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Remix.
Combinar ou editar materiais existentes para produzir algo novo.
O termo remix se aplicava originalmente à música.
Tornou-se proeminente no século passado durante o apogeu do hip-hop,
o primeiro tipo de música a incorporar o sampling de gravações já existentes.
Exemplo precursor:
O Sugarhill Gang samplea o riff de baixo de "Good Times" do Chic
no hit "Rapper's Delight" de 1979.
Desde então a mesma linha de baixo foi sampleada dezenas de vezes.
Pule para o presente e qualquer um pode remixar qualquer coisa.
Música, vídeo, fotos, tanto faz.
E distribuir globalmente praticamente instantaneamente.
Você não precisa de ferramentas caras,
Você não precisa de um distribuidor.
Você não precisa nem de habilidades.
Remixar é uma arte popular. Qualquer um pode fazê-lo.
Contudo essas técnicas, coletar material,
transformando-o, combinando-o,
são as mesmas usadas em qualquer nível de criação.
Pode-se até dizer que tudo é um remix.
Para explicar, vamos começar na Inglaterra, em 1968.
Parte 1 A Canção Permanece a Mesma.
Jimmy Page recruta John Paul Jones, Robert Plant e John Bonham
para formar o Led Zeppelin.
Eles tocam um blues extremamente barulhento que logo seria conhecido como-
Espere, vamos começar em Paris em 1961.
William Burroughs cunhou o termo "heavy metal" no romance "The Soft Machine",
um livro que foi composto utilizando a técnica de cut-up,
usando textos já existentes e literalmente recortando-os e reagrupando-os.
Assim, em 1961, William Burroughs não apenas inventa o termo "heavy metal",
o segmento musical em que Zeppelin e alguns outros grupos seriam pioneiros,
como produz um remix precursor.
Voltando ao Led Zeppelin.
Na metade da década de 1970, Led Zeppelin é a maior
banda de rock em turnê nos Estados Unidos.
Ainda assim muitos críticos e colegas os taxaram como
imitadores.
O caso foi esse:
As sessões inicial e final de "Bring it on Home"
foram extraídas de uma música de Willie Dixon entitulada
- não coincidentemente - "Bring it on Home"
"The Lemon Song" utiliza várias partes da letra de
"Killing Floor" de Howlin' Wolf.
"Black Mountain Side" usa a melodia de "Blackwaterside"
um arranjo composto por Bert Jansch.
"Dazed and Confused" apresenta uma letra diferente mas é claramente
um cover não creditado da música de mesmo título de Jake Holmes.
Holmes os processou 40 anos depois, em 2010.
E a grande "Stairway to Heaven" tem sua abertura de "Taurus", do Spirit.
Representantes do compositor Randy California os processaram em 2014.
O Led Zeppelin claramente copiou muito do material de outras pessoas.
Mas isso em si não é incomum.
Apenas duas coisas diferenciavam o Led Zeppelin de seus pares.
Primeiramente, quando Zeppelin usava o material de outrem,
eles não atribuíam a composição ao artista original.
A maioria dos grupos de blues britânicos gravava vários covers,
mas, contrário do Led Zeppelin,
não alegava tê-las escrito.
Em segundo lugar, o Led Zeppelin não modificava suas versões
suficientemente para alegar que eram originais.
Muitas bandas imitavam outras que vieram antes delas,
mas elas tendiam mais a emular o som geral das músicas
do que tocar especificamente suas letras ou melodias.
O Led Zeppelin copiava sem fazer mudanças fundamentais.
Portanto, essas duas coisas:
Covers, performances de material alheio,
e "imitações", cópias que ficam nos limites da lei,
são exemplos duradouros de remix legal.
Essas coisas contam para quase tudo que a indústria do entretenimento produz,
e é daqui que iremos para a parte 2.
Fim da parte um.
Espere, uma última coisa.
No despertar de seu grande sucesso, o Led Zeppelin foi de copiador a copiado.
Primeiro, nos anos 70 com grupos como Aerosmith, Heart e Boston,
depois, durante o movimento heavy metal dos anos 80,
e mais adiante para a era do sampling.
Aqui estão as batidas de "When the Levee Breaks" sendo sampleadas e remixadas:
Fim da parte um (sério).
Talvez seja porque filmes são tão massivamente caros de se fazer.
Talvez porque quadrinhos, programas de TV, videogames, livros, etc
sejam fontes tão ricas de material.
Ou talvez seja porque o público prefere o que lhe é familiar.
Qualquer que seja a razão, a maioria dos sucessos de bilheteria
apoiam-se bastante em material já existente.
Dos 10 filmes de maior sucesso de bilheteria dos últimos 10 anos,
74 em 100 são sequências ou refilmagens ou adaptações de
histórias em quadrinhos, videogames, livros e etc.
Transformar o velho no novo é um dos maiores talentos de Hollywood.
Tudo é um Remix
Parte Dois Remix Inc.
Nessa altura temos três filmes de um filme adaptado de
um brinquedo de parque de diversões.
Temos um filme musical, baseado em um musical baseado em um filme.
Temos duas sequências de um filme baseado em uma série de desenho animado
por sua vez baseada em uma linha de brinquedos.
Temos um filme baseado em dois livros, um deles feito a partir de um blog
que foi inspirado no outro livro que foram adaptados no filme.
Você entende?
Temos 11 filmes de star trek
12 sextas feiras 13
e 23 James Bond.
Temos histórias que foram contadas, recontadas, transformadas,
recontadas e subvertidas desde a origem do cinema.
Vimos vampiros serem transformados de monstros terríveis
em invasores de quartos encapados, em piadas de acampamento,
em gostosões, em mais gostosões.
Dos poucos hits que não são sequências, remakes ou adaptações,
a palavra "original" não vem à mente para descrevê-los.
Estes são filmes de gênero que ficam restritos aos modelos bastante padronizados.
Gêneros então se transformam em subgêneros com suas próprias,
ou até mais específicas, convenções.
Então, dentro da categoria filmes de terror,
temos subgêneros como sobrenatural, slasher, zumbi, e criaturas abomináveis,
Todos têm elementos padrão que são apropriados, transformados e subvertidos.
Vamos usar o maior filme da década como um exemplo.
Agora, não se trata de uma sequência, remix ou adaptação,
mas um filme de gênero – ficção científica –
e, o mais revelador, que faz parte de um pequeno subgênero,
no qual pessoas simpáticas e brancas se sentem mal
por todos os assassinatos, roubos e destruições que estão sendo feitos em seu próprio benefício.
Chamo este subgênero “Desculpe pelo Colonialismo”.
Refiro-me a filmes como Dança com Lobos,
O Último Samurai,
O Último dos Moicanos,
Duna,
Lawrence da Arabia
Um Homem Chamado Cavalo
e, até mesmo, FernGully
e Pocahontas.
Filmes são construídos em outros filmes,
assim como em livros, programas de TV, eventos atuais, jogos, enfim.
Isto se aplica a tudo, desde o mais humilde filme de gênero,
até um reverenciado filme independente.
E até mesmo se aplica aos massivamente influenciadores blockbusters -
os tipos de filmes que reformularam a cultura pop.
O que nos leva para...
Ainda hoje, Star Wars permanece como uma obra de imaginação extraordinária,
mas muitos de seus componentes individuais
são tão reconhecíveis quanto as amostras de um remix.
O fundamento de Star Wars vem de Joseph Campbell.
Ele popularizou as estruturas do mito em seu livro "O Herói de Mil Faces".
Star Wars segue o contorno do monomito, que consiste em etapas como
O Chamado da Aventura
Ajuda Sobrenatural
A Barriga da Baleia
Estrada de Provas
Encontro com a Deusa e mais um monte.
Também serviram de grandes influências os seriados de Flash Gordon,
dos anos trinta, e o diretor japonês Akira Kurasowa.
Star Wars brinca muito bem de versão aprimorada de Flash Gordon,
desde as pancadas suaves, até o design das legendas de abertura.
De Kurasowa nós temos os mestres das artes marciais,
uma dupla de núcleo baixo brigando, mais transições suaves,
um lugar para se esconder embaixo do assoalho,
e um vilão fanfarrão tendo o braço decepado.
Filmes de Guerra e de Faroeste são outras grandes fontes de Star Wars.
A cena em que Luke encontra a família dele destruída lembra esta cena de Rastros de Ódio.
E a cena em que Han Solo atira em Greedo lembra esta cena de Três Homens em Conflito.
O clímax das missões aéreas de filmes como The Dam Busters,
Inferno nos Céus e As Pontes de Toko-Ri
são muito similares as perseguições na Estrela da Morte.
E em muitos casos, até mesmo cenas já existentes foram utilizadas como modelos
para os efeitos especiais de Star Wars.
Existem também muitos outros elementos claramente derivados de outros filmes.
Temos o homem de lata como a mulher de lata de Metrópolis,
algumas cenas inspiradas em 2001,
a cena pegue-a-garota-e-vai como esta outra em Simbad e a Princesa,
uma projeção holográfica um pouco parecida como esta outra em Planeta Proibido,
um comício lembrando este outro em Triunfo da Vontade,
e robozinhos bonitinhos muito parecidos com estes em Corrida Silenciosa.
George Lucas coletou materiais, os combinou e transformou.
Sem os filmes precentes, não haveria Star Wars.
Criação requer influência.
Tudo o que nós fazemos é um remix de criações existentes,
nossas vidas e as vidas de outros.
Como Isaac Newton disse uma vez, "Estamos apoiados em ombros de gigantes" –
que é o que ele estava fazendo quando adaptou esta frase das palavras de Bernard de Chartres.
Na Parte 3, iremos explorar ainda mais essa ideia
e traçar o limite embaçado entre a originalidade e a não originalidade.
Uma última coisa
George Lucas foi o cineasta mais impregnado de filmes de sua era,
mas esse título foi desde então passado para...
A tese mestre dos remixes de Quentin Tarantino é Kill Bill,
que é provavelmente a coisa mais próxima que Hollywood tem de um mash-up.
Compactado com elementos extraídos de inúmeros filmes,
Kill Bill eleva a amostragem cinematográfica para novos patamares de sofisticação.
A cena da enfermeira assassina em particular é uma recombinação quase completa
de elementos de filmes existentes.
A ação principal é a mesma desta cena em Domingo Negro
em que uma mulher disfarçada de enfermeira tenta assassinar uma paciente
com uma seringa de fluido vermelho.
O tapa-olho de Daryl Hannah é uma homenagem a personagem principal de
Eles a Chamam de Caolha,
e a música que ela está assobiando foi tirada do filme de terror de 1968,
A Morte Tem Cara de Anjo.
Pra terminar, o efeito de tela dividida é modelado nas técnicas utilizadas por Brian De Palma,
em uma variedade de filmes, incluindo Carrie, a Estranha.
Fim da Parte Dois
O ato da criação está envolto em uma névoa de mitos:
que a criatividade vem através da inspiração,
que criações originais quebram o molde,
que se trata do trabalho de gênios
e que aparece tão rápido quanto a eletricidade chega aos filamentos.
Mas a criatividade não é mágica.
Ela surge aplicando ferramentas comuns de pensamento em materiais já existentes.
O solo de onde brota nossa criação é algo que desprezamos e desentendemos,
apesar dele nos dar tanto;
e isso é copiar.
De forma simples: copiando é como aprendemos.
Não podemos introduzir algo novo enquanto não tivermos fluência com a linguagem de nosso domínio,
e fazemos isso através da emulação.
Por exemplo, todos os artistas passam seus anos de formação
produzindo trabalho derivado.
O primeiro álbum de Bob Dylan continha onze canções cover.
Richard Pryor começou uma carreira em comédia stand up
fazendo uma imitação não muito boa de Bill Cosby,
e Hunter S. Thompson redigitou "O Grande Gatsby"
só para sentir como é escrever um grande romance.
Ninguém começa de forma original.
Você precisa copiar para criar os fundamentos do conhecimento e compreensão
e depois disso, as coisas podem começar a ficar interessantes.
Tudo é um Remix
Parte Três Os Elementos da Criatividade
Após ter estabelecido fundamentos através da cópia,
é possível se criar algo novo através da transformação.
Pegar uma ideia e criar variações.
É tempo que consome ajustes, mas que pode eventualmente levar a um avanço.
James Watt criou uma grande melhoria na locomotiva a vapor
porque foi contratado para consertar a locomotiva de Thomas Newcombe.
Então, ele passou doze anos desenvolvendo sua própria versão.
Christopher Latham Sholes modelou o teclado de sua máquina de escrever como um piano.
Esse design evoluiu vagarosamente durante cinco anos
até o sistema QWERTY que usamos ainda hoje.
E Thomas Edison não inventou a lâmpada.
Sua primeira patente foi "Melhoria em Lâmpadas Elétricas",
mas ele produziu a primeira comercialmente viável
depois de testar 6000 materiais diferentes para os filamentos.
Todos esses foram avanços imensos, mas não são ideias originais
e sim momentos críticos numa linha contínua de invenções
de muitas pessoas diferentes.
Mas os resultados mais dramáticos podem acontecer
quando idéias são combinadas;
conectando ideias, saltos criativos podem ser feitos,
produzindo alguns dos maiores avanços da história.
A prensa móvel de Johannes Gutemberg foi criada cerca de 1440,
mas quase todas suas partes já existiam há séculos.
Henry Ford e a Ford Motor Company não inventaram a linha de montagem,
peças intercambiáveis e nem mesmo o automóvel,
mas combinaram todos esses elementos em 1908
para produzir o primeiro carro comercializável de massa: o Model T.
E a Internet cresceu lentamente durante várias décadas
enquanto redes e protocolos fundiam-se.
Finalmente, alcançou massa crítica em 1991,
quando Tim Berners-Lee adicionou a World Wide Web.
Estes são os elementos básicos da criatividade: copiar, transformar e combinar.
E a ilustração perfeita de que tudo isso funciona
é a história dos dispositivos que usamos neste exato momento.
Vamos retornar à alvorada da revolução dos computadores
e dar uma olhada na companhia que começou tudo:
Xerox inventou o computador pessoal moderno no início dos anos 1970.
O Alto era um sistema controlado por um mouse com uma interface de usuário gráfica.
Lembre-se que o computador pessoal popular dessa época era operado por interruptores
e, se você os colocasse na ordem correta, via luzes piscando.
O Alto era muito avançado para sua época.
Em certo momento, a Apple se interessou pelo Alto
e mais tarde lançou não um, mas dois computadores com interfaces gráficas:
o LISA e, seu sucessor mais conhecido, o MacIntosh.
O Alto nunca foi um produto comercial,
mas a Xerox lançou um sistema baseado nele em 1981
O Star 8010, 2 anos antes do LISA, 3 anos antes do Mac.
Foram o Star e o Alto que serviram de base para o MacIntosh.
O Star da Xerox usava a metáfora da "área de trabalho"
com ícones para documentos e pastas.
Ele tinha ponteiros, barras de rolagem e menus "pop-up".
Tais eram grandes inovações, e o MacIntosh copiou todas.
Mas foi essa primeira combinação incorporada que colocou o Mac no caminho
para o sucesso a longo prazo.
A Apple mesclou o computador com um utensílio doméstico:
o Mac deveria ser um dispositivo simples como a TV ou o rádio.
E isso era diferente do Star, voltado para uso profissional
e completamente diferente dos complicados sistemas
baseados em texto que dominavam a era.
O Mac era para a casa e isto produziu uma cascata de transformações
Primeiro, a Apple removeu um dos botões do mouse
para fazer seu novo modelo menos confuso.
Então adicionaram o duplo clique para abrir arquivos.
O STAR usava uma tecla separada para abrir arquivos.
O Mac também permitiu que os ícones fossem arrastados
e mover e redimensionar janelas.
O STAR não tinha "arrastar e soltar".
Você movia e copiava arquivos selecionando um ícone,
apertando uma tecla e clicando em um novo local.
E redimensionava janelas através de um menu
Tanto o STAR como o ALTO tinham menus "popup"
mas como sua localização sempre mudava na tela,
o usuário precisava sempre se reorientar.
O Mac introduziu a barra de menus, que ficava no mesmo lugar,
não importando o que você estivesse fazendo.
E adicionou a lixeira para tornar o ato de apagar arquivos
mais intuitivo e menos estressante.
E, por último, através de uma engenharia especializada e inteligente,
a Apple conseguiu diminui o preço do Mac para USD 2.500
Ainda bem caro, mas bem mais barato que o LISA de US$ 10.000
ou o STAR de US$ 17.000
Mas o que começou tudo foi a interface gráfica
misturada com a ideia do computador como utensílio doméstico.
O Mac é uma demonstração do grande potencial das combinações.
O Star e o Alto, por outro lado, são o produto de anos de pesquisa de ponta
e desenvolvimento.
Eles são um testamento ao vagaroso poder de transformação.
Mas é claro que que eles também contém o trabalho de outros.
O Alto e o Star são ramos evolutivos que vem desde o Sistema NLS
que introduziu as janelas e o mouse,
até o Sketchpad, o primeiro aplicativo de desenho interativo
e até mesmo o Memex,
um conceito que lembra o PC moderno, décadas antes dele.
A interdependência da nossa criatividade foi obscurecida
por poderosas ideias culturais.
Mas a tecnologia está agora expondo essa conectividade.
Estamos lutando legal, ética e artisticamente
para lidar com essas implicações
e este é o nosso episódio final: parte 4.
Uma última coisa.
E se a Xerox nunca tivesse decidido perseguir a interface gráfica?
Ou Thomas Edison encontrado diferentes condições?
E se Tim Berners-Lee nunca tivesse recebido financiamento para desenvolver a World Wide Web?
O nosso mundo seria diferente?
Estaria mais atrasado?
A história parece nos contar que as coisas não seriam tão diferentes.
Toda vez que há um grande avanço geralmente há outros no mesmo caminho.
As vezes um pouco atrás, as vezes nem um pouco.
Issac Newton e Gottfried Leibniz inventaram o cálculo em 1684.
Charles Darwin propôs a teoria da evolução pela seleção natural
mas Alfred Russel Wallace teve basicamente a mesma idéia
basicamente ao mesmo tempo.
E Alexander Graham Bell e Elisha Gray requisitaram patentes para o telefone
no mesmo dia.
Nós chamamos isso de "descobertas múltiplas".
A mesma inovação emergindo em diferentes lugares.
Ciência e invenção estão cheias delas
mas também pode acontecer nas artes.
Em filmes, por exemplo, tivemos três filmes sobre a Coco Chanel
lançados num intervalo de 9 meses entre eles.
Em 1999, tivemos um quarteto de filmes de ficção sobre realidades virtuais.
Mesmo o incomum filme original de Charlie Kaufman "Synecdoche, New York",
tem uma semelhança estranha com o romace "Remainder" de Tom McCarthy.
Ambas as histórias são sobre homens que repentinamente se tornam ricos
e começam a recriar momentos de suas vidas
indo tão longe a ponto de recriarem suas recriações.
E na verdade este vídeo que você está vendo
foi escrito logo depois de uma matéria da New Yorker
publicar um artigo de Malcolm Gladwell
sobre a Apple, Xerox, e a natureza da inovação.
Nós somos todos feitos dos mesmos materiais.
As vezes por coincidência nós conseguimos resultados similares,
mas as vezes inovações simplesmente parecem inevitáveis.
Fim da parte 3.
Os genes em nossos corpos podem ser rastreados
até mais de três bilhões e meio de anos atrás
num só organismo: LUCA,
o Último Ancestral Comum Universal.
Enquanto LUCA se reproduzia, os genes eram copiados e copiados,
e copiados e copiados,
às vezes com erros — eles se transformavam.
Com o tempo, isso produziu cada um
dos bilhões de espécies de vida na Terra.
Algumas adotaram a reprodução sexual,
combinando genes de indivíduos,
e em conjunto, as formas de vida melhor adaptadas prosperaram.
Isto é evolução. Copiar, transformar e combinar.
E a cultura evolui de modo semelhante,
mas os elementos não são genes, são "memes" —
ideias, comportamentos, habilidades.
Memes são copiados, transformados e combinados.
E as ideias dominantes do nosso tempo
são os memes que se espalham mais.
Isto é evolução social.
Copiar, transformar e combinar.
É como somos, é como vivemos,
e é claro, é como criamos.
Nossas novas ideias evoluem das antigas.
Mas o nosso sistema de leis não reconhece
a natureza derivante da criatividade.
Ao contrário, ideias são consideradas como propriedade,
como algo único e original
com limites distintos.
Mas as ideias não são tão arrumadinhas.
Elas são sobrepostas, entrelaçadas, emaranhadas.
E, quando o sistema entra em conflito com a realidade,
o sistema começa a falhar.
Tudo é um Remix
Parte 4 Falha de Sistema
Durante quase toda a nossa história
as ideias eram livres.
As obras de Shakespeare, Gutenberg,
e Rembrandt podiam ser copiadas abertamente
e recriadas.
Mas o crescente domínio da economia de mercado,
onde os produtos do nosso trabalho intelectual
são comprados e vendidos,
produziu um indesejado efeito colateral.
Digamos que alguém inventa uma lâmpada de luz melhor.
O seu preço precisa cobrir não só o custo de produção,
mas também o custo de inventar a coisa, em primeiro lugar.
Agora digamos que um concorrente começa a fabricar uma cópia competitiva.
O concorrente não precisa cobrir os custos de desenvolvimento,
então a sua versão pode ser mais barata.
Como resultado:
criações originais não conseguem competir com o preço das cópias.
Nos Estados Unidos, a introdução dos direitos autorais e patentes
tinha como objetivo tratar desse desequilíbrio.
Direitos autorais cobriam produções de mídia;
patentes cobriam invenções.
Ambas visavam encorajar a criação
e a proliferação de novas ideias ao proporcionar um breve
e limitado período de exclusividade,
um período em que mais ninguém
podia copiar seu trabalho.
Isto dava aos criadores um tempo para recuperar o seu investimento
e obter um lucro.
Depois disso, o trabalho entraria no domínio público,
onde poderia se difundir amplamente
e ser livremente recriado.
E era este o objetivo:
um domínio público robusto,
um banco acessível de ideias, produtos,
arte e entretenimento ao alcance de todos.
A crença principal estava no bem comum,
o que beneficiaria todos.
Mas com o tempo, este princípio se transformou em algo bem diferente.
Pensadores influentes propuseram que ideias eram uma forma de propriedade,
e essa convicção eventualmente rendeu um novo termo
propriedade intelectual.
Este foi um meme que se multiplicou amplamente,
em parte graças a um capricho da psicologia humana
conhecido por Aversão à Perda.
Em poucas palavras,
detestamos perder o que temos.
As pessoas tendem a pôr um valor muito mais alto nas perdas
do que nos ganhos.
Assim os benefícios que obtemos ao copiar o trabalho dos outros
não nos causa uma grande impressão,
mas quando são as nossas ideias sendo copiadas,
entendemos isso como uma perda e nos tornamos possessivos.
Por exemplo, a Disney fez uso extensivo do domínio público.
Histórias como Branca de Neve, Pinóquio
e Alice no País das Maravilhas
todas foram retiradas do domínio público.
Mas quando chegou a hora dos direitos autorais dos primeiros filmes Disney expirarem,
eles intercederam para que o prazo dos direitos autorais
fosse extendido.
O artista Shepard Fairey tem usado frequentemente
artes existentes em seus trabalhos.
Esta prática veio a público quando ele foi processado pela imprensa estadunidense
por basear seu famoso poster Obama Hope
numa foto da imprensa.
Não obstante, quando suas imagens
foram usadas numa obra por Baxter Orr,
Fairey ameaçou processar.
E finalmente, Steve Jobs algumas vezes
se orgulhava da história da Apple de copiar.
"Nós nunca tivemos pudor
em roubar grandes ideias."
Mas ele nutria profundos rancores contra
quem se atrevesse a copiar a Apple.
"Vou destruir o Android,
porque é um produto roubado.
Estou disposto a entrar numa guerra termonuclear por isto."
Quando copiamos, justificamos.
Quando outros copiam, abominamos.
A maioria de nós não tem problemas com o ato de copiar
desde que sejamos nós os que copiam.
Assim, cegos quanto à nossa própria imitação,
e impulsionados pela fé nos mercados e na propriedade,
a propriedade intelectual cresceu para além do seu âmbito inicial,
com interpretações mais amplas de leis existentes,
nova legislação,
novas áreas de cobertura
e recompensas atrativas.
Em 1981, George Harrison perdeu 1,5 milhões de dólares
em um processo por "inconscientemente" copiar o sucesso doo-wop
"He's so Fine"
na sua balada "My Sweet Lord."
Antes disto, muitas canções soavam parecidas com outras canções
sem acabarem nos tribunais.
Ray Charles criou o protótipo da musica soul quando baseou "I Got a Woman"
na canção gospel "It Must be Jesus."
A partir do final dos anos 1990,
uma nova série de leis de direitos autorais e regulamentos começaram a ser introduzidos
e muitos mais estão por vir.
Os mais ambiciosos na abrangência são os acordos comerciais.
Porque eles são acordos, e não leis,
podem ser negociados em segredo,
sem participação do público nem aprovação do congresso.
Em 2011, o ACTA foi assinado pelo Presidente Obama,
e o Acordo de Parceria Transpacífica,
atualmente sendo escrito em segredo,
almeja espalhar ainda mais o estilo estadunidense de protecionismo
pelo mundo.
Duzentos anos mais cedo.
É claro que, quando os próprios Estados Unidos eram uma economia em desenvolvimento,
recusavam-se a assinar tratados
e não tinham qualquer proteção para autores estrangeiros.
Charles Dickens reclamou notoriamente do agitado mercado de pirataria de livros nos EUA,
referindo-se a isso como "uma coisa horrível que livreiros sem escrúpulos enriqueçam."
A cobertura das patentes passou de invenções físicas
para virtuais - mais notável: de software.
Mas essa não é uma transição natural.
Uma patente é um esquema detalhado de como se fazer uma invenção.
As patentes de software são mais como uma descrição vaga de como algo seria
se fosse realmente inventado.
E as patentes de software são escritas na linguagem mais ampla possível
para obter a proteção mais ampla possível.
A indefinição desses termos pode por vezes alcançar níveis absurdos.
Por exemplo, "máquina produtora de informação,"
que cobre qualquer aparelho computacional,
ou "objeto material", que cobre praticamente qualquer coisa.
A imprecisão dos limites das patentes de software
tornou a indústria de smartphones numa grande guerra territorial.
62% de todos os processos de patentes são agora sobre software.
A perda estimada de riqueza é de meio trilhão de dólares.
O alcance crescente da propriedade intelectual
introduziu cada vez mais possibilidades
para litígios oportunísticos — processar para ganhar uns trocos.
Duas novas espécies evoluíram deste modelo de negócio de ações judiciais:
trolls de "samples" e trolls de patentes.
Eles adquirem uma biblioteca de direitos de propriedade intelectual,
depois entram em litígio para obter lucro.
E porque os custos de defesa legal são centenas de milhares de dólares
em casos de direitos autorais, e milhões em patentes,
seus alvos são altamente motivados
a chegar a um acordo fora do tribunal.
O troll de "samples" mais famoso
é a Bridgeport Music,
que já apresentou centenas de ações judiciais.
Em 2005, ganharam uma influente decisão de tribunal
sobre este "sample" de dois segundos.
E é isto. E o "sample" não só era curto,
como era praticamente irreconhecível.
Esse veredito significa essencialmente que qualquer tipo de sampling,
não importando quão pequeno seja, é ilegal.
As colagens musicais baseadas em samples da idade de ouro do hip-hop
são agora impossivelmente caras de criar.
Quanto aos trolls de patentes, são encontrados habitualmente
no território conturbado do software.
E talvez o caso mais inexplicável
seja o de Paul Allen.
Ele é um dos fundadores da Microsoft,
é bilionário,
é um estimado filantropo que se comprometeu a ceder muito de sua fortuna.
E ele afirma que características básicas da web
como os links relacionados, alertas e recomendações
foram inventadas pela sua empresa há muito extinta.
Assim, o auto-proclamado "homem das ideias"
processou quase todo o Vale do Silício em 2010.
E fez isso apesar de não ter falta nem de fama nem de fortuna.
Recapitulando, o quadro completo é o seguinte:
Acreditamos que as ideias são propriedade
e somos excessivamente possessivos
quando sentimos que essa propriedade nos pertence.
Nossas leis apoiam então esta tendência com proteções cada vez mais abrangentes
e grandes recompensas.
Enquanto isso, enormes custos legais encorajam os réus a pagar
e entrar em acordos fora dos tribunais.
É um cenário desanimador,
e que levanta a questão:
e agora?
A crença na propriedade intelectual
se tornou tão dominante
que tem empurrado a intenção original dos direitos autorais e patentes
para fora da consciência pública.
Mas o seu propósito original continua mesmo à nossa frente.
A lei de direitos autorais de 1790 é entitulada
"lei para o incentivo da aprendizagem".
A Lei de Patentes é "para promover o progresso das Artes úteis."
Os direitos exclusivos que estas leis introduziram
foram um compromisso para um propósito maior.
A intenção era melhorar a vida de todos
incentivando a criatividade
e produzindo um domínio público rico
uma coleção de conhecimento partilhado,
aberta a todos.
Mas os próprios direitos exclusivos
acabaram por se tornar o mais importante
e por isso foram reforçados e expandidos.
E o resultado não tem sido mais progresso ou mais aprendizagem,
tem sido mais combates e mais abusos.
Vivemos numa época com problemas assustadores.
Precisamos das melhores ideias possíveis,
precisamos delas agora,
precisamos que elas se espalhem rapidamente.
O bem comum é um meme que foi esmagado pela propriedade intelectual.
É necessário espalhá-lo novamente.
Se este meme prosperar,
nossas leis, nossas normas, nossa sociedade,
todos se transformarão.
Isso é evolução social
e não depende de governos
ou de corporações ou de advogados.
Depende de nós.
Legenda e Sincronia: Marcelo De Franceschi
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