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Original subtitles

ESTE FILME É BASEADO EM FATOS.

POR MOTIVOS LEGAIS, OS PERSONAGENS SÃO FICTÍCIOS.

QUALQUER SEMELHANÇA É PURA COINCIDÊNCIA.

QUALQUER SEMELHANÇA É UMA PUTA COINCIDÊNCIA.

Meu nome é Iván Márquez.

Nasci em Vallecas e, há alguns dias, completei 30 anos.

O que faz um cara de Vallecas em um contêiner

que viajou da Espanha até Hong Kong

com um bilhão e 550 milhões de euros?

Um bilhão e 550 milhões.

E a minha comissão como entregador era de 3%.

Vocês sabem quanto é 3% de toda essa grana?

O ano era 2010, e eu tava no meu melhor momento.

A vida pode ser maravilhosa.

Mesmo que sempre tenha alguém disposto a te foder.

O ENTREGADOR

Boa tarde.

Muito obrigado.

CAMPO DE FUTEBOL DE VALLECAS

MORADIAS EM CONSTRUÇÃO

DAMOS SINAL VERDE PARA OS SEUS SONHOS FÁCIL, RÁPIDO, SEGURO

Os argentinos, cada vez...

Acredita que vão indenizar só alguns, esses filhos da puta? Hein?

Não vai dar certo.

O Estado, por sua parte... - Oi.

Cara, era só o que faltava.

O rei do mambo.

Empresas pequenas e privadas sobreviviam sonegando impostos.

Como você tá, filho? Como foi seu dia?

- Foi muito bom. - Me conta.

Sim. Consegui mil pesetas de gorjeta.

Que bom.

Mas aqui você também teria ganhado isso. Não começa.

A última medida... - Teu pai sente sua falta.

Claro que eles precisam roubar os supermercados e todo o resto.

Ah, não fode...

Eu sei.

Só que eu tenho outros planos.

É. Isso é o que mais chateia ele.

Argentina!

Teve uma época que meu pai era meu herói.

BANCO DE MADRI

Nunca vou esquecer o dia que fui com ele pedir o empréstimo pra montar

o salão de casamentos e festas que ele tinha sonhado a vida inteira.

Era o ano de 92.

Sim, o das Olimpíadas de Barcelona e da Expo de Sevilha.

Um ano de vacas gordas.

Um de chouriço e outro de torresmo. Um vinho da casa?

E o meu pai soube aproveitar.

Até que chegaram as vacas magras...

a crise de 93.

Uma dívida pública de trilhões de pesetas.

Uma queda de 25%.

Podem mandar a polícia, eu tô cagando!

Podem vir atrás de mim!

Que venham e me prendam! Eles que vão à merda!

Só lhe resta uma saída honrosa.

Olha pra ele. Olha! Pode ir, Sr. González.

São uma quadrilha de bandidos. Olha pra eles, só sabem roubar.

São uns ladrões, caralho. Eles são uns ladrões.

Entram uns, roubam,

enchem o bolso de dinheiro e voltam a roubar.

E a confiança dos cidadãos...

Bando de filho da puta!

Gente, atenção. Esse é o business do ano.

Lá vem... Qual é o plano?

Compramos um apartamento que tá uma merda.

Daí nós reformamos. Quem vai reformar?

- Você e seu primo, que são pedreiros. - Ah, tá...

E, assim que estiver reformado, nós revendemos e aí dividimos o lucro.

Você tá viajando. - Por quê?

Você sempre com seus negócios... - Vocês não viram os preços?

Tá tudo subindo um absurdo. É grana garantida.

E de onde a gente vai tirar a porra do dinheiro?

Dos bancos.

Simples assim!

Os bancos dão crédito pra Deus e o mundo.

Sei lá, cara... Eu tô fugindo de encrenca.

Eu também.

Escuta aqui, quanto é 50 euros? Deixa eu ver.

- Eu pago em pesetas. Ainda tenho. - São dez euros pra cada um.

Ou... Calcula aí.

- 1.660 pesetas. - Eita, estão roubando a gente!

2002.

O ano que nós passamos de peseta pra euro.

Sem dúvida, uma das maiores fraudes da história.

Cara, olha o Sr. Linares. Ele tá chumbado.

Quem é esse?

É sério? Pô, ele é de Bruxelas, do Parlamento.

Nunca fui o mais inteligente da sala, mas tenho umas ideias.

Deixa comigo.

Menino, dá aqui a chave. Dá a chave.

- Não prefere que eu chame um táxi? - Que táxi?

Eu tô muito bem. Anda, tenho que estar em Bruxelas às 9h.

Posso te levar pro aeroporto.

Ué, aeroporto? Mas é...

- Cuidado! - Faz 20 anos que não entro num avião.

Não tá em condição de dirigir. Vamos, levanta.

Levanta. Isso.

Me dá a chave, vai.

Olha, se me der 300 euros, eu mesmo te levo até Bruxelas.

Se a gente chegar a tempo de eu tomar banho,

eu te dou 500.

Fechado.

BRUXELAS

- Você tá atrasado. - É, me desculpa.

- Quem é ele? - Não interessa.

Você tá atrasado de novo. É a última vez, você entendeu?

Entra!

Toma aqui.

Por que 300 se eu vim a 180?

Porque não deu tempo de eu tomar banho, né?

Não reclama. Pega seu ônibus e vai se foder longe daqui.

Sabe aquele momento na vida em que tudo pode mudar pra sempre?

Então, esse foi o meu.

Esse velho é um desastre.

Olha, não sei em que consiste o seu negócio, mas...

eu podia fazer muito melhor.

Sabia que ele tá roubando vocês?

Tem certeza disso?

Cem por cento.

Espera aqui.

Ele tem razão.

Fomos roubados.

Você tem razão.

- Como você se chama? - Iván Márquez.

E o que faz da vida?

Gosto muito de dirigir.

E eu sou de confiança.

Ao contrário desse idiota.

O que acha de ganhar dez mil euros?

Eu quero.

O babaca do Linares era um puta de um idiota.

E eu sou um cara muito curioso.

E adoro dinheiro.

- Bom dia. - Bom dia.

Feliz aniversário, filha.

- Gostou? - Eu adorei.

Ei!

Olá!

Desde quando você trabalha pra Anne?

É a minha primeira viagem.

Carabanchel.

- Vallecas. - Sim, Vallecas.

Meu primeiro negócio foi uma loja de xérox em Puente de Vallecas.

Pelo visto deu muito certo esse negócio.

Pra dar certo você tem que ser esperto.

Olha, no ano de 95, apareceu um jornalista na minha loja.

Ele trouxe um dossiê pra fazer cópia.

Eu vi do que se tratava, mas não disse nada.

Nessa mesma tarde,

eu fui até o Conselho de Urbanismo e denunciei o que estava pra acontecer.

O cara não acreditava.

Ele nem me conhecia, mas ali estava eu, dando uma informação que podia salvá-lo.

Foi assim que eu ganhei a confiança dele.

Essas pessoas que você vê aqui...

todas confiam em mim.

Porque a confiança é o mais importante.

Eu posso confiar em você?

Pode, senhor.

Menino, a fortuna sorri para os que são sérios,

discretos e trabalhadores.

O senhor acaba de me descrever.

Gostou do cavalo?

É uma égua.

Dez mil euros pra ir e voltar de Bruxelas a Madri.

O trampo do século.

Mas as coisas nunca são tão simples.

Boa noite. Polícia.

Documento do veículo? Eu sou...

Francês? Holandês?

Inglês?

Espanhol? - Sim.

- Tudo bem. Documento, por favor. - Sim.

Muito bem. O carro é seu?

Não. Não, não. É de uma amiga.

Abra o seu porta-malas.

Por quê?

O porta-malas, por favor.

O dinheiro também é da sua amiga? Não. Não, é...

Eu acabei de vender o meu apartamento em Madri

porque quero montar um negócio aqui em Bruxelas.

Hum... E por que tá andando com dinheiro?

Não confia no banco?

Complicado, né? O senhor não viu a Argentina?

Os bancos tão roubando geral.

Eu vou embora. Agora mesmo.

Ou eu ligo pra porra do consulado espanhol.

Relaxa, estamos indo.

Ué? Tão fácil?

Não...

Esses idiotas estavam me testando.

Foi aí que eu me dei conta

de que eu tava me metendo numa coisa muito pesada.

- Exageraram um pouquinho? - Sim.

Esses policiais trabalham pra nossa organização.

É, mas pensei que confiassem em mim.

Agora 100%.

Mais um pequeno extra pra você comprar umas roupas.

A imagem é importante.

Precisamos comemorar, né?

Merci, Antoine.

Mezcal com a larva.

Hum...

Eu vivi dois anos no México.

Meus pais eram diplomatas.

Eu passei metade da vida pulando de um lugar pra outro.

Já eu nunca tinha saído de Vallecas.

Foi uma noite mágica.

Como assim? - Sem mais apostas.

Aí!

Tudo no 23.

- É sério mesmo? - Quem não arrisca, não petisca.

Vamos, vamos...

Vinte e três. - Isso!

Porra... E como foi mágica!

Iván, quero te apresentar o François, meu marido.

François Letissier.

Filho de um traficante de diamantes,

agente de câmbio, intermediário do tráfico da fronteira

e um grande filho da puta.

François, esse é o Iván. Aquele jovem que eu te falei.

Vem.

A partir desse dia, eu virei o entregador belga.

Ganhava uma puta grana, dirigia carros de luxo,

e o trabalho era bem simples, na verdade.

Francisco Escámez. Paco, pros amigos.

Ele me entregava as malinhas de dinheiro que eu devia levar pra Bélgica.

Por que pra Bélgica?

Porque é um dos paraísos do tráfico de diamantes...

porque é um dos países

onde mais se realizam operações bancárias no mundo

e porque só tem dois inspetores

pra controlar todo o sistema bancário do país.

Eles simulavam uma compra e venda de diamantes pra lavar o dinheiro,

assim podiam enviar a grana pros nossos clientes na Suíça.

O dinheiro sujo já virava dinheiro limpo.

Mas de onde saía todo esse dinheiro?

Uma.

O Paco Escámez ganhou o apelido de Mr. 3%.

Ele era o cabo de ligação

entre a organização belga e os clientes na Espanha.

Esse maluco vivia no meio de empresários, banqueiros, políticos, construtores...

E todos tinham uma coisa em comum.

Uns requalificavam os terrenos públicos e aprovavam planos de urbanismo.

Outros concediam empréstimos a juros baixíssimos.

Outros construíam as urbanizações

e centros comerciais nos terrenos requalificados.

E eles todos repartiam os juros e as comissões entre todos.

E cobravam por fora, obviamente, pra não deixar rastro.

O Escámez recolhia esse dinheiro sujo

e mandava pra Bélgica em troca da sua comissão de 3%.

Mas quem bancava essa festa?

RESTITUIÇÃO

Os trouxas de sempre: os contribuintes.

Lourdes, tá acabando o presunto.

Já deu nome pra ela?

Pra sua égua.

Era um cavalo.

Hum. De montaria ou de salto?

É um garanhão.

Coincidência. Também sou. - Claro.

Querida, fala pro pessoal que, em meia hora, vamos sair outra vez.

Tá.

Nem nos seus sonhos.

- Trabalho e discrição. - Eu tô falando sério.

Pega.

Fora isso, um conselho:

vá a um dentista.

O sorriso é fundamental.

Tá.

GENEBRA 2003

Hum!

Pontualidade suíça.

- Por que estamos aqui? - Algumas coisas estão mudando.

A Bélgica já não está tão segura, e aqui nós temos o nosso sócio.

Quanto?

Catorze milhões.

Nossa... O milagre espanhol.

É uma loucura.

Até no meu bairro tão pedindo empréstimo pra comprar apartamento.

Quanto mais construções, mais dinheiro sujo.

Champagne.

- Você é um filho da puta. - Para com isso.

- É melhor a gente ir embora. - É melhor, vamos.

Por que vocês espanhóis gritam tanto?

Você não imagina o quanto vai te custar caro.

Aposto que não rola nada ali.

O que esse senhor leva na mala faz rolar tudo que ele quiser.

- Bom, vamos ao que nos interessa. - Tô com você.

Hum...

São 14 milhões.

Quero aprender.

Parfait.

- Bom dia, Sra. Duprees. - Bom dia.

Encantadora, como sempre.

Iván, te apresento ao nosso sócio, o Sr. Stoffel.

Como vai?

O Sr. Stoffel, com a ajuda de um engenheiro da computação,

tinha criado na sua filial o sistema perfeito

pra lavar o dinheiro e fazer uma contabilidade paralela.

O euro compra diamantes na Espanha,

nós convertemos em dólar e registramos aqui na Suíça.

A origem dos euros pode ser desconhecida,

e é pra isso que nós usamos os diamantes.

Posso garantir pros senhores que não corremos risco algum.

Ou seja, esses diamantes são pequenas pedras pros clientes,

mas uma grande oportunidade pro banco.

Dessa maneira, eles podiam fazer todo tipo de transações

sem que nem os seus chefes, nem as possíveis investigações judiciais

pudessem descobrir nada.

Em troca dos 3% do seu entregador, é claro.

BANCO DE GENEBRA TRANSFERÊNCIA €14.000.000

Não dá, mãe. Impossível, não posso.

Porque eu tô atolado de trabalho. Hum...

Sim... Quando eu tiver uma folga, eu vou aí e vejo vocês. Prometo.

Com o conselho de urbanismo...

Ô mãe, eu tenho que ir. Tá? Beijo, te amo. Tchau, tchau.

A construção de uma nova urbanização de luxo

em alguns terrenos municipais sem utilidade alguma.

É... Nada disso teria sido possível sem o apoio da minha mulher...

Como eu disse, nunca fui o mais inteligente da sala.

Mas eu sempre tive muitas ideias.

Filho da puta.

Eu só precisava ter um pouco de paciência.

Preciso agradecer a ela... - Pode parar com esse assunto.

Tá bom, eu vou parar.

Se continuar falando isso, eu vou avançar em você.

Já entendi.

Eu não quero saber. Só quero que você pare.

Por favor... [hesita] Um cafezinho.

Olha pra mim.

- É importante pra minha imagem. - Você é muito chato.

Você sabe que isso não significa nada!

Que foi, amigão? - Tranquilo.

Faz dias que você tá aqui. O que você quer? Hum?

Olha na mochila.

Aqui, no bolso pequeno.

Dez mil euros.

Se quiser, é tudo seu.

O que você quer fazer?

São só negócios, tá?

Tenho que instalar umas câmeras nesse quarto.

Beleza, mas eu instalo.

Você fica de vigia.

E não dá bobeira.

Podia pelo menos prestar atenção e tirar a aliança quando tá comigo.

- A gente conversa no quarto. - Caralho, eu não te aguento.

É... Vocês são espanhóis?

Não, japoneses, cariño.

É só uma coisinha. Vocês têm um cigarro?

Eu não achei onde comprar.

Tá. Você, com essa carinha, não tá acostumado a ouvir não.

- Quantos você quer? - Um. Um só tá bom.

Pega, gostosão.

- Muito obrigado. - Tá.

- Obrigado, aproveitem. - Vamos aproveitar muito, cariño.

Não tinha que dar tanta atenção. Ficou putinho?

É pra você ficar esperto.

Caralho!

Yannick.

Iván.

Já tinha feito amizade com algum espanhol?

Claro, cresci em Madri.

- Tá zoando. Onde? - Carabanchel.

Eu em Vallecas.

- Quanto vai arrancar deles com isso? - Não, eu não vou pedir grana.

Bom, vou, mas...

Mas de uma outra forma.

Precisa de um sócio?

Yannick também não era o mais inteligente da sala.

Mas tinha algumas qualidades.

Ele solucionava problemas sem ficar enrolando.

E aí, beleza?

Tinha amigos em todos os lugares.

Principalmente na noite de Madri.

Ele falava vários idiomas.

E era o rei da festa.

O rei da porra toda.

BRUXELAS

Tá bom, mãe, chega.

Tá, porra. Mas é que não... Eu não posso fazer outra coisa.

Tá.

Tá bom, tá, eu tento. Tchau, um beijo.

Porra...

Minha mãe não para de insistir pra eu ir ver ela.

Pode tirar quantos dias precisar.

Certeza? Vai ser só uma semana.

Não se preocupa.

A família é importante.

O que é que você acha?

Hum...

Esse relógio não fala nada de bom sobre você.

Por quê?

- Pra mim? - Isso.

O relógio e os sapatos dizem tudo sobre uma pessoa.

Feliz aniversário.

Eu adorei.

Obviamente, eu tinha coisas melhores pra fazer

do que ver meus pais.

Boa tarde, cavalheiro.

Boa tarde. O Sr. Ocaña?

Ah, sim. É aquele senhor ali.

Perfeito, obrigado.

A viagem foi perfeita. Vocês tinham que ver...

Licença, Sr. Ocaña?

Presente pro senhor. Acompanhe-nos, por favor.

Tá bom, vamos lá. Vamos ver o que o Aladim trouxe.

Nada como umas palavras em francês para caçar um bom caipira espanhol.

É... Tudo bem, vamos lá.

Tá bom.

Não vamos complicar a vida.

Isso é ilegal. Eu vou ter que chamar a polícia.

Tem certeza? - É claro.

Não acho que a sua mulher nem a sua filha queiram ver isso.

Nem nenhum dos seus amigos.

Vocês querem o quê? Informação.

Ah, são jornalistas. Trabalham pra quem, porra?

Não somos jornalistas.

Levamos e trazemos dinheiro da Espanha pra Suíça.

E queremos montar uma sucursal aqui em Marbella.

Mas precisamos de contatos.

É...

Deixa eu ver. Hum...

Eu vou explicar pra vocês como funciona tudo isso, pode ser?

É assim: ninguém, ninguém mesmo,

coloca as economias nas mãos de gente desconhecida.

Mas é que nós não vamos ser mais uns desconhecidos.

O senhor vai ajudar a gente a deixar de ser.

Marbella. Um povoado de pescadores e artesãos até os anos 60.

Até que chegaram os gringos.

O dinheiro.

O cimento.

E mais turistas, e mais dinheiro,

e mais cimento.

E depois chegou o jet set.

E depois... chegou ele.

Isso é tudo que eu tenho. Está sempre comigo porque eu não gasto.

Quando saio, é porque me convidam. É sempre assim.

É... O gordinho que tá ali é o conselheiro de Urbanismo.

O magrelinho, de Saneamento.

E o mais alto é construtor.

Chamam ele de "a pica insaciável".

Entenderam?

E agora o que acontece com esse vídeo, Iván?

Primeiro, me apresenta pra eles. Pra todos.

Podem vir.

Senhores, eu quero apresentar meu sobrinho Iván e seu sócio, Yannick.

Ele é um craque com números.

Desde pequeno, já ganhava de todo mundo no Monopoly.

Que filho da puta... Não é?

É...

Ainda que eu não soubesse até muito tempo depois,

aquela festa tava sendo vigiada pelos meus futuros amigos da UDEF,

a Unidade de Delinquência Econômica e Fiscal.

E esse menino, Lucía? Quem é esse menino?

Eu não faço a menor ideia, mas eu vou ficar em cima dele.

Aquela... - Continuando.

Foi a primeira vez que eu caí no radar do Comissário Roig.

O que nós oferecemos é discrição,

seriedade, segurança

e o mais importante de tudo: disponibilidade imediata do dinheiro.

Isso é muito bom,

mas já faz muito tempo que estamos trabalhando com o Escámez.

E nós nunca tivemos inconvenientes. E você... Bom, você sabe.

Não te conhecemos.

Claro, claro. Evidentemente, vocês não o conhecem.

É claro. Ou seja, esse menino não é conhecido de ninguém.

Por isso, a proposta que apresenta me parece mais prudente.

Bom, a discrição e a prudência do Sr. Escámez, pelo menos pra mim,

já não está tão acirrada como antes.

Tá bom, vamos lá: não me fodam.

Não me fodam, porque ele é meu sobrinho.

E é desconfiança. E eu coloco a minha mão no fogo por ele.

E não só a mão, mas também o dinheiro.

Ou seja... Deixa eu explicar:

preciso de alguém que me dê segurança porque o meu tá na reta, porra.

É isso, o meu tá na reta.

Depois todo mundo quer mamar na minha teta.

"Ocaña, preciso requalificar esse terreno." Tá bom.

"Ocaña, porque o Plano de Urbanismo..." Tá bom.

"Ocaña, porque o campinho de golfe..." É, é foda!

É foda. E o que mais vocês querem...?

Vocês sabem que eu nunca... Mas do meu jeito.

Com os meus funcionários, minha equipe, minha família.

Disponibilidade de dinheiro em menos de 24 horas.

Mais o que vocês querem, senhores? Isso é bom pra gente.

Isso é bom pra gente, caralho!

E pode melhorar, eu juro.

Mas tem que confiar, porra. Tem que confiar!

GENEBRA

Aquilo é uma mina de ouro.

E o Escámez? Ele não vai gostar que você tire seus clientes.

Não se preocupa com o Escámez. Tem dinheiro pra todo mundo.

Fora que não vamos incomodar os clientes dele. Prometo.

Você aprende muito rápido.

Eu tenho a melhor professora.

Você já vai? - Sim.

François tá me esperando. Noite de Natal em família.

Não vai.

Fica aqui comigo.

Você sempre aposta tão alto?

Eu quero tudo.

Eu sinto muito.

Eu tenho que ir.

Esse é pra você.

Esse também é pra você.

E esse é pro papai.

Você trabalha no que mesmo?

Com um pessoal de Bruxelas.

Importação e exportação.

E vocês importam o quê?

Nós temos uma cartela de clientes, administramos produtos financeiros.

Enfim, a gente mexe com dinheiro.

Que que é isso? Tá ficando igual aos políticos que passam na TV?

Fala muito e não diz nada.

Mas sabe que pra mim tá uma maravilha?

Você não viu o Porsche que tá lá embaixo? E olha esse relógio.

Não sei com o que está metido, filho,

mas dinheiro fácil...

Eu te digo, só vai te trazer problema.

É aí que você se engana, papai.

- O dinheiro é a solução dos problemas. - Tá achando que é quem?

Os espertos fazem as leis e se safam. Os espertinhos acabam na prisão.

Então eu prefiro acabar atrás das grades

do que acabar como você.

Passa o dia reclamando, brigando com a televisão!

Não me falta com o respeito!

Eu nunca roubei nada de ninguém. Eu trabalhei honestamente!

E do que isso adiantou? Do que isso adiantou, hein?

Pelo menos eu posso dormir tranquilo todas as noites.

Eu não tô interessado em dormir!

Eu prefiro aproveitar a vida.

- Um dia você vai se arrepender. - Tá bom, já chega. Acabou!

Vou deitar.

Ele me tira do sério!

Eu adorei, filho. Muito obrigada.

Olha só quem tá por aqui! - Como é que tá?

E esse carro?

Cê viu?

- E aí? - Como você tá, Iván?

Ou melhor, Dr. Iván!

Puta mudança, hein? Que é isso...

Como cês tão?

Aqui, no mesmo bairro, fazendo o de sempre.

O lance dos apês.

Pedimos empréstimos, compramos apartamentos,

reformamos tudo e vendemos muito mais caro.

É.

Sabia, porra! Me escutaram! Que bom.

É sua?

Evolução, hein?

HUESO CONSTRUÇÕES

Que bom, meu irmão.

Vacas gordas.

O cimento era a solução de todos os problemas,

e todos pareciam estar encantados.

Nem o maior atentado da história da Espanha,

nem a mudança de governo conseguiram mudar as coisas.

E garanto a vocês que o poder não vai me mudar.

O dinheiro sujo continuava circulando a todo vapor.

Ele se chama Iván Márquez.

Ele é natural de Madri, do bairro de Vallecas.

Trabalhava como manobrista em um clube de golfe.

Antecedentes?

Nada. Ele tá limpo.

O que é que um manobrista tem a ver com tudo isso?

Pelo visto, conquistou a confiança de Ocaña pra fazer negócios na região.

E sempre tá junto desse marroquino.

Sempre vai ter um manobrista esperto pra ganhar dinheiro fácil.

O que nós oferecemos é discrição,

segurança

e o fundamental: disponibilidade imediata.

A quantidade que precisarem em menos de 24 horas.

E suas identidades seguras.

- Oi. - Chechu, como está?

Igual o dinheiro de vocês.

Sobraram poucas vagas, tá? Mas fiquem à vontade.

Precisamos falar disso.

- Fazendo o que aqui? - Eu que te pergunto.

Hum... Você sabe, tô aqui.

Parece outra pessoa.

Muito obrigado. Você tá a mesma gata de sempre.

Meu pai disse que tá se saindo muito bem, não?

Sim. Decidi andar com as próprias pernas, e está sendo ótimo.

- Ele joga no Hércules, não é? - Foi comprado pelo Real Madrid.

Você só gosta da elite.

Cada um tem a sua mania.

- Agora eu também sou da elite. - Eu tô vendo.

Olá, Iván.

Que surpresa! Quanto tempo.

- Tudo bem? - Bem.

Eu tô vendo que arrumou os dentes. Ficou bom.

Olha, Francisco, eu posso explicar.

Não, não tem nada pra explicar. Isso é muito simples.

O dinheiro que vocês estão ganhando quem não está ganhando sou eu.

A lei da oferta e da procura está nítida, mas eu não gosto de concorrência.

Se meteu com os meus clientes.

Por isso, sugiro que fique atento às consequências.

Tudo bem?

Tudo perfeito. Vamos.

Esquece, Iván.

Essa patricinha só vai trazer problemas. Pega uma mina lá de onde a gente veio.

A gente veio da merda, Yannick. A única coisa boa de nascer lá...

- É saber a hora de mudar de vida. - Exato.

Eu não sei o que você vê nessa burguesinha aí.

Tudo.

Tá... Você sempre quer ter o que acha que não pode ter.

Tsc... Que babaca.

Ô, tá maluco?

O que foi? Ei, ei, ei!

Ei, ei, ei!

Ei!

Calma, calma, calma...

Sejam espertos. Sumam de Marbella.

Tá bem? Tô.

Cuidado, cuidado. Vamos.

A gente tinha passado do ponto.

Então agora a gente tinha que mudar de estratégia.

Eu preciso reconhecer que vocês têm culhão.

Como estão os machucados?

Melhores. Algum osso quebrado?

São as regras do jogo.

Nós sabemos.

Então posso saber o que ainda não ficou claro?

Nós não vamos sair de Marbella.

Mas, escuta, Sr. Francisco, a Costa do Sol é um puta paraíso.

Todo mundo sabe disso.

E sabemos que ninguém entra no Paraíso sem a permissão de São Pedro.

Continuem.

A gente não vai abordar seus clientes. Eles são seus.

Muito bem, continuem.

E, dos clientes que fizermos, damos ao senhor 10%.

- 30%. - 20.

Trinta nos dois primeiros anos, e daí vinte depois. Pode ser?

Feito.

São Pedro manda no paraíso.

Boa jogada, moleque.

Só mais uma coisa.

Não se aproxima da minha filha.

A vida pode ser maravilhosa.

E começa tudo de novo.

E começa outra vez.

Esquece, gatona. Hoje não fica duro.

O que tá fazendo aqui?

Precisamos conversar.

Desculpa a bagunça.

Fizemos uma festinha ontem à noite.

Que que foi?

Eu não sou ninguém pra te dizer o que deve ou não deve fazer,

mas acho que devia desacelerar um pouco.

Isso tudo tá começando a interferir nos nossos negócios.

Não me fode, Anne. Não me fode!

Tô fazendo ganharem mais grana que todo mundo.

Deviam erguer um monumento pra mim.

Então não enche meu saco!

Me desculpa, tá? Desculpa.

Iván...

O dinheiro é a melhor coisa do mundo,

mas também pode ser muito perigoso.

E o que eu faço?

Começo a economizar?

Compro uma casa? Encontro uma namorada?

François recebeu uma informação.

Tem uma investigação acontecendo.

A polícia vai pegar o Escámez,

mas todos nós que estamos em volta dele podemos ter problemas.

Caralho!

Temos que ter cuidado com os nossos negócios, Iván.

Hum?

Obrigado por me avisar.

Você já vai?

Eu tenho que ir.

Fica um pouco.

Se cuida.

Ah, caralho. Onde tão essas merdas de microfone?

Ah, porra. Deixa eu ver.

Filhos da puta.

O que tá fazendo? Vai quebrar o pescoço.

- Um carro cinza tá seguindo a gente. - Que carro?

Não vira.

Tô falando que ele tá seguindo a gente. Que filho da puta...

Você tá paranoico, Iván.

- Eu não tô paranoico. - Você está paranoico, sim.

Iván, a gente foi convidado pro evento do ano.

Hum? O crème de la crème. Fica de boa, mano! Beleza?

Tá.

A festa no Mercado Central foi o evento do ano.

Custou uma fortuna.

Mas o que importa um pouco mais de dinheiro público

em troca de colocar a Costa Do Sol no mapa?

Vamos ver se a gente se encontra essa semana, Iván.

- É só marcar. - Iván, corre aqui.

Quero te apresentar... Como tá, Yannick?

É, olha, eu quero te apresentar à Carmen, vice-prefeita de Málaga. Tá bom?

Manolo, do Meio Ambiente, e Antonio, da Indústria de Sevilha.

E a mulher dele. É... Joana? Joana.

Hein? Esse é o meu menino. Tá bom, é o seguinte...

Olha! Tá parecendo até coisa do destino, não?

Nossa, você não para.

- A gente tem que ser amigo até do diabo. - É mesmo?

Se ele tiver grana, sim.

Cê vai sair comigo quando?

Meu pai me mataria.

Impossível, ele te adora.

Verdade. Ele te mataria.

Tá aí uma coisa que eu discordo.

Eu tô fazendo ele ganhar uma fortuna.

Hum!

Então me dá a sua mão.

Me liga qualquer dia

e me leva pra jantar em um lugar especial.

A vida sorriu pra mim, amigo.

- Esqueceu do pai dela? - O quê?

"O quê"? Não tá lembrado o que o pai dela falou pra você?

Sim, perfeitamente.

Não me fode, Iván. Que é? Quer outra visitinha dele?

Olha quem tá aí.

Hein? Quem tinha razão?

- Eu vou falar com eles. - Aonde você vai?

Iván.

Quero falar com o chefe de vocês.

Seguimos vocês, tá?

Comissário.

Bom dia. Podem vir aqui, por favor. E muito obrigado pela disponibilidade.

Você é o Iván e você é o Yannick.

Eu sou o Comissário Manuel Roig. Estou à frente dessa investigação.

- O motivo da mesma... - Peraí, que investigação?

É claro, vocês não têm a menor ideia do que se trata.

Não. Na verdade, não. Não sabemos de nada.

E não sei por que estão nos seguindo.

Eu te explico. Estão sendo seguidos porque nós temos certeza

que vocês trabalham com Ocaña e com Escámez.

E qual é o problema?

Insulta minha inteligência me tratando que nem um imbecil.

Sabem perfeitamente o que eles fazem.

Não. - Não?

A gente não sabe. Hum...

Olha, o nosso lance tá ligado a relações públicas.

Trabalhamos com organização de festas, produção de eventos...

- Lidamos com muitas pessoas. - É uma pena o que estão fazendo.

No negócio dessa gente, os peões, igual vocês, acabam presos,

e eles, os patrões, saem de férias.

Nesse caso, e unicamente nesse momento,

as coisas podem ser de outra maneira.

Se vocês me ajudarem, eu poderei ajudar vocês dois.

Somos entregadores.

Levamos malas daqui pra lá, mas não sabemos o que tem nelas.

- Não é assunto nosso. - Vou te explicar, Iván.

São entregadores no tráfico de fronteiras, na lavagem de dinheiro.

Isso transforma vocês numa organização criminosa,

o que tem reclusão de oito a dez anos de prisão.

E vocês cumpririam pelo menos um terço dessa pena.

Você tem alguma ideia do que é passar

três anos em uma cela?

Ou vocês, os peões...

ou os patrões.

Vocês que decidem, porque se eu for decidir...

todos vocês vão presos.

- O que quer? - Mas que caralho você acha que eu quero?

E o que a gente ganha com isso?

Uma segunda oportunidade, e eu aconselho que você aproveite.

DELEGACIA DE POLÍCIA

Não fica pensando nisso, tá?

- Eram eles ou nós dois. - A gente tá fodido, Iván.

Pensa comigo. Fodidos por quê?

Você não sacou que, quando pegarem o filho da puta do Escámez,

o negócio é nosso?

E quando ele souber que nós deduramos, vai matar a gente.

- Ele não tem como saber. - Não tá percebendo, não, Iván?

Se eles prendem ele e a gente não, o que acha que ele vai pensar? Hum?

Boa sorte, sócio.

Me dá um abraço, caralho. Um abraço.

Sorte pra você também, hein?

Se cuida.

A única solução era sair do país.

O que me faltava era uma boa desculpa.

Alô? - Leti?

Cê gosta de surpresas?

Eu adoro.

Pega seu passaporte.

Uau.

Isso é sério?

Você é mesmo profissional, hein?

É que... Olha, desculpa.

Eu não vi as suas ligações. Foi mal mesmo.

Em Paris.

A Leticia contou pro pai dela que tava comigo.

Falou pra ele que já era grandinha pra tomar suas próprias decisões

e que nós íamos viajar pela Europa durante umas semanas.

A desculpa perfeita pra que o Escámez não suspeitasse

quando prendessem ele e eu não.

- Ele tá muito puto? - Um pouco.

Mas já falei pra ele que sou bem grandinha pra tomar minhas próprias decisões.

- Isso é pra mim? - Abre logo.

Gostou?

Hum...

Eu amei!

É super, superbonito.

Voos, hotéis, presentes...

Aquela jogada tava saindo bem cara.

BRUXELAS

O dinheiro voava.

Vamos! Isso!

Mas foda-se. Pra que serve ter dinheiro se não é pra gastar?

Iván?

Que alegria!

Digo o mesmo.

E você deve ser a Leticia.

Uhum. Muito prazer.

Formam um belo casal. Obrigado.

Você acha?

Como está o Sr. Francisco?

No trabalho, como sempre.

Ele deve estar muito feliz. Com o relacionamento de vocês.

Uhum.

- Vamos, amor? - Sim.

O que ele faz aqui? - Que gatona.

Ela mais nova devia ser bonitona, não?

Ela ainda é bonitona.

A gente tava vivendo muito bem.

E eu só tinha que esperar que tudo explodisse.

E, por fim, o Comissário Roig coloca em prática a Operação Malaya,

que desmascarou a corrupção urbanística da Espanha,

começando pelo município de Marbella.

Dezenas de presos e centenas de milhões de bens interditados.

Nesses 12 anos que governaram, os guindastes encheram

a paisagem de Marbella.

Treze mil moradias novas por ano que,

segundo a oposição e alguns empresários,

não estavam sendo acompanhadas de serviços e infraestruturas suficientes

e que estão ajudando a colapsar

um dos centros turísticos mais importantes de toda Espanha.

Leti.

Calma.

Eu tenho que voltar pra Madri.

Juan Antonio Roca foi detido por uma equipe...

Eu não posso te acompanhar. Você sabe, né?

É, eu sei.

A partir de Madri a estratégia para investigar

tanto a estrutura do complô como o funcionamento do mesmo.

Estão detidos o então assessor de Urbanismo...

Se comporta, tá?

Juan Antonio Roca,

a prefeita, Sol Yagüe,

e a vice-prefeita, Isabel García Marcos.

A trama da Operação Malaya gera todo tipo de pergunta

sobre como é possível montar uma estrutura desse porte...

Com a Leticia de volta pra casa, eu já podia voltar pro jogo.

Agora era minha vez de subir a aposta.

Eu sei. Isso do Escámez foi muito foda. Mas tá absolutamente tudo bem.

Porque eu posso tomar conta dos clientes dele.

Até porque eu conheço todos.

Aí eu guardo pra ele a parte que seria dele e pronto.

O que acha dele cuidar dos clientes do Escámez enquanto ele tá na prisão?

O peão tá querendo virar rei.

Não é isso.

A gente vai ter que desaparecer por um tempo, Iván.

Até que as coisas se acalmem.

E o que acontece com todo o dinheiro esperando para ser entregue na Suíça?

Meu amigo, a economia anda em círculos. A festa acabou, garoto.

Agora temos que recolher os ganhos

e esperar que a tormenta passe.

Isso quer dizer que o pior ainda não passou.

A bolha ainda vai estourar, Iván.

A Europa vai fechar a torneira enquanto durar a crise.

Que crise? Estão construindo como nunca, os bancos não param de dar empréstimo.

Justamente.

Precisamos desaparecer por um tempo, Iván.

Tem que me escutar. Pois é.

Talvez eu tivesse mesmo que ter escutado ela.

Mas eu ainda tinha um pouco de dinheiro e já podia voltar pra Madri,

então eu liguei pro Yannick.

O rei da festa!

E a festa durou enquanto durou a grana.

Que porra cê tá fazendo em Madri?

Idiota.

Oi, mãe.

Iván, seu pai morreu.

Sem trabalho, sem dinheiro,

sem cocaína

e com o peso na consciência de não ter me despedido do meu pai.

Eu só tinha uma solução: voltar pra casa.

Eu sinto muito, mãe.

Eu sinto muito mesmo.

Vou deixar você sozinho com ele.

Eles tinham razão. O pior ainda não tinha passado.

A economia espanhola entrou, nessa legislatura,

na Champions League da economia mundial.

A primeira grande crise do século 21.

A bolha imobiliária.

Lehman Brothers e toda essa merda.

As circunstâncias não terão uma consequência significativa

na evolução da economia espanhola.

Mas nos afetou. E muito.

Aí eu vou usar o banheiro no iate,

eu tô lá mijando, e penso:

"Que que é isso?" Um puta Miró.

Não! - Caramba!

De verdade. Um puta Miró decorando a parede.

Que doideira! - Outro nível!

Uhum.

Conta uma coisa, mano. E a Pantoja?

Conheceu? "Pan" o quê?

Hoje é a data do pagamento. Vai logo.

A Pantoja é superlegal. Sério. Tinha certeza!

E o Julián é foda.

Que foda! Você tem que escrever um livro, hein?

Quem sabe um dia... Tem que me colocar nele.

Todos nós. Um brinde.

Pro Iván, que voltou pra casa.

Seja sempre bem-vindo. Alegria te ver.

Hum...

- Sergio, me empresta o seu carro. - Pra quê? Aonde cê vai?

Coincidência, destino...

O que mais pode ser?

O importante é que meu instinto me dizia que ali tinha uma oportunidade de negócio,

e eu não podia deixar passar.

Se a gente voltar a te ver, eu quebro todos os seus ossos.

Você entendeu?

É claro que eu entendi.

Ele se chama Yao Ming.

Negociei com ele quando ele quis comprar uns terrenos em Marbella,

mas isso que você tá me contando é migalha pro Yao Ming.

Sabe quantas lojas de chineses tem em Madri?

Não, não... Migalhas.

O Yao Ming lida com uma montanha de dinheiro sujo,

mas a maior parte não sai daí.

E de onde sai?

De importação no atacado.

É. Na imigração, pra pagar menos impostos,

eles declaram um valor muito menor do que o real

pelos produtos que ele importa.

Mas o que acontece?

Como os fornecedores estão na China, ele tem que pagar o preço real, né?

- Hum. - É o seguinte.

Ele tem que mandar pra eles o restante do dinheiro em espécie.

E como eles fazem?

Do jeito antigo.

Ou eles levam com eles,

ou em malas com fundo falso,

ou colado no corpo,

ou em brinquedos, bonecas...

De vez em quando, eles são pegos. Mas, vamos ver, é igual com droga.

Enquanto eles pegam um, já passaram dez.

E chinês é o que não falta. Não é?

Tá bom. Olha só, presta atenção.

O Yao Ming é um cara ambicioso pra caralho. Igual você e eu.

E se você propuser um sistema melhor, ele vai te escutar com certeza.

Sabe o que eu tô querendo dizer?

Muito obrigado.

Iván, não esquece de mim.

Eu tenho que pagar a escola da minha filha e a hipoteca da casa.

Tá bem?

- Uhum. Fica tranquilo. - Ótimo.

Dinheiro sujo. As palavras mágicas.

GENEBRA

Iván.

Você tá com uma aparência maravilhosa.

Obrigado. Eu digo o mesmo.

Champagne?

É... Água.

É sério?

E como você está? O que fez todos esses meses?

Nada de especial.

E o que tem de tão importante que você quer me contar?

Quero te propor um negócio.

Olha, na Espanha, os chineses movimentam uma quantidade enorme de dinheiro sujo.

Uhum.

E levam pra China através de entregadores.

Entendi. Nossa, tá bom.

As coisas de fato mudaram.

Já não é tão fácil entrar com dinheiro na Suíça.

Tem muitos controles.

Fora que, com a crise,

agora o dinheiro viaja na direção contrária.

Os clientes querem o dinheiro em espécie,

e temos que levar esse dinheiro de volta pra Espanha.

Eu tenho a solução.

Vocês precisam...

A Anne precisava trazer dinheiro da Suíça pra Espanha,

e o Yao Ming precisava tirar.

A questão é que os nossos clientes

estão com todo o dinheiro deles preso na Suíça.

Portanto, a ideia é transferir o dinheiro até a China,

pras suas contas,

e você paga pra eles aqui na Espanha, em espécie.

E nós levaríamos o famoso 3% de comissão.

Como eu sei que não vão ficar com o meu dinheiro?

Passa o número da sua conta.

Passa pra ele.

Três milhões tá bom pra começar?

Três.

DADOS DA TRANSFERÊNCIA

EM PROCESSAMENTO...

TRANSFERÊNCIA RECEBIDA €3.000.000

Um negócio redondinho.

- Madame. - Mocinho.

Yannick!

Como você tá, meu irmãozinho? Tudo bem?

Não, não. Escuta, escuta. Me escuta você.

Eu descobri um negócio fodido.

Sim.

Olha, eu tô sentindo falta de um sócio. Você tá a fim ou não?

Beleza.

Boa noite. Boa noite.

Obrigado, senhor.

A vida pode ser maravilhosa,

mas sempre tem um cuzão disposto a te foder.

Olha só, que surpresa.

Paco.

Como vai? Bem, muito bem.

Enfim, estamos comemorando que o juiz foi afastado do caso.

Ah!

E vocês, como estão?

Ouvi rumores que estão lidando com chineses agora.

Caramba... As notícias voam!

Sim.

Tenham cuidado, hein? Chineses não são de confiança.

Mas também, hoje em dia, quem é de confiança?

Seis meses na prisão,

um ano e meio de liberdade condicional

e nenhuma visita, nenhuma ligação...

Paco.

Nós tivemos que desaparecer.

Claro. Eu também teria feito o mesmo.

Embora tenha uma coisa que eu não teria feito jamais.

Eu nunca teria delatado ninguém.

Cuzão! - Iván!

Quieto! Parado. Iván.

Viu?

Não dá pra esconder as nossas raízes por muito tempo.

Vamos embora. Sim.

Mas o Escámez não era o único cuzão que queria foder a minha vida.

Quem realmente me fodeu foi um cara que eu só tinha visto uma vez.

Falciani. O engenheiro da computação que trabalhava pro Stoffel.

Tá, eu já entendi!

Ele não deixou nenhum documento pra mim?

Quê? Qual o problema?

Esse filho da puta! Olha isso!

A "LISTA FALCIANI", UMA FRAUDE GIGANTESCA

Que que é isso? Quem é Falciani?

Ele filtrou uma lista de contas secretas de vários bancos

e lá estão todos os nossos clientes.

Entendi, fica calma. Você falou com o Stoffel?

Ele e François fugiram com todo o dinheiro.

Eles vão vir nos socorrer.

Iván.

A gente tem que desaparecer.

Obrigada.

Tsc... Mas que filho da puta!

Fora. Pra fora!

Aí, fora! Vamos!

Sai do carro! Vambora!

Não!

Não! Aqui, ó.

Entra aí. Vem! Fica quieto!

Vamos. Vamos!

Vai. Calma.

Aqui. Calma!

Por aqui.

Vambora! Sai.

Não façam nada com ela. Anne, fica tranquila, tá?

Senta aí.

Yao.

- Não me fode, cara. Que que é isso? - A polícia tá atrás da gente.

A gente não tem nada a ver com isso. Juro.

Eu tenho gente na polícia que me informa. Quero saber o que você falou pra eles.

Yao, nós somos amigos, porra.

Eu não falei nada com eles. Por que eu faria isso?

O problema é que, cedo ou tarde, eles vão te pegar, Iván.

E eu não posso permitir que você conte o que sabe.

Olha, se me pegarem, tanto faz, porque eu não vou falar nada.

Eles não vão tirar uma palavra de mim. A minha boca é um túmulo.

Claro, um túmulo. Como da última vez?

Já falei que tenho contatos na polícia.

Não, mas isso foi diferente, porra.

Tá bom? O Escámez é um grande filho da puta.

Era a única maneira de eu tirar ele do caminho.

E de tirar o seu da reta. Agora sou eu que tenho que tirar o meu.

Mata.

Não! Para, para, espera.

Um segundo, tá? Me escuta, Yao. O que você vai fazer com o seu dinheiro?

A polícia não vai demorar pra registrar tudo.

Você tem que tirar seu dinheiro da Espanha agora.

- A Suíça não é uma opção. - Sim, isso eu já sei.

Mas tem outros sistemas.

Olha.

Eu vou sair com o seu dinheiro do país.

Assim não tem que se preocupar nem com o dinheiro,

nem se a polícia me pegar.

Eu tô nas suas mãos.

Muito bem. Continua, me conta mais.

Pra grandes problemas,

grandes soluções.

Tem certeza?

É o único jeito de levar o dinheiro do Yao e de, ao mesmo tempo, sumir desse país.

Mas, olha,

sabe quanto é 3% de um bilhão e 550 milhões?

Sei.

Quarenta e seis ponto cinco.

O suficiente pra gente se aposentar depois.

Não somos desses que se aposentam.

É.

Mas umas férias não seriam nada mal, né?

Iván Marquez!

Iván Márquez, esse é um mandado internacional

emitido pelas autoridades espanholas.

Você está preso!

E acabou a festa.

Eu quero um advogado.

Mas é claro, e ainda tem mais.

Você está no seu direito, e a lei contempla você.

E, a essa altura do campeonato, vai ter um advogado conhecido e renomado.

Não é, Iván?

- O melhor. - Bom, você vai ter uma pena de...

aproximadamente 20 anos.

E, se ele for mesmo o melhor, isso cai para aproximadamente 15.

Vamos fazer um acordo.

Quando você estiver preso, e você vai,

lembra que teve a oportunidade pra fazer um acordo.

- Agora não dá mais. - Tá.

Um milhão de euros. Um milhão de euros em espécie.

Garante mesmo isso em dinheiro vivo?

Com certeza.

Você vai poder comprar uma casa,

um carro novo.

Mandar seus filhos pra estudar no exterior.

Qual é, comissário... É muito dinheiro mesmo.

Jamais eu vou conseguir ser como vocês. Nem entendo pra que tanta avareza.

Eu não preciso de tanto pra ser minimamente feliz.

O senhor tá falando igual ao meu pai.

Uma pessoa honrada, o seu pai. Mande lembranças pra ele.

Ele tá morto.

Tinha 60 anos e morreu.

Sem um puto no bolso e falando idiotices como o senhor.

Se pelo menos ele tivesse dinheiro, a vida dele teria sido muito diferente.

Mas a sua ainda pode ser.

Nós nunca vamos saber, Iván.

A não ser que eu ganhe na loteria. E, infelizmente, eu não jogo na loteria.

Em 48 horas, eu vou estar livre.

Falando de acordos,

como acha que conseguimos a informação sobre Hong Kong?

Com quem vocês falaram?

Com Escámez, não foi?

Ou com os chineses. Com quem falaram?

Nós oferecemos o amor ou a liberdade.

É mentira.

Não é verdade.

Não, não pode ser.

Não fica com essa cara. Você teria feito o mesmo.

JUIZADO

Pior que é verdade. Eu teria feito o mesmo.

Polícia! Vamos!

Oitenta prisões e 120 registros

é, no momento, o balanço da Operação Imperador,

contra uma rede que, em quatro anos,

conseguiu limpar até 1,2 bilhão de euros.

Os suspeitos em sua maioria são cidadãos de origem chinesa,

mas também tem espanhóis envolvidos, entre eles, quatro funcionários públicos.

Até onde sabemos, essa é possivelmente a maior operação...

E, no final, meu pai tinha razão mesmo.

Nós, espertinhos, acabamos na cadeia.

Se arrepende de alguma coisa?

Sim.

Sim, de muitas coisas.

Mas é que o dinheiro é como...

é como um vírus.

Uma vez que ele te infecta, é impossível se desfazer dele.

O dinheiro que, em grande parte, era público.

Com que poderíamos ter construído mais colégios, mais hospitais,

ter mais enfermeiras, ter mais médicos... Era dinheiro público.

Sim, mas é que o dinheiro corrompe.

E dinheiro pra caramba corrompe pra caramba.

Aqui, cada um que carregue sua cruz.

Muito obrigado.

O DESFALQUE AOS COFRES PÚBLICOS ULTRAPASSOU OS €9 BILHÕES

A "LISTA FALCIANI" REVELOU €1,8 BILHÃO "DUVIDOSOS" NA SUÍÇA

QUE PERTENCIAM A ESPANHÓIS

A ESPANHA PRECISOU DE €58 BILHÕES DE RESGATE DA UNIÃO EUROPEIA

A DÍVIDA PÚBLICA TRIPLICOU

PSOE E PP ACELERARAM UMA REFORMA CONSTITUINTE

PRIORIZANDO A QUITAÇÃO DA DÍVIDA

A Justiça é igual para todos.

ORDENS DE DESPEJO SE MULTIPLICARAM

OS CORTES NA SAÚDE E NA EDUCAÇÃO SE MANTÊM EM VIGOR ATÉ HOJE

Se foder, aguentar e se resignar.

O VALOR POUPADO PELO ESPANHOL CAIU E A DESIGUALDADE DISPAROU

O ENTREGADOR

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