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- Boa noite. - Boa noite.
Gostaria de ligar para a It�lia.
Tudo bem.
Por favor, disque o n�mero.
Sim.
- Al�? - Pietro, � a Elena.
Como est�o as meninas?
Por acaso se importa?
Elas s�o minhas filhas.
O que voc� quer?
Os editores de Nanterre querem organizar mais eventos de divulga��o em Paris.
Estava pensando em aceitar e voltaria na v�spera de Natal.
� a segunda vez em dois meses que voc� vai para a Fran�a,
desde que decidiu destruir nossa fam�lia.
� melhor voc� n�o voltar.
Naqueles meses, durante minhas escapadas para a Fran�a com Nino,
eu sempre pensava em Dede e Elsa,
at� mesmo em Pietro,
mas como se estivessem suspensos em um universo paralelo.
Havia alguns dias que eu n�o sabia nada sobre eles
e quando percebi isso, fiquei muito enjoada.
Mas, por mais insuport�vel que fosse,
n�o podia recusar o convite
das duas editoras que acreditaram no livro.
E atrasar minha volta s� por mais alguns dias
n�o faria muita diferen�a.
Ou eu estava fazendo tudo errado?
Do que voc� est� falando?
N�o posso falar muito por telefone agora,
nos falamos nos pr�ximos dias.
N�o, n�o posso te dizer isso.
Nino.
Tchau.
Desculpe, n�o te ouvi.
Voc� estava falando no telefone com Eleonora?
� claro que n�o.
Mentiroso.
- � a verdade. - Voc� � um mentiroso!
Juro que aquele professor chato de Utrecht me ligou.
Ali�s, acho que estava b�bado.
N�o entendi uma palavra do que disse.
Voc� estava falando com Eleonora, eu ouvi.
Voc� n�o pode ter ouvido isso porque n�o era ela.
Acredita em mim?
Voc� precisa confiar em mim.
Voc� sabe o que acho?
Apesar de nossa situa��o ser complicada, devemos ir fundo.
Mas, para conseguir isso, n�o podemos mais fugir,
primeiro para Montpellier, depois Paris, e depois sabe-se l� que outra cidade.
Temos que lidar com essa situa��o.
Eu com Eleonora, e voc� com seu marido.
Voc� estava linda esta noite.
Olhei para voc� o tempo todo.
Foi?
Mas eu n�o fui o �nico.
CAP�TULO 25 A SEPARA��O
Durma.
Durma.
FLOREN�A
N�o quer mais falar comigo?
Se n�o quer mais falar comigo, precisa me dizer por qu�. Me ligue.
N�o vai me atender?
O que houve? Est� ofendida?
Pode me avisar se vai voltar para N�poles no Natal?
Sou eu de novo, Lila.
Agora me cansei, estou te procurando h� um m�s.
O que voc� vai fazer?
- Al�? - Oi, Mariarosa, sou eu.
O que aconteceu?
N�o sei, me diga voc�, n�o tem ningu�m aqui.
- Que horas s�o? - S�o tr�s horas.
Voc� acabou de voltar?
Sim, o que aconteceu?
As meninas est�o bem?
Sim, n�o se preocupe, elas est�o bem, est� tudo bem.
Est�o em Turim com meus pais.
Como? Pietro disse que estavam esperando por mim no Natal,
para cearmos juntos, e as levou para Turim?
N�o, minha m�e veio busc�-las.
Sem me dizer nada?
Como se atreve?
Ela achou que seria melhor voc� e Pietro
estarem sozinhos para encarar a situa��o mais livremente.
Ela pensou isso?
N�o cabe a ela decidir isso.
S�o tr�s horas da manh� e voc� acabou de chegar.
Que Natal elas teriam tido?
Sim, houve atrasos por causa do feriado.
Voc� n�o precisa se justificar...
N�o estou me justificando!
Elena, voc� tem o direito e o dever
de continuar estudando, escrevendo.
Quanto ao resto, n�o posso te aconselhar.
Lembra que tem a apresenta��o do livro aqui em Mil�o?
O grande Franco Mari vir�, mal pode esperar para te ver de novo.
Sim, sim.
Bem, boa noite.
Tchau.
Onde voc� estava?
Diga por que deixou sua m�e levar as meninas.
Est� me ouvindo?
Voc� estava na Fran�a a trabalho.
Teria voltado a tempo se os trens tivessem chegado no hor�rio.
O fato � que nunca est� presente para suas filhas.
Pietro, vamos conversar,
temos que chegar a um acordo.
Que tipo de acordo?
As meninas v�o morar comigo.
E voc� as ver� no fim de semana.
Onde eu as verei?
Na minha casa.
E onde fica sua casa?
N�o sei, vou decidir.
Aqui, em Mil�o, em N�poles...
Em N�poles? Em N�poles?
Nunca vou permitir que minhas filhas v�o morar com voc� em N�poles.
Est� entendendo? N�o vou permitir.
Pietro, se acalme. Se acalme.
Calma, Pietro.
N�o posso dirigir assim.
Para onde voc� precisa ir?
Para a esta��o.
Para qu�?
Para buscar sua m�e.
Minha m�e?
Algu�m devia dizer a ela o que voc� fez comigo.
Falar com ela era problema meu.
Para contar mentiras a ela, como voc� fez comigo.
Vamos... Voc�s v�o ver, � f�cil.
Voc�s foram feitos um para o outro, gostam de ler, estudar,
s�o inteligentes.
Mas de que serve essa intelig�ncia
se desistirem na primeira dificuldade?
Precisam pensar nas meninas, porque a Dede j� est� grande,
ela entende tudo e n�o � certo faz�-la sofrer.
Pietro, eu agrade�o por tudo o que fez pela minha filha,
mas n�o vou sair daqui at� que voc� a tenha perdoado.
Juro por Gianni, Peppe e Elisa que n�o voltarei para casa
at� voc�s fazerem as pazes.
Vamos l�, se beijem.
� hora de admitir que voc� cometeu um erro.
Pe�a desculpas ao seu marido. Vamos, Elena.
- Vamos l�, Elena. - M�e, pare com isso!
� in�til.
Eu amo outra pessoa.
Cale a boca, vadia, cale a boca!
N�o aguento mais voc�, est� me ouvindo?
N�o aguento mais!
Entenda!
Quer estragar sua vida com algu�m
que � muito pior do que a porcaria do seu pai?
Me explique!
Pensei que era a Lila, sua amiga, que te levava para o mau caminho,
mas eu me enganei.
� voc� quem n�o tem vergonha!
Voc� � uma sem-vergonha!
Sem voc�, ela se tornou uma boa mulher.
Eu devia ter quebrado suas pernas quando voc� era pequena.
Voc� tem um marido de ouro,
que te deu uma bela casa,
te deu duas filhas
e � assim que voc� agradece a ele, sua idiota?
Idiota!
Venha c�, vou matar voc�!
Eu vou matar voc�!
Chega!
Voc� n�o � mais minha filha.
Ele � meu filho.
Que o filho de Sarratore te passe gonorreia e s�filis.
O que fiz para merecer um dia como este?
O que ela pretende?
Senhor, me deixe morrer agora.
Eu te pe�o, me deixe morrer agora.
N�o abra,
n�o pe�o que me deixe entrar,
s� queria te dizer que nunca quis que tudo isso acontecesse.
Foi demais.
Nem mesmo voc� merece isso.
Senti vergonha do empurr�o que eu dei nela,
senti vergonha por ela e de mim mesma.
Eu gostaria de ter pedido desculpas a ela, de abra��-la,
mas tinha medo de que ela me entendesse mal
e se convencesse de que eu tinha me rendido.
Ela foi embora sem que nos dirig�ssemos uma palavra.
Ela se limitou a desejar tudo de bom para Pietro
e a pedir a ele, at� o momento antes da partida do trem,
para mant�-la informada sobre a ferida em sua m�o
e sobre as meninas.
Al�?
Oi, Adele, amanh� vou buscar minhas filhas.
Elena, que surpresa. Boas festas.
Boas festas.
Elena, n�o se preocupe,
pode deix�-las comigo pelo tempo que precisar.
- Depois das f�rias. - Dede precisa ir � escola.
Mas se voc� precisar de tempo,
a Dede poderia estudar aqui, tem uma escola bem perto daqui.
N�o, eu preciso t�-las comigo.
S� pe�o que voc� pense nisso.
Uma mulher separada,
com duas filhas e suas ambi��es, precisa encarar a realidade
e decidir do que pode abrir m�o e do que n�o pode.
At� amanh�.
Voc� n�o devia ir amanh� para Mil�o com a Mariarosa?
Ent�o, na sexta-feira. Pegarei o primeiro trem.
Maldita.
Nasci em um bairro pobre e degradado,
muito degradado,
onde a f�ria, a viol�ncia masculina
eram e s�o cotidianas.
Aos dez anos, vi um pai jogando a filha pela janela
s� porque ela queria continuar estudando.
Vi uma mulher se enforcar porque ficou vi�va
com dois filhos para sustentar.
Vi hematomas no rosto de uma amiga
porque tinha se casado com um homem que n�o amava,
um homem que a estuprou em sua noite de n�pcias.
E voc�...
Qual � a sua culpa?
Ter ido embora, ter deixado tudo para tr�s,
ter aprendido a linguagem dos homens
para ter sucesso com seus livros?
Eu admiro a Elena
justamente por suas, digamos, habilidades masculinas
e insisto que deve continuar aprimorando-as
sem se perder em seus deveres femininos.
Obrigada.
A revolu��o, pelo menos a que � poss�vel,
� feita com o que est� � m�o.
Ningu�m mais quer uma revolu��o.
Eu discordo, Silvia.
Sim, voc� tem raz�o.
O tempo da revolu��o est� acabando
e leva com ele todas as categorias que serviam como b�ssola.
Mirko, Ester, venham, tem sobremesa.
Desculpe, Franco, mas n�o � assim.
Acho que a situa��o na It�lia est� muito animada e combativa.
Diz isso porque voc� � vivaz e combativa.
Est� satisfeita consigo mesma.
De jeito nenhum, estou deprimida.
Pessoas deprimidas n�o escrevem livros.
Os livros s�o escritos por pessoas felizes,
pessoas que viajam, que se apaixonam,
e sempre falam com a convic��o
de que as palavras ir�o ao lugar certo.
� confort�vel n�o se perder diante de nada.
Nenhuma ferida que possa se infectar,
nenhum ferimento com pontos,
nenhum quarto escuro.
Al�?
Mas, no fim, o truque n�o funciona mais.
Como assim?
Bl�, bl�, bl�, Elena.
As palavras est�o perdendo seu sentido.
� para voc�.
Quem �?
Nino.
Al�?
Oi.
Oi. Aconteceu alguma coisa?
Sim, estou morto de saudade de voc�.
Ent�o, pensei em algo agrad�vel.
Temos alguns dias de folga, por que n�o vamos � praia?
Podemos nos encontrar no meio do caminho.
Vamos ao Argentario, s� voc� e eu.
Depois do que aconteceu com sua m�e, seria bom voc� descansar um pouco.
Quando?
Eu estava pensando em amanh� ou, no m�ximo, depois de amanh�.
Tenho que ir a Turim para buscar as meninas, n�o posso.
Quando as aulas come�arem na universidade,
vai ficar muito mais dif�cil para eu viajar.
Sim, eu sei.
Mas n�o sei como fazer.
S�o s� dois dias, qual a diferen�a?
N�o sente mais minha falta?
N�o precisa mais de mim?
Voc� est� louco?
Mal posso esperar para te abra�ar novamente.
Tem certeza?
Sim.
N�o sei, voc� est� t�o ocupada com suas pr�prias coisas.
Nino, voc� est� enganado.
Repita.
Voc� est� enganado.
N�o fui buscar as meninas naquela sexta-feira
e Adele n�o pareceu nem um pouco surpresa com isso.
Eu entendi naquele momento
que minha sogra tinha falado de um problema real.
Como eu poderia fazer para manter minha vida com o Nino e minhas filhas?
Foi assim que decidi confiar minhas filhas a Adele
e as visitava sempre que podia.
Quando passava tempo com o Nino, eu queria estar com elas,
e quando estava com Dede e Elsa, eu queria estar com ele.
Naqueles anos, Nino e eu est�vamos sempre em movimento.
N�s quer�amos estar presentes, observar, estudar,
compreender, raciocinar, testemunhar e, acima de tudo, nos amar.
As sirenes da pol�cia no volume m�ximo,
os pontos de controle,
o barulho das h�lices dos helic�pteros,
os assassinados
acabaram marcando o tempo do nosso relacionamento.
As semanas, os meses, o primeiro ano,
e depois um ano e meio.
Todo acontecimento p�blico s� fazia sentido a partir da noite
em que, na casa de Floren�a, eu me encontrava com Nino em seu quarto.
Era ent�o, diz�amos um ao outro, que nossa verdadeira vida come�ava.
O que cham�vamos de verdadeira vida era aquela impress�o de um brilho milagroso
que n�o nos deixava
nem quando ocorriam os horrores de cada dia.
Bom dia, o presidente da Democracia Crist�,
Aldo Moro, foi sequestrado esta manh�, �s 9h10
por um grupo de terroristas quando sa�a...
Colegas, acredito que justamente nesse momento dram�tico,
devemos ter honestidade intelectual
para lembrar que quem jogou lama no Estado,
quem mostrou seu pior lado
e criou as condi��es
para o nascimento das brigadas vermelhas,
e sinto muito em dizer isso nessas condi��es,
foi o pr�prio Aldo Moro.
Ocultando verdades inc�modas de seu partido corrupto,
e identificando seu partido com o pr�prio Estado.
O que est� dizendo?
Ent�o agora a culpa � do Moro!
N�o, n�o me fa�a dizer coisas que n�o disse.
O que estou dizendo � que devemos defender as institui��es,
mas defend�-las n�o significa esconder seus erros,
mas torn�-las transparentes, sem omiss�es.
Mas de que lado voc� est�?
� preciso escolher um lado? Estou s� pensando, certo?
Desculpe, mas este n�o � o momento para tais discursos.
Ent�o n�o vamos organizar confer�ncias, sempre haver� outra emerg�ncia.
Moro foi o �nico que compreendeu
os processos de liberta��o do nosso tempo.
Reconheceu a for�a dos movimentos juvenis e feministas,
enquanto a esquerda nos deixou sozinhos.
Bravo!
- E quem disse o contr�rio? - Voc�.
Mas n�o, eu concordo com voc�.
Mas est� falando de um homem cuja vida corre risco
sem a m�nima piedade, n�o sente vergonha?
- Que vergonha! - N�o, n�o, n�o.
Eu tenho mais piedade do que voc�,
porque a pietas surge ao olhar para a realidade e depois senti-la.
Cale a boca, chega!
- O que disse? - Fora daqui.
Posso sair sem problema. Vou embora.
Como p�de pensar em vir aqui para dizer essas coisas?
S� falei o que voc� mesmo dizia h� dois meses.
Voc� est� enganado, n�o fui eu.
- Est� se confundindo. - Voc� tem mem�ria curta.
Vai apertar a m�o dele?
Continuem com sua confer�ncia...
Mas n�o encham suas bocas com Gaetano Salvemini.
- Estudem. - V� embora daqui.
O t�dio mortal, o festival da hipocrisia.
- Mas de que lado voc� est�? - Gostou?
S� n�s import�vamos
e sempre �ramos apenas n�s dois que t�nhamos de voltar.
Era assim, se est�vamos juntos, nenhuma cr�tica nos afetava.
Mais que isso, nos torn�vamos soberbos,
a �nica coisa que fazia sentido eram nossas opini�es.
Corr�amos para jantar, para a boa comida, o vinho, o sexo.
S� quer�amos nos agarrar e nos abra�ar.
Tenho que te contar uma coisa.
Pela sua express�o, parece s�rio.
Digamos que talvez seja...
a coisa mais vergonhosa que j� fiz em toda a minha vida.
� sobre o artigo que te pedi
quando est�vamos no Ensino M�dio.
Meu Deus!
Voc� me assustou.
Do que est� falando?
No qual voc� falava sobre a discuss�o com o professor de religi�o, lembra?
O que voc� fez?
Quando li seu artigo,
eu n�o conseguia acreditar que fosse poss�vel escrever
de uma forma t�o atraente e inteligente.
Eu o reescrevi v�rias vezes.
At� pedi a Lila para ler e me ajudar.
Eu queria te causar uma boa impress�o.
Fiquei muito desapontada quando a revista n�o o publicou.
E eu te disse que foi por falta de espa�o, certo?
Sim, acho que sim.
A verdade � que havia espa�o de sobra para seu artigo.
Ent�o por que n�o foi publicado?
Por inveja.
Os editores ficaram com inveja de mim?
Eu fiquei com inveja.
Li suas p�ginas e as joguei fora
porque n�o podia suportar que voc� fosse t�o boa.
Ele n�o precisava ter me contado isso,
e, mesmo assim, ele me contou,
e fiquei comovida com sua necessidade de ser sincero acima de tudo.
De repente, a partir daquele momento,
senti que sempre podia acreditar nele
e que podia confiar na ideia que estava ficando cada vez mais forte em mim,
de termos uma casa juntos,
e de finalmente unir nossas vidas e as das minhas filhas.
Eu te amo.
E que eu tamb�m te amo, voc� sabia?
Tamb�m tenho que te dizer uma coisa.
Diga.
� apenas uma ideia.
Mas...
Mas...
Quem � agora?
Quem sabe que estamos aqui?
S� Adele.
Atenda.
Al�?
Precisam me entregar a disserta��o sobre a Ars poetica,
vou corrigir mesmo hospitalizado.
Pietro.
Elena.
Oi.
Como voc� est�?
Podia ter sido pior.
Ela � Elena, ela � Doriana.
- Oi. - Oi.
O que aconteceu?
N�o me lembro bem, mas vi dois caras vindo em minha dire��o com um bast�o,
depois uma grande pancada, e acho que desmaiei.
- Quem eram? O que queriam? - Fascistas, violentos.
Est� doendo?
N�o sei o que tem aqui dentro, mas nunca estive melhor.
- O m�dico disse que voc� deve beber. - Sim.
E voc�, como est�?
Bem, bem.
Um pouco cansada.
Sempre viajando?
Sim, sempre.
- Papai, papai! - Tudo bem?
Devagar. Devagar, ele n�o pode se mexer.
Ainda est� doendo?
- Bom dia, Doriana. - Oi.
- Como voc�s est�o? - Bem.
Elena, voc� veio r�pido.
Sim, peguei o primeiro trem.
Dede, Elsa, digam oi para sua m�e.
Oi.
Oi, mam�e.
Oi. Oi.
Oi, Dede.
Como cresceram...
Cresceram tanto...
- Papai, tirei nove em italiano. - Muito bem.
A professora disse que podia ter sido um dez,
- mas fugi um pouco do tema. - Est� tudo bem.
- Fiz um presente para voc�, papai. - S�rio?
Vov�, onde est�?
Nossa, querida,
sinto muito.
Acho que deixamos em casa.
N�o, vov�, n�o � poss�vel!
- Levei dias para fazer! - Olhe...
Eu fiz para o papai!
Tudo bem, voc� pode dar a ele amanh�.
Meu tesouro.
Quem vir� comigo ao bar para comprar batata frita?
- Eu. - Eu, mas tamb�m quero refrigerante.
Posso?
Tudo bem, mas um pequeno.
Eu tamb�m vou.
Preciso de um caf�.
Sente-se.
Ela � muito bonita.
Voc� est� apaixonado?
H� muito tempo que eu n�o me sentia t�o feliz.
Ela vai morar com voc�?
Ainda � muito cedo para dizer.
Mas sim, talvez.
Pietro, temos que pensar nas meninas.
Quero voltar a morar em N�poles.
- Com o Nino? - Sim.
Mas ainda n�o falei com ele.
Ele deixou a esposa?
Sim.
Ele agora mora com um colega perto da universidade.
Como um estudante?
Quero ir para N�poles o mais r�pido poss�vel
e encontrar um apartamento para as meninas e para mim.
Tudo bem.
Tenho uma novidade.
Tenho uma �tima novidade.
Vou procurar uma casa nova e grande para n�s,
com um quarto de brinquedos e outro para dormir.
E onde vai encontrar essa casa nova?
Falei com Pietro.
Ou seja?
Eu j� volto.
At� agora, deixei as meninas com voc� por necessidade,
e porque achava que Pietro precisava se estabelecer.
Mas agora que ele tem a pr�pria vida, a situa��o mudou.
Eu tamb�m tenho direito a um pouco de estabilidade.
E depois?
Depois vou me mudar para N�poles,
vou morar l� com minhas duas filhas.
N�o, n�o. Eu n�o confio.
O que isso significa?
N�o confio em deix�-las com voc�.
Voc� pensa demais em si mesma para cuidar delas.
N�o cabe a voc� decidir isso.
N�o quero que minhas netas cres�am em uma cidade como N�poles.
Est� ouvindo o que est� dizendo?
� uma cidade violenta e ca�tica.
Voc�s sempre exageram.
Voc�s quem? Do que est� falando?
De voc�, de voc�s, da sua fam�lia, de sua m�e, de suas cenas.
Com quem vai deixar Dede e Elsa quando precisar sair? Com ela?
Vou deix�-las com quem quiser.
Eu n�o quero!
N�o quero que Dede e Elsa
tenham contato com pessoas fora de controle.
Pensei que voc� fosse a figura materna que eu sempre precisei.
Me enganei.
Minha m�e � melhor do que voc�.
Elena.
Se quiser, pode tomar banho, assim jantamos cedo,
logo que Guido voltar.
Tudo bem, sim.
Vou arrumar o quarto de h�spedes para voc�.
Vou dormir com as meninas.
Uma amiga sua ligou v�rias vezes.
Como? Por que ligou para c�?
Talvez porque saiba que voc� vem aqui de vez em quando.
LILA LIGOU
- Essa � aqui. - N�o, essa n�o � aqui.
- Isso, aqui. - Talvez essa.
- Vamos fazer essa parte. - Essa talvez seja aqui.
Precisamos das outras.
Est� na hora de ir para a cama.
Boa noite, mam�e.
Boa noite.
- Boa noite, vov�. - Boa noite, mam�e.
- Boa noite. - Boa noite, vov�.
E como se chamam essas duas belas damas?
Dede.
Elsa.
Sim, mas o vov� quer saber o nome completo.
Dede Airota.
Elsa Airota.
Airota como quem?
Como o papai.
E quem mais?
Como o vov�.
E qual � o nome da sua m�e?
Elena Greco.
E voc�s se chamam Greco ou Airota?
- Airota. - Airota.
Muito bem.
Boa noite, queridas.
Como anda o Nino Sarratore?
Valeu a pena?
Ele � um homem inteligente, certamente sabe o que est� fazendo,
mas ele divaga,
n�o estou gostando do que ele tem escrito ultimamente.
Afinal, � dif�cil se orientar no caos da crise italiana,
especialmente para homens como ele, que querem fazer algo.
Vou trabalhar um pouco.
Mas nem tudo � igual.
Sarratore � uma intelig�ncia sem tradi��es,
gosta mais de agradar os poderosos do que lutar por uma ideia.
O que significa que Nino � uma intelig�ncia sem tradi��es?
Quem ele n�o � ningu�m,
e para quem n�o � ningu�m, tornar-se algu�m
� muito mais importante do que qualquer outra coisa.
A conclus�o � que esse Sr. Sarratore n�o � de confian�a.
Eu tamb�m sou uma intelig�ncia sem tradi��es.
Voc� tamb�m, de fato.
O que isso significa?
Que eu te confiei um filho e voc� o tratou de forma desonesta.
Se voc� amava outro, por que se casou com ele?
Eu n�o sabia que amava outro.
Est� mentindo.
Estou mentindo, sim,
porque voc� me for�a a dar uma explica��o linear,
e explica��es lineares quase sempre s�o mentiras.
Voc� tamb�m falou mal de Pietro para mim algumas vezes.
Mais ainda, me apoiou contra ele.
Voc� estava mentindo?
N�o, sempre estive do seu lado,
mas dentro de um pacto que voc� deveria ter respeitado.
- Qual? - Ficar com seu marido e suas filhas,
mas n�o foi assim.
O pacto foi quebrado e isso muda tudo.
Fa�a o que voc� quiser, Adele.
Eu sou Elena Greco e minhas filhas s�o minhas filhas.
N�o dou a m�nima para os Airota.
Est� claro que voc� � Elena Greco.
J� est� muito claro,
mas as meninas s�o filhas do meu filho,
j� est�o h� quase dois anos morando aqui conosco,
e n�o vamos permitir que voc� as estrague.
"Pense no mal que voc� causa �s suas filhas",
Lila me disse quando eu estava deixando minha fam�lia.
Mas o que era o pior para minhas filhas, e o que era o melhor?
E o que era o pior e o melhor para mim?
Era igual ou diferente do que era pior e melhor para elas?
E voc�? Vai jogar fora tudo o que voc� � pelo Nino?
Vai destruir sua fam�lia por causa dele?
N�o fa�a isso, Elena.
Ele vai te usar e sugar seu sangue,
vai te fazer perder a vontade de viver e depois vai te abandonar.
Para que voc� estudou tanto?
De que serviu imaginar que voc� viveria uma bela vida por mim tamb�m?
Mas eu me enganei, voc� � s� uma idiota.
Eu achei a viagem para N�poles muito longa.
Quanto mais o trem diminu�a a velocidade ao entrar na �rea urbana,
mais a ansiedade me invadia.
Eu sentia que a N�poles � qual eu estava ligada,
a N�poles para onde estava voltando,
agora se reduzia apenas ao Nino.
Que decis�es ter�amos tomado,
j� que n�o t�nhamos nem mesmo uma hip�tese
sobre o resultado concreto de nosso caso?
Como ele teria reagido � ideia de morar com minhas filhas em N�poles?
A �nica coisa que ficou clara era que eu ardia de desejo
e mal podia esperar para v�-lo de novo.
Voc� est� pensando em algo que n�o quer me contar.
N�o, n�o � verdade.
Quero saber o que est� pensando.
- Um pensamento proibido? - Nada.
Ent�o por que n�o olha para mim?
Por que voc� n�o olha para mim?
Nino, estou pronta para me mudar para c� com minhas filhas.
Seremos muito felizes.
Sim.
Muito felizes.
Eu tenho algum dinheiro, Pietro me ajuda com as meninas,
estou prestes a assinar o contrato para o novo livro.
Quero um apartamento grande,
bem iluminado, com vista para o mar.
Sempre senti falta do mar.
Vou come�ar a procurar uma casa agora.
N�s vamos encontrar uma.
Que chatice, eu vou atender.
Sim?
O que eu te disse?
A universidade � uma chatice.
Me esqueci de dizer que a Lila andou te procurando,
ela insiste que voc� deve aparecer.
Ela ligou sem parar, tamb�m ligou para a casa da Eleonora.
Tive que dizer a ela para parar, eu a vi e disse isso.
Como assim, voc� a viu?
Sim, tomei um caf� com a Carmen.
Por que n�o me contou?
Porque n�o queria te preocupar, Elena. S�o duas canalhas.
S� vou dizer que Lila ficou fazendo perguntas sobre voc� o tempo todo,
queria saber como voc� estava vestida, se tinha mudado seu cabelo,
como voc� � quando fala em p�blico.
A outra meio louca insiste que voc� fale com Galiani,
porque soube que Nadia se refugiou na Fran�a
e quer saber se voc� tem not�cias de seu irm�o Pasquale.
Por que voc� nunca tem um tempo livre e dessa vez conseguiu arranjar tempo?
O que foi? Est� com ci�mes dessas duas?
N�o, estou brincando.
Hoje s� temos aborrecimentos.
Vou atender.
Sim?
Sim, mas n�o posso...
Falo com voc� mais tarde.
Certo?
Eu n�o queria ligar para Lila e contar da minha decis�o de morar em N�poles.
N�o queria que ela se metesse na minha vida.
Em vez disso, liguei para Carmen,
e combinei de nos encontrarmos em um bar no centro.
- Carmen. - Elena.
Que bom, finalmente.
Como voc� est�?
Nossa, como voc� est� linda.
E como est� bem.
Que nada, estou sempre com pressa, n�o me cuido.
Mas voc� est� �tima.
Por favor...
Estou cheia de pensamentos.
Vamos tomar um caf� e voc� me conta isso.
N�o posso ficar muito tempo, mas nos veremos em breve.
Dois caf�s, por favor.
Precisa ir embora t�o r�pido?
Vou ver um apartamento na Via Petrarca com Nino.
Espere, a Lila vai chegar logo.
Como assim a Lila?
Achei que ser�amos s� n�s duas.
Tomo meu caf� e tenho que ir, vamos deixar para outra hora.
A Lila est� me ajudando muito,
est� disposta a fazer qualquer coisa por Pasquale.
Elena, n�o � certo que os ricos sempre se salvem.
E que s� pessoas pobres como n�s tenham que pagar.
Sim.
Lila ajuda a todos, cuida da amiga, da fam�lia,
at� de Stefano.
Ajudou Antonio a encontrar uma casa
e tamb�m ficou amiga da esposa alem� dele.
Carmen, explique como posso te ajudar,
porque realmente tenho que ir.
Precisa falar com a professora, a m�e de Nadia,
tenho certeza de que ela sabe alguma coisa sobre meu irm�o.
Tudo bem, vou ligar para ela amanh�.
N�o, n�o est� entendendo.
N�o ligue para ela, ela n�o dir� nada por telefone.
Tudo bem, vou v�-la.
- Eu pago pelos caf�s. - Espere um pouco, vamos.
Lila tem algo importante para te dizer.
Me diga voc�.
Isso n�o � da minha conta.
Ent�o voc� tomou uma decis�o?
Vai voltar a morar em N�poles?
Sim.
E ainda est� com aquele sujeito?
Lila, eu amo o Nino e ele me ama.
Se n�o fosse por ele, eu n�o teria escrito o livro.
Eu n�o conseguia escrever.
Foi ele quem me deu for�as para recome�ar.
Voc� vai voltar a morar aqui e conta para a Carmen e n�o para mim?
Eu teria te contado.
Seus pais sabem?
N�o.
Nem a Elisa sabe?
Tamb�m n�o.
Sua m�e n�o est� bem.
O que ela tem?
Ela tosse, mas n�o quer ir ao m�dico.
Eu sei.
Carmen me disse que voc� tem algo importante para me dizer.
N�o � algo bom.
Me diga.
Pedi ao Antonio para seguir o Nino.
Do que est� falando?
Para ver o que ele faz.
E por qu�?
Para seu bem.
Eu cuido do meu pr�prio bem.
Voc� se ofende, Elena,
mas est� errada.
Conhe�o Nino melhor do que voc�.
E foi por isso que pedi ao Antonio para segui-lo.
N�o me ofendo, mas fale logo.
Vamos.
Nino n�o deixou a esposa,
eles ainda est�o morando juntos.
E, nos �ltimos dias, ele ganhou um cargo
em um importante instituto de pesquisas do banco
que � dirigido pelo sogro dele.
O qu�?
Voc� j� sabia?
N�o.
Se n�o acredita em mim, vamos atr�s dele
e vou te mostrar que eu repito tudo na cara dele, palavra por palavra,
como acabei de te dizer.
Eu acredito em voc�.
Olhe, se voc� for falar com o Nino, eu tamb�m quero ir.
Vamos resolver isso entre n�s tr�s,
vamos cortar o p�nis dele.
Desculpem, mas...
Eu tenho que...
Tchau, Carmen. Tchau, Lila.
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