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Tantos barcos de guerra no rio. Que enfiada era aquela?
S�o os contratorpedeiros portugueses.
O Tejo, o D�o, o Lima, o Vouga, o T�mega.
Rebocaram-nos por causa do mau tempo.
Eram capazes de garrar e ir encalhar a Alg�s.
O D�o � o que est� mais perto.
O D�o!
Para onde, senhor?
- Para um hotel, por favor. - Qual?
N�o saberia dizer. Um c� para baixo, perto do rio.
S� se for o "Bragan�a", no princ�pio da Rua do Alecrim.
"Bragan�a"?
Do hotel n�o me lembro, da rua sim.
Vivi em Portugal, sou portugu�s.
Pensei que fosse brasileiro.
H� 16 anos que n�o venho a Lisboa nem a Portugal.
Vai ver que mudou muito.
- Tem chovido muito? - Um dil�vio.
H� dois meses que o c�u se desfaz em �gua.
N�o vou poder parar perto do hotel, por causa do el�trico.
Espero mais abaixo, junto ao Caf� Royal.
O senhor vai ver se h� quartos.
Se n�o houver, temos de procurar outro hotel.
Profiss�o: m�dico. Viajou pelo "Highland Brigade".
Doutor, o meu nome � Salvador, sou o gerente do hotel.
Precisando de qualquer coisa � s� dizer.
- Bem-vindo ao "Bragan�a". - Obrigado.
- A que horas � servido o jantar? - �s oito.
Espero que a cozinha lhe agrade. Temos tamb�m pratos franceses.
V� buscar as malas do doutor. Est�o num t�xi junto ao Caf� Royal.
- S�o tr�s malas e uma � pesada. - Talvez seja preciso outro empregado.
O Pimenta aguenta, ele est� habituado.
"12 de junho de 1914.
"Estava a chegar a guerra. A grande.
"Mestre, s�o pl�cidas todas as horas que n�s perdemos.
"Se no perd�-las, qual numa jarra, n�s pomos flores.
"N�o h� tristezas, nem alegrias.
"Da vida iremos n�s tranquilos, tendo nem o remorso de ter vivido.
"13 de novembro de 1935.
"Vivem em n�s in�meros.
"Se penso ou sinto, ignoro quem � que pensa ou sente,
"sou somente um lugar onde se pensa e sente.
"E, n�o acabando aqui, � como se acabasse.
"Uma vez que para al�m de pensar e sentir, n�o h� mais nada.
"20 anos, dia por dia."
N�o...
Esqueci-me de o devolver!
Deslembran�a.
- Ent�o, gostou da canja? - Gostei.
- � a Rua do Alecrim? - N�o, senhor doutor.
Aqui � do outro lado. D� para a Rua Nova do Carvalho.
J� n�o me lembrava desse nome.
N�o, meu pai. Sinto-me bem.
Realizou-se ontem o funeral de Fernando Ant�nio Nogueira Pessoa,
solteiro, de 47 anos.
47 anos!
Surpreendeu-o a morte num leito crist�o
no Hospital S�o Lu�s dos Franceses, num s�bado � noite.
Fernando Pessoa, o incr�vel poeta de "A Mensagem",
poema de exalta��o nacionalista, dos mais belos que se tem escrito,
n�o era s� ele na poesia.
Ele era tamb�m �lvaro de Campos, Alberto Caeiro e Ricardo Reis.
C� est� o erro, desaten��o grave. Escrever por ouvir dizer.
Ricardo Reis sou eu, 48 anos, um a mais do que ele.
Quem duvidar, v� ao "Hotel Bragan�a" e pergunte ao Salvador, o gerente,
se n�o est� l� hospedado Ricardo Reis,
m�dico que chegou ontem do Brasil.
A janela estava aberta, n�o dei pela chuva a entrar,
est� o ch�o todo molhado.
Formei de enfiada tr�s versos de sete s�labas,
redondilha maior, s� faltou o �ltimo.
Fica o calor�fero ligado. Deseja mais alguma coisa?
N�o, muito obrigado.
- Como se chama? - L�dia, senhor doutor.
�s ordens do senhor doutor.
L�dia?
Ent�o, L�dia.
"Quando, L�dia, vier o nosso outono.
"Vem sentar-te comigo, L�dia, � beira-rio."
Eu, poeta de Odes Alcaicas ou S�ficas,
a dar-me para poeta popular.
"Sobre a nudez forte da fantasia o manto di�fano da verdade."
O contr�rio seria bem melhor.
"Deus triste, foste preciso talvez porque nenhum havia como tu."
Boa tarde.
Que ajuntamento � este, senhor guarda?
Bem me parecia que n�o tinha nada a ver com isto.
� o bodo do "S�culo".
Mas � uma multid�o.
Saiba vossa senhoria que se calcula em mais de mil os contemplados.
Tudo pobres dos p�tios e das barracas.
A cada pobre calham dez escudos,
aos garotos d�o agasalhos e brinquedos.
Mas empurram-se tanto, gritam. Isto � um caso triste.
Triste ser�.
Mas cada pobre tem de ser fiscal do outro pobre.
Pode j� ter recebido, pode n�o ser destes s�tios.
� para aprenderem, os aproveitadores.
Mas � triste.
De qualquer forma, obrigado pelas suas informa��es.
�s ordens de vossa senhoria. Passe vossa senhoria por aqui.
Esqueci-me de apagar a luz.
Ol�.
Fernando?
Sem �culos?
N�o tiveram tempo de mos dar quando os pedi, antes de morrer.
E n�o se enterram pessoas com �culos.
Sei que me foi visitar, mas eu n�o estava.
- Pensei que estivesse sempre l�. - Por enquanto ainda saio.
Tenho oito meses para circular � vontade.
Oito meses?
Contas certas, no geral e em m�dia, s�o nove meses,
tantos quanto andamos na barriga das nossas m�es.
Quest�o de equil�brio.
Durante esse tempo ainda se lembram de n�s.
Exceto casos excecionais, nove meses � quanto basta
para o total esquecimento.
O que � que o trouxe a Portugal?
- Aqui est�. - Leia voc�, eu j� n�o sei ler.
"Fernando Pessoa faleceu. Parto para Glasgow.
"�lvaro de Campos."
O �lvaro! Ele � assim.
Em novembro tamb�m rebentou uma revolu��o no Brasil,
houve muitos presos e muitos mortos.
Voc� anda sempre a fugir a revolu��es.
Em 1919 fugiu para o Brasil com medo da revolu��o bolchevista,
que acabou por falhar.
Como vai provavelmente falhar essa do Brasil.
- Voc� continua mon�rquico? - Sim, mas sem rei.
Pode ser-se mon�rquico e n�o querer um rei.
- � esse o seu caso. - �.
Boa contradi��o.
Entre tantas que tenho vivido, essa n�o � a pior.
Ainda me lembro de quem voc� �.
Uma estranha impress�o.
Sei que estou a olhar-me, mas n�o me vejo.
No entanto, tem sombra.
� tudo o que tenho.
Como � que soube que estava neste hotel?
Quando se est� morto sabe-se tudo.
- Como � que entrou? - Como qualquer outra pessoa.
Entrou pelos ares? Atravessando as paredes?
Que ideia, isso s� existe nos livros de fantasmas.
E ningu�m deu pela entrada de um desconhecido?
Outra vantagem de estar morto.
Ningu�m nos v�, querendo n�s.
- Eu vejo. - Eu quero que me veja.
E afinal quem � voc�?
Vou-me chegando, est� a fazer-se tarde.
- Voc� precisa de descansar. - Quando volta?
- Quer que eu volte? - Gostaria muito, pod�amos falar.
N�o se esque�a que passados 16 anos eu sou novo aqui.
S� vamos poder estar juntos oito meses.
Vistos do primeiro dia, oito meses s�o uma vida.
Quando eu puder, apare�o.
N�o quer marcar um dia, hora, local?
Tudo menos isso.
At� breve, Fernando. Gostei muito de o ver.
E eu a si, Ricardo.
N�o sei se lhe posso desejar Feliz Ano Novo.
Deseje, deseje, n�o me faz mal nenhum.
- Feliz Ano Novo, Fernando. - Feliz Ano Novo, Ricardo.
"� respeitosa dist�ncia, os outros.
"Uma grande parte do pa�s tem colhido os melhores
"e mais abundantes frutos de uma administra��o e ordem p�blica
"modelares.
"Um jornal de Genebra afirma que somos afortunad�ssimos
"por termos como ditador um s�bio.
"O ministro Pacheco conclui que Salazar � o maior educador
"do nosso s�culo."
Do nosso s�culo s� foi vencido um ter�o!
Doutor, n�o comeu nada.
Quer que lhe aque�a o caf� e fa�a outras torradas?
N�o tenho muita fome. Fico bem assim.
Que dia � hoje?
Quatro de janeiro, doutor. E continua a chover.
O Fernando n�o voltou a aparecer.
Pediu alguma coisa, senhor doutor?
N�o, nada. Acho-te muito bonita.
N�o necessita de mais nada?
Por enquanto n�o, nada.
H� momentos em que seria bem melhor morrer.
Vai o ano de fei��o, que os defuntos s�o correnteza.
Tantos e t�o bons que se foram. E n�o falo do Fernando Pessoa.
Era cliente ass�duo desta casa.
L� se foram o Leonardo Coimbra, o inventor do Criacionismo,
Valle-Incl�n, do "Romance dos Lobos",
John Gilbert!
Que grande ator era a estrela de "A Grande Parada"!
Kipling, o poeta do "Se".
O Rei Jorge V, afinal o �nico que tinha sucess�o garantida.
O que o doutor n�o sabe � que em novembro do ano passado
morreram nas capitais de distrito 2492 indiv�duos.
Um deles foi o senhor Pessoa, mas esse o doutor sabe.
Fora os das aldeias.
N�o � muito nem � pouco, mas desses, 734 eram crian�as
com menos de cinco anos.
Fica-nos a consola��o de serem portugueses
a maior parte dos anjinhos do C�u.
Fernando.
- Chegue-se, cabemos os dois. - N�o � necess�rio, vou bem aqui.
Quem estiver a olhar para n�s v�-o a si ou a mim?
V�-o a si. Ou melhor, v� um vulto que n�o � voc� nem eu.
Uma soma de n�s dividida por dois.
Melhor ainda, o produto da multiplica��o de um pelo outro.
Aritm�tica. Dois n�o se somam, multiplicam-se.
Numa ode minha eu digo que vivem em n�s in�meros.
- N�o me lembro dessa ode. - Escrevi-a h� dois meses.
Cada um de n�s vai dizendo o mesmo.
Ent�o n�o vale a pena estarmos multiplicados.
Doutra maneira n�o ser�amos capazes de o dizer.
J� n�o regressa ao Brasil?
Sinto-me como o insone que chegou ao lugar certo da almofada
e vai poder, enfim, adormecer.
Se veio para dormir, a terra � boa para isso.
Se aceito o sono � para poder sonhar.
Sonhar � estar do lado de l�.
Ao lado de l�.
Podemos chegar pelo sono.
Dizer isso a um morto! O outro lado da vida � a morte.
N�o sei ainda o que � a morte.
Sei que a morte �. N�o que exista.
Ser e existir n�o s�o a mesma coisa.
Meu caro Reis, ser e existir s� n�o s�o id�nticos
porque temos as duas palavras ao nosso dispor.
Agora tenho de ir.
Eu volto.
Promete?
Tenho frio.
"Sobre a minha cabe�a, a palma da m�o de Deus.
"A linha do cora��o, a da vida,
"que se adelga�a, se interrompe e ressurge cada vez mais t�nue.
"Cora��o bloqueado, sozinho por tr�s dos muros.
"Parecem dois olhos, aquelas manchas ali no teto.
"Sabe-se l� quem nos l�
"quando n�s pr�prios, distra�dos, estamos lendo."
Est� a gostar?
Sim, sim.
Mas �s vezes parece-me que a realidade n�o suporta o seu reflexo,
a sua representa��o.
E parece que estamos hospedados no mesmo hotel.
Curiosa coincid�ncia estarmos aqui tamb�m.
Acho que devo-me apresentar. Sou Ricardo Reis, m�dico.
Cheguei do Rio de Janeiro h� um m�s. Estive l� 16 anos.
Sampaio.
Not�rio em Coimbra.
� um prazer.
Vamos?
Quando Lianor confessa que roubou a chave do salva-vidas
para que morresse Lavagante, e quando Maria Bem e Rosa,
uma come�ando, outra concluindo, dizem que tal gesto foi de amor,
confesso que as l�grimas n�o me paravam.
A menina Marcenda gostou mesmo da pe�a.
Achei bem que o Lavagante e a Maria Bem ficassem juntos.
Na verdade, um r�pido e feliz desenlace.
E a fala da mulher do Lavagante no final do segundo ato:
"Se h� inferno, se depois do que eu tenho chorado
"ainda h� inferno, n�o pode ser pior do que este que eu vivo,
"Virgem M�e das Sete Espadas!"
Mem�ria prodigiosa a sua, Marcenda.
Vamos apanhar um t�xi. O doutor Reis vem para o hotel?
N�o quer acompanhar-nos?
Agrade�o o convite, mas n�o.
Ainda me apetece andar a p�. Gosto deste frio h�mido.
Tive muito prazer em conhec�-lo, doutor Reis.
O prazer foi todo meu.
Fernando?
Mas a estas horas?
N�s n�o vamos poder conversar muito tempo,
talvez apare�a a� uma visita.
Voc� n�o perde tempo.
Ainda n�o chegou h� um m�s e j� recebe visitas galantes.
Depende do que se queira entender por galantes.
� uma criada do hotel.
Meu caro Reis!
Voc�, um esteta �ntimo das deusas do Olimpo!
Habituei-me a ouvi-lo falar, a toda a hora,
das suas L�dias, Neeras, Cloes, agora cativo de uma criada?
Esta criada chama-se L�dia.
E n�o estou cativo, pois prezo muito a minha solid�o.
Tanto voc� chamou por L�dia, que L�dia veio.
Cam�es n�o teve essa sorte.
Inventou o nome de Nat�rcia e da� n�o passou.
Veio-me o nome, mas n�o me veio L�dia.
N�o seja ingrato.
Sabe l� que mulher seria L�dia nas suas odes.
� de facto duvidoso.
Vejo-o a� a ler um romance policial, com uma botija nos p�s,
� espera de uma criada que lhe venha aquecer o resto.
E quer que acredite que voc� � o homem que escreveu:
"Sereno e vendo a vida � dist�ncia a que est�."
Voc� disse que o poeta � um fingidor.
Adivinha��es que nos saem pela boca.
Eu morri antes de ter percebido se � o poeta que se finge de homem
ou o homem que se finge de poeta.
Fingir e fingir-se n�o � o mesmo.
Isso � uma afirma��o ou � uma pergunta?
� uma pergunta.
Eu apenas fingi, voc� finge-se.
Se quiser ver onde est� a diferen�a, leia-me e leia-se outra vez.
Voc� est� a preparar-me uma bela ins�nia, Fernando.
- A sua criada vem a� embal�-lo. - � um despeitado.
O seu caso, caro Reis, n�o tem rem�dio.
Voc� simplesmente finge-se. � fingimento de si mesmo.
- N�o tenho rem�dio? - � outra pergunta?
N�o tem rem�dio porque n�o sabe quem seja.
E voc�, alguma vez o soube?
N�o faltar� quem de mim d� todas as explica��es.
Talvez eu tenha voltado a Portugal para saber quem eu sou.
Tolice.
Alumbramentos assim s� em romances m�sticos
ou em estradas que v�o dar a Damasco.
Estamos em Lisboa, daqui n�o partem estradas.
Tenho sono.
� a �nica coisa que lhe invejo, dormir.
S� os imbecis � que dizem que o sono � primo ou irm�o da morte.
Vou-me chegando.
O teatro foi bonito?
Senhor doutor, posso falar um pouco consigo?
Se n�o tem outra coisa mais importante para fazer.
Estava a ler os jornais. Acabei agora mesmo.
Querem tomar alguma coisa? Caf�, ch�?
Um caf� � uma boa ideia para o frio que faz.
Sim, um caf�.
- Gostou da pe�a? - Sim, gostei.
Apesar de achar demasiado artificial
essa, digamos, naturalidade da representa��o.
Quero dizer � que o que se passa num palco � teatro, n�o � a vida.
A vida em si n�o � represent�vel.
At� o que parece ser o mais fiel reflexo, o espelho,
torna o esquerdo direito e o direito esquerdo.
- Mas gostou ou n�o gostou? - Sim, gostei.
- Quantas colheres? - Duas, por favor.
- Desejam mais alguma coisa? - N�o, muito obrigada.
Cuidado com essa porta!
O meu pai n�o gostaria de saber que me estou a aproveitar
para lhe pedir a sua opini�o de m�dico.
A minha opini�o sobre o seu caso?
Este bra�o, que n�o � capaz de se mover por si mesmo.
Esta pobre m�o.
Eu n�o me sinto � vontade. N�o � a minha especialidade,
n�o conhe�o a sua hist�ria cl�nica e n�o devo, acima de tudo,
por deontologia, imiscuir-me na a��o de um colega.
Mas como amigo.
Como amigo, sim.
Se j� somos amigos h� um m�s.
Mas vai ter de me responder a algumas perguntas.
Todas as que quiser.
- J� posso levantar? - Sim, obrigada.
Cuidado com essa loi�a!
Posso?
"Ave doente, asa queimada.
"Chumbo cravado no peito."
"M�quina paralisada, m�sculos sem for�a, nervos in�teis,
"ossos que apenas amparam esta pobre arquitetura."
- H� quanto tempo est� assim? - Fez quatro anos em dezembro.
Isso come�ou aos poucos ou foi de repente?
Um m�s � aos poucos ou � de repente?
Algum acidente, queda violenta, pancada?
N�o.
Que lhe tem dito o seu m�dico?
Que talvez seja consequ�ncia de uma doen�a do cora��o.
Que tratamentos tem feito?
Massagens, banhos de luz, correntes galv�nicas.
- E resultados? - Nenhuns.
�s vezes o bra�o reage, salta, estremece,
mas depois fica na mesma.
Teve algum desgosto, qualquer coisa importante ou anormal
que lhe tenha acontecido?
A minha m�e morreu.
Depois o meu bra�o n�o se mexeu mais.
Eu n�o sou m�dico de almas, sou apenas um cl�nico geral.
Estou a aborrec�-lo.
N�o mexe o bra�o porque n�o pode ou porque n�o quer?
Marcenda, se est� doente do cora��o, est� doente de si mesma.
� a primeira vez que me dizem isso.
Todos n�s sofremos de uma doen�a, insepar�vel do que somos.
Faz aquilo que somos.
Cada um de n�s � a sua pr�pria doen�a.
Por causa dela, somos t�o pouco.
Mas tamb�m por causa dela, conseguimos ser tanto!
Mas o meu bra�o n�o se mexe!
Est� a ficar muito escuro.
Doutor Reis, porque resolveu viver tanto tempo no Brasil?
Sentia um desgosto, doutor Sampaio.
Na verdade, eu n�o acredito na democracia
e abomino o socialismo.
Est� com a sua gente.
Doutor Reis, o que nos vale neste cantinho da Europa
� termos um homem de alto pensamento e firme autoridade
� frente do pa�s.
N�o h� compara��o entre o Portugal que deixou e o Portugal de agora.
O respeito das outras na��es, que agora t�m, pela nossa p�tria,
pela nossa Hist�ria e gesta, pelo nosso imp�rio.
Estou a par do que os jornais dizem.
N�o chega ler os jornais, � preciso ver com os pr�prios olhos.
Estradas, portos, escolas, as obras p�blicas e a disciplina!
Sossego nas ruas, sossego nos esp�ritos.
Uma na��o inteira entregue ao trabalho
sobre a chefia de um grande estadista.
Uma m�o de ferro com luva de veludo.
Magn�fica met�fora essa. Magn�fica.
O doutor Reis tem de ler este livro, acho muito �til.
A leitura � f�cil e vai abrir os olhos a muita gente.
Muito obrigado, doutor Sampaio, mas que livro � este?
Foi escrito por Tom� Vieira, um jornalista patri�tico.
Leia-o e depois me dir�.
Quando voltarmos, talvez o doutor j� c� n�o esteja.
Como assim?
- Pensa regressar ao Brasil. - Talvez fique.
N�o neste hotel, com certeza.
O Salvador depois diz-lhe onde vou viver.
Doutor Reis, senhor meu pai, d�i-me um pouco a cabe�a.
D�o-me licen�a que me retire?
Provavelmente amanh� n�o nos veremos. Partimos cedo.
Se n�o ficar no hotel, deixe a sua nova morada.
Que estupidez! Que perda de tempo!
- A L�dia n�o estava bem disposta. - Que maldade lhe fez?
- Ela viu-o? - N�o autorizei.
Eu � que a vi.
- Foi a L�dia? - N�o, fui eu.
N�o o quis incomodar enquanto acabava a sua leitura.
Tentei contrariar o meu destino para ver o que se passa no mundo,
mas n�o consegui ler nada. A minha raiva atirou-os ao ch�o.
Por favor, Fernando, n�o suporto desarruma��es!
"Hitler afirma perante os camisas castanhas:
"Saiba o mundo que a Alemanha ser� pac�fica e amar� a paz
"como jamais povo algum no mundo soube am�-la."
E ao mesmo tempo, 250 mil soldados alem�es
est�o prestes a invadir a Ren�nia.
E vem Lloyd George, o da nossa mais antiga alian�a,
afirmar que Portugal est� muito favorecido de col�nias
em compara��o com a It�lia e a Alemanha.
A p�rfida Albion, a mesma que impediu
que vingasse o mapa cor de rosa!
Ainda quer mais?
Pobre e triste mundo.
Gostava de lhe perguntar o que ficar� do seu t�o propalado
Quinto Imp�rio, Fernando, se formos esbulhados, humilhados,
enganados outra vez.
O Quinto Imp�rio � esp�rito, n�o � mat�ria.
Se o Quinto Imp�rio foi para mim intui��o,
como pode ter-se transformado em certeza vossa?
Melhor que me tivesse calado, apenas assistindo.
Como eu sempre fiz. Apenas assistindo.
S� estando mortos assistimos.
E nem disso sequer podemos estar certos.
Morto sou eu, vagueio por a�, paro nas esquinas.
Vejo atos e palavras e n�o os posso emendar.
Explicar, resumir num ato s�, numa palavra �nica,
que tudo exprimisse de mim,
ainda que fosse para p�r uma nega��o no lugar de uma d�vida,
uma escurid�o no lugar da penumbra, um n�o no lugar de um sim.
E o pior, caro Reis, � que � irremedi�vel.
O gesto que n�o fiz, a palavra que n�o disse.
Se um morto se inquieta tanto, a morte n�o � sossego.
N�o h� sossego no mundo, nem para os mortos nem para os vivos.
Ent�o onde est� a diferen�a?
Os vivos ainda t�m o tempo, mas tamb�m para eles vai acabando.
Para fazerem o gesto, para dizerem a palavra.
Que gesto? Que palavra?
N�o sei, morre-se de a n�o ter dito, morre-se de o n�o ter feito.
� por isso que a um morto custa tanto aceitar a sua morte.
- Meu caro Fernando, voc� tresl�. - Eu j� nem leio.
Acabe l� o seu pequeno-almo�o. Eu volto mais tarde.
Vem a� algu�m.
- De certeza que volta? - � melhor dizer "provavelmente".
Certezas nunca as tenho.
Est�s zangada?
Infeliz, triste?
H� cinco dias que n�o apareces.
Eu volto logo � noite.
Fernando!
Vi-o de longe e pressenti que se abrigasse aqui.
Hoje vou deixar que eles me vejam.
Pensariam que voc� ensandeceu a falar sozinho,
mesmo que o fizesse em voz baixa.
Est�o todos com ar carregado. S�o os ventos de Espanha.
- � o comunismo que n�o tarda. - Tive uma ideia, vamos divertir-nos.
Vem a� o Carnaval, voc� vai disfar�ar-se de domador.
Bota alta, cal��o de montar, casaco encarnado com alamares.
Eu virei de Morte.
Uma malha preta com os ossos pintados.
Voc� a estalar o chicote, eu a assustar as velhas,
os dois a apalpar as raparigas.
N�o estamos em idade para esses gozos.
Fale por si, eu deixei de ter idade.
Voc� consola-se nos bra�os da sua L�dia, eu nem isso tive.
Que diabo!
Fernando Pessoa!
� burgesso, andas atr�s de mim?
�s maricas ou est�s com pressa de morrer?
Pensei que fosse um amigo. Pela voz, sei que n�o �.
Quem te disse que n�o estou a fingir tamb�m a voz?
- Desculpe. - Vai bardamerda!
Pe�o desculpa, doutor, mas tem aqui uma contraf�
da Pol�cia de Vigil�ncia e Defesa do Estado.
Ent�o, menina, est� pronta?
- Jantamos com o doutor Reis? - N�o.
Vamos jantar com um casal espanhol. � gente elegante.
Deixamos o doutor Reis sozinho?
Filha, tive conhecimento de umas coisas graves.
N�o � conveniente que nos mostremos em p�blico com ele.
Que coisas, meu pai?
O Salvador contou-me.
O doutor Reis foi chamado � Pol�cia de Defesa do Estado.
Francamente, n�o me surpreende. Sempre achei que havia ali mist�rio.
- � pol�cia? - � Pol�cia de Estado.
- Mas ele � m�dico, veio do Brasil. - Sabemos n�s l�!
Ele � que diz que � m�dico e pode ter vindo fugido.
Pai, ele ajudou-me.
�s uma crian�a, n�o conheces a vida.
Preferia jantar sozinha consigo.
O hotel est� cheio e j� combinei com o casal de Madrid.
Quero saber o que se passa por l�. Vamos?
N�o me sinto nada bem neste vestido. N�o gosto dele.
Importa-se de ir descendo? Eu vou j� ter consigo.
N�o demores.
"O meu pai n�o quer que nos vejam juntos.
"Vou jantar com espanh�is que n�o conhe�o.
"Tenho pena de n�o o ver, mas � melhor assim.
"Mal cheg�mos e logo lhe disseram da sua chamada � pol�cia.
"O meu pai fugir� a que o vejam consigo.
"Amanh�, entre as tr�s e as tr�s e meia,
"passo no Alto de Santa Catarina. Se quiser, conversaremos um pouco.
"Eu gostaria muito."
"Que nau, que armada, que frota pode encontrar o caminho?
"E para onde, pergunto eu? E qual?"
Isto n�o estava aqui.
Voc� n�o est� com boa cara.
A brisa do rio n�o me incomoda.
De certeza � mulher a pessoa que voc� espera.
Bravo, trocou a sua L�dia et�rea por uma L�dia de encher as m�os.
Agora est� aqui � espera de outra dama, feito D. Jo�o.
Nessa idade, duas em t�o pouco tempo!
Para 1003 n�o lhe falta muito!
Os mortos s�o piores que os velhos.
Se lhes d� para falar, perdem logo o tento na l�ngua.
� aquela rapariga?
Nada feia, um pouco magricela para o meu gosto.
- S�tiro oculto, v�-se embora. - At� um dia destes.
Deixo-o a namorar a donzela. Mas voc� desilude-me.
Amador de criadas, cortejador de meninas,
voc� que via a vida � dist�ncia.
A vida, Fernando, est� sempre perto.
Pois a� lha deixo, se a vida � isso.
Podia ser pai dela.
� um arranjinho.
Estava a falar sozinho?
N�o.
Estava a recitar uns versos escritos de um amigo que faleceu h� pouco.
Talvez conhe�a. Fernando Pessoa.
Tenho uma vaga ideia do nome.
N�o me lembro de alguma vez ter lido versos dele.
"Entre o que vivo e a vida, entre quem sou e quem estou,
"durmo numa descida, descida em que n�o vou."
Foram esses os versos que esteve a dizer?
Podiam ter sido feitos por mim. S�o t�o simples.
Mas foi ele que os escreveu.
Como est� a sua m�o?
Tenho-a aqui na algibeira, como um p�ssaro morto.
N�o deve perder a esperan�a.
Qualquer dia vou a F�tima, a ver se a f� ainda me pode salvar.
- Tem f�? - Vou � missa, confesso-me, comungo.
- Fa�o o que os cat�licos fazem. - N�o me parece convicta.
� jeito meu n�o p�r muita express�o no que digo.
Eu queria v�-lo.
Falar-lhe.
Amanh� vou para Coimbra e tive medo de n�o arranjar outra oportunidade.
Mas marquei muito mal o s�tio para uma pessoa que esteve doente.
- Como � que sabe? - Num hotel sabe-se tudo.
Est� preocupado com a ida � pol�cia?
De modo algum.
Vivi muitos anos no Brasil e nunca fui inquietado com isso.
- Aqui menos raz�es h�. - Ainda bem que assim pensa.
Volto a Lisboa daqui a um m�s.
N�o vou saber o que se vai passar consigo na segunda.
Quero muito saber. Escreva-me, por favor.
Para a Posta Restante de Coimbra.
Uma carta misteriosa enviada de Lisboa.
N�o fa�a tro�a. Eu n�o quero ter de esperar um m�s.
Se n�o receber not�cias minhas ser� sinal que fui metido
numa l�brega enxovia,
ou estarei fechado na torre mais alta deste reino,
onde a Marcenda ir� para me salvar. - Isso n�o vai acontecer.
T�o tarde.
Tenho de ir ter com o meu pai.
Logo descerei para jantar. Cumprimentarei o seu pai ao longe.
A si n�o, para n�o lhe criar problemas.
Mas des�a, por favor, assim poderei v�-lo.
Marcenda, porque me quer ver?
N�o sei.
Cebola!
Venha. O doutor-adjunto vai receb�-lo.
Desculpe.
� ent�o m�dico?
Sim, sou m�dico. Vim do Rio de Janeiro h� dois meses.
Esteve sempre hospedado no "Hotel Bragan�a"?
Sim.
Em que barco viajou?
No "Highland Brigade", da Mala Real Inglesa.
Desembarquei em Lisboa no dia 29 de dezembro.
- Viajou sozinho ou acompanhado? - Sozinho.
- � casado? - N�o, n�o sou casado.
Quantos anos viveu no Brasil?
Fui para l� em 1919, � s� fazer as contas.
Gostava que me dissesse porque fui chamado a esta pol�cia.
Responda s� ao que lhe pergunto.
Houve um motivo especial que o tenha levado a emigrar para o Brasil?
Emigrar apenas.
Em geral, os m�dicos n�o emigram. N�o tinha doentes aqui?
Tinha, mas queria conhecer o Brasil, trabalhar l�, apenas isso.
Os emigrantes portugueses regressam �s vezes,
do Brasil nunca.
Eu voltei.
E insisto que n�o compreendo o objetivo deste interrogat�rio.
N�o � um interrogat�rio.
Nenhuma das suas declara��es est� a ser registada.
Menos entendo ainda.
Quis conhec�-lo.
Um portugu�s m�dico que ganha bem a sua vida no Brasil,
regressa 16 anos depois, est� num bom hotel h� dois meses,
sem trabalho.
Quem lhe disse que n�o vou trabalhar?
Ando � procura de um consult�rio.
S�o quest�es que n�o podem ser tratadas levianamente.
Que amigos teve no Brasil?
Quem s�o agora os seus amigos em Portugal?
As suas perguntas dirigem-se agora � minha vida particular,
n�o tenho obriga��o de responder.
Ou exijo a presen�a de um advogado.
Tem advogado?
N�o, mas posso contratar os servi�os de um.
Os advogados n�o entram aqui.
Mas ainda n�o foi acusado de qualquer crime,
isto � apenas uma conversa.
Mas n�o acha estranho que o senhor doutor
tenha partido de Portugal logo depois de uma revolta
e tenha voltado do Brasil pouco depois de outra revolta?
N�o havia pensado nisso. Coincid�ncias.
Estranhas coincid�ncias.
N�o acha Portugal diferente agora?
N�o poderia responder, n�o sa� de Lisboa.
Lisboa, n�o a acha tamb�m diferente?
16 anos trazem mudan�as.
H� sossego nas ruas, o Governo da ditadura nacional
p�s o pa�s a trabalhar. - N�o duvido.
H� patriotismo, dedica��o ao bem p�blico.
Tudo se faz pela na��o.
Felizmente para os portugueses.
Felizmente para si, que tamb�m � um deles.
N�o rejeitarei a parte que me couber dos benef�cios.
Vi que est�o a criar tamb�m muitas sopas para os pobres.
- O senhor n�o � nenhum pobre. - Posso ser, um dia.
Em Portugal, t�o cedo n�o haver� revolu��es.
A �ltima foi h� dois anos e n�o correu nada bem
para quem se meteu nela.
N�o tenho nada a falar sobre isso, doutor-adjunto.
E acho que n�o tenho mais nada a dizer.
J� fiz as perguntas todas.
Aqui tem aqui o seu bilhete de identidade.
Victor, acompanha o senhor doutor � porta.
Ent�o adeus, senhor doutor.
Se precisar de alguma coisa j� sabe, fale comigo.
Como o senhor doutor vem! Ent�o, como lhe correu a pol�cia?
Que carga de �gua!
N�o disse nada. Logo falo com o meu amigo Victor.
O doutor n�o me disse que se ia embora.
N�o ia ficar aqui a vida toda.
Nunca mais o tornarei a ver!
N�o chores, a vida � assim. Encontros, separa��es.
- Quem sabe se amanh� n�o casas? - Casar-me, doutor?
J� me passou a idade.
Para onde � que vai?
Hei de encontrar uma morada que me sirva.
- Se quiser... - Se quiser o qu�?
Se quiser vou ter consigo nos meus dias de folga.
N�o tenho mais nada na vida.
L�dia, porque gostas de mim?
N�o sei.
- Quem �? - Sou eu.
Posso entrar?
Antes nunca pediu licen�a, porqu� agora?
A situa��o � nova.
Como dizem os ingleses, a casa de um homem � o seu castelo.
- Eu estava a dormir. - Comigo n�o tem de fazer cerim�nia.
Na cama estava, para a cama torna. Fico s� uns minutos.
Est� bem. Obrigado.
Foi para aqui que voc� veio morar? Acho isto um bocado triste.
Todas as casas muito tempo desocupadas t�m este ar.
Vai viver aqui sozinho?
Tenho a sua visita.
S� n�o o esperava na primeira noite, ainda mais com este frio.
Ainda acabo por ter de lhe dar uma chave.
N�o saberia como servir-me dela.
Tenho muito gosto na sua visita, mas...
Medo?
Confesso que fiquei assustado quando ouvi bater daquela maneira,
mas medo n�o, talvez a solid�o.
Voc� vai ter de aprender muito antes de saber o que � a solid�o.
Sempre vivi s�.
A solid�o n�o � viver s�.
� n�o sermos capazes de fazer companhia a algu�m
ou a alguma coisa dentro de n�s.
"A solid�o n�o � uma �rvore no meio de uma plan�cie,
"onde n�o existe mais nenhuma,
"� a dist�ncia que est� entre a seiva profunda e a casca,
"entre a folha e a raiz."
Ainda se demora? Tenho muito sono.
Durma quando quiser, a n�o ser que a minha presen�a o incomode.
O que me incomoda � v�-lo a� sentado, ao frio.
� isso que me incomoda.
Mas devia tirar esse roup�o. � impr�prio dormir com ele vestido.
Fernando, fa�a-me um favor.
N�o deve ter import�ncia para si ficar no escuro,
apague-me a luz do teto.
Boa noite, Ricardo.
Boa noite, Fernando.
Desculpa o desmazelo.
Hoje, quando acordei, nem f�sforos tinha para acender o g�s.
Comi umas bolachas e fui ao caf� com este aspeto.
Sexta � o meu dia de folga, venho c� fazer a limpeza.
Mas n�o vais visitar a tua m�e?
Vou l� para a semana. Isto � mais urgente.
- Vais precisar de dinheiro. - Meto do meu, depois d�-me.
Que ideia. Toma, 100 escudos devem dar.
100 escudos! Isso � uma riqueza!
Custa-me aceitar que venhas c� para fazer limpezas.
Isso que tem? Como a casa est� � que n�o pode ser.
Deixa-me dar ent�o umas lembran�as.
Eu n�o quero lembran�as.
Fa�a de conta que sou a sua mulher-a-dias.
Toda a gente deve ser paga pelo trabalho que faz.
O meu sal�rio � tratar-me bem.
At� sexta-feira, senhor doutor. C� virei para as limpezas!
Marcenda.
Vou beij�-la.
Deixe-me.
Deixe-me.
Talvez n�o deva dizer-lhe, mas eu esperava que me beijasse.
N�o sei se foi por amor ou por desespero que a beijei.
Ningu�m me beijou antes.
N�o sei distinguir entre amor e desespero.
Saber� ao menos dizer-me o que sentiu?
Como o mar deve sentir a onda.
Porque se pode sentir desesperado?
O vazio.
Ent�o n�o me ama?
- Gosto muito de si. - E eu gosto de si.
O que vamos fazer agora?
Estou aqui sentada em casa de um homem
com quem falei apenas tr�s vezes.
Vim para o ver, falar-lhe e ser beijada,
no resto n�o quero pensar.
Marcenda, em que � que acredita neste momento?
Apenas no beijo que me deu.
- Posso-lhe dar outro. - N�o.
N�o. N�o tenho a certeza de que iria sentir o mesmo.
Deixe-me ficar com este.
Agora tenho de ir.
L�dia!
N�o me agarre, eu estou muito suada!
Vais tomar um caf� e comer um pastel de nata.
Ainda � cedo, depois tomas um banho para ficares fresca.
Tem l� algum jeito tomar banho na sua casa?
- Onde � que isso j� se viu? - N�o se viu, mas vai-se ver.
Vais mesmo tomar um banho.
V� l�, n�o olhe para mim dessa maneira.
Nunca ningu�m me viu assim. V�-se l� embora.
N�o te vistas, enxuga-te s�.
Suba ao banco.
Suba, que eu n�o posso.
Oi�a.
"Meu amigo, recebi as suas not�cias que me agradaram muito..."
Principalmente a segunda carta, que diz que come�ou a dar consultas.
Da primeira tamb�m gostei, mas n�o fui capaz de perceber tudo
quanto nela escreveu, ou tenho algum medo de entender.
Afinal, n�o quero parecer-lhe ingrata,
sempre me tratou com respeito e considera��o.
S� me pergunto o que � isto, que futuro h�,
n�o digo para n�s, digo para mim.
Eu n�o sei o que o meu amigo quer, nem o que eu quero.
Se a vida fosse toda certos momentos, aquele momento...
Mas a vida � tamb�m este meu bra�o esquerdo
que est� morto e morto ficar�.
A vida � tamb�m aquele tempo que separa as nossas idades,
demasiado tarde ou cedo demais.
Por�m, gostaria de n�o perder a sua amizade,
que para mim � bastante riqueza. De que me serviria desejar mais?
At� breve, meu amigo. Darei not�cias quando for a Lisboa,
se isso ainda acontecer.
"... aquele tempo que separa as nossas idades.
"Demasiado tarde ou cedo demais."
Julguei que n�o mais voltava.
H� uns dias fui visit�-lo, mas percebi que voc� estava
ocupado com a L�dia.
N�o esperava que fosse t�o persistente amante.
E a rapariga simp�tica, fina, a do bra�o paral�tico?
Marcenda.
Um bonito ger�ndio. Voc� gosta dela?
N�o sei.
- E da L�dia? - � diferente.
Mas gosta ou n�o gosta?
- A mim o corpo dela nunca se negou. - E isso que prova?
Por favor, deixe de fazer perguntas sobre a minha intimidade.
Porque � que n�o voltou a aparecer?
- Por enfado. - De mim?
Tamb�m de si.
N�o por ser voc�, mas por estar desse lado.
- Que lado? - O dos vivos.
� dif�cil a um vivo entender um morto.
E a um morto n�o ser� tamb�m dif�cil entender um vivo?
Um morto tem a vantagem de j� ter estado vivo.
A morte � uma esp�cie de consci�ncia.
"Uma esp�cie de consci�ncia".
Uma vez voc� escreveu: "Ne�fito, n�o h� morte."
Estava enganado. H� morte.
E o que me tem enfadado nem � voc�,
� este jogo entre a mem�ria que puxa e o esquecimento que empurra.
Um jogo in�til.
O esquecimento ganha sempre.
Est� a arrefecer. Vamos para casa.
L� podemos conversar mais um bocado.
- N�o espera visitas? - N�o.
- Pode ficar l�, como no outro dia. - Sente-se s�?
Sim, mas n�o ao ponto de implorar companhia.
Acho que at� a um morto h� de apetecer
estar sentado num sof� confort�vel sob um telhado.
- Voc� nunca foi ir�nico! - E n�o o estou a ser agora.
Venha.
Por estes s�tios a esta hora, senhor Victor?
Calhou, senhor doutor, calhou.
Venho visitar uma parente ali no Conde Bar�o.
E o senhor doutor, j� n�o vive no "Hotel Bragan�a"?
N�o, eu moro ali. No segundo andar.
J� sabe, se precisar de alguma coisa � s� aparecer.
Obrigado.
Estranho.
Imagine voc� que agora sonhei que estava vivo.
Como?
Ilus�o sua, talvez.
Caro Reis, vida e morte � tudo um.
Fernando, voc� j� me disse tr�s coisas diferentes.
Que h� morte, que n�o h� morte,
e agora diz-me que vida e morte s�o o mesmo.
A �ltima afirma��o resolve a contradi��o das duas primeiras.
Diga-me o que se passa no mundo. H� cinco meses que n�o sei nada.
Meu caro Fernando, estamos a entrar em religios�ssimos tempos.
Est�o a utilizar Deus como avalista pol�tico.
Na Alemanha, Hitler fala e � como se a ab�bada de um templo
ca�sse sobre a cabe�a do povo alem�o.
Para a juventude alem�, Hitler � Deus!
Por c�, ainda vamos mais longe.
O Arcebispo de Mitilene afirmou que Portugal � Cristo
e que Cristo � Portugal.
Como?
Escrito em todos jornais com todas as letras.
"Portugal � Cristo, Cristo � Portugal."
Ai esta terra, ai esta gente!
Se Portugal � Cristo e Cristo � Portugal,
� bom saber que Virgem nos pariu, que diabo nos tentou,
que Judas nos traiu, que pregos nos crucificaram,
que t�mulo nos esconde, que ressurrei��o nos espera!
Esqueceu-se dos milagres. Agora � que Portugal se vai cumprir.
S� me resta morrer!
Fernando...
Pobre de mim, nem isso me resta.
Fa�a o favor de entrar.
Como tem passado, Marcenda? Como vai o seu pai?
Ele n�o p�de vir, manda-lhe cumprimentos.
Se precisar de si, chamo-a.
Eu gosto de si, Ricardo, s� que n�o sei quanto.
Um homem da minha idade a fazer declara��es de amor
pode ficar rid�culo.
A mim soube-me bem l�-las.
Agora sabe-me bem ouvi-las.
Marcenda, case comigo.
- Case comigo. - N�o, n�o!
N�o ser�amos felizes.
Tenho de ir.
"Anuncio ao povo italiano e ao mundo que acabou a guerra da Eti�pia!"
"As tropas de Badoglio a chegar.
"Povos po�ticos, � lingu�stico donaire, acordai!
"Addis-Abeba � a Nova Flor.
"A Nova Flor est� em chamas, as ruas cobertas de mortos,
"as ruas est�o cobertas de sangue, o sangue das crian�as!
"Saqueadores assaltam as casas, violam, degolam!
"Mulheres violentadas trespassadas com lan�as, contra os muros,
"ca�das!
"Vem sentar-te comigo, L�dia, � beira do rio, no fim do rio.
"� junho e, ardente, a guerra j� n�o tarda.
"A palidez do dia � levemente dourada.
"N�o tenhas nada nas m�os, porque s�bio � o que se contenta
"com o espet�culo do mundo.
"Ardem casas, saqueadas s�o as arcas e as paredes."
"Ardem casas,
"saqueadas s�o as arcas e as paredes,
"mas quando o rei de marfim
"est� em perigo,
"o que importa a carne e os ossos
"das irm�s, das m�es e das crian�as,
"se carne e osso..."
"Faz hoje oito anos que o professor Ant�nio de Oliveira Salazar..."
"... penedo convertido,
"mudado em jogador..."
"Amanh� � dia de festa, celebram-se os 47 anos
"da vida de Salazar."
Senhora de F�tima, permiti que eu oi�a!
Senhora de F�tima, permiti que eu ande!
Senhora de F�tima, sarai-me!
Senhora de F�tima, d�-me vida!
Mulher de pouca f�.
Milagre! Milagre!
Acorde. J� cheg�mos.
Porque v�o com tanta pressa?
A maioria vai fazer a p� 20 quil�metros at� � Cova da Iria.
- N�o h� outro meio de chegar? - H�, mas tem de apressar-se.
As camionetas da carreira s�o poucas e as filas s�o grandes.
Deixe-me sair, eu sou m�dico.
Desculpe, minha senhora. N�o h� nada a fazer.
Meu pai, meu pai...
Ele j� vinha muito doente, devia ter ficado em casa, mas teimou.
Disse que se enforcava se o deix�ssemos.
Veio morrer longe. Ningu�m foge ao seu destino.
O senhor � servido?
N�o, muito obrigado. N�o tenho fome.
Pois olhe que � de boa vontade.
A 13 de maio
Na Cova da Iria
Apareceu brilhando
A Virgem Maria
Ave, ave Ave Maria
O que � isto, senhor, que eu n�o sei ler?
Isto � apenas um an�ncio do Brovil,
um restaurador que fortifica o corpo.
Com o passar do tempo vou-me esquecendo.
Ainda agora no Calhariz tive de puxar da mem�ria
para encontrar o caminho de sua casa.
Bastava lembrar-se do Adamastor, Fernando.
Mais confuso ficaria.
Pensava que tinha oito anos e que estava ainda em Durban.
Duas vezes perdido, no espa�o e na hora,
no tempo e no lugar.
Lembra-se do Ant�nio Ferro, Secret�rio da Propaganda Nacional?
Claro, �ramos amigos.
Devo a ele os cinco contos de reis do segundo pr�mio de "A Mensagem".
Quem foi que ganhou o pr�mio este ano?
- Carlos Queir�s. - O sobrinho da Ophelinha,
uma rapariga que trabalhava l� no escrit�rio e que eu namorei.
N�o o imagino a namorar.
Todos namoramos, pelo menos uma vez na vida.
Depois meteu-se o �lvaro de Campos e acabou tudo.
O amor � complicado.
N�o se pode queixar, tem a L�dia.
- A L�dia � uma criada. - A Ophelia � uma datil�grafa.
Em vez de falarmos de mulheres, falamos das profiss�es delas.
- E a Marcenda? - A Marcenda n�o � nada.
Isso soa-me a despeito.
A minha fraca experi�ncia diz-me que o despeito
� o sentimento geral dos homens para com as mulheres.
Meu caro Ricardo, n�s dev�amos ter convivido mais.
N�o quis assim o imp�rio.
- Estava-me a falar do Ferro. - A conversa foi por outro caminho.
O Ferro � tonto, achou que o Salazar era o destino portugu�s.
Ele � apenas o p�roco que nos batiza, crisma,
casa e encomenda.
Voc�, em vida, era bem menos subversivo.
Quando se chega a morto vemos a vida de outra maneira.
E como n�o pode responder a esta frase...
Porque � que n�o passa aqui a noite?
N�o � bom para os mortos habituarem-se a viver com os vivos.
Nem os vivos se devem atravancar de mortos.
Tenho de ir, agora h� pouca gente nas ruas e devo ser cauteloso.
J� n�o tenho for�as para garantir a minha visibilidade.
H� uns que olham atrav�s do meu corpo e nada veem.
Outros, raros, fitam-me com insist�ncia,
acham em mim qualquer coisa de estranho,
incapazes de definir o qu�.
Vamos morrer?
J� passou.
Acho que estou gr�vida.
O que foi que disseste?
Foi mesmo isso que ouviu. Estou gr�vida.
N�o tivemos cuidado.
Pensas em deixar vir a crian�a?
Sim, vou deixar vir o menino.
Como sabes que � um rapaz?
Se n�o quiser perfilhar o menino n�o faz mal.
Fica sendo filho de pai inc�gnito, como eu.
Distraia-me. Conte-me esc�ndalos.
Olhe...
...vou ser pai.
Voc� est� a brincar comigo?
Se um homem vai para a cama persistentemente com uma mulher,
s�o muitas as probabilidades de fazer um filho.
Quem � a m�e? L�dia, Marcenda, uma terceira?
Voc� � capaz de tudo!
N�o h� terceira e eu n�o me casei com a Marcenda.
Da sua Marcenda s� teria um filho se casasse com ela.
Voc� conhece bem as educa��es e as fam�lias.
Uma criada n�o tem complica��es, n�o �?
�s vezes.
Voc� � m�dico, sabe o que fazer.
Agora no desemprego e... Fernando, a L�dia quer ter o filho.
Perdeu o emprego?
Outro problema. Menor, sem d�vida.
Que vai fazer?
Fugir aos problemas? Voltar para o Brasil?
Tenho dias que s�o como se l� estivesse,
tenho outros que s�o como se nunca l� tivesse estado.
A flutuar no meio do Atl�ntico, nem c� nem l�.
Como todos os portugueses.
Agora uma vida nova, mulher e filho.
N�o me vou casar com a L�dia.
E ainda n�o decidi se vou perfilhar a crian�a.
Meu caro Ricardo, se me permite, isso � uma safadice.
O �lvaro de Campos tamb�m pedia emprestado e n�o pagava.
O �lvaro de Campos era um safado!
Um filho!
N�o me diga que lhe d�i nunca ter tido um filho.
- Quem sabe? - Tem d�vidas?
Eu sou a mais duvidosa das pessoas.
Algu�m com humor poderia dizer que sou o mais duvidoso dos Pessoas.
Posso ler-lhe uns versos que escrevi para a Marcenda?
N�o vale a pena.
Conhe�o os seus versos de cor, os feitos e os por fazer.
A �nica novidade ser� estar a� o nome de Marcenda,
o que para mim j� n�o � novidade. - N�o est� a ser am�vel.
Leia l� o primeiro verso.
"Saudoso j� deste ver�o que vejo...
"L�grimas para as flores dele empregue."
- Acertou. - Sabemos tudo um do outro.
Haver� alguma coisa que s� a mim perten�a?
Provavelmente nada.
Pol�cia!
Que ningu�m se mexa, ou disparo! Agarrem-no!
As algemas! Tudo preso!
Chefe, fugiu.
Cambada de incompetentes! Um cerco t�o bem combinado!
Ou falam ou ficam aqui mortos!
Quem � o tipo que fugiu? O principal?
Corta!
Saiu tudo muito bem, n�o quero repetir nada.
Senhor Lopes Ribeiro, n�o pode ser, a pol�cia fica mal vista.
� um descr�dito para a corpora��o.
Sete alfaiates para apanhar uma aranha e ela foge?
Quer dizer, a mosca. A aranha somos n�s.
Fica tudo muito mal. o principal fugiu!
Eu digo-te o que est� escrito no gui�o.
Se o apanh�ssemos agora, acabava j� a fita.
N�o faltam teias no mundo. Escapa-se de umas, morre-se noutras.
Ele vai hospedar-se numa pens�o com um nome falso
e nem sonha que a aranha dele � a filha da dona da pens�o.
Uma rapariga s�ria, nacionalista,
que lhe vai dar a volta ao cora��o e ao miolo.
As mulheres ainda s�o a grande arma, umas santas!
Sendo assim, est� bem. O senhor Lopes Ribeiro � um s�bio.
Um grande plano do pol�cia?
Sim.
Tudo preso, tudo preso!
Que cantoria � esta?
"Cara al Sol con la Camisa Nueva".
� o hino da Falange Espanhola.
O hino dos que v�o restaurar a ordem e acabar com os vermelhos.
O meu irm�o diz que isso nunca acontecer�.
Ele n�o pode ter tantas certezas. Badajoz rendeu-se.
"Partidas as espadas, embotadas as foices,
"destro�ados os cassetetes e as mocas, Badajoz rendeu-se."
- Choras por Badajoz? - N�o sei.
A guerra � terr�vel, mas a guerra civil � pior.
Os comunistas cortaram as orelhas de 110 propriet�rios,
violentaram as mulheres deles.
Os comunistas arrancaram os olhos a um padre j� velho,
regaram-no com gasolina e deitaram-lhe fogo.
- Tudo nos jornais. - Cale-se, n�o acredito!
O meu irm�o sempre me disse que n�o se pode acreditar nos jornais!
Se a Igreja estivesse do lado dos pobres para os ajudar na terra,
os pobres davam a vida por ela.
E a Igreja n�o ca�a neste inferno onde est�!
E as orelhas? E as senhoras violadas?
� horr�vel!
Mas o meu irm�o diz que enquanto os pobres est�o na terra
e padecem nela, os ricos j� vivem no C�u vivendo na terra.
Respondes sempre com as palavras do teu irm�o!
O senhor responde sempre com palavras dos jornais.
N�o se publicam not�cias falsas!
"A pra�a de touros de Badajoz abriu as portas
"para receber os milicianos prisioneiros.
"Mais de 2000. Depois as portas foram fechadas..."
Isto n�o deves ouvir.
Os camisas castanhas de Hitler.
Os fascistas de Mussolini de negro.
E agora os falangistas espanh�is de azul.
S� falta decidir a cor.
N�o s� para os mais velhos, tamb�m para a Mocidade Portuguesa!
Est� �vida de ser disciplinada para servir a p�tria e a ordem.
Temos de escolher a nossa cor.
Salazar! Salazar!
Nem preto, nem castanho, nem azul.
O branco?
Suja-se muito?
O amarelo � desespero. O vermelho, Deus nos livre!
O roxo � do Senhor dos Pa�os.
S� nos resta...
...o verde.
O verde � uma boa cor, est� na bandeira.
Os nossos garbosos mo�os v�o ficar mesmo contentes.
J� s� est�o � espera de um uniforme. N�o sonham com outra coisa.
Estamos aqui reunidos, irmanados no patri�tico ideal,
para dizer e mostrar ao Governo da na��o
que somos penhores e fi�is continuadores
da grande gesta lusa,
daqueles nossos maiores que deram novos mundos ao mundo
e que dilataram a f� e o imp�rio!
Portugal! Portugal!
Mais dizemos que ao toque do clarim,
ou das tubas, clamor sem fim,
nos reunimos como um s� homem em redor de Salazar,
o g�nio que consagrou a sua vida ao servi�o da p�tria!
Salazar! Salazar!
Pedimos encarecidamente ao Governo
a cria��o de uma legi�o c�vica que se dedique inteiramente
ao servi�o da na��o, tal como Salazar se dedicou.
Com um lugar t�o bom, foi-se embora?
Se calhar estava maldisposto. Estava com a cara um bocado branca.
N�s precisamos � de homens, e um homem aguenta!
Juntos formam um feixe ou f�scio que nunca se poder� quebrar!
Salazar! Salazar!
Nunca mais vou a um com�cio.
Gostava tanto de falar com o Fernando.
"Outros ventos mais fortes v�o lev�-las...
"... as palavras.
"A Coimbra nunca chegar�o!"
Conta-me o que se passa, est�s aflita.
� por causa do menino?
- � o meu irm�o. - O que houve?
Desertou, ficou em Espanha?
N�o, veio com o barco.
Vai ser uma desgra�a!
- Uma desgra�a, senhor doutor! - Explica-te, criatura!
Os barcos v�o revoltar-se!
Quem to disse?
- Disse-me o meu irm�o. - Sempre o teu irm�o!
O que v�o fazer?
Ou v�o para Angra do Hero�smo libertar os presos pol�ticos,
tomar a ilha e esperar que haja um levantamento aqui,
ou v�o para Espanha apoiar o governo espanhol,
que ainda n�o caiu.
Quais barcos?
O Afonso de Albuquerque, o D�o, o Bartolomeu Dias.
O D�o, aquele que estava mais perto!
Por alma de todos os seus, guarde-me este segredo.
Tinha de contar a algu�m, sen�o rebentava.
N�o tinha mais ningu�m.
A minha boca n�o se abrir�.
Doutor Reis, que alegria v�-lo. Em que posso ser �til?
Aquela criada, a L�dia, est� c�?
N�o, ela n�o est�.
Ela tinha-me falado de um irm�o da Marinha
e eu, como m�dico... - Eu compreendo, doutor.
Ela saiu quando come�aram os tiros e ainda n�o voltou.
Eu digo-lhe que o senhor passou por c�.
Ela que me procure...
"Los ha llevado el diablo a los marineros!"
"Si, Don Camilo, los ha llevado el diablo."
"Entonces es hora de decir: arriba Espa�a e viva Portugal!"
- "Arriba, Espa�a!" - "Arriba, Don Camilo!"
"Os identificados encontram-se na morgue.
"Os feridos, muitos, foram detidos e levados para o hospital militar."
L�dia...
Deve estar com a m�e.
L�dia, precisas de chorar.
Precisas de quem te abrace, L�dia.
A L�dia tinha um irm�o na Marinha.
Morreu hoje.
Morreu.
N�o me lembrava deste rel�gio.
Vim para lhe dizer que n�o nos veremos mais.
Para onde � que voc� vai?
O meu tempo chegou ao fim.
Agora sou eu que pergunto. Para onde � que voc� vai?
- Vou consigo, n�o �? - Devia ficar � espera da L�dia.
Devia, mas se j� n�o lhe posso valer...
- Esse livro, para que �? - Nunca o cheguei a ler.
- N�o vai ter tempo. - Fernando, terei o tempo todo.
Engana-se, a leitura � a primeira virtude que se perde.
Levo-o na mesma. Deixo o mundo aliviado de um enigma.
Talvez ele acabe por gritar:
"Aqui, onde o mar acabou e a terra espera!"
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