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Eu não vou comer esse bicho.
Ouviu o negócio dos Culmann na rádio ontem?
Não.
Tá sem pilha.
O que houve?
O neto deles viajou.
Os véios ficaram sozinhos em casa.
Entrou dois vagabundos lá para roubar o dinheiro deles.
Mataram os dois na facada.
Picaram os véios, foi encontrar os dedos da...
da dona Cuma lá no paiol.
O que é isso no seu rosto, Luana?
Não é nada. Foi lá no mato.
Faz um ovinho.
Vai comer esse troço aí tudo seco, Luana?
Tô indo.
Vamos ver se tiro um dia para colher esse milho.
Miguel.
Tenta chegar antes do entardecer.
Fala, Alceu!
Vem me pegar agora, vem.
Não vai comer?
Vou esperar teu pai chegar.
Você pode lá ver da tua janela se ele tá chegando?
Vem, Israel! Vem!
Toma! Israel!
Toma.
Vocês podem enterrar?
Vocês podem fazer o velório?
Não é certo uma filha enterrar o pai.
Não quero ver a Luana passando por isso.
Tá certo?
Vamos rezar?
Senhor...
Dá-me a esperança para vencer...
Minhas ilusões.
Para ampliar meu dias risonhos.
O que... O que você ta fazendo, Luana?
O que é isso?
O que é isso?
Tira isso!
Tira isso, Luana! Tira isso!
Era só pra você sumir!
Entrou aqui como?
Tava aberto.
Eu... só queria um copo d' água.
Mas eu tranquei a porta.
Viu a Luana?
Vim pela estrada.
É...
Agora vai ter que apurar com a...
Com a lavoura, antes da chuvarada.
E não vai ser fácil, o Miguel trabalhava por dois.
E você?
- E a menina? - Tá bem!
Vai passar rápido, antes de começar as aulas.
É do patrão, pras despesas.
Eu também botei umas notas aqui.
O que é isso, Alceu?
Pode pegar tua parte aí!
Não, não.
É presente.
O Miguel ia fazer a mesma coisa por mim.
Eu vi que tem milho aí na roça de vocês.
Se a dona quiser eu posso dormir aqui essa noite
E amanhã cedo ajudar na colheita.
Luana, vai para o teu quarto!
E não me leve a mal, dona.
O Miguel era meu amigo, sempre me cobria quando eu...
Arranjava emprego aí pra outros lados.
Vai vir um tio morar com a gente.
Não precisa!
Então...
Se precisar, qualquer coisa estou por perto.
Eu sei como a dona se sente.
Minha mulher também já se foi.
A gente podia ir morar em outra cidade.
Na sua, na praia.
Um parente vai vir morar com a gente, mãe?
Não, Luana.
Agora eu só tenho você.
Com quantos anos você conheceu o Miguel?
Para de chamar teu pai pelo nome.
Eu tinha um pouquinho mais que você.
Come pão, Luana!
A comida tá toda no paiol.
Eu vou lá.
Não!
Come pão. Amanhã a gente busca.
Eu quero comida, mãe!
Tá claro ainda.
- Eu vou lá! Fica aqui! - Não, Luana!
Nem pensar!
Eu falei que não era pra vir, Luana!
Você soltou o cachorro?
Não.
Vem, Luana, vai!
Luana!
Quem está ali?
Quem está ali, Luana?
Vem!
Luana!
Luana!
Vem, Israel.
Vem!
Vem, vem, vem!
Luana!
Vai, Israel! Pega!
Vem!
Vem, Luana! Vem, Luana!
Vem!
Ele está desmaiado, mãe.
Você não sabe, Luana!
A gente não pode deixar ele lá!
Sai daí, Luana!
Ele mal está se mexendo.
Amanhã ele vai embora.
Deixa!
Pega nos pés!
Vai!
Vai!
Pega uma calça.
E uma camisa.
Ai, eu caí?
Meu amor...
Que horas são?
Já está de manhã.
Faltava só um pouquinho do feijão pra limpar.
Você vem junto.
E se ele quiser sair?
Serve nem pra pano de chão.
Ô, Luana, vai limpando os sapatos.
Toma.
Você estava fazendo aquela cara feia que o pai não gosta.
Filha...
Você pendura para mim?
Luana!
Para ter um bom marido, uma mulher precisa saber lavar a roupa
Como você não conseguiu?
É tão estranho você ver marcas, sentir dor.
E não lembrar de como aconteceu.
O que foi que houve?
Você não lembra de nada mesmo?
Você saiu e voltou assim.
Lembro pouco.
Eu lembro de um cachorro me atacando.
É só você não bater mais nele.
Eu não bato em cachorro!
Imagina! Eu gosto de cachorro, eu gosto de animais.
Mika.
Era a gata que eu criava quando eu era adolescente.
Minha adolescência eu lembro.
De fazer o vestibular eu lembro.
Mas depois...
Há quanto tempo a gente está aqui?
Você está no lugar dela.
Desculpe.
E esse cabelo?
Luana!
Não penteou o cabelo não para tomar café?
Desculpe.
Aos poucos seu pai vai melhorando.
Logo passa.
Bobeira.
Não está lembrado, rapaz?
Sou eu!
Sou eu!
Lembra? Em?
Olha aqui!
Sou eu!
Vem!
Eu não quero feijão.
- Você sempre come. - Deixa, renata.
Filha, você está grandinha já pra fazer seu prato.
Sempre gostei desse teu tempeiro.
A Nair fazia umas batatas assim quando eu era garoto. Nossa...
Quando ela não cozinhava, eu não comia.
Ela mandava eu aprumar o corpo, sabe?
"Fica reto, menino! Olha os ombros!"
"Levanta esse queixo!"
Tia...
Bezinha.
Que era passadeira.
Mas aquela lá só me ensinava safadeza.
- Você conheceu a Nair né, mãe? - Não, claro que não!
A Nair era da época que eu era criança, igual você.
Eu nunca tive empregada em casa.
Sua avó é que ficava enciumada.
Avó?
Quando eu elogiava a comida da Nair na mesa sabe o que ela fazia?
Me dava um chute!
Em baixo da mesa.
Come, Luana! Está bom, só faltou a carne.
A gente não come carne, Lui! Já te disse.
Eu achava que só não matava.
Quando você vai fazer Spätzle, mãe?
Spätzle!
Você sabe fazer Spätzle?
Sei.
Não vai. Eu não terminei! Nem eu, nem sua filha. Não vai!
Você disse que ia limpar o pátio?
Não, eu não disse.
Eu disse?
Disse.
Precisa me ajudar.
Sai, Israel!
- Sua maluca. - Ai, que susto!
- Prefere quem aqui dentro? - Ninguém!
Fala baixo! Fecha a porta.
Me ajuda.
Ninguém precisa ficar aqui.
Olha só o que aconteceu.
Olha.
Cortou.
Olha, filha.
Vai fazer o que com as batatas?
Pensei em fazer um purê.
Hum.
Eu tenho vontade de comer a salada de batata
que eu comia na Alemanha no meu intercâmbio.
Delícia.
Pena que eu fui muito jovem.
Não aproveitei quase nada. Bobão, chorão.
Mas foi bom.
Deu pra conhecer a neve.
Como é a neve?
Dá para comer?
Não né. É suja.
E fria.
Nossa, eu usava umas oito peças de roupa.
Blusa, camisa, casaco cachecol, boné...
Mas o frio era tão frio que...
Passava pelo tecido e chegava na pele, assim, sabe...
Como vento encanado?
Mas o pior era o nariz.
Você andar na rua, respirando aquele negócio gelado o tempo inteiro.
Ah.
Vem cá. Deixa eu te mostrar.
Mais ou menos assim.
Mete a cara.
Respira.
Imagina isso o dia inteiro.
É de congelar as bochechas, não dá nem para sorrir.
Quando eu era pequena, a minha mãe...
Tinha um casaco de pele no armário que era da minha bisavó.
Eu era louca pra vestir, mas ela não deixava nem pegar porque...
Só de encostar já soltava os pelinhos.
Se um dia eu for pra Alemanha, eu...
Queria ter um casaco de pele.
Lembra aquele dia que estava geando.
E eu faltei da escola pra ficar em casa com o pé dentro do forninho?
Pra esquentar?
- Lembra? - Lembro.
É seu tio?
Quem?
Esse cara que está aí.
- Ah, o... - É o tio que dorme com você.
A Luana me contou.
Desde quando você fala com a Luana.
Eu sou capaz de quebrar o teu pescoço.
Eu estou falando sério.
Se você não me der um cigarro.
É...
Não tem do que já vem pronto?
Esse aqui já está pronto.
Depois eu trago do outro para você.
Faz mais uns dois pra mim.
Três.
Acho melhor tu voltar a carpir.
Pode ir.
Eu vou voltar para o trabalho.
A gente se vê.
Gente boa.
Você tinha parado de fumar.
Acho que disso eu não faço questão de lembrar.
Quem é ele?
Amigo da família.
Imagine meu pai...
Que sempre morou em apartamento, me vendo aqui assim.
Você tem notícia dele?
Eu só sei que vocês brigaram, Lui.
Foi?
E sabe por quê?
Ah, não sei. Ele nunca quis tocar nesse assunto comigo.
Mas também por que ficar remexendo isso aí agora, Lui?
O véio é cabeça dura.
Toma.
Luana.
Vai trocar de blusa, filha.
Coloca uma do teu tamanho.
Põe pra mim.
Ei, eu quero!
Ou...
Ei, magrela!
Quem foi que essa menina puxou?
Pra qual lado fica a cidade?
Tem que carpir aqui, ô.
Ah, não. Chega, Renata, chega.
Não dou pra isso.
Ô...
Olha minha mão.
Está quase sangrando.
Não é feito a sua...
Que é toda calejada.
Ô.
Não, mas eu gosto.
Eu gosto! Ô, eu gosto!
Eu gosto assim!
Assim mesmo.
Ô.
Eu gosto.
Eu vou...
Eu vou preparar o almoço. Você...
Termina aqui pra mim.
Bom dia.
Bom dia. Achei que não ia acordar mais.
Foi esse cheiro que me acordou.
Spätzle.
Põe aqui pra mim, Luana.
Cuidado que está quente.
Você está fazendo aquela cara alienígina de novo.
- O pai não gosta. - Claro que eu gosto.
É charme.
Você não acha, Luana?
Acabou o leite.
Eu compro.
Amanhã eu vou comprar carne que isso é comida de passarinho.
Me desculpa, amor, mas é.
Só mês que vem que eu vou fazer o rancho.
Rancho?
A compra do mês, o rancho.
Eu mato uma galinha!
A gente sempre fez isso.
Você sabe matar?
Eu caço também.
Você não sabe caçar.
Pra caçar tem que ter agilidade.
- Tenho. - Esperteza.
Boa mira.
Tenho.
Reflexo.
Então eu também sei caçar.
Não, você não sabe!
Só a Luana que faz essas coisas.
Essa menina às vezes parece o homem das cavernas.
Vem, Israel!
Vem!
Israel!
Isso é nome de cachorro?
Eu que dei.
Tá.
Anda, Lui!
Por que você está me chamando pelo nome?
Sempre foi assim.
Sempre?
Eu nunca reclamei disso?
Não.
Anda que se não elas escapam!
Quero ver se ainda sabe pegar galinha.
Eu vou.
Mas só se você me chamar de pai.
Vai, pai!
Oi, dona galinha!
Olá, dona galinha.
Isso é galo!
Ah é? Eu não posso pegar ele?
Não. Pega pelo rabo.
Pelo rabo. Não, melhor pelo pescoço!
Não, puxa pelo rabo!
Vem, vem!
Eles escapam, mas não vai escapar...
Você não pega essa galinha, nem se a gente ficar aqui até amanhã.
Ah, é?
Então, vem! Vai lá! Mostra.
Quero ver.
Eu te ensinei direitinho.
Onde é que você faz?
Aqui!
Você não vai precisar?
Não.
Nossa...
Dá a bacia, Lui.
Não vai comer?
Falou que queria comer carne.
Vou.
Quem foi que esteve aqui hoje, Renata?
Ninguém.
Eu não te falei que você não gostava de comer carne.
Eu vi o carro.
Era um...
Vendedor.
Era um carro de polícia, Renata.
Que carro de polícia, Lui!
Você está louco?
Lui...
Calma! Calma!
O que eu fiz?
O que eu fiz?
Não sai daqui.
Não sai daqui.
Deixa, deixa, deixa.
Deixa, deixa, deixa.
Me diz.
O que você ia me dizer?
O que você ia me dizer?
O que?
Fala!
Tem uma coisa que eu queria perguntar já faz um tempo.
Pergunta, ué.
É que eu não achei nenhum documento meu na casa.
Que dia que eu nasci?
- 1º de dezembro. - Achei que você lembra...
1º de dezembro?
Ué, então foi agora a pouco.
Não foi?
E por que a gente não comemorou?
Não, não pode. Vamos...
Vamos comemorar! Vamos...
Vamos fazer uma festa.
Vamos fazer uma festa?
Lá em casa a gente sempre fez festas.
Você sabe disso.
Vamos chamar as pessoas! Vamos, vamos...
Matar um javaporco!
- Matar umas galinhas! - Você não mata nada.
Mato! Agora eu sei. Não é pelo pescoço?
Vamos! Vamos...
Trazer música! Vamos botar música aqui, meu amor.
Com dança, com muita dança!
Vem! Assim, ô! Vem cá!
Dança! Vamos dançar!
Vamos comemorar!
Essa casa precisa de dança, de música...
De festa, de gente, vamos!
Vamos!
Para, Lui!
Pra você é Luís!
Luís.
Quero cigarro!
Onde é que está o cigarro?
Foi você que guardou, não foi?
Cadê?
Sobrou algum?
Onde é que está, Renata?
Cadê os cigarros?
Está em cima da geladeira.
Vem, Luana.
Vamos tirar a roupa do varal que vai chover.
Por que é que você falou pra ele...
Que o aniversário dele é no dia da morte de seu pai?
O que é que tem?
Vamos fazer a festa.
Você não sabe de nada, Luana!
Então, vamos embora!
Você quer ir embora?
Eu e o teu pai batalhamos por tudo que a gente tem aqui.
Você nem gosta daqui.
Isso aqui é tudo que a gente tem, Luana!
Isso aqui é nosso!
Ele não é nosso!
Luana!
Lui!
Dá um.
E tu lá sabe fumar?
Toma.
Tenta botar mais na boca.
Mais forte!
Tua mãe tem razão.
Tu assim fica parecendo o homem das cavernas.
Vem cá.
Pera aí.
Será que eu me lembro?
Com isso aqui.
Tu vai deixar um pouco de ser o homem das cavernas.
Pra ser...
Um homem moderno.
As tuas caças são sempre menores que você?
Não tem bicho grande aqui.
Isso não te incomoda?
Cadê a minha filha?
Cadê?
Onde vocês estavam?
Onde é que vocês foram?
Por que é que você me trancou para fora?
O que é que você fez com minha filha?
Luana! Abre a porta!
Abre a porta!
Abre a porta, Luana!
Vai falar ou não vai falar?
Você quer que eu fale?
Fala se não eu estouro tua cara!
Que mal um pai pode fazer para sua filha?
Mãe!
Ele não fez nada.
A porta está aberta!
Cadê a chave do carro?
Eu vou te levar no médico.
Eu dirijo.
Vão te chamar pelo nome.
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