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Para a Pina.
De todos n�s, que fizemos este filme juntos.
Em breve ser� Primavera.
Relva a brotar.
Depois vem o Ver�o,
relva alta,
sol.
Depois vem o Outono,
as folhas caem.
E depois...
Inverno.
Primavera.
Ver�o.
Outono.
Inverno.
H� situa��es, � claro,
que nos deixam absolutamente sem palavras.
Tudo o que se pode fazer � insinuar.
As palavras, tamb�m, n�o podem fazer mais
do que apenas evocar as coisas.
� a� que vem a dan�a.
Conhecer Pina foi como encontrar uma linguagem,
antes de aprender a falar.
Assim ela deu-me um modo de me expressar.
Um vocabul�rio.
Quando comecei, era muito t�mida.
Ainda sou. E ap�s v�rios meses de ensaio,
ela chamou-me e disse: "Precisas de ser mais louca."
E esse foi o �nico coment�rio em quase 20 anos.
Pina era uma pintora.
Ela questionava-nos sistematicamente.
Foi assim que nos torn�mos a tinta,
para colorir as suas imagens.
Por exemplo, se ela pedisse
"a Lua"?
Eu representava a palavra com o meu corpo,
para que ela pudesse ver e sentir.
Eu dancei no Caf� Muller.
Todos n�s t�nhamos os olhos fechados.
Quando fizemos uma reposi��o,
eu n�o podia ter a sensa��o de novo,
a sensa��o de que era muito importante para mim.
De repente notei
que fazia uma grande diferen�a,
por detr�s das p�lpebras fechadas.
Se eu olhar para baixo, ou assim.
Isso fez toda a diferen�a!
O sentimento certo estava l� imediatamente.
� inacredit�vel como isso � crucial.
O mais �nfimo detalhe importa.
� tudo uma linguagem que se pode aprender a ler.
N�s desenvolvemos a pe�a em duas semanas, Dominique!
A velocidade era incr�vel.
� incr�vel como a ideia se materializou
a partir de apenas uma mesa e quatro cadeiras.
T�pico de Pina. Eu lembro-me.
- Ent�o, bang, cadeiras. - Exactamente.
Ent�o, bang. Rolf atirou com as cadeiras,
e tornaram-se parte integrante da pe�a.
T�o bonito!
1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10. Estou a vir!
Kazuo Ohno tamb�m nos deixou,
n�o faz muito tempo.
Eu imagino-o a ele e a Pina l� em cima
a dan�ar juntos...
a saltar de uma nuvem para a outra.
Pina tinha os olhos mais penetrantes!
Ningu�m jamais me leu dessa forma.
Tudo o que tentei ou fingi ser
desapareceu sob o seu olhar.
Em vez disso, ela viu algo.
Eu estava com medo,
porque n�o sabia disso ainda.
Quem foi Pina?
Uma combina��o de fragilidade e de for�a.
Ela tinha uma capacidade infinita de escutar e observar,
e de ultrapassar todos os seus limites.
Ent�o eu imagino-a como uma casa, com um grande s�t�o
cheio de tesouros.
Pina n�o ia dan�ar.
Esquecia-se sempre dos seus movimentos.
N�s recus�mo-nos a faz�-lo sem ela.
Ela envolveu-se porque insistiu que ela...
Que ela me mostrasse o movimento? N�o, por favor.
Mas � verdade.
Eu insisti que ela dan�asse. Que era importante.
Que era a �nica maneira das pessoas a verem no palco.
Eu nunca quis dan�ar Caf� M�ller.
Quando Pina me pediu para dan�ar a sua parte,
eu disse que sim.
Mas nunca aprendi.
Eu queria que ela dan�asse para sempre.
Eu vi-a fazer Caf� M�ller in�meras vezes.
Eu queria sentir o que ela estava a sentir.
Ela movia-se como se tivesse um buraco na sua barriga,
como se tivesse ressuscitado dos mortos.
Quando estou no palco, hoje,
tento imaginar Pina
na sua dor,
mas tamb�m na sua for�a
e a na sua solid�o.
Quantas vezes dancei Caf� M�ller com Pina.
Vi os seus cabelos, as suas costas, os seus bra�os.
Quantas vezes, com os olhos fechados,
eu sentia que ela nos sentia a todos!
Mesmo com os olhos fechados, pod�amos ver tudo.
Dan��vamos e r�amos o tempo todo.
Est�vamos sempre juntas, at� �s quatro da manh�
para inventar algo para o dia seguinte.
Isso foi no come�o da companhia.
Encontr�vamo-nos na esta��o de Barmen todas as manh�s
para tomar caf� com p�ozinho e rever o trabalho do dia.
A melhor defini��o � um anjo. � um anjo, � linda.
Tinha a impress�o de que era mais do que apenas humano
a trabalhar com Pina.
Sentia-me uma dan�arina velha, a trabalhar com Pina.
Bem, os primeiros anos foram bons, tamb�m.
Eu tinha 24 anos quando vim para Wuppertal.
Mas aos 40, mais e mais,
eu pensava: "Todo esse espa�o, todas estas oportunidades."
Os olhos de Pina mudavam tudo o que faz�amos
em algo ainda mais belo.
Eu podia ser velha e crian�a ao mesmo tempo.
Depois de um ensaio terr�vel de Ifig�nia,
Pina n�o me disse uma palavra.
Antes da performance, como sempre,
ela veio e disse:, "L�tzchen, s� bom."
E como sempre, respondi:
"Pinchen, divirta-se."
Ela saiu, virou-se na porta, e disse:
"N�o te esque�as, tens que me espantar."
Imediatamente a minha cabe�a come�ou a girar.
Aquilo foi mais certeiro do que falar durante horas.
Era lindo ver Pina enquanto ela nos observava.
Nos ensaios, era s� virar-me para v�-la sentada na sua mesa
a observar-nos todos os dias.
A viver cada momento com os dan�arinos,
�s vezes como uma crian�a. A sentir tudo que sent�amos.
Frequentemente, penso que Pina se sentou atr�s daquela mesa
e observou-me durante 22 anos.
E isso � mais do que os meus pais me viram.
Nova na companhia, eu ainda n�o entendia como Pina trabalhava.
E ela n�o me explicou.
Eu estava perdida.
At� que me realizasse,
tive que seguir em frente pelos meus pr�prios meios.
Isto � carne de vitela.
O que � honestidade?
Qual � a nossa responsabilidade,
mesmo quando dan�amos?
Pina ensinou-nos a defender aquilo que fazemos,
em cada gesto,
cada passo e cada movimento.
Pina sempre quis extrair
o melhor de todos os seus dan�arinos.
Uma vez ela disse-me,
"A tua fragilidade � tamb�m a tua for�a."
Para a pe�a Lua Cheia
ela pediu-me um movimento relacionado com "alegria".
Alegria ou o prazer do movimento.
Era uma quest�o que realmente me inspirava.
Lembro-me que apresentei um movimento e com ele
Pina criou uma cena na pe�a.
Eu estava sempre num canto,
ou a esconder-me atr�s de algu�m,
quando ela estava a fazer correc��es.
Talvez porque eu a respeitava muito.
Uma vez encontrou-me.
E perguntou-me com uma voz triste,
"Ditta, porque tens tanto medo de mim?"
"Eu n�o fiz nada."
Ela estava certa.
E gradualmente fui perdendo a minha timidez.
�s vezes, ela dizia umas frases como:
"Tens que continuar a procurar."
Mas era tudo o que dizia.
Ent�o, t�nhamos que continuar a procurar,
sem saber muito bem onde,
e sem saber se est�vamos no caminho certo.
Pina, eu ainda n�o sonhei consigo.
Por favor, visite-me nos meus sonhos.
Tenho not�cias por Daphnis,
que sonha consigo o tempo todo.
N�o � o mesmo.
Seria bom se aparecesse.
Estou � sua espera, Pina.
A Pina foi embora t�o r�pido,
t�o de surpresa.
Eu acho que no fim
ela deixa tudo atr�s de si
e se sente livre.
Por isso eu queria oferecer-lhe
esse momento de leveza,
de uma sensa��o de leveza.
Eu sou Kiang.
Os meus ouvidos ouvem a promessa.
A minha mente � poder.
Os meus olhos v�em sonhos.
Os meus pensamentos s�o altos.
O meu corpo � forte.
Como filha de Dominique e Malou,
fui a primeira crian�a na companhia.
Cresci dentro do Tanztheater.
A vida sem Pina?
N�o sei o que �.
Quando comecei em Wuppertal
e estava confusa sobre algumas coisas,
ela simplesmente disse...
Dan�a por amor.
Todas as suas pe�as eram sobre amor, e dor,
e beleza, e pena, e solid�o.
Quando tive este caso amoroso com o hipop�tamo
eu tinha 28 anos quando fiz essa pe�a.
Inclusive eu a identifiquei com esse Hipo monstro.
Sempre tentei entend�-la.
Perceber porque tinha que continuar a trabalhar, e a trabalhar...
e sempre a trabalhar e a trabalhar...
Para Pina,
os elementos eram muito importantes.
Areia ou terra,
pedras ou �gua...
De alguma forma, at� icebergs e rochas apareceram no palco.
Quando dan�amos, tornam-se...
obst�culos.
Tem que se ir contra ou atrav�s deles,
ou passar por cima deles...
O trabalho de Pina permitia a todos estarem tristes,
furiosos, ou chorar ou rir, ou gritar.
Podia extrair todas essas qualidades.
� como se Pina estivesse escondida em cada um de n�s,
ou ao contr�rio, como se cada um de n�s fosse parte dela.
Pina foi uma exploradora radical.
Ela olhou profundamente nas nossas almas.
Havia um tema em particular que ela estava sempre perguntar-nos:
O que estamos a desejar?
De onde vem toda esta saudade?
Dance, dance, se n�o, estamos perdidos.
Adapata��o pt/pt: CCamara Revis�o: mikestone
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