anos. - Que queres dizer?

- Aonde vão? - Ao cabeleireiro.

- As duas? - Sim.

- Já viste a cabeça dela? - É o que tem dentro que importa.

Mas, à Wanda, quere-la bonita.

- Está bem. - Mishka...

Que ciumenta. Também tu?

Não havia manteiga?

Que fedor é este?

MANICURA PEDICURA

Padrinhos, aproximem-se.

Cala-te.

Ámen.

CERTIDÃO DE NASCIMENTO MÃE: MICHALINA WISLOCKA

Aproxime-se do Jas, mãe.

Mantenham-se quietos.

Atenção.

Fica para recordação.

Vamos comer.

O menino é não só maior como mais bem-comportado.

Não sei como a Michalina irá fazer com gémeos.

Suponho que tenhas de parar com os estudos.

- Pai? - Não bebes mais, Jas.

- Mas, mãe... - Já disse que não.

Faltam dois anos à Mishka. Depois, trabalhará comigo no laboratório.

A Wanda fica connosco. Portanto, irá ajudar.

Assim, poupam dinheiro numa ama.

Não te metas. A Mishka dá conta do recado.

Certo?

Não quero intrometer-me, mas estou preocupada contigo.

Com quê, exatamente?

A Wanda é bonita.

- Não tens medo... - Mãe,

faça ele o que fizer, sei que só me ama a mim.

As mulheres são umas parvas.

São tão parvas.

- Agora, não consigo meter isto. - Não consegues?

Vocês são boas atrizes. Passei a cerimónia toda a suar.

Já para não falar do jantar.

Graças a Deus, temos todos olhos claros e deu para esconder.

Se a Wanda fosse negra...

- Nesta casa, sou uma escrava negra. - Mas muito gira.

Passa aí.

Este batizado foi como que o nosso casamento, não foi?

Nada de blasfémias, por favor.

Temos de fazer um juramento...

... em como nunca ninguém saberá disto.

Nem sequer os miúdos.

Juro.

Juro.

- Olá. - Olá, querida Bozenka.

Olá.

Entrem.

Lindo!

Vê-se logo que este livro foi escrito para as pacientes.

Todos merecem a endorfina e saber de que se trata.

De que se trata?

Trata-se de não se deixar criar musgo.

- Este está bom. - Não está nada.

Tenho de fazer umas correções.

Esqueça! Está muito bom.

Está o máximo. O sexo na gravidez merece uma boa imagem.

Não é assim. É com este lado para cima.

Tenho a sensação de que não gostam.

- Diga você. Eu nem consigo dizer. - Adiaram a impressão.

- Quem? - O Departamento de Cultura do Comité.

- Não, obrigada, ou dá-me um ataque. - Eu preciso de um.

Empresta-mo?

Estamos a tentar engravidar através do orgasmo.

- Mas o meu marido não encontra o... - Clítoris.

- Procura-o? - Nem por isso.

- Disse-lhe onde é? - Não.

É difícil falar sobre isso, certo?

Que acha que é isto?

- Uma flor. - Sim.

E um guia para a sua vagina. É uma prenda para o seu marido.

Vê este ponto vermelho?

- Que sabemos? - Foi encontrada a sangrar.

Fez um aborto?

- Foi espontâneo. - Foi induzido, de certeza.

- Para o bloco, depressa! - Tragam soro.

Tragam soro!

Pronto.

Calma, querida.

Chá?

Um balde cheio.

Cheiro a sangue.

- Ela perdeu quanto? - Uns dois litros.

Foi trazida para cá na hora H.

A questão é: quantas nunca chegarão a horas?

Eu faço isso.

Não. Já fez demasiado por aquela adolescente.

Não diga isso.

Tem 18 anos, como a minha filha mais velha.

A culpa não é dela.

Então, é de quem?

- Desculpe. - Não peça desculpa.

Eu não sabia.

Foi só uma vez.

Desculpe.

Foda-se!

Departamento de Cultura?

- Segundo andar. - Obrigada.

Venham depressa, meninas.

- Trabalha aqui? - Doutora?

- Preciso ver o Siwicki. - Ele agora não recebe ninguém.

- É só sobre um panfleto de saúde. - No Ministério da Cultura?

Todos aqui sabem o que pretende. O seu livro está guardado num cofre.

Porque não guardam lá antes o caralho?

Krzysztof, não se esqueça. Esta noite, às seis.

Lá estarei. Adeus.

Como está a sua mulher?

Folgo em sabê-lo.

Siga-me.

A porta ao fundo do corredor.

Nunca me viu aqui, está bem?

Jesus!

Usou proteção, filha?

Espere! Venha cá.

- Tome. Compre mais. - Obrigada.

Que faz aqui?

Boa tarde.

Calma. Sei guardar segredo. A minha especialidade é o prazer físico.

Que faz aqui?

Que mal lhes faz publicar o meu livro?

Sra. Wislocka...

... o partido não pode compactuar com ofensas à moral.

O sexo é uma necessidade natural, como dormir, comer, beber.

- Tente explicar isso a um padre. - Que me aconselha?

Não sou seu conselheiro.

Deixe-me passar.

Podia aconselhar-me. Estamos fechados num armazém.

Sua gaja insolente!

Se fosse um homem, diria que era inteligente.

O que digo é que, se uma velha vive só

e nunca teve uma relação normal,

não pode perceber muito acerca da arte de amar.

O folículo antral, o folículo pré-ovulatório, o ovócito libertado.

E é tudo, relativamente aos sintomas fisiológicos

do ciclo menstrual.

Agora, vamos aos métodos contracetivos

disponíveis no mercado nacional.

Há novas descobertas interessantes de investigações

sobre o denominado pó contracetivo.

A doutoranda Wislocka parece muito divertida.

Se polvilhasse os rolamentos do seu carro com esse pó, ele andava?

O pistão emperrava e o motor gripava. O preservativo não é melhor?

A Wislocka teria dado uma ótima mecânica de automóveis.

Esta aula é para graduandos e não para graduados. Bom dia.

- Eu disse: “Bom dia.” Obrigado. - Certo. Eu saio.

Ela distraiu-me.

- Boa tarde. - Boa tarde.

Professor?

- Pode dar uma olhadela? - Agora?

Eu acompanho-o. É espantoso, não é?

“Investigação cito-hormonal”?

Sobre as fases do ciclo menstrual, a fertilidade

e o diagnóstico da menopausa.

- O instituto não irá financiar isto. - Mas é importante.

Se fosse sobre o cancro do estômago ou as doenças cardíacas...

- Ataques cardíacos, entende? - Não.

Todos temos um coração.

Mas, um pipi, só metade de nós, certo?

Professor?

Temos de comprovar essa investigação de forma sólida.

- Vou arranjar-lhe quem a ajude. - Um microscópio não dá para dois.

- Eu própria concluo a investigação. - Indo e vindo de Varsóvia?

Tenho lá os meus filhos, mas trabalho mais e melhor que os seus assistentes.

- Que está a fazer? Este carro é novo. - Desculpe.

Os assistentes são pessoas pouco dinâmicas.

E você chega aqui e parece um tornado.

Mas precisa de uma investigadora.

A investigação é para mulheres e sei porque a faço.

Gosta de perder tempo?

Podia tê-lo passado com os seus filhos e o seu marido.

É por ser mulher, certo?

- Cheguei. - Mãe!

Devias ter voltado ontem.

- Olha, fui eu que fiz. - É para mim?

O Krzys ontem recebeu postais, mas a tia Wanda não me comprou nada.

Revezem-se. Não digam à tia que o receberam antes do jantar.

- Dormiste no laboratório? - Já disse: não favoreças o Krzys.

Não me digas como criar crianças.

Onde estão os meus tangos?

Estou exausta.

Vais-te embora?

Onde estão os meus tangos, Mishka?

Wanda?

Perguntei-te onde estão os meus tangos.

Podes dizer-me o porquê disto?

Wanda?

- Anda, mãe. - Preciso de falar com a tia.

Lê-lhes. Esperaram por ti o dia inteiro.

Estou a fazer uma investigação importante.

Já te ouviste bem?

Wanda, nós somos uma família.

Vocês é que são uma família.

Eu estou a mais. Sempre foi assim.

Sabias disto?

E vais deixá-la?

O teu marido pediu-me em casamento.

Porque trazes isso à baila?

Seja como for, recusaste.

Achas que é normal.

- Nesta casa, nada é normal. - Exatamente.

Então, pediste-a em casamento? Bravo.

Bravo. Tenho feito tudo por ti.

Por ti. Trouxeste a Wanda para cá por não poderes viver sem ela.

Devias dormir com ela, mas só me amar a mim.

Obrigadinha.

Só queria

compor as coisas, de alguma forma.

E os miúdos?

Tu tens a tua e eu tenho o meu.

Queres separá-los?

São tão novos. Não irão perceber.

- O Krzys acha que sou mãe dele. - Mas não és.

Só com um, ser-te-á mais fácil.

Então, temos de lhes dizer a verdade. Stach?

- Que é? - Diz algo.

A verdade está nos documentos.

Não podemos fazer isto assim.

E como queres fazer? Como?

Podemos continuar a viver assim?

Eu também tenho direito a ser amada.

A ter alguém que só me ame a mim.

Além disso, a guerra já acabou há muito. Tempos novos, vida nova.

Já estás contente?

Tu é que inventaste este triângulo amoroso.

Não queria perder nenhum de vocês.

Só pensas em ti. Estragaste a vida dela.

Contigo, sempre me senti uma menina, não uma mulher.

Queria o melhor para vocês.

Pedindo-a em casamento? Isso não fazia parte do trato.

Achas que viver com duas mulheres é algum paraíso?

Não suporto a vossa ladainha, todas aquelas tretas mesquinhas.

E os miúdos sempre aos berros.

As duas menstruadas ao mesmo tempo. Eu sou um cientista.

Duas é demasiado, certo? Mas 36 não faz mal.

- 36! - Que queres dizer?

Sei o que guardas ali.

- Para com isso, Mishka. - Já te mostro.

- Na nossa própria cama. - Mishka...

- Como conseguiste fodê-las todas? - Por favor.

Elas não importam. Mishka, tínhamos um trato.

Nunca estás em casa e, quando estás, nem sequer me deixas tocar-te.

- Não tinhas a Wanda para isso? - Dá cá isso. Por favor.

E, se eu fosse mais recetiva, estaria nestas fotos?

- Não tenho culpa que não gostes de sexo. - Diz-me.

Desculpa.

Sabes que eu preciso.

Wanda...

Vês como me confundes?

- Sai daqui. - Para com isso.

- Sai. - Não podes viver sozinha.

- Rua. - Para onde?

- Para esta. Ou para esta. - Dá-me essas fotos.

Se não saíres, amanhã vou à universidade e mostro as fotos aos teus colegas.

Vão achar imensa piada.

Fotos lindas das mulheres deles. Juro que o faço.

É isso que queres mesmo?

Eu não volto.

Krzys?

De pé. Krysia, de pé.

Vá, de pé, Krzys. Despachem-se.

Venham cá.

O pai tem uma coisa importante para vos contar.

Lembrem-se do que vou dizer.

A mãe está a expulsar o pai de casa.

Para sempre. Estão a entender?

Daqui em diante, não têm pai.

Agradeçam isso à vossa mãe.

E não tentem contactar-me nunca mais.

- Ele está zangado comigo? - Não, é comigo.

Sou uma boa investigadora.

Agora, não pense na investigação.

- Havemos de nos desenrascar. - Eu sei.

Arranjam um substituto.

Imagine que eu queria ser como a Sklodowska.

Mãe?

Porque vou com a tia Wanda? Porque fica a Krysia cá?

Não é por muito tempo. A tia Wanda não pode ficar sozinha.

- Tens de cuidar bem dela. - Vou ter saudades tuas, mãe.

Eu também vou ter saudades tuas.

- Adoro-te, querido. - E eu a ti.

Porque se vai o Krzys embora? Ainda não são férias de verão.

Vamos entrar no comboio para Lodz.

Wanda? Estamos a fazer uma coisa má.

A esperta és tu. Tens uma ideia melhor?

- Não faças uma cena. - Cuida bem dele.

Ele é meu filho.

O problema é que fizemos asneira.

Entrem, por favor.

Partida!

Adoro-te.

Vamos embora.

Ele vai ficar destroçado.

A infertilidade masculina é comum.

Meu Deus!

Então, os orgasmos não vão ajudar?

Havemos de pensar em algo.

Como?

Ouça,

convidei-a para vir cá a casa para podermos falar em paz.

Diga-me...

... o seu marido é fiel?

Como descobriu?

Conheço as mulheres. Sobretudo, as que são incrivelmente tolerantes.

Você ama-o. Eu compreendo.

Mas um homem safa-se sempre e tem de pensar em si.

- Quero tanto um filho. - Eu sei.

- Estou sempre sozinha. - Eu sei. Agora, ouça-me.

Vou receitar-lhe

umas férias especiais sozinha num sanatório. Entendido?

Danças, longas caminhadas...

... lindos serões estivais,

homens bonitos em caiaques.

E, como bónus, lindas recordações.

Estou confuso, doutora.

Confuso com quê? É uma cadeira ginecológica dobrável.

- Dobrável? - Já lhe mostro.

A mulher senta-se.

Levanta as pernas, abre-as

e mostra-me o que tem aqui.

É assim que examino as mulheres e verifico se estão grávidas.

- Percebeu? - Não.

- Experimente. - Não. Já percebi.

Desta, não escapa. Vá lá.

Pernas para cima. A mulher tem de pousar os pés para ficar confortável.

Para cima. Sabe como chamam elas a isto?

- Não. - Avião.

- Estou? Wislocka. - Venha já à editora.

- Que foi? - Estão a confiscar livros.

Vou já.

Não saia daí. Tenho de ir apagar um incêndio.

- Não têm esse direito. - Mas que raio?

- Quem é você? - Sou a autora deste livro.

Tenha calma ou nunca mais escreve nada.

Calma, cavalheiros. Eu trato da doutora.

- Quem são? - Departamento de Cultura.

- Não tenho outra cópia. - Caluda.

Para onde me leva? Ainda parto uma perna.

- Surpresa! - Está doida?

Ainda a prendem por causa disso.

É a minha cópia. Não está registada.

Malandrinha.

E agora?

Agora, que seja o que Deus quiser.

Vossa Eminência?

Isso é como se trata um cardeal.

Então, como devo tratá-lo?

O meu nome é Józef.

Pode tratar-me por “padre”.

Sei que é uma loucura pedir o seu apoio,

mas quero ajudar pessoas comuns

a não se enganarem umas às outras, a tirarem algum prazer da vida.

O homem comum também nos preocupa. Sobretudo, atualmente.

Ama o próximo como a ti mesmo, não é verdade?

Acredita em Deus?

Dizem que Deus é amor.

E eu acredito no amor.

Este livro é sobre o amor. É por isso que luto tanto por ele.

Gostava de poder ajudá-la. A sério.

Mas não posso entrar em conflito com o partido.

Sabe decerto a situação da Igreja na Polónia.

O Comité Central disse-me exatamente a mesma coisa.

Não quer uma guerra com a Igreja.

É aquilo a que se chama “andar de porta em porta”.

Pois é.

Há ainda uma terceira autoridade neste país.

- A Igreja é a primeira. - As palavras são suas.

O partido é a segunda. E a terceira?

A imprensa ainda não está preparada.

Desculpe. Acha que estamos em Nova Iorque, doutora?

Se fizesse isso, despediam-me.

Quem iria lê-lo?

Milhões de mulheres neste país estão à espera de algo assim.

É claro, inteligível, ousado.

Infelizmente, já temos um perito nestes assuntos.

O seu chá.

Muito obrigada.

- Homem? - Homem. Um cavalheiro.

Um professor.

Podíamos revezar-nos a escrever.

É uma ótima ideia.

Podíamos fazer um bolo às camadas.

- Precisa desta toalha? - Não percebi.

Tenho uma costureira muito boa.

Encaixa-se bem na revolução sexual da juventude.

- Não, não me encaixo. - Porquê?

Porque sou a revolução sexual. E estou a chegar.

Hoje, vais conhecer um general. Estás contente?

Aqui tem. O novo chefe da editora.

- Aquele simplório? - Pode fazer muita coisa.

Despache-se. Só Deus sabe quanto tempo cá ficará.

Irei ter isso em mente.

Sra. Michalina...

... é fascinante. - E você, um péssimo dançarino.

Referia-me à sua escrita.

Significa tanto para as pessoas.

Tem noção de quanto o seu trabalho significa para nós, homens?

Sabe? Não me importo com esse efeito secundário.

Creio que o seu trabalho já salvou

imensos homens da completa desgraça.

Champanhe! À nossa doutora!

Vamos lá.

Sabiam que o champanhe e a vagina têm o mesmo valor de pH?

E a cerveja também.

Deem todos as boas-vindas ao general e à sua mulher.

Sejam bem-vindos a esta importante noite.

É um prazer ter-vos aqui.

E eis a minha surpresa para vocês.

Diretamente da sua digressão pela RDA,

Kamila Ptak!

Um aplauso para ela. É esta a minha surpresa para vocês.

Obrigada. Eu bem lhe disse que tinha uma boa costureira.

Onde arranjará ela aquele papel higiénico?

O mundo do espetáculo está a sair-se lindamente.

Parece que sim.

Porque usa sempre esses lenços na cabeça?

- É segredo, mas eu conto-lhe. - Sim?

A sério? Mas...

- Sra. Wislocka? - Exatamente.

Li o seu livro.

Leu um livro que não existe?

O partido está todo a lê-lo. Às escondidas, claro.

Não escreve sobre tudo.

Não é possível cobrir tudo.

Publiquem este e eu escrevo um suplemento.

O meu marido é sádico.

Acho que precisamos ter uma conversinha.

- Vamos sentar-nos. - Venha, minha querida.

Pensei que eu é que era direta.

A mulher dum oficial tem de ser direta.

Que é isso?

Cigarros.

Isso não é bom. Aceita tais comportamentos?

Alguns, sim.

Mas ele excita-se, se digo “não”. Começo a ter medo dele.

Então, não diga “não”. Diga “pinguim”.

Está a achar piada?

Nada disso, querida. Quero ajudar.

Tem de inventar uma palavra de código para dizer que já não está a gostar.

E digo-lhe mais.

Numa relação sadomasoquista, é o parceiro submisso que domina,

pois é ele que estabelece os limites.

O nível de prazer que o general sente depende de si.

Agora percebo porque estão relutantes em publicar o livro.

Doutora, desculpe a intromissão, mas tem de conhecer uma pessoa.

- O chefe da editora. - Até que enfim!

Faz parte do Comité Central.

- Vai publicar o meu livro? - Com uma condição.

- Tem de dançar comigo. - Não.

Também sou versado nas coisas do amor, doutora.

Dra. Wislocka?

Sim. Quem é você?

Um comité de boas-vindas.

- A carruagem aguarda-a. - Não ando nisso.

Mas, doutora, não importa como, só importa com quem.

Doutora?

Não precisa de andar. Eu levo-a ao colo.

Isso é alguma proposta?

Mas você é muito feio.

Pensei que os médicos se interessavam pelo que temos no interior.

Tem algum útero?

- É isso que procura num homem? - Estou aqui em trabalho, senhor.

É uma pena.

Este ano, o verão está tão bonito.

Obrigada.

Roman Zajac, o diretor. Bem-vinda à nossa instituição.

O seu gabinete aguarda-a.

Espero que não tenha muito trabalho e possa repousar um pouco.

Esteja à vontade.

- Saiam da frente. - Para de correr, miúdo. Desculpe.

- Desculpe, diretor. - Um momento.

O Jurek irá mostrar-lhe o quarto e o gabinete. Tome, Jurek.

O dever chama-me. Com licença.

E dois. E três.

Polichinelos.

Doutora? Ouvi dizer que é especialista em problemas de senhoras.

- Todos sabem? - Tenho uma pergunta.

- É um ótimo começo. - Posso?

- Pratica sexo? - Quê?

- Tem namorado? - Como sabe?

Não quer falar de carraças, pois não?

A questão é que...

- Ele quer... - E você?

- Tenho medo. - Do sexo?

Não. De engravidar.

Já ouviu falar de contraceção?

Sim. Já ouvi falar de camisinhas.

Ótimo. Venha.

Há uma série de condições a cumprir, antes de as mulheres se poderem entregar.

A primeira vez é crucial. Ele tem de ser meigo e você tem de estar húmida.

Não se ria, senão depois arrepende-se.

Primeiro, têm de achar um local bonito.

Segundo, ele tem de lhe dar ouvidos.

Quando estiver pronta, isto é, recetiva e húmida,

tem de abrir as pernas depressa e pôr uma almofada debaixo do rabo.

A primeira vez pode custar. Depende do seu tipo de hímen.

A si, custou-lhe?

Pelo menos, o meu marido teve cuidado.

O Hemingway escreve que é como se o teto nos caísse em cima da cabeça.

Como se tudo se confundisse: o céu, a terra...

E aquele Por Quem os Sinos Dobram. Os artistas colorem as coisas.

- Não devia fazê-lo? - Faça-o, mas faça-o com sensatez.

Não tenha pressa.

Já viu algum preservativo?

Espere.

Tem preservativos?

Claro que não.

Preciso de um para a paciente.

- Posso tentar arranjar. - Faça isso.

- Porque estás aqui? - Vim ver a doutora.

- Porquê? Estás ótima. - Como sabes?

Não se sente aqui. Vá recuperar lá para fora, por favor.

Vocês também.

Ainda agora chegou e olhe o que se passa.

Somos uma instituição decente e não um bordel.

- Isto não é Varsóvia. - De que está a falar?

Anda a dar preservativos às pacientes.

- Já todos sabem. - Preferia que lhes fizesse abortos?

- O verão é bom para amar. - Não na minha instituição.

Vêm para cá pessoas decentes tratar-se e relaxar.

Chefe?

Desculpe-me, por favor.

Para a próxima, lembre-se de bater.

Claro. Perdoe-me.

Desculpe, querida. Vista-se.

Obrigada por me salvar.

Sabe o que lhe disse?

Disse-lhe que você era uma agente do KGB.

E talvez seja.

- Não tenho medo de si. - Talvez devesse ter.

Não tenho nada a esconder. Sou um simples marinheiro.

É? E é aqui que navega?

Já não navego.

Mas já corri o mundo inteiro.

Invejo-o.

Sempre quis viajar, mas o mais longe que fui foi a Bialystok.

Viajar é ótimo, mas é uma vida dura.

Uma pessoa tem...

... precisa de assentar um dia.

Tem ou precisa?

A minha mulher pediu-me.

Ainda bem que dá ouvidos à sua mulher.

- Olá, doutora. - Olá.

Mas, sinceramente, porque está aqui?

Para me tentar manter longe dos homens.

- É sempre tão misteriosa? - Sou uma agente, não sou?

- Posso vê-la à noite? - Obrigada pelos preservativos.

Mergulhem.

Entrem na água.

Isto aqui é tão bonito.

Desculpe, doutora. Toda a gente precisa de endorfina.

Endorfina? Tem cá uma lábia.

Tenho de compensar os meus defeitos. Disse que sou feio, lembra-se?

Desculpe.

O meu irmão e eu costumávamos ver quem cuspia mais longe.

A sério?

Acabou de conhecer um campeão.

Você é bom.

É hora de jantar.

Sabem o que dizem dos marinheiros?

- Não. - Que têm uma mulher em cada porto.

Mas sempre mandei postais para a que tinha em casa.

Não me diga que os únicos locais que visitou foram estações de correio.

- Não disse isso. - Então, conte qualquer coisa.

Cada país tem os seus costumes.

Cada templo é governado pelas seus próprias regras.

Por exemplo,

para os Japoneses, os pés são o mais importante.

“É uma arte navegar um barco por oceanos infindáveis,

conduzir uma biga

ou enfrentar as emoções do amor.”

- E isso lá é uma arte? - Aí é que você se engana.

No Extremo Oriente, o sexo é considerado uma forma de arte.

- Que tem uma coisa a ver com a outra? - O sexo complementa o amor.

Existe alguma coisa mais bela que o êxtase do ser amado?

Aí está ela.

- Uma bebida de boas-vindas, doutora? - Com prazer.

- De castigo. - Tenho uma coisa para o capitão.

“Não deixes para trás a tua parceira, desfraldando mais largas velas,

nem seja mais rápida ela que tu. Avançai para a meta ao mesmo tempo.”

Wojtek, querido, é hora de ir para a cama.

Afinal, parece que conseguimos inspirar-te.

Boa noite. Este sonhador vai cavalgar outras ondas.

Vê, doutora? A nação está sedenta de conhecimento.

Conte-nos mais sobre as suas viagens, capitão.

O tantra. Ensina-nos a atingir o êxtase sem tocarmos nos nossos parceiros.

Como é isso possível?

Um casal olha-se nos olhos.

Respiram fundo os dois.

E, ao contraírem os músculos...

Tenho de mandar pacientes para sanatórios. É deveras inspirador.

- Porque não escreve um livro? - Quem o leria?

- Eu! - Eu lia.

Eu também.

- Como poderia ser o título? - Porque não algo clássico?

“A Arte de Amar”.

Não sei.

Então, brindemos à arte.

Assustou-me.

Agora, não tem outra escolha senão tomar banho comigo.

Não. Não tomo banho com estranhos.

Jurek.

Michalina.

Rasgaste o cortinado.

Bom dia.

Bom dia, querido.

Que é?

Sabes coser?

Eu cá, nem um botão sei pregar.

Se queres ser uma guru do sexo...

... tens de te vestir como tal.

- Olha. - Detesto saias.

Queres esconder estas pernas do mundo?

Que desperdício.

Olha.

Olha que linda que és. Olha só.

Tenho de voltar para as pacientes.

É pena.

Mas arranjo um minuto.

Raios me partam! Vou perder a camioneta.

Mishka?

Pare!

Bom dia.

- Anda comigo. - Fica comigo.

Sabe onde pode meter a crítica que escreveu sobre o meu livro?

Com essas roupas, parece uma cantora popular

e não uma académica séria.

Odeia que uma mulher lhe faça concorrência.

Ninguém está interessado no que lá escreveu.

É pornografia barata.

- Porco. - Puta.

Primeiro, as senhoras.

Bom dia, chefe. Muito prazer em vê-la.

Jadzia? Deixe-me ver a minha correspondência. Bom dia.

- Bom dia. Toda? - Toda.

- Aqui tem. - Não a separa?

- Para quê? - Para saber o que é para quem.

Essas são para si. Estas, para os outros.

- Isto tudo? - Sim.

Raios me partam!

Isto são insultos.

E isto são cartas de agradecimento.

- E isto? - Pedidos de conselho.

Segure aqui.

“A lubrificação insuficiente da vagina causa uma fricção excessiva do pénis

e diminui o conforto da cópula. O problema surge...”

Professor? Professor...

- Sim? - Que aconselharia essa miúda a fazer?

O namorado dela devia usar a língua.

Perdão?

Calma aí! Que está a fazer?

- Aqui tem. - Passou-se? Que está a fazer?

Que é isto?

Faça favor. Leia.

“Devia ter vergonha, sua velha jarreta.

Devia ser enforcada por tanta imundice. Não é temente a Deus?”

É este o resultado do seu trabalho pseudocientífico.

Perdão.

Isto é que são as cartas de agradecimento. Os insultos estão espalhados pelo chão.

- Confundi-as. - Não há problema, querida.

E toda a gente se está a cagar para si.

- Café? - Agora, não.

- Uma entrevista na quarta, às nove. - Muito bem.

- Às três... - Agora, não tenho tempo. Olá.

Delicioso. Olá, Michalina.

Olá.

- Desculpe tê-la feito esperar. - Ora essa. Bebi um chá.

Está a imprimir um livro inteiro numa revista? Aos bocados?

O Sienkiewicz também publicou a trilogia assim.

A doutora tem uma abordagem moderna.

Pode ajudar ou ser aborrecida como tudo.

- Quem não arrisca, não petisca. - Gosto de petiscar. E tenho champanhe.

Pensei que tinha amigos no Comité Central.

Por acaso, também tenho.

Mas isso não significa que vão na minha conversa.

- Não podem continuar a vetar. - Não teria tanta certeza.

Está bem.

Vou conseguir uma reunião.

- Bonitos cortinados. - Nylon.

Para mim, é um livro soft-core destinado a pessoas casadas,

para pararem de andar às turras.

É assim que eu o vejo. É assim que o quero vender.

E venderá como pão quente.

O Ministério da Administração Interna ficará feliz,

pois as pessoas irão foder e não lutar.

Por favor, Christian.

Aqui, fodem no duche. Têm lutas de almofadas.

Vivem em cubículos apertados.

Onde mais podem foder? No sofá, com a sogra?

É uma crítica sexual ao setor da construção socialista?

Doutora?

Não pode entrar aí, cidadã. Pare!

A autora é controversa.

Sim, a autora é controversa.

Explique-se.

Não é uma nobre professora que irá explicar estes assuntos

de uma forma aprofundada. Ou seja, científica.

Mas é uma académica conscienciosa

com um doutoramento e obra feita.

- Fazem-lhe bicha à porta. - Não falemos de bichas.

Seja como for, o conteúdo do livro já foi publicado aos bocados.

Quê? Impossível.

Sim. Numa revista para mulheres.

- Não podem apreender este livro. - Deixem a senhora em paz.

Também é para vocês, cavalheiros.

Estão a sair-se assim tão bem em casa?

É um manual de instruções. Não entendem?

Qual é o vosso problema?

A hierarquia, doutora.

- A hierarquia dos valores. Bom dia. - Por favor, doutora.

Eu tinha de dizer alguma coisa.

Que grande académica conscienciosa.

Falta-lhe um pouco de diplomacia, Michalina.

- Porque entrou ali a matar? - Foi um erro.

Deixou-se levar pela emoção.

Devia ter tomado conta dela. Lamento muito.

Não sei que erros cometeu no passado.

Infelizmente.

Mas acho que irão deixar passar.

Mas não se esqueçam da censura.

Bem...

Há mais um problema.

A palavra...

... “falo”, que surge muito no livro.

- Era melhor “caralho”? - Havemos de arranjar algo.

- “Pénis”? - É lindo e muito biológico.

E orgulhoso.

Certo.

Quanto às ilustrações...

São más?

São muito grandes. Têm uma péssima influência na imaginação.

Raios!

- Parecem borrões. - Irão parecer carimbos dos correios.

Ouçam.

E se ela for branca e ele negro?

Não diga mais nada, por favor.

- Desta vez, não diga nada. - Está bem. Não direi.

- Nem uma palavra. - Já disse que não direi.

- Olá. - Olá.

Eis a proposta.

As condições para publicar o Sztuka kochania são as seguintes.

A tiragem será de 10 000 exemplares.

O Departamento de Cultura concordou com 100 000.

No livro, dir-se-á 10 000. Para não acharem que o tema é popular.

Na capa, deverá estar a ilustração

de um casal no dia do casamento.

Um fotógrafo dotado já preparou uma foto segundo as nossas orientações.

Tenho a certeza de que irão gostar.

- Gostam? - É interessante.

Quanto às ilustrações no interior do livro...

... recebi estas de vocês.

Infelizmente, não servem.

É um negro com uma branca.

Porquê?

O facto de ser negro não significa que seja um negro.

Então, é quem? Um limpa-chaminés?

Era para fazer o contraste entre...

Não somos racistas.

Por último, vamos riscar vários fragmentos sobre jogos sexuais.

Quais?

- Vamos pensar. - Quais?

- O capítulo sobre os orgasmos. - Não.

Quer que este livro seja publicado?

Mas os orgasmos são cruciais. É um capítulo-chave.

Vamos conversar com calma. Todos podem ter orgasmos.

Sim, todos os homens.

Porque é o orgasmo da mulher mais importante que o do homem?

O Boleslaw e eu somos pela igualdade.

Põem as mulheres em cima de tratores e acham que isso chega.

- Doutora, vamos conversar. - Não há nada para conversar.

Não há Sztuka kochania sem orgasmos.

- Mas... - Não há.

Mishka?

Que está a fazer? Volte já ali para dentro.

Não vê o que eles pretendem?

Querem destruir tudo. Até o nosso amor.

Disse que há mulheres felizes sem orgasmos.

- Sim, são uma metáfora. - Que o que importa é a proximidade.

Todos deviam ter o direito a tê-los e a saber como tê-los.

Quer desistir?

Não compactuarei com a castração do meu livro.

Já parou para pensar em mim? Que faço tudo para que seja publicado?

Já se ouviu bem? Prossiga a sua vida.

Dê um passeio, faça amor com o seu namorado.

Às vezes, há que fazer compromissos.

Já fiz muitos compromissos. Acha que me trouxe algum benefício?

SAUDAÇÕES DE LUBNIEWICE

Já acabaste de escrever a tua obra-prima?

A nação está à espera. Quando vamos para a Índia? Capitão

Estás aqui?

Estás aqui? Olá.

Estou aqui, querida.

Estás tão bem vestido.

Que esperavas?

Afinal, é a capital.

Tens de vir cá mais vezes.

Quase começava a esquecer-me de ti.

Bem, Mishka...

... estou cheio de trabalho.

- Sabias que assumi a instituição? - A sério?

Prepara-te, chefe, pois irás ter carradas de trabalho quando eu voltar.

Este ano, vou para lá com a minha mulher.

E então?

E com a nossa filha.

Mishka...

Quero estar contigo.

Eu também.

Mas não podemos fazê-lo às custas da minha filha.

Disseste que me amavas.

E amo.

Amo.

Hei de pensar em algo.

Não há nada para pensar.

Mishka...

Mishka!

Para onde vais?

Para onde não perca a cabeça.

Krzys?

Que fazes aqui?

Não volto para Lodz.

- Tens de voltar para casa. - A minha casa é aqui.

Não podes ficar aqui, querido.

Porquê?

A tia Wanda ama-te muito e deve andar louca.

Mas tu é que és a minha mãe.

- Por favor, mãe. - A mãe nunca está em casa.

Também nunca a verias.

- Krysia! - Não é verdade?

Passo muito tempo no trabalho, mas faço o que posso.

O marido da Wanda não me quer. Diz que me abandonaste.

Não foi nada disso.

Ouve.

Não temos dinheiro nenhum.

Tenho de trabalhar o dia todo. Mal chega para as duas.

Eu sei tudo.

- Sabes o quê? - Tu sabes o quê.

- De que se trata, mãe? - A mãe não é minha mãe.

A minha mãe é a tia Wanda.

Mãe?

Desculpa. Queria ter-te contado mais cedo.

Krzys?

Krzys?

Abre a porta. Krzys?

Vamos conversar. Sei que não devia ser assim.

Deixa-me em paz!

Eu sou tua de certeza, mãe?

São os dois. E isso não importa, pois eu amo-vos.

Krzys, por favor.

Mishka...

Podias ter-me mandado um telegrama.

Malditos correios.

Está calor.

Não é preciso ir a Cuba. Lubniewice serve.

É verdade.

A instituição mudou desde o ano passado, não mudou?

- Acho que não. - Talvez um pouco.

Tenho os planos todos do Jurek na cabeça.

Sim, o Jurek tem ideias maravilhosas.

Veio por muito tempo, doutora?

É só uma curta visita espontânea.

Nem pensar. Tem de ficar.

- Arranjas-lhe um quarto lá em cima? - Claro.

- Não é preciso. Apanho algum sol e vou. - Tem de ficar. Mesmo.

Aqui, só há velhas mexeriqueiras. Não tenho amigas. Por favor.

A sua mulher convenceu-me, Jurek.

- Vamos fumar. - Eu não fumo.

Mas faz-me companhia.

Bata aqui.

- Concede-me esta dança, chefe? - Claro.

Muitas felicidades Votos de 100 anos de vida ou mais

Este lugar é lindo.

O seu marido ficou em Varsóvia?

- Sou divorciada. - Há quanto tempo?

O suficiente.

Ela.

Mishka.

- O Jurek não sente saudades do mar? - Referes-te a aventuras e mulheres?

Faça ele o que fizer, sei que só me ama a mim.

Desculpa.

A minha filha acordou.

Eu vou lá.

- Krysia? - Eu vou lá.

Que vais fazer com estas coisas?

Deita-as fora. São só umas tralhas da infância.

Fizeste as malas tão depressa.

Não vou para a América.

- Olá. - Olá.

- Bom dia, minha senhora. - Bom dia.

Para de fumar. Faz mal à saúde.

Vou levar as malas e esperar lá fora.

- Adeus. - Adeus.

E agora? Vais deixar-me sozinha?

Sempre estiveste sozinha, mãe.

Michalina?

Ela?

Estão em Varsóvia?

Mudámo-nos para cá.

Como está o Jurek?

Morreu. Não sabias?

Como?

Voltou para o mar. Não suportava isto aqui.

Esteve fora quase um ano. O coração dele...

Tinha um coração forte.

Lamento. Sei que deve ser difícil para ti.

Michalina?

Michalina?

Olá.

Entre, filha.

Vim agradecer-lhe.

Laranjas.

Um serão cálido no sanatório?

Será uma criança ótima. Parece um rapaz.

- Como sabe? - Os rapazes empurram para a frente

e as raparigas gostam de se agarrar às mães.

- Está a dar pontapés. Consegue sentir? - Consigo.

Estou tão feliz.

Obrigada.

Tenho de lhe pagar, de alguma forma.

Posso fazer alguma coisa por si?

Obrigada, querida.

Agora, acho que só o camarada Gierek podia fazer algo por mim.

Coube uma garrafa inteira de refrigerante.

Deus disse a Adão e a Eva: “Crescei e multiplicai-vos.”

Já fiz centenas de partos e sabem que mais?

Não há nada mais maravilhoso.

Mas o ato de amor em si é igualmente belo.

Deparo-me todos os dias com mulheres relutantes em praticar sexo,

sejam elas virgens ou casadas.

Sabem porquê?

Porque têm medo de engravidar. É um problema sério.

Queremos filhos, mas é melhor para todos se formos nós a decidir quando será.

E é para isso que a contraceção serve.

As pessoas passaram sem ela durante milhares de anos.

Também passaram sem água canalizada, medicamentos, tratores ou eletricidade.

Não é argumento, doutor.

O Senhor é meu pastor

Entendo a sua posição, doutor.

A contraceção fará com que os seus lucros diminuam.

Mais uma coisa. O sexo pode ser tão mundano como ir pôr o lixo à rua.

Mas também tão belo como uma oração.

Isso já é demais. É um escândalo.

Calma!

Calma! É favor voltarem para os vossos lugares.

Se o Gierek brincasse com o seu Stasia, não teria medo do livro.

Se calhar, não deu certo. Daí vetarem o livro.

Como retaliação.

Esperem, minhas senhoras.

As do Ministério da Cultura são preciosas.

Quem é que tem poder, nesta situação?

Para além do Politburo e do Comité Central,

é o Ministério da Cultura.

Ou alguém do topo. Da milícia ou dos militares.

- Conhecemos alguém assim? - Não conheço toda a gente.

São minhas pacientes, mas não sei com quem são casadas.

O Serviço de Segurança. Eles sabem tudo.

Vão ajudar-nos a filtrar os nomes.

Não os sobrestime.

Olá.

É a reunião acerca do Sztuka kochania?

Que se passa?

- Uma greve. - Que raio de greve?

Sabe porque vim. Não saio daqui sem isso, seu manga-de-alpaca miserável.

Ou prefere que chamemos o meu marido?

Quero muito que tu...

... publiques isto.

- Acedemos a... - Cortaram os capítulos cruciais.

- Deixa-te de ninharias. - Então, não publiques.

Querida...

- E Paris? - Paris que se lixe.

Não queres ir a Paris?

Não queres?

Quero este livro.

Todo.

Sabes que ela é maluca.

Mas o partido irá ter um novo membro graças a ela.

Com ênfase na palavra... “membro”.

Um rapaz?

- Olha a barriga espetada. - Um filho!

Que fazes aqui, bandido?

Há paus, preservativos, botões. Vendo. Não compro.

Andor, bandido. Senão, cuspo-te.

Vai uma aposta?

Ouro, minha senhora?

- Onde o arranjou? - Às escondidas.

- É bom? - Magnífico, minha senhora.

São parvas e continuarão parvas.

Se o lessem, em vez de verem só as ilustrações,

saberiam que o sexo é bom em qualquer idade.

Quando mais tarde, melhor.

Com licença.

Quinhentos! Quer um?

- Quanto? - Quinhentos.

Com as ilustrações originais. Claro.

Venham!

Só aqui é que arranjam o Sztuka kochania ilustrado e integral.

Teresa? Estou no Mercado de Rózycki.

- Queria o livro publicado. - Estão todos a lê-lo.

Foi uma fuga da editora. Não sabíamos como lhe dizer.

- Lamento muito, Mishka. - Lamenta o quê, querida?

É o dia mais bonito da minha vida.

Obrigada.

Tenho a sensação de que não leram o Sztuka kochania.

Se o tivessem lido, não estariam tão empolgados,

pois o amor dá muito trabalho.

Dantes, achava que o corpo não tinha nada a ver com o amor.

Agora, custa-me a crer como era parva.

Tanto o corpo como a alma...

... são necessários para aprendermos a amar-nos a nós e à outra pessoa.

Daí ter escrito este livro.

É um manual de instruções sobre o amor.

O meu sonho é que, depois de lerem o meu livro...

... se queiram abraçar ao vosso parceiro e ter um pouco de prazer.

Todos se perguntam

se este livro se baseia na experiência real da autora.

Envolve algum homem específico?

Deixem-me dizer-vos isto.

Uma pessoa cega não escreve sobre cores.

Não te despediste.

Não consegui.

Estaremos juntos novamente.

Eu sei, mas não agora.

- Não me vais deixar, pois não? - Jurek...

... alguém poderia deixar-te?

Em 1997, a Dra. Michalina Wislocka recebeu a Ordem da Polónia Restituta.

Morreu de problemas cardíacos aos 84 anos.

Publicado em 1976, Sztuka kochania foi um êxito,

com 7 000 000 de exemplares vendidos.

Quarenta anos depois, foi publicada uma 13ª edição revista.

Não há livro igual a este na Polónia, escrito numa linguagem tão simples.

Como alguns alegaram, era um livro para donas de casa.

Mas eu queria que todas as donas de casa o compreendessem.

Queria que todas as mulheres percebessem a minha mensagem.

Nunca ninguém falou assim de sexo às mulheres.

Como viver, abraçar, vivenciar o prazer...

Ninguém lhes falou do básico.

Nem aos homens, pois o livro também é para eles.

Todos o leram às escondidas.

Foi banido, mas era possível encontrá-lo em todo o lado.

Acima de tudo, a publicação do livro tornou-se numa ambição das mulheres.

Dava uma boa história para um filme.

Se não fossem elas, não haveria livro.

Elas é que me publicaram o livro.

Tive momentos de fraqueza, nesta dura batalha.

Houve uma luta aguerrida para conseguir publicar o livro.

O governo não gostava nada dele.

Sentia-se ameaçado por ele.

Portanto, as minhas pacientes é que me deram apoio.

Foram elas que me deram alento, nos momentos de fraqueza.

Publiquei um livro sobre o amor.

Mas também sobre os filhos e a vida familiar.

Sempre gostei de mulheres e de homens.

Especialmente de mulheres, pois sempre foram menosprezadas.

A emancipação não irá mudar isso tão cedo.

Acho que as mulheres perceberam finalmente que têm direito a ser mulheres,

a expressar os seus desejos, a sentir diferentes emoções.

Houve fases. Houve uma clínica de planeamento familiar.

Antes disso, houve uma clínica juvenil, onde distribuía preservativos

e fui estigmatizada por isso.

Consegui alguns feitos.

Mas um ser humano é como um livro.

Sem experiências, não há história.

E todas essas experiências formam uma pessoa

que depois fica apta a ser útil aos outros.

Não seria quem sou sem as minhas experiências de vida.

Já não chega?

Ainda dão cabo aqui da velhota.

Estou toda a transpirar por causa aqui da lareira.

Legendas: Paula Amaral

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