All language subtitles for The.Tiger.and.the.Snow.2005.por

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O TIGRE E A NEVE

Argumento

Fotografia

Música

Caro Attilio... A razão que nos reúne aqui é...

Desculpem lá!

Que imbecil deixou o carro parado mesmo aqui à porta?

Fui eu!

- Jovem, o carro não pode ficar ali. - Dez minutos!

- É de mais! - Cinco!

Nem mais um segundo!

Ele já vê, daqui a 5 minutos, espeto-lhe o bloqueador!

Cambada de doidos! Passam aqui os serões...

Esta mulher quer dizer-te uma coisa. Faça favor...

Attilio...

Attilio De Giovanni,

eu canto o teu nome,

palavra essa que me abre as portas do Paraíso.

Nunca hei-de perder-te, é a vontade dos deuses.

Quando me beijas, sinto galopar os Cavaleiros do Apocalipse.

E, quando penso no teu corpo,

tão atormentado e vago,

a vertigem transporta-me para longe.

A tua divina virilidade eleva-se para o céu.

És belo!

Tu, girassol enlouquecido pela luz,

sempre que os teus olhos se erguem, incendeias o firmamento.

Amigos,

vejam como a Terra, como uma mãe,

amamenta a sua mais bela criatura.

Amor meu, toda a criação transborda de paixão,

e da minha boca às estrelas, se desprende uma palavra

qual cometa d'ouro: amo-te!

Quero fazer amor contigo agora.

Esse foi o verso mais belo que já ouvi na vida!

Produção

Realização

Roma, Março de 2003

- Mas ainda não chegou? - Não.

Ei-lo!

- Pontualíssimo! - Papá, 20 minutos atrasado!

Exacto, 20 minutos em ponto! E que na universidade...

- Não encontravas o carro? - Não.

- Olá, Carla, tudo bem? - Sim, obrigada.

Tenho cá um programa para as meninas!

E amanhã levo-as à escola às 9h em ponto!

- Às oito e meia! - Sim, eu sei.

- Eu lembro-o. - Era preciso que te lembrasses!

- Eu sei, vá... - A mãe não confia em ti.

- Não confia? - Não confia.

- Onde vamos hoje? - E uma surpresa!

- Adeus, Carla! - Adeus.

- De certeza que não o magoo? - Magoá-lo?! Claro que não!

- Também lhe lavo os pés? - Claro!

Não me interessa nada.

Ainda é o mesmo? Como se chamava ele?

Sim, o Verri Francesco, nem sequer está na minha turma!

- Quanto menos o vir, melhor. - Detesta-lo assim tanto?

É super antipático, odioso até!

- Odioso? - Odioso.

Concluindo, estás apaixonada por ele?

- Muito? - Muitíssimo.

- Emilia! Papá! - Rosa!

Espera!

- És uma "cameleira" fantástica! - Que prenda formidável!

Agradece ao director Bretoni. Obrigado, Camillo.

Anda cá.

Agora, que estamos em Roma, vemo-nos mais, não?

- Queres dar uma volta? - Eu?

- Tens medo? - Medo, eu?!

O papá não tem medo de nada! Ora vejam.

- O camelo é bonzinho? - Muito.

Cospe?

Formidável!

Como se faz para ele se levantar?

É duas vezes mais alto do que um cavalo!

Valha-me Deus, e sem cinto!

Já viram o papá?!

Logo agora, que estou em cima do camelo!

- Advogado! - Attilio, a audiência é esta manhã.

Que audiência?!

Por causa da mobília penhorada que vendeste,

do falso testemunho de '98.

Hoje não posso, estou ocupado. Pode ser amanhã?

Qual amanhã qual quê?! Tens de estar aqui daqui a 3 minutos,

senão condenam-te à revelia!

Percebeste? Três minutos. Ou melhor, dois! Adeus, Attilio.

Para baixo, meu lindo. Devagarinho...

Pronto! Então, que tal?!

Podem ser fedorentos, mas são inteligentes.

Papá, socorro!

Um morcego!

Deitem-se, baixem-se!

Está a bater o terreno, vejamos o que pretende...

Vamos para debaixo da cama, assim não nos vê.

- Vai-te embora, morcego nojento! - Emilia, mas o que é isso?

Se lhe chamas nojento, ele ofende-se, é perigoso!

Olha como se faz...

Ó morcego, morceguinho, és tão bonitinho,

a janelinha está à tua direitinha.

- Que sorte, papá! - Sorte?!

Esta é a fórmula da poesia! Se lhe chamas nojento...

Eu explico como se faz.

Há uns dias, estava na casa de banho a fazer a barba.

A certa altura, vi uma aranha e disse-lhe assim:

"Aranheta, põe-te na alheta". E ela foi-se embora.

E o que digo, se for um rato?

"Ratito, até daqui a bocadito", e ele sai logo a correr!

Ensinas-me a escrever poemas bonitos, papá?

- Como te tornaste poeta? - Como se faz?

Como é que se faz...?

Sabem uma coisa?

Eu era miúdo, mais novito do que vocês,

teria uns oito ou nove anos. Estava com a avó, a minha mãe.

Fomos a casa do Tio Giustino, e havia lá um bosque.

A certa altura, sabem o que aconteceu?

- O quê? - Apareceu um passarito,

a esvoaçar e a cantar, a voar cada vez mais baixo,

voava e ia descendo...

... e pousou-me no ombro.

Juro!

Escolheu-me, no meio de toda a gente!

Cheio de medo que ele fugisse, fingi que era uma árvore,

não mexi um músculo, fiquei assim.

Entretanto, o coração batia-me no peito,

batia descompassadamente.

- E depois? - Voou.

Fui logo a correr contar à minha mãe:

"Mamã, um passarinho...

... a voar e depois... a cantar...

... aterrou no meu ombro... e esteve aqui uma hora! Um passarinho!"

E ela respondeu: "Até me assustaste!" e continuou a falar com o tio.

Mas a avó era má, não gostava de passarinhos?

Não, a avó não era má, e gostava de passarinhos.

Mas não era ela, era eu.

Eu é que não lhe contei bem aquilo que estava a sentir,

não soube transmitir as emoções que sentia.

Fiquei tão triste, que pensei:

"Deve haver quem tenha por ofício encontrar as palavras certas,

gente que fala de uma maneira,

que quando o seu coração bate, consegue fazer bater o nosso também.

Nesse dia, decidi ser poeta.

- O meu coração bateu, papá! - O meu também, mas o da avó, não.

Se as palavras não são as certas, nada sai bem.

Se vos digo: "Toca a dormir, já é tarde", entendemo-nos!

Uso as palavras certas.

- E se entra mais um morcego? - Vamos mas é a dormir!

Amanhã, têm de estar na escola às nove em ponto!

- Não é às nove, é as oito... - E meia! Eu sei!

Boa noite, vá.

Amor meu, toda a criação transborda de paixão,

e da minha boca às estrelas se desprende uma palavra,

qual cometa d'ouro: amo-te! - Oh, meu amor!

Quero ficar aqui contigo para sempre! Para a eternidade!

Mas não tens de levar as meninas à escola ás 8h30?

Vou e volto em 5 minutos. Cinco minutos!

Lembras-te onde estacionei o carro?

- E então, o carro? - É meu. Vou tirá-lo.

Cinco minutos. Volto daqui a cinco minutos.

Vá lá, despachem-se.

Vão com calma. Não tenham pressa.

Não comecem logo a escrever poesias de amor,

são as mais difíceis, esperem pelos 80 anos.

Escrevam sobre outra coisa:

o mar, o vento, o aquecedor, um comboio atrasado!

Não há coisas mais poéticas do que outras!

Perceberam? A poesia não está cá fora, está cá dentro!

Não te perguntes o que é poesia, vê-te ao espelho, a poesia és tu!

Vistam bem a poesia, procurem bem as palavras!

Escolham-nas bem! Às vezes,

são precisos oito meses para encontrar uma palavra!

Escolham! A beleza nasceu quando as pessoas começaram a escolher,

já com Adão e Eva!

Sabem quanto tempo levou Eva a escolher a folha de figueira certa?

Como me ficará esta? E esta? E esta aqui?

E desfolhou todas as figueiras do Paraíso.

Apaixonem-se!

Se não se apaixonarem, tudo ficará morto.

Apaixonem-se e tudo ganha vida, tudo começa a mexer!

Delapidem a alegria,

dissipem o júbilo,

estejam tristes e taciturnos com exuberância,

atirem à cara dos outros a vossa felicidade!

E como se faz? Deixem-me consultar as notas,

já me esqueci. E isto que devem fazer.

Não consigo lê-las. Já me esqueci.

Para transmitir felicidade é preciso ser feliz:

para transmitir a dor, é preciso ser feliz.

Sejam felizes, devem amargar, sentir-se mal, sofrer.

Não receiem o sofrimento, toda a gente sofre.

E se não tiverem dinheiro, não se preocupem,

basta uma coisa para escrever poesia: tudo!

Perceberam? E não queiram ser modernos,

não há coisa mais antiquada que essa!

Se uma frase não vos ocorrer nesta posição ou nesta,

deitem-se no chão, ponham-se assim.

É deitado que se vê o céu. Mas que bonito!

Por que não fiz isto antes?

Para onde estão a olhar? Os poetas não olham, vêem.

Obriguem as palavras a respeitar-vos.

Se a palavra... "parede"...

Se "parede" não vos ligar,

ignorem-na nos próximos 8 anos, que é para ela aprender!

O que é isto? Não sei.

Isto é que é beleza, como estes versos,

que quero que fiquem ali para sempre!

Apaguem tudo, vá despachem-se. Acabou a aula.

Adeus, meninos, vemo-nos quarta, quinta.

Adeus, até à vista.

Bom dia.

Vou já sair, Professora Browning.

Obrigada, Sr. de Giovanni.

Bom dia, stôra.

Não, deixe, eu apanho.

Continuam os problemas com o reitor?

Muitos. Sobre o programa.

Gostava de discutir isso consigo.

Podemos dormir juntos hoje?

Nancy!

Da última vez que dormimos juntos, nevou.

Foi no dia mais frio e bonito de Janeiro.

- Deitas-te comigo? - O que fazes? Olha os alunos!

É deitado que se vê o céu, não? Já não gostas de mim?

Foi tão bom estar contigo, Attilio. Por que resolveste

pôr-lhe fim tão depressa? Quando me apaixonei por ti...

Apaixonei-me por ti, porque tu te apaixonaste por mim.

E foi cá uma pancada, Nancy! Muito bonita.

O que fazes esta noite?

- Nada, Nancy. Adeus, vá... - Dormimos juntos hoje?

Attilio, temos de ir! Olá, Nancy!

- Olá, Ermanno. - Adeus, Nancy. Vamos andando.

Por acaso, lembras-te onde pus o carro?

Está à frente da porta.

Obrigado, Nancy, adeus.

Truz-truz! Batem à porta.

Espreito pelo ralo e só vejo cabelos.

Abro, é uma ursa que me diz:

"Olá, Ermanno, beija-me."

E eu digo: "Quem és?"

E ela responde: "Já não me reconheces... filho?"

Desata a chorar e eu digo: "Desculpa, mamã" e abracei-a.

E, quando acordei esta manhã, senti-me sereníssimo.

- A tua mãe era uma ursa? - Eu é que não tinha percebido!

Continuava a sonhar com hienas, abutres, crocodilos...

Fico contente por ti.

Eu sonho sempre o mesmo.

O mesmo animal?

Não há animais.

Estou numa espécie de casamento com imensa gente.

Depois entra aquela que eu amo, tanto que até morria por ela,

e, a certa altura, diz: "Beija-me! Quero fazer amor contigo".

E tu, o que fazes depois disso?

Desmaio.

- É uma maravilha! - Mas, no sonho, que animal é ela?

É ela mesma, a mulher da minha vida!

Mas que sonho é esse?

Desculpa lá, mas é como gostar de cerejas e,

no sonho, comer cerejas.

Mas isto é uma consciência elementar, primitiva. Desculpa lá, mas...

- Um sonho que não se realiza? - Realiza-se!

Se sonho com uma mulher que desejo, sonho-a simbolizada.

Se a mulher é um pinguim, transporta toda a mitologia do pinguim:

se é uma iguana...

- Aí está um sonho maduro. - Achas?

Não são palavras minhas, são de Sigmund Freud!

Freud...

Sonhar com um animal?

Chegámos mesmo a tempo! Sentemo-nos.

Ama o teu sonho A base de todo o escárnio

Ama o vento E acautela-te

Os sonhos são-no verdadeiramente

Pois é em sonhos Que me reúno a ti

É o maior poeta árabe vivo! Que poesia tão bela!

- Dilacera-nos! - Realmente é bela.

Os poetas têm muitos pais, o Fuad quis recordar um,

saudando-o, agradecendo-lhe. Valerio?

Como sabem, no momento difícil que o seu país atravessa,

o Fuad decidiu abandonar a França e regressar a Bagdad.

Oxalá esta guerra inútil nunca chegue a começar,

para que o Fuad volte rapidamente para junto de nós.

Obrigado e até breve!

Mas que chatice! Acabou! Já está tudo a sair!

- E então, vamos comer? - Espera, quero ir cumprimentá-lo.

Fuad, fixa bem este nome.

Daqui a 4 ou 5 anos, ganha o Prémio Nobel.

Acredita!

... ainda que me custe muito deixar Paris, após 18 anos.

- Quando pensa regressar a Bagdad? - Se tudo correr bem, assim que puder.

De quanto tempo precisa para acabar o livro?

A editora queria lançá-lo em Setembro, mas eu levarei o tempo que for preciso.

Preciso de estar consigo pelo menos uma semana.

- Arranjaremos tempo. - Obrigada. Adeus.

Com licença, desculpem...

Attilio!

- Fuad! - Onde estavas?

Estava ali ao fundo!

Cheguei um bocadinho atrasado, mas adorei tudo.

Tens aqui admiradores.

Quando citei os teus versos ao princípio,

ouviu-se logo um aplauso, viste?

Desculpa.

- O livro. - Obrigada.

Sou uma despistada.

Conhece Attílio de Giovanni? E o seu livro de poesia

" Tigre e a Neve" que tanto me conquistou?

Sim, sim, todos o conhecemos.

Encontrámo-nos há três anos em Marsília, durante a atribuição de um prémio de poesia

Não é verdade Attílio?

Attílio... em Marsília! Estivemos lá muito bem...

Vittoria está a escrever a minha biografia.

Desde há meses que lhe conto toda a minha vida.

Tens tempo para jantar?

- Claro, vamos jantar juntos! - Então, deixo-vos. Adeus!

Adeus.

Meu caro Attílio é como se o tempo não tivesse passado!

Fuad! Obrigado! Agora despeço-me.

Adeus, Fuad, obrigado.

- Ouve lá, quando partes? - Depois do jantar.

Então, temos imenso tempo! Fuad!Gosto muito de ti.

Adeus, adeus!

- Não vens jantar? - Claro, quando quiseres! Adeus!

Então, Attilio, vamos jantar?

Claro, é só dizeres! Adeus, Ermanno.

Quero tomar chá sozinha.

Eu também queria tomar chá sózinho! Que coincidência!

Tomamo-lo juntos! Dois chás!

Sózinhos... Obrigado.

Sr. Poeta Attilio De Giovanni, não há qualquer possibilidade.

Não queria nada incomodar-te, longe de mim!

Só queria...

Como temos pouquíssimas oportunidades de nos ver,

pensei que...

Nós os dois, a certa altura...

Attilio, por que me atormentas? Por que insistes em seguir-me?

Não tens mais do que fazer do que pensar em mim?

Em ti?! Eu, pensar em ti?! Mas quem é que pensa em ti?

Disseram-me que te viram em Verona! Seguiste-me até lá!

Espera, espera! Deixa ver se percebi...

Eu, em Verona?! Mas quem te disse isso?

O Settembrini! Viu-te horas a fio à porta do meu hotel!

Ouve-me com atenção, Vittoria, eu não estive em Verona.

Que me interessa por onde andas? Sei lá se estás em Verona

ou na Piazza dell'Esquilino?

Não acredito! Também estiveste na Piazza dell’Esquilino?!

Ouve, eu não sei por onde andas e não me interessa sabê-lo!

E se, por uma vez, viesses tu ver onde estou?

Por uma vez, vinhas ver onde moro, onde vivo,

onde durmo, onde leio, onde escrevo, onde lavo a louça...

Anda dar um passeio por Roma e esta noite vinhas até lá e...

E ficávamos juntos, pronto.

Não, desculpe, diga-me você quem é. Você é que me telefonou.

Que Valeri? Sim, estive na leitura do Fuad, porquê?

Realmente este casaco não é meu. E este telefone também não!

Desculpe lá, levou-me o casaco? Este é 5 números acima.

O seu deve estar 5 números abaixo! Mas onde tinha você a cabeça?!

Este levou o meu casaco em vez do dele. Ele há com cada um!

Ouça lá!

Agora não posso, estou numa... reunião.

Está bem. Estou na esplanada, ao virar da esquina.

Se pudesse vir você... Mas rápido, tenho pressa.

Sr. Valeri, estou aqui! Mas como pôde confundir os casacos?

- É três vezes maior! - Realmente, parece impossível.

E a cor... O Sr. Valeri confundiu o meu casaco com o dele.

- Não sentiu que estava apertado? - Não o cheguei a vestir...

Pronto, está tudo explicado. Já percebi por que não deu conta.

Está tudo resolvido, obrigado e adeus.

Há gente que anda mesmo com a cabeça nas nuvens!

Mal sabia o que dizer.

A certo ponto disse-me: "Amo-te"

Sonho todas as noites contigo, casemo-nos."

O que terias tu respondido a uma coisa destas?

- A conta, por favor. - Não, permite-me!

- Obrigada. - Ora essa!

- Vittoria! - A conta.

Quanto é?

Tome, fique com o troco.

Mas fique sabendo que o chá não tinha sabor nenhum!

Quero ver onde lavas a louça. Leva-me a tua casa.

- Vamos pelas escadas, gosto mais. - Boa ideia, também gosto mais.

Desci muitas escadas de braço dado contigo e,

agora que aqui não estás, cada degrau é um vazio.

- Bolas, tropecei. - E para aprenderes.

Moro aqui, já chegámos.

Todos os dias tropeço naquele degrau.

Cá estamos!

Entra.

Pronto!

Entra, Vittoria, anda, Vittoria! Eu e a Vittoria em minha casa!

Anda, Vittoria, vem. Esqueço-me sempre das velas acesas.

E olha, a televisão também ficou...

Preparo-me todas as noites. Penso assim: "A Vittoria pode vir".

Vou fazer um café, é só um segundo.

Faço a contar contigo? Apetece-te?

- Sim, obrigada. - E um instante!

- O que foi? - Nada.

Queimei-me na cafeteira. Está pronto!

Já subiu?!

Sim, preparo-o todas as noites, para o caso de tu vires... Senta-te!

Já estava quase a subir, quando cheguei.

Gosto sempre de dizer a verdade.

Ver-te aí sentada, à noite, sozinha comigo, a beber café...

Faz-me bater o coração.

És tão linda! As mulheres são tão belas,

quando decidem fazer amor.

Por que não vivemos juntos para sempre? Seria tão fácil!

Tão fácil como ver um tigre na neve.

Quando vir tal coisa, ficaremos juntos para sempre.

Então, vamos para o Tibete, lá neva sempre nos tigres!

Mas nós vivemos em Roma!

Um nevão sobre um tigre em Roma!

Já percebi...

Por favor, fica e dorme comigo. Para onde hás-de ir?

Tens aqui um homem que te ama!

Estar perante um homem que te ama... ... não é espectáculo que se perca.

Lá fora, está frio e chove, fica aqui comigo.

Podemos tomar um belo banho, fumegante.

Eu seco-te, enrolo-te no roupão azul. Vá lá, Vittoria!

Filha duma grandessíssima put...

Preparaste tudo isto, todas as noites, para mim,

mas esqueceste o mais importante, o champanhe.

Explica-me o resto depois, mas quero saber agora como fizeste isto.

Sabes como é... São truques de quem sabe!

Mas logo quando disse "champanhe"?!

Foi sorte.

Toma, Vittoria.

Quero fazer contigo o que a Primavera faz às cerejas.

Ora, vá...

Não disseste nada da casa.

Mudava esta mesa... Acabo o champanhe e vou.

E os teus livros... Não tentes impedir-me.

Não deviam estar no chão. É demasiado boémio.

Há tempo para tudo, os pessegueiros não desabrocham em Dezembro.

Esta parede verde é horrenda.

Anseio sentir os teus braços à minha volta. Este chão...

Mas não posso... Parece um escritório.

Não sei se vá ou se fique.

O que fazer? Decide tu.

Decide tu.

Parabéns pela tua casa.

Acho que entendi, Vittoria, as tuas reticências relativamente à casa,

e penso que se podem resolver assim:

quanto ao chão, acordámos que, para já fica assim:

relativamente à mesa, concordo, tirava-a...

Assim, ganhava-se espaço e punham-se aqui dois cadeirões.

E, quanto às prateleiras, o vizinho de baixo é carpinteiro.

Basta chamá-lo e resolve-se.

O chão fica como está: o tecto não é famoso, mas aguenta-se...

Não contava ficar aqui muito tempo. E um simples aluguer,

mas não sei quando termina.

Não percebo nada dessas coisas, só sei uma coisa:

esta noite nunca há-de regressar. Nunca mais.

O grande relógio do tempo só tem uma palavra: Agora.

Mas tens razão numa coisa, meu amor.

Aquela parede verde tem de sair.

Aonde vais?

Vou pôr o roupão azul.

Se pudesses ver... o que me vai aqui dentro,

frotas de submarinos contra-torpedeiros

que me bombardeiam os ventrículos com cargas de profundidade

e circum-navegam o meu coração...

Agora posso dizer-te, estive em Verona, sim,

e na Piazza dell’Esquilino. Duas horas e um quarto!

Até me custa admitir, mas também estive na Catânia.

Sim, na Catânia, nunca to disse.

Sonho contigo todas as noites, sempre o mesmo sonho, sempre tu.

Vejo-te em toda a parte.

Toda a minha vida gira em torno de ti.

Em tudo sinto o bater do teu coração, estás dentro de tudo o que existe.

Estás nestes livros, nas bolhinhas do champanhe,

estás na chama destas velas, naquelas árvores,

estás aí na rua...

Quando a apanhar, vai pagá-las! Dou cabo dela!

Vittoria, vou processar-te! Vou levar-te a tribunal!

Espera!

Pára!

Parem o eléctrico!

Sr. condutor, pare!

Sabes o que és?

És uma grandessíssima...

... filha da puta!

Está a chover! Chove!

Chove na cidade, como chove no meu coração.

Toda a criação transborda de paixão,

da minha garganta brota este grito, qual cometa d'ouro no céu,

beija-me!

Por favor, meu amor, beija-me! Pedi que me beijasses!

Beija-me!

- Attilio! - Beija-me.

É ela! O simbolismo é tão óbvio!

- Beija-a! - Eu sei, percebi logo.

Mas o bicho mete-me nojo! Não o beijo!

Nojo?! Então adeus. Nunca voltarás a ver-me!

Não estava a falar contigo! Não fiques ofendida!

Espera!

Mas que coincidência! Vittoria!

Estava aqui a passear, pensando em tudo menos em ti...

O que fazes? Vais-te embora?

Está bem, já percebi!

Como sei que estás de abalada, só cá vim dizer-te isto:

está tudo acabado entre nós! Não mais voltarás a ver-me!

Adeus para sempre!

Desculpa, esqueci-me de te dizer uma coisa importante!

Vittoria!

Paz! Paz!

Está bem, diga-lhe. Daqui a meia hora não posso, Advogado.

Para a prisão?! Defenda-me, eu tenho razão!

- Isto é um acto de violência. - Acto de violência, é a guerra!

Pendurar a bandeira da paz nunca fez mal a ninguém!

Daqui a meia hora não consigo, Advogado.

Cuidado, Stôr!

Mamma mia, que pancada! Por pouco, matava-me!

Mas o que é...?

Pára de saltitar!

Pára lá com isso, por favor!

Vittoria, não me meto na tua bolsa!

Não caibo aí! Não me beijes!

Eu sei que és tu, mas pára com isso!

Porta-te bem, Vittoria!

Sim?

É o próprio.

Quem fala?

Quem?

Fuad! Que bela surpresa!

Claro que estou contente! E então, Fuad, como estás?

O que é que aconteceu?!

A Vittoria? Claro que sim.

Está aí contigo, não é? Falou-te de mim, foi?

O que aconteceu?

Está morta?

Não sei, Attilio. Vim agora do hospital.

O médico receia que ela não passe desta noite.

Sim, está viva,

mas não podem fazer nada por ela. Aqui não há remédios, não há nada.

Tínhamos acabado praticamente a entrevista,

passeávamos por Bagdad, deu-se uma explosão

e um palácio ruiu. Como?

Não sei. Quando abri os olhos,

vi-a caída, inconsciente.

Como se chama o hospital?

Obrigado. Está bem. Vou já para aí.

Até breve. Vou já para aí.

Sim, sim, eu sei, em Bagdad. Telefono-te assim que chegar.

Adeus, Fuad, obrigado.

Carla? Sim, sou eu.

Eu sei que é tarde, desculpa...

Está tudo bem, não te preocupes. Estão ambas bem, estão a dormir.

Ouve, Carla, tenho de partir de imediato.

Não sei quando, talvez demore. Por favor, não comeces.

Tenho de ir. Não sei quando, já te disse.

Vem bem cedinho amanhã, deixo-te as chaves lá fora.

Cuida da Rosa e da Emilia, está bem? Adeus, Carla, obrigado.

- Bom dia. - Sim?

Quero um bilhete para Bagdad no primeiro avião.

Como disse?

Pareceu-me ter sido claro. Quero já um bilhete

para Bagdad no primeiro avião.

- Acho que não percebi bem. - Qual é o problema?

- Diga lá. - Outra vez? Não acredito...

- Isto não é o aeroporto? - Claro!

Então, quero um bilhete para Bagdad!

Acalme-se, por favor. Talvez não saiba,

mas o Iraque está em guerra. Não há voos para Bagdad.

Eles nem sequer têm aeroporto!

- Mas eu tenho de lá ir! - Não se pode!

Deve haver um aeroporto perto, não? Dê-me um bilhete

para o aeroporto mais próximo! Depois vou de táxi, de comboio,

de barco ou vou a pé!

O problema é meu, não se ralem!

Mande-me para o aeroporto mais perto.

- Mais perto de quê? - De Bagdad!

Para onde deseja ir?

Estávamos só... Queria uma informação.

Não tenho tempo a perder. Desculpem. Foram muitíssimo amáveis.

Adeus.

- Está tudo bem? - Sim.

É incrível! Queria ir para Bagdad!

- Estaria a brincar? - Bagdad!

Olá, Eleonora. O que é o jantar?

- Olá, Giovanna! - Olá, Leo.

- Devolveram o certificado. - Outra vez?

Tens de falar com eles. E tu, como estás? Pareces cansado.

São as coisas do costume.

Ou melhor, não. Esta manhã, chegou um tipo ao aeroporto, muito agitado.

Queria um bilhete para Bagdad!

Imagina! Queria ir passar o dia a Bagdad!

Um bilhete para Bagdad? Como era ele?

Era um tipo banalíssimo.

- Como aquele ali, olha. - Qual?

Aquele ali a descarregar os caixotes no Iraque.

Mas é igualzinho!

Eleonora! É ele!

Ajuda-me aqui com a massa!

Mas como diabo conseguiu ele chegar ali?!

Não, aqueles ali ficam em Bassorá!

Estes aqui vão para Bagdad! Mas onde se meteu o Guazzelli?

- Guazzelli! Senhor Dr.? - Estou aqui. O que é?

- Vamos para Bagdad. - Falta o OK.

- A Sra. Serao já mo deu! - Partamos imediatamente!

De Giovanni!

- Sra. Serao. - Finalmente encontrei-o!

A senhora é uma pessoa maravilhosa, extraordinária!

Desculpe ter insistido para vir,

mas nem sabe como me faz feliz estar aqui! Obrigado!

Eu é que agradeço.

Desculpe se lhe pareci desconfiada em Roma mas,

nestas alturas, perdemos tanto tempo

com gente bem intencionada sem formação!

Mas um cirurgião do seu calibre faz sempre falta. Obrigada, Sr. Dr.!

Eu é que agradeço. Até breve!

Não pode ir mais depressa? Ultrapasse!

Não se pode.

- Quer que eu guie? - Faça lá uma sestazinha, Dr.

O que se passa?

Dr. Guazzelli, por que parámos?

Recebemos ordens por rádio para regressar a Bassorá.

A Bassorá?! Regressar a Bassorá?

Mas vocês estão doidos? Parem, parem!

Contra-ordens! Parem!

- Quanto falta para Bagdad? - Uns 100km.

Então, espere. Pare!

- Aonde vai, Dr.? - Tenho de ir para Bagdad!

- Tenho de chegar a Bagdad. - Mas isto é tudo deserto!

Tenho de chegar a Bagdad! Adeus, até breve! Obrigado!

Vá, eu aviso o Guazzelli, não se preocupem. Vá, continuem!

Fuad, é o Attilio!

Ainda bem que telefonas! Passei o dia a tentar ligar-te!

Talvez tenha arranjado maneira de te fazer chegar ao Iraque

daqui a 3 ou 4 dias.

- Fuad, eu já estou em Bagdad! - Em Bagdad? Como assim?!

Já cá estou! Estou ao pé de duas mãos enormes

com duas cimitarras aí com uns 30 metros!

- Onde fica o hospital? - Até custa a crer!

Eu levo-te lá, não saias daí!

Fuad!

Demoraste muito!

- Como estás? - Bem, obrigado.

- Como chegaste a Bagdad? - De camioneta.

Onde fica o hospital? Vamos.

Anda.

- Onde está ela? - Aqui.

- Que estranho! - O que é?

- Estava aqui, ontem à noite. - E agora?

- Receio que seja mau sinal. - Estás a brincar!

É um bom sinal!

Provavelmente melhorou e transferiram-na.

Vamos perguntar, deve haver por aí um médico, um cirurgião,

uma enfermeira, um auxiliar... - Vou ver se descubro.

Não te aflijas.

Estou radiante. É um excelente sinal.

Ainda bem que ela recuperou. Vou procurá-la.

Vittoria?

Estás a ver quem é?

Sabes quem sou?

Já viste que coincidência?! Também estás em Bagdad!

Tinhas a cara tapada e parecia... Mas estás a respirar!

Estás com óptimo aspecto! Belíssimo!

Soube que não estavas bem, assustei-me e fiquei um bocado...

O quê?

Disseste alguma coisa? Não disseste nada?

Sabes uma coisa? O Fuad foi falar...

... com o médico. É um médico formidável.

Bagdad só fala dele!

Eu perguntei: "Quem é ele?"

O hospital está vazio, ele já curou toda a gente!

Estive a falar com ele e, daqui a dois dias, já te dá alta!

Garanto-te!

Fuad, encontrei-a!

Sr. Dr. já viu isto? Atiraram a cama para aqui,

taparam-lhe a cara... Parecia que estava morta! Está melhor?

O médico não fala italiano, estive a falar com ele.

- O prognóstico não é bom. - Porquê?

Ela está com óptimo aspecto.

Olha, Vittoria! O Fuad também aqui está, vês?

Ela está bem.

Está melhor, já pode ir-se embora?

Está melhor?

- O que disse ele? - Não há esperança.

Mas estão doidos?! Dizer isso à frente dela?!

Ela ouve tudo o que dizemos! Então, está melhor... Eu sabia!

Ele disse que não há esperança, mas não a declarou morta.

- Está morta ou viva? - Está viva, mas...

"Está viva, mas..." como? Está viva!

Não podia ser melhor!

O que é preciso fazer? Pergunta-lhe.

- O que lhe digo, Dr. Salman? - Não consigo reduzir o edema.

- O que disse ele? - A Vittoria tem um edema cerebral.

Não está a reagir aos estímulos. Não temos anti-inflamatórios.

Isso significa...

... que ela vai morrer brevemente.

A menos que encontremos o remédio adequado, e que ela o tome.

O edema reduz, ela melhora e podemos ir, não é?

- Quanto tempo temos? - Para quê?

Para arranjar o remédio! Deve haver aí uma farmácia!

- Não há remédios em Bagdad! - Eu sei, mas mesmo assim...

Pede-lhe instruções! Pergunta-lhe quanto tempo se aguenta ela

sem esse remédio! São 30, 34, 47 minutos?

Obriga-o a dizer qualquer coisa!

Na sua opinião, quanto tempo lhe resta de vida?

Não mais de quatro horas, mas está tudo aí escrito.

- O que disse ele? - Está tudo aqui.

Ele escreveu o nome do remédio em árabe?

- E quanto tempo temos? - Não temos mais de quatro horas.

Quatro horas?!

Quatro horas, Fuad?! Chega e sobra!

Ainda dá tempo para ir tomar um café!

Vamos lá procurá-lo. Quatro horas...!

Vamos lá então, deixa-me só despedir-me da Vitoria.

O médico deixava-te vir connosco, mas eu acho que é melhor

descansares mais um bocado.

Ficas a recuperar as forças!

Depois, arranjo-te um sítio mais agradável.

Vi ali um sítio bem jeitoso debaixo das escadas,

um sítio onde ninguém passa. Adeus.

Pronto, Fuad.

Cá estou eu!

Está aqui uma aberta!

Esta está aberta! Sr. Farmacêutico! Está aí alguém?

Sr. Farmacêutico!

Clientes!

Esta também está fechada, não é?

Talvez haja uma ali.

Olha!

Como se diz em árabe?

Os bazares! Eles têm de lá tudo!

Dá cá a receita. Obrigado. Eles têm de tudo aqui!

Bom dia, amigo. Sou italiano. Tem este remédio?

Preciso de dez caixas. Posso procurar?

Talvez haja e se tenha esquecido, no meio desta confusão...

Eu vou procurando.

Onde estão os remédios? Remédios?

Anda!

Não tem...

Mas como, não tem? Têm vasos etruscos,

equipamento de mergulho, capacetes de moto

e não têm remédios?!

- É escusado, este remédio... - A propósito, para que serve?

- É um anti-inflamatório. - Então, mandamos fazê-lo!

- A quem? - Não conheces nenhum farmacêutico?

Tu és de Bagdad! Do Iraque, o país da alquimia,...

...dos tapetes voadores... e não conheces um farmacêutico que faça um...

Por acaso, até conheço um!

O Al-Giumeili! Um velho amigo do meu pai!

Um homem extraordinário!

- Estás a ver?! Vamos. - Talvez já tenha morrido.

Está vivo? Ou morto? Vá, vamos...

Faz-lhe bem ver-te. Espera aqui.

- Ele ainda é vivo? - Sim.

- Eu bem te disse, vamos! - Espera!

Ela foi anunciar-nos, ele é muito velhinho.

Nem sei se se lembra de mim.

O meu pai considerava-o um exemplo,

dizia que não conhecia ninguém mais nobre.

- Porquê? O que fez ele? - Ele sim, era um verdadeiro poeta.

Era muito jovem, apaixonou-se por uma mulher e casou com ela.

Algum tempo depois, quando combatia na guerra,

soube que a mulher tinha contraído varíola e tinha ficado desfigurada.

Mal soube, o Al-Giumeili disse:

"Doem-me os olhos". Depois disse: "Estou cego".

Doze anos depois, quando a mulher morreu,

ele reabriu os olhos.

Não é possível!

Para não entristecer a mulher, fingiu-se cego durante 12 anos?!

Cada pessoa é um abismo. Ficamos com tonturas,

só de olhar lá para baixo. Ele nunca explicou a ninguém...

O Al-Giumeili mandou-te entrar.

Espera. Deixa-me ir primeiro. Já te chamo.

- Toma lá, ofereço-te. - E para mim?

É uma prenda para mim? Obrigado.

Que presente tão bonito!

- Anda. - Adeus.

- É o meu amigo, Attilio. - Bom dia.

- Seja bem-vindo, sentem-se. - Obrigado.

O que disse ele? Consegue fazê-lo em duas ou três horas?

Attilio, lamento.

Ele disse que não consegue fazer o medicamento que precisamos.

É preciso equipamento que ele não tem,

é preciso manitol, cortisona e outras coisas...

Portanto, não é possível!

Se calhar, não me expliquei bem. Manitol, cortisona, o que é isso?

Diz-lhe outra coisa.

Diz-lhe em árabe: há 50 anos,

não havia manitol nem cortisona, não havia nada!

Quando alguém batia com a cabeça, e as pessoas diziam: "tem um edema,

vai morrer daqui a nada",

o que fazia ele, o maior cientista do Iraque?

Tentava-se um tratamento gástrico.

E pergunta o que lhe punham no estômago.

Glicerina.

Espera! Estou farto de ouvir falar disso!

Pergunta-lhe onde comprarmos essa tal glicerina.

Esquece, está tudo fechado, não se arranja nada...

Podemos fabricar nós a glicerina

e enfiar-lha no estômago com um tubinho?

Pode fazer-se glicerina.

Deixem-me ver se me lembro...

Ele diz que há uma maneira.

A sério?!

Ele está a tentar lembrar-se.

Que horas são? Quanto tempo temos?

Meu querido Al-Giumeili, arranja-me a glicerina.

Eu sei que tu és capaz.

Se não conseguires, ela morre mesmo.

E se ela morrer,

este espectáculo mundano pode bem encerrar as portas.

Podem desmontá-lo, retirar as escadarias,

enrolar o céu e colocá-lo num atrelado com um reboque...

E podem apagar tudo,

podem apagar a lindíssima luz do sol, que eu tanto amo.

E sabes por que a amo tanto? Porque a amo,

quando o sol recai sobre ela. Eles podem levar tudo,

estas carpetes, estas colunas, estes palácios,

a areia, o vento,

as rãs,

as melancias maduras, a saraiva,

as sete da tarde, Maio, Junho, Julho, o basílico,

as abelhas, o mar, as courgettes...

As courgettes, Al Giumeili!

Arranja-me lá a glicerina!

Assenta aí, Fuad...

É precisa muita gordura.

Por exemplo, manteiga, óleo de palma, azeite...

- O que disse ele? - Manteiga, óleo de palma, azeite.

A base é soda.

Se não arranjares, usa cinzas, óleo de rícino e gordura.

Disse que a base é soda, mas podemos usar cinzas.

Cinzas engorduradas.

É capaz de funcionar, ele deu-me a receita.

Talvez consigamos fazê-lo em duas horas.

- A sério?! - Muito obrigado, até já.

Mil obrigados, Al-Giumeili.

Boa sorte, Deus te ajude.

Obrigado, Al-Giumeili.

Anda! Já deve chegar, vá!

Toma mais cinza.

Para quê?! Já temos que chegue, não é preciso mais.

- Só mais uma colherzinha. - Obrigado por tudo, Fuad.

Eu trato disto, vai descansar.

- Dormiste alguma coisa? - Um bocadinho, na cadeira.

O Al-Giumeili intimidou-me um bocado.

Quem era aquela senhora? Era a filha?

É a última mulher do filho dele, o Ali. O Al-Giumeili disse-me

que o assassinaram há seis meses. Era um espírito livre.

O Saddam Hussein não apreciava espíritos livres.

Coitado do Al-Giumeili...

O tempo não me deixou nada

Que possa deslumbrar os meus olhos

E o meu coração

Vamos lá, Fuad! Se isto resultar,

fazemos um jantar de comemoração! Vou pô-la no frigorífico!

É bom, não é?

Sabes que isso aí é caseiro? Foi feito por mim e pelo Fuad.

Não tem conservantes, corantes ou químicos.

Parecia que estávamos a fazer tagliatelle!

"Passa a manteiga, por favor, dá aí o óleo, o rosmaninho,

corta aí umas cebolas, acrescenta o alho."

Tal e qual os tagliatelle! Ficou delicioso!

Ao jantar, eu e o Fuad até repetimos!

O Fuad até queria mais, mas eu disse:

"Não, deixa algum para a Vittoria! Queres comer isso tudo?!"

Estás com bom aspecto. Limpei-te toda.

Estás mesmo bonita!

Já me esquecia! Olha o que trouxe! Espera, espera...

Sabes o que tenho aqui? Espera! Fecha os olhos.

Fecha! Não, fecha-os!

Já podes abrir! Abre!

Abre lá!

Vou pendurá-lo aqui, está bem?

Pronto. Que tal ficou?

Mas que grande turra! Ainda faço também um edema!

Isto está cheio de moscas!

Gostas? Olha.

Dá uma vista de olhos! Diz só se achas bem ou não.

Olha lá só um instante!

Um segundo...

Mexeste-te?

Pareceu-me que dantes estavas mais...

Ela parece-me cada vez pior.

Esta mixórdia não serviu de nada.

Vou tratar dum assunto pessoal com o médico. Não é nada de...

Volto já.

Sr. Dr., desculpe!

Ela parece pior. A glicerina não ajudou.

- Não ajudou nada? - Sem ela, já estaria morta.

É um milagre ainda estar viva.

Agora, temos de rezar e esperar que os remédios cheguem depressa.

Se precisar de alguma coisa, eu posso ajudar.

Obrigado, vou vê-la assim que puder.

Quem é o senhor? O que está a fazer?!

Quem é você? Sr. Dr.!

Quem é você? O que faz aqui?

Quem é você?! O que lhe fez?

Sr. Dr. aquele homem estava inclinado assim sobre a Vittoria!

- O que queria ele? - Imagino que isto.

O que é? Mostre. O fio da Vittoria.

Há ladrões no hospital?!

É melhor guardá-lo.

Isto é um pesadelo, está tudo a saque!

Os americanos prometeram-nos forças de segurança.

- Oxalá cheguem depressa. - Sr. Doutor...

Como a acha? Está tão pálida! Acha que respira bem?

Um bocado de oxigénio não lhe fazia mal Até mais logo.

Obrigado, desculpe lá.

Respiras? Estás a respirar?

Respira, Vittoria!

As únicas que respiram aqui são as moscas!

Oxalá morressem todas! Onde arranjam elas o oxigénio?

Mas que pesadelo!

Eu arranjo-te oxigénio! Eu arranjo-to!

Aguenta-te. Coitado do médico...

Nem sequer tem adesivo! Coitadinho!

Está lá, Fuad? Sou eu, o Attilio.

Tu por acaso não tens uma garrafa de oxigénio em casa?

Sim, uma garrafa de oxigénio.

Podias tê-la e ter-te esquecido...

Não conheces ninguém que, por razões profissionais,

possa ter uma garrafa de oxigénio?

Fuad, já sei! Não te preocupes!

Já sei onde ir buscá-la! Obrigado, adeus.

Eu arranjo-te oxigénio.

Já sei onde ir buscá-lo. Vou buscá-lo.

Adeus, Vittoria.

Mamma mia!

Parece o fim do mundo!

Estava aqui.

Quem a terá levado?

Desculpe, por acaso viu...

Por acaso, viu...

... um wet suit e uma máscara?

Pára! Tu aí! Ó árabe!

Mandei-te parar! Ó árabe! O Ibrahim! Omar!

Ó árabe, como te chamas? Pára aí! Espera!

Estás doido?! Vai-te embora! O que queres?

Pára! Pára aí!

Amigo! Italiano! Sou italiano.

- Não percebo o que queres! - Sou italiano!

Preciso do oxigénio!

A garrafa! A garrafa de oxigénio!

Para mim! Oxigénio! Preciso dela! Eu pago! Eu pago-ta!

- Dólares? - São como dólares, euros.

Conheces? Itália, França, Luxemburgo... Eu pago, euros.

- Mais! - Mais?

Mas quanto quererá este... por uma garrafa de oxigénio?!

Olha, deixou-me o carrinho cheio! A garrafa de oxig...

Está presa!

É melhor ir andando. Se aparecer aí alguém,

digo-lhe que paguei tudo!

Eu paguei por isto tudo!

Espera, ainda há mais! Ainda há isto!

Já viste? Um cão...! Onde o hei-de pôr?

Onde o ponho? Aqui? Ao teu lado?

Olha, ponho-o aqui, assim pode vigiar-te.

Parece-me bem aqui, não achas?

Gastei uma fortuna, mas valeu bem a pena.

Sobretudo, porque encontrei uma coisa... excepcional!

Fecha lá os olhos. Um mata-moscas!

Encontrei esta arma de destruição maciça!

Encontrei-a! Já viste isto?!

Vou provocar um massacre! Vão morrer todas!

Então? Estás a respirar bem?

Que tal esse arzinho de montanha? Que dizem por aí, em Cortina?

Está a nevar?

Se soubesses como esse azul te fica bem!

Pus aqui fita-cola, espero que se aguente.

Gostas de música? Sabes o que encontrei? Já vais ver.

Encontrei um gira-discos! E só música árabe,

mas aposto que são bonitas.

Qual deles queres? Deixa ler... Não percebo nada disto...

Olha o que há em Bagdad!

Olha o que eu encontrei! Que incrível! Tapa os ouvidos.

Ouve! É incrível! Estás a ouvir?

Mal estejas melhor, vamos a Granada.

Quero dançar contigo em Granada. Como estás, muchacha?

Como vai isso? Respira-se bem?

Lá ficámos outra vez sem luz...

Mas que chatice!

Olha, deve ser o Fuad.

Está, Fuad? Diz.

Fuad, és tu?

Advogado? Ouço tão mal!

Passa no meu escritório amanhã às oito em ponto.

Tens de assinar o recurso! Se não vieres, metem-te na cadeia!

Não é caso para brincar, ouviste?

Attilio?

Está? Está lá?

Melhor assim.

Sr. Dr., boa noite.

Sr. Dr., desculpe... Já fiz tudo o que me disse, mas...

Ela não responde, não se mexe, não tem qualquer reacção.

- Está como... morta. - Não sei o que mais...

Como posso saber se ela está a melhorar? Se está a recuperar?

Se houver o mínimo movimento, um dedo, uma mão, um olho...

Significa que está a recuperar, qualquer movimento é fundamental.

Claudio Villa!

Encontrei este velho disco, pensei que a música a animasse.

- O oxigénio está bem? - Sim, mas já acabou.

- Já? - Já pode tirá-lo.

Ouviste? O oxigénio fez-te bem, Vittoria!

Que tal a acha?

- Está viva. - Viva?!

Mas sem água, sem alimento, como pode continuar?

- Não lhe podemos dar nada? - Se eu tivesse...

- O quê? - Se tivesse soro, podia dar-lhe,

juntamente com cortisona e antibióticos...

- Mas esqueça. - Mas o que podemos...

Ajudava imenso. Até mais logo.

Diz-me uma coisa de cada vez...

O soro é indispensável...

Eu arranjo-te nutrição, Vittoria. Deixa-te estar,

que te arranjo alimento.

Onde está? Cá está!

Vais ver que arranjo. Se digo que arranjo,

é porque arranjo mesmo. Nunzio, como estás?

Sim, é o De Giovanni.

Dr. Guazzelli, que saudades! Estou em Bagdad, sim.

Eu estou muito bem. E vocês?

Mas afinal onde estão? Quando chegam cá?

Obrigadinho! Precisamos disso agora,

há aqui gente muito doente!

A Cruz Vermelha é retida nas barricadas?!

Pois passem na mesma! Se não deixam entrar,

deixam sair. Vou eu aí! Obrigado. Muito obrigado.

Adeus, Nunzio! Vou arranjar-te alimento, Vittoria!

Arranjo uns candelabros e jantaremos os dois!

Vou já, está bem? Dizem que estão, a 50km daqui.

Peço a moto emprestada ao Sr. Dr.,

vou a 100km/h e em meia hora estou lá.

Está bem? Deixa-te estar aí quietinha!

Ou melhor, mexe um braço, um dedo, um olho, a mão... Mexe-te, está bem?

Até já, Vittoria!

Até já, Vittoria!

Só faltava esta!

Agora magoei-me no pé!

E agora? Olha, continuo!

Pronto, acabou-se a gasolina! Sem gasolina no Iraque...

É demais! É o cúmulo!

Bom, continuemos. Depois logo se vê.

Olá! Sou italiano!

Está aí alguém?

Por favor!

Vou levar um camelo emprestado.

Não demoro, já o trago!

Que bonitos!

Tu és muito mais bonito do que ele!

O meu camelo preferido!

Baixa-te lá...

Isso, baixa-te! Deixa-me montar.

Como se dirá "para baixo" em árabe?

Tens de te baixar! Põe-te assim, vá!

Isso! És muito mais bonito!

Este aqui é surdo...

Vamos lá, vá.

Espera!

Mais devagar!

Isto é que é um camelo! Ao passo que tu és feio e surdo!

Por ali!

É por ali, camelo!

É para ali! Isto é o caminho para Bagdad! O seu camelo!

Por aqui, volto ao hospital, a Bagdad!

Estás a ouvir, camelo? Ó camelo!

Tens de voltar para trás! Baixa-te!

Não posso saltar, magoei-me no pé! Pára!

Não posso acreditar! Vejam onde me trouxe!

Que sorte a minha! Está habituado a ir para Bagdad!

Pára!

Havia de me calhar o camelo mais estúpido da Arábia!

Adeus!

O que é? O que queres?

Vai-te embora!

Vai para ali! Não querias ir para Bagdad? Então vai, vá!

Vai-te embora, camelo!

Mas não é que agora lhe deu para me seguir?!

Mas que fedor, mamma mia!

Que mal cheiras!

Como é possível que cheires tão mal?

- São da Cruz Vermelha italiana? - Sr. Dr.!

Procuro o Nunzio, o Dr. Guazzelli.

Está tudo, Attilio.

Também puseste anti-inflamatórios, seringas, algodão, cortisona?

Sim, pus tudo!

Só não sei como vais meter isto tudo na moto.

Aquilo que eu não conseguir levar, trazem vocês depois, está bem?

Meteram gasolina para a moto? E carregaram-me o telemóvel?

O que achas, é melhor usar Chemiotina ou Talamagil?

- Chemiotina! - Está bem.

Era melhor levar os dois, mas já não tenho espaço...

Onde hei-de pô-lo? Olha, vai aqui.

- Quando chegam a Bagdad? - Aguardamos autorização.

Não deixam entrar ninguém. Devem ter as suas razões.

A situação é horrível! Sabes que nem adesivo têm?

- A propósito, meteram-nos? - Estão aqui.

Mil obrigados, Nunzio!

Só mais uma coisinha, dá aí um empurrão.

Quando eu disser.

Força!

Boa sorte!

Alto!

Mandei-o parar! Pouse a moto no chão!

- Sou italiano! - Abriguem-se!

Não disparem! Vamos todos pelos ares!

Não se mexa!

Ponha as mãos na cabeça!

Ponha as mãos na cabeça! E não se mexa!

Ele é um barril de pólvora! Não disparem!

Estão doidos?! Eu sou italiano!

- Isto são medicamentos! - Alto!

- Não mexa nisso! - É equipamento médico!

- Equipamento quê? - Médico!

- Não se mexa, senão disparo! - Eu não me mexo!

Eu não me mexo!

- Ponha as mãos na cabeça! - Está bem!

- Diga-lhe que se acalme. - Ele está muito nervoso!

- Ele vai disparar contra mim! - Está todo a tremer! Acalme-se!

- Largue a metralhadora! - Acalme-se!

- Estou a ter um ataque cardíaco! - Cale-se!

Williams! Johnson! Revistem-no!

Cuidado com o gatilho!

- Diga-lhe... - Está limpo.

- Aspirina. - Afaste a pistola!

Soro... Está limpo.

É um maluco qualquer! Um italiano doido!

Ouça-me bem!

Quem é o senhor?

- Sou italiano. - Já percebemos.

O que faz?

- Sou professor. - De quê?

- De poesia. - Que poesia?

Poesia.

Poesia?

- É poeta! - O quê?

- O que disseste? - É poeta!

Então, é poeta?

Sim.

Como... Dante! Walt Whitman.

Walt Whitman...

Ponha-se lá a mexer!

Afastem o arame!

Lamento imenso. Desculpem.

Sim, obrigado.

Obrigado. Por favor...!

Dão-me um empurrãozinho?

Um último favorzinho...

Muito obrigado. Um empurrãozinho...

Adeus, senhor!

Obrigado.

Adeus! Adeus!

Obrigado!

Mas isto não desce? Está preso!

É escusado...

Dr. Salman, isto também.

Obrigado por isto. E por tudo o resto.

Ainda que seja uma gota no oceano. Ela agora está bem.

- Obrigado. - Tenho de ir.

Ela está bem, Sr. Dr., mas ainda não se mexe.

E, se em vez de me dizer uma coisa de cada vez,

me dissesse logo tudo? O que podemos fazer agora?

Neste momento, não podemos fazer mais nada.

Resta-nos ter esperança e rezar a Alá.

Obrigado.

Ouviste, Vittoria?

Ele disse que já fizemos tudo o que podíamos.

Estás bem. Estás a ver isto? Aqui dentro está tudo.

Percebeste? Já não podemos fazer mais nada.

Fica descansada.

Terá posto o frasco certo...?

Mandou-me rezar a Alá.

Disse que só restava rezar a Alá.

E vou rezar, Vittoria...

Nós já fizemos tudo o resto.

Alá...

A única oração que conheço é o Pai-Nosso em italiano.

Deves perceber italiano, não?

Vai tudo dar ao mesmo, e é uma oração linda!

Vamos lá, Vittoria...

Alá, rezo eu.

«Pai-Nosso, que estais no Céu,»

«...santificado seja o Vosso nome,»

«...venha a nós o Vosso reino,»

«...seja feita a Vossa vontade,»

«...assim na Terra como no Céu.»

«O Pão-nosso de cada dia nos dais hoje,»

«...perdoai-nos as nossas ofensas,»

«...assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido,»

«...não nos deixais cair em tentação, mas livrai-nos do mal.Amen»

Agora, já fizemos tudo o que era possível.

Descansa. Eu também vou descansar um bocadinho.

Até logo, Vittoria.

Se precisares de alguma coisa, estou no barbeiro.

Foi o que eu disse à Vittoria,

quando ela me perguntou por que vim para Bagdad.

Contei-lhe a 351ª noite das "Mil e Uma Noites".

Lembras-te dela?

Sabes todas as 1001? Como é a 406ª?

A 406ª é sobre um poeta italiano com a sola rota.

As "Mil e Uma Noites", que beleza!

Mamma mia, que céu!

O céu de Bagdad é o travesseiro do mundo.

Parecem estar a disparar anjos!

A 80km daqui, há mais de três mil anos,

construíram a Torre de Babel para poder tocar neste céu!

Então, a 80km daqui, nasceram todas as línguas?

Depois de eles tentarem chegar ao céu,

nunca mais nos compreendemos.

Segundo uma lenda islâmica, Alá regressa à Terra de vez em quando,

porque sente falta da vista estrelada que se vê cá de baixo.

Fuad, séculos de sabedoria e não aprendemos nada?

Sabes por que é que há guerras?

Porque o mundo começou sem homens

e sem homens vai acabar.

E se fosses dormir lá esta noite, descansar numa bela caminha?

Obrigado,

mas na minha confortável cadeira de barbeiro

dormirei como uma pedra, ao lado da Vittoria.

- Nunca se sabe... - Compreendo-te.

- Adeus. - Boa noite, Fuad.

Ouve, se formos corajosos e nos portarmos bem,

iremos para o Paraíso, não?

Não há nada depois disto.

Ainda menos do que nada, o que já seria qualquer coisa.

Mas estou contente por ter nascido. Gosto de estar aqui.

E tenho a certeza de que, mesmo morto,

me hei-de lembrar de quando era vivo! - Boa noite, Attilio.

Até amanhã, Fuad.

Fuad!

Vittoria!

Ainda não a pode levar. Ela mal se tem de pé.

Terá de lhe dar um dia ou dois. É quase um milagre, mas aqui,

às vezes, acontecem.

Desculpe insistir, Sr. Dr.,

mas ela está mesmo melhor?

Sim, está melhor. Venha ver.

Acha que ela me reconhece?

- Claro que sim. - Sim?

Aposto que não. Espere, Sr. Doutor...

Primeiro, talvez um par de sapatos novos,

ou umas flores...

Ou talvez um duche, tresando a camelo.

Está bem, vamos tentar pô-la a andar.

Ainda há muito que fazer.

Desculpe, mas...

Já foi beijado por um camelo?

Vou fazer-lhe uma surpresa.

Uma surpresa!

Castanhos-escuros.

São usados. Mas são lindos.

Muito obrigado. São lindos, sim.

Quanto custam?

Só vinte dólares.

Eu não...

- Desculpe... - Sim?

Posso experimentar dar uns dois ou três passinhos,

só para ver que tal me assentam?

Às vezes são grandes, às vezes são apertados.

- Experimente à vontade. - E só para experimentar.

Dois ou três passinhos...

- São maravilhosos! - Sim.

Maravilhosos! Fica muito elegante!

- Mais uns passinhos... - Faça favor.

Não são maus.

Pára! Ladrão! Agarrem-no! Abbas! Firas!

Tudo isto por um par de sapatos que me ficam grandes demais!

- Deixem-me em paz! - Pare, seu louco!

Isso tem minas!

Pararam, é? Seus medrosos! Ponham-se a mexer!

Estão com medo, é? Cagarolas!

Isso tem minas!

Já vos disse...

Não te mexas! Isso está cheio de minas!

Não me largam... Já percebi que querem os sapatos!

Está bem, eu dou!

Não se vão embora... Tomem!

Também querem o outro? Querem mesmo os dois?

Desde que se vão embora...

Isto são minas!

Mamma mia, e agora, o que faço?!

São minas... Alá...

Faz um favorzinho a um amigo

e nunca mais te peço nada!

Ajuda-me!

Se meter os pés nas minhas pegadas... Ali, por exemplo...

É facílimo.

Vamos lá...

Eu não disse?

No sítio onde já pus o pé, é seguro pisar.

Se alguma vez imaginei vir a parar a um campo minado?!

Ali e ali...

Mamma mia!

Obrigado pela ajuda, árabe. Quando precisar de qualquer coisa...

Adeus, obrigado.

Fuad, é o Attilio. Posso?

Tenho excelentes notícias! As melhores do mundo!

Que corrente de ar! Está tudo a voar!

Mamma mia... Mas que grande produção!

Está tudo espalhado. Posso fechar a porta?

Fuad!

Mas o que fizeste tu?

Mas o que...

... fizeste tu?!

Fuad!

Primeiro pelotão! Rentinhos às casas!

Revistem os quartos! Avancem!

Sou italiano!

Sou italiano!

Sou italiano!

Sou italiano!

Sou italiano!

Está calado!

Está calado, deixa-nos dormir!

Estás a gritar há dias!

Deixa-me dormir!

Sou italiano...

Sou italiano...

Sou italiano!

Sou italiano!

- Queres um cigarro? - Não, meu.

- Pete, queres um cigarro? - Não, obrigado.

Sou italiano!

Sou italiano!

Sou italiano!

É o poeta!

Bom dia, sou italiano!

Não tenho papéis, deram-me isto no Consulado.

Attilio De Giovanni. Está aí. Sou eu.

Obrigado.

- Acompanhe-me. - O que é?

Não é grave, não se preocupe.

- Não? - É só uma formalidade.

Attilio!

Olha quem está aqui! O teu advogado!

Puseram-me na cadeia! Passei a noite preso!

- Fica sabendo que... - Escusas de me agradecer!

Tirei-te daqui numa noite!

Vês para que serve o advogado?

Eu levo-te a casa.

Mas, e eu...? O que fiz eu para passar ali toda uma noite?

É por tua causa...

Está tudo bem! Tudo se resolve.

Este pólen é uma tortura! Não me deixa dormir à noite!

Não respiro... Abre e vê se há aí outro... que este já nada tem...

Mas aquilo é uma zebra! Que bonita!

O que faz aqui uma zebra? E aí uma avestruz!

Mas transformaram isto num jardim zoológico?!

É capaz. Está ali um polícia, pergunta-lhe.

Sr. Guarda, o que faz ali aquela zebra?

- Tenham calma! - Além disso,

tenho um macaco no jardim! Mas o que se passa?

Há um incêndio no circo, recuem! Vá, recuem!

- Aqui tem. - Obrigada.

Bom dia.

- Abre! - Rosa, anda.

Mas para que é isso? Estou aqui!

- Onde vais? A porta está fechada! - Por que a fechas sempre?

- Não consigo nadar sem os óculos. - Eu sei onde estão, vamos!

E a minha touca vermelha? Esquece-se sempre de tudo!

Papá!

Que coincidência! Onde estiveram vocês?

Estão tão bonitas! Deixem-me ver-vos!

- Onde estiveste? - Isso pergunto eu!

A mamã está lá atrás!

Mamã, o papá já voltou! Mamã, é o papá!

- Sabias que o pai vinha? - Não, não sabia.

Estás contente? É o papá!

Olá, Vittoria. Quis fazer uma surpresa.

Fizeste bem.

Também tenho uma surpresa lindíssima para ti, anda!

Já estamos atrasadas para a natação!

É só mais um bocadinho!

A mamã está com óptimo aspecto, não está?

Agora sim, mas esteve muito doente.

Ia morrendo em Bagdad. Não sabem quem a salvou.

Disseram que foi um médico italiano desconhecido,

um génio da Medicina.

Primeiro desaparece e ninguém sabe dele,

depois reaparece quando lhe apetece!

- É impossível, não é? - Completamente!

- Não aguentas mais, pois não? - Pois não!

Não se pode viver com uma pessoa assim...

Então, estás perdidamente apaixonada por ele?

Sim.

Um, dois, três! Podes abrir.

- Dois pintassilgos de Perugia. - E o que fazem eles?

Nada. Cantam e voam.

Eu e a Emília comprámo-los em Perugia para ti.

- São lindos, não são? - São lindíssimos, obrigado.

- Vamos embora, meninas? - Queria...

Pára lá com isso!

Adeus, papá!

Adeus, mamã!

Adeus, depois arranjamos maneira de estar juntos.

Desculpa, estou um bocado cansada.

- Queres beber alguma coisa? - Não, obrigado.

Isto está tão bonito!

Já não vinha aqui há algum tempo... Está lindo!

- Como vão as aulas? - Bem.

A Nancy foi-se embora, sabias?

Regressou a Inglaterra de vez. Demitiu-se e partiu.

- Lamento. - Não havia nada há muito tempo.

- Devo dizer que tu... - Caiu-me mal, sou assim.

- Prefiro não falar disso agora. - Eu também.

As meninas estão tão lindas!

A Emilia é como tu, dura, leva tudo a peito.

É tal e qual como tu! Gostava de estar com elas.

E podias ter estado, mas desapareceste.

Afinal onde te meteste?

As miúdas perguntaram por ti, já que eu não estava aqui.

Estive muito doente, preciso de descansar.

É uma história comprida, depois conto-te, agora estou cansada.

Mas tenho uma notícia muito triste.

O Fuad morreu. Suicidou-se.

Talvez tenhas lido a notícia.

Sim, já sei.

- Como vai o livro? - Ainda não o acabei.

Toma, toma...

Sabes?

Queria dizer-te que...

... continuo a sonhar todas as noites que nos casamos.

Mas também podemos não casar, tudo bem.

O quê?

Perguntei se queres mais uma almofada.

Não, obrigada.

Bom, vou andando. Vê se descansas.

Vou-me embora, mas...

Virei cá muitas vezes. Amanhã, depois, e no dia seguinte.

- Adeus, Vittoria. - Fica, se te apetece.

Não, pareces cansada. Descansa. Adeus, Vittoria!

Desculpa lá! Enganei-me...

... no casaco.

Os passarinhos!

Cantam e voam...

Adeus.

Desculpa lá, Vittoria...

Por acaso, sabes onde estacionei o carro?

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