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Caro Leitor:
Tenho uma hist�ria atrevida para contar...
...arrancada das p�ginas da Hist�ria. Enfeitada, � verdade.
Mas, sem d�vida, estimulante para os sentidos.
A hist�ria de Mademoiselle Renard...
...uma jovem e arrebatadora aristocrata...
...cujas tend�ncias sexuais oscilavam entre o cativante e o grotesco.
Quem n�o sonha em saciar cada espasmo de lux�ria...
...em alimentar cada depravado desejo?
Gra�as � sua nobre linhagem...
...Mademoiselle Renard gozava de total imunidade para fazer tudo isso.
Infligir dor e prazer com igual est�mulo...
...at� que um dia...
...Mademoiselle deu por ela � merc� de um homem...
...t�o perverso quanto ela.
Um homem cuja per�cia na arte da dor...
...excedia a dela.
N�o, por favor!
Com que facilidade, caro Leitor...
...se muda de predador...
...a presa.
E com que rapidez o prazer � tirado a alguns...
...e dado a outros.
A roupa branca, por favor.
A roupa branca, por favor.
Asilo Charenton para os Loucos. Anos Mais Tarde.
- Bom dia. - Bom dia.
A roupa branca, por favor.
Sou eu.
Cuidado. A tinta ainda n�o secou.
Despacha-te.
�s tu, Maddy?
Sou, m�e.
Aqui tendes as sujas.
Vou meter as coradas a secar.
N�o nos d�s uma ajuda?
D�-lhe a bola.
Apanha-a.
Muito bem. Apanha.
Corram todos.
Bouchon!
N�o te esque�as... sejas educado.
Aqui tendes.
O �ltimo cap�tulo.
Monsieur Masse quer outro manuscrito, e depressa, por favor.
N�o consegue imprimi-los com rapidez.
- Eu digo-lhe. - Voltarei a visitar-te...
...com os lucros, quando se vender. - Fico � espera.
Talvez um dia me digas o teu nome.
Pronto, caminho livre.
Marqu�s de Sade, Justine, �ltima edic�o.
Sa�da agora da tipografia. Justine. Marqu�s de Sade. Justine.
"A nossa hist�ria fala de uma ninfa chamada Justine...
...a donzela mais bela que alguma vez entrara num convento...
...com um corpo t�o firme e maduro...
...que parecia uma pena entreg�-lo a Deus.
Uma manh�, o bispo pousou-lhe a m�o sobre a coxa.
'Santo Padre', gritou ela.
'Vim para confessar os meus pecados, n�o para comet�-los de novo.'
Indiferente, o velho padre virou-a no joelho...
...e levantou-lhe as saias acima das ancas...
...expondo a carne rosada do seu traseiro.
Ali, entre as esferas do seu ondulado rabo...
...estava um bot�o de rosa enrubescido...
...� espera de ser...
...colhido.
Antes que Justine conseguisse livrar-se das m�os dele...
...este �mpio homem pegou numa h�stia...
...o corpo de Nosso Senhor Jesus Cristo...
...e colocou-a no orif�cio tremente da rapariga."
Tenho de continuar, Majestade?
"Enquanto libertava a sua virilidade de debaixo das vestes...
...o bispo murmurou uma orac�o em latim.
E depois, com um poderoso impulso...
...enfiou-a nas entranhas dela."
O tema obsceno do romance e o seu estilo demasiado maduro...
...revelam ser obra do Marqu�s de Sade.
Comp�e a prosa dele dentro de um asilo de loucos.
Basta!
Confiscai todas as c�pias.
Queim�-las-emos todas no relvado do pal�cio, � vista de todos!
Quanto ao autor, fuzilai-o.
Um conselho, Senhor.
Todos recordamos o que aconteceu a Robespierre, Danton e Marat.
Se mandais matar o Marqu�s, a Hist�ria pode considerar-vos d�spota.
- Mas eu sou a Hist�ria. - Claro, Vossa Majestade.
Mesmo assim, curai o Marqu�s de Sade.
Triunfai onde in�meros m�dicos e sacerdotes fracassaram.
Ningu�m pode criticar Napole�o...
...por chamar um homem � raz�o.
Posso sugerir uma avalia��o ao Asilo de Charenton...
...e ao internado de m� reputa��o que l� se encontra?
Tenho o candidato perfeito para o servi�o.
Dr. Royer-Collard, um distinto psiquiatra.
Um homem de fortes princ�pios, de grande car�cter...
...e com uma determinac�o de ferro.
Os meus colegas j� me chamaram antiquado e at� b�rbaro.
Mas aqui, no Hotel Dieu, preferimos um tipo de tratamento agressivo.
De facto.
N�o pretendo popularidade ou renome.
A minha miss�o � mais elevada:
Pegar nos pequenos erros de Deus e naqueles que Ele abandonou...
...e condicion�-los com a mesma for�a, o mesmo rigor...
...que empregar�amos para treinar um c�o feroz ou um garanh�o selvagem.
Isto pode n�o ser agrad�vel � vista, mas �, ainda assim, miseric�rdia.
Mais alguns meses assim e ele ficar� curado.
O maior desejo do imperador � que leveis a vossa t�cnica...
...e a vossa compet�ncia para o Asilo de Charenton.
Charenton? O administrador de l� � muito apreciado, n�o �?
� jovem, um idealista. Tereis de ser diplom�tico.
Sabeis como defino "idealismo", Monsieur Delbene?
"O derradeiro luxo da juventude."
N�o com tanta forca.
N�o o forces.
Deixa que a pena te guie.
Muito bem.
Lentamente.
N�o devemos copiar apenas as palavras.
� importante sabermos o que significam.
Sto. Agostinho diz-nos que os anjos e os dem�nios est�o entre n�s na Terra.
E que, por vezes, habitam juntos a alma de um �nico homem.
Ent�o como podemos saber quem � verdadeiramente bom...
...e quem � mau?
Bom, n�o podemos.
S� podemos prevenir-nos da nossa pr�pria corrup��o.
Ent�o, praticas... a leitura sozinha esta noite por mim?
"E o professor levantou a saia de Colombe...
...acima da cintura.
'Deixa-me instruir-te', disse ele, 'nas formas do amor'.
Dizendo aquilo, ele baixou-lhe as calcas...
...abaixo dos joelhos...
...e ali, aninhada entre as pernas dela...
...t�o rosada como uma tulipa, t�o escorregadia como uma enguia..."
N�o dev�amos ler as hist�rias porcas dele.
Ningu�m te obriga a ouvir.
"...ele olhou para a eleva��o de V�nus dela...
...a sua flor cor de linho...
...o olho de Deus a piscar."
Estiveste no quarto dele, n�o estiveste?
Uma ou duas vezes.
Dizem que usa uma pedra de amolar e um cinzel para afiar os dentes.
- � um escritor, n�o � um louco. - Ent�o, que faz ele l�?
Assass�nio.
N�o � verdade!
Escreve livros t�o p�rfidos que um homem matou a mulher ap�s l�-los.
E duas jovens m�es abortaram os filhos!
Digo que isso � assass�nio.
Se o difamas, n�o mereces ouvir as hist�rias dele.
Acho que ela tem um fraco por ele. � o que eu acho.
N�o � pelo Marqu�s que tem um fraco. Pois n�o, Madeleine?
Eles n�o t�m o direito...
...de enviar algu�m para vos pressionar.
Trabalho para v�s. N�o aceitarei ordens de um estranho.
N�o te preocupes, Valcour.
� administrativo.
Nada mais.
N�o comas a tinta, Pascal.
Bravo, Dauphin!
� muito melhor pintar fogos do que ate�-los, n�o �?
�.
�ptimo.
Roupa limpa.
Roupa limpa.
- Preciso de uma visita a s�rio. - N�o recomeceis!
V� l�, tens a chave. Mete-a no meu pequeno buraco.
Marqu�s?
Onde vos haveis metido?
Marqu�s?
Ent�o?
Assustei-te?
Assustar-me? Essa � boa!
Sou duas vezes mais r�pida que v�s.
Deveis querer not�cias do tolo do vosso livro.
Que tem o meu livro?
Vendeu como o diabo!
E depois come�aram a queim�-lo.
� o perigo de se compor uma prosa t�o incendi�ria.
Se estas moedas comprassem tamb�m os teus outros talentos!
- Quero mais uma coisa de v�s. - Roubaste-me o corac�o...
...e um outro �rg�o proeminente, a sul do equador.
O vosso editor diz que s� devo sair daqui com um novo manuscrito.
Tenho a hist�ria ideal.
Inspirada neste ambiente.
A infeliz hist�ria de uma jovem lavadeira virginal.
A jovem da ala mais vulgar, onde encarceram os loucos criminosos.
- � muito violenta? - Garanto.
- E muito er�tica? - Diabolicamente.
Mas tem um pre�o.
Um beijo por cada p�gina.
Devo d�-los directamente ou posso atir�-los?
O pre�o, minha coquete, � t�o firme...
...como eu.
V�s...
Falais como escreveis.
Ol�.
Que somos n�s hoje, Cleante?
Um pisco-chilreiro ou um rouxinol?
S� h� um tipo de ave num asilo de loucos, abade.
N�o me digas.
Um pav�o numa gaiola.
Lamento. J� tinha ouvido essa.
Esta hist�ria � comprida.
O cl�max custa mais.
Deves sentar-te no meu colo.
Exigis muito dos vossos leitores.
A empolgante conclus�o da hist�ria traz consigo um pr�mio.
- Qual? - A tua virgindade.
Depois deves cos�-la t�o bem como no dia em que nasceste...
...e procurar-me renovada para que eu a possa deflorar uma segunda vez.
H� coisas que devem ficar no papel...
...e outras na vida!
S� um tolo � que n�o sabe distingui-las!
Mademoiselle LeClerc.
Haveis chegado a tempo.
Este velho devasso perdeu a cabe�a.
Tomou-me por uma das personagens dele.
Madeleine.
Sim, abade?
Da pr�xima que quiseres visitar o Marqu�s...
...espero que optes por ir � confiss�o.
Bebeis um vinho, abade?
Ainda nem sequer � meio-dia.
A conversa, como certas partes da anatomia...
...desliza melhor quando lubrificada.
Isto � um vinho raro de uma obscura aldeia de Bord�us.
Em vez de esmagarem as uvas com os p�s...
...colocam a fruta na barriga de uma noiva...
...e colhem o sumo quando o jovem esposo mete a embarca��o no porto.
Um sabor encorpado.
Com um toque de lasc�via.
Vamos a isto.
� da nossa cave. Reconheco o sabor.
Devia ter-vos dito que era o sangue de Cristo.
Acreditar�eis nisso, n�o � verdade?
Tratamos-vos bem aqui, n�o tratamos, Marqu�s?
Tendes a vossa cama de penas, em vez de um colch�o de palha.
A vossa escrivaninha antiga, que trouxemos de LaCoste.
- Penas que cobririam uma avestruz... - � verdade, haveis-me mimado.
Em troca, s� vos pedimos para respeitardes o regulamento.
Sabeis que n�o deveis receber visitas.
Mas estou a receber-vos agora.
Sim, mas n�o sou uma bela e jovem cliente, pronta para a deprava��o.
N�o tenhais tanta certeza.
Pegai na pena, Marqu�s.
Expurgai esses vis pensamentos no papel.
Talvez vos influenciem menos na vida.
Encherei p�gina ap�s p�gina, meu querubim.
Prometo.
Cheg�mos, doutor. Cuidado, Senhor.
Bom dia, Senhor.
Aguard�vamos-vos.
Muito bem.
Dr. Royer-Collard. Bem-vindo a Charenton.
Isto pode parecer-vos algo estranho, meu amigo...
...mas n�o � necess�rio.
Vim apenas para supervisionar o vosso trabalho, compreendeis?
- Claro. - � uma formalidade. A s�rio.
Sois um homem de ci�ncia, e eu sou um homem de Deus.
Charenton lucrar� com ambos.
Precisarei de um gabinete, um lugar onde guardar as minhas coisas.
- Por aqui. - Se me permitis...
...por que se interessou o imperador t�o subitamente pelos meus...
...pelos nossos assuntos?
Parece que um vosso doente...
...lhe chamou a atenc�o.
Dizem que pratica os crimes que prega na fic��o dele.
Mas n�o aqui. Houve algumas indiscri��es na juventude dele.
Indiscri��es? Abade, por favor. Li o processo dele.
Aos 16 anos, violou uma criada com um crucifixo.
Seis meses depois, na masmorra de Vincennes, mutilou uma prostituta.
Cortou-lhe a carne com uma l�mina, e cauterizou as feridas com cera quente.
Espero que o julgueis pelos progressos e n�o pela sua anterior reputa��o.
N�o posso continuar assim! Por que havia isto de me acontecer?
Mais uma vez, Senhores.
Sou um pobre remend�o Toda a vida o fui
E com este sapato Vos pe�o
Para serdes esposa de remend�o
� uma pe�a medonha, � verdade!
Uma p�stula inflamada aos olhos da literatura.
O pergaminho em que foi escrita nem para limpar o meu rabo serve.
Mas n�o precisais de a piorar!
Dizei as vossas linhas com convic��o, meu sapateirinho feliz.
Como um verdadeiro actor!
Mas n�o sou actor. Sou um disp�ptico.
Seduzi-a, tolo!
Trouxe o �xito ao nosso teatro. Raramente h� um lugar vazio.
J� para n�o falar do valor terap�utico.
Mascarar-se com cretinos parece um sintoma de loucura, n�o uma cura.
Homo perversio. Uma esp�cie que medra no cativeiro.
Este � o Dr. Royer-Collard. Vem trabalhar connosco como...
Consultor.
Bem-vindo ao nosso humilde asilo de loucos.
Espero que vos sintais em casa.
Dizei-me, abade, por que est� ele � vossa guarda e n�o numa pris�o?
- Por influ�ncia da esposa dele. - Da esposa dele?
Sempre � melhor ter um esposo louco do que criminoso.
E ele nunca tentou fugir?
Um homem com a reputa��o dele?
N�o demoraria um dia a ser capturado.
Al�m disso, encontra em Charenton todo o bem-estar que possa desejar.
Uma biblioteca com os maiores livros do mundo...
...aulas de m�sica, exerc�cios com aguarelas.
Que efeito surtiram essas comodidades na psique dele?
J� n�o vocifera nem cospe.
J� n�o insulta os guardas, nem molesta os companheiros.
E a escrita dele?
Pois, isso.
Ent�o?
� essencial para a recupera��o, um purgativo para as toxinas da mente.
Aprovais a sua publica��o?
- Para venda? - Sim.
Para o p�blico em geral?
N�o, claro que n�o. N�o pode ser publicado.
Quieto.
Oh.
Fran�a est� pasmada com este livro, e v�s nunca ouvistes falar dele?
Santo Deus.
Silenciai o Marqu�s ou Charenton ser� encerrado pelo imperador.
Encerrado...?
Mas ele � um de 200 internados!
Pod�eis experimentar nele a minha cadeira calmante.
Ou tentar sangr�-lo com sanguessugas.
Ou talvez acoit�-lo na estaca.
Para qu�? Para ele aprender a temer o castigo...
...ao inv�s de seguir a virtude pelas suas pr�prias recompensas?
Doutor, deixai-me tratar eu deste assunto com o Marqu�s.
- Dediquei a vida a Charenton... - N�o sou insens�vel.
Mas este livro � um profundo insulto para todas as pessoas decentes.
Podeis garantir que isto n�o tornar� a acontecer?
Tendes a minha palavra.
Que tendes, abade?
O Marqu�s. Embara�ou-nos diante do pr�prio Napole�o!
Por qu�? Que fez ele?
Tem passado manuscritos a um editor.
Ai sim?
Confio demasiado, Madeleine.
Isto � uma grande desilus�o.
Pois �. O papel � barato, a letra demasiado pequena.
Que haveis feito? Subornastes um dos guardas?
Lmplorastes-me que escrevesse.
Para prop�sitos curativos, para acabar com a loucura.
Mas n�o tendes o direito de publicar! Nas minhas costas, sem aprova��o?
Havei-lo lido mesmo? Ou fostes logo para as dobras?
- O suficiente para perceber o teor. - E...?
Nem sequer � um romance a s�rio!
N�o passa de uma enciclop�dia de pervers�es!
E falha como exerc�cio de engenho.
As personagens s�o inexpressivas. O di�logo � vazio.
J� para n�o falar da incessante repeti��o de palavras como...
..."mamilo" e "lanca".
A� encalhei, tendes raz�o.
E um �mbito t�o pobre!
S� o pior da natureza humana.
Escrevo sobre as grandes verdades eternas que ligam toda a Humanidade.
Pelo mundo inteiro...
...comemos, cagamos, fodemos, matamos e morremos.
Mas tamb�m nos apaixonamos.
Constru�mos cidades, compomos sinfonias e perseveramos.
Por que n�o escreveis tamb�m disso?
Lsto � uma fic��o, n�o um tratado de moral.
Mas n�o � esse o dever da arte? Elevar-nos acima do diabo?
Julgo que esse � o vosso dever. N�o o meu.
Mais uma destas proezas...
...e ver-me-ei obrigado a negar-vos todas as liberdades.
Trata-se daquele m�dico, n�o �?
Veio usurpar-vos o lugar, n�o foi?
Est� em jogo mais do que a vossa escrita.
- O Minist�rio ameacou encerrar isto. - N�o podem falar a s�rio!
Tendes o nosso futuro na ponta da vossa pena.
Mais poderosa do que a espada.
Ponde-vos no meu lugar. Tenho que pensar nos outros.
Se Charenton fecha, n�o ter�o para onde ir, nem roupa, nem comida.
Que se lixem! Deixai-os morrer nas ruas, como a natureza tencionou.
Convosco entre eles?
Se fui gentil convosco, Marqu�s...
...se vos concedi o privil�gio de passear num dia de Primavera...
...ou vos passei uma almofada a mais por baixo da porta...
...se partilhei vosso vinho, ri das vossas vulgaridades...
...ou vos animei com argumentos...
...condescendei agora no que digo.
Para vosso bem, e por Charenton.
Tamb�m sois poeta. Dev�eis comecar a escrever.
- Dais-me a vossa palavra? - Deveras!
Feris-me no �mago!
De que serve toda a vossa reabilitac�o...
...se quando eu por fim sucumbo, quando me vergo � justa conduta...
...me olhais s� com suspeita?
N�o tendes f� no vosso pr�prio rem�dio?
Quem diria...
Em Charenton, at� as paredes t�m olhos.
N�o t�m?
Ent�o?
Falei com ele com raz�o e compaix�o...
...as armas que melhor nos servem aqui.
Jurou obedecer.
� mais do que um doente, doutor. O Marqu�s � meu amigo.
Tendes companhias estranhas, abade. Se tendes o assunto controlado...
- Tenho. - Ent�o vou visitar um amigo.
- Doutor! - Vim buscar a minha noiva.
Ah, sim.
N�o vos esper�vamos t�o cedo.
Simone ainda n�o atingiu a maioridade.
Assumi um posto em Charenton. Preciso do aux�lio que s� uma esposa pode dar.
Simone.
Recordas-te do Dr. Royer-Collard?
Nunca esqueceria o homem a quem fui prometida.
Ele veio buscar-te.
Hoje?
Neste instante?
Desculpai-me, mademoiselle.
N�o tive tempo para escrever.
Agradece, filha.
Pela minha experi�ncia, as pobres �rf�s nunca se casam.
Acabam solteironas, ou pior ainda... freiras.
Gra�as a Deus que a Provid�ncia te salvou de tal destino.
Adeus, Simone.
Deus te aben�oe, Simone.
O imperador deseja assegurar-vos o conforto enquanto em Charenton.
Considerai o castelo uma prenda...
...se estiverdes disposto a financiar o necess�rio restauro.
Monsieur Prouix � o jovem arquitecto mais promissor da corte.
Estar� � vossa disposi��o.
O castelo n�o � habitado desde o Terror.
Tem possibilidades, sim.
Simone?
Venho viver aqui?
Pertenceu ao Duque de Blangis, um mon�rquico confesso.
Os Jacobinos foram implac�veis.
A esposa dele tentou fugir.
Apanharam-na, aqui, nas escadas.
Atacaram-na com baionetas.
"S� pela gra�a de Deus", n�o �, doutor?
N�o derramo l�grimas pelo passado, Monsieur Delbene. Olho para o futuro.
Monsieur Prouix...
...dev�amos cortar m�rmore novo, n�o achais?
Deveis agradar � minha esposa em tudo.
Se ela desejar vidro veneziano...
...mosaicos italianos, veludo holand�s, n�o olheis a despesas.
Mas, no quarto dela, fazei com que a porta se tranque por fora.
E, nas janelas dela, quero grades de ferro.
Barras, Senhor?
No convento, Simone foi poupada �s tentac�es do mundo.
N�o permitirei que seja v�tima delas agora.
� uma ave rara.
Tenciono mant�-la na gaiola.
Talvez as freiras n�o vos tenham...
...instru�do...
...nas coisas do casamento.
O dever nocturno...
...de uma esposa...
...para com o marido.
� um esc�ndalo, deveras!
Um m�dico que finge ser temente a Deus.
N�o � tudo. � demasiado velho para casar.
- Ela � ainda t�o nova! - Mal acabou a escola.
Levada sem uma palavra.
- E n�o � tudo. - Dizei mais.
A queridinha tem s� 16 anos.
Diria...
...que � at� mais nova.
Uma crianca.
- N�o � tudo o que as freiras contaram. - Contai mais.
- E isso n�o � tudo. - Que mais?
Ela veio de um convento. Devia tornar-se freira!
Conta mais.
Levou com ela uma est�tua da Virgem Maria.
Chegou com uma est�tua de Maria e com um crucifixo ao pesco�o...
...de um convento.
Contai-me mais.
Ele tem idade para ser pai dela duas vezes.
O hip�crita.
Isto tem todos os ingredientes de uma farsa.
Os Crimes do Amor Uma Farsa
Entra a Madre Superiora, montada a cavalo.
Abade de Coulmier, meu tratante!
As vossas com�dias fazem furor. Tive de lutar para obter um bilhete.
E s�o representadas com tanta arte!
Aquele jovem encantador da com�dia da semana passada...
N�o imaginava que fosse um imbecil.
Todos t�m talentos, se os procurarmos.
N�o � o novo m�dico? Que emocionante!
Um especialista de renome, aqui em Charenton.
Uma coisa vos digo.
Tem uma filha linda.
O SAPATEIRO FELIZ
Oh, basta deste esgoto!
Somos melhores que isto.
N�o vos esque�ais, Senhores. Dentro de cada uma das vossas...
...delicadas mentes, dos vossos caracter�sticos corpos...
...encontra-se arte, � espera de nascer!
Vamos oferecer ao doutor uma representa��o, esta noite...
...que lhe fique para sempre na recordac�o.
� Madame Bougival.
E, claro, diante deles, a esposa do Marqu�s.
Ai sim?
Tu. Vento norte.
Senhoras e Senhores...
...houve uma alterac�o no programa desta noite.
N�o representaremos O Sapateiro Feliz.
Em vez disso, gostar�amos de estrear uma nova pe�a...
...em honra do rec�m-chegado...
...Dr. Royer-Collard e de sua encantadora noiva.
Uma com�dia intitulada...
- Crimes do Amor. - Os Crimes do Amor.
Escrita por um dos pacientes de Charenton...
...o Marqu�s de Sade!
Lrm� Saint-Fond, onde vamos?
Atravessar rios, desfiladeiros e neve?
Apressai-vos, Eugenie N�o podemos tardar
Vou entregar-vos agora Ao homem que ides desposar
Depois de repousardes No prazer vos instruir�
Ela chega, por fim
A minha noiva T�o dificilmente conseguida
Apressai-vos, minha filha, Correi l� para dentro
L� dentro, Aguardam-vos tesouros
Ma�ap�o e suspiros para vos saciar
Tal cortesia nos homens �, infelizmente, uma raridade
Que afortunada sou Por receber a sua caridade
Agrade�o-vos, irm�, Por tanto me apoiardes
Trazei-a c� para dentro Para este castelo isolado
Foi bom?
N�o desconfia ela Dos horrores que a aguardam
Quando eu a instruir
nos crimes de l'amour
Depressa, minha beb�, Despi vossas vestes
O meu ceptro aguarda E cresce rijo
Parai, imploro-vos Piedade, pe�o-vos
N�o sois meu amante Sois um monstruoso devasso
Fazei o que vos ordeno
- Ponde vossas pernas no ar - Sa� imediatamente.
- Ainda agora come�ou. - Obedecei.
� verdade Sou um porco
E tendes trufas a� debaixo
Meu Deus, que � isto? Que sensa��o perversa
Uma sensa��o algures entre a vergonha e a exulta��o
Oh, Deus!
Usai vossa l�ngua como uma vara
Da mesma forma Que a lrm� Saint-Fond
J� de partida? Claro, haveis visto isto antes.
Bem suspeitei Que a irm� era s�fica
E digo-vos mais Mas � demasiado gr�fico
Basta dizer Que tem uma queda por mo�as
Mesmo nas v�speras Atira-se sempre
Minha querida Eugenie Saboroso acepipe
Metei-vos de costas Vamos tentar pelo dorso
Ele quer possuir-me De todas as formas
Espoliarei todos os belos poros At� vos cansardes e gritardes "Basta"
N�o... mais, mais!
Avancai todos silenciosamente para a pr�xima cena.
...por tr�s
E os meus l�bios? Lreis macul�-los tamb�m?
Ap�s quebrardes Todos os outros tabus
Encherei todos os orif�cios Escorregadios
Se fordes gentil Depois, engolireis
Sejas educado!
Levai-o para a enfermaria!
- Ele magoou-te? - N�o, o bafo dele fez-me chorar.
Madeleine.
Pretendeis arrastar-nos a todos convosco?
Que absurdo.
Infame!
� s� uma pe�a.
De quem ser� a culpa? Do autor ou da musa dele?
- Foi uma ficc�o. - Claro.
- N�o se inspirou em circunst�ncias. - Pois n�o.
Dev�eis ter vergonha.
Explorais estes cretinos pat�ticos para fazerdes dinheiro.
N�o � essa a intenc�o!
Um espect�culo monstruoso para turistas e curiosos!
Charenton � um sanat�rio, n�o um circo.
Doravante, o teatro fica encerrado.
Encerrado?
E quanto ao vosso amigo, o dramaturgo...
Farei tudo o que estiver ao meu alcance.
Fazei mais. Ou ver-me-ei obrigado a denunciar ao Minist�rio...
...que s�o os doentes que mandam no asilo.
Espero que estejais satisfeito.
Ele encerrou o teatro.
Ele n�o me pode fazer isso.
Como pode um homem ser t�o ego�sta?
Limit�mo-nos a mostrar um espelho. Parece que ele n�o gostou do que viu.
Que fazeis?
Se n�o tendes palavra, n�o me deixais alternativa.
Mas cumpri o prometido. N�o publiquei.
Talvez, com o tempo, consigais recuper�-los.
N�o podeis! Tenho todos os dem�nios do Inferno na cabeca.
A minha �nica salvac�o � esco�-los para o papel.
Tentai ler, para variar.
O escritor que produz mais do que l�? A marca de um amador.
Tomai.
Come�ai pela B�blia. � mais alegre e escrita com mais engenho.
Este vosso monstruoso Deus?
Amarrou o pr�prio filho como um peda�o de vitelo.
Tremo s� de pensar no que Ele me faria.
- Por que me fazeis isto? - Parai.
Morrerei de solid�o! S� tenho a companhia das personagens que crio.
Pegas e pederastas?! Ficais melhor sem eles.
Tenho uma proposta.
Como sempre.
Madeleine. Est� tonta por mim. Faria tudo o que lhe pedisse.
Poderia fazer-vos uma visita � meia-noite.
N�o sei quem insultais mais... se a ela, se a mim.
- Abri as portas do para�so. - Basta!
Estais tenso. Precisais de um lento e longo coito.
Boa noite, Marqu�s.
Ent�o fornicai comigo!
Maldito sejais, abade!
N�o tendes consci�ncia do meu estado? Da gravidade?!
A minha escrita � involunt�ria, como o pulsar do meu cora��o.
A minha erecc�o constante!
Fiz o que me pedistes.
Fui visitar o artes�o.
Riu-se e chamou-me pega, mas aceitou o dinheiro na mesma.
O que vos d� maior prazer?
Os objectos...
...ou a humilha��o por que passo para vo-los obter?
Por �ltimo, mas n�o menos importante, trago-vos pingos de semente de anis...
...e uns chocolates.
Ai sim, madame?
Com recheio, sim?
Sabeis que n�o lhes toco, a menos que estejam a rebentar...
...a transbordar... de recheio.
Que mais trouxestes para eu mordiscar?
Oh, Donatien, n�o deveis.
Contai-me.
Que outras guloseimas?
Tende vergonha.
Raios, mulher!
Bombons?!
Devo empanturrar-me de ninharias in�teis...
...tragar vossos doces...
...quando o que quero, o que preciso � de penas para escrever?!
E talvez de um tinteiro?
Perdoai-me, pe�o-vos.
N�o vedes? Saquearam-me!
De forma mais not�ria que qualquer uma das minhas personagens.
Como o saberia?
Como vos avisaria? Escrevendo uma carta?
Com qu�, minha noiva asnal?!
Pe�o-vos, Donatien, como vossa esposa e �nica aliada:
- Parai de fazer t�o monstruosa figura. - Viestes dar-me serm�es?
Ostentar vossas tend�ncias num palco?
Eles convenceram-vos a isto?
Conquistai os favores do doutor.
Devia talhar o meu nome no dorso dele e encher-lhe as feridas de sal!
Estais aqui, em seguran�a, rodeado de tijolo e argamassa...
...mas a minha pris�o � bem mais cruel. N�o tem muros.
Apontam para mim e murmuram, onde quer que esteja.
Na �pera, vaiam-me.
O padre recusou-se a ouvir a minha confiss�o.
Disse que eu j� estava condenada!
Por que tenho eu de sofrer pelos vossos pecados?
� assim com os m�rtires, n�o �?
Devolvei-me o anonimato, s� pe�o isso. Deixai-me de novo invis�vel.
Dizei-me. Haveis feito alguma coisa para garantir a minha liberta��o? N�o.
Rogastes ao tribunal? Pedistes audi�ncia ao imperador?
Ele recusa-se a receber-me!
� conveniente ter vosso marido internado!
J� n�o tendes de levantar as saias...
...nem de rachar a boca para que eu a use para o prazer!
N�o sois minha mulher! Sois um dos meus muitos carcereiros!
Em nome de Deus...?
Levai esta vaca daqui! N�o posso olhar para ela!
Levai-a para a ala ocidental.
Para junto das hist�ricas!
Trancai-a tamb�m, para ela saber o que se sente!
A g�rgona! A porca!
Para uma mulher de origem humilde, vossa esposa tem um gosto refinado.
Quando sugiro granito, ela fala de m�rmore peruano.
M�rmore peruano. Custa uma fortuna import�-lo.
Tudo o que o cora��o dela desejar, Monsieur Prouix.
Nada mais me agradaria do que satisfazer todos os desejos dela.
Mas com a modesta soma que me destes... Sou arquitecto, n�o m�gico.
Tenho de falar com o doutor.
� um assunto da maior urg�ncia.
� costume escrever-se a requerer uma audi�ncia.
O desespero leva-me a ignorar a etiqueta, e a mergulhar na loucura.
O meu hor�rio n�o se sujeita aos caprichos dos lun�ticos.
Discordo, doutor. Trabalhais num asilo de loucos.
Todas as horas que passais acordado se gerem pelos loucos.
Pe�o-vos, sede sucinta.
Sois novo em Charenton, n�o sois?
Talvez n�o conhecais ainda meu marido e seu caso invulgar.
Com o devido respeito, madame...
...Franca inteira conhece vosso marido.
Dais-me um momento a s�s, Monsieur Prouix?
De bom grado, Senhor. Sempre �s ordens.
Senhores.
Madame, por favor.
Presumo que vindes pedir clem�ncia para vosso esposo.
Ai presumis? O meu maior desejo, doutor...
...� que ele permane�a enclausurado para sempre.
E que quando perecer nas h�midas entranhas da vossa instituic�o...
...seja deixado como carni�a para os roedores e os vermes.
J� entendi, madame.
Se n�o podeis cur�-lo...
...cur�-lo a s�rio...
...pe�o-vos, pelo menos, que prendeis o monstro que lhe assola a alma.
Isso n�o � f�cil, madame.
Estais decerto consciente de que custa muito...
...acomodar vosso esposo.
Pago os encargos dele mensalmente, mais zelosamente do que devia.
Isso mal d� para pagar o quarto dele...
...n�o resta nem um tost�o para tratamentos adequados.
Sopor�feros para lhe subjugar o g�nio.
Freios para o disciplinar, quando se comporta mal.
Se pud�sseis refor�ar vossos rogos com os meios para os servir...
N�o sou uma mulher abastada.
Tendes uma pens�o, n�o tendes? Da venda dos livros dele?
� dinheiro manchado, doutor.
- Que belo pensamento, Marquesa. - Que pensamento?
O de que os fundos mal adquiridos, originados pela degenera��o dele...
...podem agora conduzir � salvac�o dele.
� mais do que perverso...
...que a honra deva ter um pre�o.
Imaginai:
Velhos amigos dignarem-se a beijar-vos a m�o de novo.
"Marquesa...
� um prazer voltar a ver-vos.
Bem-vinda da vossa longa e negra descida ao abismo da inf�mia."
N�o brinqueis comigo, doutor.
� chegada a altura de garantirdes vosso epit�fio.
A benevolente Marquesa.
A filantropa mais venerada de Charenton...
...ou a noiva de Satan�s.
A vossa generosidade contribuir� para que vosso marido...
...se cure ainda mais depressa.
O m�rmore peruano, sem d�vida.
- Fico-lhe eternamente grata. - Tamb�m eu, Marquesa.
Doutor, posso partilhar convosco o mais cruel dos estratagemas dele?
Com certeza.
Uma vez, h� muito tempo...
...na loucura da juventude...
...ele obrigou-me a am�-lo.
Madeleine, minha querida.
Podes trazer-me uma pena e tinta?
Nem ouso. O doutor vigia-vos mais do que nunca.
Dr. Montalivet era, cordialmente dizendo, diminuto.
Quando fl�cido, o membro dele pouco maior era que uma bobina.
E, quando inflamado, atingia uns meros 10 cent�metros.
Para compensar, tentou impressionar a sua dama com outros dotes.
Bom vinho, ca�a fresca, e uma casa t�o grande como o resto era pequeno.
Temos barrotes para o tecto a caminho da Provenca.
E, na pr�xima semana, chega um muralista de Paris...
...para pintar um trompe l'oeil...
...no sal�o de baile.
- N�o vos agrada? - Muito.
Preferia tomar brandy no sal�o...
...onde podemos sentar-nos lado a lado, diante da lareira.
Prefiro ler, obrigada.
Preferis um livro � companhia de vosso esposo?
N�o admira.
Sou apenas de carne e sangue.
N�o se compara � p�gina impressa, pois n�o?
Boa noite, ent�o.
Aproveitai bem vossa solid�o.
Roupa branca.
Agora ou nunca.
Se n�o o l�s nem � tua pr�pria m�e...
...talvez n�o devesses l�-lo.
N�o gostais disto, m�e.
Oh, v� l�, querida, l�.
"Monsieur Bouloir era um homem cujos apetites er�ticos...
...podiam ser discretamente descritos...
...como tipo 'p�s-morte'.
Um frequentador de cemit�rios...
...a sua maior conquista fora uma donzela 60 anos mais velha que ele...
...falecida h� 12 anos."
Oh, que horror! Lsso � horrendo!
Continua!
"O vigor com que ele fez amor...
...fez com que os ossos dela se deslocassem.
Mesmo assim, ele fez-lhe o maior elogio que fazia a qualquer mulher:
'Valeu a pena cavar! '"
Perguntastes-me o nome uma vez.
Chamo-me Madeleine.
Doce... Como os bolos.
N�o tendes nome?
Cavalga para longe comigo um dia.
Talvez to diga.
A tua m�e pode ser cega como um morcego, mas tu tens bons olhos.
A minha m�e cegou por causa da barrela das chaleiras.
Lavar os lenc�is dos loucos custou-lhe a vis�o.
Isto pode custar-lhe muito mais.
Ganhar�eis mais com...
Que poderia causar uma tingidura assim?!
Sou lavadeira, n�o detective.
Talvez as chaleiras estejam ferrugentas, ou a barrela, ran�osa...
Ou talvez...
...talvez estes lenc�is tenham sido usados pelo nosso amigo, o Marqu�s.
Temos mais de 200 camas.
Pode ser de qualquer um.
Com um fio t�o refinado? Decorados com a escrita dele?
Ela mente. Mostra-o no rosto.
Estamos a limpar tudo, abade.
- Est� quase. - Lembrai-vos...
...tudo o que ele possa usar como pena. Tirai-lhe tudo do quarto.
O doutor estala o chicote, e dancais!
Levaram a minha cama! Devo enregelar at� � morte?
Gaban, tira-lhe o tapete!
� um tapete turco! Custa mais do que ganhareis na vida.
Valcour! A cadeira.
Muito bem! Levai-a! Levai tudo!
Cuidado, est� escorregadio. Nem imaginais onde esteve.
E n�o vos esque�ais da doce Maria, a pega judaica, a meretriz de Deus!
Nascimento de virgem! Uma religi�o com base num oximoro!
Orvolle. O vinho.
Doravante, s� bebereis �gua a todas as refeic�es.
�gua!
E carne desossada.
- Por qu� esta tortura? - A vossa escrita continua.
N�o criei este mundo, registo-o.
Os seus horrores. Os negros pesadelos! Com que fim?
Nenhum, s� para alimentar vossa morbidez.
Escrevo o que vejo: O cortejo at� � guilhotina.
Estamos todos em fila, � espera do golpe da l�mina.
Os rios de sangue correm sob os nossos p�s, abade.
J� estive no Inferno, meu jovem. V�s s� haveis lido sobre isso.
Lamento, Marqu�s. A s�rio.
Esses vossos votos de castidade. Qu�o estritos s�o?
Lmaginai que s� o p�nheis na boca dela.
Verme devoto.
� na adversidade que o artista floresce!
Estais curiosa?
Se dou prazer a mim mesma, tamb�m vo-lo posso dar.
N�o sabeis o que perdeis.
Procuro um livro. Talvez o conhecais.
S� me resta uma c�pia.
Salvo por mim... da fogueira.
Despachai-vos, por favor. O meu marido tranca a porta ao anoitecer.
Uma donzela como v�s...
...n�o deveria ler tamanha obscenidade.
Cresci num convento, Senhor.
Devo tudo o que sei sobre o mundo aos livros.
O JARDIM DE VERSOS DE UMA DAMA
"�s jovens donzelas do mundo:
Libertai-vos da tirania da virtude...
...e saboreai, sem vergonha, os prazeres da carne.
O poder masculino reside num punho cerrado...
...mas o poder de uma mulher est� noutro lugar:
Na cavidade de veludo que tem entre as coxas."
� tarde, Simone, querida.
Ponde os poemas de lado.
Pequeno-almo�o.
Imploro-te...
Que vos fizeram agora?
Torturas t�o arcanas...
...t�o medievais, que nem eu encontro palavras para as descrever.
Se tens um pingo de piedade...
...esqueces os cuidados e destrancas-me a porta.
Deus me ajude.
- N�o ouso. - N�o sejas burra! Tenho uma surpresa.
Abre o raio da porta!
O meu livro mais recente.
Come�a no meu punho esquerdo...
...e continua pelas minhas costas.
A frase mais longa...
...est� a todo o comprimento da minha costura.
E acaba na base do meu sapato direito.
"Lanca"?
"Nu num prato"?
"100 l�nguas �mpias"?
- Sois um g�nio! - Sim!
Vai depressa...
...para n�o seres culpada pelo meu mau comportamento.
Maddy! Se conspiras com o Diabo, pagar�s o pre�o do Diabo.
Lamento.
- Guardas, apanhai-o! Guardas! - Sim!
Vede o que vos trouxe, meus queridos!
Dois cap�tulos: Um em cada n�dega!
A minha escrita vive!
Levai este animal para a jaula dele!
N�o me digais. Viestes ler minhas calcas.
N�o me deixeis na expectativa. 50 chicotadas? Uma noite no ec�leo?
- N�o sujarei as minhas m�os nele. - Nem dev�eis!
� a primeira regra da pol�tica:
O homem que ordena a execu��o nunca faz cair a l�mina!
Tendes sorte em ser eu a castigar-vos.
Se fosse o doutor, ser�eis esfolado.
O doutor tem um corac�o como o meu.
Que devo fazer convosco?!
Quanto mais pro�bo, mais vos sentis provocado!
Tirai as roupas.
As ceroulas tamb�m.
Haveis come�ado este jogo...
...acabai-o.
Ou n�o tendes coragem?
Bem me pareceu.
� um afrodis�aco potente...
...n�o �, fofinho?
Ter-se poder sobre outro homem?
A vossa peruca.
Nunca mais espalhareis vosso insidioso evangelho!
Doravante, nem sequer escrevereis...
...vosso desprez�vel nome.
S�o as vossas convic��es t�o fr�geis, que n�o podem enfrentar as minhas?
� vosso Deus assim t�o trivial? T�o fraco?
Tende vergonha!
N�o vos iludais, Marqu�s.
N�o sois o Anticristo.
N�o passais de um agitador que sabe escrever.
Eu vi-a. Meteu a chave na fechadura, orgulhosamente.
Libertai-a! J�!
Deixai-a bem amarrada.
Se s� o sangue vos apaz�gua...
...derramai o meu.
- Abade, n�o! - Vai.
Agora!
N�o ser� necess�rio.
Se quereis servir de m�rtir, abade...
...fazei-o por Deus...
...n�o por uma camareira.
Vesti-vos.
Se soubesse de que romances gostavas...
...nunca te teria ensinado a ler.
N�o digais isso.
A leitura � a minha salvac�o.
Mas por que vos regalais com a pornografia dele?
Ganho muito pouco por dia e trabalho muito para os loucos.
O que vi na vida... � preciso muito para me chamar a aten��o.
Imagino-me nas hist�rias dele.
Assumo os pap�is.
- Cada rameira, cada assassina. - Maddy.
Se eu n�o fosse t�o m� mulher no papel...
...acho que n�o poderia ser t�o boa mulher na vida.
Isto n�o � lugar para uma crian�a como tu.
Vou mandar-te para longe daqui.
Pod�amos cobrir as paredes com sedas chinesas.
Ou, se preferirdes...
...uma tape�aria florentina.
Gostais de literatura?
Perd�o?
Admiro tanto os homens com apetite por...
...livros.
Madame...
...como fostes capaz?
Haveis realmente lido isto?
Decorei-o.
Chega uma altura na vida de uma donzela...
...onde deve p�r os livros de lado...
...e aprender com a experi�ncia.
Isso, monsieur...
...requer um professor.
Que est�s...?
Algum problema?
Abade.
N�o me mandeis embora, pe�o-vos.
N�o devia recusar a vossa generosidade...
...mas tenho o corac�o bem preso aqui.
Por quem?
O Marqu�s?
A m�e n�o � t�o cega como v�s.
Madeleine...
H� certos sentimentos...
...que n�o devemos exprimir.
Por que n�o?
Incitam-nos...
Incitam-nos a agir...
...de formas...
...que n�o dev�amos.
Que fiz eu?
Volta para o teu quarto.
Odiar-me-eis agora, n�o �?
Amo-te, Madeleine...
...como uma filha de Deus.
Perdoa-me.
Madeleine!
N�o receais a influ�ncia do Marqu�s sobre mim.
Receais a vossa.
Se me fizeres um �ltimo favor, gostaria de me explicar.
N�o vos aproximeis mais, abade.
Deus est� a ver.
"Meu caro Dr. Royer-Collard...
...por fim, vosso castelo est� acabado.
Encontrareis tudo no seu lugar:
Os cortinados de chita, os cord�es de sinos ingleses...
...at� os encostos de porta em marfim.
S� falta um pormenor:
Vossa esposa."
Diz-lhe que n�o sou tola.
Uma pris�o continua a s�-lo, mesmo com sedas e lustres.
"Quando lerdes isto, j� teremos partido h� muito...
...em direc��o a Inglaterra ou a lugares mais long�nquos."
Diz-lhe que se ele descobrir o nosso paradeiro...
...cortar�s os pulsos, e eu espetarei um alfinete de chap�u no cora��o.
Farias isso, em vez de renunciares ao nosso amor?
N�o.
Mas diz-lhe que o faria.
Assina, depressa.
Poder�s voltar a violar-me nos lenc�is de linho que ele pagou t�o caro.
E depois, pe�o-te...
...na pele de urso do gabinete dele...
...e, por fim, para culminar...
...deixaremos po�as de amor no m�rmore peruano.
Simone!
Simone!
Sinal de uma lanca
as pernas dela abertas
elevac�o de V�nus
Parai, imploro-vos!
Escreverei hist�rias refinadas! Odes � virtude.
Versos infantis. Prometo!
Excita-vos magoar-me, n�o excita?
Estais t�o rijo como um osso, a rebentar as calcas.
N�o vedes, estupor hip�crita...
...que quanto mais insistirdes nessa afronta, mais enraizais...
...os meus princ�pios no meu cora��o?!
Nunca viste...
...um homem nu?
O abade vai mandar-me para longe.
Sim.
Claro que vai.
Marqu�s...
...contai-me uma �ltima hist�ria.
Como sugeres que eu o fa�a?
Com p�, no ar?
Sussurrai-ma agora.
Filha, � demasiado perigoso.
Posso n�o voltar a ver-vos. Deixai-me transcrever...
...algo para vos recordar.
N�o � a altura nem o lugar para isso.
Perdemos.
Nunca imaginei ver-vos derrotado.
- Tenho milhares de hist�rias. - Ent�o contai-me uma.
Talvez possa.
Esta noite, vai � copa da roupa com tinta e uma pena...
...e ouvir�s uma hist�ria que far� chorar os anjos...
...e sufocar os santos.
Ela est� aqui.
Dauphin!
Cleante!
Cleante, estais pronto?
Estais pronto?
Marqu�s, sois v�s?
Porra, quem mais podia ser?!
- Alertastes os outros? - J� n�o sou um homem.
Quando acordei, descobri que me transformei num pardal.
Ai sim? Pois eu acordei e descobri que me transformara num gato.
Se n�o fazeis o que vos pe�o, enterro as garras em vossas coxas...
...e sugo-vos o tutano dos ossos.
Ao vosso servi�o, conde.
"Ao meu amado leitor:
Preparai-vos para a hist�ria mais impura...
...alguma vez nascida na mente de um homem."
Lde.
"Ao meu amado leitor:
Preparai-vos para a hist�ria mais impura alguma vez contada."
"Ao meu amado leitor:
Preparai-vos para uma hist�ria impura."
Bouchon.
"Ao meu amado leitor:
Preparai-vos; tenho uma hist�ria impura para contar."
"Preparai-vos."
Bouchon?
Que disseste?
"Preparai-vos. Tenho uma hist�ria. Uma hist�ria impura."
"A nossa hist�ria fala da prostituta Fanchon...
...dotada pela natureza...
...com uma fissura apertada e macia entre as coxas...
...e o rabo mais finamente fendido...
...alguma vez moldado pela m�o de Deus."
"Fanchon era uma prostituta...
...com uma fissura apertada e macia entre as coxas...
...e..."
- O rabo mais finamente fendido! - "O rabo mais finamente fendido..."
A minha gloriosa prosa, filtrada pela mente dos loucos.
Talvez a aperfei�oem.
"� sobre uma meretriz chamada Fanchon."
"� sobre uma meretriz chamada Fanchon...
...com uma fissura macia."
"Um dia, o primeiro cliente de Fanchon foi um cirurgi�o.
Ele passou-lhe os dedos pela pele nua...
...afastando dobras de carne."
"Ele passou-lhe os dedos pela pele nua...
...afastando as dobras de carne."
"Afastando as dobras."
"Ele passou-lhe os dedos pela pele nua, afastando as dobras..."
"Sentido a sua pele nua."
"A pele nua dela."
- Nua. - Sim, j� escrevi isso.
"'Que devo preparar? '...
...indagou Fanchon. 'A minha boca, o meu cu, ou a minha suculenta ostra? '"
"'Que devo preparar? '"
"'... o meu cu ou a minha suculenta ostra? '"
"'Nada disso! ' gritou o cirurgi�o de bisturi em punho."
- Sim? - "'Que buraco? '
A minha boca, o meu cu...
...ou a minha suculenta...
Suculenta ostra! '"
"'Porque abrirei novos orif�cios onde n�o existia nenhum antes.'"
- "'Nenhum! '" - "Gritou o cirurgi�o.
'Abrirei novos...
Novos orif�cios onde n�o existia nenhum antes! '"
"Dito isto, Fanchon deu um grito t�o agudo...
...que o cirurgi�o viu-se obrigado a arrancar-lhe a l�ngua."
"Fanchon deu um grito t�o agudo..."
"Dito isto, a extravagante cabra gritou t�o alto..."
"Gritou tanto e t�o alto..."
"Ela gritou, e ele achou que devia...
Que devia..."
"Para lhe selar a ferida, ele pegou num ati�ador de brasas do fogo..."
- "Um ati�ador de brasas do fogo!" - "Para lhe arrancar a l�ngua!"
"Pegou num ati�ador de brasas do fogo!"
Do fogo. "Do fogo!"
"Pegou num ati�ador de brasas do fogo."
Do fogo.
Do fogo...
"Pegou num ati�ador de brasas do fogo!"
- Dauphin. - Do fogo.
E a seguir?
Bouchon, as palavras.
Diz-me as palavras.
Dauphin?
- Dauphin! - Fogo!
Que se segue?
- Fogo! - Que se segue?
Fogo!
- Fogo! - Diz-me a parte seguinte!
Diz-me as palavras!
Fogo!
Abri todas as portas! Deixai sair os pacientes!
Lde buscar �gua! Despachai-vos! V�!
Trazei �gua!
Lsto arde!
- N�o! N�o! - Que belo fogo!
Que bom, Dauphin, belo fogo!
Ent�o a �gua?!
Chamai Dauphin! Parai-o!
Fogo! Fogo! Fogo!
Bouchon?
Bouchon!
Sejas educado, Bouchon.
N�o...
Madeleine.
Madeleine!
Madeleine!
- Madeleine! - Madeleine!
Madeleine!
Madeleine.
Maddy!
Madeleine!
Maddy!
Se o Diabo se abateu sobre n�s, a culpa � dela!
A culpa � dela!
N�o! N�o!
Madeleine!
Madeleine!
Temos de salvar Charenton!
Continuai em corrente!
Temos de parar com o fogo, antes que atinja os barrotes!
- Madeleine! - Madeleine!
Guardas! Guardas!
Est�s bem?
Madeleine!
Madeleine!
Lde! Depressa!
Madeleine!
Onde est�s, Maddy?
"Ela gritou, e ele achou que devia arrancar-lhe a l�ngua."
Bouchon, espera!
Lamento. Lamento, abade. N�o consegui evit�-lo!
Meu Deus!
N�o!
Madeleine!
Ent�o, n�o sejas t�mido.
Temos uma bela surpresa � tua espera.
Lindo menino.
Lindo menino.
Desculpa.
Espera!
Prometo que nunca mais fa�o!
Prometo!
N�o podemos culpar o Bouchon.
� apenas uma das experi�ncias da natureza que correu mal.
Sem disciplina. Sem consci�ncia. Sem moralidade.
De facto, o nosso dever...
...� providenciar-lhe estas coisas.
N�o �?
Se achais, doutor.
Ele ficou t�o impressionado com a hist�ria do Marqu�s...
...que decidiu aplic�-la, n�o foi?
Numa certa camareira.
Talvez queirais ter a bondade de me recordar o nome dela.
Imploro-vos, doutor, n�o me obrigueis a diz�-lo.
O nome dela, abade.
Madeleine.
Dizei-me, abade...
Quando fordes chamado perante Deus...
...como respondereis pela morte de Madeleine?
Assassino!
Vossas palavras.
- Vossas palavras levaram Bouchon a... - Por Deus, abade!
Lmaginai que um paciente tentava caminhar na �gua e se afogava.
Condenar�eis a B�blia? Julgo que n�o!
Morreu uma crianca inocente!
Tantos autores v�em negada a gratifica��o...
...de uma resposta concreta ao seu trabalho.
Sou aben�oado, n�o sou?
- N�o � segredo que a am�veis. - Queria fod�-la, s� isso!
- E conseguistes? - N�o tendes o direito de o perguntar.
- Por que n�o a tomastes pela for�a? - Quem disse que n�o o fiz?
- Foi por impot�ncia? - Nunca!
Ent�o... deve ter sido por amor.
Fodi-a, in�meras vezes...
...e ela suplicou sempre por mais.
Inspeccion�mos-lhe o corpo.
Morreu virgem.
Fazei-lhe um enterro condigno...
...no adro da igreja...
...�s minhas custas.
N�o enterreis...
...o seu doce corpo...
...no mesmo local...
...dos diabos que habitam este lugar amaldi�oado.
O vosso terr�vel segredo, revelado.
Afinal, sois um homem.
Tenho �pio para adormecer a dor.
A nossa inten��o � punitiva.
Se adormecermos a dor, de que serve?
Abade de Coulmier.
Estou aqui.
Oxal� eu fosse t�o facilmente silenciado.
Lindo menino.
Ena, ena!
Excedestes as minhas expectativas.
Ai sim?
N�o sou o primeiro homem a derramar sangue em nome de Deus.
E n�o sou o �ltimo.
Dormireis descansado � noite?
N�o, Senhor.
Francamente, n�o penso voltar a dormir.
N�o me mandeis embora, abade.
Abade. Abade.
Abade!
Abade.
Abade.
Abade.
Abade!
Abade! Abade!
Vinde depressa, abade.
Ele escreveu em todas as paredes!
Usou os pr�prios excrementos! Fez uma tinta pr�pria.
Santo Deus!
Que fedor!
- Destapai-lhe a boca. - N�o deveis, Senhor.
Tenho de lhe dar a Extrema Unc�o. Dai-me a adaga.
Deixai-nos.
N�o pude salvar-vos a alma em vida.
N�o falharei na morte.
Santo Pai:
Provai Vossa infinita miseric�rdia e abri Vossas portas a este homem...
...que n�o � menos Vosso filho que outro.
H�...
...em cada um de n�s...
...tal beleza...
...e tal abominac�o.
Nenhum homem est� isento disso.
Perdoai-lhe.
Perdoai-nos a todos.
Beijai a cruz.
Marqu�s!
N�o!
N�o!
Um Ano Depois
- Bem-vindo. - Feliz por ter conseguido o posto.
Deveras?
Os nossos fundos reduziram-se a uma ninharia.
Somos o alvo de riso de toda a Franca.
No entanto, numa nota mais positiva...
...o hospital est� agora apenas sob meu comando.
A minha pol�tica � que cada homem deve pagar a sua estadia.
A "lmprensa Charenton", abade.
Produzimos livros para o coleccionador minucioso.
Os internados compulsivos fazem a composi��o tipogr�fica.
Os ap�ticos fazem a encaderna��o e preparam a tinta.
� not�vel, doutor.
Os pacientes s�o t�o controlados, t�o d�ceis.
Sim, est�o em paz.
T�m a satisfa��o que s� um duro dia de trabalho pode oferecer.
N�o acredito.
O Marqu�s de Sade. Publicais os romances dele!
Sim.
Desde a morte dele, surgiu uma onda de interesse pela sua obra.
Claro...
...que usarei os lucros para devolver a Charenton o seu antigo esplendor.
Doutor.
Temos uma reuni�o com Herr Becker �s 4:00.
Quer publicar uma edi��o su��a...
...em papel dourado, encadernada em couro.
- Obrigado, Charlotte. - Foi um prazer.
Espreitai a p�gina 205. Fiz uma dobra na p�gina...
O �ltimo! V� l�!
O pr�ximo! V� l�, trazei esses livros!
As pr�ximas caixas l� em cima. Mexei-vos!
Pronto, amigos, j� est�! At� � pr�xima semana!
Claro que nem tudo � t�o harmonioso como parece.
Espero que sejais forte.
Anos a tratar de leprosos prepararam-me para o mais hediondo.
Ainda temos alguns solit�rios incur�veis.
Com tend�ncia para a viol�ncia e a pervers�o.
Ent�o...
...sois v�s o meu sucessor?
Sucessor?
Escutai-me, abade...
...e prestai aten��o.
Olhei o rosto do Mal de frente...
...e sobrevivi para contar a hist�ria.
E agora, imploro-vos... Deixai-me p�r isto por escrito.
S� palavreado. Vocifera e delira.
Se tendes um pingo de Cristianismo, trazer-me-eis pergaminho, tinta...
...e uma pena.
Este paciente representa um grande perigo para ele e para os outros.
Estais bem, Senhor?
- N�o vedes, abade? - N�o vedes, abade?
H� homens que est�o para al�m da reden��o.
N�o, esperai.
Por favor!
Por favor, trazei-me uma pena. Por favor.
Esperai... lamento. Maldito sejais, abade!
Uma pena!
Uma pena.
Usai-a bem.
Deveis-lhe isso a ela.
Amado leitor:
Deixo-vos agora com uma hist�ria escrita pelo abade de Coulmier...
...um homem que encontrou a liberdade no lugar mais inesperado...
...no fundo de um tinteiro...
...na ponta de uma pena.
No entanto, aviso-vos j�...
...que o enredo est� manchado de sangue...
...que as personagens s�o depravadas...
...e que os temas s�o, no m�nimo, perniciosos.
Mas para se conhecer a virtude...
...h� que conhecer o v�cio.
S� ent�o podemos conhecer a total dimens�o do homem.
Portanto, vinde.
Desafio-vos.
Virai a p�gina.
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