All language subtitles for Hondros (2017)

af Afrikaans
ak Akan
sq Albanian
am Amharic
ar Arabic
hy Armenian
az Azerbaijani
eu Basque
be Belarusian
bem Bemba
bn Bengali
bh Bihari
bs Bosnian
br Breton
bg Bulgarian
km Cambodian
ca Catalan
ceb Cebuano
chr Cherokee
ny Chichewa
zh-CN Chinese (Simplified)
zh-TW Chinese (Traditional)
co Corsican
hr Croatian
cs Czech
da Danish
nl Dutch
en English Download
eo Esperanto
et Estonian
ee Ewe
fo Faroese
tl Filipino
fi Finnish
fr French
fy Frisian
gaa Ga
gl Galician
ka Georgian
de German Download
el Greek
gn Guarani
gu Gujarati
ht Haitian Creole
ha Hausa
haw Hawaiian
iw Hebrew
hi Hindi
hmn Hmong
hu Hungarian
is Icelandic
ig Igbo
id Indonesian
ia Interlingua
ga Irish
it Italian
ja Japanese
jw Javanese
kn Kannada
kk Kazakh
rw Kinyarwanda
rn Kirundi
kg Kongo
ko Korean
kri Krio (Sierra Leone)
ku Kurdish
ckb Kurdish (Soranî)
ky Kyrgyz
lo Laothian
la Latin
lv Latvian
ln Lingala
lt Lithuanian
loz Lozi
lg Luganda
ach Luo
lb Luxembourgish
mk Macedonian
mg Malagasy
ms Malay
ml Malayalam
mt Maltese
mi Maori
mr Marathi
mfe Mauritian Creole
mo Moldavian
mn Mongolian
my Myanmar (Burmese)
sr-ME Montenegrin
ne Nepali
pcm Nigerian Pidgin
nso Northern Sotho
no Norwegian
nn Norwegian (Nynorsk)
oc Occitan
or Oriya
om Oromo
ps Pashto
fa Persian
pl Polish
pt-BR Portuguese (Brazil)
pt Portuguese (Portugal) Download
pa Punjabi
qu Quechua
ro Romanian
rm Romansh
nyn Runyakitara
ru Russian
sm Samoan
gd Scots Gaelic
sr Serbian
sh Serbo-Croatian
st Sesotho
tn Setswana
crs Seychellois Creole
sn Shona
sd Sindhi
si Sinhalese
sk Slovak
sl Slovenian
so Somali
es Spanish
es-419 Spanish (Latin American)
su Sundanese
sw Swahili
sv Swedish
tg Tajik
ta Tamil
tt Tatar
te Telugu
th Thai
ti Tigrinya
to Tonga
lua Tshiluba
tum Tumbuka
tr Turkish
tk Turkmen
tw Twi
ug Uighur
uk Ukrainian
ur Urdu
uz Uzbek
vi Vietnamese
cy Welsh
wo Wolof
xh Xhosa
yi Yiddish
yo Yoruba
zu Zulu

Original subtitles

Estou. Fala o Chris.

Certo.

Est� tudo normal.

Liga-me daqui a meia hora.

Alguns jornalistas meus amigos dizem que, de todos os jornalistas,

os fot�grafos de guerra s�o os mais malucos.

Pode falar disso?

O problema da fotografia de guerra

� que � imposs�vel pratic�-la � dist�ncia.

� preciso estar perto.

N�o se pode fazer a partir do hotel,

nem do outro lado da rua, ou da ponte.

H� que estar presente.

N�o h� forma alternativa.

� preciso pensar em maneiras de chegar ao centro da a��o,

independentemente do que aconte�a.

Por vezes, � preciso suspender o ju�zo

para o fazer, e deve ser da� que vem a reputa��o.

Pensem num pa�s devastado pela guerra

nos �ltimos seis anos e � bem prov�vel que Chris Hondros tenha l� estado.

Trabalha nos grandes teatros de guerra desde os anos 90.

Iraque, Lib�ria, Kosovo.

Com a sua objetiva, Hondros captou...

Fot�grafo nomeado para o Pulitzer, Chris Hondros da Getty Images...

FILHO DA NOSSA �POCA

Chris � fot�grafo

da ag�ncia fotogr�fica internacional Getty Images.

Acaba de regressar da sua nona viagem ao Iraque.

N�o sou daqueles que se meteram na fotografia de guerra

pela adrenalina.

Tamb�m n�o me interessam os desportos radicais, nem nada assim.

Acredito na fotografia, acredito no papel

espec�fico dos jornalistas e fot�grafos

no sistema de conflito internacional

e no modo como resolvemos diferendos.

Temos um papel a desempenhar e quero participar nisso.

Esta deve ser a fotografia mais antiga

que tenho do Chris, e este sou eu a tirar a foto,

"Aqui estou eu no liceu" e, maravilha das maravilhas,

eis o rapaz que se tornaria o meu melhor amigo.

Muito novo, o Chris.

� uma fatia pequenina

de todas as experi�ncias por que ele passou na vida.

Experi�ncias que mais ningu�m no mundo

ter� tido alguma vez.

Esteve na linha da frente de todos os maiores acontecimentos mundiais

da �ltima d�cada.

Era o meu melhor amigo, mas isso nem sequer

toca a superf�cie do que eu sentia por ele.

O meu instinto diz-me que partes dele

ainda andam pelo mundo.

OUTONO DE 95

Que se pode encontrar partes dele nas pessoas

e nos lugares que eram importantes para ele.

LIB�RIA, 2003

Algumas das fotos, em minha opini�o,

das fotos mais fortes

que tirou foram na Lib�ria e parece-me,

quando olho para elas, que tinha uma liga��o mais profunda

ao que se passava por l�. Estou certo?

Sim, eu gostei muito dos liberianos e da Lib�ria.

Interessei-me muito por aquela guerra porque, acho eu,

teria sido f�cil preveni-la.

A comunidade internacional

podia ter agido naquele ver�o para prevenir

aquela situa��o c�ustica.

O Chris tinha uma vis�o s�lida do que queria tratar com a fotografia.

Podia p�-lo em qualquer situa��o

sem ter de explicar o porqu�.

VICE-PRESIDENTE DE NOT�CIAS

Queremos paz! Chega de guerra!

Queremos paz! Chega de guerra!

Acreditava no poder de iluminar

locais que, de outro modo, ficariam nas trevas.

Assobio e v�m.

Em 2003, eu cobria o que veio a ser

o cl�max da guerra civil na Lib�ria, na �frica Ocidental.

Os rebeldes aproximavam-se de Monr�via,

a capital, pretendendo afastar Charles Taylor...

FOTOJORNALISTA

...do poder e ouv�amos falar

de muitos ataques a civis, de atrocidades, massacres.

�amos tentar verificar essas coisas.

Conheci o Chris ao ajud�-lo a chegar � frente de guerra

para cobrir um conflito em que morr�amos

e nos mat�vamos uns aos outros.

O Chris deixou a paz dos EUA...

APOIO DO CHRIS NA LIB�RIA

...e veio para contar a nossa hist�ria

e lembro-me dos riscos que ele correu.

Os fot�grafos querem sempre ir onde h� tiroteio.

Perguntam: "Porque h� tiros?"

Dizem: "Quero ir l�."

Nesta altura, ambos os ex�rcitos

tinham degenerado em mil�cias.

N�o usavam camisa, muitos eram crian�as.

Balas a voar por todo o lado.

Meninos de sete, oito, nove anos com Kalashnikovs.

Morriam de fome e alucinavam com drogas

que os comandantes lhes tinham dado.

Havia um elemento de loucura nisto.

Num dia especialmente dif�cil em que eu tinha sa�do,

fui apanhado numa barragem de morteiros,

e lembro-me de tentar voltar

ao hotel, que tinha um teto grosso de cimento

e pensei que podia esconder-me na cave e ficar a� em seguran�a.

Minutos mais tarde, a escola do outro lado da rua

foi atingida por um enorme tiro de artilharia.

Estavam civis amontoados no p�tio

que se tinham refugiado l� e a muni��o caiu

mesmo no meio deles.

O Chris correu para o hotel, agarrou-me e disse:

"Atingiram a escola ali em frente,

temos de ir fotografar aquilo."

Eu estava t�o traumatizado que s� disse:

"J� chega, n�o sou capaz."

Fiquei encolhido no hotel, n�o conseguia voltar.

Ele voltou para a como��o.

Fotografou tudo e ajudou a levar gente para o hospital.

Aprendemos a enfrentar os medos, em situa��es dessas.

N�o o fazendo, desperdi��mos o nosso tempo.

Gast�mos tempo e enfrent�mos dificuldades

para aceder a estas situa��es e fazer o trabalho

que acreditamos ser necess�rio

e, se n�o fizermos aquele esfor�o extra para cumprir o nosso papel,

sob situa��es de grande stress, desperdi��mos o nosso tempo.

A frente de guerra, quase todo o ver�o,

era um par de pontes e o ex�rcito rebelde

estava de um lado, com as tropas do governo de outro.

Nos primeiros dias em que a frente era ali aventurei-me at� l�.

Est�vamos com os soldados do governo

antes de eles carregarem sobre a ponte

e pensei que seria demasiadamente perigoso.

Est�vamos expostos, n�o t�nhamos abrigo, nem onde nos baixarmos,

as balas voavam por toda a parte.

Mas algo me ocorreu no momento

em que pensava nisso e iam iniciar a investida.

Percebi, naquele momento, que toda a minha carreira

de fot�grafo me levara

a um momento daqueles.

E que a fotografia estava na ponte,

n�o a 15 metros do centro da ponte,

estava na ponte.

N�o havia atalhos.

Esta � a fotografia ic�nica.

O Chris, no seu auge, e era frequente estar no auge,

tinha a capacidade de descobrir estas imagens.

Quando a vi, fiquei imediatamente preocupado com a sua seguran�a.

Ele estava mesmo muito perto.

H� que compreender que, numa situa��o assim,

ainda haver� troca de tiros.

Preocupa-nos ficarmos expostos.

Ser capaz de manter a presen�a de esp�rito necess�ria...

FOTOJORNALISTA

...para nos focarmos no tema,

enquadr�-lo, captar aquele momento imortal

� realmente muito dif�cil.

Quando o ouv�amos contar a hist�ria

do perigo naquela ponte, de quanto metal

havia a voar e pensa-se que criar esta fotografia t�o elegante

no meio daquilo tudo � espantoso.

FOTOJORNALISTA

Uma coisa � ter acontecido,

outra coisa diferente � haver algu�m a document�-lo.

Uma das fotos mais fortes

da Lib�ria � a do soldado muito jovem

que salta de alegria por ter acertado no alvo.

Essa foto, ainda n�o sei muito bem

o que significa, tem uma certa ambiguidade

que ainda estou a explorar, acho eu.

Celebra a guerra, ou � algo diferente?

Muita gente tiraria ila��es diferentes

daquela foto

e eu mesmo ainda n�o descobri o que significa.

Lembro-me de olhar para todas as fotos que vieram da Lib�ria.

Era o pandem�nio.

Acho que o Chris passou muito tempo, atrav�s das suas a��es...

FOTOJORNALISTA

...a desenvolver uma empatia profunda com as pessoas e a condi��o delas.

E ele queria que o mundo sentisse empatia com a condi��o delas.

Havia cerca de dez fot�grafos

presentes no local e come��mos a saturar

a imprensa com imagens da guerra.

4500 SOLDADOS DOS EUA APROXIMAM-SE DA LIB�RIA

COMBATE CONTINUA AP�S VIOLA��O DO CESSAR-FOGO

MORTIC�NIO NA LIB�RIA ATINGE EMBAIXADA DOS EUA

OS FILHOS DA GUERRA V�O LUTAR DROGADOS

MOBILIZA��O AO LARGO DA LIB�RIA

Subitamente, a ONU envolveu-se e conduziu audi�ncias

e organizou uma for�a de manuten��o da paz.

Havia verdadeira causa e efeito.

FOR�AS DA PAZ NA LIB�RIA

LIB�RIA REJUBILA COM PACIFICADORES DA NIG�RIA

O Chris falou consigo sobre o motivo de achar

t�o importante cobrir estes conflitos?

Eu contei-lhes algumas hist�rias quando eles eram pequenos, sabe.

Eles diziam sempre: "M�e, conta-nos uma hist�ria da tua inf�ncia."

M�E DE CHRIS

� noite, eu contava-lhes hist�rias do tempo em que eu cresci.

Era completamente diferente da nossa vida nos Estados Unidos.

Quatro mil avi�es esmagaram a barreira atl�ntica...

Quando a Segunda Guerra Mundial come�ou,

alastrou-se mais e mais �s cidades pequenas.

Contei-lhe algumas hist�rias.

Avi�es abatidos em chamas, est� a ver,

e pessoas a saltar dos avi�es e outras coisas assim.

PRODU��ES FELLAS APRESENTA

EM

MISS�O SECRETA

O que te assusta, Chris?

Nada.

Claro.

Pois.

O que te assusta mesmo?

Nada me assusta.

Sempre foi muito independente, confiante,

j� o era em pequeno.

N�o sei.

Talvez sejam os genes, n�o sei.

Sabia que ele ia ser

fot�grafo, era evidente para si?

Sim, ele n�o parava de falar disso.

O meu marido n�o gostava da ideia e eu disse ao meu marido:

"Cala-te, o rapaz vai fazer o que quiser

e tu vais deix�-lo em paz."

Era importante para mim e eu disse-lhe: "Tens a oportunidade,

tens os meios, tens tudo aqui que n�s nunca tivemos."

Eu cresci no caos, l�.

O que n�s n�o t�nhamos.

Eu disse: "Aproveita."

Eu e o Chris quer�amos tanto ser jornalistas

que muitas vezes tent�vamos saltar

o que aprend�amos na universidade e �amos fazer reportagens.

CAMPBELL E HONDROS EQUIPA DE REPORTAGEM

O nosso primeiro trabalho juntos

foi cobrir a tomada de posse do Bill Clinton, em 1993.

Disse: "Vamos fazer a reportagem para o jornal universit�rio.

Cheg�mos a Washington sem credenciais de imprensa

e sem roupa adequada para conseguir entrar

no baile de posse para conseguir a hist�ria

de que precis�vamos, por isso o Chris, cheio de treta, arranjou

um par de passes de acesso ilimitado

e eu arrombei o guarda-fatos do meu tio falecido

e roubei um par de camisas demasiadamente grandes

e um par de casacos.

Acab�mos por entrar no baile

e conseguimos a foto que quer�amos,

resultou tudo bem.

FOTOS DE CHRIS HONDROS

TEXTO DE GREG CAMPBELL, CORRESPONDENTE

O Chris contratou-me como estagi�rio quando acabei o curso.

Surpreendeu-me muito ver como ele era jovem.

FOTOJORNALISTA

Era um tipo da minha idade.

E era o fot�grafo-chefe num jornal.

O jornal podia ser pequeno, mas ele � que mandava.

Tinha um r�dio ao p� da cama sintonizado na frequ�ncia da Pol�cia,

ia atr�s de todas as not�cias

que houvesse por a�.

A primeira coisa imatura que um fot�grafo jovem faz

� olhar para a National Geographic e dizer

que tamb�m tira fotografias assim.

O Chris dizia categoricamente que ia tirar fotografias daquelas.

E que ia descobrir o caminho at� l�.

Trabalhar num pequeno di�rio americano

e ir da� para a cobertura de guerras internacionais

� um grande passo e n�o h� manual de instru��es

que nos diga o que devemos fazer.

Vender tudo e ir para o Kosovo

� um bocado arriscado, mas est�vamos prontos para dar esse salto.

Quando se � muito ambicioso, jovem e inexperiente,

n�o se tem uma ideia exata da intensidade do perigo

em que nos pomos e � muito comum

pensar que nada nos pode acontecer,

que somos observadores e que isso nos protege.

Mas as pessoas est�o a combater a s�rio

e s� isso nos ensina

o que significa estar naquele lugar.

� assim que come�amos a ver realmente

o car�ter das pessoas

e eu via o car�ter do Chris e percebi que, para ele, n�o ia ser

a �ltima viagem ao Kosovo nem a qualquer outro lugar.

Para ser sincera, ouvi dizer que ele esteve l� tr�s vezes.

Mas s� soubemos de uma viagem.

Ele disse: "N�o queria preocupar-vos."

Sempre confiei no bom senso dele.

Quando n�o tinha not�cias dele durante duas ou tr�s semanas,

devia andar ocupado.

NIG�RIA

SERRA LEOA

A Getty Images queria fundar um servi�o noticioso.

Quer�amos causar impacto,

fazer diferen�a no meio das not�cias.

Ele oferecia uma fotografia de alto n�vel.

Influenciou muito os outros fot�grafos...

EX-EDITOR

...que trabalhavam na Getty.

Podem chamar-lhe "o efeito Hondros".

Nos primeiros dias da Getty, �ramos o �nico servi�o que tentava

fazer algo diferente,

inovador, certamente mais criativo,

com uma interpreta��o mais lata do que uma fotografia noticiosa

� e pode ser.

A chave, para n�s, quando come��mos a empresa noticiosa,

era deixarmos os fot�grafos contar as hist�rias.

Falando com o Chris, v�-se

que era isso que ele fazia e queria realmente fazer.

PRESIDENTE E COFUNDADOR

Ele queria aquela flexibilidade e possibilidade

de contar a hist�ria tal como a via.

Para ele, a hist�ria era sempre

sobre as pessoas afetadas pelo conflito

ou pelo desastre, em vez de ser o pr�prio desastre.

Temos uma not�cia de �ltima hora.

Aparentemente, despenhou-se um avi�o

contra o World Trade Center aqui em Nova Iorque.

Parece ter ocorrido h� momentos.

Na manh� do 11 de Setembro, recebi um telefonema

do Chris, que me disse: "Liga a televis�o."

CIDADE DE NOVA IORQUE

...grande preocupa��o.

"Tens de te demitir hoje

e vir para Nova Iorque esta noite."

Eu estava a dar o biber�o ou a mudar uma fralda, ou algo assim

e pensei muito em como

as nossas vidas eram diferentes.

Nunca esquecerei que, alguns dias depois do 11 de Setembro,

est�vamos todos na reda��o

a trabalhar umas horas doidas

e de repente soube que o Chris ia para o Paquist�o.

E eu disse: "O qu�?"

Nem tinha pensado no Paquist�o.

Ele estava sempre um passo � frente

no que tocava � evolu��o da hist�ria,

onde tudo ia acontecer, por isso, habitualmente,

ele ligava de manh� e dizia:

"Olhem, vou fazer isto", em vez de esperar

que o mandassem para qualquer lado.

Na verdade, inevitavelmente, foi o momento em que come�aram as viagens do Chris.

Nada o fazia voltar para tr�s e, nos dez anos seguintes,

ele ia para os s�tios.

Ent�o, comecei a ver...

FOTOJORNALISTA

...o trabalho dele em todas as primeiras p�ginas.

Sabe o que s�o "acontecimentos inesperados"?

Acidentes de via��o, bombas que explodem...

HOMENS A TRABALHAR

...avi�es contra pr�dios.

As fotos desse dia particular...

t�m muito impacto, muita emo��o.

Acho que o Chris estava muito interessado na evolu��o da hist�ria.

Que li��es devemos tirar daqui?

Acho que o Chris sentia o dever de responder a muitas dessas perguntas.

IRAQUE, 2003

OPERA��O "SHOCK & AWE" EM CURSO

GUERRA NO NORTE COME�OU

PENT�GONO: IN�CIO DA "SHOCK & AWE"

BOMBARDEAMENTO DE BAGDADE

Quando a invas�o come�ou,

aluguei um todo-o-terreno

e cruzei a fronteira para o Iraque.

Entrar em Bagdade antes da queda...

FOTOJORNALISTA

...seria de import�ncia hist�rica suprema.

Quer�amos estar presentes.

Cruz�mo-nos com outros todo-o-terreno

com jornalistas da Newsweek

que fariam tudo para chegar a Bagdade

antes de toda a gente.

Fotograf�mos uns dias, sem problemas.

Seguimos a autoestrada que levava a Bagdade,

uma coluna serpenteante

de blindados americanos, com centenas de quil�metros de comprimento.

Eu devia ter tido calma, ficado para tr�s

e avan�ado lentamente, mas estava entusiasmado

e, no terceiro dia da guerra, tinha feito

metade do caminho para Bagdade.

Era uma tarde muito calma,

n�o se passava nada, n�s segu�amos

uma coluna de fuzileiros e n�o tinha havido combates,

nem resist�ncia.

Infelizmente, a unidade de fuzileiros

que n�s segu�amos ia ser desviada,

havendo outra coluna de fuzileiros

uns dois ou tr�s quil�metros � frente

e tent�mos juntar-nos a eles,

o que significava percorrer essa dist�ncia em terra de ningu�m,

por assim dizer, sem prote��o militar.

Vamos falar com Chris Hondros,

not�rio fot�grafo da Getty Images.

Chris, em que est� a pensar?

Estou espantado por nos deixarem percorrer esta dist�ncia no Iraque.

� direita, lembro-me de uma bomba de gasolina muito grande

e de ouvir tiros,

olhei para l� e vi uns 10 a 15 soldados iraquianos,

fardados, a atirar contra n�s.

Os pneus do lado direito do carro rebentaram

e and�vamos sobre as jantes.

Abandon�mos o carro, peg�mos no que pod�amos,

e perdemo-nos num terreno agr�cola iraquiano ao cair da noite.

Foi mau.

O Chris falava ao telefone com a Getty

em Nova Iorque, a quem os comandantes dos fuzileiros

aconselhavam a escavar um buraco,

esconder-nos e esperar at� de manh�.

Pareceu-me m� ideia porque faria de n�s alvos f�ceis.

Foi dif�cil convencer o Chris.

Ele estava decidido a ficar no lugar.

S� via uma solu��o e era isso que ia fazer.

� assim que se resolve tudo,

ficando num buraco e esperando o resgate de manh�.

Eu repetia que, de manh�,

todos iam ver-nos, incluindo os iraquianos.

V�o encontrar-te,

v�o seguir as pegadas na areia.

Acho que isso o convenceu de que era a decis�o errada.

Quando digo "convencer", falo em agarr�-lo pelo colarinho,

pela camisa, em aban�-lo e dar-lhe estaladas na cara

porque n�o me parecia seguro ele ficar no deserto.

Tinha de vir connosco, �amos lev�-lo, quer ele quisesse ou n�o.

And�mos na escurid�o total durante dez quil�metros.

Demor�mos seis ou sete horas,

e cheg�mos a uma zona de concentra��o militar.

Tamb�m acabou a minha viagem de carro para Bagdade,

porque perdi a carrinha, perdi muito equipamento.

Fiquei com os soldados que nos levaram com eles

durante alguns dias, mas eles

tinham helic�pteros que iam regressar para reabastecer

e eu embarquei num

com o rabo entre as pernas.

Fic�mos presos no deserto tr�s dias.

Havia uma tempestade de areia furiosa.

N�o se podia ver mais nada, a n�o ser

a camisola de gola alta do Chris, branca como o tit�nio e iridescente.

Sabe como �, de algod�o eg�pcio.

T�o t�pico do Chris.

Eu abusei.

Pensei que se podia

cruzar a fronteira num todo-o-terreno desprotegido.

� incompreens�vel.

Eu e o Chris fomos muito est�pidos

em fazer aquilo.

Os fotojornalistas, para sobreviver,

precisam de uma certa arrog�ncia e eu senti-a,

vi-a nos meus colegas, vi-a no Chris.

Acho mesmo que ele sentia isso.

Uma confian�a elevada e suprema na sua capacidade

de sobreviver a tudo.

Uma arrog�ncia.

Quem nunca se sentiu assim?

Cobrimos dezenas de conflitos, v�rias vezes,

acontece tanta coisa, mas a n�s, n�o,

ou, quando algo nos acontece,

sacudimos a poeira das cal�as e vamos embora.

O Chris tinha realmente uma toler�ncia ao risco

que eu n�o tenho.

N�o sei, acho que n�o nasci assim.

N�o quero usar a palavra "despreocupado",

mas tinha um otimismo incr�vel.

Ele estava farto, ia regressar

e descansar, recuperar.

Levei-o de Bagdade � fronteira sul

e vimos um sinal com o nome da cidade

onde atiraram sobre eles e nunca me esquecerei disto.

Olhou para mim e disse: "Vamos dar uma volta ao mercado,

aposto que encontramos as minhas c�maras e o telefone sat�lite."

Eu acelerei a� para os 120

e fiz de conta que n�o ouvi o Chris.

BROOKLYN, NOVA IORQUE

A SINFONIA GUIA DO OUVINTE

ROMANCE & FIC��O

Escrita & Jornalismo

BIBLIOTECA MODERNA

O CONDE DE MONTE CRISTO

CR�TICA DE SHAKESPEARE

Acho que ele era um grande "aguentador", se � que a palavra existe.

Porque tinha uma vida t�o rica.

N�o me preocupava com ele

porque estava sempre a interagir com as pessoas

de formas que lhe permitiam processar o que via.

O Chris � o tipo de homem de quem nos tornamos amigos

rapidamente e � muito aberto.

Uma das coisas que eu n�o entendia

realmente sobre o Chris,

at� muito mais tarde na nossa amizade, era a variedade de amigos que tinha.

Tradutores, condutores, pessoas que conheceu pelo caminho,

n�o importava quem fossem,

ele fazia um esfor�o tremendo

e dedicava muita energia a manter o contacto com eles.

Tinha realmente uma presen�a global.

� um daqueles homens

a quem o mundo abre as portas.

Sempre com um sorriso no rosto,

tudo lhe despertava a curiosidade.

Ele conquistava as pessoas

e para ter sucesso nesta profiss�o

precisamos dessa capacidade.

O Chris interessava-se muito pelas rela��es humanas.

Viajava por todo o mundo para fomentar,

para alimentar essas rela��es.

Ele era assim e sentimos, muitas vezes,

que nestes ambientes

partilhamos,

n�o digo tiramos, mas partilhamos

estes momentos com as pessoas, e no fim voltamos para casa.

Sabemos que deixamos as pessoas

em situa��es de que n�o podem sair.

Ele queria fazer algo que ajudasse as pessoas

e lhes desse oportunidades que n�o teriam de outra forma.

Senhoras e senhores, bem-vindos a Monr�via.

LIB�RIA, 2013

GRA�AS A DEUS POR UMA D�CADA DE PAZ

QUEM MERECE A MEDALHA DA PAZ?

SENADO EMPATA PROMULGA��O

REP�BLICA DA LIB�RIA

Joseph, ol�.

Prazer em conhecer-te.

Igualmente.

- Como est�s? - Bem.

Obrigado por te encontrares connosco.

- Entramos? - Sim, obrigado.

Isto � tudo estilha�os ou balas?

Estes s�o de morteiro e estes de balas.

Tinha 14 anos quando me uni � revolu��o.

Os outros rapazes tinham nove ou dez,

outros tinham nascido durante a guerra

e, quando abriram os olhos, foi para a viol�ncia.

Ainda me lembro dessa tarde.

Conheci um grupo de crian�as-soldado com o Christopher Hondros.

Perguntei: "Respiras?"

Ele disse "Sim". "De certeza?"

"Sim, estou bem."

Fui para o outro lado da ponte e disparei um foguete.

Vi-o a tirar a fotografia.

Tamb�m gritei mais.

Perguntei ao rapaz: "Para onde foi o homem?" E ele: "Foi-se."

Perguntei: "Ningu�m se magoou?"

Ele disse: "N�o, ele voltou para tr�s."

N�o me relacionei com aquele combatente

e, sendo a imagem usada por todo o mundo,

perguntavam-se se sabia a sua hist�ria ou a sua idade,

se sobrevivera � guerra, coisas assim, e eu n�o sabia.

N�o sabia que a foto ia ter tanto impacto.

Mas o meu colega na Getty, o Spencer Platt,

acabou por ir � Lib�ria um m�s ou dois mais tarde

e disse-me que andava a conduzir

e viu aquele combatente a correr por ali

e estava certo de que tinha sobrevivido.

Perguntei: "Era mesmo ele?"

"Reconheci-o pela foto."

Tinha o recorte, tirado das imagens da MSNBC,

colado ao para-brisas da carrinha.

Sentia muito orgulho daquela foto dele no meio da batalha.

Uns anos mais tarde, voltei para cobrir

as elei��es na Lib�ria em 2005,

disse a mim pr�prio que tinha de o encontrar.

Quando o Chris veio para as elei��es,

fui busc�-lo ao aeroporto

e logo ao jantar, disse-nos: "Encontr�mos o Joseph."

Disse: "Quero que ele beneficie tamb�m."

Depois da guerra, n�o sabia para onde me virar.

Um dos meus planos era tornar-me mission�rio,

n�o tornar-me criminoso.

Foi muito duro para mim.

O exemplo que vemos agora, nas ruas da Lib�ria,

� gente com quatro carabinas �s costas,

vemo-los na rua,

a esfaquear as pessoas, a roubar carteiras,

a tomar drogas e coisas assim.

N�o quero motivar outras pessoas a imitar a minha vida.

UNIDADE DE IMPLEMENTA��O CONJUNTA

Depois conheci o Chris Hondros.

Perguntou: "Que gostarias de fazer?

Alistar-te no novo ex�rcito?"

Eu disse: "N�o, n�o posso ir para o ex�rcito outra vez.

Preciso de variar.

De voltar a estudar.

Acho que seria bom."

No dia seguinte, levou-me � escola,

eu fiz o exame de entrada e ele pagou as propinas

e deu-me dinheiro para comprar livros e a farda da escola.

Quantos anos de escolaridade tinha, nessa altura?

Era s� um estudante do d�cimo ano.

Ele disse-me: "Vai ser dif�cil para ti."

Eu disse: "Gosto do desafio, � bom,

n�o ser� dif�cil, vai ser melhor."

Ele disse: "Tu consegues, eu acredito em ti.

Pelo poder de Deus, e gra�as ao Chris, a minha vida deu uma volta

e pude integrar-me na sociedade.

Ele foi para o Iraque e isso preocupava-me.

Tinha uma lista dos s�tios aonde ia e preocupava-me.

Onde que quer ele fosse, havia gente a fugir de l�.

E n�o havia ningu�m para o proteger.

H� uma frase, que �:

"Quem mata um homem, mata toda a humanidade."

Estou a parafrasear.

Quem salva um homem, salva toda a humanidade.

Acho que o Chris era assim.

Alimentava todas as suas rela��es da mesma forma.

IRAQUE, 2005

Preciso que voltes.

Tantas pessoas aqui na igreja e em todo o lado

perguntam: "N�o se preocupa?"

"Mesmo que eu me preocupe,

nada vai mudar."

N�o lhe posso dizer para ficar em casa s� porque estou preocupada.

N�o posso fazer isso.

Esperem!

Aguentem! Ao fundo da rua, despachem-se!

Aguentem!

Tudo o que eu lhe dizia era:

"Por favor, tem cuidado.

N�o h� foto que valha a tua vida."

E ele dizia: "N�o te preocupes, m�e, eu tenho cuidado."

Muita gente foi ao Iraque em 2003 e n�o voltou depois da guerra.

O Chris voltava todos os anos,

uma patrulha depois da outra.

N�o sobram muitos jornalistas no Iraque.

Para mim, � incompreens�vel.

Compreendo que seja extremamente perigoso.

Mas � uma hist�ria de import�ncia cr�tica.

� a hist�ria internacional do nosso tempo, n�o h� outra igual.

Ele dedicava-se a contar essa hist�ria.

E ia mesmo com 48 �C,

ia quando mais ningu�m queria ir.

Ele come�ava a desenvencilhar a hist�ria psicologicamente,

mas come�ava a ultrapassar os limites,

aproximava-se cada vez mais do cerne.

Inesperadamente, captou uma imagem

ou s�ries de imagens que se tornaram as fotos definitivas do acontecimento.

Queria ir � baixa de Mossul,

insisti e disseram:

"Vamos mandar-te a Tal Afar."

E eu: "Que raio � Tal Afar? Nunca ouvi falar."

Disseram: "Temos uma miss�o muito importante

a decorrer l� e tu vais gostar."

Normalmente, quando dizem isso, � um t�dio de morrer.

Fui de avi�o para Tal Afar, uma base poeirenta, no fim do mundo.

Dirigia-me ao chefe do pelot�o

que disse: "Eis o nosso jornalista de hoje."

E eu: "Fant�stico."

Eu instru�a sempre os jornalistas:

"Por favor, fa�am o que eu mandar."

ESPECIALISTA (RESERVA) COMPANHIA APACHE

"Se n�o fizerem o que mando,

n�o posso manter-vos vivos."

A resposta do Chris foi:

"A minha prioridade principal s�o as fotografias."

E eu: "Ainda levo um tiro por tua causa."

Mas gostei dele.

Fiquei com uma unidade que parecia bastante boa,

a Companhia Apache.

Eram simp�ticos para os jornalistas

e junt�mo-nos a uma patrulha ao entardecer.

As ruas estavam vazias.

Havia um recolher obrigat�rio, havia tens�o na cidade.

Apareceu um carro � dist�ncia

que se dirigia a eles.

Os soldados no Iraque n�o deixam que os carros se aproximem.

N�o deixam que isso aconte�a

porque pode haver bombas e outras coisas.

L� est�vamos eu e o Chris.

Vi o Chris a tirar fotografias � minha direita

e ouvimos um motor a roncar,

sem saber o que era.

Sab�amos que algo ia acontecer.

Sab�amos, pronto.

Dispar�mos dois tiros de aviso.

� mais um do que � costume

e eles aceleraram.

O comandante disse: "Parem o carro,

algu�m pare o carro."

E abriram fogo.

Vinte homens

a disparar o mais que podiam.

Cada um de n�s meteu 18 a 20 cartuchos

no ve�culo antes de se ouvir a ordem de cessar fogo.

� muita muni��o.

Ouvi vozes de crian�as

quando o carro parou e soube que era uma fam�lia.

Abriu-se a porta de tr�s e come�aram a cair c� para fora

v�rias crian�as, seis ao todo.

Os pais, sentados � frente,

estavam cravados de balas, tinham morrido.

"Meu Deus", disse eu.

"O que fizemos?"

Vi uma menina com a cara coberta de sangue.

Podia ser minha filha.

Parece incr�vel, mas as crian�as estavam bem,

menos uma que tinha sido atingida no abd�men.

O Chris estava presente, ele viu.

Teve presen�a de esp�rito para tirar as fotos

e insistir que fossem publicadas

mesmo que o ex�rcito n�o gostasse.

O major queria que eu ficasse com as fotos

alguns dias. Disse: "Agradecia

que as guardasse alguns dias,

at� termos investigado isto."

Respondi: "Vou falar com o meu chefe,

queremos colaborar consigo, major,

talvez possamos fazer algo assim.

Deixe-me ver se � poss�vel."

Eu estava � vontade, nas calmas.

Sa� do gabinete dele

e fui a correr para a minha rulote e liguei o telefone sat�lite

e olhei para todas as fotos

e n�o conseguia acreditar

na quantidade de informa��o que elas continham.

"Tenho de as mandar para Nova Iorque

antes que aconte�a algo."

Eles podem interferir em todas as comunica��es na base,

incluindo o meu telefone da rede sat�lite.

E eu: "Manda as fotos, manda as fotos,

despacha-te a mand�-las, despacha-te."

Enviei 20 fotos

e eles, que al�vio, receberam-nas.

Desliguei o telefone e o computador.

RICE CRITICADA POR CAUSA DO IRAQUE

MENINA IRAQUIANA PERDE PAIS EM TIROTEIO

O impacto das fotos de Tal Afar foi imediato.

Tinha havido relatos, durante a guerra,

de acontecimentos semelhantes,

mas n�o havia provas visuais.

As fotografias vieram dar a um problema apagado

um relevo maior.

DESESPERO E HORROR EX�RCITO MATA-LHES OS PAIS

Publicaram-nas por todo o mundo, dias a fio.

Depois, o Chris foi expulso do grupo de jornalistas admitidos.

Constru� um livro sobre o Iraque, o Iraque foi a minha guerra.

Passei anos l�, cobri a guerra a fundo.

Acho que a �nica foto que chegou ao p�blico americano,

de todo o conflito, foi a foto tirada pelo Chris em Tal Afar.

O Chris disse, sobre as fotos de Tal Afar,

que isto acontecia constantemente no Iraque,

e por acaso ele estava l� para o presenciar.

As imagens de Tal Afar

mostram uma interse��o de vidas

que, no fim, tinham mudado todas.

Deve ter sido um momento traum�tico para o Chris

e creio que foi isso

que o levou a relacionar-se

com um rapazinho que veio c� tratar-se.

O menino que levou um tiro acabou por,

com base nas fotos, ser levado para Boston para tratarem dele.

O Chris fez muito, por sua conta,

para trazer o Rakan para os EUA,

algo muito dif�cil de fazer durante uma guerra.

Um cidad�o iraquiano procurava assist�ncia para os seus ferimentos neste pa�s.

Uma liga��o assim,

n�o a temos com toda a gente,

mas o Chris tinha essa liga��o com aquelas pessoas

e mostrou-as ao mundo...

FOTOJORNALISTA

...e penso que queria proteg�-las,

assegurar-se de que ficariam bem.

Muitos de n�s passam pela vida das pessoas,

tiramos fotos, �s vezes ganhamos fama,

por vezes em detrimento das pessoas e acho que ele queria

que elas ficassem bem.

Chris, � conhecido por esta s�rie not�vel

de fotografias em Tal Afar.

Descreva a menina,

esta imagem famosa da menina junto �s botas do soldado.

Ela chama-se Samar Hassan

e tinha cinco anos na altura da foto.

Creio que uma das raz�es para a foto ecoar nos cora��es

� transmitir uma sensa��o de vazio.

A pobre menina est� s� no mundo, est� ali na escurid�o.

O Chris n�o queria muito falar de pormenores

do seu trabalho a cobrir conflitos.

Ele preferia falar da sua m�sica, por exemplo,

ou do �ltimo romance que tinha lido.

Sei que muita gente diria o mesmo do Chris,

mas ele conseguia ir aos lugares

onde tinha ido, e fazer o seu trabalho,

e depois voltar e viver uma vida relativamente normal.

Conhecia os custos da guerra melhor do que ningu�m

mas nunca o ouvi falar disso.

At� encarava isso com ligeireza.

�s vezes discut�amos assuntos e ele dizia: "Olha,

as coisas s�o assim mesmo." E mudava de assunto!

E eu ficava a pensar

que n�o t�nhamos tido a conversa que eu esperava.

O Chris e eu fal�vamos horas e horas, mas nunca de fotografia.

Ele falava de ideias.

De certa forma, era esse o seu poder e o do seu trabalho.

A c�mara � uma extens�o da sua alma, do seu intelecto.

Ele encorajou-me a olhar mais para dentro

mas tamb�m a prestar mais aten��o ao mundo que nos rodeia.

Havia uma intensidade que se podia ver no seu trabalho

mas, exteriormente, ele n�o se levava muito a s�rio.

Combinava perfeitamente a intensidade e a ligeireza

porque h� uma miss�o maior e � preciso concentrarmo-nos nela.

Tenho uma carreira futura, n�o posso deixar isto matar-me,

n�o posso sair disto t�o perturbado

que n�o possa voltar a trabalhar.

Abala-me, andar entre c� e l�,

fa�o o melhor que posso para...

ter uma vida normal aqui e deixar o Iraque no Iraque.

N�o deixarei que o Iraque me leve a melhor.

N�o vou, pronto.

BAGDADE, 2005

J� fa�o isto h� algum tempo e uma das raz�es

por que aguentei tanto tempo

� que consigo manter dist�ncia e equil�brio face a todo o processo.

Por mim, o que � divertido no Iraque?

Os jornalistas ficam todos num hotel

e damos festas.

L� est� o Joe Raedle.

O �ltimo andar do hotel Al Hamra

era um lugar acolhedor ao qual se regressava

depois de estar no terreno.

N�o era luxuoso, mas era bom.

A Getty Images a trabalhar no duro.

Todos conheciam o Chris. Estava l� h� muito tempo.

Conheciam o seu trabalho.

Que bom, galinha!

- Hondras. - Hondros!

Pass�vamos muito tempo juntos.

Ou jant�vamos juntos,

ou era o jogo semanal de p�quer

e o Chris estava sempre presente nesses ser�es.

O Chris disse-me: "Devias aparecer

no apartamento da Getty esta noite.

Era como estar de volta a Nova Iorque.

O Chris era mesmo assim.

Onde quer que fosse,

tentava transmitir uma sensa��o de normalidade.

Maestro!

O Chris ligou-me e disse: "Ouve,

convenci a primeira violinista da Sinf�nica de Pittsburgh

a tocar a Chaconne de Bach",

a pe�a mais importante alguma vez escrita para um instrumento solista

na hist�ria da m�sica... Supostamente.

O Chris apresentou um diaporama de sete anos de trabalho no Iraque

perfeitamente coordenado com a progress�o da m�sica.

N�o me digam que ele nunca teve pesadelos com aquilo.

Ainda cheiro os odores daquela noite.

Sangue, miolos, alguma vez sentiu esse cheiro?

N�o se esquece.

Havia outros que regressavam

e eram acolhidos com abra�os, mas eu, n�o.

N�o me relacionava.

Todos os meus amigos se afastavam.

Com quem podia relacionar-me?

E pensei em contactar o Chris, saber como ele estava.

E ele veio ter comigo.

Veio num instante.

Eu e o Chris,

n�s nem sabemos o que vamos fazer...

2009, CAMPBELL E HONDROS ENTREVISTAM BRAD HAMMOND

PARA A PARIS MATCH

com isto, por isso, n�s s�

estamos para ali na treta.

VOZ DE GREG CAMPBELL

Parece-me irrelevante ter dito

que um dos tenentes mandou abater o carro,

ou que o capit�o Seabolt disse:

"Parem o carro."

Acha que era o �nico a fazer fogo sobre o passageiro?

Sinto-me respons�vel por quase todos os ferimentos.

Sinto que matei a mulher gr�vida.

Sinto isso.

Sinto que feri o Rakan Hassan.

Sinto-o, � isso que faz com que...

N�o pode ter a certeza

de que s� a sua bala atingiu a mulher, neste caso.

VOZ DE CHRIS HONDROS

Suspeita disso, mas havia muita gente a disparar.

N�o o sabe com toda a certeza.

Sempre que volto �s fotografias do Chris,

tenho de olhar para aquelas.

Mesmo sabendo que vou ter pesadelos.

Tenho pesadelos todas as noites.

Estava t�o mal que via o Rakan a descer a rua.

Acompanhou a situa��o dele, depois?

Sim, ele foi para o Massachusetts,

foi operado e agora consegue andar.

A GUERRA DE RAKAN

Parece que...

o mataram num conflito em Mossul.

O qu�, o Rakan?

Houve um ataque de insurgentes contra a casa deles

e o Rakan morreu durante o ataque, no ver�o passado.

Pensei que soubesse, a hist�ria foi publicada.

N�o.

Eles n�o eram alvos,

nem nada assim, pois n�o?

Parece que eram os alvos.

A s�rio?

Pois, foi uma surpresa a valer.

Eu n�o sabia.

Ele morreu por causa do que fizemos.

Por isso...

queria pedir desculpa.

N�o importa quantas vezes se diz que se lamenta.

Lamento.

Se tivermos oportunidade de estar com a Samar

e a fam�lia, quer que lhe passemos essa mensagem?

Claro que sim.

Claro que sim.

IRAQUE, 2014

ISIS.

E eu tenho tempo.

Deram-lhe.

Encostaram-lhe ao peito 200 000 dinares iraquianos.

Disseram-me para n�o ir ter com os americanos.

Mas eu decidi n�o ligar ao que eles diziam.

E bombardearam-me a casa.

O Rakan estava em casa.

CASA DE NATHIR AP�S O ATAQUE

Nunca perguntei ao Chris se ele...

lamentava ter-se envolvido.

Essa pergunta � para o Chris.

Todos tomamos decis�es.

Todos sentimos compaix�o de forma diferente.

Por vezes, n�o controlamos as consequ�ncias.

Discutia-se muito

se os jornalistas devem faz�-lo.

Acho que s� questiona isso

quem nunca l� esteve.

� dif�cil abandonar uma menina pequena

coberta do sangue dos seus familiares.

Somos seres humanos, n�o somos m�quinas.

Quando se diz que a guerra � um inferno, � disto que se fala.

N�o � s� do campo de batalha.

Quando um pa�s declara a guerra,

s�o coisas destas que podemos esperar,

porque s�o o que acontece na guerra.

Ol�, Samar.

Ela entende que o meu amigo

� o fot�grafo que tirou a foto dela?

Um dos soldados que atirou sobre o teu carro,

ele quer dizer-te, e � tua fam�lia,

que lamenta o que aconteceu.

Ningu�m nos disse que ele lamentava.

Acho que � muito mais dif�cil

para os fot�grafos, quando come�amos

a n�o querer falar da objetividade,

ao menos falemos de equil�brio.

Um fot�grafo pode entrar numa situa��o e dizer:

"Posso mostrar ambos os lados."

Na fotografia, n�o existe

essa forma de equilibrar a imagem.

Pensa nisso?

Claro. � dif�cil equilibrar fotos individuais, do mesmo modo.

Por outro lado, penso que,

no que toca � totalidade da obra, � poss�vel atingir

esse tipo de equil�brio e imparcialidade.

No meu trabalho no Iraque,

acompanhei as for�as americanas meses e meses seguidos.

Estive com os iraquianos nas suas casas.

Tentei cobrir todos os aspetos poss�veis da hist�ria,

e penso que, olhando para o meu trabalho,

vemos os seus aspetos multifacetados.

Como obt�m estas fotos espantosas

e vai a estes lugares incr�veis

onde interioriza profundamente a experi�ncia humana?

Eu recebia chamadas dele

e nessas conversas, muito frequentemente,

estava ele no cume de uma montanha

do outro lado do mundo e sentia-se s�.

Ele era um viajante insaci�vel,

bem-parecido, muito eloquente, um fot�grafo de guerra.

Muitas mulheres deviam imaginar

que teriam uma vida digna do cinema,

mas � uma vida dura.

� dif�cil manter rela��es, com o seu trabalho?

Obviamente � dif�cil, porque n�s viajamos muito.

Quando vou ao Iraque, � normal ir seis semanas

e vou l� umas...

duas a tr�s vezes por ano, desde o in�cio da guerra.

Por outro lado, n�o me parece imposs�vel.

H� gente com trabalhos esgotantes

e, para mim, manter uma rela��o

� uma decis�o pessoal com muitos fatores

e este � s� um deles.

Eu insistia muito com ele, dizia:

"Chris, est�s a ficar mais velho, e acredita,

quando est�s sozinho, � uma porcaria, sabes?"

E ele disse: "Sim, m�e. N�o te preocupes."

N�o sei se tinha muitas expetativas

ao conhec�-lo, foi atrav�s de um amigo meu.

Ele n�o falava muito, quando o conheci.

Fomos almo�ar muitas vezes, muitos encontros que foram como o primeiro.

NOIVA DE CHRIS

De repente, parecia que t�nhamos encontrado o nosso caminho.

Quando ele conheceu a Christina, sua noiva,

encontrou uma abertura para o resto da sua vida

e era um caminho que ele procurava para,

de certa forma, justificar a mudan�a de velocidade

ou o ritmo do que fazia profissionalmente.

Sent�amo-nos muito atra�dos porque quer�amos ter uma fam�lia

e viver no estrangeiro

e ter uma vida excitante pelo mundo fora.

Ele tinha passado dez anos

sem acertar no alvo, por assim dizer.

Ansiava por uma liga��o mais profunda com algu�m

e acho que a encontrou com a Christina.

Estava extasiado por ter chegado a esse ponto.

Eu tinha experi�ncia de trabalho com pessoas

que trabalhavam em zonas de guerra, por isso, havia sempre

consci�ncia do risco

e das consequ�ncias, mas acredito firmemente

no trabalho dos fotojornalistas

e as viagens dele n�o me incomodavam

e sempre nos sentimos ligados

de formas diferentes, n�o nos parecia um sacrif�cio.

Foi a frustra��o com o desemprego jovem na Tun�sia que despoletou tudo.

Hoje, milhares de pessoas sa�ram � rua

para exigir mudan�as na Arg�lia.

INQUIETA��O NO MUNDO ISL�MICO

Mostraram as suas preocupa��es ao mundo.

As tens�es aumentavam na S�ria.

Ele tinha a televis�o ligada

e o Egito come�ara a agitar-se h� dias.

Ele andava para tr�s e para a frente

e dizia: "Tenho de ir, vou falar com o meu patr�o

e tentar ir para l�, isto vai ser em grande.

EGITO, 2011

Claro, dois dias mais tarde, l� estava ele,

e tinha raz�o, era um grande acontecimento.

Mesmo com o governo a insistir

que os jornalistas eram bem-vindos no Egito,

no fim da semana passada, soubemos

pela Comiss�o de Prote��o dos Jornalistas

que foram detidos 26 jornalistas

desde a passada sexta-feira.

Setenta e um, desde o in�cio dos protestos,

e s�o s� os que puderam contar.

Entrevistei o Chris para o meu livro sobre o Iraque

e ele falou do papel mut�vel da comunica��o social

e disse: "H� dez ou 15 anos,

a imprensa ocidental era cortejada, era necess�ria, mas hoje

toda a gente tem a sua m�quina de propaganda.

P�em c� para fora a sua mensagem

e um jornalista ocidental, a verificar factos, s� atrapalha."

A maior mudan�a fundamental � que,

com uma acredita��o de imprensa, um distintivo da comunica��o social

no carro ou no colete bal�stico,

est�vamos seguros a menos que houvesse um acidente.

N�o �ramos alvos.

Agora � uma hist�ria completamente diferente.

Nas ruas de Benghazi, na L�bia,

um reduto das for�as de oposi��o ao ex�rcito l�bio

que � leal a Muammar Gaddafi, em defesa do seu l�der.

A cidade de Benghazi, ber�o da insurg�ncia,

est� vedada a ocidentais.

A L�bia � um buraco negro, � dif�cil ver l� dentro.

OTAVA

T�nhamos entrado num pa�s

isolado do mundo h� 42 anos

e est�vamos l� ilegalmente, de acordo com este governo.

N�o � o Cairo ou a Tun�sia, onde fotografamos

manifesta��es de rua, � fogo de morteiro,

artilharia e a guerra n�o � uma piada.

Quando cheguei � L�bia, sabia que ia ser mau.

As coisas pioraram muito depressa.

Nunca se sabia de onde viriam os atacantes,

nem quando, nem o ritmo a que as coisas mudavam,

a velocidade com que uma vila, aldeia ou cidade

podia mudar de m�os e passar de relativamente segura

a algo controlado

pelo outro lado, e foi isso que senti

quando me capturaram em Ajdabiya.

Segundo o New York Times quatro jornalistas seus

a cobrir a rebeli�o l�bia desapareceram.

Num momento estamos bem e a seguir estamos mal.

Eu e outros do New York Times

fomos espancados e detidos em v�rias pris�es no deserto l�bio.

Sabia que o Tyler tinha sido capturado.

N�o sabia o que lhes tinha acontecido depois.

Disseram-nos que havia refugiados fora da cidade,

onde tinha havido combates intensos.

Quer�amos escrever sobre eles.

Quer�amos assegurar-nos, cuidadosamente,

de que a hist�ria sobre os refugiados

podia ser feita em seguran�a.

De certeza que estamos atr�s da linha de combate?

N�o h� d�vida de que vamos encontrar

as for�as do Gaddafi e est�vamos convencidos

de que era seguro.

E...

n�s...

acab�mos por ir de encontro � linha da frente

do ex�rcito de...

Muammar Gaddafi.

O fot�grafo Joe Raedle

desapareceu no s�bado, a cobrir o conflito na L�bia.

Foi preso pelas for�as de Gaddafi.

DI�RIO VISUAL MOSTRA JOVEM SOLDADO NA GUERRA

Levaram-nos para uma �rea de deten��o que ficava a 12 horas de carro.

A primeira coisa que vimos, ao sairmos dos cami�es,

foram umas 12 pessoas com sacos por cima das cabe�as.

E a gente do Gaddafi, todos usavam m�scaras cir�rgicas.

Eram uma vis�o perturbadora.

Mandaram-nos pegar no nosso equipamento e,

no meio daquelas m�quinas todas,

estava o equipamento do New York Times.

Penso que vi o nome do Tyler no seu saco, ou vi New York Times

e, assim, sab�amos que eles tinham estado ali,

s� n�o sab�amos se ainda estariam vivos

ou n�o.

Por quanto tempo o detiveram?

Quatro dias.

Mas estou bem, vim-me embora.

Houve outros que n�o.

O meu condutor foi morto

quando fomos capturados e � dif�cil processar isso.

A quem � que uma bala passa ao lado,

quem � atingido por ela e porqu�?

N�o nos mataram,

mas fizeram-me passar por uns...

sobressaltos psicol�gicos.

Acabou com eles a dizer-me,

enquanto me davam murros,

que eu ia voltar para casa num caix�o

e � dif�cil lidar com isso.

Conseguimos fazer com que o libertassem depois daqueles dias horr�veis

e o Chris disse: "Ele n�o pode sair e n�o ver ningu�m � espera dele."

Vai precisar de um abra�o e precisa de um abra�o

de um dos seus amigos e colegas.

Vou l�.

E foi.

� como ver um irm�o.

Vai ficar tudo bem.

Tentamos n�o pensar nisso

mas todos sabemos que essas coisas acontecem

e que os ossos do of�cio

s�o feitos de risco e perigo, por isso tentamos n�o falar muito,

mas acho que, quando acontece,

quando uma calamidade acontece a um membro

da Comunidade Internacional de Fotojornalistas,

toda a gente tenta estar presente e ajudar.

Quando soube que o Chris ia para a L�bia?

Sabia que algu�m ia, percebe?

Ele substituiu-me.

Tivemos uma longa conversa no meu gabinete

com eles os dois, o Chris e o Joe

na sala ao lado e a sensa��o era:

"Isto � um aviso."

"N�o, esta � a hist�ria a cobrir."

Ele ligou-me e disse: "Decidi ir � L�bia."

� luz das conversas que t�nhamos tido,

Lembro-me de lhe perguntar:

"Porque vais � L�bia? Deixa-te disso."

"Ainda agora fal�vamos do teu casamento,

porque queres ir l�?"

Lembro-me de lhe dizer:

"Estou farto de ver kalashnikovs no deserto

e, se eu me tornei indiferente,

quantas pessoas se tornaram indiferentes?

J� nem causa uma resposta emocional."

Umas semanas depois, vi a primeira p�gina

do Washington Post no meu computador, de manh�.

Mandei-lhe uma mensagem no Facebook:

"Mano, essa � a melhor fotografia de uma kalashnikov

no deserto que eu j� vi."

Ligou para Chris Hondros. Estou na L�bia, por agora.

Pode deixar uma mensagem aqui ou escrever para hondros@aol.com.

Recebi uma SMS do Chris, que dizia "L�bia?"

L�BIA, 2011

N�o era invulgar, porque ele tentava sempre

convencer-me a ir a Bagdade ou ao Afeganist�o

ou onde decorresse a hist�ria, para podermos

fazer a reportagem juntos.

Eu dizia sempre que n�o.

E tinha todas as desculpas

que j� usara no passado para voltar a usar,

mas a ideia de n�o ir nunca me passou pela cabe�a.

Est�vamos em territ�rio dos rebeldes, em Benghazi

e aquilo era o faroeste.

Pass�vamos os dias a conduzir da seguran�a relativa do hotel

para a frente do conflito.

Era um percurso de hora e meia ou duas, de carro.

Uma das qualidades do Chris

era conseguir levantar os �nimos e melhorar a disposi��o geral.

Lembro-me de, um dia, irmos no carro,

sabe-se l� a caminho de qu�,

em dire��o � linha da frente onde havia gente a morrer

e o Chris perguntou a todos no carro:

"Como se encomenda flores para um casamento?"

Isso lembrou-nos de que havia outra vida

� espera dele quando o trabalho tivesse terminado.

Tamb�m era uma forma de todos n�s

n�o pensarmos muito no que vinha a�.

Allahu Akbar!

Dizer que esta frente � fluida � um eufemismo.

Aqui estamos outra vez, �s portas de Ajdabiya,

que se tornou a posi��o defensiva frontal

dos rebeldes na L�bia oriental.

FOR�AS DE GADDAFI REPELEM OS REBELDES

S�o mi�dos a brincar � guerra.

� um perigo para eles e para n�s.

Se pensarmos bem nisto,

em termos b�sicos,

s�o transeuntes, adolescentes,

nem sequer t�m armas, nem fingem ter armas.

Estamos aqui parados

com tr�s ou quatro ve�culos armados.

Estamos aqui com tr�s ou quatro carrinhas

que t�m muni��es,

contra o ex�rcito l�bio que tem morteiros,

ve�culos e sei l� quantas armas.

Eu ouvia dizer que o terreno

estava cheio de amadores, jovens fot�grafos

a deambular com telem�veis

e isso preocupava-me.

Sabia que o Chris e o Tim iam juntos

e isso sossegava-me muito...

CINEASTA E FOTOJORNALISTA

porque � muito perigoso

ir para uma situa��o de combate com pessoas inexperientes,

que n�o t�m forma��o m�dica,

ou que podem entrar em p�nico.

H� uma gera��o de jornalistas jovens que o seguia,

seguiam-no no Cairo, v�-se as fotografias no Facebook,

est� rodeado de gente.

Incomodava-me ele n�o trabalhar sozinho.

Ter muita gente � volta pode distrair-nos.

A fotografia � uma profiss�o solit�ria e deve ser.

H� raz�es para isso.

Estar em sintonia com as nossas emo��es

e o nosso ambiente, e com o que se passa.

- Allahu Akbar! - Allahu Akbar!

Prontos para o fogo de resposta.

Vamos, Chris.

Com o nosso guia. �timo.

Esperem!

Os fot�grafos veteranos, mais calejados,

veem um jovem a tentar entrar na profiss�o

e podem ajudar, aqui e ali...

FOTOJORNALISTA

mas n�o tentam apadrinh�-los,

nem se importam com eles tanto como o Chris.

Ele queria que a gera��o mais nova

de fot�grafos e jornalistas

se mantivesse unida e segura

e sentia-se, de certa forma, respons�vel por n�s

e senti-me realmente grata por isso

e que ia correr tudo bem.

- N�o dev�amos ir? - Pois, aquilo parecia perigoso.

O que achas?

� pena, mas deve ser a nossa estrada.

N�o vai haver problemas.

O Chris estava sempre a avaliar a sua posi��o,

via-se que pensava intensamente,

sempre a enquadrar,

pod�amos ver os olhos dele a percorrer o quadro.

N�o se deixava agitar.

Estava muito consciente do que podia correr mal.

Sempre a fazer c�lculos mentais.

Vi como tinha evolu�do e amadurecido como fot�grafo,

no auge da sua forma

naqueles �ltimos dias em que estivemos juntos.

N�o param de trocar morteiros.

Pois.

Est� a acalmar, vamos poder sair daqui.

Temos 45 minutos para sair em seguran�a.

Vou falar com algu�m...

Vai mais devagar, abranda,

ele vai desacelerar.

Certo.

At� logo.

Sa�mos, sem problemas.

N�o h� garantia total

de que estas coisas n�o aconte�am...

Vi o Chris pela �ltima vez a 13 de abril, uma quarta-feira,

na entrada do hotel em Benghazi.

A �ltima coisa que me disse foi: "Tir�mos-te daqui ileso."

Mesmo no outro dia, com...

Quem me dera t�-lo abra�ado mais tempo

quando nos despedimos pela �ltima vez.

Estiveram c� todos.

Em Benghazi, havia uma linha da frente.

Nem sempre era clara porque os combatentes n�o eram profissionais,

adormeciam na linha da frente, fugiam dos combates.

Misrata era diferente.

Misrata era um cerco

e �amos cobrir a crise humanit�ria

e supostos crimes de guerra.

Entr�mos num barco, alguns jornalistas, incluindo o Chris e o Tim Hetherington.

Era uma viagem de 17 horas.

Em Misrata, est�vamos rodeados de �gua.

For�as do regime do outro lado

e uma zona de combate no centro da cidade.

N�o h� para onde ir, a menos que se entre num barco

e se saia, e mesmo o porto estava debaixo de fogo constante.

MISRATA, L�BIA

Era dif�cil encontrar alojamento...

FOTOJORNALISTA

por isso, os rebeldes tinham uma casa para todos os jornalistas.

�ramos muitos a dormir

em colch�es, em v�rias partes da sala de estar.

Na manh� do dia 20, o Chris estava l�

no sof� a ler Orgulho e Preconceito

ou outra coisa anormal nesta situa��o de conflito.

Acho que sa� primeiro

e depois foram o Chris e o Tim e todo o grupo

que decidiram ir � Rua de Tripoli.

Uma das linhas da frente de Misrata ficava na Rua de Tripoli.

Parte da estrada estava desbloqueada...

FOTOJORNALISTA

e pod�amos conduzir

e andar por l� a ver os estragos.

20 DE ABRIL DE 2011

Que cena m�.

Havia uma multid�o

a dar tiros ao pr�dio.

Parece que havia atiradores furtivos l� dentro.

Havia homens em campo com artilharia ligeira

a disparar contra o pr�dio.

Era perigoso estar no local.

Um homem a meu lado levou um tiro na cabe�a.

� o �ltimo.

Estamos prontos.

Tentaram queimar um pneu para os for�ar a sair.

Eles n�o sa�am.

O �leo � velho.

Algu�m fez uma fogueira nas escadas

e todos sa�ram a correr do pr�dio

por causa do fumo.

Hetherington estava l� em cima...

preso algures

e teve de sair do pr�dio por uma escada exterior.

A situa��o tornou-se ca�tica, durante algum tempo,

mas depois acalmou-se um pouco, porque devem ter matado os atiradores,

por isso decidimos voltar.

Guillermo, est�s bem?

Volt�mos para a casa para entregarmos o nosso trabalho.

A dada altura, surgiu a possibilidade de voltar ali,

n�o sei como, e eu disse: "Sim, porque n�o?"

Alguns dos colegas iam voltar e eu, a princ�pio, dizia:

"Nem pensar, n�o volto ali. Nem pensar."

E o Chris tamb�m n�o voltava.

Lembro-me de estarmos divididos,

uns queriam voltar, outros n�o.

Acho que o Mike e o Chris n�o queriam voltar.

Falou-se muito das decis�es desse dia.

N�o sei se alguma vez teremos uma resposta 100 % n�tida

sobre o que aconteceu e porqu�.

N�o temos o luxo de poder perguntar-lhe

por que motivo espec�fico decidiu voltar.

Quando cheg�mos, de tarde,

n�o se passava grande coisa, era estranho.

N�o ouv�amos tiros.

Mas sent�amos tens�o.

Pass�mos pelo edif�cio

onde t�nhamos passado a manh�

e, a uns 30 metros de dist�ncia dele,

foi a� que...

come�aram as morteiradas.

Estamos na meia hora,

vamos rever as principais hist�rias da manh�.

A guerra na L�bia reclamou as vidas

de dois fotojornalistas ocidentais,

Chris Hondros e Tim Hetherington.

Cobriam o combate entre as for�as rebeldes e as de Gaddafi

na frente de Misrata.

O fot�grafo americano Chris Hondros

da ag�ncia fotogr�fica Getty morreu algumas horas

depois de sofrer um traumatismo craniano s�rio.

O fot�grafo brit�nico e realizador nomeado para os �scares,

Tim Hetherington, morreu antes, no mesmo incidente,

na cidade de Misrata, na L�bia ocidental.

Estilha�os da explos�o mataram o brit�nico Hetherington

e o americano Hondros.

Outros dois sofreram ferimentos.

Chris Hondros, Tim Hetherington, Guy Martin e Michael Christopher Brown

sofreram ferimentos graves com a explos�o do morteiro.

Tim morreu ao ser transportado para um hospital pr�ximo.

Chris morreu horas mais tarde.

Sempre me orgulhei muito dele.

Tinha uma ocupa��o perigosa, mas fal�vamos muito disso.

A decis�o era dele, era o trabalho dele,

que ele adorava.

Ainda me irrita um bocadinho ele ter de ir,

mas digo sempre que fez mais em 41 anos

do que alguns homens que vivem at� aos 100.

Sou fot�grafo desde os 16 anos de idade.

N�o sei o que faria, se n�o tivesse feito isto.

Mesmo que, como fot�grafos de guerra,

vejamos tanta devasta��o, e tanto da humanidade

nas piores circunst�ncias, isso � equilibrado pelo facto

de tamb�m vermos o melhor da humanidade.

Vi exemplos tais de coragem, exemplos tais

de generosidade humana no meu trabalho e, para mim,

isso compensa todas as coisas horr�veis

que eu vi.

LIB�RIA, 2015

Em 2003, eu era um fot�grafo comum

e queria tornar-me fotojornalista.

O Chris Hondros veio para contar a nossa hist�ria,

que levou a guerra ao fim e aprendi muito.

Em 2005 ele voltou e trabalh�mos juntos.

FOTOJORNALISTA

Deu-me uma vis�o e eu sigo-a.

Agora trabalho como fot�grafo para a European Pressphoto Agency.

Imagino como ele tiraria as fotografias,

isso vem-me sempre � cabe�a.

HOMEM DESCONHECIDO

Sinto que o esp�rito do Chris est� comigo.

Sou avassalado pelo seu esp�rito.

Legendas: Jorge M Machado

Can't find what you're looking for?
Get subtitles in any language from opensubtitles.com, and translate them here.