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A SOLU��O FINAL PARTE 1
Narra��o
Hoje n�o acredito que tal coisa tenha acontecido.
Acho que foi um sonho.
Mas ainda vejo tudo aquilo.
Todos os pormenores. Como se tivesse acontecido hoje.
Estou aqui sentado a falar
e ainda hoje n�o acredito no que me aconteceu.
Que consigo estar aqui sentado a falar sobre este assunto,
apesar dos pesadelos que me perseguem n�o por um ou dois dias,
n�o por um ou dois anos.
H� dias em que olho para tr�s
para ver se h� algum guarda ou algum homem da SS.
Mas, apesar disto, finjo que sou uma pessoa normal.
N�o sei se sou normal.
Acho que quem sobreviveu a um campo n�o pode ser normal.
As coisas que me aconteceram
ocorreram h� 30 ou 31 anos.
N�o � f�cil regressar a esse per�odo.
Estou a fazer isto por sentido de dever
e por causa de um voto de honrar aquele per�odo.
E por aqueles que n�o podem falar dele
e que gostariam que o mundo soubesse o que aconteceu.
Neste filme,
testemunhas individuais falam da sua experi�ncia com o racismo nazi.
Auschwitz � hist�ria.
O preconceito racial ainda existe.
Em 1918, os homens que tinham ido para a frente
entusiasmados com o orgulho nacional,
regressaram a uma Alemanha derrotada e amargurada.
Estes tinham sobrevivido. O seu regresso era motivo de festejo.
Mas o seu hero�smo fora desperdi�ado,
as suas vit�rias tamb�m.
Algu�m tinha de ser o culpado.
O Kaiser e a velha ordem aristocr�tica?
Ou os comunistas e a amea�a de uma nova ordem,
recentemente chegada ao poder na R�ssia?
Ou talvez os judeus?
O medo deles era t�o velho como a cristandade em si.
O Kaiser fora derrotado.
Pela primeira vez, a Alemanha era uma democracia parlamentar.
Mas os primeiros anos da Rep�blica de Weimar foram violentos.
Os comunistas queriam espalhar a revolu��o da R�ssia � Alemanha,
os lealistas queriam impor a ordem atrav�s da for�a
e os separatistas queriam dividir o fr�gil Estado alem�o unificado.
Para milh�es de alem�es que queriam ordem e estabilidade,
os anos ap�s a Primeira Guerra foram de humilha��o nacional,
mis�ria econ�mica, amea�as de viol�ncia, medo do comunismo.
A infla��o era enorme.
As pessoas perderam a confian�a no seu dinheiro, nos seus governantes,
nelas pr�prias.
"Nada mais est� ancorado, "
disse Adolf Hitler � sua primeira audi�ncia em Munique.
Hitler compreendia as ansiedades germ�nicas.
Um austr�aco que lutara com distin��o no ex�rcito alem�o,
prometeu substituir o caos por uma luta racial unificadora.
Hitler queria realizar um velho sonho nacionalista:
a uni�o de todos os alem�es num grande Estado alem�o.
Um Reich que abrangeria todos os povos de l�ngua alem�.
N�o s� os austr�acos e os prussianos do Leste,
mas os alem�es da regi�o dos Sudetas na Checoslov�quia,
os alem�es da Pol�nia, da Jugosl�via.
At� os alem�es da R�ssia.
Alguns pol�ticos alem�es receavam, ou diziam que receavam,
que a na��o fosse engolida pelos eslavos a Leste.
O partido nazi exigia novos territ�rios a�,
onde uma popula��o alem� crescente se pudesse instalar.
E o programa nazi pedia a expuls�o de estrangeiros da Alemanha,
de imigrantes.
Par�grafo 4: "S� os que s�o nossos compatriotas podem ser cidad�os.
"S� os que t�m sangue alem�o, independentemente do credo,
"podem ser nossos compatriotas.
Portanto, nenhum judeu pode ser nosso compatriota. "
"Precisamos de um inimigo vis�vel, " disse Hitler.
Nas publica��es nazis, o judeu era retratado como o vil�o
respons�vel por todos os problemas da Alemanha.
"Se ele n�o tivesse existido, t�nhamos de o inventar. "
S� um em cem alem�es era judeu.
600 mil ao todo.
Mas os nazis podiam aproveitar s�culos de preconceito crist�o.
Shylock e Fagin eram figuras familiares.
Hitler usava o judeu como �nico opositor,
em quem todos podiam concentrar o seu medo e descontentamento.
"Os judeus n�o s�o aqui desejados. "
O ide�logo do partido, Alfred Rosenberg,
dizia haver uma conspira��o internacional
de judeus, comunistas e capitalistas,
os Anci�os de Si�o,
que queria destruir as ra�as brancas, em especial os alem�es.
A maioria das pessoas rejeitava tais fantasias
como exemplos do mau gosto nazi.
Os judeus da Europa de Leste
h� muito que sabiam o que era ser "diferente",
o que era a discrimina��o, a persegui��o, a pogrom.
Tinham roupas pr�prias e a sua pr�pria l�ngua,
o i�diche.
No Ocidente, na Holanda ou na Checoslov�quia,
onde estes filmes foram feitos,
para serem mais tarde integrados na propaganda nazi,
a assimila��o era mais f�cil,
apesar de nem sempre poderem entrar no clube de golfe local.
Durante s�culos, os judeus tinham sido de uma religi�o diferente.
Agora, a pseudoci�ncia marcava-os como uma ra�a � parte.
A ideologia nazi perverteu a teoria de Darwin da selec��o natural
para afirmar que o homem do Norte da Europa, o ariano, era superior,
mas que estava preso, na luta pela sobreviv�ncia,
por ra�as inferiores: asi�ticos, negros, ciganos e judeus.
A anti-ra�a.
Bact�rias que decompunham os corpos das na��es em que viviam.
A pessoa que devia ser admirada segundo a propaganda nazi
era o campon�s alem�o.
A arte do campon�s, a arte popular, n�o era corrompida.
Era a �ltima sobreviv�ncia da cultura racial, tribal
antes da polui��o da Revolu��o Industrial.
As tradi��es simples reconfortavam as pessoas
que se sentiam perdidas em cidades an�nimas
ou confusas por costumes mais modernos.
Ao p�blico, Hitler dizia:
"Um anti-semitismo razo�vel tem de levar � expuls�o dos judeus. "
E o �dio pelos judeus unia as fac��es do partido nazi:
a SA, as tropas de assalto do partido,
rufias de rua fardados,
e a pol�cia interna do partido, as SS.
Em 1929, Hitler nomeou um trabalhador simples
na delega��o do partido em Munique,
um ex-assistente de laborat�rio de uma empresa de fertilizantes,
como director das SS,
Heinrich Himmler.
Quando Himmler ocupou o cargo,
as SS eram uma subsec��o das tropas de assalto com 300 homens,
cuja fun��o era proteger Hitler em encontros p�blicos.
Himmler ia transform�-los na elite do partido,
respons�vel pela pureza, moral e disciplina de todo o movimento.
Destacar-se-iam da SA como a for�a mais poderosa do partido.
Durante os anos 20,
os nazis eram um partido menor na pol�tica alem�.
As suas ideias n�o eram levadas a s�rio.
Mas, em 1929, a economia mundial afundou-se.
Para a Alemanha, depois de anos de uma infla��o terr�vel,
era um novo desastre. Havia seis milh�es de desempregados,
mais de 20 milh�es viviam do subs�dio de desemprego.
As pessoas come�aram a pensar que talvez Hitler tivesse raz�o.
A Alemanha devia ser v�tima de uma conspira��o internacional.
Os nazis diziam ter uma nova esperan�a de salva��o.
Milh�es estavam prontos a responder ao apelo emocional de Hitler:
um ressurgimento da grandeza alem�,
com base no orgulho �tnico, na lealdade � sua ra�a.
Para os que viviam na mis�ria,
era inspirador ouvir dizer que eram a ra�a suprema
e que os judeus, ciganos, eslavos e negros eram subesp�cies.
Apelava a que pensassem melhor deles,
pensando pior de outrem.
Talvez a democracia tivesse falhado.
Talvez fosse uma quest�o de tempo at� um governo autorit�rio,
nazi ou comunista, subir ao poder.
O povo respeit�vel que fazia fila para recuperar os bens dos bancos
teria sempre medo dos comunistas revolucion�rios.
As classes m�dias, arruinadas por for�as que n�o controlavam,
responderam �s promessas nazis:
uma sociedade ordenada, unidade nacional, fim da luta de classes.
N�o haveria mais caos. Apenas ordem.
Karl Wolff vinha de uma fam�lia militar distinta.
Perdeu o emprego como oficial
quando os Aliados for�aram a Alemanha a reduzir o ex�rcito.
Em 1929, tinha 29 anos.
No final dos anos 20,
um antigo camarada do meu regimento de guarda,
o capit�o Julius von Bernuth, foi a Munique
e explicou-me as condi��es num regime comunista.
Explicou-me que tudo levaria a uma grande decis�o.
Ou para a extrema direita, o nacional-socialismo,
ou para a extrema esquerda, o comunismo.
E perguntou-me:
"Ofereceste-te como volunt�rio para a guerra muito cedo, n�o foi?
"Agora que h� uma decis�o pol�tica a ser tomada que afectar� o futuro,
"o teu, o da tua fam�lia e dos teus filhos,
"tamb�m tu tens de te inscrever no partido,
mesmo que n�o queiras meter-te na pol�tica ou que n�o te interesse."
E foi assim que aconteceu.
Em 1931 , inscrevi-me no partido.
Nessa altura, apenas conhecia a SA.
N�o fazia ideia da exist�ncia das SS.
Na entrada, havia uma enorme secret�ria.
Estavam l� pessoas sentadas com fardas do partido,
que ainda n�o me eram familiares. Perguntaram-me o que eu queria.
Expliquei-lhes e disse que queria ir para a SA.
O encarregado perguntou-me: "Foi soldado?"
E eu respondi que sim.
"- Na Primeira Guerra Mundial? - Sim.
"- Foi condecorado por bravura? - Sim.
O que tem?"
Disse que tinha uma Cruz de Ferro de primeira e segunda classes
e que tinha servido no regimento da guarda hessiana.
Depois disse: "Se serviu num regimento t�o glorioso
"e se foi soldado na frente,
"ent�o o seu lugar n�o � na SA.
"Tal como havia uma guarda de elite no tempo do Kaiser,
"h� tamb�m agora uma no novo movimento a que se quer juntar.
"S�o as SS.
"� mais apropriado para si.
Devia ir para as SS."
As SS em que Karl Wolff ingressou
eram a ordem negra de cavalaria do nazismo.
O lema era: "O meu juramento � a lealdade. "
A ins�gnia era a Cabe�a da Morte.
A farda negra deles simbolizava os seus ideais:
severidade, terror, o culto do super-homem conquistador.
Em "Mein Kampf", Hitler escrevera:
"Como nacionais-socialistas, vemos o nosso programa na nossa bandeira.
"O vermelho representa a ideia social do movimento.
"O branco, a ideia nacionalista.
"A su�stica representa a miss�o da luta pela vit�ria ariana
"e tamb�m a vit�ria da ideia do trabalho criativo
que sempre foi e sempre ser� anti-semita. "
Em Janeiro de 1933,
o Presidente Von Hindenburg convidou Hitler a formar governo.
Os nazis festejaram em Berlim.
Hitler disse aos amigos
que era o in�cio da maior revolu��o racial germ�nica da hist�ria,
revertendo o progresso das ra�as de cor:
mong�is, eslavos, judeus, ciganos e bolcheviques.
Hitler liderava uma fr�gil coliga��o de direita.
Os ministros nazis n�o tinham experi�ncia de governo
e as suas pol�ticas raciais
podiam ser bloqueadas por funcion�rios p�blicos.
Na verdade, estes estavam ansiosos por cooperar.
O Ministro do Interior, Goering,
sublinhou as novas prioridades do governo.
Farei uma limpeza total com uma vassoura de ferro
e expulsarei dos seus cargos
aqueles que, atrav�s de apoios vermelhos e negros,
tentaram suprimir todo o ressurgimento nacional.
Uma for�a particularmente destrutiva
anda � solta entre as pessoas do Reich: o comunismo.
Declarei guerra a esse movimento.
A 27 de Fevereiro, o Reichstag, o parlamento,
ficou misteriosamente destru�do num inc�ndio.
Era a desculpa de que Goering precisava.
Emitiu um decreto de emerg�ncia
para combater a amea�a da revolu��o.
As SS e a SA, agora com fun��es policiais,
levaram sob cust�dia protectora todos os elementos subversivos,
especificamente comunistas, anarquistas,
sociais-democratas e os seus apoiantes activos.
Os centros de internamento passaram a chamar-se campos de concentra��o.
Em semanas,
30 mil opositores pol�ticos de Hitler foram para l�.
Hitler tinha-se concedido poderes de emerg�ncia indefinidamente.
Em Abril,
as SS e a SA fizeram um boicote nacional �s lojas judaicas.
Um exerc�cio de propaganda para unir o pa�s,
centrando a aten��o no inimigo universal.
Um bom alem�o ariano devia mostrar o seu germanismo essencial
atrav�s de actos contra os judeus, a anti-ra�a.
Numa semana,
surgiram leis que n�o permitiam funcion�rios p�blicos n�o arianos.
As profiss�es de m�dico, advogado, cientista e professor
tamb�m n�o seriam exercidas por judeus.
50 mil judeus foram levados a deixar a Alemanha.
Mas estas manifesta��es n�o foram um �xito total.
Houve pessoas que ficaram com pena dos judeus.
Os l�deres dos 500 mil judeus que ainda estavam na Alemanha
formaram uma organiza��o para tentar convencer os nazis
de que tamb�m eles eram alem�es leais.
Sigmund Weltlinger, um corretor da Bolsa de Berlim,
era um judeu com influ�ncia.
Infelizmente, eu n�o era um profeta nesta situa��o.
Confiava completamente nos meus compatriotas alem�es
com base em longos anos de experi�ncia,
j� desde os anos anteriores � Primeira Guerra Mundial.
N�o podia imaginar que um povo mudasse assim tanto.
Achava que n�o havia qualquer amea�a pessoal,
ao meu corpo ou � minha vida.
Pensei que ia ultrapassar tudo aquilo. N�o fugi.
10 de Maio de 1933.
As SS, a SA, professores e alunos recolheram livros
que se julgava "n�o estarem dentro do esp�rito nacional".
As obras de Lenine, Freud, Heinrich Mann e Marx
foram queimadas num acto p�blico de purifica��o cultural.
No novo Estado, o intelecto era suspeito,
soava a algo judaico.
O que era necess�rio era uma obedi�ncia cega.
O intelecto apodrece o car�cter, dizia Himmler.
O Ministro da Propaganda, Goebbels.
A era
do intelectualismo judeu exagerado chegou ao fim.
Com a nossa revolu��o alem�,
abrimos caminho para os costumes alem�es.
O alem�o do futuro
n�o ser� apenas um homem dos livros,
mas tamb�m um homem de car�cter.
Nos bastidores,
as SS tornava-se o �rg�o mais temido do Estado.
Para substituir a brutalidade ocasional da SA,
introduziram um terror frio e calculado.
Hitler tinha dito:
"Se a propaganda incutiu uma ideia a um povo,
a organiza��o pode inferir consequ�ncias com alguns homens. "
As SS eram esse punhado de homens.
Depois da chegada ao poder, Himmler convidou-me pessoalmente:
"Preciso de si. Quero criar uma Ordem de Cavaleiros das SS.
"Para isso, preciso de uma guarda de elite
"e quero criar uma tropa activa nas SS.
"Infelizmente, nunca lutei na frente e n�o fui um oficial,
"preciso de algu�m que tenha sido.
"O Ex�rcito n�o me d� ningu�m qualificado,
muito por inveja."
Deixei-me convencer
e ent�o, por destino,
tornei-me ajudante de Himmler nas SS.
L� tinha um �ptimo campo de actividade,
organizando e dirigindo sem ningu�m a controlar-me.
E, assim, subi muito depressa.
No poder, os nazis podiam empregar todos os recursos dos media
para promover o renascimento racial em que acreditavam.
Hitler disse:
"Quem vir o nacional-socialismo apenas como movimento pol�tico
"n�o sabe nada sobre ele. � at� mais do que uma religi�o.
� a vontade de criar um novo homem. "
As SS indicariam o caminho.
Himmler queria realizar um sonho
e ele pr�prio foi muito influenciado por ele.
Seria o criador de um novo despertar da ra�a germ�nica
no seio do povo alem�o,
que, devido �s muitas guerras perdidas na Idade M�dia,
tinha sido invadido por estirpes do Leste, Ocidente e Sul,
que se tinham misturado e manchado o ideal louro germ�nico.
O sonho, como � mostrado em filmes como "Sangue e Solo",
era simples, mas sedutor.
Idealizava os valores inalterados do pa�s,
de uma vida natural baseada no ar fresco,
na boa comida e na lealdade para com a fam�lia.
Dava �nfase � nobreza essencial do campon�s alem�o louro.
O seu sangue era rico e f�rtil como o solo alem�o que ele lavrava.
Nas cidades, a taxa de nascimento era inferior � do campo.
A cidade era r�gida, impessoal,
mecanizada, cosmopolita, suja e conspurcada.
Os nazis n�o podiam restringir o movimento da terra,
mas denunciavam as cidades como "centros de caos racial,
"adequados �s caracter�sticas especiais dos judeus
que lhes davam a possibilidade de avan�arem na vida. "
Os com�cios falavam sempre do verdadeiro povo, do campon�s.
Hitler escrevera: "Um Estado que, nesta era de envenenamento racial,
"se dedica a cuidar dos seus melhores elementos raciais,
ser� um dia senhor do mundo. "
O nazismo era biologia pol�tica.
Faziam-se filmes para provar as leis de selec��o natural de Darwin,
a sobreviv�ncia do mais apto.
Ser� que um dos lucanos ser� morto na luta?
� o mais prov�vel. Mas precisamos disto para o filme.
Estamos a obrigar estes lindos animais a lutar pela vida.
Podiam ter continuado a viver pacificamente.
Mas, minha cara Fr�ulein Volkman,
ningu�m tem uma vida pac�fica em s�tio nenhum da natureza.
Mas, professor, nem todos lutam com os outros.
Talvez n�o assim,
mas todos vivem numa luta constante,
na qual o mais fraco � destru�do.
O p�ssaro doente � apanhado pelo gato.
Ocorrem lutas dentro da mesma esp�cie
e o mais fraco � derrotado.
T�m uma pol�tica racial adequada!
De certo modo, sim.
Apesar de esta selec��o ocorrer de um modo mais instintivo.
Se um animal tiver perdido contacto directo com a natureza,
ent�o esta selec��o natural j� n�o ocorre.
Esse � o problema dos nossos animais dom�sticos.
O criador tem de se certificar de que a esp�cie se mant�m pura.
Os cavalos, continua o filme a explicar,
s�o criados para diferentes fun��es:
para correr ou para trabalhar no campo.
Estas ideias devem tamb�m ser extensivas aos humanos.
A luta pela sobreviv�ncia exigia uma juventude saud�vel,
de sangue puro.
O amor entre as ra�as n�o era natural.
Hitler disse que queria "o renascimento da na��o
atrav�s da cria��o deliberada de um homem novo. "
As SS iriam dar in�cio a este projecto.
Havia grandes cuidados no medir da altura,
no formato do cr�nio e no registo exacto da cor do cabelo,
da cor dos olhos e, em certas circunst�ncias,
as orelhas e o queixo.
Todo este tipo de coisas.
Seleccionando em conjunto,
pod�amos depois esperar pelo desenvolvimento.
Mas havia apenas um pensamento racial positivo:
como melhorar algo, como cri�-lo.
Nunca em pensamento. Nunca ningu�m falava disso
e nunca nos ocorreu que fal�vamos arrogantemente
em exterminar algu�m que n�o nascera com a pele branca,
que era culturalmente inferior a n�s
ou que era indesej�vel.
Foi um desenvolvimento assustadoramente degenerado
que apenas surgiu devido �s press�es da guerra,
com toda a outra degenera��o que a guerra provoca.
Em Nuremberga, em Setembro de 1935,
os nazis anunciaram leis raciais.
O Acto de Cidadania do Reich
e o Acto de Protec��o do Sangue Alem�o e da Honra Alem�.
Goering declarou o fim dos direitos pol�ticos dos judeus.
O casamento ou sexo entre judeus e pessoas de sangue alem�o ou aliado
era proibido no interesse da "sobreviv�ncia da ra�a alem�".
A ra�a era ensinada na escola.
Os desenhos nazis nos livros escolares
comparavam o ariano forte e trabalhador
com o judeu pregui�oso e desonesto.
Para os jovens, o partido organizava campos
que encorajavam um esp�rito activo e com gosto pelo ar livre.
Jovens das ruas m�s das cidades
aprendiam a ter orgulho dos corpos arianos saud�veis.
Por tr�s das brincadeiras, estava o sonho de Hitler de uma juventude
"que provasse a magnific�ncia do predador,
purgado de toda a brandura crist� pouco natural. "
Dizia-se que Himmler era como um director de uma escola do campo.
Ficava comovido s� de ver crian�as louras saud�veis.
Criou casas de acolhimento para os filhos ileg�timos dos seus homens.
Mais tarde, quando a guerra come�ou,
pediu-lhes que, com o mais profundo fervor,
gerassem mais filhos fora dos seus casamentos
para aumentar a quantidade de bom sangue alem�o.
No novo estado alem�o, todos admiravam as SS.
As SS eram a guarda do movimento, o bra�o militante do movimento.
E, como era uma elite,
n�o s� f�sica e racialmente,
mas tamb�m em termos de car�cter,
s� podia ser uma minoria.
Quanto aos requisitos b�sicos, para terem uma ideia,
deviam ser o mais louros poss�vel e ter olhos azuis.
Tinha de haver uma selec��o r�gida,
que tinha de ser encorajada e controlada.
Os homens das SS, os eleitos, n�o podiam casar-se com quem quisessem.
As mulheres deviam ser suas iguais,
para que pudessem depois procriar
os velhos teut�es racialmente puros.
Por exemplo, um homem das SS n�o podia casar de qualquer modo.
Tinha de entregar o impresso de casamento,
a sua futura noiva, a sua namorada,
tinha de ser vista por um m�dico do Departamento de Ra�a e Recoloca��o
para ver se ela era adequada.
S� depois disso e de ter permiss�o � que ele podia casar-se.
Himmler era o executor privilegiado da vontade
e das decis�es do seu F�hrer, Adolf Hitler,
que ele idolatrava.
A come�ar pela concep��o de Hitler
que encarava a cristandade
como uma doen�a na natureza germ�nica,
ele considerava que era seu dever,
n�o s� renovar e melhorar a ra�a germ�nica o mais poss�vel,
mas tamb�m renovar e melhorar a religi�o.
E lev�-los de volta, passo a passo,
a uma nova esp�cie de reconhecimento de Deus
e a novas formas de culto.
De vez em quando, o nosso capit�o falava de armas ou algo assim.
De repente lembrou-se e perguntou:
"Quem j� deixou a Igreja?"
E muitos levantaram-se.
Eu fiquei um pouco chocado e ele perguntou:
"Quem ainda n�o deixou a Igreja?"
Levantei-me e olhei � minha volta
e vi que tamb�m havia outros e fiquei aliviado.
Era melhor do que estar ali de p� sozinho.
E disse: "Meu capit�o, n�o posso deixar a Igreja.
"Os meus irm�os, irm�s e pais s�o cat�licos.
Exclu�am-me da fam�lia se eu fizesse uma coisa dessas."
Para substituir a religi�o, Himmler inspirou-se no passado teut�nico.
Os alem�es esmiu�aram a pr�-hist�ria n�rdica
para reviver a heran�a espiritual e cultural
da melhor ra�a do mundo.
As SS aprenderam os mist�rios e mitos do passado dos teut�es.
Em Bad Tolz, criou-se uma escola para oficiais das SS.
Uma escola de cavalheiros, para treinar mente e corpo.
Testes de coragem f�sica e de obedi�ncia:
balan�avam granadas nos capacetes at� elas rebentarem,
disparavam contra eles em campos de batalha
e, ao pequeno-almo�o, comiam papas de aveia prescritas por Himmler,
pois admirava o modo como tinham transformado os alunos ingleses
em criadores de um imp�rio.
Um homem das SS tinha de ser um atleta destemido.
Himmler era fr�gil, tinha uma ponta de hipocondria
e tinha muitas dores de cabe�a.
No entanto, longe das c�maras,
ele for�ou-se a ele mesmo a fazer os testes desportivos das SS.
Por tr�s do �nfase no desporto para desenvolver coragem e disciplina
estava o assistente de Himmler, o esgrimista Reinhardt Heydrich.
Expulso da Marinha por ser mulherengo,
tornou-se chefe do Departamento de Seguran�a das SS,
o instrumento de terror e de assassinato dos nazis.
Os SS juravam obedi�ncia total ao F�hrer at� � morte.
Era o pr�prio Himmler que os ajuramentava.
Eles foram levados a pensar que eram os Filhos da Luz.
Que estavam numa luta contra os poderes das trevas.
As SS baseavam-se no exemplo da Ordem Jesu�ta,
que fora criada como guarda de elite da Igreja Cat�lica
por In�cio de Loyola,
com leis muito r�gidas e severas.
E Himmler foi l� buscar muito disso:
a hierarquia, a selec��o r�gida e a lideran�a e os castigos.
"Arbeit Macht Frei. " "O Trabalho Liberta-vos"
podia ler-se nos port�es do campo de concentra��o de Dachau.
Como guardi�es morais do sistema nazi,
era l�gico para as SS terem centros de castigo.
Em Dachau, ensinavam aos guardas que ter pena dos inimigos do Estado
n�o era digno de um homem das SS.
N�o havia lugar para homens com cora��o mole.
N�o era por acaso que o emblema deles era a Cabe�a da Morte
e que andavam com uma arma carregada.
Os prisioneiros eram reduzidos � subservi�ncia total
atrav�s da brutalidade impessoal, da crueldade met�dica.
Os prisioneiros n�o eram pessoas, eram n�meros.
E os campos eram essenciais ao sistema nazi.
Eles eram necess�rios, na opini�o de Himmler e de Hitler,
um como chefe de Estado e outro como chefe da Pol�cia alem�,
para eliminar temporariamente
elementos criminosos e associais.
Dividi-los naqueles que eram incur�veis
e nos que podiam ser convertidos
e, portanto, salvos para uma tarefa activa e positiva
na comunidade popular alem�.
N�o eram apenas criminosos comuns,
mas tamb�m presos pol�ticos.
Hitler escrevera: "O terrorismo � uma ferramenta pol�tica eficaz.
"N�o vou privar-me dele,
"s� porque os burgueses pregui�osos e simpl�rios ficam ofendidos.
"As pessoas pensar�o duas vezes antes de se opor a n�s
se souberem o que as espera nos campos. "
Dachau era o modelo para todos os campos,
a escola de treino para as unidades da Cabe�a da Morte
que, um dia, forneceriam os gestores da "Solu��o Final".
Entre 1934 e 1938, os campos nunca tiveram menos de 20 mil pessoas.
Muitas morreram l�.
Em 1938, os nazis estavam no poder h� cinco anos.
Houve um com�cio para a juventude do pa�s no castelo de Landsberg,
um templo nazi por Hitler ter l� estado detido por pouco tempo.
"Alemanha, palavra sagrada,
viver�s para sempre, triunfar�s sobre o tempo. "
Hitler sempre falara de uma Alemanha superior,
um estado �tnico que uniria todos os povos de l�ngua alem�.
Estava na hora de passar o facho da comunidade racial nazi
para l� das fronteiras da Alemanha.
As tropas de Hitler entraram depressa na �ustria
e na regi�o dos Sudetas na Checoslov�quia,
unindo duas comunidades de l�ngua alem� � grande fam�lia alem�.
Hitler disse na sua cidade natal, Linz,
que tinha alcan�ado uma miss�o hist�rica.
E os homens de Himmler, ajudados por nazis locais,
reuniram os opositores.
Encorajadas pelas SS,
fantasias anti-semitas mal contidas foram violentamente libertadas.
Foi pior do que tudo o que j� se vira na Alemanha.
Heydrich, como outros fan�ticos nazis, estava a ficar impaciente
por t�o pouco ter sido feito para expulsar os judeus.
Reuniu 10 mil e abandonou-os junto � fronteira com a Pol�nia.
Devido ao tempo g�lido, muitos morreram.
O filho de um deles, Herschel Grynspan,
tentou matar o embaixador alem�o em Paris.
Confuso, matou um membro mais novo do pessoal da embaixada,
Ernst von Rath.
Von Rath foi considerado um m�rtir dos judeus
e teve direito a funeral de Estado, a que Hitler foi,
por entre o brilho da publicidade nazi,
enquanto, secretamente, eram feitos planos
para a intensifica��o da emigra��o dos judeus.
A quest�o judaica tinha de ser resolvida de uma vez por todas.
Hitler avisara que o partido n�o podia ser visto
a instigar manifesta��es contra os judeus,
mas, se houvesse manifesta��es espont�neas,
n�o era obriga��o deles evit�-las.
Na noite de 9 de Novembro de 1938,
milhares de lojas judaicas foram destru�das, janelas foram partidas.
Queimaram-se sinagogas por toda a Alemanha.
91 judeus foram mortos.
"Die Kristallnacht. " A Noite de Cristal.
Esta manifesta��o espont�nea foi conduzida pelos homens de Heydrich.
Na manh� seguinte, as SS levaram 30 mil judeus mais ricos
para campos de concentra��o.
Fomos todos empurrados com bast�es e golpes
e tivemos de ficar em filas compactas e de ser contados.
Como j� tinha sido soldado, n�o achei aquilo dif�cil.
Mas os que n�o se punham na fila eram logo espancados.
O comandante do campo fez um discurso:
"Voc�s n�o est�o num sanat�rio
"e, se tentarem fugir, disparamos logo
e os nossos soldados s�o bons atiradores."
Foi a primeira noite.
De manh�, vimos longas filas de seres humanos
com caras cinzentas em fatos de trabalho �s riscas
e passavam como sombras,
mas nunca sonh�mos que, em oito dias,
estar�amos exactamente como aquelas colunas.
Ao fim dos primeiros dez dias,
25% das pessoas que foram levadas para l� j� tinham morrido.
Sa� por ser veterano de guerra.
Os veteranos de guerra sa�am mais cedo.
A comunidade judaica tinha criado comit�s
para os representar junto dos nazis.
Agora, os homens de Himmler apoderavam-se deles.
Receberam ordens para ajudar a apressar a emigra��o judaica
e a recolher os impostos pesados impostos aos milhares
que agora faziam fila para sair da Alemanha.
Ap�s a sua liberta��o do campo, Sigmund Weltlinger foi trabalhar
para a comunidade judaica em Berlim.
Era um trabalho muito, muito dif�cil.
Tinha 12 advogados a trabalhar comigo
e v�rios contabilistas da comunidade judaica.
Era um trabalho muito dif�cil em termos humanos,
porque tinha de dizer �s pessoas que queriam emigrar
ou que iam ser expulsas:
"Fa�a uma lista dos seus bens, declare os seus bens.
Damos-lhe um recibo e depois ser� transportado."
Disseram: "Mas porque temos de os declarar? Assim perdemo-los."
Depois expliquei-lhes que, se Hitler ficar, os perdiam na mesma.
Hitler dissera:
"Um anti-semitismo razo�vel tem de levar � expuls�o dos judeus. "
Atrav�s do terror, eram obrigados a sair,
eram despojados de tudo o que tinham antes de partir.
A opera��o foi feita seguindo um sistema criado em Viena
por um dos agentes de Heydrich,
o tenente Karl Adolf Eichmann das SS.
Wilhelm Hottl era um jovem licenciado em Hist�ria
que integrara as SS quando os nazis entraram na �ustria.
Perguntei a Eichmann: "De qualquer modo, as pessoas querem sair.
"Se, como parte do programa, querem livrar-se deles,
porque tornam a sa�da deles t�o dif�cil?"
O esquema implicava que um judeu que quisesse emigrar da �ustria
tivesse de arranjar primeiro um visto
e uma confirma��o do Minist�rio das Finan�as de que n�o tinha d�vidas.
Depois, precisava de um lugar num navio
e autoriza��o para transportar a sua mob�lia, etc.
Expliquei tudo isto a Eichmann,
que era um homem bastante dif�cil.
"Se a situa��o � essa,
"porque n�o facilita a vida �s pessoas que querem sair?
Quer os judeus l� fora e eles querem sair de moto pr�prio."
E esta � que � a parte grotesca.
Eu quase fundei o Departamento Central para a Emigra��o Judaica,
que foi criado em Viena.
Era o primeiro de sempre.
Mal funcionavam na Alemanha, mas em Viena aquele funcionava.
Eichmann organizou-o.
Requisitaram o edif�cio do ballet que pertencia ao bar�o Rothschild
e fizeram tudo como eu tinha imaginado.
Havia um representante do Departamento de Passaportes,
um representante das autoridades financeiras,
um representante do departamento de embarque
e representantes dos transportes.
Um pobre judeu que quisesse emigrar
podia agora tratar de tudo em duas horas, ficava com tudo tratado
e podia sair.
Ao todo, cerca de um milh�o de judeus queria "sair".
Mas para onde?
Os pa�ses apertavam as suas quotas de entrada.
O primeiro-ministro brit�nico, Chamberlain,
n�o se atrevia a admitir que deixava entrar 500 por semana
com medo de instigar o anti-semitismo brit�nico.
At� o arcebispo de Cantu�ria tinha de escolher as palavras.
Pe�o-vos que pensem, por um momento,
nos homens, mulheres e crian�as
que est�o a ser obrigados a sair de suas casas na Alemanha e na �ustria
por uma persegui��o cruel.
O seu �nico crime � a ra�a a que pertencem.
Devido a isto, as vidas deles
foram deliberadamente tornadas insuport�veis.
O nosso pr�prio governo e outros governos
t�m de fazer tudo para encontrar os espa�os abertos da Terra,
encontrar um s�tio onde, em enormes coloniza��es,
estas pessoas infelizes possam viver em liberdade e em paz.
Foi por isto que Lord Baldwin fez um apelo nacional.
Este fundo ajudar� imparcialmente
todas as v�timas de persegui��o
e, lembrem-se,
entre eles h� imensos crist�os e imensos judeus.
D�em o que puderem a este fundo.
Pe�o-vos que fa�am a vossa parte
neste trabalho de miseric�rdia.
A Palestina era a casa b�blica dos judeus.
Desde que Hitler subiu ao poder, muitos judeus tinham ido para l�.
Os pa�ses desenvolvidos n�o os aceitavam.
A sua solu��o era encontrar um espa�o
onde os judeus pudessem ficar sem problemas.
Talvez a Palestina sob controlo brit�nico fosse a resposta.
Mas os �rabes que j� l� viviam opuseram-se.
Os �rabes est�o contra a pol�tica do governo brit�nico
na Palestina.
Uma pol�tica que, se continuar, ter� certamente como resultado
a substitui��o dos �rabes pelos judeus.
Os �rabes apoiaram as suas reivindica��es no terrorismo.
Em 1939,
os brit�nicos limitaram a imigra��o de judeus para a Palestina
a 10 mil por ano.
Colocar um milh�o de judeus a esse ritmo demoraria cem anos.
O Reichstag, 30 de Janeiro de 1939.
Hitler revelou que a sua pol�tica em rela��o aos judeus
poderia ir para al�m da expuls�o.
Se os financeiros internacionais judeus dentro e fora da Europa
envolvessem as na��es noutra guerra mundial,
o resultado n�o seria a vit�ria do juda�smo,
mas a aniquila��o da ra�a judaica na Europa.
Durante anos, peritos em sa�de nazis
pediram a Hitler que ordenasse a morte misericordiosa
dos loucos e dos doentes incur�veis.
Mas Hitler receava que isso ofendesse a opini�o p�blica.
Ent�o, o Minist�rio da Sa�de fez uma s�rie de filmes de propaganda.
Na natureza, as criaturas fracas morrem todas sem excep��o.
Nas �ltimas d�cadas, os homens pecaram terrivelmente
contra esta lei da selec��o natural.
N�o s� preserv�mos vida sem valor,
como permitimos que procriasse e se multiplicasse.
Ao filme pouco faltou para defender a eutan�sia,
mas dava �nfase ao desperd�cio de recursos escassos
e de enfermeiras treinadas que cuidavam de "parasitas".
A quest�o tinha acalmado at� � guerra,
quando, como Hitler disse:
"A Igreja n�o seria capaz de resistir. "
Nos bastidores, a SS recrutara a sua equipa de m�dicos
dispostos a praticar princ�pios nazis de biologia social.
Num papel escrito � m�o e com a data de 1 de Setembro de 1939,
Hitler autorizou o in�cio da "morte misericordiosa".
1 de Setembro de 1939. Guerra contra a Pol�nia.
Cineastas receberam ordens para retratar um povo unido,
ansioso pela luta.
Tamb�m a guerra era apresentada como biologia pol�tica.
"A lei inalter�vel da vida,
"o pr�-requisito da selec��o natural dos fortes
"e o precedente para a elimina��o dos fracos.
"Um povo que n�o se afirma tem de desaparecer
e outro tem de tomar o seu lugar. "
Os polacos eram eslavos, uma ra�a inferior.
Desde sempre que a Pol�nia estava marcada por Hitler
como um "espa�o para viver no Leste".
Mas a agress�o nazi provocou uma segunda guerra mundial.
A Gr�-Bretanha e a Fran�a ficaram do lado da Pol�nia.
A 5 de Outubro,
Hitler foi saudado no desfile de vit�ria em Vars�via.
Na Pol�nia eslava, a pol�tica nazi podia ser posta em pr�tica
sem preocupa��es com a opini�o p�blica.
Lembro-me de haver uma banda alem� a tocar l� � frente.
Eu achava aquilo muito bom, estava feliz.
At� me lembro de ter batido palmas.
Na Pol�nia, rufias nazis podiam finalmente fazer o que gostavam.
E alguns polacos juntaram-se a eles.
O reino de terror durou at� � Liberta��o.
Ordens secretas diziam que os esp�ritos animais dos homens
n�o deviam ser desencorajados.
Na Pol�nia, os judeus usavam barbas e roupas tradicionais.
Entusiastas nazis trataram de os "limpar".
Os �dios h� muito nutridos encontraram um escape.
As autoridades incitavam-nos.
Aterrorizar uma parte da popula��o ajudava a intimidar a restante.
Fic�mos sem comida em casa.
Um dia, a minha m�e, paz � sua alma,
pediu-me para ir � padaria e passar a noite � porta
para conseguir um p�o no dia seguinte
para haver algo que comer l� em casa.
Levantei-me a meio da noite e fui para a fila.
Quando cheguei, j� l� estava imensa gente � espera.
Ao nascer do dia, um polaco de origem alem�
chegou com uma espingarda pendurada no ombro direito
e com uma bra�adeira com uma su�stica no bra�o esquerdo.
Ele ia manter a ordem para que todos recebessem p�o.
Entre n�s havia crian�as.
N�o eram judias, eram polacas e corriam � nossa volta.
Puxavam esse polaco com a espingarda e apontavam para todos:
"Este � judeu. Este � judeu. Este � judeu.
Das Jude. Das Jude. Das Jude."
Essas pessoas eram tiradas da fila e n�o recebiam p�o.
Chegou a minha vez.
Virei-me e vi que o rapaz era um amigo com quem brincava.
Disse-lhe em polaco: "O que est�s a fazer?"
A resposta dele foi: "N�o sou teu amigo. �s judeu, n�o te conhe�o."
O alem�o da su�stica estava � minha frente.
Vi que era nosso vizinho.
Falei-lhe em polaco e ele respondeu em alem�o.
Disse: "N�o sei polaco e n�o te conhe�o."
Tirou-me � for�a da fila onde eu esperava pelo p�o
e deu-me um estalo.
Desatei a chorar, porque n�o sabia o que tinha acontecido.
O meu mundo tinha-se desmoronado.
A minha m�e tinha-me pedido para ficar na fila para levar p�o
e uma coisa estranha acontecera.
O amigo com quem brincava e tamb�m o alem�o,
duas pessoas que conhecia h� tantos anos,
tinham-se virado contra mim. N�o queriam conhecer-me.
Negaram conhecer-me e bateram-me.
N�o me deixaram comer.
Pensei: "O que vou levar para casa?"
Era a primeira vez que me faziam sentir diferente dos outros.
N�o era como os rapazes crist�os, os rapazes com quem brincava.
Hans Frank, um velho camarada de Hitler do partido,
ficou com a Pol�nia a seu cargo.
Disse ao seu pessoal: "O polaco deve sentir
"que n�o estamos a construir-lhe um Estado legal.
"Ele tem apenas um dever: trabalhar e comportar-se.
Assim que vencermos a guerra, transformamo-los em carne picada. "
Em muitos s�tios, Frank p�s membros da comunidade alem� local,
Volksdeutsch, encarregues da supress�o.
Bastava que um polaco fosse denunciado como antigo oficial,
advogado, pol�tico ou padre para ter uma execu��o sum�ria.
N�o haveria potenciais l�deres.
Os eslavos s� serviam para ser escravos.
O mais pequeno ind�cio de oposi��o ou de n�o-coopera��o
implicava repres�lias contra toda a comunidade.
Apesar deste terror sangrento, alguns polacos resistiram,
arriscando a vida para proteger outros, incluindo judeus.
Os Esquadr�es de Ac��o alem�es, chefiados por homens das SS,
percorreram o pa�s, fazendo execu��es p�blicas aos milhares.
Himmler disse aos seus homens que era o tipo de tarefa
para a qual ele criara originariamente as SS.
"� muito mais f�cil lutar como um soldado
"do que suprimir uma popula��o obstrutiva de baixo n�vel cultural.
Mas devemos ser firmes. � a nossa responsabilidade perante Deus. "
A Pol�nia foi dividida em tr�s partes.
Por n�o terem intervindo quando Hitler atacou,
os russos puderam ficar com o Leste.
A parte ocidental, com fronteira com a Alemanha,
foi incorporada no Reich. Seria colonizada por alem�es.
Para haver espa�o para eles,
os polacos tinham de ir para o que sobrara,
a �rea chefiada por Hans Frank.
Era o primeiro passo pr�tico
em direc��o a um novo desenho da Europa com tra�os raciais.
A migra��o for�ada arrastou-se durante anos.
Pessoas de sangue alem�o eram ajudadas a ir para a parte alem�.
Para terem espa�o,
mais de um milh�o de polacos foram empurrados para a parte de Frank.
Milhares morreram.
O programa de regermaniza��o
foi chefiado pelo Departamento de Ra�a e Recoloca��o de Himmler.
Esta regermaniza��o era uma tarefa extremamente dif�cil.
E foi levada a cabo por comiss�es especiais
que tentaram avaliar as pessoas racialmente,
visto que n�o podiam avaliar as convic��es pol�ticas delas,
saber se algu�m ainda era pr�-polaco no fundo do cora��o.
Dissemos que aquilo era in�til,
t�nhamos era de os examinar.
Um dos l�deres do Departamento de Ra�a e Recoloca��o foi l� colocado
para examinar as pessoas.
De acordo com o resultado dos testes,
eram divididas em duas categorias.
Para os nazis, os polacos eram inferiores.
Os judeus polacos, que eram tr�s milh�es,
eram sub-humanos e tinham de ser tratados como tal.
Tinham de usar uma estrela identificativa.
Usando a estrela, os judeus eram imediatamente reconhecidos.
Proibidos de viajar sem autoriza��o,
os judeus polacos estavam sujeitos a recolher obrigat�rio, a ass�dio.
Podiam ser capturados em qualquer altura e sem aviso
e ser obrigados a fazer trabalhos for�ados.
A teoria oficial era que os judeus eram os culpados pela guerra.
Eram filmados para as Actualidades alem�s,
obrigados a resolver o que haviam provocado.
Os alem�es proibiram os judeus de entrar em lojas de alem�es,
Volksdeutsch, alem�es �tnicos.
Eram obrigados a tirar o chap�u a todos os alem�es.
Na verdade, a vida dos judeus foi interrompida, parada.
"Um anti-semitismo razo�vel tem de levar � expuls�o dos judeus. "
Desde o in�cio que Hitler prometera purificar o Reich.
Decidiu-se que agora isso podia ser feito.
Os judeus iriam para reservas na Pol�nia.
Colocaram-se avisos.
Todos os judeus da Pol�nia e mais um milh�o de todo o Reich
deviam ser levados para �reas designadas.
Lev�mos um carro pequeno.
Eu e o meu pai fizemos um carro pequeno e avan��mos.
Milhares e milhares, dezenas de milhares andavam,
levando os seus pertences com eles:
alguns � cabe�a, outros �s costas e alguns aos ombros.
Havia crian�as, idosos, beb�s.
Parecia o ex�lio dos povos, o ex�lio do Egipto.
Mas tamb�m era interessante ver o lado ariano,
os crist�os polacos, e como eles viam aquilo.
Muitos deles aplaudiram, porque estavam contentes.
"Agora vamos comprar as casas deles. Vamos tomar conta de tudo.
Vai correr bem. Com as mob�lias que eles deixam, teremos tudo."
A zona da Pol�nia de Frank ficou t�o cheia de judeus
que ele se queixou a Hitler.
As deporta��es tinham de parar. Ele n�o podia receber mais judeus.
Hitler concordou. Tinha de haver uma alternativa.
Acontecimentos na guerra levaram � reexamina��o de uma velha solu��o.
No Ver�o de 1940, Hitler atacara a Europa Ocidental.
Se aquela campanha acabasse com a guerra,
talvez se resolvesse a quest�o judaica
com a emigra��o para fora da Europa.
Quem examinou o problema era a favor de os enviar para Madag�scar,
uma ilha ao largo da costa africana, uma posse francesa.
Nesse Ver�o, enquanto Ex�rcito e SS varriam a Europa Ocidental,
burocratas do Departamento de Emigra��o Judaica
completavam o seu plano detalhado.
Milh�es de judeus seriam levados para uma ilha dominada pela doen�a
e de onde a �nica sa�da era a morte.
Mas isso n�o se cumpriria.
Apesar de os nazis controlarem a Europa at� ao Canal da Mancha
at� ao fim de Julho, a guerra n�o terminou.
Os judeus n�o podiam ser enviados para fora.
Em vez disso, as SS tinham mais seis pa�ses para subjugar.
Mas, no Ocidente, a abordagem teria de ser diferente.
A maioria tamb�m era de cepa n�rdica ou germ�nica.
Come�aram a registar toda a gente e a emitir bilhetes de identidade.
Por exemplo, os holandeses, de acordo com a teoria nazi,
eram da melhor cepa racial.
Tinham de se preparar para uma uni�o com os alem�es.
Mas entre a popula��o havia centenas de milhares de judeus,
mas n�o se sabia quem e quantos eram.
L� os judeus estavam bem integrados na comunidade,
falavam a mesma l�ngua, vestiam as mesmas roupas.
Apesar das suas teorias, os nazis n�o tinham um teste cient�fico
que lhes dissesse quem tinha ou n�o sangue judaico.
Arranjaram uma maneira inocente de o descobrir.
T�nhamos de preencher um impresso
em que perguntavam se t�nhamos av�s judeus.
N�o tinha nenhum, portanto disse que n�o.
�amos para casa sem perceber que ajud�ramos a encurralar os judeus,
a torn�-los vulner�veis e a coloc�-los numa situa��o
em que podiam, mais tarde, ser transportados e gaseados.
N�o nos apercebemos.
Ap�s um ano de melhor politiza��o,
hesit�vamos quanto ao que aquilo realmente significava.
Mas a primeira impress�o era: a nossa idade, a nossa morada,
av�s de origem judaica. N�o? Est� bem.
Foi um processo feito passo a passo.
O processo da infiltra��o
do nazismo na sociedade existia.
Quando os bilhetes de identidade foram emitidos,
os judeus viram que os deles tinham um J - Jude -judeu.
Foi terr�vel. Era a primeira vez que nos marcavam.
T�nhamos o bilhete de identidade e t�nhamos de andar com ele
e era muito especial por ter um J.
Pela primeira vez, sent�amos a diferen�a.
�ramos marcados, porque podiam pedir-nos o bilhete
e o J estava l�.
Foi o primeiro sinal de alarme que tivemos na nossa casa.
Na Pol�nia, em Setembro de 1940,
os judeus foram de novo tirados das suas casas.
A deporta��o para fora da Europa era agora imposs�vel.
Frank recebeu ordens para se preparar para mais um afluxo.
Ordenou que todos os judeus fossem reunidos
e enfiados em guetos fechados.
Em cada cidade polaca,
uma �rea delapidada era transformada num recinto judaico.
Frank disse a Hitler que isto s� podia ser uma medida de transi��o.
Ele n�o tinha mais espa�o.
Tinha de haver uma solu��o final para o problema judaico,
com base na expectativa de que tinham de desaparecer.
Construir um muro com 1,5 km2 n�o era f�cil em Vars�via.
As rotas dos el�ctricos n�o podiam ser desviadas.
Continuavam a passar pelo meio do gueto,
com uma ponte constru�da por cima para os judeus atravessarem.
Em Vars�via, numa �rea que alojara 25 mil pessoas
havia agora 500 mil.
S� havia dois po�os de �gua.
O gueto era pequeno. Quando nos levaram para l�,
puseram tr�s fam�lias com crian�as num s� quarto.
Tr�s fam�lias com crian�as num s� quarto.
Nunca dorm�amos.
Quando Frank passou a tomar conta da Pol�nia,
ordenou que os judeus elegessem os seus pr�prios conselhos.
Os l�deres da comunidade judaica esperavam que, com os conselhos,
pudessem mitigar os piores efeitos do dom�nio alem�o.
Transmitiam as ordens dos alem�es e organizavam o trabalho.
Em troca, podiam arranjar trabalho de caridade,
distribuir ra��es e reabrir hospitais.
Mas os alem�es tornavam-nos respons�veis
pelo cumprimento das ordens nazis.
Homens bem intencionados viam-se encurralados.
Tinham-se transformado na autoridade que dirigia o gueto
em nome dos nazis.
Os conselhos recrutaram uma for�a policial judaica.
Tinham de supervisionar a parte sanit�ria
e de aplicar o controlo dos pre�os. Mas tamb�m acabaram por perceber
que tinham de trabalhar directamente para os alem�es.
Como o meu pai tinha um curso superior,
tentou e conseguiu um lugar na for�a policial.
Teve de fazer um curso
e tornou-se oficial da For�a Policial Judaica.
S� tinham passado quatro ou cinco semanas,
quando o meu pai percebeu qual era realmente o seu trabalho
como oficial da For�a Policial Judaica.
N�o podia aceitar isso.
Inocentemente, pensara que era s� uma quest�o de aplicar a ordem,
de manter a ordem no bom sentido.
Mas ele viu que a vida no gueto era uma vida de animais,
uma vida animal.
E o seu trabalho era oprimir as pessoas.
Foi por isso que se demitiu.
A pena de morte era aplicada �s infrac��es mais triviais.
Quem era encontrado fora dos muros do gueto era enforcado,
enquanto os outros assistiam.
As ra��es do gueto eram piores que as da pris�o
e a comida era rejeitada por ser "impr�pria para consumo humano".
Crian�as esfomeadas imploravam,
arriscavam as suas vidas para conseguir algo para comer.
Diz muito da mentalidade nazi
o facto de filmarem a vida nos guetos com um pormenor tal,
em parte para ficar como registo, mas especialmente para propaganda,
para acabar com a compaix�o pelos judeus.
Com o coment�rio certo e montagens bem feitas,
os judeus eram retratados como pregui�osos, mercen�rios, maus,
naturalmente sujos e cheios de doen�as.
Tinham de ser isolados para o bem dos outros.
"Judeus, piolhos, tifo" era o slogan.
Os filmes nunca foram acabados. Talvez algu�m se tenha apercebido
de que podiam ter um efeito contr�rio ao desejado.
Lembro-me de que a minha irm� mais nova, que se chamava Adela,
pedia sempre algo para comer � minha m�e.
Dizia: "P�o, p�o, p�o."
E a minha m�e n�o tinha nada para lhe dar.
Eu percebia a situa��o e aceitava-a,
mas a Adela tinha menos tr�s anos do que eu, tinha oito anos.
N�o queria aceitar aquilo, porque n�o compreendia.
S� gritava: "P�o, p�o, p�o! Comida!" Mas n�o havia nada.
Ao fim de um ano,
uma pessoa em cada dez nos guetos morria de doen�a e fome.
Mas Hans Frank insistia que eram apenas uma "medida de transi��o".
Continuava a exigir uma "solu��o final".
Os judeus tinham de desaparecer.
22 de Junho de 1941. Hitler atacou a R�ssia.
Foi um acontecimento pol�tico e biol�gico
que a filosofia nazi declarara ser inevit�vel.
A luta para determinar o futuro rumo da hist�ria mundial.
"A luta ser� muito diferente da luta no Ocidente, "
disse Hitler aos seus generais.
O avan�o r�pido nas primeiras semanas
e os milh�es de prisioneiros russos pareciam confirmar a afirma��o nazi
de que o sistema comunista era corrupto e se ia desmoronar.
Que o soldado alem�o era superior ao eslavo sub-humano.
Himmler disse aos seus oficiais: "Esta � uma guerra de aniquila��o,
"levada a cabo pela Alemanha como semente da ra�a teut�nica
"contra os inimigos sub-humanos do mundo inteiro.
"Somos mais valiosos do que aqueles que nos ultrapassam em n�mero.
"Somos mais valiosos, porque o nosso sangue
"nos permite inventar mais, governar melhor do que outros.
"� aqui no Leste que est� a decis�o.
"� aqui que o inimigo russo,
"estes 200 milh�es t�m de ser destru�dos.
E, um por um, t�m de os fazer sangrar at� � morte. "
Rosenberg, um proeminente te�rico racial nazi,
foi nomeado por Hitler Ministro dos Territ�rios Ocupados a Leste.
O plano era dividir a Uni�o Sovi�tica
em reservas raciais separadas e controladas por alem�es.
Os territ�rios ocupados a leste seriam tratados como col�nias,
habitadas n�o s� por alem�es, mas por holandeses, escandinavos
e, depois da guerra, por brit�nicos.
Os colonizadores explorariam os nativos como m�o-de-obra barata.
As fam�lias eslavas n�o tinham direitos.
Podiam ser separadas, levadas para longe
ou postas a trabalhar. Como os alem�es decidissem.
Os seus filhos n�o teriam instru��o.
S� precisavam de saber o significado dos sinais de tr�nsito,
o nome da capital do Reich e algumas palavras em alem�o.
Continuariam submissos
atrav�s de uma pol�tica de recoloca��o implac�vel,
as suas ra��es seriam reduzidas abaixo do n�vel de subsist�ncia.
Hitler disse que "desfaria s�culos de humanitarismo errado".
Em projectos de constru��o,
em f�bricas e em quintas,
os eslavos seriam os servos de um novo sistema feudal.
As SS seriam a nova ordem dos Cavaleiros Teut�nicos.
Ap�s a guerra, podiam governar o novo imp�rio em fortes armados.
Na vis�o de Himmler,
beber o leite da �gua selvagem da estepe,
gerar crian�as de sangue puro.
Os nazis n�o viam necessidade de tratar
os milh�es de prisioneiros russos como seres humanos.
Fechados em recintos tempor�rios como animais,
era-lhes indiferente se morriam.
Para Hitler, a guerra contra a Uni�o Sovi�tica
era uma luta racial e ideol�gica at� � morte.
Na R�ssia, havia milh�es de judeus.
Durante o planeamento da campanha russa,
ele chegara a uma decis�o fatal.
A press�o para arranjar uma "solu��o final" continuava.
Tinham de se ver livres dos judeus.
Usar a guerra para encobrir o assass�nio deles.
Havia tr�s milh�es de judeus na Pol�nia.
Logo depois, veio a campanha russa
e encontr�mos mais cinco milh�es de judeus na R�ssia.
Como por�amos aqueles oito milh�es a emigrar,
usando m�todos demorados e oficiais,
se n�o pud�ssemos, como planeado,
depois da guerra,
organizar uma emigra��o geral, organizada e protegida
para Madag�scar?
T�nhamos conquistado a Fran�a e t�-la-�amos compensado bem.
D�vamos-lhes uma das nossas col�nias em troca de Madag�scar.
A ilha era suficientemente grande para acomodar os oito milh�es.
Mas cortaram-nos as sa�das na guerra. N�o t�nhamos alternativa.
Himmler concordou que a solu��o l�gica era matar os judeus.
Hitler deu-lhe ordens usando palavras cuidadosas.
Ele tinha de cumprir certas tarefas especiais,
devido � necessidade de resolver o conflito
entre dois sistemas pol�ticos opostos.
Himmler mandou criar Esquadr�es de Ac��o, Einsatzgruppen, nas SS,
treinados em t�cnicas de matar em massa.
Conseguiam matar at� cem mil pessoas por m�s.
O assistente de Himmler, Heydrich,
treinou-os pessoalmente.
"O juda�smo no Leste foi a origem do bolchevismo
e deve, por isso, ser eliminado. "
A justifica��o � que estavam a destruir comunistas fan�ticos.
O disfarce era que estavam envolvidos
em opera��es antipartid�rias.
As mortes tinham de ser mantidas em segredo.
Os nazis sabiam que, apesar dos anos de educa��o racial,
o seu povo n�o veria a necessidade biol�gica
de matar homens, mulheres e crian�as desarmados.
Rivka Yosilevska esteve no gueto de Pinsk, na Ucr�nia.
Uma brigada assassina chegou l� em Outubro de 1942.
Fomos para o p�tio.
Ouvimos barulho, as pessoas a falar muito alto.
Havia muitos alem�es no gueto, muitos alem�es.
"O que se passa? O que poder� ser?"
Todos pensaram que nos iam levar a todos s� para trabalhar.
Peguei numas coisas e vesti a minha filha.
Ela tinha cinco anos e vesti-a com um bom vestido.
Ela disse: "Mam�, porque me est�s a p�r esse vestido?
"� um vestido do Sabbath, n�o mo vistas.
N�o quero vestir um vestido do Sabbath."
Chegaram duas camionetas e eles abriram os port�es.
Disseram-nos para subirmos para as camionetas.
Os que estavam suficientemente fortes conseguiram subir.
Os que n�o tinham for�as foram atirados para l� como gansos.
A camioneta ficou cheia e veio a segunda camioneta.
Encheram a segunda e arrancaram.
Viv�amos no fundo do gueto, portanto fic�mos para o fim.
Fomos dos �ltimos.
Cheg�mos ao local e o que se via era horr�vel.
O que os meus olhos viram...
As pessoas que j� tinham chegado nas duas camionetas
estavam despidas.
Tinham dado ordem para se despirem, sa�rem das camionetas,
deixarem l� as roupas e chegarem-se para o lado.
Foram alinhados em filas de quatro
e era assim que os matavam.
Faziam aquilo numa encosta.
Matavam-nas numa encosta e as pessoas ca�am.
Quando cheguei ao local, quis ver o que se passava.
Fiquei na encosta e percebi que tinha chegado a hora.
Era o nosso fim.
Estavam a disparar, as pessoas estavam mortas.
A minha filha esteve o tempo todo nos meus bra�os.
Encontrei for�as para a carregar.
Estava t�o agarrada a mim que nem me consegui despir.
Ela n�o me deixava. Disse:
"Vamos fugir, eles v�o matar-nos. Porque havemos de ficar aqui?"
Ela empurrou-me para tr�s.
"Porque � que as pessoas ficam paradas e n�o fogem?
Porque ficam paradas?" Eu n�o conseguia falar.
Acho que lhe disse: "Para onde havemos de fugir?"
Algumas pessoas tentavam fugir, mas eles n�o deixavam.
Havia muitos alem�es a guardar-nos. Havia muitos alem�es.
Mas tamb�m tinham conseguido juntar os n�o-judeus de v�rias cidades
para se certificarem de que n�o fug�amos.
Eram uma esp�cie de for�a policial.
Acab�mos por nos despir. N�o t�nhamos alternativa.
O meu pai n�o queria despir-se.
Deram-lhe uma sova at� ele cair ainda vestido.
Come�aram a despi-lo � for�a.
A minha m�e come�ou a gritar.
Implor�mos que tirasse as roupas para n�o lhe baterem.
Acabaram por lhe rasgar as roupas.
Por causa dele, bateram em todos n�s,
porque ele tinha sido teimoso e tinha-se recusado a despir-se.
E foi o que aconteceu at� chegar a nossa vez.
�ramos cerca de 500. A nossa vez chegou.
Avancei e vi o meu pai desaparecer,
a minha m�e a ser morta, as minhas irm�s a serem mortas.
A minha irm� era muito bonita, era linda.
O alem�o olhou-a nos olhos e ela implorou-lhe que a deixasse ir.
"N�o me mate. Deixe-me viver."
De nada adiantou. Ela foi morta.
Depois, subi com a minha filha nos bra�os.
Ele disse-me para a p�r no ch�o.
Eu queria, mas ela n�o me largava.
Escondeu a cabe�a para n�o ver o que lhe iam fazer.
Lembro-me de ele a ter puxado � for�a e de a p�r de p�.
Deu-lhe um tiro ou n�o.
N�o vi nem ouvi.
Depois, deu-me um tiro.
Fiquei ali parada e ouvi um tiro.
N�o me tocou.
Outro tiro. Eu ca�.
Ele matava toda a gente aqui, na nuca.
N�o matava as pessoas todas juntas.
Cada alem�o matava uma pessoa � vez
na nuca, aqui atr�s.
Ca�. Acabara.
Estava deitada na vala e senti que sentia alguma coisa.
N�o acreditava que pudesse estar viva.
Pensei que estava morta e que uma pessoa morta sentia alguma coisa.
Mas n�o era isso.
Minutos depois, senti que estava a ser asfixiada,
sentia um peso muito grande. Estava a sufocar.
Ser� que ia conseguir sair dali?
Talvez consiga levantar algo. Um bra�o ou uma perna.
Mas como?
Havia pilhas de corpos em cima de mim
e ca�am cada vez mais.
Mas quando uma pessoa se sente a sufocar e quer salvar-se
come�a a virar-se.
Havia ali muitas pessoas que deviam estar feridas
e tamb�m elas me ajudaram a levantar.
Assim foi mais f�cil levantar-me.
Senti que conseguia levantar um bra�o,
que podia levantar-me um pouco.
Comecei a virar-me nesta direc��o e naquela
e tentei n�o sufocar, porque estava deitada numa po�a de sangue.
Uma po�a cheia de sangue.
Foi assim que fiquei toda a noite, debaixo de cad�veres.
N�o conseguia sair.
De manh�, os cad�veres tinham assentado.
Era mais f�cil para mim levantar-me um pouco.
Encontrei alguma for�a dentro de mim.
N�o sei onde arranjei for�a para sair.
N�o sabia de nada. Comecei a gatinhar.
Rivka Yosilevska conseguiu rastejar para fora da vala.
Um campon�s encontrou-a e tratou-a.
Ela passou o resto da guerra escondida.
Estas mortes deixavam os alem�es com falta de m�o-de-obra.
Muitos dos judeus presos eram trabalhadores especializados
que podiam ser usados em f�bricas de armamento.
Havia um conflito de objectivos. Funcion�rios do governo,
preocupados com a produ��o de guerra,
diziam que o esfor�o de guerra devia estar em primeiro lugar.
Mesmo os Esquadr�es de Ac��o diziam que, por vezes,
"n�o � poss�vel na presente situa��o de falta de m�o-de-obra
evitar poupar temporariamente as vidas de trabalhadores judeus. "
Himmler anuiu ao uso de judeus como m�o-de-obra,
mas s� se isso n�o interferisse com o progresso da Solu��o Final.
A grande prioridade
era usar a oportunidade que a guerra proporcionava
para se livrarem dos judeus de uma vez por todas.
Tradu��o e Legendagem: Sara Morna Gon�alves / SINTAGMA - CCBS Multim�dia
Legendas ripadas e adaptadas por: boi_cavalo
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