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Meu 10� ver�o na Terra em 1935, nunca sair� de minha mente
por causa de Shadrach, e do jeito que ele iluminou e escureceu minha vida
desde ent�o.
Tire a m�o da�, Paul!
V� lavar as m�os para comer! Est� na hora.
-Oi, filho. -Oi.
Vista-se para comer, Paul.
Agradecemos, Senhor, por estas e outras b�n��os em nome de Jesus.
Am�m!
Vi Norma Delancey na farm�cia.
Ela mandou dizer que precisam de sua voz de soprano
para o H�ndel do Natal.
Natal? Talvez seja cedo demais para mim.
Estamos no meio do ver�o, Pauline.
Estar� boa at� l�.
Talvez para a P�scoa...
Posso ir � casa dos Dabneys depois do jantar?
-De novo, n�o. -Por que n�o?
Porque os Dabneys s�o muito...
Eles est�o com dificuldades. Quem n�o est�?
Vernon Dabney sustenta a fam�lia.
� o que dizem.
Eu adorava os Dabneys!
Era jovem demais para saber
que haviam sofrido v�rios reveses,
o maior deles foi a Grande Depress�o, � claro.
De qualquer forma, eu invejava aquela tribo bagunceira
de sete crian�as
que me fazia parecer um filho �nico
mimado e solit�rio.
Meio-Toupeira! Entre aqui!
Os tr�s meninos eram chamados de "Toupeira".
Minitoupeira, Meio-toupeira e Grande Toupeira.
Nunca cheguei a saber o nome deles.
Ningu�m mandava os Toupeiras tomarem banho,
ent�o eles fediam
ao que na �poca se chamava de "cec�".
Oi, Paul.
Por outro lado, as quatro meninas
eram as mais bonitas e perfumadas.
Eu era apaixonado pela filha mais nova, Edmonia.
-Oi, Paul. -Oi, Minitoupeira.
Trouxe as bolas de gude?
Trouxe.
Minitoupeira era, sem d�vida,
o mais fedorento da fam�lia,
e foi meu primeiro melhor amigo.
N�o acho a "olho de tigre" em lugar nenhum.
Paul, como vai?
Bem, obrigado.
Que calor, n�o �?
�, sim.
Josephine, j� lavou a roupa?
-Sobrou cerveja? -N�o, � a �ltima.
Edmonia, me ajude com a comida.
-Oi, Paul. -Paul, venha jogar.
Seu pai est� para chegar.
Onde � que est�?
-Vinte pratas pelo lote! -Vinte pratas?
Isso aqui vale $40 pelo menos.
Ent�o n�o vale nada.
Espere!
Est� bem, trinta.
Vinte e cinco.
Filho de uma puta.
Est� bem!
Vinte!
Mande um dos meninos descarregar. Tenho de ir para casa.
Descarregue voc�! Devia estar inclu�do nos $20.
Aquela casa � da sua fam�lia?
Meu pai herdou como todos os Dabneys.
J� fomos uma das maiores fazendas de tabaco
do Condado King and Queen.
J� foram?
Papai disse que o maldito tabaco
ressecou a terra toda.
Agora plantamos milho l�.
Por que voc�s n�o moram l�?
Passamos as f�rias de julho.
Papai vai mais a neg�cios.
N�o h� nada para fazer l�.
Deve ser �timo ter sua pr�pria fazenda.
Aposto que deixei a "olho de tigre" l�.
N�o se cansam de jogar bolinha de gude?
Papai chegou!
Caramba!
Obrigada, anjinho.
Porcaria de carro fedorento! N�o vale merda nenhuma.
Calma, amor.
J� para casa, todos voc�s!
Filha da puta!
Sabe quanto eu paguei?
Tr�s d�lares! E s� usei uma vez.
Precisa comer tudo que v� pela frente?
Tome! Coma tudo!
Miseric�rdia!
Direi de quem � a culpa!
Franklin "Desastre" Roosevelt! Aquele desgra�ado!
Esse New Deal n�o vale porra nenhuma!
-Melhor gastar dinheiro num bordel. -Amor!
Vou ver as crian�as.
Tudo bem por aqui?
V�o acabar cegos. Espero que saibam disso.
S�o umas gra�as!
Filho da puta, bordel, merda, puta merda, cu!
Paul! Ande logo. N�o queremos chegar tarde � igreja.
A caridade jamais falha.
Mas onde houver profecias, elas falhar�o.
Onde houver vozes, elas se calar�o.
Onde houver conhecimento, ele desaparecer�.
N�o sabemos de tudo e nossas profecias s�o incompletas.
E aquilo que est� incompleto, ser� descartado.
Quando eu era menino, entendia como um menino.
Quando virei adulto, guardei as coisas de menino.
Agora vemos por uma lente mais sombria.
Nestes tempos dif�ceis,
podemos estar vendo por uma lente mais sombria, meus amigos.
Quando nos lembrar destes dias, n�o veremos a dor deles,
mas a alegria de termos estendido a m�o aos menos afortunados.
Oi, Paul. Obrigado por vir no domingo.
-Obrigado por traz�-lo, Bill. -Obrigado, Edgar.
-Como vai, Pauline? -Bem, Edgar. Adorei o serm�o.
Ficamos t�o absortos em nossos problemas
que precisamos ser lembrados dos menos afortunados.
-� verdade. Cuide-se. -Obrigada.
Ol�, meu jovem. Como vai?
Filho?
V� e n�o peque mais.
Bom dia, Bill.
-Sra. Whitehurst. -Vernon.
-Belo dia para se molhar. -�, sim.
Oi, Paul.
-Gostamos de seu filho. -Obrigada.
Se nos derem licen�a, temos de fazer as malas pra viagem.
Aonde v�o?
A sogra de meu irm�o faleceu em Baltimore.
O enterro � amanh�.
Meus p�sames. Imagino que sentir� falta dela.
N�o a conheci.
Nunca nos visitamos. Vou pelo meu irm�o.
A fam�lia deve se unir em momentos dif�ceis.
Sem d�vida!
� uma viagem longa para um menino t�o pequeno.
Paul n�o ir�, ficar� com a governanta.
Ele pode ficar conosco se quiser.
Seria um prazer.
N�o, seria um inc�modo.
Por favor, m�e!
Tchau, Virg�nia!
Fiz biscoitos para voc�.
N�o se meta em encrencas com aquele fedorento do Dabney.
Ouviu bem?
-Oi, Paul. -Oi, Minitoupeira.
Paul, filho...
D� tchau pra mam�e.
-Tchau, m�e. -Divirta-se, querido.
N�o se esque�a de lavar as m�os antes de comer.
Tem uma roupa limpa para cada dia.
N�o se esque�a de escovar os dentes.
Filho!
Leve seus amigos ao cinema.
Obrigado!
Oi, Paul.
Tchau.
Cuidaremos bem dele.
Divirta-se.
Mam�e, ele fede.
Esta � para o �ltimo e maior
rei do campeonato mundial de todos os tempos.
T� bem.
Eu primeiro.
T� bem.
Paul, jogue logo de uma vez.
O Senhor seja louvado!
Louvado seja Seu nome!
Ele est� entre n�s.
Venham!
Venham! Sentem-se no joelho do velho Shad.
Venha, sente aqui!
Voc� � uma do�ura!
� um Dabney?
Ele � Dabney.
Venha c�.
Venha, venha.
Voc� tamb�m � uma do�ura.
Louvado seja o Senhor!
Ele est� entre n�s.
�gua!
-�gua! -R�pido!
Ele est� morrendo.
-� insola��o! -N�o, � infarto!
Gelo, n�o! Ele teve um infarto! Gelo o matar� com certeza.
Pensei que fosse insola��o. Voc� que disse! Por isso, o gelo.
J� sei!
Que ideia � essa?
�gua com sal! Faz bem pra sa�de!
Tome, velhote.
Mas que merda!
Puta merda!
Quem � voc�, velhote?
S� me diga quem � voc�!
Disse que se chama Shadrach.
O que ele quer?
Acho que ele disse que quer morrer na terra dos Dabneys.
Puta que me pariu!
O que disse? O que ele est� falando?
Ele quer que voc� o enterre.
Enterr�-lo!
Como enterr�-lo? Ele nem est� morto ainda!
Pergunte quantos anos tem.
Disse que tem 99 anos.
99!
Puta que pariu!
Puta que me pariu!
O que foi, paix�o?
Esse preto diz que tem 99 anos, e ele quer
morrer na terra dos Dabneys.
E quer que eu o enterre.
Onde j� se viu?
Puta merda!
O Senhor seja louvado!
Est� com fome, n�, Shadrach?
-Que apetite! -N�o me surpreende.
Quer mais?
Oi, Shad.
Ele acordou.
Shad, tudo bem?
Disse que veio a p� do Alabama.
Alabama!
Fica a uns 900km daqui.
Ele saiu no come�o da primavera.
Ele n�o sabe ler mapas nem placas.
Aos poucos, ficamos sabendo
que Shadrach estava de volta � Virg�nia
75 anos depois de partir da terra onde nascera.
Desempaque!
Ele nasceu escravo na fazenda Dabney
do Condado King and Queen.
Shadrach trabalhou nas planta��es de tabaco
desde pequeno.
Ele tinha entre 15 e 25 anos de idade
quando seu dono, o bisav� de Vernon Dabney,
o arrancou do seio da fam�lia
para vend�-lo a um traficante de escravos do Alabama
que rondava os solos desgastados da Virg�nia
daquela �poca maldita.
Soubemos que depois de Secess�o,
Shadrach virou meeiro
e sustentou a crescente fam�lia
com uma pequena planta��o de amendoim.
Ele se casou tr�s vezes e teve muitos filhos.
Uma vez disse que foram 12. Outra vez, disse que foram 15.
Viveu mais que todos eles,
esposas e filhos.
Sentindo a morte em seus ossos e pele enrugada,
Shadrach saiu do Alabama a p�,
como havia chegado,
para voltar � Virg�nia da inf�ncia.
Sou um Dabney.
Shad, como soube a quem procurar?
Todos pra cama!
-O.K. -T� bem.
Tudo bem deix�-lo ali?
Parece tranquilo.
Eu e voc� somos os �nicos que entendem o Shadrach.
Pode ser.
Ele fala daquele jeito por causa dos dentes.
N�o sobraram muitos.
Pensa nos dias e noites que ele foi dormir e acordou.
Mais noites que estrelas no c�u.
Boa noite, Paul.
Boa noite, Shadrach.
Um preto morto na varanda com este calor!
S� me faltava!
Ainda n�o morreu.
Trixie, que coisa!
Jesus!
-Saiu sangue? -Quietinho!
Al�m disso,
o pobrezinho aguenta at� chegar � fazenda.
Ele devia ter continuado andando.
Isso n�o s�o modos de falar de um parente.
Sem gra�a!
Que inferno!
As crian�as s�o carinhosas com ele.
Quer ir pra cama, paix�o?
Ou quer mais frango?
N�o tem gra�a.
N�o vamos lev�-lo.
Jesus Cristo!
Porra de cadeira de balan�o! Que merda!
Papai, est� sangrando.
Foi s� um arranh�o.
Tadinho.
Levantem-no, meninos.
P�ssimo jeito de come�ar o dia.
Pronto!
Se n�o morrer de velhice, a cadeira de balan�o o mata.
Para que tudo isso?
Paix�o,
v� tirando logo o carro. N�s vamos � fazenda.
Ele n�o tem muito tempo.
Jesus Cristo! Eu j� disse que n�o vou levar
um preto moribundo para a porra da fazenda.
Espere!
-Porra, m�e! -Esqueci a cerveja.
Se comportem.
Amo voc�s.
Adeus.
Chega! Me deixe em paz.
-J� chega. -N�o fiz nada.
Claro que fez.
-Me deu cotovelada. -Me deixe em paz.
Calados a� atr�s.
Calma! Ainda estamos longe.
Mas que porra dos infernos
de carro fodido!
Um, dois, tr�s...
Querida, pega outra cerveja pra sua m�e, por favor?
Acertei!
J� s�o tr�s
Paix�o,
que aves voc� acha que s�o?
Gaivotas.
Nunca viu uma gaivota na vida?
Como � que me pergunta uma coisa dessas?
Gaivotas!
Burras e comilonas.
S�o bonitas. S�o grandes e brancas.
Ser� que elas s�o de comer?
S�o t�o duras que morreria engasgada.
M�e, pai!
Shadrach sujou a cal�a toda!
Oh, Deus!
Aos 99 anos.
Deus Todo-poderoso!
Ele n�o passa de um beb� de 99 anos.
Um fedor horroroso.
Por que ele n�o fez antes de sair?
J� n�o basta termos de lev�-lo at� a fazenda!
Calado, Vernon! N�o � culpa dele, coitado!
Quero ver voc� daqui a 50 anos.
N�o vou cagar na cal�a.
Tudo bem, Shad. N�o tem o menor problema.
Vai ficar tudo bem.
Venha, Shad.
Vai ficar tudo bem.
Miseric�rdia!
Por que n�o tira logo uma foto?
Devagar.
SOMENTE BRANCOS
Filhos da puta!
Onde o preto vai cagar?
Calado, paix�o. � serio!
Eu cuido de voc�, Shad.
Me traga um balde de �gua e uns trapos.
Calminha, Shad.
Acontece com todo o mundo uma hora ou outra.
N�o h� por que se envergonhar.
Vai ficar tudo bem.
Ponha trinta centavos.
-Maldi��o! -N�o se pode ganhar todas.
M�os � obra!
Todos limpando o carro.
Assim, est� melhor.
Ali est� ele!
Oi, Shad.
-Como vai, Shad? -Como vai?
-O cheiro melhorou. -Voc� vem com a gente, Shad?
Louvado seja Deus.
Louvado seja Deus.
Veja, Paul, chegamos.
Meninos, chegamos.
J� n�o era sem tempo!
Chegou em casa, Shad.
Vamos! Eu mostro para voc�.
Levem-no para dentro.
Posso tentar?
Minitoupeira, Meio-Toupeira!
Meninos! Venham comer primeiro!
Depois de comer, v�o me ajudar a botar o Shad para dormir.
Eu o vigio.
Eu tamb�m.
Vamos todos revezar para tomar conta dele.
N�o quero que se apeguem demais.
Ao trabalho, Meio-Toupeira!
Vamos l� no...
Vamos indo!
Como � que eu n�o sei se ele est� dormindo, ou...
Paix�o.
Minitoupeira.
Voc� e o Paul saiam da� para n�o acordar o Shad.
Estou procurando minha "olho de tigre".
N�o me importa! Voc�s saiam da� debaixo agora.
Aonde vamos?
J� vai ver.
O �ltimo � um ovo podre.
Est� gelada pra caramba!
Vai se acostumar logo.
O que houve com o casar�o da pintura na sua sala?
N�o existe j� faz tempo.
Os ianques queimaram na guerra.
� bem silencioso aqui.
Cad� todo o mundo?
Mam�e e Edmonia est�o com o Sachadura.
Lucinda foi pescar. Papai e Meio est�o trabalhando
-Na fazenda? -N�o...
Em qu�?
� segredo.
Por qu�?
Porque papai pode passar at� 10 anos na cadeia.
-Do que est� falando? -Da empresa de meu pai.
Roosevelt e a Receita poderiam acabar conosco se soubessem.
De qu�?
Do alambique. Quer ver?
Minitoupeira.
Minitoupeira, venha ajudar o Meio-Toupeira.
Venha, porcaria!
99 anos! Se eu vivesse tanto, me mataria.
J� est� quase morto, e eu tenho de enterrar.
Por que esse preto velho voltou?
Eu sei l�!
Talvez a vida de escravo fosse mais f�cil.
Pelo menos, tratavam dele.
Se pensar bem, Joe,
deve ter ficado ainda mais dif�cil para eles depois de libertados.
Com certeza, foi bem pior para os Dabneys.
Vou dizer o que acho: a Ku Klux Klan do Alabama
queimou uma cruz na bunda dele, e ele voltou correndo pro dono.
Que seria eu.
Est� bom. Podemos vender.
Esse pestinha tem orelhas grandes.
Paul, Joe Thornton n�o confia em voc�.
Acha que voc� vai dar com a l�ngua nos dentes.
Eu disse a ele, pai.
Paul � presbiteriano, Joe.
Se n�o confiar num presbiteriano, vai confiar em quem?
Posso confiar em voc�?
Pois bem!
Mam�e.
Oi, querida.
Bom dia.
Bom dia.
Seu pai est�?
Saiu com a mam�e.
N�o devem ter ido longe.
Eu aguardo.
H� mais Dabneys mortos que vivos.
Dev�amos trazer ger�nios da pr�xima vez que viermos.
Eles murchariam e morreriam como tudo o mais por aqui.
-Pai, o xerife est� a�! -Veio pelo alambique?
Est� esperando.
Que espere!
O Shad quer ficar aqui.
Duvido que ainda haja algum espa�o livre.
Eles amontoaram pretos e pretas mortos neste peda�o de terra.
Devem estar lado a lado.
Santo Deus!
N�o gosto nem de pensar que vou ter de cavar.
Paix�o, por que n�o cava � noite?
Est� quente � be�a.
Vamos l� ver o que Tazewell quer.
Bom dia, Trixie. Bom dia, Vern.
Bom dia. Quer ch� gelado?
N�o, obrigado. Espere, Vern. Quero falar com voc�.
O que houve?
Eu soube que vai enterrar um idoso de cor
em sua propriedade. Disse isso a Joe Thornton ontem.
Tomara que ainda n�o tenha enterrado.
Ainda n�o morreu.
Joe Thornton � um fofoqueiro incur�vel.
Mas � verdade. Algum problema?
N�o pode.
Por que n�o?
Porque � contra a lei.
Como pode ser contra a lei?
Sendo! � ilegal enterrar algu�m em propriedade particular.
Por que � ilegal?
N�o sei por qu�. Simplesmente �.
Naquele campo ali, Tazewell,
pessoas tem sido enterradas h� quase 200 anos.
Estou com um homem muito idoso.
Ele era escravo
e nasceu aqui.
Eu tenho de enterr�-lo aqui.
E vou enterrar.
Vamos, meninos.
Vou logo avisando que n�o poder� enterr�-lo,
ent�o, por favor, n�o crie caso.
Ele ter� de ser enterrado num local permitido
como nos cemit�rios para negros das igrejas daqui,
e ser enterrado por um coveiro negro licenciado.
� a lei do estado da Virg�nia.
E n�o h� qu�s nem porqu�s!
Puta merda!
Calma, paix�o.
� um absurdo!
Desde quando um cidad�o que paga imposto precisa de permiss�o do governo
para enterrar um velho de cor, doente e inofensivo nas terras dele?
Isso � contra todos os direitos civis!
-Querido, por favor. -Vern!
Eu e voc� nos conhecemos h� muito tempo.
Sei que voc� e Joe n�o estavam campinando ontem,
ent�o n�o me cause problemas. Estou avisando
pela �ltima vez: d� um jeito de enterr�-lo
numa das igrejas negras,
e ele vai precisar de um coveiro licenciado.
Pode at� escolher.
H� um coveiro conhecido em Tappahannock,
e eu soube que h� outro em Middlesex.
Se quiser,
eu ligo para eles da chefatura.
Ent�o t�.
Est� bem.
Quanto ser� que vai custar?
Eu n�o sei exatamente. Uma lavadeira que trabalhava para mim e Ruby
morreu h� pouco tempo.
Eu soube que a enterraram por $35.
$35?
Miseric�rdia!
Am�m!
Ele tem mesmo 99 anos?
E o que isso lhe interessa?
S� curiosidade.
Quer v�-lo, xerife?
Me ajudem com a comida.
-Odeio feij�o. -Que pena.
-Papai vem almo�ar? -S� quando estiver tudo pronto.
Quando ser� que Shadrach vai morrer?
-Pensei que ficar�amos s� dois dias. -N�o demora, coitado.
ALUGA-SE
FUNER�RIA
Enquanto estou
Nesta viagem entediante
Quero que Jesus Cristo
Seja meu amigo
Segure minha m�o, Senhor
Segure minha m�o
Segure minha m�o, Senhor
� amigo da Sra. McDonald?
N�o, eu n�o sou daqui.
Procuro um coveiro para um negro.
Entendi. Quando ele morreu?
Falta pouco.
Mas quero deixar tudo pronto. Quero saber quanto cobram.
Deixar tudo organizado.
Ele n�o tem fam�lia?
N�o, n�o tem fam�lia. Ele s� tem a mim.
Coube a mim enterr�-lo. Por lei,
preciso de um coveiro de cor. � voc� por acaso?
Me chamo Earvin Williams, e sou gerente da funer�ria.
De que tipo de servi�o gostaria?
Qualquer um serve.
Se a morte j� � iminente, preciso de um adiantamento.
-Olhe, Irving... -Earvin. Williams.
Eu e voc� precisamos dar um jeito
de dar a ele um enterro decente e dentro da lei.
Com certeza. Assim que fecharmos neg�cio.
Vamos a meu escrit�rio que lhe mostro o que temos para o senhor...
Shadrach. O nome dele � Shadrach.
Ele j� deve ter cem anos agora.
Depende do dia que nasceu.
Isso mesmo. Precisamos saber a data pra l�pide.
Nem sabe contar at� cem!
Sei, sim!
Venham todos! R�pido!
-Morreu? -N�o, acordou e est� falando.
Estava com tanta fome que come�ou a comer isso.
Meu Deus!
Queria ir ao reservat�rio do moinho.
Que ser� que ele quis dizer?
Pode ser que ele s� queira ver o moinho.
� isso que voc� quer?
Ver o reservat�rio do moinho?
Sim, senhora. Quero ver o moinho.
Por que quer ver o moinho?
Quero ver o moinho.
Em minha mem�ria, ainda vejo
Shadrach sobre o carrinho de m�o com um olhar sereno
enquanto o lev�vamos pelo caminho.
Um tranquilo soberano africano
conduzido na grandeza de seus muitos anos
at� uma recompensa inevit�vel e ansiada.
Vamos, Meio-Toupeira! Vamos apostar corrida.
A �gua est� gelada.
Venha logo, Edmonia!
Olhe, Paul!
-Que del�cia! -Veja, mam�e.
Vai entrar?
Eu vigio.
Olhei para o rosto velho de Shadrach
e vi seus olhos turvos observando os Dabneys
nadando no reservat�rio.
E naquele instante,
eu soube que Shadrach tamb�m j� havia nadado ali
em algum agosto quente uns cem anos atr�s.
Percebi que o Sr. Dabney se enganara sobre a volta de Shadrach.
A volta dele � Virg�nia
n�o foi por saudade da vida de escravo,
mas para achar uma inoc�ncia perdida.
Naquela tarde, talvez Shadrach
tenha recuperado o �nico momento puro e tranquilo de sua vida.
Voc� j� nadou aqui tamb�m?
Peguei voc�!
A verdade, Seddon,
� que a culpa � do Franklin "Desastre" Roosevelt.
Essas reformas n�o valem nada.
Sabe quanto ganhei ano passado? Legalmente, � claro...
Quanto?
N�o conto. Fico com vergonha.
Esses negros que vendem siri nas ruas ganharam mais que eu.
Vai melhorar.
N�o d� para piorar.
N�o consigo trabalho.
N�o tenho estudo. S� sei fazer u�sque.
Papai!
Acho que o Shadrach faleceu.
Ouviu o que eu disse?
Ouvi.
Eu estava sentada segurando a m�o dele
e, de repente,
a cabe�a dele
rolou pro lado,
e ele ficou quieto, sem respirar.
E a m�o dele
caiu sem vida
e ficou fria.
Ele n�o fez o menor barulho.
Papai, estou com medo.
-Est� com medo de qu�? -Eu n�o sei.
De morrer. Isso me assusta.
N�o h� por que temer a morte.
� a vida que mete medo.
A vida!
Paix�o.
� com a vida que devia ficar apavorada.
�s vezes entendo por que as pessoas se suicidam.
Como � que eu vou pagar o enterro dele?
Pretos sempre d�o o maior problema!
Que inferno!
Me ensinaram a ter respeito e dizer "de cor" em vez de "preto",
mas esses pretos sempre d�o problema!
Eles acabam com voc�.
N�o tenho $35!
N�o tenho $25!
N�o tenho nem $5!
Vernon, vai ter um derrame.
Franklin D. Roosevelt � o pior amante de negros de todos!
Eu sei, eu sei...
Pobre velhote.
Ele n�o fez nada.
Era um pobre coitado decente.
Nunca deve ter feito mal a ningu�m.
Eu n�o tenho nada contra Shadrach.
Ele ter� um enterro decente.
Pelo menos morreu na terra dos Dabneys como queria
mesmo que o enterremos num cemit�rio qualquer.
Mas n�s prometemos!
N�o notar� a diferen�a.
Depois de morto, ningu�m nota a diferen�a.
Morte n�o � grande coisa.
Lave e pendure l� fora. Amanh� estar�o secos.
Oi, querido. Entre.
Shadrach ia querer que ficasse com isto.
Desgra�ado.
Acredita em C�u?
Ser� que Shadrach vai para l�?
Imagino que sim.
Nunca fez mal a ningu�m.
Teve uma vida boa.
Por que diz isso?
Meu pai sempre diz isso quando algu�m morre.
Ser� que ele vai notar que n�o foi enterrado na terra dos Dabneys?
Seu pai diz que n�o.
Ser� que v�o para o mesmo lugar que n�s?
Os negros?
Acho que sim.
Como sabe?
H� igrejas e banheiros para gente de cor.
Eu acho que s� existe um C�u.
Minha m�e � muito religiosa
e diz que Deus ama todos seus filhos.
Essas crian�as idiotas!
Chorando por algu�m que mal conheceram!
Crian�as se apegam.
Elas superam.
Imagine s�!
Ele veio at� aqui s� para ser enterrado com a gente dele.
� bonito o cemit�rio de Tappahannock?
� um peda�o de terra como outro qualquer.
Voc� fez o que podia.
Talvez...
Crian�as, j� para cama!
J� ouviram a mam�e!
Eu n�o durmo a�.
E por que n�o?
Tem um homem morto!
E se est� morto, n�o vai morder, n�o � mesmo?
Andem logo!
Todos pra cama agora!
Temos um enterro amanh�.
� melhor come�ar cedo se n�o quisermos empestear o condado.
Shadrach!
Vamos, Shad. A comida est� pronta.
Venha, Shad!
Est� na hora!
Mam�e!
Do lado do cora��o.
Minitoupeira?
Ouviu isso?
Filho da puta!
Vern?
Vamos deix�-lo aqui por ora.
Vamos.
Vern?
O que � que � isso?
Oi, xerife.
Seus pais est�o?
-N�o o deixe ver o Shad morto. -Acho que sim.
-Vern, � Tazewell! -Est�o dormindo.
Tenho algo importante a dizer pro Sr. Dabney.
O que foi agora, Tazewell?
A� est�o voc�s! Vern, Trixie...
Voc�s madrugaram!
Tenho que ganhar $35.
Como vai o senhor idoso de cor?
Bem!
Seddon Washington disse
que ele morreu ontem � noite no meio de uma partida de domin�.
Shadrach estava doente demais para jogar domin�.
N�o, voc� e o Seddon estavam jogando.
� verdade?
Que jogamos domin�?
Que o preto velho morreu! � verdade ou n�o �?
Ningu�m sabe ficar de boca fechada
nesta porra deste lugar?
Est� na cara que n�o!
Sim, ele morreu,
e at� que est� muito bem para um morto.
J� pode voltar a fazer algo que preste em vez de perguntar
quem morreu e quem est� vivo.
S� queria dar uma olhada nele se eu puder.
N�o est� a�.
Eu j� disse que � contra a lei
do estado enterrar algu�m em propriedade particular.
Est� ali.
Ontem, depois que me informou de meus direitos e privil�gios,
falei com um coveiro de cor em Tappahannock e preparei tudo.
Tappahannock?
Foi voc� que sugeriu!
Veja se presta para algo,
e ligue pro Sr. Earvin Williams e diga que Shadrach morreu.
Diga que pode vir busc�-lo.
Quanto antes melhor, porque est� quente.
Eu ligo.
Agiu corretamente.
Os tempos mudaram. A lei muda tamb�m.
Onde pensa que eu vou ser enterrado, seu filho da puta?
Tomara que ainda demore muito, Vernon.
Abaixemos a cabe�a,
e oremos por nosso irm�o Shadrach,
pai, av�,
e um dos �ltimos a nascer escravo.
Deus o acolheu.
Depois de quase cem anos de busca,
Deus acolheu nosso irm�o Shadrach.
Cem anos vagando pelo deserto.
Cem anos viajando
por uma terra que n�o era dele.
Deus o acolheu.
A B�blia diz que Deus julgar� os homens,
e Shadrach andar� na Terra Prometida.
Am�m!
E sa�r� dela com muitas posses.
Possuir� grandeza.
Ele chegar� ao Pai em paz.
Ser� enterrado com uma idade avan�ada
e voltar� a ser jovem.
Vamos indo.
Obrigada, Reverendo.
V�o embora direto daqui?
Vamos esperar o sol se p�r. � mais fresco.
N�o o verei por um tempo, Tazewell.
A n�o ser que outro escravo me cate e venha morrer comigo.
Fa�a uma boa viagem.
Vamos l�!
Quero todos no alambique.
Temos de carregar antes de ir.
Isto � terra dos Dabneys!
O xerife Tazewell Lewis do Condado King and Queen
que se dane!
Obrigada, papai.
Me ajude, Meio-Toupeira.
Um grupo de anjos vem para mim
Vem me levar para casa
E se chegar l� antes de mim
Espere!
Ali. Do lado do cora��o.
Com cuidado.
Eu nunca havia pensado na morte
antes do ver�o que o Shadrach apareceu.
Eu pensava que j� tinha aprendido tudo
sobre o tempo e sua inexorabilidade.
Lar, doce, lar!
Por�m, o expirar tranquilo de Shadrach
n�o me preparou para a morte de minha m�e
dois anos depois, ap�s uma longa batalha contra dor agonizante e sofrimento.
Mas a agonia dela e meu desejo desesperado
que ela se libertasse, me fizeram pensar em Shadrach
e no sofrimento que ele suportou por quase um s�culo.
E me lembrei das palavras do Sr. Dabney.
As mais profundas que ele j� disse sem d�vida:
A morte n�o � grande coisa.
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