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Não tem nada, de início.

Tem que arriscar.

Podem dizer o que quiserem.

Um assassinato, talvez?

Um bom começo para um suspense.

Bravo!

Um assassinato nem sempre está no começo.

Você tem razão.

Se começar com um assassinato, o que acontece?

Nós testemunhamos?

Não, não é bom ver.

Não podemos saber quem é o assassino.

A literatura é boa nisso.

Pode esconder alguns elementos.

Pode descrever o crime sem mostrar o rosto do assassino.

É como nos filmes.

A cena é escura ou você vê com os olhos do assassino.

-Uma câmera subjetiva? -Isso mesmo.

O que é isso? "Mastermind"? Falam que nem intelectuais.

-O que é câmera subjetiva? -Alguém pode explicar?

Quando a câmera está no lugar do personagem.

Você vê o que ele vê.

Obrigado.

Então, vemos o crime?

Um cadáver boiando no porto. Gostei disso.

Não é muito cadavérico.

Por quê?

-Ele pode ter se afogado. -Tudo bem.

Como podemos deixar claro que foi um crime?

Um corpo crivado de balas.

Sem a presença de arma. É óbvio que foi crime.

Uma rajada de AK-47.

Ninguém usaria isso para se matar.

É uma arma de guerra. Calibre 7.62...

-Parte o corpo em dois. -É sangue demais para mim.

Vai brincar de bonequinha.

Quem tem internet e TV em casa, vê coisas piores.

Eu não assisto.

Fala sério! Está tudo na internet.

Um amigo me adicionou em um vídeo onde uns caras do ISIS

-decapitavam pessoas. -Às vezes, vem sem título.

Já vi coisa pior.

Um vídeo com uma criança dançando funk.

-Como? -Rebolando, assim.

É uma dança.

O que isso tem a ver com o ISIS?

Essas coisas viralizam na web.

Essa dança é quase pornô.

-Você assiste porque quer. -Nem sempre.

Tive uma ideia...

O cadáver podia estar desfigurado.

Queimado com ácido. A testa derreteu.

Aí não podem identificar os olhos.

As bochechas derretidas, os dentes deslocados.

Tipo "Ghost Rider"?

Tudo bem.

Então, temos que imaginar toda a história.

Parece série americana.

-Com suspense! -Suspense?

Vamos precisar chamar os caras do CSI.

Uma história americana, então.

Como é em francês?

Como se diz mesmo?

-A perícia. -A perícia? Sério?

Chega de histórias de DNA. Não tem mais mistério.

-O quê? -Concordo.

-O que você sugere, então? -Não sei.

Gostei da vítima não ser identificada,

mas imagino algo mais psicológico.

-Psicológico? -Que linguagem refinada!

Os meninos não gostaram.

Vamos descobrindo aos poucos quem era a vítima.

Como você faria isso? Com flashbacks?

Pensei nisso... Um homem, no porto, à noite...

Está lá por algum motivo.

Onde? Algum local em particular?

É muito importante visualizar os lugares.

Ajuda a tornar a cena mais concreta.

Um estaleiro, talvez? É um cenário grandioso.

Representa a história de La Ciotat.

Pensei nisso logo.

É óbvio. Todo mundo pensou nisso. Não é muito original.

-Sinto muito, Bubacar. -Imaginei algo mais chique,

ou mais moderno, como uma marina.

Iates de caras bilionários...

Ou outro lugar: Boston, Washington, Nova Iorque,

-ou na América do Sul... -Por que não aqui? Olha em volta.

Le Mugel, Les Calanques. Tantos lugares bonitos.

Você e seus clichês americanos de gangues, máfia...

Escreve-se uma história para fugir de uma vida de merda.

A história precisa acontecer aqui?

Precisa.

O objetivo dessa oficina é escrever sobre suas vidas.

-Sua cidade... -Romance é ficção, imaginação.

Não podemos escrever isolados

ou nos olhando no espelho, seria burrice.

Você não precisa se olhar no espelho.

A imaginação serve para tornar seu dia-a-dia uma aventura.

A aventura está...

Eu disse algo engraçado?

Seu dia-a-dia, uma aventura...

A aventura nem sempre está do outro lado do mundo.

Não vejo muita aventura por aqui.

Só estamos no começo.

Olhe só esse lugar...

Vamos continuar nossa conversa, sugiro que tomem notas.

-Já vamos começar a escrever? -Não. Só tomem notas.

E se tiverem ideias depois dessa conversa,

escrevam mais coisas.

-Você vai nadar? -Por quê? Você não nada?

-Olhe a toalha... -Vai pegar um sol.

Vocês têm material para tomar notas?

Ela é só uma professora, não escritora.

Ela não tem cara de escritora.

Não gostei daquele ar superior.

Ela é arrogante.

Aquele sotaque parisiense me irrita.

Às vezes, não entendo o que ela diz.

"Bom dia, fico feliz em conhecê-los.

Faremos um ótimo trabalho juntos."

"É um grande prazer tirar longas férias às suas custas."

Alugaram uma mansão para ela.

O ônibus!

Vamos! Depressa!

Oi, Antoine.

Theo, olha quem está aqui!

-Tudo bem? -Tudo. E você?

Quero um beijo.

Para!

-Onde você esteve? -Fui nadar.

Eu também quero nadar.

-Você também? -Vou te levar.

-Vou embora. -Até mais.

Tchau, Bro.

-Beijo, Théo. -Diz tchau.

Tchau, "Bro".

Vamos brincar mais.

Oi!

Antoine!

Então? Como foi?

Bem.

-Você vai me contar? -Pode deixar.

COTOVELO NO JOELHO OPOSTO ALTERNAR

SISTEMA PARA ESTRADA MINADA

PROTEGER

AJUDAR O PRÓXIMO

PREPARE-SE

PARA DEFENDER NOSSOS VALORES

EXÉRCITO FRANCÊS

-Cuidado! -Desculpe, linda.

-Bom dia. -Bom dia.

Onde deixo isso?

Deixa aqui.

Obrigada.

-Bom dia. -Bom dia.

-Tiveram uma tarde agradável? -Ótima. E a sua?

-Eu não dormi. -Por quê?

-Vi um filme muito bom. -Qual filme?

De ação. Não faz seu tipo.

O que acha que eu assisto?

Filmes mais leves.

-Benjamin? -Não tenho nada.

Tudo bem. Mas para de brincar com o celular.

Étienne, teve alguma ideia?

Tive, mas nada que valha à pena.

Tudo é vale à pena. Escolhemos depois.

Já que falamos do estaleiro,

que tal uma história que acontece no passado.

Interessante. Em qual época, em particular?

Quando o estaleiro ainda estava em atividade.

-Pouco antes de ser fechado. -Ótimo.

O caos, as greves...

Aquela época foi tensa. Amarraram o diretor a um guindaste.

Queimaram os pedágios, doideira...

Cortaram os trilhos da ferrovia.

A polícia interviu.

É complicado falar dessa época. Eu nem tinha nascido.

Nem eu,

mas meu avô veio da Argélia e trabalhou aqui por 25 anos,

por isso sou francesa. Não é um detalhe.

Francesa? Qual o seu nome?

-Calma aí, árabes! -Vamos manter o foco.

Malika tem razão.

Não precisa ser uma época que conhecemos.

Mas ontem você disse que o objetivo da oficina

era falar do nosso dia-a-dia.

-Certo. -Foi o que disse.

Sim, e uma forma de fazer isso é falar da história da cidade,

falar do que suas famílias viveram aqui.

Não falamos do estaleiro em casa.

É claro que sim.

Faz parte do nosso inconsciente coletivo.

Estou aqui há cinco anos, então... Não conheço bem a história.

Meu avô me contou um monte de coisas.

As pessoas tinham orgulho de morar aqui.

Orgulho em soldar de cabeça pra baixo,

-na escuridão, respirando amianto? -O resultado?

Viu as coisas gigantescas que eles construíram?

Se eu falar com meu avô, ele vai ajudar.

Isso é interessante.

Para escrever um romance, precisamos fazer pesquisa,

para tornar a ficção mais real.

Não está convencido, Antoine?

O passado não me anima tanto.

-Justamente, tive uma ideia. -Vai em frente...

Ontem falei em flashback...

A história pode acontecer hoje,

mas o motivo do crime pode estar no passado.

Nada mal. O que acham?

MOTIVO

A vítima pode ser negra, ou árabe.

-Por quê? -Por quê, o quê?

Por que negra ou árabe? É um crime racista?

-Talvez. -E se não for?

É negro ou árabe.

-Só isso? -Sim.

Se a vítima fosse branca e o assassino negro ou árabe?

-Seria racismo contra brancos? -Você disse que não é sobre racismo.

-Você começou. -Calma, pessoal.

Acho ótimo ter negros e árabes na história.

Como aqui, nessa mesa.

Que negro?

Podemos decidir depois se será um crime racista.

Põe um ponto de interrogação.

Vou colocar... "Dimensão racista?".

Antoine, alguma ideia?

Não exatamente,

mas gostei da ideia de Bouba da marina como cenário.

Voltamos para trás?

O estaleiro já estava aprovado?

-Pensei que todos concordassem. -Já falamos nisso ontem.

Tudo bem. Então, não pergunte.

Pelo contrário. Você precisa se expressar.

Por que faz questão de manter a marina?

Não faço questão. É um cenário melhor para um suspense.

Donos de iates fazem ótimas vítimas.

Eles têm dinheiro, são invejados.

Podem estar envolvidos com o tráfico.

Isso daria uma imagem positiva da cidade.

O quê? O tráfico de drogas?

E falar de um estaleiro fechado...

-Ao menos, é história. -Morta e enterrada.

É a primeira coisa que você vê quando chegamos aqui.

Os turistas falam a respeito, mas é um cemitério.

Dá para ver o estaleiro daqui, não?

Em vez de discutir a identidade da vítima ou do assassino,

no passado ou no presente, vamos escrever, só isso.

-Escrever o quê? -O que vocês quiserem.

O que for mais fácil para vocês.

A descrição de um lugar, de um personagem, uma cena.

Ou um caso pessoal que tenha a ver com a história.

Vocês precisam se sentir livres para escrever,

sem focar na trama.

Chamo isso de "escrita circular".

Não é fácil. Nós não somos escritores.

Vale tentar.

Não vou escrever.

Então por que quis participar da oficina?

Eu não tive escolha.

Não é verdade. Você se candidatou.

Não. A agência de emprego disse que era estágio.

-Eu vim. -Não ficou feliz em ser selecionado?

Não é a Copa do Mundo aqui.

Selecionado, nada.

Já recusei uma vez, não queria perder a matrícula.

Não diga isso.

Participei do processo seletivo. As coisas não funcionam assim.

Você prefere tirar xerox no cartório? Catar lixo na praia?

Serei mais útil, talvez.

Acha que vai sair daqui escritor?

Até falando comete erros de ortografia.

Não quero fazer de você um escritor.

O objetivo é pensar juntos e construir algo.

Estou aqui para isso.

-É por isso? -É, sim.

A senhora está aqui porque é bem paga.

Verdade, mas poderia ganhar mais em outro lugar.

Eu, não.

Então, por quê?

Por que uma escritora perderia seu tempo com a gente?

Não perco meu tempo.

Me interessei pela oficina, só isso.

Além disso, posso parecer arrogante,

mas gosto de ensinar um pouco do que eu sei.

Muito obrigado. De coração.

Benjamin, espero realmente que mude de ideia...

Não precisa estragar a experiência dos outros.

Sem problemas. Vou continuar a vir aqui.

Só não me peça mais que isso. Não vou atrapalhar.

-Só isso. -Bom...

Quem quiser escrever, pode começar, vamos.

Podem ficar na sombra, no sol, sentados, deitados...

O importante é se sentir à vontade.

Tentem, depois vemos o resultado.

O problema não são os estrangeiros,

nem a abertura das fronteiras.

O problema são os burocratas da União Europeia que decidiram isso,

que imaginaram que seria possível tirar, de cada país, sua soberania,

sua imunidade.

Um país sem imunidade,

perde aos poucos sua identidade,

suas raízes, sua cultura.

Eu falo da cultura verdadeira,

do conjunto de costumes que nos molda e nos une.

Não da cultura de massa midiática que nos anestesia.

Cabe a nós, franceses, incarnar o gênio francês

para evitar que potências capitalistas estrangeiras

se tornem ainda mais globais,

impondo seu programa politicamente correto.

Claro que, vamos nos opor ao discurso dos direitos humanos,

mas lutamos em nome de um povo,

de uma cultura ameaçada pela miscigenação

e a fecundidade crescentes.

Lutamos, também, para preservar o pensamento europeu

e seus 35 mil anos de história.

Situado na costa mediterrânea, entre Marselha e Toulon,

o CNC foi um dos os primeiros estaleiros

especializados na construção de navios petrolíferos...

O conjunto NORMED é responsável

pelas atividades dos estaleiros de Dunquerque, La Seyne e La Ciotat.

Produzem navios idênticos em série,

mas o CNC prefere usar as competências de seus analistas de produção...

Uma vez que estejam soldadas e montadas,

se não tiver fissura, ou risco de vazamento,

organizamos o lançamento.

As imagens de ondas gigantes que invadem a cidade...

Aqui ou ali.

Foi aqui.

Os troncos ficavam ali,

e depois de montado, tirávamos a porta

e o deixávamos deslizar, mais ou menos até o cais.

O navio criava uma onda enorme.

Os lançamentos aconteciam ao meio dia.

Meu pai chegava em casa molhado até os joelhos.

Em torno de 10 mil pessoas trabalhavam aqui.

Um belo dia, disseram: "Acabou".

Ficamos arrasados.

Uns 50 suicídios no primeiro ano, divórcios, alcoolismo...

Muito sofrimento. Mas alguns resolveram lutar.

Se sentiam melhor assim, resistindo.

-Então, resistimos. -Ocuparam o estaleiro?

Sim, ocupamos o estaleiro durante dez anos.

Eles nos atacaram com gás e porretes.

Mas nós vencemos.

O local ainda é industrial e voltado para atividades marítimas.

Nossos filhos podem vir trabalhar aqui.

Vamos seguir, por aqui,

Para continuar nossa visita.

Essas lembranças parecem boas, a luta e o resto...

Elas são, apesar do sofrimento.

Tive que comer num abrigo, vestir roupas doadas.

Eu e meus colegas. O dinheiro não entrava...

-Bom dia. -Oi.

Que barco bonito!

Trabalhamos nele, não era assim. Estamos aqui há seis semanas.

-Qual é o comprimento? -Trinta e dois metros.

Posso subir a bordo?

Que cara de pau...

Vem, pode subir.

-Obrigado. -De nada.

Já falei para seu colega: Não mexam em nada.

Isso se chama luxo. Estou adorando.

-Nunca teriam dinheiro para isso. -Podemos sonhar.

Nem para alugar um fim de semana.

Senta direito, Malika. Um pouco de respeito.

É uma oportunidade única. Posso aproveitar?

Eu moraria em um iate como esse.

-Você enjoaria. -Não.

Atracaria o barco no pinhal, lá atrás.

Então melhor comprar um trailer.

Eu gostei desse cenário aqui.

Imaginem um corpo a bordo de um iate no estaleiro.

Nada mal.

Temos nosso estaleiro e você seu iate bilionário.

Boa ideia.

E aproveitamos a de Bouba

do cadáver crivado de balas, como em "Scarface".

Onde ficam o passado, as greves e as lutas?

Que tal um operário que perdeu o emprego,

que volta 20 anos depois para matar um americano bilionário?

-Um comunista árabe? -Meu avô era comunista.

Temos o assassino.

Um velho comunista árabe numa cadeira de rodas.

Meu avô não é deficiente.

Imaginem o velho subindo a bordo...

"Onde estão os gringos? Vou acabar com eles."

Brincadeiras à parte, não podemos manter tudo,

mas têm coisas interessantes.

A ideia de Malika da ligação com o passado comunista da cidade é boa.

Quer um romance político e não policial, admita.

-Eu não quero nada. -Não mesmo?

Quem vai acreditar?

Não vejo as coisas assim, mas...

Um romance policial pode envolver política.

É comum.

Ele não fica à vontade com a política.

Nada a ver. Só não tenho interesse.

Todo mundo sabe o que isso quer dizer.

Cala a boca.

-Um a zero. -Fim de jogo.

Mas, também, uma violência real, crua, assumida.

Como pode uma moça, como você, escrever coisas tão horríveis?

Você não me conhece, talvez.

Violência, claro, e muito erotismo.

Um erotismo que qualificaria como quase masculino.

Bem, já que os dois protagonistas são homens...

São irmãos, isso.

Tem uma forte insinuação de incesto.

-Antoine! Vamos jantar! -Já vou!

A violência e o desejo crescem juntos.

Seu comentário me dá a sensação de ter escrito um péssimo livro.

Não foi o que eu quis dizer.

Não acho que seja uma relação incestuosa.

Sempre imaginamos que irmãos se desejam,

mas acho que o erotismo vem de mim.

Do meu olhar, como mulher.

O que me interessou,

parece um clichê

Mas queria descrever a relação simbiótica entre dois irmãos

que acabam se odiando, porque cada um acredita

que o outro dita seus pensamentos.

Não sabemos quem é manipulado por quem.

Ficou claro?

Sou eu. Vou para a cama.

Quero um beijo.

O que é isso?

O livro da mulher com quem trabalho.

Posso ver?

Olivia Déjazet. "Aposta Perdida"...

O livro é bom?

Nada mal.

-É ela. -É, sim.

-Ela é bonita. -Na foto, parece.

Já é tarde. Vai dormir.

Meu beijo.

-Boa noite. -Noite.

-Déjazet. -Ela é famosa?

É claro, seu idiota. Ela escreveu muitos livros.

-Charmosa. -Ela não é feia.

Eu escreveria com ela!

Ela é uma gata.

Empresto minha caneta grossa quando ela precisar.

Mente suja!

Que jeito de burguesa parisiense, nessa foto.

Era uma festa. Não se veste assim normalmente.

Antoine, partiu pra defesa! Está apaixonado?

-Cala a boca! -Está apaixonado!

Teddy! Olha!

Ela ainda é sexy.

Nunca disse que ela era feia.

Olhem o decote nas costas.

-Você ficou chateado? -Não estou nem aí.

-Ela sai muito? -Ela não é de sair.

Que pena, pagaria um drinque para ela.

-Mais que isso! -Para de brincar de macho.

-Nunca viram uma mulher? -Já ouvi essa.

-Acabei contigo! -Babaca! Doeu!

Achava que ia ganhar?

Não jogo todos os dias!

-Tenho mais o que fazer. -Ela ficou chateadinha...

-Olha a bagunça! -Steph, entra no lugar dela.

Pego o vencedor.

-Pode me ajudar? -Claro.

Leva as coisas pra cozinha.

Não precisa lavar a louça!

-Não tem problema. Eu faço. -Mulherzinha!

Cansei da conversa de vocês.

Vou botar uma música...

O que você quer?

Sai da frente!

O que estão fazendo?

Merda, estava ganhando.

O que faz aqui, garotão?

Vamos dançar um pouco e depois pra cama, tá?

Você promete? Bate aqui.

Vamos lá?

Para!

"Naquele dia, milhares vieram para o lançamento do petroleiro.

Operários trabalhavam para liberar o monstro de aço.

De repente, ouviu-se um estalo

e o barco foi deslizando devagar nos trilhos,

em direção ao mar, como em câmera lenta.

No cais, operários agitavam bandeiras

e todos os barcos acionavam suas sirenes.

Quando tocou a água, o navio causou uma onda enorme

que atingiu o cais.

Os jovens que estavam perto se molharam e riram.

A cidade toda aplaudiu.

Estavam aplaudindo o navio majestoso ou os operários que o construíram?

Os operários orgulhosos se abraçavam sem tirar os olhos do navio".

É só isso.

Ótimo trabalho, Malika. É dinâmico, bem articulado.

Parabéns.

Senti como se estivesse lá. Parabéns.

Perguntei ao meu pai. Ele era pequeno, mas... Anotei tudo.

Não é tão difícil, viu?

Quem mais?

Boubacar?

Pode me dar mais uns dias? O que escrevi é porcaria.

Dois ou três dias, sim. Não uma semana.

Quem mais se arrisca?

Escrevi algo, não como Malika...

Nada histórico. Acho que seria o início de um romance.

Ótimo. Vamos ouvir.

"Como sempre, ele sai da cama com dificuldade.

Quase esqueceu de seu último dia de trabalho.

O contrato temporário tinha acabado.

Ontem, tinha dado o toque final no iate

reformado pelos 25 funcionários da empresa Renomar.

Ele foi até a doca seca.

O barulho do guindaste içando o navio até a água era terrível.

Todos aplaudiram,

até o engenheiro que nunca tinha falado com ele.

O dono do iate, um sheik árabe, subiu a bordo com os outros.

Seu sangue fervia e pulsava.

Ele não sabia mais o que estava fazendo ali.

O motor começou a roncar.

Lentamente, como num sonho, o iate deixou o porto.

Todos sorriam.

O engenheiro apertou a mão de todos os operários,

e quando chegou a sua vez, com a mão erguida,

ele perdeu o controle.

Sentia-se em um buraco negro precipitando para o abismo.

Abriu sua mochila, tirou de lá uma AK-47,

e, antes que pudessem reagir, abriu fogo.

Ninguém podia detê-lo, a visão do sangue lhe estimulava.

O navio seguia em direção ao mar.

Sem emoção. Sem pensar. Ele mata.

A última vítima é o outro trabalhador temporário,

que também foi demitido na véspera.

O jovem suplica,

com um olhar aterrorizado que ele se recusa a ver.

Ele dispara pela última vez

e olha em torno, como se descobrisse a cena.

O convés está coberto de sangue, manchando os assentos brancos.

Estranhamente, o cheiro da morte é menos nauseante do que esperava.

Coberto de sangue e miolos,

ele passa por cima dos mortos e agonizantes.

Ignorando os gemidos,

segura o leme com orgulho

e conduz o barco fantasma em direção a um destino

que ele mesmo desconhece."

Seu miolos fritaram ou o quê?

Qual é o problema?

Você sentiu tesão quando escreveu isso?

Isso é um suspense. Não uma novela sentimental.

-O quê? -Um romance sentimental.

É a mesma coisa. Você é hipócrita.

Gosta de "Scarface" que é muito mais violento...

Ele se compara com "Scarface".

-Esperamos a sua história. -Não se preocupe.

-Seu texto não é ruim... -Então, qual é o problema?

Vai muito longe na violência. Não pode escrever coisas assim.

Não decretamos o que se pode ou não escrever.

-Ele não percebe os limites? -Não sei.

Você entendeu o que Malika disse?

Que pode ter ultrapassado a linha vermelha?

Não sei.

Depois disso, não tem mais nada a dizer.

O que você pode escrever depois disso? É nojento.

Nojento?

Você acha nojento?

-E os seus amigos na Bataclan? -Que amigos?

-O que fizeram na Bataclan... -Para de me provocar!

Vou acabar com você!

Calma, Fadi!

Fica calmo!

-Vai defender esse racista? -Não estou defendendo!

Estamos aqui para trocar ideias, não para nos insultar.

Ele insultou os muçulmanos e está do lado dele.

Não estou, não. Antoine, tem coisas que não quero ouvir aqui.

Entendeu?

Entendi.

Eu não concordo com o que Antoine disse,

mas acho que precisamos conversar sobre isso.

-Sobre o quê? -A radicalização e tudo mais.

-Uma história sobre Jihad agora? -Por que não?

Aqueles babacas não vão mandar no que escrevemos!

Não podemos apenas dizer que são "babacas".

Eles mudaram nossas vidas...

Agora, quando saio, fico preocupado e com medo.

Vocês ouviram?

Acidentes do trânsito matam mais que atentados.

E você brinca de mulherzinha?

Com tudo o que falam na TV, entendo porque ele tem medo.

No shopping, você pensa na Bataclan,

um caminhão branco nos lembra de Nice.

Não estamos em guerra. A guerra está na Síria.

Mas o terrorismo está em todo lugar, Túnis, Paris...

Em Oslo, foi um louro de olhos azuis, como você.

Pela primeira vez, discutimos algo que envolve todo mundo.

Não estou interessada.

Concordo. É um assunto sensível,

mas precisamos conversar, sem medo.

Você não é árabe. Olha ele. Cheio de preconceitos.

Aposto que o assassino vai ser árabe.

Não necessariamente. Sabia que 40% dos fanáticos

são franceses, brancos e recém-islamizados?

Quem acredita nisso?

Sejam eles brancos, verdes ou amarelos, sempre serão vistos como árabes.

Deixem a política de lado.

Só escrevi uma cena de ação. Vocês estão delirando.

Justamente, você não se importa com o que escreve.

Jogou sangue na cena para impressionar a turma...

-E daí? -Não pode.

-Você decide, por acaso? -O que vai fazer?

-Como assim? Ficou louco? -Cala a boca! Para de sorrir!

Abaixa essa mão! Não me ameaça.

Vou acabar com você!

Calma! Por favor!

Parem! Por favor, parem com isso.

Boubacar, sentado! Eu quero falar.

-Clandestino. -O clandestino é você!

Sou mais francês que você!

Acabou?

-Posso falar? -Pode.

O que vou dizer pode chocar vocês...

Mas o texto de Antoine, considerando que é um esboço,

é bem escrito.

Agora, Antoine,

posso até ser atraída por crueldade, mas concordo com Boubacar.

Tem uma certa complacência no que você escreveu.

O que é complacência?

Como ele disse, parece que isso te dá prazer,

que te dá tesão.

-O que é isso? Enlouqueceu também? -Entendeu o que eu quis dizer.

Você me manda escrever e depois me critica.

Para de se fazer de vítima. Não queremos escrever isso.

Não critiquei seus textos cheios de nobres intenções.

-Qual é a regra aqui? -Temos uma dupla confusão.

Não é justo chamar o texto da Marika de “cheios de nobres intenções”.

Nem todo sentimento positivo é um nobre sentimento.

-Vocês aí pensaram... -Temos nomes.

-Eu sei, Fadi. -Não somos animais.

-Trato você como animal? -Falta respeito.

-Não respeito você? -Fala o que tem pra falar.

Se o autor precisasse concordar com seus personagens,

deveríamos proibir 90% dos livros, filmes, obras de arte

e prender os autores de romances policiais.

Fato é que não precisa ser um assassino para descrever uma matança,

nem racista para criar um personagem racista.

Foi Étienne que falou dos fanáticos jihadistas.

-Me deixa acabar! -Acaba!

Na ficção, podemos expressar uma ideia que não aprovamos, para denunciá-la.

Essa é a força da arte.

Vocês entenderam?

O problema não é o texto dele, todos sabem disso.

Vamos ficar por aqui.

Quero mergulhar.

Vem, o mar te espera de braços abertos.

Você me assustou!

Desculpe, não tinha visto você aqui.

Estava de saída.

Não vai embora por nossa causa, vai?

Não. Eu estava indo.

Esse é o Boris, meu editor. Antoine...

-Bom dia. -Oi, Antoine.

Antoine,

você está melhor?

Estou bem, não tenho problemas.

Podemos conversar, se quiser.

Está tudo bem.

Bom mergulho!

Até amanhã.

-Que tal almoçar amanhã? -Claro.

-Está zangado comigo? -Não.

Você me liga?

-Boa noite. -Até amanhã.

Não pode ir mais rápido?

Me deixa em paz.

Droga...

Estamos chegando.

Estamos em Bagdá, é isso?

Silêncio! Se alguém nos pega, estamos na merda.

Ele está apavorado. Relaxa, cara.

O que foi isso?

O lobo.

Apaguem as lanternas!

Mal consigo andar.

Olha lá, quantos são?

-Acertaria neles daqui? -Sem problemas.

-Tem que saber atirar. -É só treinar.

Dá isso aqui.

A respiração é o principal.

Ele está mal.

Devia ter tomado remédio pra essa tremedeira.

-O quê, Diazepam? -Isso!

Calados!

-Daqui, não é fácil. -Concordo.

-Quem dera, pudesse atirar... -Isso aí, cara.

Quer um pouco?

-Está enjoado? -Droga! Não enxergo nada!

Ei, pessoal... O que acham daqui?

-É bonito, à noite. -Estamos em casa... Em casa.

Não quero tocar nisso.

-Quer um pouco? -Não.

Vamos ver se não quer!

Segurem o cara!

Vocês acham engraçado?

Tudo bem. Continua...

Segundo disparo.

Relaxa um pouco. Mira bem...

-Você é péssima nisso. -Vou mostrar como é.

Observa e admira.

Então, quem é o número um?

Sua vez, agora.

Estica o braço.

-Respira. -Está dando uma de xerife?

-Atira! -Espera.

-Ele vai atirar. -Não vai.

-É um medroso. -Ele é bom.

-Boa! -Retiro o que eu disse.

-Prática. -Foi sorte.

Esperava mais recolhimento...

Você teve sorte...

-Não falei? -Espera um pouco.

Sorte de principiante.

Patético!

Foi legal, né? Ela pirou...

O que está fazendo?

-Vou mergulhar. -A água está fria, pirou?

Deixa... Vai fazer um strip-tease pra gente.

-Vai lá, vai! -Vai lá!

Querem um strip-tease?

-Ele é doido! -Total!

Volta, Antoine, nós te amamos!

Fiz um retrato do homem.

Temos o cenário: o iate.

A mulher que investiga deveria ser da região.

Vocês estão progredindo, mas ainda está confuso.

Lembrei do homem que nos mostrou o estaleiro...

-Ronaldo. -Rinaldi.

-Rinaldi. -Rinaldi.

Se ele fosse o assassino, eu ficaria surpreso.

Ninguém esperaria por isso.

Talvez porque nunca aconteceria na vida real, não é?

A ideia do Étienne é boa.

Um velho operário que se revolta contra o estaleiro hoje...

Vendo iates sendo construídos. O orgulho já era...

-Já fiz essa sugestão. -Operários que pegam em armas.

Exatamente o que sugeri.

Você devia ficar feliz, compraram sua ideia.

Isso me lembra meu avô com seus amigos.

Fazia tempo que você não falava do vovô.

Imaginem os velhos se encontrando, falando do declínio do estaleiro.

Construíam navios de 250 metros,

mas não são contratados para “os serviços de luxo”.

Eles sempre falam disso.

Acho que Rinaldi, nosso personagem,

podia surtar ou beber demais numa noite

e matar um bilionário por acidente.

-Por acidente? -Sim.

-Então, não é um assassino. -Ele é.

Acho mais interessante se o cara matar,

simplesmente pela necessidade de matar.

Ficou maluco? Ninguém mata só por matar.

Mata, sim.

Sei que não gostaram do assunto, mas na Bataclan...

De novo, não!

Posso falar?

Deixem-no falar.

Os caras da Bataclan alegaram que fizeram aquilo

porque a música era coisa do diabo,

e porque a França participava da guerra na Síria.

Eu acho...

Que eles só queriam atirar nas pessoas.

Morreriam mesmo, então seria uma bom modo de morrer.

Seu papo me assusta, parece que compreende os fanáticos.

Não disse que compreendo,

só consigo imaginar que alguém tenha vontade de matar.

Para de falar besteiras.

Você não gostou? Estou defendendo esses caras.

Você diz isso porque sou muçulmana?

-Gostou do que eles fizeram? -De novo, não, Antoine...

É claro que não, mas não devo me justificar.

Você não é uma boa muçulmana, então.

-Onde está seu véu? -De novo, não...

Não preciso pedir sua permissão.

-Vai pedir para seu irmão? -Antoine...

Já chega. Suas repetidas provocações cansam.

Estraga suas ideias interessantes com essas bobagens.

O que ele disse de interessante?

A questão dos limites

entre assassinato, terrorismo e luta armada...

Quando é você que fala, fica mais interessante.

Só acho que não existe crime gratuito.

-Você disse o contrário. -Não disse o contrário.

Eu me expressei mal.

Os caras da Bataclan

acreditavam que eram heróis. Eles pensaram:

"Temos muita raiva, matar infiéis vai nos aliviar".

Não digo que eles estejam certos, mas posso entender.

Você está brincando, espero...

O que foi? Nunca teve vontade de matar?

Vive escrevendo sobre crimes sórdidos.

Nunca teve vontade de matar?

Imagino o que pensa o personagem. Nunca tive vontade de matar.

Suas histórias de amor se inspiram em experiências próprias.

Não pode confundir amor com desejo de matar.

-Por isso, seus livros não funcionam. -Como assim?

-Eu li um de seus livros. -Verdade?

Fico lisonjeada.

O quê?

-Qual deles? -"Aposta Perdida".

-Perdido é você! -Não é o mais leve.

O que você vai fazer?

Vai ler para nós?

-Espero que não se incomode. -Não, pode ler.

“Quando sua mão estava prestes a pegar o tijolo,

Jeremy sentiu um forte, mas inútil remorso.

Sem hesitação, seus dedos se fecharam sobre a pedra granular,

como se ela fosse testemunha de seu próprio ato,

do majestoso círculo que seu braço formou,

antes de o tijolo estourar a cabeça de seu irmão.

O impacto lhe causou uma tristeza estranha.

A sensação de um ato irreparável, de uma beleza infinita.

Observou os pedaços de tijolo no chão,

evitando o olhar do irmão,

que se foi, rapidamente, sem um som, sem um gemido."

Aonde você quer chegar?

Se admira com a própria linguagem.

Frases bonitas, bem escritas,

mas parece não sentir aquilo que escreve.

Mas eu gostei muito. Tudo em câmera lenta.

O cara pensa tudo isso em frações de segundos?

-Por que não? -É improvável, mas é literatura.

Então a literatura é boba.

Muito obrigada.

Parece que quer impressionar com frases sofisticadas,

palavras antigas como...

Não sei, tipo “granular”.

Significa que tem grãos.

-Eu entendi. -Então, está tudo bem.

O problema é usar uma palavra pretensiosa,

que não se usa normalmente.

A literatura, não é apenas contar uma história.

É buscar a palavra certa, uma que soe bem.

Então resolveu usar uma palavra morta?

Isso não é uma regra.

Poderia escrever "granulado",

mas não gosto do som da palavra.

-Costuma usar a palavra “granular”? -Não, raramente.

-Então, é uma palavra morta. -Está enchendo o saco dela.

Qual é? Estamos conversando.

Ela não sabe o que se passa na cabeça de um assassino...

-E ficou com raiva. -Não fiquei com raiva.

Dá para ver que ficou chateada.

Não vim aqui para receber insultos.

Pegue suas coisas e vá embora.

É pior do que eu pensava.

Talvez seja só uma fase.

Não devia ter falado disso.

Qual é o problema?

-É o Yann? -É ele

e todos os outros personagens.

Quando reli, percebi que instrumentalizei todos,

eles falam usando minhas palavras.

Desculpe dizer algo óbvio, mas...

Escrever não é sempre assim?

Sim, mas tenho a impressão que o Yann não tem autonomia.

Está lá esperando, com seus olhos, que eu o ajude a se vestir, a comer.

Pareço sua mãe.

“Leva um cachecol, querido, o tempo esfriou.”

Sonhei com um adolescente que fosse...

Dinâmico,

quase rude, às vezes,

e sensual como um demônio...

Quanto mais eu trabalho, menos gosto dele.

Quer que eu vá aí no próximo fim de semana?

Não, por favor.

Desculpe, mas...

Preciso ficar sozinha.

Tudo bem. Não vou insistir.

Obrigada por ter ligado.

Um beijo.

Outro.

Boa noite. Desculpe incomodar.

Me chamo Olivia Déjazet, sou responsável pela oficina literária.

Entendi.

O Antoine está aí?

Está, sim. Algum problema?

Não, nenhum. Posso falar com ele?

É claro. Segundo andar.

Obrigada.

-Boa noite. Entre, por favor. -Boa noite.

-Boa noite. -Boa noite, sou Olivia Déjazet.

-Muito prazer. -Muito prazer.

Aceita uma bebida?

Não, obrigada. Não quero incomodar.

Se tiver problemas com o Antoine, pode falar.

-Não tem, mesmo. -Ele não conta nada. Então ficamos...

Não se preocupem.

Antoine!

Está trancado no quarto, não escuta nada.

Vem comigo, por favor.

Você me assustou!

Não exagera.

-Boa noite. -Boa noite, Antoine.

Vou deixar vocês à vontade.

Desculpe incomodar.

Eu vim porque queria deixar claro

que você pode voltar para a oficina amanhã.

Eu ia voltar mesmo.

Ótimo.

Algum mal entendido?

Não, tudo bem.

Posso entrar um minuto? Você se importa?

Não.

Pode sentar.

É legal, aqui.

Sim, é ótimo.

Escuta,

precisamos conversar sobre o que aconteceu na oficina.

Por mim, tudo bem.

Só peço que você pare de provocar as pessoas, tá bom?

Eu não provoco.

Sabe do que estou falando.

Você busca o confronto. É muito cansativo.

Faz observações ofensivas, só pelo prazer de agredir.

Com a Malika, por exemplo.

Não faço ideia.

Vocês não precisam ser amigos,

mas precisam saber se comunicar.

É um trabalho coletivo.

Por que me dizer isso?

Dei muitas ideias na oficina.

Justamente, não entendo por que, de repente, fala coisas idiotas,

nas quais você nem acredita.

Sabe o que eu penso?

Não, não sei.

Mas soa falso, às vezes.

Só digo aquilo que penso.

Não ligo se vou chocar as pessoas. Não preciso delas.

Você parece solitário.

O que sabe disso?

Droga.

Não me ajuda a ajudar você.

Me ajudar?

Que história é essa? Não preciso de ajuda.

Você se irritou, quando falei do seu livro.

Não acho que foi isso.

Seja honesta.

Não foi agradável, mas...

Parecia mais uma vingança...

Nada a ver.

Foi a sensação que eu tive.

Parece bobo, me sinto vulnerável quando debocham do que escrevo.

O problema é seu.

Minha reação não foi apropriada, talvez.

Vou embora.

Até amanhã.

Até na TV, nossas ideias se espalham.

Temos muito em comum com pessoas interessantes,

como Dieudonné, Zemmour, entre outros.

Fizeram coisas importantes,

contribuíram para a livre expressão.

E nós? O que podemos fazer?

Boa pergunta. Eu ia chagar nesse ponto.

Por que nossas ideias crescem?

Porque não brincamos de ativistas, como nos partidos tradicionais.

Estamos dispostos a acordar às 4 horas da manhã para panfletar,

passar a noite na delegacia, ou apanhar, se for preciso!

Vamos exigir muito de quem quiser se juntar a nós,

mas é pouco, perto do que perderemos, se não reagirmos.

-Steph, o que está fazendo? -O diabo!

Sabe quem eu sou?

Sou Teddy Chauvin, cara! Bang-bang para você!

-Olha só o visual. -Parece a traficante da esquina.

Onde está meu 20?

É a primeira vez que vejo um árabe com pulseira de búzios.

O chapéu está estragando o cabelo.

Que falta de estilo!

Querida, você está linda.

O macaco aprendeu a falar!

-Pensamos que não viria mais. -Desculpem.

-Como vai, tudo bem? -Tudo bem.

-Bom dia! -Bom dia.

O despertador não tocou?

Fui dormir tarde.

-Como assim? Saiu de noite? -Não, não saí.

-Sentamos lá fora? -É claro.

Aqui está bom.

-Tudo bem? -Tudo.

Vinte ou trinta anos depois de perder o emprego,

os caras encontram o antigo chefe, está bem,

é funcionário em uma grande empresa.

Decidem sequestrar o cara e pedir um resgate.

Levam para o estaleiro e o trancam dentro de um iate em reforma,

mas as coisas não acontecem como planejado.

O cara é tão arrogante e irritante que acaba apanhando.

Ele tenta fugir.

Aproveitando a confusão, ele pula do barco,

esbarra no andaime e cai morto no chão.

Os homens escondem o corpo no iate... Só isso.

Nada mal.

O que vocês acham?

Não sei.

Fico meio decepcionado que tudo acabe num acidente.

Não estou falando mal, mas poderia ser melhor.

Antoine, por que está calado? Tem sempre algo a dizer.

Deixa ele dormindo. É melhor...

Também acho uma pena não ter um assassinato.

Mas não me importo.

Tudo certo, então!

Tudo bem. O que fazemos?

-Bom dia. -Bom dia.

Como você está?

-Está passeando? -Estou.

Na verdade, vim ver você.

-Me seguiu até aqui? -Não.

Imaginei que estaria aqui.

Ficou muito calado, hoje.

Fiz o que me mandou.

Não concordava com os outros, mas não falei nada.

Mas você pode se expressar.

Você se contradiz. É confuso.

Não. Você que é esquisito.

Não sou esquisito.

Não era disso que eu queria falar.

Era do livro que estou escrevendo.

Você poderia me ajudar.

Eu, ajudar em quê?

Queria fazer umas perguntas sobre sua vida,

suas ideias,

acho que vai me ajudar.

-Quer escrever um livro sobre mim? -Não.

Já escrevi boa parte do livro,

mas poderia me ajudar a melhorar os personagens.

Quanto tempo seria isso?

-Duas ou três horas. -Tudo isso?

Não é obrigado a aceitar.

Vou ver.

Quando seria?

Quando você quiser. À noite, em um final de semana...

Vou pensar.

Ele está aqui, pessoal.

Subam até os cristais e peguem os pequenos monstros.

Todo mundo bate no gelo!

Subam, subam!

Droga, vou morrer!

Preciso de um "heal".

Vou morrer!

Droga!

"O que mais gostava era de relembrar os anos de luta,

quando a cidade toda protestava,

as reuniões intermináveis para mudar o mundo.

Eles eram jovens, na época.

Três deles continuaram se encontrando para rir e beber

e relembrar o tempo em que 50 ou 100 pessoas

se juntavam na sala do sindicato, repletas de esperança.

Passavam noites inteiras relembrando casos,

vitórias e derrotas, nomes de colegas de luta.

Às vezes, surgia um rosto sem nome nas lembranças.

Eles passavam horas tentando lembrar de quem era."

Bom dia.

Entre. O portão está aberto.

Desculpe o atraso.

Pensei que tivesse esquecido.

Não, eu estava ocupado.

Pode vir.

Entre, por favor. Por aqui.

-Quer beber alguma coisa? -O que você tem?

Tem tudo. Coca-Cola, suco de laranja, cerveja...

Quero um suco.

Pode se sentar, se quiser.

Vamos sentar à mesa, é melhor para trabalhar.

Sente-se.

Obrigado.

Você se importa se eu gravar?

Não. Por que me importaria?

Nem todo mundo gosta.

Sempre faz entrevistas com as pessoas?

Não, só às vezes.

Quer um pedaço de bolo?

Não, acabei de comer.

Para começar, como você ocupa seu tempo?

Vou para a oficina. Não sobra muito tempo.

Quero dizer, quando não tem a oficina.

Gosto de caminhar.

Quando não trabalho, vou até a enseada,

fico lá algumas horas,

e depois almoço na casa dos meus pais.

Como você se dá com seus pais?

Eles são tranquilos.

Às vezes, meu pai briga comigo, porque não falo muito.

Ele tem razão, falo pouco.

Depois de comer, fico no meu quarto...

Vejo coisas na internet.

Que tipo de coisas?

Muitas coisas. Como qualquer pessoa.

Disse "quando não trabalho". Você trabalha?

Eu não sabia.

No ano passado, trabalhei alguns dias na semana.

Eu era animador de uma colônia de férias.

Você gostava?

Sim, gosto de crianças, então...

Por que saiu de lá?

Tive uns problemas.

Não quer entrar em detalhes?

-Foi por causa dos pais. -Como assim?

Reclamaram do jeito que eu falava com as crianças.

Tanto faz. Vou entrar para o exército.

Vai mesmo? Você se candidatou?

Me informei na internet.

Tenho a sensação...

que você passa muito tempo sozinho.

Não preciso ver gente o tempo todo.

-Mas você tem amigos? -É claro.

Não os vê com frequência?

Vejo, sim.

Meu primo mora embaixo. Saio sempre com ele e os amigos.

O que vocês fazem juntos? Saem? Conversam?

Saímos, conversamos.

Fazemos coisas normais.

Vocês se interessam por política?

Não.

Quando nos reunimos, é para aproveitar a vida.

Não para perder tempo com essas besteiras.

Os outros trabalham? O que seu primo faz?

Ele é pedreiro.

É um emprego temporário. Ele ganha pouco.

Mas tem acesso a mais coisas que você...

Não sei. Eu moro com meus pais.

Ele tem mulher e filho para sustentar.

Ele é aberto nas suas opiniões políticas?

Como assim?

Vou ser mais clara: Teddy é seu primo?

-Conhece o Teddy? -Não.

Vi o perfil do Teddy na internet.

Encontrou o perfil por acaso?

Não foi por acaso. Ele é um de seus amigos.

Viu meu perfil, também?

Ele expressa suas opiniões abertamente.

Postou um vídeo em que ele está numa reunião

com um tipo que tem ideias de extrema direita.

Então resolveu investigar?

Não sou policial.

Me deparei com essas imagens de livre acesso.

Acha uma boa ideia expor essas coisas?

Isso prova que não são extremistas. São pessoas que criticam o sistema.

Pessoas de extrema direita costumam se definir assim.

-Para vocês, eles são nazistas. -"Vocês" quem?

Sabe muito bem o que quero dizer.

Não, mas tudo bem.

Vi um vídeo de vocês, na praia, à noite.

Você, seu primo Teddy, os amigos…

É mesmo?

Sim, você parecia se divertir.

Estavam com o rosto pintado, camuflados. Lembra?

Me lembro. Foi de manhã cedo

Talvez. Vi seu strip-tease no final.

E vi que vocês têm uma arma.

O que fazem com ela?

O jogo é assustar?

Nos divertimos.

É uma diversão estranha, não é?

Não machucamos ninguém.

Não tenho certeza disso.

Não é da minha conta. Não sou policial.

Eu quero entender

no que vocês pensam quando fazem isso.

Por que se mostram desse jeito?

O que vocês pensam quando fazem esses vídeos?

Vou aceitar um desses, se puder.

Fique à vontade.

Não entendo o que procura. O que quer que eu diga?

Eu não sei, ainda. Mas estou ouvindo.

Não tenho nada brilhante a dizer.

Você acha...

Parece que você não para de pensar.

Você é muito mais esperto do que parece.

Talvez eu não seja tão inteligente...

Talvez eu seja burro.

Acho que sei por que se interessa por mim.

É mesmo? Diga-me.

Porque eu assusto você.

-É mesmo? -Não sei.

É algo que te excita?

Não. Só tento entender.

Tenta se convencer disso,

mas vi como olha para mim.

-Eu não gosto. -Do quê?

Disso tudo.

Suas perguntas e o resto. É quase doentio.

Você age como um vampiro,

chupa o sangue das pessoas e usa isso para ganhar dinheiro.

Você mistura tudo. É cansativo.

Vamos parar por aqui.

É claro que sim.

DEFENDE

Nem sempre é fácil.

Em todo grupo, tem conflitos de ideias.

Me aborreci algumas vezes,

mas, no fim, conheci pessoas que não teria conhecido.

Trabalhamos muito. Não estamos de férias.

Vamos tentar fazer o melhor.

Sabia que ninguém aqui escreveria um best-seller,

mas é melhor que trabalhar com cimento,

ou puxar cabos. Aqui é divertido.

É legal, divertido...

Sinceramente, escrever um romance

é algo que nunca pensei em fazer.

Foi uma experiência incrível.

Isso vai ser ótimo para meu currículo.

Já escrevia antes da oficina, então foi uma oportunidade

para minha futura carreira de escritor ou jornalista.

O grupo conversa muito,

e descobri modos de pensar que eu não imaginava.

Quem são esses jovens?

Estão participando de um estágio de reintegração social?

São jovens que tiveram experiências ruins na escola

ou com a cultura, em geral.

Espero que descubram a relação entre escrita livre e pessoal,

e que possam se reconciliar com a literatura e com o mundo.

Ambicioso, não é?

O objetivo desse estágio é escrever um romance policial.

-O romance será publicado. -Exatamente.

Sim, isso é fundamental,

porque o maior incentivo intelectual

é lidar com a criação de uma obra,

independentemente do valor artístico.

Não escrevemos só por prazer. Temos um objetivo.

O mais interessante é ver os alunos mudarem.

A forma como eles se veem muda.

Escrever é uma boa maneira de se sacudir,

de escapar do ócio e de ganhar segurança.

O romance é um pretexto, uma ferramenta...

Antoine?

O que faz aqui?

Que arma é essa?

Você está louco?

Estou bem.

Eu não entendo.

O que devo dizer?

O que devo fazer?

O que posso fazer?

Posso ajudar você?

Não preciso de ajuda.

Então, solta essa arma, por favor!

Não.

Não aponta para mim, por favor.

Estou ficando assustada.

Vamos dar uma volta.

Com seu carro. Eu mostro o caminho.

Vamos conversar, Antoine.

Você me explica tudo.

Confia em mim?

Sabe que pode confiar.

Não sabe, Antoine?

Não vou contar nada.

Foi algum mal entendido?

Você pode me explicar...

Pega o caminho à esquerda.

Aonde vamos?

Pode parar. Continuamos a pé.

O que você quer?

Não estou a fim de falar.

Estranho...

Nunca estive aqui à noite.

Está com frio?

Não.

Pode ir embora, se quiser.

-Olivia? -Oi?

Conhece algum sinônimo de "enterrar"?

Sepultar.

-Tumular, encovar... -Sepultar serve. Obrigado.

Olha quem voltou!

Bom dia.

Quero ler um texto que escrevi.

Para me despedir de vocês.

O que quer com seu texto?

Não temos interesse.

-Quer um aplauso depois? -Ele vai e vem.

Pensei em mandar o texto, mas achei melhor vir até aqui.

Mas não sei, agora.

O texto é grande?

Não.

Então, vai em frente, estamos ouvindo.

"Sim,

Um homem pode matar por tédio, só para ver.

Ele poderia atirar em alguém, só por tédio,

para fazer algo acontecer.

Ele diria à polícia que atirou porque o cara era árabe, judeu, gay...

Todo mundo entenderia. Não precisaria explicar.

Quem quer que fosse a vítima, não importava para ele.

Ele poderia ter se matado, também.

As pessoas entenderiam.

Diriam que ele não tinha futuro, nem amigos...

Mas não fez nem a primeira coisa, nem a segunda,

era medroso demais. Ele não fez nada.

Ele esperava, entediado. O que ele esperava?

Ele andava sem rumo pela cidade.

Só para passar tempo.

Matar o tempo, como dizem. Mas a cidade o estava matando.

Os mesmos caminhos, sempre.

Vez em quando, ele trocava de caminho, e estrada....

Não funcionava.

Ele conhecia todas as estradas, todas as trilhas.

De tanto percorrer esses lugares, sozinho.

Sempre no mesmo cenário.

O estaleiro, sempre presente na paisagem.

O guindaste, preservado como uma peça de museu.

Ele não compartilhava a mesma nostalgia.

Ele pouco se importava com o estaleiro,

os operários que construíam petroleiros gigantes.

Sua história era outra.

Quando cruzava com conhecidos, fingia ser feliz.

Conhecia cada morador da cidade e tentava evitá-los,

pois tinha a sensação que todos aqueles

que tentavam amá-lo ou ajudá-lo,

o viam como um animal que precisava ser domesticado.

Apesar do tédio, e de não conhecer realmente seus amigos,

apesar da falta de futuro, amigos, emprego,

ele devia se sentir feliz."

É isso.

Eu vou embora.

Adeus.

Você é melhor do que eu!

Na minha primeira vez, fui bem pior,

nem sabia o que fazer!

Obrigado!

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