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Original subtitles

INSPIRADO EM UMA HIST�RIA REAL

O MESTRE DA VIDA

Eu me lembro de como foi.

Eu estava perdido.

Talvez n�o perdido, mas com certeza � deriva.

Penso naqueles caras dos filmes...

que passam fome em uma balsa provis�ria...

sofrendo com as ondas e procurando terra firme...

vivendo de esperan�a.

Bem l� no fundo, eu tinha essa id�ia louca...

de que estava destinado a algo grande.

N�o que eu quisesse ser notado...

era como se eu estivesse destinado a deixar minha marca no mundo.

Eu me lembro bem do que aconteceu naquele ver�o.

Havia uma onda de excita��o ao meu redor.

Eu estava ligado a algo que me guiava desde meu nascimento.

Aqui e agora, no momento em que crio...

� quando me sinto mais confiante.

� quando sinto que fa�o a coisa certa...

uma onda de emo��es me atinge...

a maioria delas � o melhor que j� conheci.

Mas sempre h� um idiota que nos julga pelo que fazemos.

Que porcaria.

As piores criticas normalmente v�m de pessoas...

que n�o fazem id�ia do que fazemos...

n�o t�m dons pr�prios...

e que ficam irritados quando estamos felizes...

e alegremente nos provocam.

A menos, � claro, que estejamos deixando o mundo mais feio.

Ent�o, esse tipo de pessoa vai segurar nossa m�o com prazer...

e dan�ar conosco na sarjeta dizendo que, assim como eles...

vemos como aquilo � horr�vel e se comprazem em comemorar.

Mas desde cedo aprendi...

que qualquer idiota pode ver como as coisas est�o feias.

N�o � preciso ter dom para isso.

Ent�o, esta � uma hist�ria de adulto.

Se decidir ser c�nico, ser� uma escolha infeliz.

Os c�nicos normalmente t�m raz�o.

Os rom�nticos normalmente est�o errados.

Mas um rom�ntico s� precisa estar certo uma vez na vida...

quando escolhe seu verdadeiro amor.

Acho que esta hist�ria na verdade fala de amor.

Talvez fosse melhor se eu s� dissesse isso.

Mas ent�o n�o conheceriam Nicholi como eu conheci.

E isso seria injusto com n�s dois.

PORT CHESTER, NOVA YORK

- Viram meu filho? - N�o, Sr. Talia.

Deve estar pintado.

O que disse, Mikey?

Nada, senhor.

John!

John!

John!

Minha nossa!

O que est� fazendo?

John...

voc� gosta de garotas?

Meu pai era um completo homof�bico.

Ele me pegar usando pinc�is era quase o mesmo que me pegar...

fazendo sexo oral com um dos meus amigos.

Por que me faz essas perguntas?

Est� cheio de pinturas de homens com as coisas para fora.

Isso � dif�cil de fazer, sabia?

Desenhar os contornos e fazer as sombras.

N�o fa�o isso porque gosto de homens, fa�o isso para ser um bom artista.

S�...

fa�a-me um favor, tire seus amigos da parede.

- M�e? - Sim, Johnny.

Pode me dizer algo?

O que acha disto?

� s�rio.

Minha nossa!

� lindo, Johnny.

- Muito lindo. - � mesmo?

- Est� com tinta nas m�os? - N�o.

- Tem certeza? - Acabei de lavar.

Tome.

Quero que vista isto. Solte isso.

- Tome. - Vestir?

Quer que eu vista isso?

N�o, s� quero que segure.

- Aqui? - Sim, para eu ver.

Minha m�e nasceu na Alemanha.

Ela tinha 16 anos, quando os aliados atacaram Berlim.

N�o tinha outra crian�a com quem conversar...

pois estava ocupada desenterrando armadilhas desde os 11 anos.

Ela tamb�m era uma mulher muito complicada e aflita.

Embora soubesse que ela odiava o que os nazistas fizeram com nosso pa�s...

acho que ela torcia em segredo pelos alem�es nos filmes de guerra.

Vai ficar lindo.

Sabia que herdou seu talento de mim?

Obrigado.

Que bom!

Muito bom, John.

Johnny?

Tente n�o usar tanto preto.

Tente encontrar...

as cores...

nas ruas.

E sempre tente encontrar as cores nas sombras.

Violeta, azul, verde.

Em outras palavras, n�o use tanto preto.

Obrigado.

E sempre procure o design. H� design em tudo.

Venha c�.

Est� vendo os postes telef�nicos?

Nenhum deles � reto, principalmente em um bom quadro.

Um fica um pouco � esquerda. Outro, um pouco � direita.

Est� vendo as sombras do outro lado da rua?

V� como se ligam ao concreto do pr�dio?

- Sim. - Pense no abstrato.

Est� bem.

Vou enquadrar este.

Yammi, n�o posso pagar pela folha de ouro.

Quem disse que eu ia cobrar?

N�o, n�o.

John, sem favores.

Sem favores. Pague-o.

Est� bem.

Entendi.

Minha nossa.

� um Seroff.

Eu sei, mas...

como conseguiu isso?

Eu o enquadrei para Joe Caresiro.

Como um encanador pode ter um quadro destes?

N�o vale tanto quanto antes.

Por qu�?

� representativo.

E da�?

� considerado irrelevante.

Por quem?

Cr�ticos.

Revistas de arte.

Dane-se. Isto � lindo.

John, olhe a boca.

Quanto vale?

N�o sei.

Seroff o trocou por servi�os de encanador.

� s�rio? Ele mora aqui perto?

Sim, no fim da rua.

- Pai, ouviu isso? - Sim, que maravilha!

Voc� o conhece?

Acho que ningu�m o conhece realmente.

Eu o vi algumas vezes.

� mesmo?

Se estiver pensando em ir at� l�...

visitar aquele velho desgra�ado...

eu n�o o aconselharia.

Ele...

est� louco?

N�o, n�o tinha utilidade para as pessoas.

N�o sou as pessoas.

E adoro falar sobre arte.

E da�, Johnny? Vai incomodar aquele velho desgra�ado?

Pai, por que sempre acha que eu incomodo as pessoas?

- Porque voc� incomoda. - S� estou animado.

Esse Yammi �...

normal?

Como assim?

Ele � normal ou � sens�vel?

- Sens�vel. - Se ele est� de bom humor?

Sabe o que estou perguntando. N�o d� uma de espertinho.

N�o sei o que quer dizer.

- O que � ser sens�vel? - Cale-se.

- Ainda n�o sei. - Pare.

- N�o sei. - John!

Quem �?

Sr. Seroff?

O que quer?

Sou t�o bonito que precisa ficar me encarando?

� um faz-tudo?

Quer cuidar do jardim, cortar a grama, podar as �rvores?

- N�o, eu... - N�o, n�o, n�o, o qu�?

� Nicholi Seroff?

Droga!

Sim, sou eu.

Li seus livros.

Leu?

Acho que � brilhante.

Sou brilhante?

Sim.

O uso da cor...

o que disse sobre composi��o...

que �rvores s�o como pessoas nuas dan�ando nas encostas.

Eu disse isso?

Sim, tamb�m disse que as �rvores s�o como homens.

N�o se deve invadir o espa�o do outro...

uma li��o a ser aprendida com a natureza.

Sem escassez, s� abund�ncia.

Sim, sim.

Que droga.

Foi bom falar com voc�.

Nicholi?

� Yammi.

Yammi!

Estou bem, �timo.

Soube que um amigo foi visit�-lo outro dia.

Sim, o garoto.

Ele se chama John.

E acho que ele � talentoso.

Ele gostaria de ir at� a�...

e conversar com voc� sobre pintura.

Sim.

Est� bem.

Boa noite.

Ele n�o est� interessado.

N�o est�...

O que ele disse?

Que estava sem tempo.

Ele n�o estava interessado?

Escute...

John, eu esqueceria se fosse voc�.

Que eu saiba, ele teve muitos problemas...

e era um chato em seus melhores dias...

ent�o, imagine como ele est� agora.

Isto �...

muito bom.

Muito bom mesmo.

Obrigado.

Diga, por que n�s? Por que aqui?

Quer dizer...

por que n�o Pratt ou a Faculdade de Desenho Parsons?

Pai?

O qu�?

Perguntei a seu filho se ele pensou em Pratt ou Parsons.

Tudo bem.

Tudo bem, ele vai estudar aqui.

Um momento.

Sr. Seroff?

Eu agradeceria se pudesse falar com o senhor.

Espere, espere.

O rapazinho.

Voc� de novo. O que quer?

Primeiro, n�o quero incomod�-lo. N�o era minha inten��o. Lamento.

Que bom que n�o era sua inten��o.

S� queria saber...

se voc� d� aula.

N�o.

N�o dou aula.

E n�o pinto.

Sabe que sou amigo de Yammi, certo?

Ele acabou com voc�?

Agora ele quer que voc� seja meu problema?

Certo?

N�o confio em quem n�o bebe.

Como assim?

Se n�o bebe, significa que quer continuar nas sombras.

Acho que nos entendemos, n�o �?

Agora que � �ntimo pode fazer piadas?

Desculpe.

N�o est� procurando sua musa.

Significa que vai me ensinar?

N�o.

V� para a faculdade.

N�o ensinam pintura de verdade l�.

Claro que n�o.

Que Deus n�o os permita ensinar algo com forma e subst�ncia.

Ou algo que fa�a as pessoas sentirem algo.

Sentir...

� o inimigo da lideran�a.

N�o pode ser mais inteligente do que eles ou o crucificar�o.

Na minha opini�o, a pintura morreu e nunca mais vai voltar.

O homem comum foi impedido de criar.

Por qu�? O homem comum � o bom senso.

N�o aceita porcarias.

E o homem comum v� porcarias a quil�metros de dist�ncia.

Por isso, n�o h� lugar para ele na arte hoje.

H� uma conspira��o contra a arte hoje.

N�o que esses idiotas sem talento n�o se importem...

com o fim da humanidade. N�o.

Mas acredite...

ainda assim � uma conspira��o.

Uma jornada compartilhada...

� uma experi�ncia mais emocionante...

do que uma jornada feita sozinha.

Os seres humanos...

precisam de valida��o. Foi como aprendemos.

Tememos o que n�o entendemos.

Os escritores passam por algo parecido.

Precisamos de ajuda.

A arte...

compartilhada...

faz parte da valida��o do sentir.

Quando n�o h� contexto...

n�o h� declara��o.

Quando n�o h� declara��o, n�o h� interc�mbio.

Quando n�o h� interc�mbio, n�o h� beleza.

Quando n�o h� beleza, n�o h� arte!

Se vir beleza por toda parte, em tudo...

sua alma � libertada.

Ningu�m pode roub�-la.

Sei que � verdade.

Como sabe?

Eu apenas sei!

Est� bem.

Acredita em Deus?

Acho que sim.

- Faz suas ora��es � noite? - Sim.

Acredita que � ouvido?

Sim.

Na minha opini�o...

ateus nunca ser�o grandes pintores.

Para poder criar uma arte grande...

o homem deve fazer as pazes com a mortalidade...

e reverenciar o maior reverenciador.

O dever do artista � elevar a alma humana.

A ignor�ncia nos leva a isso.

Os homens est�o loucos, s�o vadias...

que deveriam pendurar no Guggenheim...

quadros com temores infantis.

Faria mais sentido.

Tem de me ensinar isso.

Tem de me ensinar a pintar.

N�o.

Deus enlouqueceu...

e voc� seria miser�vel.

N�o fa�o isso pelo dinheiro.

� bom saber.

E se eu trouxer minhas telas...

voc� as olha e me diz o que acha? Rapidinho?

N�o, eu...

vou para a Pensilv�nia.

- Pensilv�nia? - Sim.

- Por qu�? - Tenho uma casa l�.

Vai pintar?

N�o, tenho uma namorada. Uma loira alta com seios grandes.

- � mesmo? - N�o.

E se eu trouxer algumas telas antes que viaje?

Vai parar de me incomodar depois?

Com certeza.

Com certeza.

Bom.

Amanh�.

- V� antes que eu mude de id�ia. - Obrigado.

Fez tudo isso sozinho?

Sem ajuda de ningu�m, sem aula?

Sem aula.

�timo, porque odiaria pensar que pagou algu�m...

para pintar quadros t�o horr�veis.

N�o que n�o tenha talento...

mas est� vendo as coisas pelos olhos de outros homens.

Este aqui tem boas �rvores.

Mas j� vi essas �rvores em v�rios quadros.

Este galho � bonito. Voc� o roubou de Robert Wood.

Certo?

O que � isto?

Deveriam ser nuvens ou rochas voadoras?

Nuvens n�o s�o t�o brancas.

Venha, vamos olhar.

Essas nuvens parecem brancas para voc�?

Sim.

Dane-se!

Isto � branco.

Veja.

� branco.

Ainda parecem brancas para voc�?

Minha nossa!

� isso! S�o mais quentes...

- O cume � amarelo, violeta. - �timo.

Agora, pegue.

Ent�o...

sim...

pegue suas coisas e v�.

Desejo-Ihe sorte. Desejo-Ihe sorte.

Achei que t�nhamos um acordo.

S� queria agradec�-lo.

Obrigado.

Brincadeira! Entre.

Entre.

Gosto disso.

Isso me faz rir.

Meus pais tamb�m gostam.

Sr. Seroff?

Pare de me chamar assim, meu nome � Nicholi.

Est� bem.

Desculpe. Nicholi?

S� quero saber se posso ver seu est�dio.

Por qu�?

Gostaria de v�-lo.

O est�dio n�o � para garotos.

Posso ir sozinho, sem problema. � s� mostrar a dire��o.

O qu�?

Posso ir sozinho. N�o precisa...

N�o quero voc� andando l� em cima sozinho.

Droga!

Agora n�o sei o que aconteceu.

Desculpe. Desculpe.

Vamos l�, seu imprest�vel!

Venha!

Meu drinque, imprest�vel.

D� uma olhada.

Nossa!

Eu poderia morar aqui.

Sim, voc� e os ratos.

O que vai fazer nesta tela?

Pode lev�-la, n�o me serve para nada.

N�o posso lev�-la.

Um dia...

acho que h� dez anos...

um idiota disse...

que a arte representativa era sentimental...

do passado.

Eu disse a mim mesmo: "Vou Lhe dar uma li��o, idiota".

Eu ia pegar meus quadros...

e incendiar aquela revista.

la dizer algo bonito, especial...

mas ent�o...

eu disse...

"Dane-se! Quem se importa?"

Voc� liga para o que os cr�ticos pensam?

Est� brincando comigo, imprest�vel?

N�o, voc� n�o me parece ser o tipo de homem...

que liga para o que as pessoas pensam.

Isso tudo � muito bonito, imprest�vel...

mas voc� � jovem.

E a vida ainda vai ser dura para voc�.

� mesmo?

Por que acha que tenho uma vida f�cil?

Ainda n�o viu o pior.

Do que as pessoas s�o capazes...

de infligir umas �s outras.

Quando pintei isso, sempre pensava nos grandes homens...

que ficaram em frente a uma tela antes de mim.

Da Vinci, e sua t�cnica "chiaroscuro"...

Tenho certeza de que n�o sabe o que �.

Luz e espa�o. A recess�o natural de um objeto...

quando � afetado pela luz.

�timo. �timo.

Monet, Manet, Pizarro.

Renoir.

Eles fizeram com que eu visse cores...

principalmente cores secund�rias.

- Com certeza n�o sabe do que falo. - Eu sei.

Sabe?

Violeta, verde, laranja.

- Sabe quem era Fechin? - Sim.

- Quem era? - Um artista russo. Pintava em toalhas.

Fechin era obcecado pelas bordas.

O encontro de dois objetos no espa�o.

Linhas s�o conceitos humanos.

N�o h� linhas na natureza.

Eu discordo.

John Carlson diz em seu livro que toda borda deve ser feita com for�a.

Est� bem.

Est� bem. Est� bem.

Ensine-me algo, imprest�vel.

Van Gogh e Redfield delineavam tudo.

� verdade.

Tornando as coisas menos naturais.

E, na minha opini�o, mais expressivas.

A vida � curta demais para fazermos pinturas simples.

Preciso mostrar que estive aqui.

Dane-se!

Eu estive aqui!

Aqui! Neste planeta!

- Aqui! - Calma, calma, podem ouvi-lo.

- Qual � a primeira coisa que examina? - A cor local.

Que �?

� a ess�ncia do objeto antes de ser afetada pelo que o cerca.

Bravo!

Muito bom.

Sinceramente, Nicholi, posso recitar isso.

J� li, j� conhe�o.

Mas...

sei o que significa? Posso aplicar ao meu trabalho? N�o.

N�o � de surpreender.

Se soubesse a resposta, n�o teria sentido.

Mas essas coisas s� podem ser conseguidas com a pr�tica.

E...

isto � muito importante...

Lhe permitem errar.

N�o h� segredo.

Apenas trabalho.

� isso.

� isso mesmo.

Eu quero trabalhar.

Pode falar sobre o progresso da arte e n�o me ajudar...

como algu�m com certeza o ajudou no passado.

Isso � justo?

Est� bem. Est� bem.

�timo.

Pode ir para a Pensilv�nia comigo no ver�o.

Mesmo que tenha de mat�-lo...

vou ensin�-lo a pintar.

Se me abra�ar...

eu o mato agora.

Est� bem.

Est� me dizendo que quer ir para o interior com um velho?

Sim.

� uma grande oportunidade para mim.

- Como? - Ele � um mestre russo.

�timo! � russo, ainda por cima!

Vai voltar um comunista e sabe-se l� mais o qu�.

Pai, voc� tem de me deixar fazer isso.

N�o, n�o vai fazer isso, esque�a.

Vai trabalhar comigo no ver�o.

Besteira!

Cuidado.

N�o pode me prender assim.

Johnny, n�o.

N�o fa�a isso com seu pai.

Desculpe, m�e, mas sabe que ele n�o pode me prender assim.

- Voc� n�o vai para o interior... - Por que n�o?

- Com um velho. - Por que n�o?

Como assim "por que n�o"?

N�o seja bobo! Voc� sabe o porqu�.

Acorde!

Sabe o que ele quer.

H� algo errado com voc�.

Espero que toque isso melhor do que pinta.

Vou para l� em busca de tranq�ilidade, n�o preciso de barulho.

Procuro sossego.

- Est� bem. - Coloque a� dentro.

Eu toco baixo.

Diga...

seus pais concordaram com isso?

Sim.

Tem certeza?

Sim.

Eles me ap�iam.

Est� bem, ent�o, vamos.

Pode lavar o carro.

Quer que eu dirija?

Eu dirijo h� 47 ver�es.

Tem certeza?

Absoluta!

Entre no carro, imprest�vel!

- Vamos. - Desculpe. Desculpe.

Na cidade, onde o homem controla totalmente seu ambiente...

acho que � f�cil acreditar que ele � tudo.

Mas aqui, onde aceitamos as coisas...

como a natureza quer e n�o como queremos...

� libertador.

De certa forma, a press�o diminuiu...

pois eu descobrira que n�o era t�o importante.

E aceitar a id�ia de que um poder superior...

tinha um plano para mim fez eu me resignar.

Para todo lado que olhava, via quadros.

Obras-primas passavam em minha mente.

Fiquei triste por Nicholi.

Pelo trabalho de sua vida n�o ser considerado importante.

N�o entendia como os supostos especialistas...

podia dizer algo t�o ignorante.

Quem Lhes deu esse poder? Ou, mais importante, esse direito?

Como a beleza podia ser irrelevante?

A paisagem que sumia diante de nossos olhos...

com a crescente aproxima��o do homem...

era o mais irrelevante poss�vel para mim.

� uma pausa. Preciso urinar.

Coloque as coisas na minha cama.

L� em cima.

Est� bem. Onde coloco minhas coisas?

No celeiro. Brincadeira. No primeiro quarto � direita.

Confort�vel, n�o?

Sim, �.

N�o � lindo?

Este lugar...

me lembra um pouco Roma.

- � mesmo? - Sim.

E a R�ssia � assim?

S�o Petersburgo...

o Mar B�ltico...

meu garoto...

s�o lindas.

Eu cresci...

e estudei ingl�s, alem�o, russo.

Lindo.

Este lugar.

Sim, lindo.

Depois do ataque alem�o...

havia pouco motivo para ficar.

Fui parado na fronteira por um jovem soldado alem�o...

devia ter sua idade.

Ele me perguntou para onde eu ia.

Eu disse que estava deixando meu pa�s...

que ele tinha invadido.

E que queria ser livre.

E que se ele n�o gostasse, podia atirar em mim.

Mas eu n�o ia parar de andar.

Continuei a andar...

a andar...

andar e andar.

E ele n�o atirou.

Foi corajoso.

N�o, n�o.

N�o fui corajoso.

S� estava cansado demais para me importar.

Eu sou meio alem�o.

N�o vai atirar em mim?

Brincadeira.

Talvez os soldados tenham raiva.

Sente saudade de casa?

Eu n�o penso muito nisso.

N�o posso voltar.

Se pudesse, voltaria?

N�o.

Sou americano agora.

Eu amo meu pa�s adotivo.

� mesmo?

� claro que sim. Voc�, n�o?

Acho que sim.

Seu imprest�vel.

N�o tem id�ia do que tem aqui.

Em qualquer outro pa�s...

estaria na sarjeta, que � seu lugar.

Calma. N�o quis dizer isso.

Estou muito feliz.

Estou feliz por ser americano

Estou muito feliz Por estar com voc�

Estou muito feliz Por ser americano

Estou muito feliz Por estar com voc�

Por que estou com um desgra�ado De um pintor impressionista russo

Vou ser um desgra�ado de um pintor

Americano impressionista russo

Voc� n�o tem jeito.

Jeito nenhum.

Bonito, n�o?

Sem barulho algum.

Uma coisa que n�o diminu�a na minha vida era o medo.

Comecei a me dar conta de que estava no meio do nada com esse cara.

Quem sabe meu pai tinha raz�o?

Talvez esse velho quisesse me atacar.

Vim ver se est� confort�vel.

Sim.

Sim.

Boa noite.

Certo.

Nunca vi um ser humano comer tanto quanto Seroff.

Ele come�ava comendo meia d�zia de ovos pela manh�.

Meio quilo de bacon e pelo menos seis fatias de torrada...

com manteiga e marmelada e quatro x�caras de caf�.

Isso seguido de comprimidos para press�o, cora��o...

e algo que diminu�a o a��car no sangue.

E por �ltimo, mas n�o menos importante...

ele tomava uma grande dose de vodca...

o que ele tamb�m fazia o resto do dia.

Hoje voc� vai pintar.

Onde ele est�?

O que � isso?

Eu gostei.

Tem cheiro de m�e.

Eu gostei.

Como est�, meu amigo?

Sou Curtis Sunday.

� bom v�-lo. Muito bom.

- Voc� est� �timo. - Isso � para mim?

Sim. Para lembrar dos velhos tempos.

- Tem algo para me mostrar? - Sim.

- Venha. - Sim.

A exposi��o n�o foi como eu esperava.

Sei l�...

sinto que h� um grande t�dio.

As pessoas querem ser chocadas!

Elas querem se apavorar, querem ser pegas em desconforto.

Est� falando de arte?

� um imbecil.

Bem...

fui convidado para participar do comit� de arte no pr�ximo m�s.

Tamb�m estou no comit� de organiza��o e gostaria que fosse jurado.

Est� interessado?

Haver� pintura ou porcaria?

- Arte progressiva. - Ent�o, � porcaria.

Nicholi, com seu estilo cl�ssico e seu olho para o que � verdadeiro...

me faria um favor.

Claro, claro.

Eu irei, se puder rir.

Que bom.

Ent�o...

soube da exposi��o no Tate?

N�o.

Meu Deus! Est�o pendurando lixo nas paredes!

Quer dizer...

lixo emoldurado!

Fizeram de prop�sito?

Estou intrigado e voc�?

Fico intrigado em saber quem paga para ver.

E nosso jovem amigo?

� meu h�spede.

Ele se interessa por arte?

Sim, quer ser pintor.

� moda antiga ou progressiva?

Cl�ssico ou progressivo?

� preciso rotular?

Sim, vamos rotular, para facilitar a discuss�o.

N�o quero ser rude...

mas n�o sei se posso rotular.

Por favor! Tente.

Est� ouvindo a chuva?

Ela atinge o telhado...

a janela...

h� um trov�o...

eu penso nisso.

� um momento...

s� existe agora.

Depois de isso existir, h� a lembran�a.

Encontro paz nisso. Gosto de capturar essas coisas.

N�o gosto de pintar uma imagem...

que � pintada s� pela imagem.

Desculpe...

isso faz sentido?

Sim.

Compartilhar experi�ncias faz sentido.

Mas ainda � representativo, certo?

Eu acho que sim.

Estou curioso.

O que o impede de romper com isso?

� medo?

Medo de qu�?

De se aprofundar?

Desculpe, n�o sei o que quer dizer.

O representativo � seguro.

Seguro? Como descobriu isso?

Usa s�mbolos.

Sempre que usamos um pincel, criamos s�mbolos.

Bem, � verdade.

Sem dizer que a arte representativa est� muito desvalorizada agora.

Est� longe de ser segura, n�o acha?

Meu Deus, voc�s n�o existem!

O que acha?

Preciso que arrume o papel de parede do quarto.

Expresse algo importante. Por isso est� aqui.

Vamos.

Acho que terminamos.

N�o levante-se, tudo bem.

Minha nossa!

Qual �? N�o sou t�o feia.

N�o, n�o foi o que quis dizer.

Eu entendi.

Nicholi est�?

Vou deixar isso aqui.

Se quiser, posso acord�-lo.

N�o.

N�o precisa fazer isso.

- Vou fazer caf�. - Est� bem.

Ent�o...

� o faz-tudo?

N�o.

N�o?

Ent�o, quem � voc�?

Sou um artista.

- � um artista? - Sim.

N�o parece ter tanta certeza.

Sim, sou.

Deve ser talentoso.

Nicholi n�o aceita alunos de arte.

Bem...

agora s� estou arrumando a casa.

Ent�o, � o faz-tudo.

N�o.

Ouvi vozes.

- Nicholi! - Ol�!

Que bom v�-la.

Coloque a cama no lugar.

Deixe-me v�-la.

Maravilhosa.

Linda.

Sou velho.

- Obrigado por isso. - De nada.

Ma��.

"Coloque a cama no lugar.

Eu sou russo! Olhe para mim!

Mando nos jovens. Sou �timo!"

Ent�o, reduzi a este.

Este?

Mostre-me outro.

Eu gosto deste.

- Mas sou uma garota, Nicholi. - Eu sei!

- Sabe? - Sim!

O que foi?

- Nada. - Precisa de algo agora?

- Mostre... - Mas se fizer isso...

acho que sua casa vai ficar muito feminina.

- N�o acha? - N�o sei.

Eu a sujo.

E este?

Muito obrigado.

A torta de ma�� estava deliciosa.

Mais na pr�xima semana.

Obrigado.

- Prazer em conhec�-lo, John. - Obrigado e tchau.

� uma mulher e tanto.

Ela � bonita e incr�vel.

As mulheres s�o criaturas maravilhosas, n�o s�o?

Para ser sincero, n�o tenho muita experi�ncia com elas.

Voc�s...

N�o seja louco, n�s...

s� nos entendemos.

- Compartilham uma experi�ncia. - Acho que pode dizer que sim.

Ela perdeu um filho.

Um idiota b�bado...

o atropelou.

Ela me lembra minha Anya.

Minha Anya.

Ela era linda e inteligente.

N�o t�o inteligente, pois se casou comigo.

Era professora na mesma universidade em que eu lecionava Pintura.

O que aconteceu?

Ela morreu.

� bem simples, escolhemos uma mulher porque achamos que ela � perfeita.

E elas nos escolhem...

porque querem nos tornar perfeitos.

Aos vinte e poucos anos...

vai se lembrar do que eu disse...

balan�ar a cabe�a e pensar: "Que maluco".

Aos trinta e poucos anos...

vai se lembrar de algumas palavras.

Aos 50 anos...

vai dizer: "Aquele desgra�ado russo...

tinha raz�o sobre muita coisa. "

Continue rindo, idiota!

Chega disso. Vamos ver.

As noites de domingo eram importantes para Seroff.

Ele come�ava a cozinhar o jantar pela manh�.

H� cupins aqui.

O jantar parecia durar horas.

Nicholi e Curtis se sentavam, bebiam...

e falavam sobre a mesma coisa que discutiam h� anos.

H� um lugar para...

a arte representativa.

Assim como h� um lugar para a velha escola...

que quer ensinar m�todos convencionais de aprendizado...

para a nova escola.

Mas apenas...

por motivos de documenta��o, motivos hist�ricos...

para mostrar como era a arte...

em contraposi��o ao que ela vai ser.

Que � uma porcaria.

- Desculpe, Sandra. - N�o se preocupe, Nicholi.

Depois de tantos anos j� acostumei com voc�s dois.

E voc�? O que acha?

Bem...

ele entende o movimento moderno mais do que eu.

Bem...

ela gosta, em um n�vel intr�nseco, mas...

vamos ser francos, ela � formada em Psicologia...

e n�o em Hist�ria da Arte. Sabe disso, Nicholi.

Acho que � loucura.

O que, meu amigo?

Que precise ser formado para apreciar a arte.

Quer dizer, � como precisar de um diploma para apreciar a m�sica.

A arte deixou de ser o que era um meio de comunica��o �s massas...

para o que � agora, um meio de comunica��o para os seletos.

E o que isso tem a ver?

Voc� � membro das massas, assim como ela e o fazendeiro no fim da rua.

O fazendeiro no fim da rua...

tem interesses bem diferentes dos nossos.

Mas a arte � um denominador comum.

Quando voc�, Sandra, John, eu...

e o fazendeiro no fim da rua...

fazemos uma pausa por um momento...

e apreciamos algo que conecta a todos n�s...

a beleza de estarmos vivo...

esta arte.

A arte que nos divide, n�o � arte.

Voc� � muito sentimental, Nicholi.

Fala de sentimentalismo como se fosse uma doen�a.

Vou dizer algo engra�ado.

Qual � o problema do sentimentalismo?

N�o tem lugar na arte.

- Quem disse? - Por favor, Nicholi.

Sentimentalismo � uma forma de se expressar...

med�ocre, melosa...

que indica a falta de intelecto.

Besteira!

Voc� � t�o intelectual...

que se tornou est�pido, Curtis.

Sentimento � condescend�ncia...

� ser um ser humano...

� saber que a vida...

� curta.

Muita curta.

Eu sei, na minha idade.

Se isso � sentimento.

Tenho orgulho disso.

� o que voc� fez...

eu acho muito perturbador.

Chorar...

magoar, imaginar...

rir...

rir mesmo de algo...

� um bloco construtor da nossa humanidade.

� o que constr�i pontes.

Grandes Rembrandt, Van Gogh...

Monet, Renoir!

Voc� fala de agita��o, perturba��o...

caos, maldito caos!

- Desculpe. - Tudo bem.

Estou falando de um setor completamente diferente da condi��o humana.

Mas que n�o tem lugar na arte.

E o homem do gueto, Nicholi.

Onde est� a beleza de sua exist�ncia?

Sabe de gueto...

tanto quanto eu sei construir um foguete.

Deve haver beleza no gueto.

Muitos g�nios...

nasceram no gueto.

Precisa procurar a beleza de l�...

com pessoas que v�m de l�.

N�o de um babaca rico que n�o sabe nada sobre gueto...

que diz: "Pobre coitado do gueto.

Sinto sua dor, sei de tudo.

Lamento muito, lamento muito. "

Sabe o que � isso?

� besteira.

� maldita besteira!

Desculpe, desculpe.

Tudo bem.

Obrigado, Nicholi, por mais uma noite maravilhosa e estimulante.

Tudo bem, Curtis.

Vamos resolver os problemas do mundo na pr�xima vez.

- Combinado, amigo. - Certo.

- Boa noite, linda Sandra! - Obrigada.

Boa noite.

Boa noite.

Maldito idiota!

FEIRA DE ARTE DO CONDADO

N�o sabia que ia fazer tanto calor. Calor em agosto?

- Espero que n�o afete o comparecimento. - Sim.

Aqui est� o homem do momento, Nicholi Seroff!

Por favor, conhe�a nossa amiga e anfitri�...

a Srta. Sally Huntington-Quail.

� uma honra t�-lo como jurado em nossa exposi��o, Sr. Seroff.

O prazer � meu. Nicholi, por favor.

- Ol�, linda Sandra. - Ol�, Nicholi.

Posso?

Sim, s� est�o esperando voc�, Nicholi.

O que � isso?

- � Nicholi Seroff? - Sim.

� seu?

Sim.

Qual � o objetivo?

Rodas mecanizadas.

Conseguiu mais ou menos.

Senhor, aceita vinho?

Sob a mesa.

Aqui est�. Pronto.

- Pode ficar com a garrafa. - Obrigado.

De nada.

� o artista?

Sim.

O que quer dizer?

Exploro a bidimensionalidade do local.

Quer dizer, seu plano.

Sim.

J� � plano, o que h� para explorar?

O objetivo � explorar o plano.

Estou perdido.

Sabe...

� uma viagem que eu fiz.

Uma viagem?

Sim, a explora��o daquilo que j� �.

O plano?

Sim.

Ent�o...

por onde entra?

Eu exploro isso.

O que j� �?

Sim.

Entendeu?

N�o.

PAZ

Meu Deus.

Ver Nicholi nessa sala era como ver Marilyn Monroe em um show de aberra��es.

Como estava em menor n�mero, ela se tornara a estranha.

Quer alguma coisa?

Um gal�o de gasolina e f�sforos.

Nicholi, est� se divertindo?

Divertindo-me?

Divertindo-me?

Sim, estou me divertindo.

Sabe...

se eu viver mais dez anos...

vou ver um balde cheio de urina...

no museu de arte moderna. Por favor, me ajude.

Sim, vamos para casa. Vamos.

Nicholi!

Essas pessoas s�o loucas.

Loucas!

E...

essas porcarias tamb�m.

� tudo porcaria!

Pessoas!

Est�o vendo porcarias!

- � tudo porcaria! - Vamos.

Porcaria! Porcaria!

� uma exposi��o de loucura e insanidade.

E a loucura est� vencendo!

- A loucura est� vencendo! - Vamos embora.

- Esta � a �nica coisa... - Vamos embora.

A �nica coisa que faz sentido aqui.

Pronto!

Parab�ns!

O que � isso?

Nem sei mais.

Tentei pintar a casa. N�o quero que a �rvore...

mude a perspectiva.

Qual foi sua primeira id�ia?

Nem sei.

Se n�o sabe, como eu vou saber?

O que quer me dizer?

Eu tinha uma boa id�ia, mas a perdi.

N�o.

N�o teve uma boa id�ia.

Uma boa id�ia n�o se perde.

Monet pintaria essa casa com um balde de esterco.

Ele ficava ao lado de uma carro�a e pintava.

Quero que preste muita aten��o.

Nunca esque�a o que vou Lhe dizer.

- Est� bem. - Nunca esque�a.

N�o entendi nada. S� est� fazendo barulho.

Como n�o falo claramente...

n�o digo nada.

E acontece o mesmo...

com as porcarias que produz.

Apenas...

tenha uma id�ia.

Minha companheira chegou.

Pode fazer um favor?

N�o gritar comigo na frente dela?

Claro, pode deixar.

Ol�!

Carla!

Brownies!

O que est�o fazendo?

Aprendendo a falar claramente.

� interessante.

N�o estava falando claramente.

Est� bem...

- tenho de aprender. - Como est�?

Idiota! O que est� fazendo?

Nicholi lecionava terapia da arte em uma escola local...

para crian�as especiais.

Era bom ver esse lado dele.

O homem gentil que podia ser.

E ele parecia gostar muito.

As professoras da escola disseram que Seroff era o convidado favorito.

- Coloque mais �gua. - Est� bem.

Mais �gua.

Sim, assim mesmo.

Experimente.

Coloque mais for�a no rosto.

E aqui nos p�ssaros.

Minha nossa!

Essas crian�as fazem mais sentido para mim do que Curtis Sunday.

Sabe...

acho que...

est� pronto para pintar.

� bonito.

Obrigado.

Tome.

Caso tenha sede.

Obrigado. Obrigado de novo.

Oi, queria agradecer e devolver seu copo.

Obrigada.

Voc� est� bem?

N�o foi convincente.

Tem certeza?

S� estou tendo um dia ruim.

Bem...

quer que eu a anime um pouco?

Quando estou tendo um dia ruim, gosto de tomar chocolate quente...

e conversar com um amigo.

Quer um chocolate quente?

Estou com tempo, n�o posso pintar agora.

As nuvens ficam se mexendo.

Estou fazendo-a se sentir melhor?

Sim.

Est�.

Se voc�...

quiser conversar sobre alguma coisa...

pode falar.

N�o.

N�o � nada.

Eu vou falar um pouco.

Por que Seroff est� sendo t�o chato?

Est� sempre de mau humor, bebendo.

Acho que ele me odeia.

Se ele o odiasse...

voc� saberia.

Est� me dizendo que � o mais legal que ele consegue ser?

Ele Lhe contou sobre a esposa?

Bem...

um pouco.

Ele contou como ela morreu?

N�o.

Ela foi morta...

na R�ssia...

durante a ocupa��o de Stalin em algo que chamam...

de o Grande Expurgo.

Ele foi o �nico da fam�lia a escapar.

Esse tipo de culpa...

nunca o abandona.

Mas se pensar bem, ele n�o fez nada errado.

Claro que fez.

Ele sobreviveu.

Tome.

Ajude-me a cortar os vegetais.

Por que acordou t�o cedo?

Hoje vai ser agitado.

Est� feliz?

� assim que demonstra?

Corte peda�os menores.

Est� bem.

- Est� feliz, n�o �? - Sim, por que n�o?

Um homem n�o pode ficar feliz?

O jovem Johnny est� indo muito bem nos estudos.

Que maravilha, Nicholi e John.

Mas e a obra que me prometeram?

Est� ansioso, n�o �?

- Claro que sim! - Bem...

eu vou buscar.

- Vou buscar. - Que tal o jantar?

- Gostou? - Sim.

Aqui est�.

� arte progressiva.

N�o � minha especialidade, ent�o quero ouvir...

o que tem a dizer.

Este aqui.

Minha nossa!

Se n�o gosta...

cale-se!

Sabe...

acho que � assim.

Sim, � assim.

Ent�o, o que acha?

O que acha, querida?

N�o � minha especialidade, querido.

Sabemos disso, mas pode dizer o que pensa.

Acho que vou continuar como psic�loga.

Por favor, tome uma posi��o.

E a profundidade?

Est� bem, tem profundidade.

Profundidade?

� super profundo!

Sim, � super profundo.

Meu Deus!

Deixe-me ver o pr�ximo.

Sim.

Meu Deus.

Meu Deus, h� tanta dor.

- Dor? - A angularidade...

- Sim. - Das linhas.

E desespero. Um grande senso de desespero.

Sim.

E �nsia.

Muita �nsia.

- �nsia, sim. - E uma tristeza.

Tristeza e raiva.

� um yin e yang emocional. N�o acha, querida?

- Com certeza. - Deve ver isso, Nicholi.

Voc� v� a tristeza.

Sim, eu acho que � muito triste.

Fiquei impressionado.

Preciso conhecer esse artista. Isso �...

- Mais, quero ver mais. - Sim.

Este. Gosto deste.

� como se houvesse v�rios estilos de trabalho aqui.

Se n�o soubesse, diria que h� mais de uma m�o trabalhando, mas...

mas h� um tema predominante.

�...

� uma impress�o passiva de...

eu diria...

falta de objetivo.

Sim.

Falta de objetivo.

O artista se expressa...

por meio de minimalismo.

Uma simplicidade criada pelo essencial.

Isso tem peso, ponto de foco, id�ias secund�rias...

� totalmente coeso. E � proposital.

E v� tudo isso...

em, dois quadrados azuis...

- e em um coqueiro? - � imposs�vel n�o ver.

� t�o �bvio!

Sim.

� t�o �bvio!

Vou dizer o que � t�o �bvio!

� que voc� s� fala besteira.

Por favor, Nicholi.

Como voc� disse n�o � sua especialidade.

Esta arte � genial e acho que est� com ci�me.

Esses quadros...

s�o de crian�as especiais �s quais leciono na escola.

O qu�?

Genialidade, simplicidade, �nsia.

Tudo isso � besteira!

Besteira!

Nicholi, isso n�o � engra�ado.

Acho que � hil�rio.

Quer saber, n�o vou ficar para o caf�.

N�o, por favor, fique...

e veja o maravilhoso quadro de um carro vermelho. Tem �nsia.

Pegue suas coisas. Vamos embora, querida.

Curtis, tenho um quadro maravilhoso de um c�o.

- O que acha? N�o � lindo. - J� chega!

� um lindo quadro.

� uma obra-de-arte de dois ratos laranjas.

Quer saber, Nicholi, voc� realmente enlouqueceu.

Eu enlouqueci! Eu enlouqueci!

O que � t�o engra�ado?

Eu enlouqueci!

Eu enlouqueci! Eu enlouqueci!

- Pode parar de rir? - Eu enlouqueci!

Eu enlouqueci! Eu enlouqueci!

Eu enlouqueci!

Sim, sim.

Bom dia!

Sim.

O qu�? O que foi?

Vim ver se poderia me ensinar a pintar.

O qu�?

Pintar?

Sim.

Pinte o que quiser.

Encontrei vespas no s�t�o.

Que bom.

Por que n�o vai dar uma volta?

Estou aqui h� duas horas e finalmente estou conseguindo alguma coisa.

O sol j� se mudou em duas horas.

Eu sei disse.

Mas quero terminar de pintar.

V� cuidar das vespas.

Por que n�o faz isso voc�?

N�o acha que sou velho demais para subir a escada?

N�o, suba a escada e diga o quanto � bom.

- O que disse, imprest�vel? - Voc� me ouviu.

Concordamos que eu viria e voc� me ensinaria a pintar...

N�o vim para consertar sua casa.

E aquela hist�ria de que seu pai n�o o entende?

O que voc� sabe sobre meu pai?

O que sei sobre ele? Ele acha que sou um gay velho.

Voc� deveria saber.

Ele s� quer frango...

frango, frango.

S� sei que andou bebendo.

Quer uma li��o hoje?

Vou Lhe mostrar.

O c�u est� apagado.

Tudo reflete o c�u.

Aqui, veja.

- Vou p�r aqui. - O qu�?

- Em tudo. - O que � isso?

Muito bem!

Muito obrigado!

Deve ter melhorado.

Dane-se!

Que eu me dane?

- Sim, dane-se, Nicholi. - O que gostaria de comer no jantar?

Que tal peixe?

Estou cansado de carne.

As vespas est�o esperando.

Deve estar brincando.

Vamos, acorde.

Acorde, vamos!

Vamos, estou com fome.

Vamos!

Abram!

Minha nossa!

- O c�u est� desabando! - � mesmo?

- Sim, est�... - D� para perceber.

Come�ou quando eu estava no meio do campo.

Quer uma toalha?

- Seria bom. - Pode tirar isso.

Sim, desculpe. Estou molhando tudo.

Pintar...

� o que quer fazer? Quer viver disso?

N�o sei. Nunca pensei nisso...

como forma de ganhar dinheiro, entende?

Sei que amo fazer isso, que sinto paix�o...

que s� de falar sobre isso fico excitado.

H� um lugar em Nova York chamado Grand Central Art Galleries.

Eu vou at� l� e passo horas olhando para aqueles quadros lindos.

Eu os vejo...

e literalmente sinto meu cora��o bater mais r�pido.

N�o sei como conseguem.

Se ficarmos a 5cm do quadro s� vemos pinceladas...

tinta e cor.

E...

a 30 de dist�ncia...

vemos um quadro lindo.

� como se sent�ssemos o vento soprando pelas �rvores...

a brisa marinha...

Nossa!

�...

N�o sei como conseguem fazer isso.

Sei que algo dentro de mim, em algum lugar...

luta para sair.

Voc� vai conseguir.

N�o sei.

Gosto de muita coisa.

H� outras coisas que gosto de fazer.

Contar hist�rias, fazer as pessoas rirem...

adoro m�sica.

Voc� toca alguma coisa?

Sim, viol�o e sax.

Ent�o, � um verdadeiro homem renascentista.

N�o sei, talvez.

Parece que est� pedindo desculpas.

As coisas s�o dif�ceis na sua casa, n�o �?

O que quer que esteja acontecendo l�...

n�o se preocupe...

voc� vai ficar bem.

Obrigado.

Nicholi me contou o que aconteceu com seu filho.

Queria saber...

se algu�m cuidava dele.

Nicholi?

Algo assim.

E seu marido?

Nunca fui casada.

S� fiquei gr�vida.

O pai est� por perto?

Escute...

sei que se sente culpada...

mas n�o deveria.

N�o fez nada errado.

Voc� � muito gentil, John.

N�o deixe ningu�m faz�-lo desistir daquilo que quer fazer...

de quem quer ser.

Siga seu cora��o.

Obrigado.

Voc� � linda.

Obrigada.

Tentei acord�-lo, estava...

capotado.

� melhor eu...

lev�-la para casa.

Boa noite, Nicholi.

Boa noite...

Carla.

Ent�o...

devo...

entrar ou...

ir embora?

Eu adoraria...

- mas... - Ir embora.

Eu entendo.

Obrigado.

Bem...

voc�...

Ela � minha amiga!

Minha amiga!

N�o sua!

Sinto muito.

Aposto que sim.

Tem raz�o, n�o sinto muito.

Quero que v� embora.

Tudo bem.

Entra na minha vida...

e a vira de cabe�a para baixo...

como se n�o fosse nada.

Como se atreve?

Voc� mentiu para mim.

N�o menti.

Eu o estava ajudando...

mas � jovem demais...

est�pido demais...

para ver os presentes que Lhe dei.

Todos os presentes.

Quero que v� embora hoje � noite.

Eu vou, e voc� volte para sua garrafa.

Sinta pena de si mesmo.

Voc� n�o entende.

N�o entende.

Estou no fim da vida...

e s� vejo...

uma vida ruim...

� minha frente.

Estou no come�o da minha vida e vejo a mesma coisa!

Voc� teve o mundo nas m�os!

Por cinco minutos!

N�o sei se sou bom, n�o sei nada!

Nem sei ir para casa!

N�o me importa!

Ningu�m se importa!

� o que estava tentando Lhe dizer...

o tempo todo.

O mundo � muito feio.

E matou...

a coisa mais linda...

que j� vi...

minha Anya.

Minha nossa!

Ela era t�o feliz.

Lembro da risada dela.

Porque...

ela nunca faria parte de sua fei�ra...

a tiraram de mim.

Sabia que voc� tinha algo...

antes mesmo de ver seus quadros...

antes de aparecer na minha porta, lembra?

Mas voc�...

seria louco de se tornar um pintor hoje em dia.

N�o h� her�is.

Sem Van Gogh, Rembrandt, Monet...

sem Renoir, nada!

Esperava que fosse meu her�i.

Estou cansado.

Estou muito...

cansado.

Nicholi?

Venha, vamos tomar caf� da manh�.

Nicholi?

Minha nossa!

Peguei voc�!

Seu idiota!

Hoje vamos pintar.

N�o tem gra�a.

Fomos para o campo aquela manh�...

e ele parecia outra pessoa.

Sua paleta...

deve ser sempre a mesma.

Suas cores s�o como as teclas de um piano.

Os m�sicos precisam que estejam sempre no mesmo lugar...

para se expressar.

Os grandes pintores fazem a mesma coisa.

Ele me mostrou muita coisa.

Ele me inundou de conhecimento.

Uma vida de segredos correu como um rio.

O sol � como uma mulher...

quando beija seus l�bios quentes...

ela deixa um pouco de cor por toda parte.

Comecei a ver amarelos, ocres, laranjas e vermelhos em toda parte.

E a mata � quente, mas calmo. O oposto da guerra.

N�o s� a respeito da temperatura da cor...

mas � o oposto na escala de cores.

A mata tem amarelo e p�rpura.

A grama � verde por toda parte.

Por onde a luz passa, � rosa.

Entendeu?

Era incr�vel o que ele podia fazer.

Em poucos segundos ele transformava algo simples...

em algo vivo.

Tem de lutar...

tem de abrir caminho para dar vida �s coisas.

Tem de sentir a alegria.

Ele me mostrou como fazer o c�u vibrar.

Bravo, John.

Bravo!

Isto tem vida!

Sinto as sombras.

Sinto o sol se aproximando.

A alegria de tudo.

Bravo, John.

Tenho de agradec�-lo...

pelo tempo que passou comigo.

Eu � que devo agradec�-lo.

N�o, voc� me mostrou algo...

que achava que n�o veria mais.

Obrigado, Nicholi.

Obrigado voc�.

� melhor...

despedir-se de sua namorada.

N�o acha?

Ela n�o � minha namorada, Nicholi.

Deixe um bilhete, uma linda carta, algo assim.

�timo, �timo.

Eu espero aqui.

Querida Carla...

voc� tinha raz�o...

eu estava perdido.

Mas encontrar meu caminho foi muito doce e recompensador.

Suas palavras sempre me acompanhar�o.

Encontre seus sonhos tamb�m.

Com amor...

John.

J� coloquei suas malas l� em cima.

Obrigado.

Para onde vai?

N�o sei.

Vou ter de resolver.

Boa sorte.

Eu fui para o parque e desenhei por horas...

ensaiando o que diria a meus pais.

Finalmente, achei que seria melhor enfrent�-los...

e deixar que a sorte cuidasse do resto.

Sa�de!

- "Dastrovia"! - "Dastrovia"!

Eu me diverti muito.

Que bom, fico feliz em saber disso.

Est�vamos falando de voc�.

Seu amigo Nicholi � um bom homem.

�, sim.

Ele estava me contando como se divertiram.

- Que bom que voltou. - Obrigado.

Soube que conheceu uma garota.

- Sim. - � verdade?

Sim.

- Quer uma bebida? - Por favor.

- Venha. - Sim.

Venha.

� bom v�-lo.

Querida?

Que bom...

que seu professor...

veio ver seu pai.

Aprendeu algo?

Sim, m�e.

Muita coisa.

Que bom.

� muito bom.

At� hoje n�o sei o que Nicholi disse para consertar as coisas.

Mas n�o importa.

Meu pai e eu nunca mais falamos sobre o que aconteceu naquele ver�o.

Nunca fui para a faculdade.

Preferi estudar no museu.

Principalmente arte.

Mas h� outras coisas na vida.

- N�o est� ajudando. - N�o consigo arrumar.

- Sou terr�vel nisto. - Um pouco.

Entendo um pouco, mas n�o consigo tirar isto daqui.

Assim.

Ele � o artista. Ele deveria fazer isto.

- Para onde vai? - Vou levar um presente para Nicholi.

Disse que ia me ajudar a limpar a entrada.

E vou. Fa�o isso quando voltar.

Est� bem.

Tome cuidado.

H� muito gelo na estrada. Dirija com cuidado.

Est� bem.

Est� bem.

Veja sua m�e.

Veja como ela est� bonita.

Olhe para voc�.

Voc� � linda.

Querido!

Nicholi?

Nicholi?

Nicholi?

� assim que gosto de lembrar-me dele.

Seu pincel dan�ando na tela...

como uma bailarina dan�ando no palco.

Gostaria de dizer que Nicholi viveu muitos anos mais.

Que eu Lhe dera um presente ou uma lembran�a do que ele havia sido.

Mas acho que seria muito presun�oso de minha parte.

E talvez, uma mentira.

Nicholi faleceu naquela primavera.

Uma parte de mim morreu com ele.

Deixei de pintar por muitos anos.

PARA JOHN

PARA JOHN

Soube que ele deixara a casa para Carla.

Ela projetara a maior parte dela...

e acho que ambos sabiam que acabaria assim.

Outros interesses me levaram para a costa oeste...

mas � medida que envelhecia...

mais as id�ias de Nicholi voltavam para me guiar.

E todos os presentes que ele me dera.

Ainda vejo �rvores como homens.

Como pessoas nuas dan�ando na encosta.

As nuvens s�o os lugares para onde os anjos sobem.

Levei anos para perceber que Nicholi tinha morrido...

mas o tempo todo estava aqui, vivendo dentro de mim.

Esperando pacientemente que eu compartilhasse minha jornada.

Mas o mais importante para mim...

mantive a promessa que fizera h� muito tempo...

que o cora��o de Nicholi seria meu lar...

todos os dias da minha vida.

EM 1991, JOHN TALIA FEZ SUA PRIMEIRA EXPOSI��O

NO GRAND CENTRAL ART GALLERIES EM NOVA YORK

A MESMA GALERIA QUE REPRESENTAVA NICHOLI SEROFF

ESTE FILME � DEDICADO � LEMBRAN�A DE GEORGE CHEREPOV

AURIELLO YAMMERINO ARTHUR J. ORNITZ

TR�S HOMENS CUJO AMOR E PACI�NCIA MUDARAM MINHA VIDA

O MESTRE DA VIDA

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