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A TARA MALDITA (Semente do mal)
- Já vou, sargento. - Sim, senhor.
- O carro já chegou, querida. - Certo, querido.
Rhoda.
Rhodinha, amiga.
Essa música é muito bonita.
É "Au Clair de la Lune", papai.
Quer dizer "À Luz da Lua", em português.
Eu odeio te interromper...
mas você tem um tempinho para se despedir de seu pai?
Claro que sim, papai.
Você vai escrever para a mamãe todos os dias?
Escreverei para minhas duas garotas todos os dias.
E vai colocar uma página especial só pra mim?
Ela precisa de uma página só para ela, claro.
Uma página especial com muitos abraços e beijos.
Monica, que bela surpresa!
Sim, aqui está sua alegre senhoria do andar de cima...
para se despedir.
Não tenho vida própria, então preciso da vida dos outros.
Venho também em nome do meu irmão Emory.
Ele teve que ir à estação receber Reginald Tasker.
Ele é o palestrante de hoje do nosso Clube de Psiquiatria.
Emory não consegue falar muito quando estou presente.
Ah, já falei demais. Diga você alguma coisa, Coronel.
Só há tempo pra um "até logo", Monica, estou de saída.
Faça alguma coisa para evitar a guerra.
Ainda não estou pronta para virar cinzas.
Por Deus, farei o possível.
Você disse "por Deus" só porque estou aqui.
Você tem toda razão!
Não se preocupe com elas.
Se alguma delas não estiver bem, mandarei sinais de fumaça.
Obrigado, Monica.
Rhoda, querida, vamos ficar aqui...
para que seus pais possam se despedir.
Além do mais, tenho uma surpresa pra você.
Presentes?
Rhoda!
Tudo bem, agora é hora do meu presente de despedida.
Então.
O que você me dá em troca de um monte de beijos?
Eu te dou um monte de abraços!
Sentirei falta de seus abraços.
Sentirei falta de seus beijos, papai.
Você é tão grande e forte.
Viu o efeito que tenho sobre as garotas?
Até mais, querida.
- Vai cuidar bem da mamãe? - Sim, papai.
- Até mais, Monica. - Até.
Vamos, amor.
O que você trouxe pra mim, tia Monica?
Vamos ver se você adivinha.
- Bom dia, Sargento. - Bom dia, Sra. Penmark.
Obrigado, Sargento.
Amor, quando você encontrar meu pai em Washington...
peça a ele para vir me visitar, sim?
Pode deixar.
Kenneth.
- Já passamos por isso antes. - Eu sei.
Só não estou no melhor dos humores, só isso.
Sorria, garota.
Minha garota?
Sim, para todo o sempre.
Até logo, querido.
Olha, mamãe!
Monica, o que você deu para ela agora?
Um par de óculos escuros...
para proteger do sol esses belos olhos azuis...
e com brilhantes na armação para emoldurá-los.
Céus, quem é essa elegante atriz de Hollywood?
Gostei deles!
- Onde está o estojo? - Está aqui, querida.
Você já ouviu falar em pessoas mimadas?
Bobagem!
Tenho outra coisa aqui.
Ganhei isso quando eu tinha 8 anos.
É algo jovem demais pra mim agora.
Mas ainda é perfeito para uma menina de 8 anos.
Monica, Monica...
Eu não sei o que fazer com você.
Tem uma granada nele...
então teremos que trocá-la por uma turquesa...
que é a sua pedra preciosa.
Posso ficar com as duas pedras?
- Com a granada também? - Rhoda!
Que jeito de se comportar...
Mas claro que você pode!
Que maravilhoso conhecer uma menina tão sincera.
Ela sabe o que quer e não tem vergonha de pedir.
Não é como essas garotas todas comportadas...
que precisam fazer análise...
antes de escolherem um sorvete.
Tia Monica, como você é querida!
Querida, eu sei que sou antiquada...
mas eu pensava que crianças usavam jeans...
ou roupas de brincar para ir a piqueniques.
Você, meu amor, parece uma princesa...
nesse vestido vermelho e branco.
Você não tem medo de sujá-lo...
ou de cair e arranhar seus sapatos novos?
Ela não vai sujar o vestido nem arranhar os sapatos.
A Rhoda nunca suja nada...
embora eu não saiba como ela consegue isso.
Não gosto de jeans. Eles não são...
Você quer dizer que eles não são muito femininos, não é?
Minha doce e antiquada queridinha.
Já posso ficar com o colar?
Fique com ele até eu encontrar um lugar onde trocar a pedra.
Vou guardá-lo na minha gaveta de tesouros.
Rhoda, já estamos saindo. O seu quarto está arrumado?
Sim, mãe.
Que pergunta desnecessária.
LeRoy.
LeRoy.
Sim, Sra. Breedlove?
O que você pensa que está fazendo?
Apenas tentando adiantar minhas tarefas, senhora.
Bem, toque a campainha antes e espere.
Se ninguém atender, então entre com a sua chave.
Bom dia, Sra. Penmark, esqueci meu pano e balde...
depois de lavar as janelas ontem.
Certo, Leroy, estão no banheiro.
Ele sempre entra desse jeito?
Só quando estamos por perto, eu acho...
para mostrar seu individualismo.
O LeRoy é inofensivo.
Tem a cabeça de uma criança, mas conseguiu formar família...
então não o mando embora.
Monica.
Olá, Srta. Insolência.
Quando eu estudava, não havia piqueniques.
Não me interessa o que você não tinha.
Nós já vamos, querida.
Só quero antes fazer esse cheque para a Srta. Fern.
Sim, mãe.
Com licença.
Você parece o Fred Astaire sapateando pela sala.
O que você pôs nos seus sapatos?
Eu uso muito os calcanhares...
então mamãe quis que colocassem essas placas de metal...
para eles durarem mais.
Acho que não posso levar crédito por isso.
A idéia foi toda da Rhoda.
Acho que elas são ótimas, economizam dinheiro.
Que menina esperta!
Você pensa em tudo, leva tudo tão a sério.
Por isso pensei que hoje você...
merecia alguns presentes.
Você queria muito ganhar a medalha de caligrafia, não é?
É a única medalha de ouro que a...
Srta. Fern dá, e eu a merecia!
Todos sabiam que tenho a melhor letra...
eu deveria ter ganhado.
Não entendo por que a Claude Daigle ganhou a medalha.
Rhoda.
Essas coisas acontecem a todo momento...
e quando acontecem, nós simplesmente as aceitamos.
Já te disse, querida, tente esquecer isso.
Desculpe, sei que você não gosta de ser paparicada assim.
Era minha! A medalha era minha!
Você perdeu todo o juízo?
- Olhe como ficaram os sapatos dela. - Perdão, Sra. Breedlove...
mas ela tinha que sair correndo...
justo quando eu estava... - LeRoy!
Desculpe, senhora.
LeRoy, sou dona desse lugar.
Eu te emprego...
e te dei um voto de confiança por você ter uma família.
Eu te considerava emocionalmente imaturo...
descontrolado, um tanto psicopata.
Mas agora creio que meu diagnóstico foi leve demais.
Você é mesmo um esquizofrênico com tons de paranóia.
Cansei de seu jeito indelicado e desagradável...
e meus inquilinos tem a mesma opinião.
Meu irmão já quis te despedir.
- Eu te defendi, mesmo apreensiva... - Monica...
- Não vou mais te proteger... - Monica.
Não foi proposital, foi apenas um acidente.
- Claro, foi... - Foi de propósito, conheço o LeRoy.
Não foi acidental, Christine.
Foi deliberado, um ato rancoroso de uma criança neurótica.
Ele realmente quis fazer isso.
Você viu tudo de relance.
- Rhoda, quero que você... - Você se decidiu num piscar de olhos!
Nunca! Sou apenas desastrado.
Minha paciência está se esgotando, é bom você saber.
Agora volte ao trabalho!
A manhã está agradável demais para se ficar discutindo.
Não se esqueça do nosso almoço com Reggie Tasker.
Nossa, ainda nem fiz meu pedido.
E o que se serve para um criminologista?
- Ácido, vitríolo azul, vidro moído. - Comida para dias quentes.
Nada poderia machucar o Reggie.
Ele germina entre rios de sangue e morte.
Até mais, querida, tenha um belíssimo dia.
Tchau, tia Monica.
Essa sabichona Monica Breedlove.
Pensa que é a única que sabe das coisas.
Bem, ela não tem muito tempo pela frente mesmo.
Está praticamente pronta para bater as botas.
Mas aquela jovem, atraente Sra. Penmark...
pode se sentir meio sozinha com o soldadinho dela longe.
Sim, pode sim.
E aquela Rhoda é muito esperta.
É uma garotinha esperta.
Quase tão esperta quanto eu.
Ela conhece minhas intenções, e eu, as dela.
Me irrita, mas é esperta.
PERIGO: NÃO CHEGUE PERTO DA ÁGUA
Jenny Furst, volte já aqui!
- Quero ver... - Não pode chegar perto da água.
Lembrem-se todos! Vocês não podem ir naquele píer...
nem perto das docas!
- Sra. Penmark, que esplêndido! - Bom dia, Srta. Fern.
- Bom dia, Srta. Fern. - Bom dia, Rhoda.
- Foi uma reverência perfeita. - Obrigada.
Vá brincar com os outros, quero conversar com a Srta. Fern.
- Sim, mamãe. - Isso é, se você tiver um minuto.
Bem, estamos um pouco atarefados essa manhã.
Mas, claro, Sra. Penmark...
podemos conversar enquanto enfeito as mesas?
Sim, é claro.
A propósito, Srta. Fern...
eu trouxe o cheque do último semestre. Aqui está.
Obrigado.
Enfim, é sobre a Rhoda, naturalmente...
Seja franca comigo, Srta. Fern...
Ela é sempre tão perfeita em tudo como foi nessa reverência?
Ela faz tudo extremamente bem...
você deve saber melhor do que eu.
E no pessoal, ela se entrosa bem na escola?
Deixe-me pensar. Em que sentido, Sra. Penmark?
A Rhoda tem sido...
não sei muito bem como dizer isso...
mas ela tem uma maturidade que é perturbadora em uma criança...
e meu marido e eu pensamos que uma escola como a sua...
onde se exalta a disciplina e as virtudes tradicionais...
poderia talvez ensiná-la a ser mais como uma criança.
Sim, entendo o que está dizendo.
As outras crianças gostam dela? Ela é popular?
As outras crianças?
Com certeza, Sra. Penmark.
Bem, realmente preciso dar início as coisas por aqui.
- Me daria licença? - Sim, por favor. E obrigada.
Mas eu o conheci. Conheci o Freud!
Ninguém acredita em mim quando digo que conheci Sigmund Freud.
Eles só não acreditam que você seja tão velha, irmãzinha.
De qualquer forma, não foi o Dr. Freud quem me analisou.
Foi o Dr. Kettlebaum, em Londres.
A Monica se deitou em divãs de New York a Los Angeles.
E qual foi o veredicto do Kettlebaum?
Ele disse que meu problema era associar idéias...
com palavras e nomes.
Meu casamento com Fred Breedlove, por exemplo.
Ele disse que casei por causa da combinação de idéias...
que seu nome sugere.
A última sílaba, "love", amor...
romântico, eterno...
e a primeira sílaba, "breed", procriar, inspirar...
Ficou meio óbvio, não é?
- E o resultado da análise? - Acabou com meu casamento!
Quando expliquei isso ao meu marido, ele ficou tão confuso...
entre suas duas sílabas...
que simplesmente desistiu.
Vamos nos sentar na sala e fugir das sessões de análise.
Ou pelo menos ficar confortáveis.
Vamos lá, Reggie, divirta-nos com sua obra mais recente.
O que sua escrita sanguinária está prestes a desvendar?
Estou coletando dados sobre a Sra. Allison.
O News Budget quer um artigo sobre ela.
Aquela enfermeira que matou todas aquelas pessoas?
Ah sim! Aquela mulher fascinante e paranóica!
Christine, escute!
Sim, a Sra. Allison era uma personalidade peculiar.
Ela se livrou de nove pacientes...
pelo seguro de vida deles, usando diferentes tipos de venenos.
Você leu sobre ela nos jornais, não foi, Sra. Penmark?
Por cima, apenas.
Eu costumo fugir de leituras sobre esses assuntos.
Mas esse é um bloqueio mental bastante interessante.
Por que a Christine não gosta de ler sobre assassinatos?
Não sei, tenho aversão à violência de qualquer tipo.
Odeio até o revólver que o Kenneth mantém em casa.
Você odeia o revólver mais do que odeia o veneno?
Odeio ambos.
Talvez se você tentasse dizer a primeira coisa...
que Ihe viesse à cabeça, poderíamos trabalhar essa ansiedade.
Diga, mesmo que Ihe pareça uma bobagem.
Conte sua história, Reggie, e ela fará associações.
- Que coisa mais sem sentido! - Como assim, "fazer associações"?
Apenas pense em voz alta, porque tudo que Ihe vier à cabeça...
será uma idéia associada.
Bem, eles finalmente pegaram a Sra. Allison...
quando ela envenenou seu pai de 80 anos...
colocando arsênico em seu leite.
- Pronto, diga algo agora. - Mas o quê?
Agora me sinto praticamente um imbecil.
Olá, passarinho lindo!
Faça a sua parte direitinho e, em vez da sua comida habitual...
o tio Emory vai te dar um pedaço de Dr. Kettlebaum.
Emory.
Vamos lá, Christine, não importa o quanto pareça bobo.
Naquele exato momento, eu estava pensando que...
tirando o Kenneth, meu pai é o homem mais importante...
de todo o mundo.
- É uma bobagem? - Não, certamente não.
- Seu pai não é Richard Bravo? - Sim.
Aí está um homem que sabe escrever.
Aqueles artigos publicados do Pacífico durante a guerra.
Tenho muito orgulho dele.
O país inteiro tem, mas ainda não descobrimos nada.
Continue a sua história, Reggie.
Acho que podemos mudar de assunto.
Está bem, aí mesmo. O que isso te sugere?
Não muita coisa, pois ainda estou pensando no meu pai.
Em quê, especificamente?
Sem poupar detalhes.
O que eu estava pensando é ainda mais bobo.
Sempre tive a sensação de que fui adotada...
e que os Bravo não são meus pais biológicos.
Pobrezinha, como é inocente!
Você não sabe que a fantasia de ser filho adotado...
é a mais comum durante a infância?
Veja só, eu já acreditei que havia sido achada...
e que era de linhagem real.
Acho que dos Plantagenet.
E Emory, vejamos, Emory era...
Eu era um esquilo.
Você sempre teve essa suspeita...
- de que você foi adotada? - Sim, sempre.
- Mas sem evidências. - Apenas nos meus sonhos.
Que tipo de sonhos?
Monica, francamente. Preciso contar meus sonhos, também?
É tudo tão bobo que sequer falei disso com Kenneth.
A moça que leva o troféu de campeã...
é aquela sobre a qual você escreveu no seu primeiro livro.
Aquela que fez de tudo e que não conseguiram condenar.
Você quer dizer Bessie. Bessie Denker.
A mulher mais surpreendente da história dos homicídios.
Era linda, inteligente...
impiedosa, e nunca usava o mesmo veneno duas vezes.
Seu pai, por exemplo, morreu de raiva...
supostamente transmitida por um cachorro infectado.
E aconteceu que Bessie herdou todo seu dinheiro.
Você disse Bessie Denker?
Sim.
Agora sim, parece que chegamos a algum lugar.
Uma assassina, venenos, etc. E tal.
Isso é ridículo, Monica.
Venha, vamos limpar a mesa.
Você ainda planeja ficar por alguns dias para pescar?
Eu adoraria, mas não quero te incomodar.
Pra mim, qualquer desculpa vale para uma pescaria.
Vamos ouvir a previsão do tempo para amanhã...
e se o rio refletir um azul saudável...
...há muitos anos não acontece algo tão importante...
no campo dos negócios estrangeiros.
Essas foram todas as notícias internacionais.
Agora, vamos ver a previsão local do tempo.
Para amanhã e...
Interrompo essa transmissão para...
Solicitaram-me que informasse...
que uma das crianças participantes do piquenique anual...
da Escola de Campo Fern...
se afogou acidentalmente na baía próximo ao meio-dia.
O nome da vítima será mantido em sigilo...
até sua família ser notificada.
Em breve teremos mais notícias desse trágico acidente.
- Monica! - Não foi a Rhoda.
A Rhoda é uma criança muito autoconfiante.
Deve ter sido algum jovem tímido...
com medo da própria sombra.
- Com certeza não foi a Rhoda! - Emory, por favor!
Voltamos à previsão do tempo. Na região...
O que estou esperando...
Agora temos a história completa do afogamento.
Fomos autorizados a divulgar o nome da vítima.
Foi Claude Daigle, de 8 anos...
filho único do casal Henry Daigle...
residentes da Rua Willow, 126.
Ele parece ter caído do píer abandonado...
na propriedade dos Fern.
É um mistério como ele foi parar lá...
já que as crianças foram proibidas de brincar na região.
Seu corpo foi encontrado no fim da plataforma...
preso entre as vigas de madeira.
O guarda que resgatou o corpo...
fez respiração boca a boca, mas não adiantou.
Havia hematomas na testa e nas mãos...
mas se presume que foram causados...
pelo bater do corpo contra as vigas.
E agora prosseguimos com a previsão do tempo.
Chuvas espalhadas...
Ah, pobre menino, coitadinho!
Eles mandarão as crianças para casa, imediatamente.
Elas devem estar a caminho nesse instante.
Não sei o que dizer a ela.
A Rhoda tem 8 anos. Lembro de não saber o que era a morte...
ou ter contato com ela até ser bem mais velha.
Uma professora que eu adorava morreu.
Todo meu mundo mudou e escureceu.
Monica, o ônibus acabou de chegar.
Não sei o que dizer a ela.
Isso é entre você e a Rhoda. Ninguém pode ajudar.
Suponho que sim.
Eu até iria com você, querida...
mas em momentos assim é melhor deixar mãe e filha a sós.
Querida!
Mãe, não tivemos nosso almoço...
porque o Claude Daigle se afogou.
Eu sei. Ouvi pelo rádio.
Ele se afogou, então todos estavam correndo e gritando...
para tentar ressuscitá-lo, mas não conseguiram.
Então encerraram o piquenique e nos mandaram pra casa.
Estou feliz por você ter voltado.
Então me prepara um sanduíche e um copo de leite?
Rhoda, você chegou a vê-lo?
Sim, é claro. Então colocaram um cobertor sobre ele...
Não, você o viu sendo tirado da água?
Sim, deitaram-no na grama e tudo mais...
mas não funcionou.
Meu bem...
Quero que você tente apagar essas imagens da sua cabeça.
Não quero você preocupada ou assustada com isso.
Essas coisas acontecem com a gente às vezes...
e quando acontecem, nós apenas as aceitamos.
Ah, mas eu achei empolgante!
E meu sanduíche de manteiga de amendoim?
Sim... sim, querida, é claro.
Vou já prepará-lo pra você.
LeRoy.
Estou tirando o lixo, Sra. Penmark.
Está bem.
- Pensei em ir patinar depois. - Está bem, querida.
Horrível o que aconteceu hoje cedo na escola, não, Sra. Penmark?
Sim, Leroy, foi muito triste.
Dizem que quando encontraram o garoto...
Sim, Sra. Penmark.
Agora, Rhoda...
Você está reagindo muito bem a tudo isso...
mas ainda se trata de algo péssimo de se ver e lembrar.
Entendo como você se sente, querida.
Não sei do que você está falando.
Não me sinto nem um pouco diferente.
Você fez algo ruim?
Não, mamãe!
O que você me dá em troca de um monte de beijos?
Eu te dou um monte de abraços!
Quero terminar meu sanduíche enquanto patino, mãe.
Bem, então vá.
Como você consegue patinar e se divertir...
quando seu amiguinho ainda está úmido do afogamento?
Pra mim você deveria estar em casa, chorando sem parar.
Ou então na igreja, acendendo uma vela.
Eu acho que você nem sente pena...
pelo que aconteceu com aquele garotinho!
E por que deveria sentir?
Foi o Claude Daigle que se afogou e não eu.
Você não tem medo de nada?
Vou encontrar um jeito de te assustar.
O cavaleiro mal tinha dado os primeiros passos...
quando viu, junto ao caminho...
uma bela moça que estendeu uma toalha sob um carvalho...
sobre a qual colocou...
bolos, guloseimas variadas...
e um grande jarro...
com duas taças de prata... "
- Mamãe. - O quê?
Por que você parou de ler?
Ah, estava só pensando aqui.
No que, no acidente?
Em parte. Também em um telefonema que não consegui completar.
O que são bolos e guloseimas variadas?
São coisinhas doces de comer, entende?
Bolos, guloseimas e um jarro com duas taças.
Cavaleiro... ela disse: VVVenha comer...
e beber comigo, pois você está com fome e sede, e eu, sozinha.
Tomou suas vitaminas, querida?
Sim, tomei uma antes. Essa é a segunda.
Estava guardando, pois adoro o suco.
- Vou fechar os olhos sem dormir. - Sei.
E o cavaleiro respondeu...
Obrigado, amável dama, não estou só com sede e fome...
mas também me perdi na floresta'.
Deixou então o cavalo pastando nas redondezas...
e comeu com a dama, que Ihe Iançava doces olhares...
mais doces que o vinho, que já era bem doce e forte.
E assim o tempo passou...
até que a luz abandonou o bosque e tudo escureceu.
E ele percebeu que o pavilhão não esteve lá durante o dia...
mas que havia se originado...
da escuridão...
como que por magia".
Rhoda.
- Posso entrar, Sra. Penmark? - Claro, Srta. Fern.
Eu ia visitá-la, recebi seu recado.
Estamos em estado de angústia, todos na escola.
Foi um golpe devastador, perder uma das crianças assim...
- Eu sei... - Sei que vai nos perdoar...
por estarmos remoendo esse assunto.
Acho que todos estão preocupados, perplexos e entristecidos.
Creio não ter conhecido outro evento que intrigasse...
a tantas pessoas de formas tão variadas...
e eu posso ajudar apenas algumas delas.
Acabei de visitar a Sra. Daigle.
Logicamente, ela é nossa principal preocupação.
O resto de nós não foi tão afetado por essa tragédia.
- Já ela carregará isso por toda vida. - Eu sei.
Já a visitei inúmeras vezes...
e toda a vez ela me pede para perguntar a você...
se tem idéia de onde possa...
estar a medalha de caligrafia.
Foi perdida?
Sim, ela não estava com o corpo e desapareceu por completo.
Eu não sabia disso.
- Bom dia, Srta. Fern. - Bom dia, Rhoda.
Mãe, posso me sentar embaixo da árvore...
e ler meu livro?
- Claro, Rhoda. - Tem bastante sombra lá...
e posso ver sua janela, você pode me observar de lá...
e eu gosto de estar onde você possa me observar.
É um livro novo?
Elsie Dinsmore', o que ganhei...
como prêmio na escola dominical.
- Estarei aqui. - Vou ficar lá o tempo todo.
Adeus, Srta. Fern.
Me ocorreu que Rhoda possa ter contado a você...
detalhes que tenha se esquecido de contar pra mim.
Ela foi a última a ver o filho dos Daigle vivo.
- Você tem certeza disso? - Sim.
- Não tinha percebido... - Várias vezes durante a manhã...
precisaram impedir que a Rhoda perseguisse o Claude...
tentando arrancar a medalha dele.
Ela ficava dando puxões...
até ele ficar muito chateado e começar a chorar.
Sinto muitíssimo por ouvir isso.
Mas, quando você diz que a Rhoda foi a última...
- a ver o pequeno Daigle vivo... - Sim.
Pouco antes de o corpo do Claude ser encontrado...
o salva-vidas viu a Rhoda saindo do cais.
Ele a advertiu, mas nessa hora ela já estava na praia...
voltando para o grupo principal.
Então, ele resolveu deixar pra lá.
O guarda não soube dar o nome da garota...
mas disse que usava tranças louras e um vestido vermelho.
E Rhoda era a única de vestido naquele dia.
À 1:00 da tarde o sinal do almoço tocou...
e na hora da chamada, Claude não estava presente.
- Você sabe o resto da história. - Sim, mas isso é bastante sério.
- Se Rhoda estava no cais... - Não é tão sério assim, na verdade.
Crianças costumam esconder coisas dos adultos.
Suponhamos que Rhoda tenha seguido Claude até o píer.
Podem ter ocorrido várias coisas, mesmo inocentes.
Ele pode ter se escondido nas docas...
e, quando descoberto, ter se afastado da Rhoda...
e caído na água.
Isso pode ter acontecido, mas eu não...
Mais tarde, quando não havia mais o que fazer...
ela estava com medo de contar o que aconteceu.
Então, você acredita que haja algo que ela não queira admitir.
Sim, como inúmeros soldados assustados já fizeram...
ela desertou em meio à guerra.
Não é um delito grave.
Poucos são os corajosos em momentos difíceis.
Sim, mas mesmo assim, ela mentiu.
E há algum adulto que nunca mentiu?
Não faça essa cara fechada, minha querida.
Você é muito mais bonita sorrindo.
Bem, vou perguntar para a Rhoda.
Espero que sim, mas duvido que você consiga algo novo.
Srta. Fern, tem algo que eu queria te perguntar.
Houve uma coroa de flores para o Claude...
enviada pelas crianças da Escola Fern.
Presumo que as crianças ajudaram com os gastos...
mas ninguém me pediu pra pagar a minha parte.
Eu sei, querida.
Pensamos que você mandaria flores separadamente.
E por que eu mandaria flores individualmente?
Rhoda não era amigável com o garoto...
e eu e meu marido nem conhecemos os Daigle.
Não sei, minha querida. Sinceramente...
Somos três na escola. Na pressa de tomar decisões...
Você inventa desculpas para a Rhoda, mas admite...
que não me pediu para pagar pelas flores da escola.
E as razões que você me deu não são convincentes.
Isso significa que, para você e suas irmãs...
existe alguma conexão...
entre a morte do garoto e a presença da Rhoda no píer?
Eu me recuso a acreditar nisso.
- Mas suas ações indicam que sim. - Sim, é possível.
É possível...
Srta. Fern, trata-se de uma tragédia...
terrível para a Sra. Daigle.
Como você disse, ela perdeu seu único filho...
mas se Rhoda tiver que viver sob a sombra dessa suspeita...
eu estarei na mesma situação...
e meu marido, também.
E Rhoda não seria feliz em sua escola no próximo ano!
Não, ela não seria.
E já que ela não seria...
também seria bom decidirmos agora...
que ela não estará lá.
Então, a sombra realmente existe!
Vocês já haviam decidido que ela não voltaria.
- Sim, tomamos essa decisão. - E pode me dizer o por quê?
Acho que a atitude dela no caso da...
medalha é motivo o suficiente.
Ela não sabe jogar limpo. Não aceita a derrota, não gosta de...
Certamente você não quer dizer que Rhoda teve...
a ver com a morte do filho dos Daigle.
Claro que não.
Tal possibilidade jamais nos ocorreu.
Preciso atender.
Claro, minha querida.
Obrigado, somos os Daiglen, não precisava nos deixar entrar.
Você sabe que te seguimos.
Não deveríamos ter feito isso, estou meio bêbada.
Acho que você nunca fica meio bêbada.
Vocês são muito bem-vindos, ambos.
Não preste atenção nele.
Ele é cheio de boas maneiras, tentou me impedir de vir.
Como vai, Sra. Penmark? Você sempre teve de tudo.
Você é uma pessoa superior...
- Não, não sou. - Sim.
Seu pai é rico. O rico Richard Bravo.
Eu sei. Famoso.
Eu, trabalhei em um salão de beleza.
A Srta. Fern era cliente lá, ela me menospreza.
- Por favor, Sra. Daigle... - Eu era aquela loira falsa.
Agora perdi meu filho e sou uma bêbada. Todos sabem.
Estamos preocupados com a Sra. Daigle.
Ela está sob tratamento médico, não tem sido ela mesma.
Mas eu sei que tenho sido praticamente a mesma.
Praticamente a mesma!
Posso te chamar de Christine?
Sei que você é de um círculo mais elevado da sociedade.
Você deve ter debutado e tudo mais.
Sempre considerei Christine um nome delicado.
Hortense soa grosseiro.
Essa sou eu, Hortense.
E cantavam pra mim: "Minha garota Hortense...
é meio pirada, vamos escrever seu nome na tampa da privada".
Crianças podem ser más, não acha?
Por favor, Hortense.
Você é muito atraente, Christine.
Tem um gosto requintado para roupas.
Lógico, tem muito dinheiro para comprá-las.
E o motivo para eu ter vindo até aqui...
Perguntei a Srta. Fern sobre a medalha do Claude...
mas ela não me disse nada...
- Eu não sei... - Você sabe de mais coisas.
Você se esquiva assim por causa da escola.
Não quer arranhar a reputação da escola.
Você está escondendo o jogo, Srta...
Não-Faço-Mal-a-Ninguém" Fern.
Tem algo curioso nisso tudo.
Disse isso várias vezes ao Sr. Daigle.
Ele se casou meio tarde, já depois dos 40.
Claro...
eu também já não era aquela moçoila saltitante.
Não vamos mais ter filhos.
Nunca mais.
Por favor, Hortense, vamos pra casa pra você descansar.
Descansar? Dormir?
Se você não consegue dormir à noite, quem dirá durante o dia.
Apenas deito e olho para a água em que ele se afogou.
Christine, tem algo curioso nisso tudo.
Soube que sua filha foi a última a vê-lo vivo.
Você poderia perguntá-la sobre esses últimos minutos...
e me contar depois? Quem sabe ela lembre de algum detalhe.
Não me importa o quão pequeno seja.
Por menor que seja.
Sabem de uma coisa?
A Srta. Fern pinta o cabelo.
Ela sabe de algo, mas não vai me contar.
Meu pobre Claude, o que eu fiz a você?
Christine, alguém pegou a medalha dele.
Não pode ter caído porque eu mesmo a prendi...
e atrás havia um fecho com um lacre. Não foi acidental.
Você pode usar coisas singelas assim, não é?
Eu nunca pude usar coisas singelas.
Eu nem conseguia comprá-las.
Quando chegava em casa, elas não pareciam mais singelas.
Ele era um garoto tão meigo e adorável.
Ele dizia que eu era seu amorzinho...
e que quando ele crescesse, iríamos nos casar. Eu ria.
Você vai me esquecer muito antes disso.
Vai encontrar uma moça mais bonita e se casar com ela".
E você sabe o que ele respondia?
Não, não vou...
porque não há no mundo garota mais bonita do que você".
Se não acredita, pergunte à mulher que faz a faxina.
Ela estava lá na hora.
Por que você está me abraçando?
Você está pouco se lixando comigo.
Você é superior e tudo mais. E eu...
Por Deus!
Ele tinha hematomas nas mãos...
e uma marca peculiar em formato de meia-lua na testa...
que o coveiro tratou de cobrir.
Ele deve ter sangrado antes de...
morrer. Foi o que o doutor disse.
E onde está a medalha?
Quem pegou a medalha?
Eu tenho o direito de saber o que...
houve com a medalha de caligrafia!
Se eu soubesse, teria mais certeza do que houve com ele.
Eu sei porque você veio me abraçar!
Sou tão boa quanto você! O Claude era melhor que sua filha!
Ele que ganhou a medalha, e não ela!
Estou bêbada.
É um prazer ficar bêbada quando seu filho foi morto.
Talvez seja melhor eu me deitar.
Vamos para casa, lá você pode se deitar.
Por que não?
Por que não ir para casa e me deitar?
- Até mais. - Perdão.
Quem se importa com o que eles pensam?
Bebi meia garrafa de whisky aos...
golinhos, estou no meu limite.
Pobre mulher!
Voltarei para a escola.
Obrigada pela paciência comigo e com ela.
Falarei com a Rhoda.
Sei que não há como consolar aquela pobre criatura...
mas farei todo o possível.
Ambas devemos fazer o possível.
- Até logo, Sra. Penmark. - Até logo, Srta. Fern.
Ela terá de conviver com isso até a morte.
Sim, até a morte.
Obrigada.
- Rhoda. - Sim, mamãe?
Pode vir aqui um pouco, por favor?
Posso terminar essa página antes?
Tudo bem, mas depois preciso falar com você.
Sim, mamãe.
Alô?
Sim, é ela.
Kenneth?
Amor, estou tão contente que você tenha ligado!
Meu bem, que acidente foi esse na escola da Rhoda?
Esse em que o garoto se afogou?
O garoto que se afogou?
Isso afetou a Rhoda de alguma forma?
Não, ela continua a mesma de sempre.
Ela está lá fora onde posso vê-la. Acabei de falar com ela.
Sinto saudade de vocês duas, e as amo demais.
De verdade, querido?
Espero que você não demore muito.
Umas quatro semanas, no mínimo.
Quatro semanas é muito tempo.
Escreva-me enquanto...
Kenneth.
Sim, querida?
Eu te amo.
Cel. Penmark, o General está esperando.
Já estou indo.
Amor, o General acaba de me chamar.
Tudo bem, querido, não o faça esperar.
Até mais, querida. Mande beijos para a Rhoda.
Até mais.
Monica!
Não se preocupe, é rápido. Não será outra sessão psiquiátrica.
Entre, por favor.
Vim pelo relicário de Rhoda.
Encontrei um lugar onde farão a troca e limpeza da pedra.
Vou pegá-lo então. Sei onde ela o guarda.
Deve estar na caixa de tesouros. - Ótimo.
Tive de pressioná-los para que aceitassem.
- Na verdade, precisei ameaçá-los. - Sério?
Você não conhece essa velha intrometida.
Usa de tudo: Pressão, influência suborno, chantagem.
E lancei mão de todo meu repertório no Sr. Finchley.
Ele disse que levaria pelo menos duas semanas.
Mas não demorei em mencionar...
que estou no comando da tesouraria da comunidade de novo este ano.
Você achou. Que encantador!
Ela guarda suas coisas com tanto cuidado.
Um prazer meio avarento.
- Devo embrulhar? - Não, não precisa.
Vou colocar na bolsa mesmo.
Meu horóscopo diz que hoje devo ficar atenta aos...
pequenos objetos...
e a concluir minhas tarefas. Agora eu vou, Christine.
Perdoe-me por essa correria toda.
Não faça cerimônia, por favor.
Não, querida. Até mais.
Por que você queria me ver, mamãe?
Então, a medalha estava com você o tempo todo.
- A medalha do Claude Daigle. - Onde você a achou?
Como a medalha de caligrafia...
foi parar embaixo do forro, dentro da sua caixinha de tesouros?
Agora eu quero a verdade.
Mãe, quando nos mudarmos para a casa nova...
podemos ter uma árvore?
Podemos? Faz muita sombra e é bonita.
- E adoro sentar debaixo... - Responda minha pergunta!
E lembre-se de que sei mais sobre o piquenique do que você imagina.
A Srta. Fern me contou várias coisas.
Então, não invente histórias para me agradar.
O que a medalha do Claude fazia na sua gaveta?
Ela com certeza não chegou lá sozinha.
Estou esperando sua resposta.
Não sei como a medalha foi parar lá, mãe.
Como eu poderia saber?
Você sabe muito bem como a medalha foi parar lá.
Você foi ao píer alguma vez durante o piquenique?
Sim, mãe, fui lá uma vez.
E foi antes ou depois de você importunar Claude?
Eu não estava importunando o Claude, mãe!
- De onde você tirou isso? - Por que você foi ao píer?
Era bem cedo quando fomos a primeira vez.
Por que você foi lá? Você sabia que era proibido!
Um dos meninos mais velhos disse que...
havia ostras crescendo nas vigas.
Só quis ver se era verdade.
Um dos guardas disse ter visto você saindo do píer...
pouco antes da hora do almoço.
Não sei por que ele disse isso.
Ele está errado, e eu disse isso para a Srta. Fern.
Ele me avisou para sair do píer, e eu saí.
Voltei ao gramado, e foi aí que vi o Claude...
mas eu não estava importunando ele.
O que você disse ao Claude?
Disse que apesar de eu não ter ganhado a medalha...
me alegrava o fato de ele ter ganhado.
Rhoda, por favor! Sei que você é uma mentirosa hábil...
mas preciso saber a verdade.
Mas essa é a verdade, cada palavra!
Me disseram que viram você tentando...
arrancar a medalha da camisa do Claude.
É tudo verdade, cada palavra?
Ah, isso quem disse foi uma das monitoras...
aquela grandona, Mary Beth Musgrove.
Ela disse a todos que me viu.
Até o LeRoy sabe que ela me viu.
Claude e eu só estávamos brincando de algo que inventamos.
Ele disse que se eu conseguisse pegá-lo em 10 minutos...
e tocasse a medalha com a mão, seria como pega-pega.
Ele me deixaria usar a medalha por uma hora.
Como a Mary Beth pode dizer que peguei a medalha?
- Eu não peguei. - Ela não disse que você pegou.
Disse que você tentou pegá-la, e...
que o Claude correu até a praia.
- Você já estava com a medalha? - Não mãe, não ainda.
- Então como você a conseguiu? - Foi depois.
Como?
O Claude voltou atrás com a promessa dele.
Então eu o segui até a praia.
Ele parou e disse que eu poderia usar a medalha o dia todo...
se eu Ihe desse 50 centavos.
Pare com isso!
- Essa é a verdade? - Sim, mamãe.
Dei os 50 centavos e ele me deixou usar a medalha.
Por que não contou isso a Srta. Fern quando ela perguntou?
Mamãe, a Srta. Fern não gosta nem um pouco de mim!
Achei que ela pensaria coisas más de mim se soubesse...
que eu estava com a medalha.
Rhoda, me escute.
Você sabia o quanto a Sra. Daigle queria essa medalha, não é?
Sim, mãe, acho que sim.
Por que então você não a deu para ela?
Ela perdeu seu filhinho, Rhoda.
Ela está triste demais. Pode ser que ela nunca supere isso.
Isso pode ter acabado com ela.
Você sabe o que quero dizer?
Sim, mãe, acho que sim.
Não, você não sabe.
Mas foi bobagem querer enterrar a medalha junto com o Claude.
O Claude estava morto.
Não teria como ele saber se a medalha estava com ele ou não.
Eu tenho a mãe mais linda.
Eu tenho a mãe mais legal.
Digo isso para todo mundo.
Digo que tenho a melhor mãe do mundo.
Se ela tanto quer um filhinho...
por que ela não pega um no orfanato?
Rhoda! Afaste-se de mim! Não fale mais comigo!
- Não temos mais o que conversar. - Está bem, mãe.
Rhoda, quando morávamos em Wichita, havia uma idosa...
que vivia no andar de cima, a Sra. Clara Post. Ela te adorava.
Toda a tarde você subia para visitá-la.
Ela te mostrava todas suas preciosidades.
Sua preferida era uma bola de cristal que...
tinha um peixinho flutuando.
A Sra. Post prometeu deixá-la pra você quando morresse.
E numa tarde, quando a filha saiu para fazer compras...
e você estava sozinha com a senhora, ela caiu da escada...
e quebrou o pescoço. Você disse que ela ouviu um gato miar...
e, ao ir verificar, acabou pisando em falso...
e rolando por cinco lances de escada até o jardim.
- Verdade. - Mais tarde, você pediu a bola...
de cristal para a filha dela, e ela deu pra você.
- Está ali, sobre sua cômoda. - Sim, mamãe.
Rhoda, você teve algo a ver...
por mais insignificante que seja...
Você teve algo a ver com o afogamento do Claude?
- O que te faz perguntar isso, mãe? - Venha cá.
Olhe-me nos olhos e me diga a verdade...
- porque eu preciso saber! - Não, mãe, não tive nada a ver!
Você não vai voltar à Escola Fern ano que vem.
- Não te querem mais lá. - Está bem.
Ligarei para a Srta. Fern e pedirei pra ela vir aqui.
Não! Ela vai pensar que eu menti pra ela!
Mas você mentiu pra ela!
Mas não pra você, mãe! Não pra você!
Alô, Escola Fern?
Srta. Claudia Fern, por favor.
Não, não quero deixar recado.
Ela ainda não chegou em casa.
Mãe, o que você vai fazer com a medalha?
Ela é minha, de verdade.
Rhoda, venha até aqui.
Isso não pode ser verdade.
$0.50, $0.75, $5, e $5 são $10. Muito obrigada, Coronel.
- E aqui o cartão para acompanhar. - Sim, Coronel.
Não vai quebrar durante o transporte?
Não, preencheremos com palha para proteger.
Bom. Obrigado.
Olha, um jogo de chá!
Acho que temos um papai que ama alguém.
O que está escrito no cartão?
Apenas porque ela é a menina mais doce do mundo.
Papai".
Olha, tem até uma chaleira.
Mãe, posso ir brincar com isso debaixo da árvore?
Quero fingir que estou dando uma festa no jardim.
Sim, amor. E, a propósito...
termine de abrir lá fora, tudo bem?
Essa palha está sujando tudo aqui.
E não jogue a caixa no incinerador, é muito grande.
Deixe junto ao porão que LeRoy cuida disso.
Sim, mãe.
Festinha no jardim. Ela não é uma menininha à moda antiga?
A propósito, senhorita, você já sabe que jantaremos juntas hoje?
Sério, tia Monica? Alguma ocasião especial?
Não, só convidei Reginald Tasker para beber algo.
Você lembra, Rhoda, que seu avô virá hoje à noite.
Vou jantar com ele, e será muito tarde pra você comer.
- Não foi gentil da tia Monica? - Claro, ela é muito querida.
E ficarei feliz de ver o vovô. Ele também é muito querido.
Queria que ela fosse filha minha!
Sempre que olho para ela, desejo...
ter uma filha assim.
Lá está ela em sua mesinha...
brincando com seus pratinhos...
tão doce e inocente...
parecendo tão inofensiva, ela é indiferente assim mesmo.
Ela pode enganar algumas pessoas com esse ar inocente...
pode tirar ou guardar o que quiser, ela não me engana.
Nem mesmo de longe ela me engana.
Você não quer conversar com ninguém esperto?
Gosta de conversar com as pessoas que ela consegue enganar...
como sua mãe, a Sra. Breedlove e o Sr. Emory.
Tome um pouco de palha aí. Você só fala besteiras.
Eu sei o que você faz com a palha.
Você fez uma cama...
no porão, atrás da velha fornalha...
e você dorme lá, onde ninguém te vê.
Até agora, eu estive meio fora de órbita...
mas hoje sei exatamente quem você é, senhorita.
Tenho ouvido coisas sobre você que não são boas.
Ouvi que você espancou aquele pobre menino no bosque...
e que foi preciso as três irmãs Fern para te tirar de cima dele.
E que você o fez correr até o píer, de tanto medo.
Dizendo mentiras assim, você não...
vai para o céu quando morrer.
Ouvi muitas coisas. Eu escuto as pessoas, diferente de você...
que fala toda hora sem deixar as pessoas responderem.
Por isso, eu sei o que todos estão dizendo e você não.
Pessoas mentem sempre, mas você é o mais mentiroso de todos.
Eu sei o que você fez no píer com aquele garotinho.
É melhor você me escutar se não quiser ficar encrencada.
Já que sabe tanto, o que eu fiz?
Você pegou um pedaço de madeira e bateu nele.
Fez isso, porque ele não queria te dar a medalha como você pediu.
Pensei ter visto meninas bem más na minha vida...
mas você é a pior de todas.
Quer saber como sei o quanto você é má?
Porque eu sou mau.
Sou esperto e mau.
E você é esperta e má também.
E nunca te pegam, assim como eu.
Eu sei o que você pensa.
Sei tudo o que pensa. Ninguém...
acredita em nada que você diz.
Quer saber o que você fez depois de acertá-lo?
Você arrancou a medalha da camisa dele, e o empurrou...
- para fora do píer. - Você não sabe de nada.
Nada disso é verdade.
É a verdade absoluta e você sabe que eu descobri.
Você descobriu algo que nunca aconteceu...
então é tudo mentira.
Agora leve a sua palha para o porão...
e durma nela enquanto você deveria estar trabalhando.
Você não é tola, isso posso dizer.
Por isso você não largou o pedaço...
Não.
Você é mais esperta do que isso.
Você pegou a madeira ensanguentada...
lavou-a muito bem e jogou-a no bosque...
- onde ninguém encontraria. - Sabe, te acho muito idiota.
Idiota foi você, achando que sangue...
sai fácil, mas não é bem assim!
Por que não dá para lavar sangue?
Porque não, e a polícia sabe disso.
Você pode lavar e lavar, mas sempre sobra algo.
Todo mundo sabe disso.
Vou ligar para a polícia e dizer...
para procurarem pela madeira no bosque.
Eles tem cachorros farejadores para ajudá-los.
Esses cachorros podem encontrar...
qualquer madeira que tenha sangue.
Quando achar a madeira que você lavou tão bem...
a polícia vai usar um pó especial nela.
O sangue daquele garotinho vai aparecer na madeira.
Vai aparecer em um azul bonito.
Você tem é medo da polícia.
Isso não é sobre mim, é sobre você.
Com o pó, eles vão te prender.
Rhoda, está na hora de entrar.
- Hora de se arrumar para o jantar. - Sim, mãe.
Estou varrendo a palha, Sra. Penmark. Está sujando o gramado.
- O que estava dizendo à Rhoda? - Nada, Sra. Penmark.
Estávamos falando sobre seu joguinho de chá.
Não fale com ela de novo, ou então me queixarei à dona.
Está claro?
Mas, senhora...
Fui eu que comecei, mãe, não foi culpa do LeRoy.
Certo, mas não volte a falar com ela.
- Entendeu? - Sim, senhora.
Mãe?
É verdade que, ao se lavar o sangue de algo...
um policial pode encontrá-lo mesmo assim?
Se ele jogar um pozinho no lugar...
esse lugar fica azul mesmo?
Quem te falou dessas coisas? Foi o LeRoy?
Não, mamãe, não foi ele.
Escutei uns homens falando disso...
lá fora, quando saí de manhã.
Eu não sei como isso funciona, mas...
posso perguntar ao Reginald Tasker.
- Ou à Srta. Fern, ela saberia. - Não, não pergunte a ela!
Mamãe, ninguém me ajuda!
Ninguém acredita em mim!
- Sou sua filhinha. - Rhoda, esse teatro não convence.
Você pode aperfeiçoá-lo e enganar quem não te conhece...
mas no momento está muito óbvio.
Talvez seja melhor eu subir e jantar com Monica.
Sim, ela disse a qualquer hora.
Boa noite, Sr. Tasker.
Você não pode mais voltar atrás, eu já estou aqui.
Estou muito feliz por você ter vindo.
- Esta é minha filha, Rhoda. - Olá, Rhoda.
- Ela não é encantadora? - Obrigada.
Isso é o tipo de coisa que faz um solteiro querer ser casado.
- Você gosta de reverências? - A melhor herança da Idade Média.
Vou jantar no andar de cima.
O azar é nosso, todo nosso.
- Pode ir agora, Rhoda. - Sim, mamãe.
Foi um prazer conhecê-lo, Sr. Tasker.
É um pequeno raio de sol, certamente.
E também uma tempestade.
Sem sombra de dúvida.
Mas só com aquele sorriso, ela fará um homem muito feliz.
Depois de falar com você, recebi um telegrama do meu pai.
Ele vem hoje à noite, faz um ano que não o vejo.
Richard Bravo virá hoje?
Sempre quis conhecê-lo.
Ele disse que logo estaria aqui, provavelmente pra jantar.
Ótimo! A propósito, estimada senhora...
se você precisa de conselhos sobre escrever algo, não...
precisa de mim.
Não com Richard Bravo em cena...
ainda mais se for um romance policial, como você disse.
Seu pai era uma autoridade em crime...
e horror no começo de carreira.
Eu sei.
Ele cobriu todos os casos famosos.
Acho que ele não me daria ouvidos.
Para um pai, você é sempre uma criança, não é?
- O que vai querer? - Gim tônica?
Ótimo, vou querer o mesmo.
A pergunta que eu queria te fazer é psicológica.
Duvido que tenha sido feita ou respondida até hoje.
Posso não saber todas as respostas.
Talvez não haja resposta...
mas esta história que quero escrever me fez refletir.
Diga-me, crianças podem cometer crimes...
ou o crime é algo aprendido gradualmente...
e vai crescendo junto com o criminoso...
à medida que só os adultos é que fazem coisas horrendas?
Sim, as crianças cometem crimes com frequência.
E crimes inteligentes, também.
Alguns homicidas, em especial os mais distintos...
os que vão deixar seus nomes para a posteridade...
- começam muito cedo. - Na infância?
Sim, como matemáticos e músicos.
Os poetas começam mais tarde.
Pascal era um exímio matemático aos 12 anos.
Mozart tinha 6 quando revelou seu gênio musical.
E alguns de nossos criminosos mais célebres, eram peritos...
antes mesmo de alcançarem a maturidade.
Sim, mas eles cresceram em favelas, entre criminosos...
um ambiente propício a esse aprendizado. Você...
Imagino se será papai.
- Papai! - Olá, querida.
Você está aqui, está realmente aqui!
Eu disse que viria.
Você disse que queria me ver, e eu queria te ver.
Estou tão feliz.
Pai, este é o Reginald Tasker.
Reginald Tasker?
- O colega escritor? - Acho que sou culpado.
- Um dos meus favoritos. - Sempre te ponho pra dormir?
Normalmente me tira o sono. Aliás, não estou esquecendo...
daquela pesquisa fantástica que você fez para o Clube do Crime.
Não se compara com o material...
de Richard Bravo que eles publicavam.
Aquele velho gagá?
Não, ele esgotou sua capacidade de escrever e falar.
Agora ele só perambula pelo país, em nome de...
uma pequena agência de notícias.
Tirei uma folga porque queria ver minha...
filha, que não vejo há muito tempo.
Onde está minha neta?
Está jantando lá em cima, papai.
- Ela logo descerá. - Está bem.
Sente-se.
Diga, há alguma razão pra eu não tomar um desse...
que o Sr. Tasker está tomando?
Papai, me desculpe.
Você vai querer outro também, não é?
Você chegou a considerar um retorno à criminologia?
Não houve alguém como você desde que saiu.
Deixando os elogios de lado...
meus últimos livros não venderam tão bem quanto os primeiros.
E a guerra começou, agora escrevo besteiras.
Você escreveu coisas que jamais serão esquecidas.
Tomara que sim.
Agora sua filha me confessou que quer tentar a carreira.
Como escritora? Ela sequer sabe soletrar.
Quando Kenneth se ausenta, fico solitária.
Pensei que eu poderia...
começar um romance policial durante as noites.
Você está encorajando essa enérgica concorrência?
Admito que eu não soube ao certo...
responder a primeira pergunta dela.
Ela me perguntou...
se crianças criminosas são sempre um produto do ambiente.
Essa não é difícil, elas são sim.
Sempre pensei assim, também.
Sempre.
Não poderia provar que você está errado, senhor...
mas alguns criminologistas, incluindo estudiosos...
do comportamento humano...
começaram a me fazer crer...
que damos muita importância à influência do ambiente...
e pouca à hereditariedade.
Eles citam um tipo de criminoso...
nascido incapaz de sentir remorso ou culpa...
sem noção de certo ou errado...
nascido com um cérebro que seria normal em humanos...
há 50 mil anos atrás.
Tolice!
Se há um humano sem compaixão, piedade ou moral...
ele cresceu onde essas qualidades não foram estimuladas.
Ou, ao nascer, ele teve...
lesões nos tecidos cerebrais.
Mas hereditário, nunca.
Para mim, isso é definitivo, o resto é conversa fiada.
E com isso, paro pra reabastecer.
Acabou o gelo.
Desculpe, papai, está na cozinha. Poderia trazer pra cá?
Claro que sim.
Você realmente quer dizer que uma boa estrutura familiar...
pode não fazer diferença?
Sim, como se essas crianças tivessem nascido cegas...
e não houvesse esperança de um dia fazê-las enxergar.
Seria visível alguma expressão maligna no rosto delas?
Algumas vezes, mas normalmente elas aparentam ser...
mais virtuosas do que as pessoas normais.
Mas isso é horrível!
Elas são sementes ruins...
ruins desde o princípio, e nada pode mudá-las.
Aquela sua assassina favorita...
aquela que você mencionou na outra vez, é um exemplo disso?
Bessie Denker? Se ela era uma semente ruim?
Sim, eu diria que sim...
pois quando divulgaram seu histórico completo...
viu-se que ela deve ter começado aos 10 anos de idade.
- Então, ela começou nova? - Sim.
Não é verdade, Sr. Bravo?
- O que é verdade? - Estávamos falando sobre a...
Bessie Denker.
Sei que você cobriu os julgamentos dela...
porque li seu famoso artigo sobre os métodos dela.
Esqueci tudo sobre esses casos tenebrosos.
Apaguei-os de minha memória.
Estou com a cabeça cheia por conta da minha série sobre petróleo.
Como tudo isso acabou?
Querida, você não quer mexer nesses cemitérios de absurdos.
Eu quero sim.
Kenneth e eu fomos a um jogo de beisebol no domingo.
- E o Mickey Mantle... - Papai, por favor.
Sr. Tasker, pode terminar a história?
- Ela alguma vez usou de violência? - Terminou misteriosamente.
Quando as autoridades pensavam tê-la cercado...
ela desapareceu, simplesmente sumiu.
Ela já tinha acumulado uma bela fortuna.
Há rumores que ela tenha ido para a Austrália.
Uma mulher semelhante surgiu em Melbourne.
Seu nome era Beulah Demerest.
Se foi a mesma pessoa, ela nem precisou mudar as iniciais...
na sua roupa e prataria.
Como ela pode matar tantos sem deixar rastros?
Sempre que era processada, ela fugia para algum lugar...
sem deixar absolutamente...
Espere um momento!
Ela não tinha uma filha, uma menininha?
Nunca ouvi falar. Devem ter...
acrescentado recentemente ao mito.
Tenho mais uma pergunta.
Nunca foi descoberta por aí?
Não neste país.
Três júris olharam para aquele rosto angelical...
ouviram sua voz suave e culta, e disseram...
- "Ela não pode ter feito isso". - Ela não foi condenada?
Inocente por três vezes.
Você acha que ela era uma dessas...
pobres crianças desprovidas de piedade?
Ela tinha...
Ela possuía um sorriso encantador?
Deslumbrante, segundo dizem.
- Era o destino dela? - Com certeza.
Destinada a cometer crime atrás de crime...
até ser descoberta, de um modo ou de outro.
Teria sido melhor se ela tivesse morrido jovem.
Está dizendo muitas bobagens, Tasker, e você sabe disso.
Bem, é neste momento controverso que me despeço.
Foi um grande prazer, senhor.
Mas acho que fui o único a gostar da minha conferência.
Não, não mesmo.
Não se apresente a nenhum médico renomado com sua teoria.
Eles acabarão com ela.
Ficaremos longe desse assunto em nosso próximo encontro.
Vou acompanhar o beisebol de perto.
- Boa noite. - Boa noite.
- Boa noite. - Obrigado mais uma vez, Sra. Penmark.
Boa noite.
É ótimo estar sozinho com minha menina de novo.
Você está realmente planejando escrever algo?
Eu só estava fazendo algumas perguntas.
- Viu o Kenneth em Washington? - Sim, ele está muito bem.
Tão bem quanto possível pra quem está trabalhando tanto...
e, o mais importante, está solitário.
Pensávamos em viajar nesse verão, mas...
de repente veio essa mudança de ordens.
Será coisa da minha cabeça...
ou tem algo te preocupando muito?
Meu rosto denuncia isso?
Seu rosto mostra tudo.
Sempre foi assim.
Não sei se...
estou preocupada, agora que você está aqui.
Sempre me senti tão...
segura e à vontade quando você estava próximo...
e é o que estou sentindo agora.
Para dizer a verdade, você foi uma bênção na minha vida.
Sempre quis uma menina...
e você foi tudo o que uma menina...
maravilhosa pode ser para seu pai.
Mas diga-me, Christine...
o que você queria me perguntar?
Deixe-me pensar um pouco. Quer outra bebida?
Sim, acho que sim.
- Faço um para você? - Não, obrigado, eu não quero.
Pode falar, querida.
Seja o que for, vai ficar apenas entre nós.
A senhoria daqui...
é um tipo de psicóloga amadora, uma devota de Freud...
está sempre analisando.
Conheço o tipo.
Você vai conhecê-la, chama-se Breedlove.
Ela ofereceu um quarto pra você poder ficar aqui.
Rhoda está jantando com ela nesse momento.
Você ia falar alguma coisa.
O que eu ia perguntar me fez lembrar dela.
Eu confessei a ela que sempre tive...
uma sensação de que fui adotada, e que...
temia que a mamãe não fosse minha mãe de verdade...
e que o meu pai...
que tanto amo...
não fosse meu pai de verdade.
- E o que ela disse? - Disse que era...
a fantasia infantil mais comum, que todos a tinham...
e que ela mesma teve.
É realmente comum.
Mas isso em nada me ajuda, porque...
ainda sinto esse velho medo...
de que você não seja meu pai.
E algo tem feito você pensar nisso ultimamente?
- Sim - E o que seria?
Rhoda, minha filhinha.
- O que tem ela? - Papai, estou apavorada!
Eu temo por ela.
Temo por aquilo que ela possa ter herdado de mim.
Mas o que ela poderia ter herdado, se não a doçura e...
Pai...
de quem eu sou filha?
- Minha. - Não, pai, não minta pra mim agora.
Já se foi o tempo em que isso ajudaria.
Já te falei sobre meu sonho, mas não sei se é só um sonho.
De quem eu sou filha?
Você é o meu pai?
Sei que é um jeito estranho de te dar boas-vindas...
depois de tanto tempo sem nos vermos...
mas por meu bem e pelo da Rhoda, eu preciso saber.
- O que a Rhoda fez? - Não sei, mas estou com medo.
Christine, ainda que seja verdade...
lembre que essa coisa toda de herança é pura bobagem.
Como sou desastrado.
Desculpe-me.
Não farei mais perguntas.
Tudo bem, meu anjo.
Vamos virar essa página.
Além do mais...
eu já sei a resposta agora.
- A resposta? - Sim.
Christine, eu fui um homem de muita sorte.
Se você não tivesse entrado na minha vida...
todos esses anos teriam sido vazios, solitários...
e insuportáveis.
A minha sorte grande foi uma menina chamada Christine.
Você foi a única filha que eu tive.
Como eu disse, você foi como uma bênção.
Sentia-me feliz e orgulhoso de seguir em frente por você.
Você não precisa dizer mais nada.
- Não preciso, não é? - Não.
Você me encontrou em algum lugar.
Sim.
Em um lugar muito estranho.
- De uma forma estranha. - Papai, eu conheço o lugar.
Não acho que poderia, você tinha menos de 2 anos.
Então eu devo ter sonhado com esse lugar.
Que sonho?
Papai...
sonhei com um quarto numa casa de fazenda...
no interior, rodeada de pomares.
Divido o quarto com meu irmão, que é mais velho do que eu.
Uma noite, alguém... minha mãe? Ela vem cuidar dele e...
Ela é tão amável.
Linda como um anjo.
E mais tarde, meu irmão deve ter morrido...
pois estou sozinha no quarto.
E uma noite eu não aguento mais ficar naquele quarto.
De algum jeito levanto da cama, está de noite.
Saio pela janela, vou até o chão...
e me escondo entre os arbustos do primeiro pomar.
Não me lembro de mais nada, fora que...
perto do amanhecer eu estou com sede.
Começo a comer as frutas que caem das árvores.
E quando o dia começa a raiar...
ouço a voz da minha mãe...
me chamando de longe, mas eu não...
respondo porque estou com medo.
Será isso um sonho, somente um sonho?
Que nome ela chamou?
Não era Christine. Talvez fosse Ingold?
- Você se recorda desse nome? - Sim, papai.
Tudo está ficando nítido agora. Ingold.
Ingold Denker!... ela chama...
Denker!
Papai...
Você ocultou isso de mim durante todo esse tempo?
Eu vim daquela família terrível? Foi lá que você me achou?
Os vizinhos te acharam depois de sua mãe sumir.
Eu te encontrei com eles antes de qualquer outro.
A coisinha mais maravilhosa e doce...
e com o sorriso mais encantador que eu já tinha visto.
Como o Tasker disse, eu estava lá...
a mando de um jornal de Chicago.
Enviei um telegrama a minha esposa e ela também veio.
- Nós não resistimos a você. - Papai!
Deus, me ajude!
Por que vocês não me deixaram lá?
Por que não morri no pomar...
e acabei com essa agonia?
Foram os vizinhos que te acharam e salvaram.
Você preferia ter ficado com eles?
Não!
Você tem sido um pai excelente.
É aquele lugar horrível e aquela mulher má!
Minha mãe!
Há coisas na vida de uma pessoa que é melhor ela esquecer.
Não deixe isso te atormentar, é passado.
Então, eu devia ter morrido. Devia.
Sua procedência nunca importou. Você sempre...
foi boa, doce e amável.
Você me deu muito mais do que eu conseguirei retribuir.
Eu não poderia pedir mais, mesmo que você fosse minha de verdade.
Nós sempre te demos nada mais que amor e carinho...
e você nos deu nada mais que amor e carinho a vida toda.
Kenneth te ama, e você o fez infinitamente feliz...
e Rhoda é uma menina meiga e sã.
Será que é, papai? Será?
- O que ela fez? - É como se ela tivesse nascido cega!
Mas isso não acontece. Não pode acontecer.
Licença, mas a Rhoda se cansou do quebra-cabeças...
terminou o jantar e agora quer um livro.
Mas nós ainda nem começamos.
E eu não fui apresentada ao Sr. Bravo.
Como vai? Sou a Sra. Breedlove, a analista gorducha.
Vou hospedá-lo aqui, e prometo não incomodá-lo.
Você sabe como são os jornalistas: Ríspidos, amargos e irritáveis.
- Se você me suportar, é uma santa. - Vovô!
- Rhoda! - Ela não é perfeita?
Você é quem melhor me pega no colo depois do papai.
Por que está me olhando assim?
Quero apenas ver seu rosto.
Os Penmark são os vizinhos mais encantadores que já tive.
Eu quero Rhoda jantando comigo todas as noites.
Obrigado, Tia Monica.
Diga-me, não foi você quem escreveu a série Fingerprint?
Cometi esse crime faz uns 20 anos.
Li o primeiro volume até gastá-lo, e chorei sobre ele...
até as melhores partes ficarem ilegíveis...
então comprei outro.
- Finalmente conheço meu público. - Decepcionado?
Enfim, eu sou gorda.
Gosto de quem lê com tanto gosto. Ganho mais em direitos autorais.
Está na hora de preparar nosso jantar.
Melhor ir ao meu quarto me arrumar para a noite.
Se quiser ir agora, te acompanho.
- Quanta gentileza. - É no andar logo acima.
Boa noite, Christine.
- O que você está fazendo? - Nada.
Isso vai para o incinerador?
- Sim. - Mas o que é?
Só algumas coisas que você me disse pra jogar fora.
Não!
- Me deixe ver o que tem no pacote. - Não! Solte!
- Me deixe ver o que tem... Solte!
- Me deixe ver o que tem no pacote. - Me devolve aqui!
Você bateu nele com os sapatos, não foi?
Bateu com os sapatos. Daí vem as marcas de meia-lua...
na testa e nas mãos dele!
Me responda, Rhoda.
Me responda!
Eu bati nele com os sapatos.
Eu tive que bater nele com os sapatos!
- O que mais eu poderia fazer? - Você percebe que o assassinou?
Mas foi culpa dele!
Se ele me desse a medalha como eu pedi...
eu não teria batido nele!
Está bem.
Tudo bem.
Vamos começar do início, e você me contará a verdade.
Eu sei que você o matou, então não faz sentido mentir.
Rhoda, quero que me conte a verdade!
- Eu não posso te contar, mãe. - Quero que você...
Estou esperando sua resposta.
Ele não ia me dar a medalha como eu pedi, isso é tudo.
Então, ele fugiu de mim e se escondeu no cais.
Mas eu o encontrei lá...
e falei que eu bateria nele com meu sapato...
se ele não me desse a medalha!
Mas ele balançou a cabeça e disse não.
Então, eu bati nela a primeira vez.
E ele arrancou a medalha e entregou pra mim.
E então o que aconteceu?
Ele tentou fugir de mim.
E eu bati nele com meu sapato de novo!
Mas ele continuou chorando e fazendo barulho...
e fiquei com medo que alguém o ouvisse...
então continuei batendo, mãe!
Eu bati mais forte desta vez...
e ele caiu na água.
Meu Deus.
O que vamos fazer?
Eu tenho a mãe mais bonita.
- Eu tenho a mãe mais legal. - Como...
Como apareceram as marcas na parte de trás das mãos dele?
Ele tentou voltar para o cais...
depois que caiu na água.
Eu não teria batido mais nele.
Só que ele ficava dizendo que ia me dedurar.
Mamãe, por favor diga que não deixará ninguém me fazer mal!
Eu não deixarei ninguém te fazer mal.
Não sei o que precisa ser feito agora...
mas prometo que ninguém te fará mal.
Eu quero brincar de jeito que costumávamos, mamãe.
Brinca comigo?
- Se eu te der um monte de beijos... - Rhoda, por favor.
- Por favor. - Não consegue me responder, mãe?
- Se eu te der um monte de beijos... - Rhoda, quero que você...
quero que vá agora para o seu quarto ler...
porque tenho que pensar no que fazer.
Me prometa que não contará a ninguém...
o que me contou, entendeu?
Por que eu contaria para depois ser morta?
Rhoda!
O que aconteceu com a Sra. Post em Wichita?
Havia gelo nos degraus...
eu escorreguei e caí em cima dela...
e isso foi tudo.
Só isso?
Não.
Eu escorreguei de propósito.
Rhoda, pegue os sapatos.
Pegue os sapatos e coloque-os no incinerador, rápido!
Coloque no incinerador e queime-os!
O que você fará com a medalha, mãe?
Pensarei em algo.
Você não dará para a Srta. Fern, dará?
Não.
Eu não darei para a Senhorita Fern.
Então, seu vovô finalmente foi embora?
Minha mãe e eu acabamos de levá-lo ao aeroporto.
E isso realmente não é da sua conta.
Talvez ele não goste muito de você.
Talvez ele saiba quem você é, como eu sei.
Você sabe muito mesmo.
O editor dele ligou de muito longe, ele teve que ir trabalhar...
e é melhor você fazer o mesmo.
Eu descobri uma mentira que você contou.
Não existe coisa nenhuma de cão farejador de madeira com sangue.
Eu não devia falar com a pequena Srta. Boazinha.
Então, não fale.
Onde está a sua mamãe?
Ela teve que ir ao supermercado, o que também não é da sua conta.
E eu estou ocupada com o meu quebra-cabeça.
Quebra-cabeça?
Você não me engana, Srta. Doçura.
Pelo seu próprio bem, vou dizer uma coisa.
Pode não existir um cão farejador de madeira com sangue...
mas existe uma madeira com sangue.
É melhor você achar essa madeira antes do que eles...
porque eles farão o sangue ficar azul.
E então eles vão te fritar na cadeira elétrica.
Essa madeira existe tanto quanto existem os seus farejadores.
Você sabe o barulho que a cadeira elétrica faz?
Ela faz...
Quando aquela eletricidade te atinge...
seu cabelo fica pra cima.
Como se um raio te atingisse.
Vá para seu cortador de grama.
Eles não levam garotinhas para a cadeira elétrica.
Não?
Eles tem uma cadeirinha azul para os garotinhos...
e uma cadeirinha rosa para as garotinhas.
Acabei de me lembrar de uma coisa.
Na manhã do piquenique, eu molhei seus...
sapatos que tem as placas de ferro.
Você sapateava na calçada.
Por que você não os usa mais?
Você é um idiota.
Eu nunca tive um par de sapatos assim.
Você sapateava na calçada.
E eu esguichei água neles e você os secou.
Eles machucavam meus pés, então dei pra alguém.
Quer saber de uma coisa?
Você não bateu naquele garotinho com uma madeira.
Você bateu nele com os sapatos.
- Não acertei agora? - Você é um idiota.
Você acha que sou um idiota porque falei da madeira.
Eu só estava tentando te fazer dizer...
Não foi a madeira, foram meus sapatos".
- Porque eu sabia com o que foi. - Você mente o tempo todo.
Então, como estou com aqueles sapatos?
Onde você os conseguiu?
Foi só entrar na sua casa, ir a seu quarto e pegá-los.
São apenas mais mentiras, porque eu queimei aqueles sapatos.
Eu joguei no incinerador e os queimei.
Ninguém está com eles.
Isso foi muito inteligente.
Digamos que eu ouvi algo descer pelo incinerador...
e disse a mim mesmo, "Me parece que...
são sapatos com placas de ferro. "
Não digo que você não os queimou um pouco...
mas não os destruiu como queria.
- Sim. - Escute bem, então perceba...
qual de nós é o idiota.
Estou trabalhando no porão, e ouço...
sapatos descerem pelo incinerador.
Eu abro a porta rápido, e lá estão eles...
em cima do carvão, só um pouco queimados.
Eu os tiro de lá.
Eles estão chamuscados.
Verdade, estão chamuscados...
mas sobrou o bastante para ficar azul...
e mostrar onde o sangue daquele garotinho estava.
Sobrou o bastante pra te levar para a cadeira elétrica.
- Me devolva esses sapatos! - Não.
Eu os escondi onde ninguém além de mim pode encontrar.
É melhor me devolver os sapatos.
Eles são meus, devolva-os.
Eu não vou devolver os sapatos a ninguém.
É melhor você devolvê-los pra mim, LeRoy!
Eu vou ficar com os sapatos.
Quem vai dizer que estou com sapatos que não são meus?
Você está! Você os pegou, então devolva!
Estou te enganando, te provocando. Não estou com os sapatos de ninguém.
- Eu tenho trabalho a fazer. - Devolva meus sapatos!
Você não percebe quando estão só te provocando?
Você os devolverá?
Vá brincar, não estou com nenhum sapato, já disse.
Devolva-os!
Agora acredito que foi você.
Antes eu estava brincando, mas agora acredito que você o matou.
Você matou aquele garotinho com seus sapatos.
Você os escondeu...
mas é melhor você pegá-los e devolvê-los...
agora pra mim!
- O que o LeRoy te disse? - Nada.
Eu te ouvi gritando, "Devolva-os".
Ele disse que está com os meus sapatos.
Não estou com os sapatos de ninguém, Srta Penmark.
Você pode ir, LeRoy.
Sim, senhora.
Aí está você. Posso descer aí um minuto?
Estou com um presente que prometi a um certo alguém.
- Sim, claro, Monica. - Já desço.
Rhoda...
não disse a você pra não discutir isso com ninguém?
- Sim, mas ele disse que estava com... - Falaremos disso depois, agora suba.
Rhoda! Olha o que tenho para você.
- O que é? O colar. - Isso mesmo, minha espertinha.
- E aqui está a granada, também. - Que lindo!
- Me ajuda a colocar, tia Monica? - Sim, querida, venha aqui.
Agora você vai parecer uma princesinha.
É o homem do sorvete.
Mamãe, posso comprar um picolé?
- O quê? - Posso comprar um picolé?
Sim, pegue o dinheiro na minha bolsa.
Rhoda!
Para que os fósforos?
Eu só quero alguns para jogar pega-vareta.
Coloque-os de volta agora. Sabe que temos uma regra quanto a isso.
Sim, mãe.
Está tão quente hoje!
Christine.
Christine, não se importe se estou sendo curiosa e ridícula...
mas você tem estado diferente ultimamente.
É como se algo estivesse te desanimando.
Isso é aparente para as outras pessoas?
- Então, há mesmo algo errado. - Não, Monica, não mesmo.
Só estou cansada, eu acho.
Você toma vitaminas regularmente?
Não, eu não tomo.
Você deveria, querida. Isso é uma das coisas de que sabemos.
Tenho um composto muito bom. Trago alguns, se quiser.
E agora você tem que me perdoar...
mas você e o Kenneth estão se separando?
A transferência dele para Washington não quis dizer isso?
- Não. - Isso acontece nos casamentos.
Aquela má fase que vem em ciclos de 7 anos de duração.
Algo a ver com os hormônios.
Não posso falar de experiência própria...
porque sempre duvidei que o Sr. Breedlove...
tivesse hormônios.
Não, Monica, não tem nada a ver com isso.
Queria que eu fosse tão segura com as coisas, como sou...
com o Kenneth.
Você dorme bastante?
Não, não sempre.
Você tem que tomar uns calmantes. Isso nós podemos fazer.
Não gosto muito de calmantes. Tenho medo deles.
Eu não vou mais te incomodar, querida Christine.
Só vou dizer que eu te amo.
Amo de verdade, querida.
Por favor, me conte o que é.
- Eu não posso, Monica. - Por favor, pode confiar em mim.
- Não posso contar a ninguém. - Querida Christine.
Você se sentirá melhor agora.
Talvez você consiga descansar um pouco.
Talvez...
Fique aí, querida. Eu me livro de quem quer que seja.
Espere um pouco.
Bem, Sra. Breedlove.
Olá.
Sei que não me quer aqui, e também não quero estar aqui.
Mas não consigo manter distância, então fiquei bêbada e vim.
- Com licença, por favor. - Seja bem-vinda.
Como um gambá, bem sei.
Sra. Breedlove conhece a todos, até mesmo a mim.
Como você está, Sra. Daigle?
Bem, estou meio tonta.
Quero ter uma conversa com a sua filhinha.
Ela foi a última a ver meu Claude vivo.
Eu sei.
Onde está a perfeitinha que foi a última a ver o Claude?
Eu pensei em abraçá-la...
conversar um pouco com ela, talvez ela se lembre de alguma coisa.
Qualquer coisinha.
Ela está lá fora brincando, acho.
Sou uma infeliz.
Bêbada e infeliz, senhoras e senhores.
Ela não está lá agora, não a vejo.
Ela é uma mocinha impecável.
Isso foi o que eu ouvi.
Nunca dá nenhum problema.
Christine, você tem alguma coisa pra beber?
Qualquer coisa, não sou do tipo exigente.
Prefiro uísque com água, mas qualquer coisa serve.
Somos ou não somos elegantes?
Como em um hotel de luxo!
Quero conversar com a Rhoda porque ela sabe de algo.
Eu liguei para aquela Srta. Fern várias vezes.
Ela continua me ignorando.
Ela sabe de algo, com certeza.
Você está bem aí?
Eu não estou nem um pouco bêbada.
Por gentileza, não seja sarcástica.
Já passei por muito pra ter de aguentar isso.
- Eu trouxe o troco, mãe. - Ótimo.
A Sra. Daigle gostaria de falar com você.
Então, essa é a sua filhinha.
Claude sempre falava de você...
e falava muito bem.
Você estava entre os mais queridos dele, com certeza.
Ele disse que você era tão brilhante na escola.
- Então, você é a Rhoda. - Sim.
Rhoda, chegue mais perto agora.
Venha dar um beijo grande na Tia Hortense.
Você é quem estava com o Claude quando ele se acidentou...
não é, querida?
Você achou que ia ganhar aquela medalha de caligrafia...
e trabalhou duro, mas não ganhou, não é?
Claude ganhou, não?
Agora me diga.
Você diria que a vitória dele foi justa...
ou ele trapaceou?
Estas coisas são muito importantes pra mim agora que...
ele está morto.
Você diria que a vitória dele foi justa, querida?
Porque se foi justa, então por que você o perseguiu?
Eu quero o meu picolé.
Vamos fazer compras agora. O Sr. Finchley...
nos mostrará a coleção dele.
- Agora? - Sim, estamos atrasadas.
Pegue seu picolé, querida. Você pode se lavar lá em cima.
- Bem, devo dizer... - Elas tinham um compromisso.
Com certeza tinham.
Tenho quase certeza.
Não sabia que a Rhoda tinha todas estas obrigações sociais.
Pensei que ela fosse como as outras crianças que ficam em...
casa com a mãe...
e não ficam passeando pela cidade...
com compromissos importantes.
Desculpe eu ter interferido na vida social da Rhoda.
Eu Ihe ofereço minhas desculpas mais sinceras, Christine.
Me desculparei com a Rhoda também, quando conseguir falar com ela.
Você não interferiu em nada.
Eu não ia contaminar a Rhoda...
nem um pouco, te garanto.
Alô?
Sim, Sr. Daigle, eu sei, ela está aqui.
Não, não.
Disse a ele que eu estava bêbada e dando shouzinho?
Você pediu a ele que chamasse a viatura?
Não, você ouviu o que eu disse. Só disse que você estava aqui.
Seu marido está na farmácia da esquina.
Eu só ia abraçá-la e fazer algumas simples perguntas.
- Talvez numa outra vez fosse melhor. - Só porque acha que estou bêbada?
Eu não estou bêbada. A Rhoda sabe mais do que já contou...
se você não se importa com a minha presunção!
Conversei com aquele guarda desde a última vez que te vi.
Foi uma conversa interessante. Ele disse que viu a Rhoda no píer...
pouco antes de o Claude ser achado entre as vigas.
Ela sabe de algo, com certeza.
Sei o que você está pensando.
Você está pensando, "Como posso me livrar desta peste?"
Você pode enganar alguns com essa língua dissimulada.
Mas não a mim.
Bem, então...
talvez fosse melhor você não vir mais aqui.
Eu não viria aqui de novo nem por um milhão de dólares.
Eu não teria vindo aqui hoje se eu soubesse das...
obrigações sociais da Rhoda.
Vou para casa.
Eu não vou esperar pelo Sr. Daigle.
Eu sei onde não sou bem-vinda, e isso é em todos os lugares...
onde as pessoas tem todas essas obrigações...
sociais, se é que me entende.
Você está parecendo meio doente e triste.
Por que não vai à minha casa...
e eu te dou um tratamento de beleza grátis?
Se dinheiro for o problema, não te custará um centavo.
Obrigado, Sra. Penmark.
Venha, Hortense, está na hora de ir pra casa.
Meu Deus, está na hora de ir pra casa.
Christine, você sabe de algo!
Você sabe de algo que não me contará.
Telefonista.
Quero fazer uma ligação...
para Washington DC...
por favor.
Kenneth, meu querido, meu amor.
O que vou dizer a você?
Que nosso bebezinho é...
Deixe pra lá, telefonista.
Cancele a ligação.
Ótimo, ela foi embora.
Eu sei que eu não deveria me intrometer...
mas eu não poderia deixá-la pressionar a Rhoda por mais tempo.
O Sr. Daigle veio buscá-la.
E acho que fui um pouco frouxa.
Deixei a Rhoda sair para comprar outro picolé.
Ela quis mais um? Isso é incomum.
Ela parecia bastante ansiosa, e já que ela não é uma dessas...
gordinhas acomodadas, duvido que haja algum problema.
A propósito, querida, aqui estão os calmantes e as vitaminas...
ambos marcados claramente.
Obrigado, Monica, vou deixá-los separados.
Emory e o Reggie acabaram de voltar da pescaria.
Reggie jantará conosco antes de ir embora hoje à noite.
Você não gostaria de comer conosco, você e a Rhoda também?
Não, Monica.
Muito obrigado, mas realmente acho melhor não.
Pobrezinha. Estou te incomodando, e prometi não fazer isso.
O que foi isso?
Pareceu alguém pedindo socorro, e aqui perto.
Rhoda, quem estava gritando?
Eu não sei, mãe.
- Soou como se houvesse um incêndio. - Não, acho que não.
- Não, Reg! Por aqui! - Olhe!
Me passe aquela pá.
Pegue a mangueira!
Socorro!
É tarde demais.
- Alguém chame uma ambulância! - Ele não se mexe.
Tudo que pode ser feito será feito.
Sim, Monica, mas agora, sabe...
Eu deveria saber que isto aconteceria.
Eu deveria saber. Como eu pude ser tão cega?
Graças a Deus que Rhoda estava aqui dentro tocando o piano.
O incêndio foi onde o LeRoy estava!
Não havia nada que você pudesse fazer.
Dessa vez eu vi com meus próprios olhos.
Faça-os parar de gritar porque não vai adiantar.
E faça-a parar com essa música, Monica.
Porque aquele homem ainda está gritando...
e o piano continua tocando enquanto ele...
está gritando e morrendo no incêndio.
Um homem gritando!
- Monica! - Não quero ver ninguém agora.
É o Emory, querida.
Houve um incêndio no porão.
Tasker e os outros o estão apagando agora.
Temo que o pobre LeRoy...
- Esqueça. - Eu o vi.
Eu o vi correr e morrer.
Algo pode ser pior do que isso?
Parece que ele dormiu em uma cama que ele tinha feito de palha.
Acho que um cigarro botou fogo na palha.
Meu Deus, Monica.
Monica, eu simplesmente não consigo suportar!
Agora ela está me deixando maluca!
Como ela consegue tocar agora? Rhoda, quero que você...
- O que é? - Monica, eu não consigo aguentar!
Como ela consegue tocar essa música agora?
Rhoda, pare de tocar essa música!
Pare com a música!
Deixe-me por as mãos nela! Você não viu nada, não é?
Você poderia se virar para o outro lado, poderia tocar piano.
O que ela fez?
Não é o que ela é fez.
- É o que eu fiz. - O que ela quer dizer, Monica?
Eu não sei, Rhoda, é melhor ela subir comigo.
- Ela ficará até que você se acalme. - Sim, Monica, leve-a, por favor.
- Mas você ficará bem, querida? - Eu ficarei bem!
São só os gritos que ficaram mais altos!
Nós desceremos depois pra te ver. Venha, Rhoda.
Ela o matou...
mas ela é a minha filhinha...
e eu a amo.
Meu bebê.
Polly pôs um dedo do pé para fora das cobertas...
para descobrir o quão frio estava...
e estava frio de doer.
Ela se lembrou por que queria acordar e saiu da cama...
muito suavemente...
tremendo e puxando seu vestido e suas meias.
Ela nunca tinha visto uma árvore de Natal decorada e iluminada...
como é o costume da época, e...
lares onde as crianças tem...
pais, os tempos não são difíceis.
Ela tinha prometido a si mesma que veria uma".
Você tem vitaminas novas pra tomar hoje à noite.
- Novas? - Sim.
- Essas são as vitaminas? - Sim.
Eu posso vê-las, por favor?
Sim, é claro.
São aquelas que a Monica trouxe.
Sabe, acho que a Monica gosta de mim.
Tenho certeza que sim.
Tomar pílulas é como se fosse um truque.
Você é muito boa nisso.
Você me ama, Mamãe?
Sim.
Você sabe do LeRoy?
Sim.
Você me disse para pôr meus sapatos no incinerador, não foi?
Sim.
O que você fez com a medalha?
Posso ficar com ela agora, não posso?
Eu fui ao parque sozinha...
fui até o píer quando estava...
escuro e ninguém podia me ver...
e joguei a medalha na água junto às vigas.
Mamãe, o LeRoy estava com os meus sapatos.
Ele disse que ia entregá-los para a polícia...
depois Ihes contaria tudo sobre mim...
e então eles me levariam para a cadeira elétrica.
Você não precisa dizer mais nada.
Você lerá mais agora?
Sim, mas primeiro você tem que tomar estes.
Tantos assim?
São de um novo tipo. Vou tomá-los, também.
Eu gosto de suco de damasco.
Nem precisa de gelo.
Mamãe...
guardei alguns fósforos...
e eu pus fogo...
nas palhas e tranquei a porta.
Mas não foi culpa minha, mamãe, foi culpa do LeRoy.
Ele não deveria ter dito que me entregaria à polícia...
- e Ihes daria meus sapatos. - Eu sei.
Pronto, acabou.
Não deixe que me façam mal, mamãe.
Não deixarei que te façam mal.
- Boa noite. - Boa noite, mamãe.
Vai ler agora?
Sim.
Quando Polly estava toda vestida...
ela achou seu xale, e devagar...
saiu pela porta da frente.
A porta rangeu, ela esperou e...
escutou, mas ninguém acordou.
Ela fechou a porta com cuidado...
e olhou para a lua brilhante e para a radiante neve fria.
Os Carter devem ter uma árvore. Eles moravam a duas quadras dali.
Se deixaram as cortinas abertas, daria pra espiar pela janela.
Se ao menos eles não tivessem cachorros.
Polly caminhou com cuidado pela neve dura...
enrolada no quente xale.
A casa dos Carter era mais longe do que imaginava...
mas ela pode ver que havia luzes nas janelas.
Ela se aproximou, fazendo apenas um pequeno...
chiado na neve...
e ficou por algum tempo na frente da casa...
antes de ousar se aproximar mais.
Então, ela tomou coragem...
e atravessou o jardim, seus sapatos afundando na neve.
A árvore de Natal estava bem na janela da frente...
e as luzes estavam acessas na casa...
então ela pode ver as frutas e os sinos...
os enfeites e doces...
e a estrela prateada...
no topo".
Rhoda, você é minha...
Eu te trouxe ao mundo...
e não posso permitir que façam mal a você.
Não posso deixar que te levem embora e te prendam.
Todos te encarariam e fariam de você um item de feira...
e ninguém pode te salvar disso a não ser eu mesma.
Então durma bem...
e tenha bons sonhos, minha filha única, que eu amo.
Eu dormirei, também.
Sim, doutor.
Ela...
- Alguma coisa mudou? - A situação dela ainda é a mesma.
Eu não posso...
Por favor, Coronel, está sendo feito...
todo o possível pela Sra. Penmark.
Mas já se passaram dois dias.
Você não deve entrar lá. O doutor sairá em breve.
Por que ela fez isto?
De novo?
É o que eu não consigo entender.
Por que ela fez isso?
Ela não estava infeliz quando eu parti.
Talvez um pouco triste por ficarmos...
separados por um tempo...
porque estávamos apaixonados.
Não percebem? Ela provou isso pra mim.
Christine e eu estávamos apaixonados.
De repente, ela não quer mais viver.
Ela parecia um pouco transtornada com o acidente do Claude.
Sim, mas ela lidou com isso perfeitamente bem.
Não, uma coisa como essa não...
a desequilibraria ao ponto de...
Dick, você deve ter tido uma conversa franca...
quando você veio visitá-la.
Ela disse alguma coisa? Mencionou algo?
Você tem que ser franco comigo.
Ken, não há nada que eu possa dizer que ajudará em alguma coisa.
Monica, você sabe que ela ficou...
bem histérica com a morte do LeRoy.
E foi na noite desse dia que ela fez o que fez?
Sim, nós ouvimos o tiro e descemos correndo.
Ela fez isso depois de dar uma dose...
letal de calmantes para a Rhoda.
O porquê, eu desconheço...
mas ela obviamente tinha planejado...
que elas deveriam partir juntas.
Se ela não sobreviver...
não acho que vou conseguir.
Kenneth, meu querido, você não deve falar assim.
Mesmo caso o pior aconteça...
você ainda tem algo por que ser grato.
Você ainda tem a Rhoda.
Se não tivéssemos ouvido o tiro e chamado o doutor às pressas...
Rhoda teria morrido.
Aí está ela.
Mamãe já está melhor, papai?
Nós estamos esperando, querida. Venha cá, meu amor.
O mesmo sorriso adorável.
Ela sempre viverá em você.
Eu te amo, papai.
Desculpe, Coronel, não há muito de concreto a se dizer.
Ela ainda está em coma.
Eu costumo ter êxito neste tipo de operação...
mas pode acontecer de tudo.
O cérebro parece definitivamente não ter sido lesionado.
É mais o choque e a perda de...
Mas nós já repassamos isso.
Acho que a melhor coisa a se fazer é ir pra casa.
Uma certa mocinha aqui parece bastante cansada.
Ela já passou por muito, sabe.
Eu realmente acho que seria melhor. Não deixarei a Sra. Penmark...
até sabermos.
Certo.
Vamos pra casa agora, Rhoda.
Eu esqueci o meu isqueiro. Já volto.
- Você tem alguns segundos, doutor? - É claro.
- Cigarro? - Obrigado.
Eu queria te perguntar, no tempo em que minha filha...
enquanto ela estava inconsciente, ela disse algo?
Murmurou alguma coisa?
Sim, pensando nisso, ela murmurou.
Por um tempo, ela ficou murmurando algo sobre...
Isso mesmo, "uma semente ruim".
Isso te dá alguma pista?
Nada em especial.
Sim, ela estava começando a escrever...
um livro, algo baseado na teoria...
deixe-me ver, de que uma criança pode herdar...
tendências criminosas geneticamente.
Perdoe-me a franqueza, mas é uma teoria bem ilusória.
Foi o que eu disse a ela. É uma questão de ambiente, não é?
É claro. De vez em quando, achamos um cérebro perverso...
em um filho de pais saudáveis e instruídos...
mas isso é um entre um milhão.
- Eu tinha certeza disso. - Se fôssemos tolos o bastante...
para engolir essa outra teoria...
ninguém nunca adotaria uma criança ou até...
mesmo não teriam seus próprios filhos...
como aquela doce garotinha que ela tem, por exemplo.
Obrigado.
- Muito obrigado, doutor. Boa noite. - Boa noite.
Prontinho.
Papai, a mamãe vai ficar melhor?
- Acabamos de rezar por ela, não foi? - Sim.
O que me deixou doente na noite em que a mamãe se machucou?
Todo mundo fica com dor de barriga de vez em quando.
Pronta para apagar as luzes agora?
O que você me daria por um monte de beijos?
Um monte de beijos?
Eu te daria um monte de abraços.
- Boa noite, meu amor. - Boa noite, papai.
Papai, tia Monica gosta de mim.
Todo mundo te ama.
Ela disse que se ela morresse, ou fosse embora...
ela me daria o Sweetsie, o periquito dela.
Que legal, querida...
mas a tia Monica não vai morrer ou ir embora por um bom tempo.
- Por um bom tempo? - Isso mesmo, agora durma.
Papai, quanto tempo os periquitos vivem?
- Eu não sei. - Tanto quanto as pessoas?
Não, não tanto.
Eu descobrirei amanhã quando a tia Monica me levar...
para meu banho de sol.
E onde vai ser isso?
A tia Monica prometeu me levar para tomar um banho de sol.
Ela arrumou um lugar no telhado.
Bem lá no alto, onde ninguém pode nos ver.
- Não é legal? - É maravilhoso.
- Boa noite, meu amor. - Boa noite, papai.
Sim?
Coronel Penmark?
- Sim, doutor. - Eu tenho alguém aqui...
que deseja falar com você. Não...
temos como controlá-la até que fale com você.
Mas não fale muito, Coronel. Me dê sua palavra.
Kenneth.
Kenneth, querido.
Eles disseram que eu ficarei bem.
Christine, é ótimo te ouvir, mas não fale mais.
Kenneth...
eu cometi...
um pecado terrível.
E sei que terei que...
pagar por isso de algum jeito.
Só preciso saber...
se tenho o seu perdão...
Amor, por favor, não fale mais.
Seja o que for, não agora. Resolveremos isso juntos.
Oh, Kenneth.
Eu te amo.
Eu te amo.
Um momento, por favor.
E agora, senhoras e senhores, nosso maravilhoso elenco.
Sr. Gage Clarke como Tasker...
Sr. Jesse White como Emory...
Srta. Joan Croyden como Srta Fern...
Sr. Bill Hopper como Kenneth Penmark...
Sr. Paul Fix como Richard Bravo...
Sr. Henry Jones como LeRoy...
Srta. Evelyn Varden como Monica...
Srta. Eileen Heckart como Sra. Daigle...
Srta. Patty McCormack como Rhoda...
e Srta. Nancy Kelly como Christine Penmark.
E quanto a você...
Não!
Você acaba de ver um filme...
cujo tema ousa ser surpreendentemente diferente.
Pedimos a você que não divulguem...
...o clímax final e inusitado desta história. Obrigado.
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