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Um filme de
Esta música, senhoras e senhores, é...
O CASO DO SONHO DE TRÊS LADOS
... como aquelas vezes em que estamos em casa
com músicos que sabem como ir mais além,
a quem nada escapa.
Quando não existe nada, eles continuam e entram no espaço que querem entrar.
Se não tiverem um piano, usam uma tábua de lavar, para fazerem música.
Se não tiverem bateria, usam uma lista telefónica.
Eram algumas coisas que costumávamos fazer,
eu e um pianista.
Por vezes, até fazíamos dinheiro em festas caseiras.
Conhecer o Rahsaan
é conhecer a sua exploração inicial do som.
Como, quando era menino,
pegou numa mangueira de jardim, cortou-a
e usou-a como trompete,
tentando fazer música com uma mangueira.
Conhecer Rahsaan Roland Kirk
é compreender o que terá sido para um adolescente
ir para Nova Iorque
tocar música, música jazz.
Mas não apenas como adolescente,
mas como um jovem invisual.
Imagine a coragem.
Conhecer a sua percepção rudimentar do som.
Ele conhecia o poder do som,
a física do som,
sabendo que podia deslocar o ar com o som.
Podia fazer notas com o som
e fazer mover as pessoas com o som.
Para ele, era tudo o que havia, a sua única realidade.
O som era a vida dele.
O Charlie Parker inventou o bebop.
O John Coltrane criou um novo vocabulário linear no saxofone.
O Rahsaan fazia coisas harmónica,
melódica, sónica e fisicamente
que nunca tinham sido, nem voltaram a ser, vistas ou ouvidas.
Conhecê-lo é conhecer um homem que era um agitador,
que falava sem rodeios,
que era político, determinado,
amoroso, preocupado, real,
um homem que tinha um propósito, muitos propósitos,
mas que também sabia rir.
Sobretudo, era um homem sintonizado com o que o rodeava.
Ainda o ouço dizer:
"Tudo pode ser música, se for desenvolvido e cultivado,"
"desde o sussurro do Sol, às coisas aqui da Terra."
Roland, quando é que isto começou?
Que idade tinhas quando decidiste tocar um instrumento e qual foi ele?
Comecei com o trompete.
Na verdade, comecei com uma corneta quando tinha 6 ou 7 anos,
porque queria ser eu a tocá-la num acampamento de verão,
onde costumava ir com os meus pais.
Da corneta, passei para o trompete
depois, houve um médico de família que decidiu que eu não devia tocá-lo.
Era novo e deixei-me influenciar por ele. Tinha uns 9 anos.
Então, um dia, ouvi...
... quando tinha 11 ou 12 anos,
um dos meus amigos a tocar um saxofone em dó
e fiquei muito interessado.
Ia a casa dele tocar todos os dias.
Interessei-me pelo saxofone.
Agora, teremos a nossa bela secção de sopro,
que parece estar muito animada esta noite.
Esta secção de sopro tem-se mantido junta há 20 anos.
Junta na mesma boca.
Vou tocar algo que a secção de sopro do Duke Ellington tocava muito bem.
O Rahsaan tocava qualquer coisa. Até uma mangueira de jardim.
Tocava com um bloco de madeira, um coco,
um oboé, um saxofone barítono,
um gravador, uma flauta de plástico para crianças.
Cheguei a ouvi-lo tocar com uma calculadora falante...
Fazia música com tudo aquilo em que tocava.
Levou tudo ao extremo.
Tudo o que fazia, levava-o o mais longe possível.
O Rahsaan sabia que, se quisesse,
podia usa partes do cérebro que nós normalmente não usamos.
Creio que há médicos que dizem que usamos que parte do nosso cérebro?
- Uma pequena parte. - Uma pequena parte?
- Acha que ele usava mais? - Eu sei que usava!
Sem dúvida.
Penso que é a primeira vez na história ocidental da música,
no que se refere a instrumentos de sopro,
que vão poder ouvir o seguinte.
Irá dividir a mente em duas partes.
É como se uma parte dissesse "U Bla Di"
e a outra dissesse "O que quer ele dizer?"
Por outras palavras, são duas melodias diferentes.
Vamos tocar a velha melodia americana "Sentimental Journey"
e a melodia discutível
"Dizem que Dvorák era negro, mas os brancos dizem que era branco."
O que é que tu achas?
Digo: "Quero lá saber."
Primeiro, irão ouvir a antiga melodia
e depois, ouvirão a outra melodia, da sinfonia "Novo Mundo"
e vamos juntá-las.
Se não as ouvirem ao mesmo tempo, em simultâneo da mesma boca,
convém irem ao otorrino.
Quando tinha 15 anos, já era um saxofonista profissional.
Quanto tempo se passou até ter tido a ideia desta técnica multi-instrumental?
E de onde veio a ideia?
A ideia veio de vários sonhos que eu tive.
Sentia-me frustrado quando treinava todos os dias,
e quando ia dormir, tinha estes sonhos
em que ouvia instrumentos diferentes em simultâneo.
E um dos sonhos era muito claro,
porque eu aparecia a tocar dois instrumentos em simultâneo.
Então, depois disso, fui à procura dos instrumentos que ouvi nos sonhos
em lojas de antiguidades e todo o tipo de lojas de música.
Ele foi à procura daqueles instrumentos na cave de uma loja de música, no Ohio,
e encontrou-os.
Portanto, diria que esses sonhos ditaram parte da vida dele.
Tudo o que ele fazia emanava disso.
Dedicou-se a ser ele próprio,
que é o que fazem todos os grandes artistas.
Mas não à custa da tradição,
ele não fazia aquilo com os três instrumentos só para ser diferente,
era algo que ele ouvira num sonho.
A religião dele era a "religião dos sonhos".
Nunca lhe perguntei o que significava isso,
mas quando o entrevistavam, de tempos em tempos,
essa era uma das perguntas favoritas.
"Rahsaan, qual é a sua religião?"
e ele respondia: "A religião dos sonhos."
Rahsaan Roland Kirk
ordeno-te que vás dormir e sonhar.
Ah, sonhar! E vou sonhar com o quê?
Já sonhei tudo o que tinha para sonhar.
Estou a tentar acordar e ganhar dinheiro com os sonhos
que as pessoas têm tido com os meus sonhos.
Conquistar o mundo? Com eletricidade? Nem pensar.
Sabes que não sou apologista disso.
Se eu te desligar da tomada, o que acontece?
Somos nós que temos acordado o mundo.
Tu não queres que eu vá dormir. Puxa a ficha de ti próprio e morres.
Tenho um computador em casa que é mau e foi inventado em 1930 e tal,
uma pianola. Tu tens medo desse computador.
O computador não é fixe?
Fui comprar a casa de alguém e havia uma mulher a fazer amor com um computador,
mas ela não tinha satisfação.
Rahsaan Roland Kirk
ordeno-te que acordes e pares de sonhar.
Ei!
Sonhar?
Sonhar com o quê?
Ele via os sonhos como motivadores ou inspiradores.
Sei que ele ouviu o nome Rahsaan num sonho.
O Rahsaan nasceu Ronald Theodore Kirk,
e não sei quando mudou o nome para Roland Kirk,
mas creio que foi em resultado de sonhos.
Mais tarde, quando o conheci como Roland Kirk,
ele mudou o nome para Rahsaan Roland Kirk,
mas ele queria que o tratassem por Rahsaan.
E isso veio dos sonhos.
Ele explicou que ouviu num sonho algo como um "som errante"
e as pessoas a chamarem-no "Rahsaan, Rahsaan!"
Por isso, mudou o nome dele.
Não foi algo que apresentou para vender mais discos ou ter mais reconhecimento,
sentiu intuitivamente que era o correto a fazer e fê-lo,
como fez muitas outras coisas dessa forma.
Se tocar seis ou mais instrumentos de jazz ao mesmo
corre o risco de ser apelidado de artista de circo em vez de músico,
mas Rahsaan Roland Kirk está habituado a isso.
É cego, vem do Ohio, e se o vir a tocar,
torna-se claro que usa todos estes instrumentos não como uma engenhoca,
mas em resultado de um desejo de chegar ao público
através do máximo de níveis possível.
Ei-lo a tocar com os The Vibration Society.
Uma das nossas composições que muito nos orgulha tocar:
"Serenada a um Cuco".
Ele era criticado por algumas coisas,
porque acho que era mal entendido.
Diziam que usava engenhocas. Ele detestava isso.
Acho que não era nada disso,
acho que, essencialmente, queria ser sentido.
Queria que o público o sentisse.
É como quando alguém tenta chamar a atenção de uma criança de 4 anos
e a abana. Ele fazia isso constantemente ao público.
Ele era assim, comandava a atenção do público,
e algumas das coisas que ele fazia eram "fora da caixa",
ou não era a forma como um músico de jazz normal fazia.
Quando as pessoas não o compreendiam ou definiam mal as ações dele,
ele ficava magoado, perturbado e muito vulnerável.
E não o escondia.
Às vezes, parecia que quase chorava, não como um bebé,
mas dizia: "Meu, fizeram isto e disseram aquilo..."
Ficava muito...
Acha que tem sido honestamente avaliado e aceite como o génio musical que é?
Ou as pessoas veem-no de outra forma por tocar tantos instrumentos?
Bem, segundo certas opiniões,
opiniões de empresários...
... durante muitos anos, o facto de eu tocar vários instrumentos em simultâneo,
foi alvo de chacota.
As pessoas achavam que eu usava artimanhas.
E ao longo de muitos anos, tivemos pessoas como o Yusef Lateef,
e eu, o grande e já falecido Eric Dolphy e o John Coltrane...
... sinto que fomos alguns dos que introduziram esta coisa
de tocar muitos instrumentos.
E ao verem-me ano após ano, e agora que estou aqui com a minha música,
é difícil continuarem a desconsiderar-me,
porque ela já influenciou muitas pessoas.
Faço tudo por uma razão.
Nada é uma artimanha.
Tenho de fazer o que sinto.
O Rahsaan procurava um baixista, perguntou-me se estava interessado
e eu disse que sim. Convidou-me a passar por lá,
eu apareci, disse-lhe quem era, estendi-lhe a mão e cumprimentei-o,
e quando começámos a tocar, fiz uma pergunta de palerma:
"Sr. Kirk, onde está a música?"
E todos se partiram a rir,
porque não havia música.
Então, fui até lá e tive o meu baptismo de fogo.
Tudo o que fazia, tinha de fazer de ouvido,
tinha de estar decorado.
Foi assim que comecei a tocar com o Sr. Rahsaan Roland Kirk.
Só para terem uma ideia de como o Rahsaan lidava com a sua cegueira,
naquele tempo, havia um sítio em Manhattan chamado East,
que era uma sala de espetáculos, Fillmore East.
O Miles estava lá, o Santana também, todas essas bandas,
e o Rahsaan também.
E nos camarins, ela pedia que desligássemos as luzes.
Eu pensava: "Mas que raio é isto?"
Ele queria que experienciássemos o que ele experienciava.
E entravam pessoas e diziam: "Está escuro porquê? O que se passa?"
E ele dizia: "Senta-te, estás com medo, não é?"
Por vezes, ia ao camarim do Rahsaan e ele tirava os óculos.
Sabe como é a nossa pupila?
Os olhos dele pareciam azuis.
Sabe o que lhe aconteceu quando nasceu?
A enfermeira pôs nitrato de prata demais nos olhos e ele perdeu a visão.
Aquelas gotas foram fortes demais para os olhos dele
e ele ficou cego. Queimaram-lhe a córnea.
E no futuro, com o avanço da tecnologia,
mesmo que quisesse fazer uma "substituição da córnea",
tal não seria possível.
Puseram-lhe o remédio errado nos olhos,
e naquele tempo, não havia advogados ao alcance de uma chamada,
nem havia transplantes de córnea.
"Lamentamos, rapaz. É a vida."
Mandaram-no para casa e teve de se virar.
Muita da sua música percorreu o mundo,
muita gente gosta dela,
mas você é cego,
ou invisual, como costuma dizer, porque não vê bem,
e gostaria de saber se tem algum problema com a sua condição,
ou as pessoas tratam-no normalmente no dia-a-dia?
Bem, Ellis, gostaria de dizer que me tratam normalmente,
as pessoas que não me conhecem.
Parecem ter uma atitude de superioridade quando me abordam.
Parecem achar que, por verem neste...
... neste planeta Terra, eu chamo-lhe "plantação Terra",
parecem achar que, por verem certas coisas,
que essas coisas não estão disponíveis para mim.
É aí que surge o confronto, ou seja,
se eu estiver com outra pessoa, elas perguntam-lhe:
"Ele quer isto ou aquilo?"
"Ele consegue pegar no copo para beber?", coisas assim.
Ou seja, em vez de falarem comigo,
parece que os olhos delas lhes dizem para falar com a pessoa que me acompanha,
e por vezes, essa pessoa não sabe como eu penso.
Para mim, isso é um desrespeito, enquanto homem,
porque é isso que sou, primeiro um homem,
e em segundo, um homem que não vê muito bem.
Ainda é quase um milagre
o que ele conseguia fazer.
Esquecíamo-nos que ele não via.
Por outras palavras, num mundo
em que as pessoas têm visão e outras capacidades,
será que as usam?
Será que usamos os dons que temos?
Eu via-o como uma pessoa que usava os seus dons
de uma forma positiva e profunda que era...
... infecciosa para os outros.
Nunca vi ninguém como o Rahsaan a fazer a respiração circular.
É uma técnica antiga,
que já vem de África, de antes da palavra escrita.
Os músicos na Índia fazem respiração circular há milhares de anos.
Terá dezenas de milhares de anos,
ninguém sabe ao certo quando é que foi inventada,
mas é quase certo que antecede a palavra escrita.
Passa por ser capaz de manter uma nota simultaneamente,
inspira-se rapidamente pelo nariz
enquanto se expele o ar que está na boca...
E faz-se circular o ar durante o tempo que se quiser.
É um ritmo, inala-se e exala-se ao mesmo tempo.
E quando se sente o ritmo... faz-se o que se quer.
Com a respiração circular, o Rahsaan conseguia manter uma nota
e controlar a dinâmica.
Fazia-o para expandir o seu pensamento musical
e não apenas para conquistar o público.
Podia fazer o que quisesse com ela.
Vi-o manter uma nota com grande impacto,
mas também o vi tocar música sem parar.
Era um fluxo de consciência.
Os pianistas e os guitarristas podem fazer isso,
mas os saxofonistas têm de parar e fazer uma pausa. Mas ele não.
Conto-lhe uma experiência que tive.
Foi numa música que costumávamos tocar, "Down By The Riverside".
Ele foi subindo, subindo... e no final, manteve a nota por muito tempo,
e enquanto ele a mantinha, o baterista não parava, o Hilton parecia um louco e...
Ele fazia respiração circular, claro.
Eu também sei fazer, mas...
... houve uma vez que...
... a minha respiração saiu fora do ritmo,
parei, respirei e entrei novamente.
E ele esticou o braço e baixou-me o trombone.
E ele continuou e acabou a música.
E no fim, disse-me: "Quando sais, é para sair."
"Não podes voltar a entrar assim."
E eu disse: "Ah, está bem." E quando voltámos a tocar a música...
... por alguma razão, a iluminação estava um pouco diferente nessa noite,
comecei a respirar e pus-me a ouvi-lo.
Conseguia ouvir a respiração dele
e pus a minha respiração em sincronia com a dele.
E devo ter estado naquela nota uns 10 minutos, porque não senti nada.
Senti a aura dele a sair e a cobrir a minha.
Senti a energia dele a puxar-me para a energia dele
e passámos a respirar ao mesmo tempo.
Eu estava consciente disso, mas não o controlava.
Foi mesmo... não diria sinistro, porque foi lindo,
mas foi profundo, não é algo que se aprenda na escola.
Não é académico.
Foi outra coisa.
E aconteceram muitos momentos como esse.
"A respiração com que eu lido vai um pouco mais fundo."
Ele fundia-se sempre com o seu ambiente.
Não havia separação entre ele e os seus instrumentos, o pessoal,
era como se tudo estivesse colado.
Por conseguinte, ele tinha passaporte para ir onde quisesse.
Não havia barreiras autoimpostas.
Se houvesse barreiras, não estavam lá por causa dele.
Se fosse por ele, não haveria barreiras e fazia tudo o que queria fazer.
Ele procurava sempre alguma coisa dentro da mente dele,
no que diz respeito à sua relação com o som.
O Rahsaan ouvia a buzina de um autocarro ou o chiar de um pneu...
... qualquer tipo de som.
Parecia que ele os arquivava,
e à noite, tentava reproduzir o som que ouvira num instrumento.
Era essa a importância que o som tinha para o Rahsaan Roland Kirk.
Ele via pelos ouvidos.
O quarto dele estava cheio de música.
Tinha discos do chão ao teto, um órgão, um piano, saxofones
e todo o tipo de instrumentos que ele usava.
Lembro-me de ele me ter dito uma vez:
"Passa por cá, quero mostrar-te uns discos."
Subimos ao andar de cima e ele disse-me para me sentar.
Sentei-me na poltrona e ele fechou a porta.
Estava escuro, claro, e ele nem acendeu as luzes,
porque não precisava de ver, sabia onde estava tudo.
E pôs a tocar discos no escuro.
Estávamos a ouvir
e, entre as músicas, ele dizia: "Ouviste aquilo?"
"O quê?"
"Está alguém lá fora na viela a remexer no caixote do lixo."
Eu conseguia ouvi-lo vagamente, se parasse para ouvir,
mas não me teria apercebido se ele não o tivesse referido.
Portanto, ele estava ciente de tudo através do som.
Costumávamos dizer a brincar que ele ouvia ao virar da esquina.
Sempre a escutar. Sempre a escutar.
O som é... como a visão, para mim.
Ele podia pôr-se a ouvir cantores da Mongólia.
O movimento das árvores, o vento a assobiar através das árvores,
aves a cantarem, cães a ladrarem.
Ele apresentou-me ao som do didjeridu australiano,
dos aborígenes australianos.
Este é o cão selvagem australiano, o dingo.
Ele tinha discos de baleias a cantarem.
Tinha discos de aves e rãs a cantarem,
e todos os sons da Natureza.
As ondas têm ritmo, os insetos têm um ritmo tremendo.
Ele estava sintonizado com todos esses sons.
Ele encontrava música onde quer que fosse,
e encontrava-a em qualquer aspeto da vida.
E também usa o nariz para tocar um instrumento?
Também se riem disso,
mas o corpo ainda faz parte de nós, também o podemos usar.
Penso nas pessoas que...
... nos povos nativos, em África,
que usam qualquer coisa para alcançar o que pretendem
com um instrumento musical.
Portanto, se temos um nariz que movimenta ar,
porque não fazer música com ele?
Desta vez, apresentamos o nariz.
Para nós, o nariz está próximo.
O nariz... sabe.
E hoje em dia, o nariz tem de passar por muitas coisas.
Poluição...
O nariz é das últimas coisas com que nos preocupamos.
Alguns de vocês dão ao nariz...
... umas amostras de vez em quando...
... mas basicamente, o nariz não recebe muita atenção.
Não saímos à rua todos os dias e dizemos:
"Tenho de comprar qualquer coisa para o nariz."
E ainda por cima, a Polícia fica de olho em nós
se comprarmos muitas coisas engraçadas para o nariz.
Todos conhecem o Jimmy Durante por ter um nariz grande,
mas vão passar a conhecer o meu, porque o meu consegue falar.
Agora vão ver o que têm perdido por não usarem o vosso nariz
de forma correta.
"O nariz sabe."
Ele estava numa categoria à parte.
Ninguém o acompanhava.
Em termos de tradição, ele era... diferente.
Todos os outros tocavam, faziam um solo, sentavam-se e não falavam.
Ele era muito político.
Ele falava de qualquer coisa.
E falava muito.
Fazia parte da apresentação dele, falava muito.
O Miles não dizia nada.
O Sonny Rollins não dizia nada.
O Horace Silver não dizia nada.
O Dizzy Gillespie dizia alguma coisa, mas a maior parte deles não falava,
e ele falava muito!
Temos de ser ciganos neste país para ganhar dinheiro.
Principalmente, se formos negros.
Temos de viajar por todo o lado.
Eu não sou amargo, sou agridoce.
Quando fala da música clássica negra, também considera o gospel e o blues?
Sim, tudo isso.
Para mim, há beleza em toda a música negra,
e metê-la numa caixa é algo que nos tem prejudicado.
Quando se diz que fulano toca rock, beltrano toca folk rock
e sicrano faz dança cigana,
eu acho que todos tocam o que as pessoas chamam jazz,
mas eu chamo-lhe música negra clássica.
E ao deixarmos que estes empresários nos programem e ponham em caixinhas,
isso mantém-nos separados,
impede-nos de trabalhar em certos clubes,
e cria uma grande confusão.
Alguns músicos mais velhos que eu, não gostavam da palavra "jazz".
O Max Roach não gostava,
o Duke Ellington e o Rahsaan Roland Kirk também não.
Penso que foi por isso que o Rahsaan surgiu com a "música negra clássica".
Ele queria garantir que o jazz teria um lugar como música clássica
e sabia descrever a sua história.
A música primitiva, a música dos tambores
e a música dos spirituals,
o gospel, o blues...
... ele podia falar-lhe imenso acerca do blues.
Eu ouço as raízes da música afroamericana na música do Rahsaan.
Tal como a ouço na música do Ray Charles.
Aquela alma,
aquela ligação à comunidade e à sua negritude.
Esta música chama-se "Blacknuss" (Negritude).
O piano tem 52 notas brancas e 36 notas negras,
e nesta música, tocaremos apenas com as 36 negras.
Neste caso, as negras estão por cima.
E se quiserem participar, as letras são B-L-A-C-K-N-U-S-S.
O Rahsaan achava que o jazz não tinha a atenção merecida,
principalmente na TV.
Os grandes músicos da época não apareciam na TV.
Ninguém sabia quem eram.
Havia imensos músicos comerciais e rock & roll na TV,
mas os artistas que criavam a energia para a música criativa e inteligente,
e não apenas para excitar adolescentes,
não eram mostrados.
E se não aparecessem em filme, daqui a 50 anos ninguém os conheceria.
Ele achava que o jazz deveria ser mais valorizado no nosso país,
porque é a nossa verdadeira arte neste país.
E, como sabem, foi isso que iniciou o Movimento do Jazz e das Pessoas,
para ver se ele conseguia pôr o jazz na televisão.
O MOVIMENTO DO JAZZ E DAS PESSOAS
O Movimento do Jazz e das Pessoas foi um encontro de músicos e amigos,
liderado por Rahsaan.
O objetivo era obter mais visibilidade para o jazz e iniciar um diálogo nacional.
Inspiraram-se nos atos de ocupação e desobediência civil
do Movimento dos Direitos Civis.
Escreveram um manifesto exigindo mais tempo de antena na televisão nacional
para o jazz, ou música negra clássica, como Rahsaan lhe chamava.
Então, decidiram interromper os programas televisivos...
A ideia do Rahsaan era comprar apitos, distribuí-los pelo nosso grupo,
introduzi-los no programa de TV
e, a certa altura, ele dava-nos o sinal
e começaríamos a soprar nos apitos em simultâneo para interromper o programa.
Isso levaria as pessoas a perguntarem qual o motivo daquilo,
e seria aí que haveria uma discussão, que não seria transmitida, claro,
porque eles desligariam as câmaras,
mas falar-se-ia neste problema e no que poderia ser feito para retificá-lo.
O primeiro programa que escolhemos, nem sei porquê
foi o "Dick Cavett Show".
Tínhamos um grupo bastante grande entre o público.
O Trevor Howard era o ator que ia ser entrevistado pelo Dick Cavett,
e estávamos todos ali a pensar quem seria o primeiro a começar a coisa.
Acho que o Dick Cavett perguntou ao Trevor Howard
como era estar em Nova Iorque, e o Trevor disse:
"Bem, já não gosto tanto." O Dick perguntou porquê e ele disse:
"É muito difícil. Restam poucos sítios onde se pode ir ouvir boa música jazz."
Era esse o sinal!
Então, levantaram-se todos, começaram a soprar nos apitos
e o programa foi interrompido.
Lembro-me do Dick Cavett a correr pelo palco com as mãos nos ouvidos.
As estações ficaram chocadas.
O Movimento dos Direitos Civis... não estava no início,
mas estava no seu auge, diria eu.
Era um período em que as pessoas celebravam as suas raízes
e sua herança cultural.
Nesse sentido, foi uma época linda na América.
As pessoas juntavam-se e estavam determinadas em fazer acontecer algo.
E tinham orgulho.
E devido a este clima de mudança e agitação na América,
os programas de notícias levaram isto muito a sério.
A primeira interrupção que fizemos apareceu a abrir o noticiário das 11.
Na altura, não havia cabo,
e os grandes canais de notícias, eram os canais 2, 4 e 7,
era o que as pessoas viam. Não havia muito mais.
E quem ligou as notícias do canal 2,
antes de aparecerem as notícias sobre o Vietname e outras,
ouviu "Um grupo de artistas negros interrompeu o programa de Dick Cavett."
Não sei o que eles acharam que íamos fazer,
mas fomos apresentados como militantes,
e quando se soube que havia este grupo e que tínhamos feito isto,
algo que lhes saiu caro, porque o programa foi interrompido
e não sei se tiveram de reconvidar os convidados,
mas ninguém queria que tal se voltasse a repetir.
E para que não houvesse mais problemas,
começámos a ver os programas a mostrarem interesse nestes músicos,
e um desses programas foi o "Ed Sullivan Show".
"Caro Rahsaan: foi um prazer conhecê-lo e falar sobre a sua vinda ao programa..."
"Com o aproximar da data, falaremos sobre o conceito, a apresentação e o material..."
A equipa do programa planeara apresentar o Rahsaan com a "My Cherie Amour",
que era uma música bastante agradável, acessível e compreensível,
e que eles acharam que o público iria aprovar.
Mas o Rahsaan tinha uma ideia totalmente diferente.
O famoso músico de jazz, Rahsaan Roland Kirk,
reuniu alguns dos maiores artistas negros de jazz do país
e aqui estão eles. Um forte aplauso para eles.
Hoje, vamos ouvir verdadeira música negra.
Queremos que o público nos acompanhe.
Roy Haynes na bateria.
Ouviram o Roy Haynes na bateria?
Verdadeiro artista, compositor e saxofonista, Archie Shepp.
Charles Mingus no contrabaixo. O Sr. Charles Mingus.
Foi maravilhoso!
Maravilhoso, maravilhoso...
Maravilhoso, maravilhoso...
O país passou por uma mudança,
relativamente ao número de negros que víamos na TV,
de afroamericanos, nas séries e tudo isso...
Sim, pode-se dizer que ele não teve influência direta nisso,
mas cada pedacinho ajudou.
Olhem! Olhem só!
Lá no céu.
Quem é?
Não é o Super-homem.
Não é a Supermosca.
É o Supereu!
O Rahsaan estava a caminho
do nível seguinte da sua música, seja lá o que isso tivesse sido.
Tinha assinado um bom contrato com a Warner Brothers,
e portanto, a carreira dele só podia continuar a subir.
Na terça-feira antes do dia de Ação de Graças, de 1975,
não me lembro da data,
mas era um dia importante, porque ele adorava feriados.
Tínhamos acabado de jantar e o Rahsaan tinha ido à cidade nesse dia.
Chegou a casa, jantámos e ele subiu.
As miúdas e eu ainda estávamos na cozinha,
creio que a limpar a louça, não sei,
e ouvi um barulho. "Meu Deus, o que foi aquilo?"
Foi aí que o cão começou a ladrar sem parar.
Tínhamos um doberman e um pequeno yorkshire terrier.
Então, decidi subir as escadas para ir ver.
E quando cheguei lá acima,
o Rahsaan estava no chão, entre a cama e a parede.
E eu comecei a gritar: "Rahsaan, Rahsaan!"
Eu percebi imediatamente o que tinha acontecido
e gritei para a Yolanda: "Vem ajudar-me a levantar o Rahsaan!"
Ligámos ao 112, a ambulância veio,
os cães ladravam que nem doidos e foi o caos.
"Kirk, o músico de jazz, ficou paralisado por uma trombose."
Se você se tivesse expressado através da música toda a vida,
todos os dias da sua vida,
se esse tivesse sido o caminho que escolheu percorrer,
e se, de repente, não pudesse voltar a fazê-lo,
o que faria?
Senta-se ao lado da cama e espera que os médicos façam um milagre,
é isso que faz.
O Rahsaan não podia falar, mas com o tempo, não sei a que altura,
a fala dele ficou desarticulada, e isso é bom quando se tem uma trombose.
Ele não mexia a perna...
É bom porquê?
Porque significa que há movimento e progressos.
Ele não conseguia mover a perna, mas acabou por conseguir mexê-la.
Todas essas vitórias eram motivo de celebração.
É assim que se recupera gradualmente,
e no caso dele, recuperou o máximo que seria possível.
Não recuperou totalmente,
mas pelo menos, ficou com um discurso audível, como dantes.
Só não conseguiu recuperar a mão para tocar os seus instrumentos, como fazia.
Muitos de nós pensámos que ele não conseguiria voltar a tocar.
Ficou magro, parecia fraco...
... debilitado.
Quando ele teve trombose, pensei que tinha sido o fim.
Fomos vê-lo ao hospital, rimos, falámos
e dissemos-lhe para ter força e essas coisas,
e ele só dizia: "Vamos voltar, não se preocupem."
Ele mandou modificar os instrumentos dele.
As notas que ele tocava em baixo
passaram a ser tocadas em cima, com uma mão.
Fiquei maravilhada com a forma como regressou,
reajustando os seus instrumentos
para poder continuar a tocar como tocava com uma mão
e a fazer boa música.
Ele não ia deixar que uma trombose, ou fosse o que fosse, o travasse.
E se olharmos para a carreira dele, vemos que ele seguiu em frente.
A maioria dos saxofones tem quatro chaves que o mindinho pressiona
para criar os graves.
Mas ele fez mais quatro chaves aqui em cima,
para fazer o que estes quatro dedos fazem.
Portanto, com este dedo mindinho, ele fazia o que estes quatro dedos faziam.
Estes três dedos tocavam normalmente, e este fazia tudo o resto.
Eu costumava vê-lo a tocar num saxofone que eu nunca vira.
Eu ficava boquiaberto.
Ao ponto de me esquecer de tocar. "Ah, devia estar a tocar!"
E pegava no trombone e entrava.
Era impressionante.
Ele criou uma forma de poder continuar a tocar.
E começou a dar concertos e a viajar.
Colocava-se virado para o público de maneira que vissem a mão que funcionava
e escondia a outra. Ele disse-me que as pessoas se sentiriam enganadas,
se soubessem que só tocava com uma mão.
A certa altura, os médicos disseram-lhe que teria de fazer diálise
três vezes por semana, mas continuou a dar concertos.
Apesar da diálise, o Rahsaan continuava a trabalhar.
Se ele tivesse diálise de manhã, e tivesse de ir ao Vanguard, ele ia!
Não sei onde ia buscar a energia, mas desafiava toda a lógica
e toda a informação médica.
Penso que tudo isso advinha da sua forte determinação
em fazer o que ele decidia que queria fazer.
Vocês também não o esqueceriam se o tivessem conhecido onde o conheci.
Por falar em desolação...
Senhor! Desolação é uma estação ferroviária
por volta das 2 da manhã de um dia da semana.
Quando entramos numa desolação dessas
e, de repente, vinda do nada, surge uma canção reconfortante,
tão cedo não a esquecemos.
Mas esta foi a primeira vez que o ouvi num aeroporto.
Eu sei que ele anda pelos terminais,
autointitula-se de agente de viagens, um "eulipião",
e diz que os seus amigos, os poetas, os artistas e músicos,
também são "eulipiões".
Ei, escutem.
Ouçam o som dele.
Ele chama-lhe o seu presente duty-free para os viajantes.
Um dia, recebi um telefonema de um tipo que trabalhava no Village Vanguard.
Não conseguia perceber bem o que ele dizia,
por causa dos choros e outros sons do outro lado da linha.
E ele disse:
"Não ouviste a notícia?" E...
Na noite anterior à morte do Rahsaan,
ele tocou numa faculdade, em Bloomington, Indiana.
Naquela noite, ele estava sossegado e distante. Percebi que algo se passava.
Ele tocou com um poder tremendo e um espírito incrível.
Na manhã seguinte, éramos para ir para Chicago.
Estávamos para sair do hotel
e eu reparei que o Rahsaan estava um pouco agitado.
Havia sempre sinais, quer ele disse algo ou não,
eu conhecia os sinais de quando algo não estava bem.
Eu estava atrás do motorista, o Rahsaan estava no banco ao lado,
eu inclinei-me para ele, toquei-lhe nas costas e disse:
"Rah, Rah."
E ele disse "Hum?" e eu "O que se passa?"
E quando ele disse "Hum?", pronto.
A cabeça caiu para trás e eu soube logo.
Nunca tinha visto ninguém morrer, mas sabia que ele estava morto.
É algo que se sabe logo.
Claro que comecei a gritar,
e o jovem que ia a conduzir arrancou como se aquilo fosse um jato.
Como eu disse, foi a primeira vez que o vi num aeroporto.
Sei que ele anda pelos terminais.
autointitula-se de agente de viagens, um "eulipião",
e diz que os seus amigos, os poetas, os artistas e músicos,
também são agentes de viagens.
Ele chama-lhe o seu presente duty-free para os viajantes.
Tradução e legendagem: FragaCampos @ docsPT.com
Produção e realização
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