All language subtitles for The world at war - extras - Ep.32 (2-¬ parte) - The Final Solution - Auschwitz

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Original subtitles

A SOLU��O FINAL PARTE 2

Narra��o

Himmler pediu para assistir a um fuzilamento.

Numa inspec��o do centro de opera��es das SS em Minsk,

cem presos foram escolhidos para uma demonstra��o.

Wolff, na altura general e contacto de Himmler no quartel de Hitler,

era um dos inspectores.

Tanto quanto me lembro, foi no fim de Agosto.

Passavam dois meses do in�cio da campanha russa

quando Hitler me mandou acompanhar Himmler

numa viagem aos territ�rios ocupados

em Minsk, na R�ssia.

Fiz isso,

e durante a viagem, e ao contr�rio das minhas expectativas

ou das informa��es que t�nhamos,

fui for�ado por Himmler a assistir a um fuzilamento.

Ele disse: "Tem sorte por estar no c�rculo chegado,

"ou seja, est� presente em todas as refei��es.

"Est� nas reuni�es de planeamento militar,

Tamb�m tem de saber o que esperamos das nossas tropas."

Tinham escavado uma vala comum.

Eles tinham de saltar para l� e ficar de barriga para baixo.

Por vezes, quando uma ou duas filas j� tinham sido fuziladas,

eles tinham de ficar em cima das pessoas que estavam mortas,

e eram fuzilados � beira da vala.

Himmler nunca vira uma pessoa morta.

Curioso como era, avan�ou at� � beira da vala comum,

uma esp�cie de buraco triangular

e olhou l� para dentro.

Enquanto olhava,

Himmler teve o azar merecido

de levar com miolos no casaco

das pessoas que tinham sido atingidas na cabe�a.

Acho que tamb�m foi parar � cara dele.

Ele ficou verde e p�lido.

N�o estava enjoado,

mas estava maldisposto e virou-se e balan�ou.

Depois, tive de avan�ar para o agarrar

e levei-o para longe da vala.

No fim do fuzilamento,

Himmler reuniu o esquadr�o de fuzilamento � volta dele,

e estava de p� no carro dele,

para estar mais alto e ver a companhia toda.

Ele fez um discurso.

Tinha visto como era dif�cil a tarefa que tinham de desempenhar

pela Alemanha nos territ�rios ocupados.

Apesar de ser tudo horr�vel,

at� para ele como mero espectador,

como devia ser ainda pior para eles que tinham de o desempenhar.

Ele n�o via outra solu��o.

Ele tinha de ser forte e decidido.

N�o os podia libertar do servi�o, n�o os podia dispensar.

Nos interesses do Reich, neste Reich de cem anos,

na primeira guerra decisiva ap�s a tomada de poder,

eles tinham de cumprir a miss�o deles,

apesar de parecer dif�cil.

Ele apelou ao sentido de patriotismo deles,

e � prontid�o em fazer sacrif�cios.

Depois, foi-se embora.

Deixou esta unidade policial a pensar no seu pr�prio futuro,

a ver se e at� que ponto conseguiam aguentar isto.

Porque para alguns era um choque que durou a vida toda.

O esfor�o psicol�gico de fuzilar pessoas indefesas todos os dias,

teve o seu efeito at� em SS com muita experi�ncia.

Mas sabiam que se falhassem, tamb�m seriam fuzilados.

Por isso, anestesiavam-se com �lcool

ou ajustavam-se, descobrindo um prazer perverso na tarefa.

Tiravam fotografias como se fossem ca�adores com as presas.

Descansavam, gozando de bons sal�rios e de seguran�a

e tiravam licen�as prolongadas.

Circulavam tantas fotos, que foram proibidas,

vistas como uma subvers�o da dec�ncia e da disciplina.

Himmler precisava de um modo mais limpo e impessoal de matar.

Lembrou-se da ordem de eutan�sia de Hitler.

Desde 1939, 50 mil deficientes mentais e loucos foram mortos,

purificando a ra�a de genes fracos.

As v�timas foram levadas para s�tios como o Instituto Hadamar.

Eram eliminadas em c�maras de g�s feitas para a ocasi�o

disfar�adas de chuveiros para diminuir as suspeitas.

Este sistema podia ser desenvolvido para tratar dos judeus.

O resultado final foi a C�mara de G�s e Cremat�rio de Auschwitz,

uma unidade feita para eliminar 2 mil corpos num turno de 12 horas.

Uma chamin� alta que escoava o fumo de cinco fornalhas,

feitas � medida pela empresa Topf and Company de Erfurt.

A descri��o real�ava o uso da gordura corporal como combust�vel.

O equipamento para cad�veres, as pe�as de metal,

as portas � prova de g�s com isolamento de borracha

e uma escotilha de observa��o com vidros duplos, tipo 100/192,

foram feitas pela Empresa de Armamento Alem�.

O arquitecto foi o Dr. Heinz Kammler,

do gabinete das SS de Economia e Administra��o.

O agente mort�fero era um pesticida comercial,

Zyklon-B, fornecido pela empresa alem� de Combate aos Vermes.

As latas continham bolinhas

que colocadas numa grelha na "Cave dos Cad�veres"

libertavam cianeto de hidrog�nio, ou �cido pr�ssico.

Desde o in�cio da guerra, campos de concentra��o foram constru�dos

� imagem de Dachau por toda a Europa ocupada.

No seu auge, Himmler controlava 20 campos de concentra��o

e 900 campos de trabalhos.

Faziam parte do aparelho para dominar os povos conquistados.

Eram geridos pelas SS e rodeados de segredo e receio.

Tudo o que ele precisava para um programa de homic�dio em massa.

No Leste, onde j� viviam as maiores concentra��es de judeus,

foram constru�dos novos campos e os antigos melhorados

para se tornarem em f�bricas de exterm�nio.

Os judeus em condi��es podiam trabalhar antes de morrerem.

Os campos ficavam perto das vias-f�rreas.

O maior complexo de todos

foi constru�do na cidade industrial de Oswencim, Auschwitz,

na parte da Pol�nia que estava sob controlo alem�o.

Foi escolhida por estar na rota entre Crac�via e Viena.

"O trabalho liberta",

dizia o velho lema de Dachau que foi afixado � entrada.

O comandante do campo era um major das SS, treinado em Dachau,

Rudolf Hoss.

O pai queria que ele fosse padre,

mas ele entrara para o partido nazi e passou logo para as SS.

Quando Himmler mandou criar o "maior centro de exterm�nio"

ele n�o perguntou nada.

Levou a fam�lia e filhos para Auschwitz e fez o seu dever.

3 mil SS, mal preparados para a frente de combate,

foram empregados como guardas.

Himmler visitou duas vezes Auschwitz para acelerar tudo.

Hoss queixou-se da entrega tardia de materiais

e da m� qualidade dos empregados.

Mais uma vez, o problema era a disc�rdia entre prioridades.

O que era mais importante? Matar os judeus ou ganhar a guerra?

A "Solu��o Final" era uma tarefa t�o grande como uma opera��o.

O sistema do campo tinha de ser independente ao m�ximo.

A maioria do trabalho era feito por prisioneiros.

Quanto � falta de guardas,

Himmler disse rispidamente a Hoss: "Arranje mais c�es. "

Himmler estava ansioso por ver a nova f�brica de mortes.

Seriam seis cremat�rios afastados dos tr�s campos principais.

Seriam disfar�ados em bosques

ou escondidos dos campos vizinhos por �rvores.

Mas tamb�m estes estavam atrasados,

devido � entrega tardia dos materiais.

Contudo, Hoss tinha feito experi�ncias com o Zyklon-B

nos edif�cios existentes

e treinara homens para queimarem corpos em valas comuns.

Apesar de Himmler n�o poder ver o novo aparelho a funcionar,

viu uma demonstra��o do novo m�todo de homic�dio.

Hoss reparou que ele parecia indiferente.

Entretanto,

Heydrich, como chefe do servi�o de seguran�a de Himmler,

teria como miss�o planear a ida dos judeus para as c�maras de g�s.

Esta era a sua prioridade enquanto chefe nazi da Checoslov�quia.

A sua tarefa na "Solu��o Final" dependia da colabora��o de todos:

Pol�cia, Minist�rio dos Neg�cios Estrangeiros,

SS, autoridades locais, e controlar uma d�zia de pa�ses,

para os milh�es de judeus serem levados ordeiramente

e transportados pela Europa

para chegarem a tempo aos centros de matan�a.

Em Janeiro de 1942, Heydrich convocou uma confer�ncia

de representantes dos minist�rios em Wannsee, perto de Berlim.

Fora encarregado de preparar a "Solu��o Final"

do problema dos judeus na Europa.

Todas as ag�ncias centrais deviam reunir-se

para terem uma �nica linha de ac��o.

Ele delineou o novo plano.

O n�mero de judeus em cada pa�s fora calculado.

A Europa seria varrida de Oeste para Leste.

O disfarce a usar

seria os judeus serem recolocados para trabalhar no Leste.

O total de judeus a eliminar ultrapassava os 11 milh�es.

O administrador permanente do plano era Adolf Eichman.

Ele guardava as actas.

Eichman disse que as opini�es contr�rias foram convencidas.

Serviu-se conhaque.

Um filme, "Der Ewige Jude" (O Eterno Judeu),

foi distribu�do em todas as cidades da Europa ocupada

onde, at� ent�o, os judeus tinham sido deixados em paz.

S� havia uma preocupa��o:

e se os n�o-judeus tivessem pena dos vizinhos judeus

e tentassem impedir a deporta��o deles?

A propaganda podia resolver isso.

Como ratazanas, aparecem e trazem a destrui��o consigo.

Destroem deuses humanos e bens.

Desta maneira, espalham doen�as, peste, lepra, tifo, c�lera,

prostitui��o e muitas outras.

S�o manhosos, cobardes e b�rbaros

e costumam usar longos cachec�is.

Representam os animais, o elemento respons�vel pela destrui��o.

Nada menos que o judeu entre as pessoas.

"Der Ewige Jude" dizia que o judeu ocidental era um verme,

um parasita perigoso.

Era s� a roupa ocidental que o fazia parecer diferente.

Agora veste roupas ocidentais

e est� pronto para se introduzir na civiliza��o ocidental.

� claro que estes judeus do gueto

n�o se conseguem mexer bem na roupa limpa e ocidental.

Em 1942, os judeus em pa�ses ocidentais

foram ordenados a usar uma estrela amarela identificativa.

Os nazis precisavam de afastar os judeus dos seus vizinhos.

Assim, os n�o-judeus n�o iriam interferir tanto

quando os judeus fossem deportados.

Na Holanda, amea�aram com seis meses de pris�o

qualquer judeu que n�o usasse a estrela dentro de cinco dias.

Para acelerar tudo, o Conselho Judaico distribuiu estrelas.

Iria tornar-se um padr�o familiar.

Ao tentar salvar a comunidade das amea�as alem�s, os Conselhos

aplicaram eles mesmos as medidas nazis anti-sem�ticas.

Aumentava a press�o para os judeus irem "trabalhar para Leste".

Os alem�es fizeram ref�ns.

O Conselho tinha de garantir que toda a gente se apresentava.

Na Dinamarca, a Resist�ncia e o povo

fizeram opera��es de salvamento.

Na It�lia e na Bulg�ria, os oficiais prevaricavam.

Mas em quase todo o lado, a oposi��o era pouca

quando os judeus foram obrigados a apresentar-se para a deporta��o.

Ou as pessoas n�o se importavam

ou estavam intimidados com a Gestapo e as SS.

"Todos os caminhos levam a Westerbork",

dizia o representante de Eichman em Amesterd�o aos judeus.

Cada pa�s na Europa Ocidental, tinha um Westerbork,

um campo de tr�nsito, gerido como os campos de concentra��o.

Os comboios eram recebidos pela FK, Flying Columns,

grupos de residentes cuja miss�o era dividir as bagagens.

Em Westerbork, como no resto do sistema,

as SS guardavam, supervisionavam e davam ordens,

mas os residentes eram respons�veis pela rotina di�ria.

Westerbork tinha uma pol�cia judaica e um Conselho Judaico,

De novo, judeus patriotas acharam melhor acatar responsabilidades

do que deixar toda a gente � merc� das SS.

Em dois anos e meio, cem mil pessoas passaram por Westerbork,

supervisionadas por um n�mero m�nimo de alem�es.

As entradas eram registadas no Registo Central

por funcion�rios judaicos. Depois o Gabinete de Trabalho,

tamb�m gerido por residentes, distribu�a as tarefas.

Podiam passar-se dias ou meses

antes de serem enviados para os novos territ�rios a Leste.

O trabalho principal em Westerbork era dar novo uso ao metal

de baterias el�ctricas antigas.

Apesar das condi��es nos campos de tr�nsito,

as pessoas receavam o dia em que seriam afastados da fam�lia.

Receavam o destino desconhecido de onde ningu�m regressaria.

Fic�mos juntos durante quatro semanas

e depois os meus pais e o meu irm�o mais novo

tiveram de nos deixar no transporte.

Devia ter ido com eles, mas n�o me deixaram, porque tinha...

Como se diz? Escarlatina. Tinha escarlatina.

Era uma das coisas perversas dos alem�es...

Quando se estava doente, n�o se podia ir para...

a c�mara de g�s. N�o. Primeiro, t�nhamos de melhorar.

Davam-nos a ilus�o de que n�o acontecera nada,

porque n�o nos deixam viajar quando estamos doentes.

Tive de...

O meu irm�o veio despedir-se de mim. Olhei para ele e pensei:

"Por amor de Deus, ele n�o pode ir com estas roupas."

Ele era baixinho.

Dei-lhe um dos meus casacos e pensei:

"Fecha-se ao contr�rio, mas n�o faz mal."

Dei-lhe um par de botas

e olhei para ele quando se afastava do...

barrac�o

e de costas, ele era parecido comigo.

Tive a certeza de que nunca mais o ia ver.

Tive a certeza.

O dia em que se partia de Westerbork era �s ter�as-feiras.

Mandaram os l�deres do campo fazer uma lista de nomes

para perfazer o total que os alem�es precisavam,

normalmente, cerca de mil.

�s 7h, os que foram seleccionados para o transporte,

reuniam-se em sil�ncio sob a supervis�o das SS e FK.

Se faltava algu�m,

eram escolhidas 50 pessoas ao acaso e metidas nos comboios.

A viagem durava quatro semanas ou mais.

Em cada vag�o, alguma palha e um balde para as necessidades.

�s 11h em ponto, o apito soava

e o comboio partia.

N�o havia obst�culos, greves,

sabotagens ou bombardeamento dos Aliados.

Como disse Eichman:

"Os comboios andavam que era uma beleza. "

Por toda a Europa, as SS e a Pol�cia reuniam os judeus.

Eles sabiam que a viol�ncia era a alternativa a uma entrega calma

e que se fossem encontrados escondidos, eram castigados

e tamb�m a pris�o e a morte certa a quem os ajudasse.

Muitos judeus achavam que era melhor,

mais honroso apresentarem-se quando a vez deles chegasse.

Na Confer�ncia de Wannsee, o representante do governo polaco,

disse que s� tinha um favor a pedir.

Que a quest�o judaica no territ�rio dele

fosse resolvida o mais depressa poss�vel.

Havia 2,5 milh�es de pessoas nos guetos polacos.

As ra��es eram t�o pequenas que havia gente a morrer � fome.

O Conselho Judaico conseguiu organizar sopas dos pobres,

mas continuavam a morrer milhares.

Cad�veres nus,

pois os outros tiravam-lhes a roupa para se aquecerem

ficavam na rua � espera do carro dos mortos.

As ra��es foram ainda mais reduzidas.

N�o haveria problema em encontrar volunt�rios para a recoloca��o,

quando fosse altura de esvaziar os guetos.

J� n�o t�nhamos mais for�a para sofrer.

N�o pod�amos continuar assim. Onde quer que fosse,

imagin�vamos que n�o podia ser pior.

N�o podia ser pior.

Todos os volunt�rios, que queriam sair de livre vontade do gueto,

para onde quer que fosse, recebiam p�o.

Tamb�m recebiam alguma margarina e bebida

e tamb�m doce.

Decidimos entregar-nos de livre vontade.

Levados pela promessa de comida,

as pessoas lutavam por uma oportunidade para sair.

At� pagavam o bilhete de comboio.

S� do gueto de Vars�via em dez semanas, de Julho a Outubro de 42,

partiram 310 mil pessoas.

Subiram para comboios vigiados e selados.

Seis mil pessoas enchiam um comboio.

Um cami�o levava cem.

Assim que entr�mos,

assim que trancaram a porta,

ouviram-se gritos horr�veis l� dentro.

Em polaco, �diche, alem�o, pessoas a implorar.

N�o havia ar. Est�vamos a sufocar, a sufocar, a sufocar.

Era uma viagem atribulada com paragens longas.

Infelizmente, o comboio parava

e sempre muito longe de uma fonte de �gua,

de tal modo que passado um dia n�o havia uma gota de �gua.

As crian�as come�avam a ter sede,

as pessoas tinham de...

Como dizer? Fazer as necessidades fisiol�gicas,

como evacuar e tudo o mais.

E o vag�o ficava uma porcaria.

Havia sempre briga pelo �nico balde,

que n�o podia estar vazio.

Os pais eram obrigados...

Tinham de acalmar as crian�as apenas durante a viagem.

Mas sobrevivemos � viagem, as crian�as n�o deviam sofrer tanto

e os mais velhos tamb�m n�o.

De repente, as pessoas deixaram de estar preocupadas

com o passado ou com o futuro,

mas sim em sobreviver � viagem.

Aquilo era o inferno sobre carris.

Os primeiros a desmaiar eram as crian�as,

mulheres e pessoas idosas.

Todos ca�am como moscas. Pareciam mesmo moscas.

O meu pai estava ao meu lado.

De repente, vejo que ele est� a cair.

Ele caiu.

Gritei: "Pai, pai!"

E ele n�o me ouviu. Desmaiara.

Ele tinha desmaiado

e com toda a minha for�a, com toda a for�a que tinha,

tentei levant�-lo e acord�-lo.

Mas n�o consegui.

Depois, encontrei um peda�o de madeira no ch�o.

Levantei-me e comecei a bater nas pessoas com o pau.

Comecei a bater nas pessoas ao meu lado no vag�o,

para arranjarem espa�o para o meu pai,

para ele se poder levantar.

Lembro-me que o sofrimento dos outros n�o me importava,

os choros e amea�as deles,

apenas que o meu pai se levantasse

para eu n�o ficar sozinho no mundo.

Os comboios eram fretados aos caminhos-de-ferro do Estado

pelas SS e conduzidos por maquinistas neutros.

Auschwitz era uma paragem muito concorrida:

escoava bens normais, comboios militares e de passageiros,

bem como os comboios com judeus.

Willi Hilse trabalhava para os caminhos-de-ferro estatais,

uma profiss�o protegida, que o livrava do servi�o militar.

Em 1942, mandaram-no tomar conta do dep�sito de bens

em Auschwitz.

Como resultado do tr�fego intenso,

o encarregado da altura n�o conseguia fazer tudo.

Primeiro, ele fez-me uma pergunta:

se eu sabia que havia um campo de concentra��o na zona.

Claro que tive de dar uma resposta negativa, porque n�o sabia.

Durante a conversa, ele disse-me:

"Olha para a frente, para tr�s, para a direita e para a esquerda.

Est�s no meio do campo de concentra��o de Auschwitz."

Depois, fiz-lhe uma pergunta,

porque reparei num cheiro adocicado no ar.

Perguntei o que era.

Ele respondeu-me:

"� o cheiro dos mortos que foram queimados aqui em Auschwitz."

Quer fossem comboios normais ou de transporte,

tinham todos de passar em Auschwitz.

Os comboios eram separados na esta��o de Auschwitz.

Ou seja, recebiam outra m�quina,

porque tinham de fazer uma manobra na esta��o

at� chegarem ao destino final.

Depois, iam at� aos pontos que ligavam a linha

ao campo de exterm�nio.

Durante uns tempos, uma das tarefas era receber a guia de peso.

Como disse, a guia de frete ia para os caminhos-de-ferro alem�es

para tratarem das contas com as SS.

Estas eram as duas coisas que nos deixavam ver imediatamente

que aquele era um caso de comboio do horror.

Os empregados na esta��o viam e ouviam os passageiros.

O comboio estava mesmo ao lado do dep�sito de bens

e vi uma jovem que tinha uma crian�a nos bra�os

e que pedia �gua.

Enchi um jarro de �gua,

e como tinha o uniforme, podiam ver que era dos caminhos-de-ferro,

fui at� l� e ia dar o jarro de �gua � mulher por uma janela.

Nem sequer tinha chegado ao vag�o, estava na linha ao lado,

quando um homem das SS veio ter comigo a perguntar o que fazia.

Disse que queria dar �gua � mulher e � crian�a.

Ele respondeu: "Se n�o sai j� daqui, mato-o."

Atirei o jarro de �gua aos p�s do homem da SS

e disse: "Que Deus o castigue!"

Se n�s, enquanto trabalhadores dos caminhos-de-ferro,

fiz�ssemos algo contra as SS ou contra o campo,

ent�o digo-vos com toda a certeza

que, muito em breve, tamb�m ir�amos para o campo.

Olhei pela abertura para a rua.

De repente, vi pessoas estranhas com roupas estranhas.

As roupas deles pareciam pijamas com riscas.

Falavam em muitas l�nguas diferentes.

E gritavam. N�o falavam, gritavam.

Entre outras l�nguas, tamb�m gritavam em polaco.

Quando os ouvi falar polaco, fiquei contente.

Gritei pela abertura do vag�o, que ainda estava fechado:

"Sim? Sim?" em polaco.

"Sim? Olhe, desculpe... O que � isto? O que �?"

Lembro-me que ningu�m me ligou nenhuma,

porque estavam centenas de milhar de pessoas l�.

Mas reparei que eles estavam sempre a rir.

N�o sabia o que eles eram, o que era aquele uniforme,

qual era o trabalho deles. N�o sabia nada.

As pessoas estranhas com uniformes �s riscas

eram prisioneiros da companhia de bagagens.

Eliminavam provas do transporte anterior antes de o pr�ximo chegar.

Em Auschwitz e nos outros campos, os prisioneiros judaicos

eram obrigados a trabalhar em todas as fases do processo.

Rufolf Vrba foi colocado numa companhia de bagagens.

Estava na companhia dos prisioneiros que limpavam...

a porcaria,

que ficava depois de as pessoas terem sido eliminadas.

E tinha de estar muito limpo, porque, por vezes,

os transportes chegavam com intervalos de uma, duas horas.

O novo transporte

chegava sempre a uma plataforma a brilhar,

sem qualquer prova do transporte anterior.

Os transportes decorreram durante dois anos,

para Auschwitz,

por vezes, cinco por dia, dois por dia,

por vezes, um por dia,

por vezes, um dia sem transporte e por vezes, 16 por dia.

Em m�dia, cada transporte trazia 3 mil pessoas.

Abriram o vag�o. Destrancaram a porta.

Quando se abriu, houve uma corrente de ar fresco.

Soube bem.

Come��mos a retirar os cad�veres.

Mas, de repente, ouvimos vozes:

"Judeus, rua, rua!"

"Depressa, depressa!"

"Depressa, depressa! Rua, rua!"

Mas eu...

pela primeira vez, tive medo. Sabe porqu�?

Porque vi chamas que chegavam ao c�u

e um cheiro estranho...

Um cheiro que me lembro da casa da minha m�e

quando chamuscava galinhas � sexta-feira.

As SS sabiam quantos transportes chegavam por dia.

Quando s� havia um transporte,

sabiam que tinham imenso tempo.

Era mais interessante estar ali do que estar no barrac�o.

Quando estavam de servi�o e ningu�m estava livre.

Por isso, podiam agraciar-nos com uma bela t�cnica de humor.

"Senhoras e senhores, pedimos desculpa pelo inc�modo,

"que foi causada por um idiota que organizou esta viagem.

"N�o � o primeiro caso. Pedimos imensa desculpa.

"Olhem para esta porcaria. Como eles tratam as pessoas...

"Por favor, saiam e n�o se envolvam com os criminosos.

"Eles s� est�o aqui para levar as vossas malas.

"Se n�o identificaram a vossa mala e t�m medo de a perder,

"levem-na convosco.

"Mas as que tiverem nomes ou etiquetas,

"n�o se preocupem. Vamos prestar aten��o

"para que nenhum dos criminosos as leve.

"A nossa honestidade alem�,

"da qual esperamos que n�o duvidem,

"� uma garantia em como os vossos bens vos ser�o entregues.

"Faz tudo parte do processo. N�o nos d�em problemas,

"para que assim possamos dar-vos �gua,

"e as condi��es sanit�rias b�sicas

ap�s esta viagem horrenda."

Se olh�ssemos, v�amos os excrementos, urina,

e sangue no vag�o.

Eles fingiam que n�o percebiam porqu�,

que era compreens�vel.

Havia muito humor.

"Por favor,

saiam."

A t�cnica am�vel ou a t�cnica brutal tinha apenas um objectivo.

N�o importava se era am�vel ou brutal,

importava que as pessoas que chegavam

tinham de chegar � c�mara de g�s assim que poss�vel

e sem qualquer obst�culo.

O pr�ximo passo era organizar as chegadas.

Eles faziam duas linhas separadas.

Homens e jovens de um lado

e mulheres e crian�as do outro.

O objectivo era saber quem seria eliminado imediatamente

e quem seria mantido vivo para trabalhar.

A selec��o era feita por m�dicos das SS e por enfermeiros.

O n�mero de sobreviventes

dependia da quantidade necess�ria para o trabalho no campo.

Os m�dicos faziam um exame r�pido.

Todos os que fossem saud�veis o suficiente para trabalhar

eram enviados para um lado. O resto, ia para outro.

Os viajantes, ainda confusos com a viagem horr�vel,

n�o percebiam o que se passava.

De qualquer maneira, n�o estavam em condi��es de discordar.

Qualquer potencial arruaceiro era afastado do grupo e fuzilado.

Enquanto a maioria desconhecia o que se passava,

alguns pressentiam que algo estava muito errado.

Estava qual c�o assustado numa casa a arder.

Era um medo muito primitivo.

Lembro-me que um homem da Holanda

disse entre dentes:

"N�o, nada de doentes. Nada de doentes."

Os doentes, os idosos, os pregui�osos,

mulheres gr�vidas, m�es e crian�as pequenas

eram enviados para a esquerda.

Tinham sido escolhidos para a c�mara de g�s.

Vi duas pessoas a virem na minha direc��o a falarem polaco.

Fiquei muito contente.

Tanto quanto me lembro,

sa� da minha fila,

fui ter com um deles e disse-lhe em polaco:

"Ol�. Diga-me, o que � isto?

Aonde vim parar?"

Ele respondeu com uma gargalhada.

Deu-me uma palmadinha no ombro e disse-me em polaco:

"Meu filho, meu filho,

est�s no comando do C�u."

Foi isso que ele disse, em polaco.

N�o percebi o que era.

Ele disse-me: "Vira-te. Vou mostrar-te uma coisa."

Eu virei-me.

Ele apontou para longe, para onde se levantava o fumo.

Fumo negro, l� muito ao longe.

Disse-me: "V�s aquele fumo?

Est� ali uma chamin� e tu vais sair por aquela chamin�."

Foi s� isso. N�o fiquei impressionado com o que me disse,

porque tinha a certeza de que estava a gozar.

Que era uma piada.

Um cami�o levou as pessoas para esperarem � porta da c�mara.

Disseram-lhe que antes de entrarem no campo,

tinham de ser desparasitados e tomar um duche.

Se calhar, sentiram-se seguros ao verem uma ambul�ncia perto.

N�o sabiam que continha latas de Zyklon-B.

O cabo das SS, Richard B�ck,

estava na sec��o de transporte em Auschwitz.

O seu amigo Hoblinger era um dos condutores

da ambul�ncia que levava Zyklon-B.

Uma noite, ele levou B�ck para assistir � ac��o.

Ele estacionou e eu fiquei l� dentro, a fingir ser o co-piloto.

Depois, levaram-nos de cami�o para o Bunker 1.

Havia quatro grandes corredores.

N�o tinham telhado a s�rio, era s� uma coisa inclinada.

Sa�mos da ambul�ncia.

Ao in�cio, o Hoblinger n�o tinha nada para fazer.

Depois fomos para os corredores

e os prisioneiros, os que tinham acabado de chegar,

tinham de se despir.

Depois ouviu-se uma ordem: "Preparar para desinfec��o."

Havia pilhas enormes de roupa

e havia pessoas � volta para que as pilhas n�o ca�ssem.

Os que tinham acabado de chegar, os holandeses,

tinham de subir para o monte de roupa e despir-se.

Muitos esconderam os filhos debaixo da roupa.

Alguns ficavam com as roupas pelas pernas, pois estava muito frio.

Era o in�cio do Inverno.

Depois gritaram: "Preparem-se" e sa�ram todos.

Depois tinham de correr nus 20 m do corredor para o Bunker 1.

No Bunker 1 , havia duas portas abertas.

Quando j� tinha entrado um certo n�mero, fechavam as portas.

Isso aconteceu umas tr�s vezes.

E de cada vez, o Hoblinger tinha de ir para a ambul�ncia.

Um dos l�deres SS foi buscar uma lata e subiu a escada.

No cimo, havia um buraco e ele abriu uma portinhola de ferro

e abanou a lata para l�. Depois, fechou a portinhola.

A seguir, ouvimos uns gritos horr�veis.

Acho que passados uns dez minutos veio o sil�ncio.

Perguntei ao Hoblinger: "Podemos aproximar-nos quando os tirarem?"

Ent�o aproxim�mo-nos.

A companhia dos prisioneiros abriu a porta

e saiu um fumo azul.

Olhei para dentro e vi uma pir�mide.

Eles tinham todos subido para cima uns dos outros

e o �ltimo estava mesmo no topo. Uns em cima dos outros.

Era um monte em tri�ngulo.

Depois, os prisioneiros tinham de entrar e desfazer o monte.

Todos emaranhados. Um tinha o bra�o no p� do outro

e os dedos dele estavam nos olhos de algu�m.

Muito l� dentro.

Estavam todos t�o emaranhados.

Tinham de puxar com muita for�a para os separar.

Depois, volt�mos para o corredor. Era a vez do �ltimo grupo se despir.

Eram os que se conseguiam afastar sempre.

Uma mulher disse que estava frio, ou algo assim.

Quando percebi o que dissera,

vi que ela n�o estava habituada a isto.

E disse para mim mesmo que acreditava que n�o estivesse.

Uma rapariga, com um cabelo preto lindo e muito bonita,

estava agachada e n�o se queria despir.

Um SS veio ter com ela e disse:

"N�o deves querer despir-te."

Ela atirou o cabelo para tr�s e riu-se.

Ele afastou-se e regressou com dois prisioneiros

que lhe rasgaram literalmente a roupa.

Cada um pegou num bra�o e arrastaram-na

para o Bunker 1 e atiraram-na para l�.

Depois, os prisioneiros tinham de procurar as crian�as escondidas.

Tiravam-nas, abriam depressa as portas,

atiravam as crian�as para l� e fechavam a porta.

Comecei a ficar enjoado.

Credo... Disse: "Karl, nunca vi nada assim."

Era simplesmente horr�vel. Quando atiravam as crian�as

e as pessoas l� dentro gritavam, porque percebiam o que se passava.

Pedi ao Karl para irmos embora, j� n�o aguentava aquilo.

Ele disse que tamb�m se sentia assim, mas que tinha de ficar

e recolher as latas vazias e coloc�-las na ambul�ncia.

O Hoblinger disse que n�o gostava mesmo nada desta tarefa.

Preferia estar na sec��o de transporte a estar na vigil�ncia.

Mas ele disse que com o tempo, nos habituamos a tudo.

Quando mandaram Richard B�ck participar numa ac��o,

recusou imediatamente, apesar de ser amea�ado com castigos.

Depois da guerra, foi ilibado de qualquer crime pelos investigadores.

Ali�s, a Associa��o de ex-prisioneiros de Auschwitz

nomeou-o membro honor�rio daquela organiza��o.

Quem ia trabalhar antes de ser eliminado,

era suspenso numa m�dia de tr�s meses,

o tempo normal de sobreviv�ncia em Auschwitz.

Tamb�m eles tinham de se despir e entregar todos os bens.

Depois, eram levados para os chuveiros, os verdadeiros.

Eram desparasitados, rapavam-lhes a cabe�a

e tatuavam-lhes n�meros nos bra�os.

Tatuaram um n�mero no meu bra�o.

J� n�o era o Schmuel ou o Sammy Gogol,

era apenas um n�mero: 81491 .

No fim, n�o passava de um n�mero.

A partir dessa altura, passei a ser um n�mero.

J� n�o tinha nome ou apelido.

Passei a ser o B-8095.

Era esse o meu nome.

Disseram-me que se chamassem o meu n�mero,

era porque me chamavam a mim.

Marcaram-nos. Puseram-nos uma marca no bra�o.

Lembro-me que estava a pensar...

Estava a tentar limpar o sangue e esborratei um pouco a tinta

e por isso, n�o se consegue ver bem.

Homens e mulheres eram separados

e cada um tinha um uniforme.

Auschwitz tinha tr�s campos principais

e 30 campos de trabalho.

Quase 100 mil escravos de trabalho, polacos e judeus,

trabalharam l� at� morrerem.

300 encafuados num quarteir�o

s� comiam uns gramas de p�o duro e uma papa aguada.

Primeiro, tinham de aprender a lutar pela pr�pria sobreviv�ncia.

Pela primeira vez, vi o que era a fome.

Porque quando distribu�am o p�o,

os outros prisioneiros, que j� l� estavam h� mais tempo,

pareciam le�es.

Era uma lei n�o institu�da.

Se se fosse apanhado a roubar o p�o de outro prisioneiro

ele tinha o direito de o matar logo na altura.

Na maioria das vezes n�o podia matar logo na altura,

mas era considerado homic�dio.

Era mesmo um homic�dio.

Porque o p�o que era distribu�do,

era um bem m�nimo necess�rio para a sobreviv�ncia.

Quem n�o tinha p�o, diminu�a bastante

as hip�teses de sobreviv�ncia at� ao dia seguinte.

Por isso, havia...

n�o havia tribunal, ou acusa��es, coisas assim.

O caso era normalmente evidente.

Normalmente, o caso era que um tipo tinha na m�o...

o casaco e o outro tipo puxava-o.

Um dos tipos gritava:

"Ele est� a roubar-me o p�o!" E era isso.

� meia-noite,

as pessoas saltavam da cama

e, de repente, havia um cad�ver.

Os piores momentos era quando um dos privilegiados se vangloriava

e dizia que podia partir a cabe�a a um homem com um golpe.

Era um momento horr�vel.

Um segundo de sil�ncio e depois ouvia-se a ordem.

"Ponham a cabe�a de fora das camaratas."

E depois pens�vamos: "Ser� que vai bater na minha cabe�a?"

Uns instantes depois, na madeira,

v�amos sangue e bocados de miolos.

E depois, n�s ca�amos num sono profundo.

Porque afinal, n�s,

n�s pod�amos dormir.

Os prisioneiros dormiam quatro e mais por beliche,

em barrac�es que foram constru�dos para cavalos.

Eles importavam menos que os animais,

os corpos eram para ser usados como entretenimento dos guardas

ou como material para benef�cio do Estado.

Alguns eram usados mesmo como ratos de laborat�rio.

Para testar os efeitos de voos a altas altitudes,

eles iam para um simulador.

N�o tinham oxig�nio e passavam por extremos de descompress�o.

Himmler vangloriava-se que os seus m�dicos

j� n�o se deixavam inibir pelos preconceitos crist�os.

Para descobrir como seria a sobreviv�ncia de pilotos no mar,

emergiam os prisioneiros em �gua gelada

at� n�o puderem ser reavivados.

Os ciganos eram usados para ver o efeito da ingest�o de �gua do mar.

Os judeus eram usados para testar as t�cnicas de esteriliza��o,

necess�rias para os nazis livrarem a popula��o destas ra�as.

Ao mesmo tempo, fizeram experi�ncias com g�meos.

Himmler esperava que ao aumentar o nascimento de g�meos alem�es

era uma maneira de compensar baixas da ra�a ariana

causadas pela guerra.

Os m�dicos tamb�m analisavam o cr�nio e c�rebro

de judeus, ciganos e eslavos

para tentar encontrar algo f�sico que apoiasse a teoria da ra�a.

O que restava depois de as pessoas terem sido eliminadas,

n�o era desperdi�ado.

Os ossos podiam ser triturados e servir de fertilizante.

Membros artificiais e �culos eram reciclados.

Dentes de ouro eram derretidos e o cabelo usado era guardado

e usado em roupas protectoras.

De manh� e � noite, os prisioneiros ficavam de p� durante horas

para as SS verem se eles estavam todos l�.

Durante o dia, trabalhavam nas f�bricas ou na constru��o.

Auschwitz era continuamente aumentado.

Constru�am f�bricas de armamento e uma de borracha sint�tica.

O trabalho deles n�o estava virado para a produtividade,

mas sim para aumentar o sofrimento dos prisioneiros.

Obrigavam-nos a trabalhar o dobro com a ajuda de chicotes.

Nos grupos de trabalhos pesados,

os prisioneiros morriam passados uns dias

de cansa�o e de pancada.

O campo devia ser independente.

A dada altura, 8 mil prisioneiros tratavam da manuten��o.

Para sobreviver durante um bom tempo,

o prisioneiro tinha de arranjar um bom trabalho sem ser na rua,

nas oficinas, escrit�rios, ou melhor, na cozinha.

Para isto, precisava-se mais do que sorte.

Precisava-se de um of�cio �til

ou influ�ncia perto dos prisioneiros que distribu�am as tarefas.

O estilo de vida subterr�neo do preso crescia com base nas trocas.

Vi uma harm�nica nas m�os de outro prisioneiro. Pedi-lha.

Ele n�o ma queria dar. Ele n�o sabia tocar,

por isso, resolveu fazer um acordo comigo.

A moeda de troca era o p�o. Ele queria a ra��o de tr�s semanas.

e eu propus duas semanas de ra��o e ele deu-me a harm�nica.

Tirando o trabalho normal,

organizaram uma orquestra e eu fui para l�.

Tinham de tocar na chamada e em enforcamentos p�blicos.

Por vezes, aos domingos, davam concertos dos cl�ssicos alem�es.

Por milagre, conseguiam tocar a m�sica deles �s escondidas

em cerim�nias e at� cantar.

No campo, cant�vamos imensas m�sicas.

Era interessante. M�sicas holandesas, gregas,

h�ngaras, checas, �diche...

Claro que a can��o triste de que todos gostavam, n�o s� os judeus,

pois sofr�amos todos em conjunto,

era "My Yiddischer Mama".

Os que j� n�o aguentavam, cometiam suic�dio

ao correr de encontro � veda��o electrificada.

Outros iam ter com os funcion�rios

e pediam para fazer parte da lista da c�mara de g�s.

As SS retiravam pessoas fracas ou doentes de mais para trabalhar.

Wandra Marossanyi trabalhava no escrit�rio do campo de trabalho.

Partilhava a camarata com outros funcion�rios que faziam a chamada.

Tinham como miss�o copiar os nomes dos prisioneiros

escolhidos pelas SS para a c�mara de g�s.

A selec��o era feita pela equipa do campo

e pela funcion�ria que fazia a chamada, uma mulher eslovaca.

Ela tratava dos n�meros

e � noite, ela vivia no nosso barrac�o,

havia filas de gente para a ver.

"Salve a minha m�e, irm�, prima, amigo..."

E ela tentava de um modo humano,

segundo a idade e a capacidade de sobreviver no campo,

para mudar os nomes.

Mas era uma decis�o dif�cil,

escolher uma pessoa para a c�mara de g�s e salvar outra.

Nessa altura, e seguindo apenas o instinto,

podia parecer cruel,

salv�vamos os que poderiam sobreviver

e n�o emocionalmente, por ser a filha de uma m�e.

Lembro-me de um caso de uma prisioneira idosa no barrac�o 25

ter ajudado a m�e a subir para o cami�o para a c�mara de g�s,

pois n�o tinha hip�tese de a salvar.

Moshe Sonnenshein era o filho do rabi que fora educado...

na cren�a religiosa.

Era uma cren�a que dizia que aconteciam coisas no mundo

para al�m da compreens�o dele e da vontade de Deus.

Lembro-me de vermos passar 10 mil mulheres nuas numa manh� gelada

que j� tinham sido escolhidas e que iam para os cami�es.

Elas sabiam que eram prisioneiras

e que iam a caminho da c�mara de g�s.

Estavam em sil�ncio e as pessoas estavam habituadas

a viver com o conhecimento de que a morte vir�,

mas quando ligaram o cami�o,

o barulho criou o p�nico entre as mulheres

e ouvimos um barulho horr�vel dos cami�es,

o grito de morte de milhares de jovens j� reduzidas a pele e osso.

Eram tentativas in�teis,

pois sabiam que n�o iam conseguir saltar dos cami�es

que as levavam para as c�maras de g�s

que ficavam a menos de 1,5 km e que j� estavam a funcionar e...

o fumo que sa�a das chamin�s.

Estava tudo preparado.

Era nesta altura em que ele falava com o Deus dele.

"Deus mostrou-vos o vosso poder.

Isto � contra Ele."

E n�o acontecia nada.

E depois, ele disse: "Deus n�o existe."

A grande maioria das pessoas enviadas para o cremat�rio

eram rec�m-chegados.

Cansados depois daquela viagem,

n�o podiam interromper o processo se soubessem o que l� vinha?

Pens�mos se lhes dev�amos dizer para onde iam.

A eslovaca pensava nisso.

Se se deviam revoltar...

Depois de muito conversar, conclu�mos que n�o iria ajudar,

pois elas n�o estavam em condi��o de lutar contra o destino.

Tinham de ir para onde iam e era melhor que n�o soubessem.

Se algu�m lhes dissesse: "Voc�s v�o para a c�mara de g�s."...

A ideia de uma m�e ser informada por um criminoso,

depois de uma viagem horr�vel, que os filhos v�o morrer,

era uma ideia escandalosa na opini�o dela.

Porque depois de tudo o que sofreu, aparece um criminoso

que quer aumentar o sofrimento dela.

Ela sentia-se tentada a ir falar com o funcion�rio mais pr�ximo,

e dizer que aquele homem dissera

que os filhos dela iam para a c�mara de g�s.

Ele responderia: "Minha senhora, toma-nos por b�rbaros?"

Pergunt�vamos sempre: "Onde est� o resto do mundo?

"Onde est�o os Estados Unidos? Onde est� a R�ssia?

"Onde est�o os outros pa�ses que nos podiam ajudar?

Eles sabem o que se passa nos campos de exterm�nio?"

As pessoas sabiam o que se passava.

Um complexo industrial com mais de cem mil pessoas

constru�do nos arredores de uma cidade n�o podia ser segredo.

Com o tempo h�mido, o cheiro da carne humana queimada

era uma nuvem que se estendia pela zona toda.

Os passageiros em comboios que passavam pela cidade,

amontoavam-se para ver as luzes fortes e chamin�s altas.

Ouviam-se boatos em toda a Alemanha.

Mas o que podia um cidad�o normal fazer, mesmo se se preocupasse?

Alguns mais corajosos davam abrigo a judeus.

Mas nem eles conseguiam derrotar o sistema.

De qualquer maneira, estavam em guerra.

As pessoas tinham mais problemas para al�m dos judeus.

E os Aliados que combatiam a tirania nazi?

Lord Avon, na altura, Anthony Eden,

era ministro dos Neg�cios Estrangeiros de Churchill.

Claro que tinham existido...

bastantes provas de persegui��o aos judeus

antes do in�cio da guerra na Alemanha de Hitler.

Com o avan�ar da guerra,

recebemos relat�rios horrendos.

Ao in�cio, � claro que era muito dif�cil avaliar...

a veracidade dos relat�rios

e eram t�o horr�veis que era dif�cil acreditar que fossem verdade.

Contudo, em 1942,

na segunda metade de 1942, as provas eram tantas

que t�nhamos de acreditar.

Como consequ�ncia, contact�mos outros governos,

principalmente o dos Estados Unidos

e o Russo

para partilhar as informa��es que t�nhamos

e para falarmos do que �amos fazer.

Decidimos que uma das coisas a fazer

era fazer uma declara��o conjunta

em cada uma das nossas capitais

ao mesmo tempo, a divulgar as nossas informa��es

e o horror que estava a ser cometido.

E claro, para deixar evidente a nossa repulsa

e a nossa determina��o de que os respons�veis

deviam ser castigados no fim da guerra.

Concord�mos fazer isso ap�s algumas negocia��es.

No fim de 1942,

eu fiz essa declara��o na C�mara dos Comuns

com um efeito dram�tico

que excedeu todas as minhas expectativas.

HOMIC�DIO DE JUDEUS: DEPUTADO AGITA ASSEMBLEIA

Mas as pessoas nos campos de exterm�nio precisavam de ac��o

agora, antes que fosse tarde de mais.

A Resist�ncia em Auschwitz n�o podia esperar pelo fim da guerra.

Enviaram uma carta a pedir uma m�quina com filme para o campo.

Se os Aliados vissem o horror em toda a sua plenitude,

tinham de agir.

Nos campos de exterm�nio de Sobibor e Treblinka

os grupos da Resist�ncia organizaram revoltas,

mas a maioria dos prisioneiros foi morta antes de fugir.

O grupo de Auschwitz decidiu esperar

mantendo o maior n�mero de pessoas com vida no campo

at� os Aliados os poderem ajudar a fugir.

De uma porta, um prisioneiro na manuten��o dos edif�cios,

conseguiu tirar fotos de uma companhia a queimar cad�veres

numa vala comum no bosque perto de uma c�mara de g�s.

Tentou tirar fotos pelos bot�es com a m�quina por baixo do casaco

de mulheres a entrar na c�mara de g�s.

As fotos eram s� c�u e �rvores,

mas o processamento de um canto,

mostrava mulheres nuas a andar em direc��o,

ao que ainda julgavam ser um chuveiro.

Os grupos da Resist�ncia fizeram v�rios apelos

para raides a caminhos-de-ferro, campos e c�maras de g�s.

Uma das dificuldades em Auschwitz,

era a longa dist�ncia para n�s,

e at� �s fases finais da guerra.

Diria que estavam fora de alcance,

principalmente para um bombardeamento preciso.

Acho que h� organiza��es judaicas que ainda pensam

que seria bom se tiv�ssemos bombardeado Auschwitz.

N�o vejo como isso podia ter ajudado algu�m

e sequer se ser�amos capazes.

N�o se conseguia bombardear com precis�o

e isso teria causado muitas mortes em Auschwitz.

E claro, ficava em territ�rio inimigo, em territ�rio alem�o,

e se com o bombardeamento cort�ssemos as comunica��es,

e algumas pessoas sa�ssem, apesar de outras morrerem,

estariam num pa�s hostil. Para onde iriam

e ser� que conseguiam fugir?

N�o me parece.

De qualquer maneira,

decidimos n�o fazer isso, e tanto quanto me lembro,

nem pergunt�mos ao "Bomber" Harris para pensar no projecto.

Quando se descobriram f�bricas de armamento perto de Auschwitz,

foi montado um raide.

N�o teve muito �xito.

Os caminhos-de-ferro n�o foram atingidos.

S� se consegue pensar numa coisa que pod�amos fazer:

ganhar a guerra

e n�o dispersar o esfor�o de guerra mais do que o necess�rio,

porque s� ao ganhar a guerra

conseguir�amos salvar alguns judeus infelizes

do tratamento horr�vel e imperdo�vel a que foram submetidos.

E os l�deres dos judeus?

Os Conselhos Judaicos que escolhiam quem ia nos comboios?

Alguns resistiam.

Alguns suicidavam-se.

Alguns continuaram a colaborar.

Sigmund Weltlinger trabalhava no Conselho Judaico de Berlim

at� � �ltima grande aglomera��o em 1943.

Depois, fugiu.

Se n�o o fizessem, a Gestapo ia buscar as pessoas � rua

e �s casas delas como ratoeiras e mandava-as embora.

As coisas n�o seriam t�o organizadas.

Desta maneira, eram informados com uns dias de anteced�ncia.

Podiam tratar dos neg�cios, levar o m�nimo necess�rio,

e at� onde lhe era poss�vel

podiam fugir ou serem clandestinos.

Nunca deix�mos de negociar.

Mas n�o eram negocia��es. Aceit�vamos ordens.

Diziam-nos: "500 para o pr�ximo transporte."

A�, pod�amos escolher 500 pessoas das nossas listas.

Ao in�cio, recebemos muitos postais, que eram censurados, claro.

Tinham de escrever: "Est� tudo bem.

Temos trabalho e o local � agrad�vel."

Alguns de n�s acreditavam nisso.

Os nazis usavam todo o tipo de truques

para refor�ar a hist�ria da "Recoloca��o a Leste".

Em 1944, fizeram o filme "Hitler Deu uma Cidade aos Judeus".

Tinha como objectivo calar os boatos sobre campos de exterm�nio

e satisfazer a curiosidade de institui��es

como a Cruz Vermelha Internacional.

Quando o filme foi divulgado,

a maioria dos participantes morrera nas c�maras de g�s de Auschwitz.

Mas isto simulava a vida em Theresienstadt,

o campo para judeus privilegiados,

os que combateram pela Alemanha na Primeira Guerra Mundial,

pessoas de influ�ncia, idosos e membros do Conselho Judaico.

Desde que as pessoas no Conselho Judaico

achassem que a vida nos campos era assim,

iriam incentivar as pessoas a entrar nos transportes

sem causar confus�o.

Dissemos: "Aqui tamb�m n�o se est� bem.

"Aqui acontecem-vos imensas coisas.

"� certo que a vida n�o ser� f�cil, mas podem trabalhar e comer.

S�o territ�rios lindos, principalmente Theresienstadt."

Aos idosos que eram enviados para Theresienstadt,

dizia: "Foi um Spa de primeira classe, tem paisagens lindas."

Uma senhora disse-me:

"Pelo dinheiro todo que estou a dar,

arranja-me um quarto com aquecimento central?"

Eu respondi que havia aquecimento central em todo o lado.

Quem justifica a pr�pria inac��o,

diz que os judeus que iam docilmente para as c�maras de g�s

se matavam a eles pr�prios.

Mas o que podiam fazer?

Sem amigos na Europa nazi ocupada,

entravam no comboio com esperan�a.

Em Auschwitz, era tarde de mais.

Para resistir, tinham de estar armados e organizados.

Se iam lutar, teria de ser antes da viagem, em territ�rio favor�vel.

O acto de resist�ncia judaica mais espantoso

deu-se no gueto de Vars�via.

Em 1943, quando tentaram deportar as 60 mil pessoas

que ainda l� estavam, o gueto resistiu.

Tinham ouvido as hist�rias do exterm�nio

e acreditavam nelas.

O Major Stropp das SS, mandou que tirassem fotografias

enquanto escorra�avam os judeus, edif�cio por edif�cio.

Armados apenas com algumas pistolas e granadas caseiras,

fizeram frente aos alem�es durante cinco semanas.

Enquanto sa�am, Stropp terminou o relat�rio para Himmler.

"Conseguimos capturar 56065 judeus

cuja elimina��o pode ser provada. "

O Comit� Nacional da Resist�ncia Judaica na Pol�nia disse:

"No momento final antes de serem destru�dos,

"os �ltimos sobreviventes dos judeus na Pol�nia,

"imploraram ajuda ao mundo inteiro.

"N�o foram ouvidos.

"Que esta �ltima voz do Al�m

chegue aos ouvidos de toda a Humanidade. "

Em 1944, o maior e �nico grupo de judeus n�o atacados

eram os 7 mil na Hungria.

Hitler queixara-se mais do que uma vez

de que n�o se fizera nada para os liquidar.

Quando as tropas alem�s invadiram o pa�s em Mar�o,

apesar de a m�quina de guerra nazi estar no seu limite

e a Alemanha em perigo de perder a guerra,

os planos para retirar os judeus da Hungria eram priorit�rios.

Nesta altura, toda a gente sabia o que era a "recoloca��o".

Multid�es de judeus imploram � lega��o su��a em Budapeste,

na �ltima esperan�a de conseguirem sair do pa�s.

Os l�deres judaicos negociavam com as SS empatando,

na esperan�a de que os ex�rcitos russos os salvassem.

Ao mesmo tempo, e para agradar aos alem�es,

instru�am as pessoas a apresentar-se nos comboios.

Mais uma vez, foram ignorados os pedidos aos Aliados

para bombardearem os caminhos-de-ferro.

Comboio atr�s de comboio chegava calmamente a Auschwitz.

A perderem a guerra, os nazis sabiam que tinham de se apressar.

Auschwitz estava preparada para receber os judeus h�ngaros.

A via-f�rrea fora ampliada para o campo

e chegava quase ao cremat�rio.

Foram cavadas valas

para queimar os corpos que n�o coubessem nas fornalhas.

Dov Paisokowic, filho de um talhante judeu,

estava num dos transportes h�ngaros em 1944.

Cheg�mos ao campo de Auschwitz de manh�.

N�o me lembro do dia.

Escolheram 250 dos mais fortes entre os mil que l� estavam,

os que tinham for�a para trabalhar.

Foram escolhidos 250 homens.

Entre os 250, estava eu e o meu pai.

Deram-nos v�rias ferramentas e tiraram-nos do campo.

O campo tinha uma veda��o electrificada.

Fora do campo, estavam SS com c�es e metralhadoras.

Levaram-nos ao Cremat�rio 3 e 4.

150 ficaram l�.

Na altura, n�o sabia que era um cremat�rio.

Era no meio da floresta, n�o se via nada.

Nem sequer sab�amos que aquelas coisas existiam.

Uns minutos depois, chegou o Hauptschuf�hrer Hamol.

Ele era o chefe dos cremat�rios.

Recebeu-nos muito bem.

Disse que ali havia comida suficiente, mas que t�nhamos de trabalhar.

De repente, abriu-se a porta da c�mara de g�s.

Come�aram a cair pessoas nuas.

Fic�mos todos assustados.

Ningu�m se atreveu a perguntar o que era aquilo.

Fomos logo levados para o outro lado do edif�cio.

Foi a� que vimos o inferno na Terra.

Grandes montes de pessoas mortas

e pessoas a arrastar estes mortos para uma longa vala

com cerca de 30 metros de comprimento e 10 de largura.

Havia uma grande fogueira de lenha.

No outro lado, tiravam a gordura da vala com um balde.

Tivemos de come�ar logo a trabalhar.

Est�vamos habituados a respeitar os mortos.

Foi dif�cil para n�s.

Quatro pessoas pegavam num cad�ver,

mas o SS disse: "N�o, cada um com um cad�ver."

Ele mostrou-nos como com uma simples bengala.

Um pegava no queixo para colocar a bengala no pesco�o

e arrast�-lo para a vala como se fosse um trapo ou um pau.

Na vala, estavam outras pessoas

que empurravam os mortos para a vala.

Isto tinha de ser r�pido.

Havia outros que se atiravam, que saltavam para a vala, vivos.

Parece que achavam melhor serem queimados

do que fazerem aquela tarefa.

Depois de uma semana, uma noite levaram-me para o Cremat�rio 1.

N�o sabia que havia o Cremat�rio 1.

As condi��es no Cremat�rio 1 eram melhores.

T�nhamos onde dormir, perto dos fornos.

Tamb�m era maior.

O trabalho era mais mec�nico.

A c�mara de g�s era muito grande.

Por todo o lado, havia canos de �gua, como para chuveiros.

Todos se juntavam � volta destes chuveiros.

Eles ainda n�o sabiam.

Alguns sabiam,

mas recusavam-se a acreditar que era uma c�mara de g�s.

Colocavam 2 mil, 2500 pessoas na c�mara.

Se n�o houvesse espa�o suficiente,

as crian�as eram atiradas para cima da cabe�a das pessoas.

Ficavam t�o juntos, uns em cima dos outros,

que nem uma agulha conseguia cair,

iria ficar em cima das pessoas.

A porta era hermeticamente fechada.

Por cima,

deitavam duas a tr�s latas de Zyklon-B.

Isto era sempre feito por um SS.

Estava sempre presente um m�dico na altura do envenenamento.

O m�dico decidia quando se podia abrir a porta

e os gases t�xicos eram retirados da sala.

Ele espreitava por um buraco na porta

e via se havia algum movimento ou gritos.

E ele decidia segundo isto.

Alguns come�avam a rezar.

A maioria dos judeus era ortodoxa.

N�o acreditavam que tal coisa acontecesse.

Estavam dispostos a morrer por Deus,

mas a revolta n�o tinha lugar ali.

At� lhes dissemos:

"Fa�am alguma coisa! V�o morrer!"

Mas n�o acreditaram em n�s.

Havia todo o tipo de reac��es de todo o tipo de pessoas.

Havia deficientes.

Mostravam o cart�o de guerra

para provar que tinham lutado na Primeira Guerra Mundial

com todo o tipo de distin��es e medalhas da altura.

Gritavam: "O que � isto?

"Lut�mos pela Alemanha e agora v�o matar-nos queimados? N�o.

Somos contra isto."

Mas toda a gente se riu,

porque os SS n�o os levavam a s�rio. Eles riam-se de tudo.

Havia inv�lidos que ajudei a despir, pois n�o conseguiam sozinhos.

Havia outros que tamb�m ajudavam.

Eu falava com estas pessoas.

Em certos casos, vi pessoas conhecidas.

O meu cora��o n�o me deixava ir ter com eles

para falar com eles.

Quem n�o tenha passado por isto

n�o pode imaginar o que � a vontade de viver,

o que � um momento de vida.

Todas as pessoas, sem excep��o, s�o capazes de fazer o pior

s� para viver mais um minuto.

Muitas mulheres abortavam durante o envenenamento.

As pessoas batiam umas nas outras.

Cravavam as unhas umas nas outras. Havia marcas de unhas.

Toda a gente queria sobreviver.

Mas era imposs�vel.

Quando as portas se abriam,

deixavam o g�s t�xico sair com ventoinhas.

Passados 15 minutos n�o havia veneno

e entr�vamos para retirar os cad�veres.

Eram levados pelos elevadores at� aos fornos.

Perto dos fornos, l� em cima,

havia um homem que retirava os dentes de ouro e placas.

Rapavam o cabelo �s mulheres

e procuravam bens valiosos nos s�tios mais �ntimos,

principalmente nas mulheres.

No forno, os cad�veres demoravam 15 minutos para arder.

S� ficavam algumas cinzas.

A 24 de Julho de 1944,

os russos libertaram Lublin na Pol�nia do Leste.

Nos arredores da cidade,

encontraram o campo de concentra��o de Majdanek.

As SS tinham tentado matar todos os prisioneiros

e destruir todas as provas do centro de exterm�nio,

mas um grupo da Resist�ncia polaca invadiu o campo

antes que terminassem o servi�o.

As c�maras de g�s disfar�adas de duches e salas de desparasita��o,

estavam intactas.

Os cremat�rios ainda com restos de cinzas humanas

estavam ligeiramente danificados.

L� perto, encontraram hortas de couves

com fertilizante de ossos humanos.

Auschwitz estava agora a menos de 270 km.

Mas os russos n�o bombardearam o campo.

Os fornos n�o paravam um minuto.

Estavam dois turnos a trabalhar,

das 6h da manh� �s 6h da tarde.

Uma noite, estava presente quando trouxeram os ciganos

para serem queimados.

Foi uma vis�o horrenda.

Gritavam que nem desalmados.

Os gritos no Bunker,

no cremat�rio, na c�mara de g�s,

eram horr�veis.

Ainda hoje me interrogo

como � que Deus n�o ouviu estes gritos.

Acho incr�vel que Ele n�o tenha ouvido aquilo.

Eram... horr�veis.

Os gritos para o c�u.

Mas agora, estava a acabar.

Os alem�es retiravam em todas as frentes

a tentar destruir as provas pelo caminho.

Os russos chegaram a Auschwitz a 26 de Janeiro de 1945.

S� encontraram 2819 pessoas,

demasiado velhos ou doentes para sa�rem de l�,

pessoas que os SS achavam que iam morrer � mesma.

Todos os outros foram levados � pressa para a Alemanha.

Entre os sobreviventes, estava um grupo de crian�as,

na sua maioria g�meos,

sobreviventes pat�ticos das experi�ncias de Himmler.

Tamb�m encontraram armaz�ns cheios at� cima

com coisas que os SS n�o tiveram tempo de enviar para a Alemanha.

Em Abril de 1945, os brit�nicos e os americanos

mandavam nos campos da Alemanha de Leste.

Dos milh�es que estavam em campos por toda a Europa,

os Aliados s� chegaram a tempo para salvar os �ltimos 500 mil.

Centenas de milhar deles tamb�m iriam morrer,

v�timas da fome e das doen�as.

Nunca saberemos ao certo quantas pessoas as SS mataram.

500 mil ciganos,

3 milh�es de polacos,

mais de 5 milh�es de judeus

e outros tantos milh�es de eslavos.

No m�nimo, 14 milh�es de seres humanos morreram

como resultado directo de uma teoria racial.

Auschwitz est� como os russos o encontraram.

Um memorial decadente �s suas v�timas.

Ningu�m sabe ao certo quantas pessoas morreram aqui.

Um milh�o?

Talvez o dobro.

O campo, meio destru�do,

o cremat�rio em ru�nas, desfeito � pressa pelas SS,

e um buraco, no lugar da c�mara de g�s

onde 2500 pessoas eram mortas de cada vez.

Tudo est� como era em 1945.

Os bosques atr�s do campo,

onde tantos esperaram para entrar na c�mara de g�s,

continuam iguais, indiferentes �s mem�rias.

Este territ�rio foi em tempos um p�ntano.

Mas depois as SS usaram-no para se desfazer das cinzas.

Se tocar o ch�o algures no campo,

tanto quanto vemos,

a m�o vem coberta de um barro de osso humano.

O barro prolonga-se por tr�s metros abaixo da terra.

As ru�nas de Auschwitz s�o mais do que uma recorda��o.

Enquanto existir intoler�ncia pol�tica, preconceitos religiosos,

preconceitos raciais, elas s�o um aviso.

Um aviso de que todos temos a responsabilidade

de fazer com que ningu�m construa outro Auschwitz.

Tradu��o e Legendagem: M�nica Moreira / SINTAGMA - CCBS Multim�dia

Legendas ripadas e adaptadas por: boi_cavalo

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