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MADRID, ESPANHA

HARO, ESPANHA

ARANJUEZ, ESPANHA

ALBANY, ESTADOS UNIDOS

URUBAMBA, PERU

BURGUILLOS, ESPANHA

CALI, COLÔMBIA

BARCELONA, ESPANHA

CIDADE DO VATICANO

Bom dia. Como está?

-Bem? -Bem.

-Bem, vivo, por agora. -Bem.

Bom dia, Sua Santidade. Como está? Bem?

Como está?

Bruno, aceita um café?

Já tomei. Obrigado.

Estas bolachas são muito boas. Devia provar.

O café aqui é muito bom.

ROMA, ITÁLIA

O meu relógio ainda mostra a hora na Colômbia. Agora são 6 horas em casa.

-Bom dia. -Olá.

-Como estão? -Olá.

-Olá. -Olá.

Olá.

Como estão? Como vão?

Olá.

Falemos. Cá estamos.

É a vossa primeira vez em Roma?

-Sim, é a primeira vez. -Sim.

-Eu também. A primeira vez. -Todos?

Foi a minha primeira vez a viajar de avião.

-A sério? -Mesmo? Como foi?

Não estava nervosa. Aproveitei tudo, ver as nuvens…

Desfrutei imenso!

Vocês estão nervosos? Como estão? Como se sentem?

É a coisa mais estranha que já fiz na vida.

Mas estou pronta. Estou emocionada. E tenho milhões de perguntas para ele.

Sim.

Talvez o papa nos possa responder a tantas das nossas perguntas

e ajudar-nos a perceber por que a Igreja faz o que faz.

São crentes?

-Eu sou. -Eu sou.

-Eu sou. -Eu não.

Eu também não.

-Eu sou muçulmano. -Certo.

Acho que é precioso o facto de não acreditares em Deus,

mas ainda poderes falar com essa pessoa. Acho incrível.

São poucos. São 60.

Parece que se esqueceu da foto com… Obrigado.

Vou conversar com o Papa Francisco.

Mas não é uma simples conversa como se fosse com qualquer outra pessoa.

Há todo um simbolismo à sua volta e o que representa… É um peso grande.

Ele é o chefe dos chefes. Quero dizer, ele está no topo.

-Sim. -O chefão.

O chefão, isso mesmo!

Também sinto o peso da responsabilidade.

Como que sinto que as minhas perguntas podem ajudar outras pessoas.

É um grande peso nos meus ombros.

Deve haver tantos protocolos antes de ele entrar. Ou seja…

Estou dividido sobre… Acho que pode ser mais intimista

porque este papa é mais…

-Liberal. -Sim. Mas por outro lado, a batina…

Na verdade, este papa é mais descontraído.

Ele não tem assim tanta pompa. Todo este protocolo… Ele não é disso.

Bruno, devíamos levar isto. É para os soldados, ao regressarmos.

Sim, com certeza.

Sim, mas gostaria de pôr mais um aqui.

-Ficou um forreta. Ajuda-me a buscar um. -Sim.

Não sou a única nervosa aqui. Estamos todos nervosos.

-Teremos um momento de selfies com o papa? -Sim, teremos.

-No final… -Sim.

-É longe? -Cerca de 20 minutos.

-São 20 minutos? -Sim.

Suja. É uma cidade muito suja.

Mas é única. Roma é única.

Posso animar-vos se quiserem. Ponho-me de pé ali e…

Quando o papa chegar, diz-lhe que és um rapper

-e que vais atuar para ele. -Sim.

Chegaremos em dois minutos, Sua Santidade.

Muito bem. Portaste-te muito bem.

-Obrigado. -Nota máxima.

-Estão a chegar. -Próximos? Quão próximos?

Foi mobilizada a polícia toda.

Um elevador de luxo! Moderno!

Oh, não!

Olá.

Bom dia.

Tanto silêncio!

Quem morreu?

-Olá. -Como está?

Bem-vindo. Estávamos à sua espera.

Sim!

-Bem-vindos. Como estão? -Bem.

Muito bem.

Vocês não têm 50 anos.

Não estão mortos. Vim falar com jovens.

-Como está? -Olá.

Como está? Posso beijá-lo uma ou duas vezes?

Claro.

Teria de cobrar mais por dois.

-Vou apertar a mão. -Olá.

É assim que se cumprimenta no meu país. Sou do Senegal.

-Assim? -Assim.

-Olá. -Olá.

-Olá. -Prazer.

-Olá. Como está? -Olá.

-Olá. -Muito prazer.

-Olá. Como está? Bem? -Como se pode.

-Muito gosto. -Muito prazer, senhor.

Muito prazer, senhor. Como está?

Bom dia.

Estes miúdos estão demasiado disciplinados.

-Sim, estamos. -Estamos todos nervosos.

Sim.

Não acredito em vocês! Eu devia preparar-me para vós.

-Estávamos tão ansiosos por conhecê-lo. -Gastaram toda a energia com a ansiedade.

-Sim, exatamente! -Então, devo sair.

Não! Não, só estávamos a falar.

Sim.

Pronto.

Bem.

-Como está o seu joelho? O que tem? -É irritante.

Mas… há três dias que consigo caminhar.

Como foi a sua viagem?

Boa. Estive a ver o quão bonita Roma é.

-Sim, é linda. -Então, vieram para falar com o papa.

Sim.

Não é aborrecido falar com um sacerdote?

-Não. -Não.

Na verdade, é bastante interessante.

Bem, comecemos.

-Como começamos? Quem começa? -Quem é o mais descarado?

Bem, começo eu.

Queria fazer uma pergunta pessoal. Tem um cargo?

Qual cargo?

Um cargo pago. Regra geral, somos pagos por um cargo numa empresa.

-Pago por quê? -Como um salário.

Não, não sou pago. Quando preciso de dinheiro para sapatos ou assim, peço-o.

Não recebo um salário. Mas não me preocupo porque posso alimentar-me de graça.

Então, tem tudo grátis?

Sim. Onde vivo, sim. Quando tenho um gasto um pouco mais… caro,

tento não sobrecarregar a Santa Sé e peço a alguém que me ajude.

Mas, em geral, o meu estilo de vida é bastante honesto,

como a de um empregado de nível médio, médio-baixo.

Quando uma associação necessita de ajuda…

Por exemplo, soube que precisavam de uma escola em Papua-Nova Guiné.

Uma pessoa disse-me que não sabia se havia de pedir algum dinheiro.

Eu disse: "Peça, claro. Todos roubam dinheiro aqui.

Assim, eu sei onde se pode roubar algum e mando-lho."

O que quero dizer com isso?

Quando vejo que alguém precisa de ajuda, peço dinheiro ao responsável.

Queria perguntar-lhe se tem telemóvel.

-Um telemóvel. -Não.

-E redes sociais? -Não.

Tem Twitter.

Tenho, mas as secretárias gerem.

-Pois. -Não, não tenho telemóvel.

Deram-me um quando fui ordenado bispo, há 30 anos.

Era como um sapato, deste tamanho.

Pensei que nunca o usaria, mas insistiram para eu fazer uma chamada.

Então, liguei à minha irmã e devolvi-o.

Nesse aspeto, sou um pouco anacrónico.

Todavia, entendo que todos tenham de ter um telemóvel.

Posso dizer com franqueza

que a minha intenção é estar sempre comunicável.

E este encontro é uma maneira de o estar.

-Tem saudades da sua família? -Claro, o que achas?

Sim.

Aos domingos penso que vão estar reunidos,

a comer massas ou num churrasco. Mas o que posso fazer?

Sim.

A verdade é que nós os cinco éramos muito unidos e…

Três já se foram, restamos só dois.

Perdão. Não se importa que o trate por "tu"?

-Claro. -Pode ser? Bem.

Penso que a Igreja tem o objetivo de procurar o bem,

de promover o desenvolvimento pessoal e assim…

Mas pelo que vejo,

sinto que as pessoas estão dececionadas com a Igreja, não com Deus.

Eu sou ateu ou agnóstico, mas respeito totalmente quem acredita.

De facto, a minha família é crente. Costumava ser crente.

Onde vivo, as pessoas já não vão à igreja.

Acho que é anacrónico, antiquado,

pelo que queria saber o teu ponto de vista.

Tendo em conta a tua posição, qual é a tua visão sobre o assunto?

Sim, é verdade que, sobretudo nas grandes cidades,

há um certo abandono e distanciamento.

E isso acaba por colocar em crise a crença das pessoas.

És crente quando te envolves no teu testemunho.

Por exemplo, assassinaram uma freira no Haiti há uns dias.

Ela estava no Haiti há 20 anos.

Ela orientava e tratava das crianças que viviam nas ruas.

Todos achavam que essa freira era incrível,

porque pôs-se em perigo para o fazer.

Quando não há testemunhos, a Igreja fica enferrujada.

Fica enferrujada porque transforma-se num grupo de pessoas boas

que cumprem as suas obrigações religiosas, mas sem coragem de ir para as periferias.

E, para mim, isto é evidente. Quando se vê a realidade do centro,

vão-se criando paredes protetoras, sem querer. Uma, duas, três.

Elas distanciam-nos da realidade e perdemos a noção da realidade.

Se queremos ver a realidade, vamos à periferia.

Queremos saber o que é a injustiça social, vamos à periferia.

Quando digo "periferia",

não falo só de pobreza. Também falo da cultura ou da periferia existencial.

Porque achas que isso acontece?

Porque achas que há quem entre na Igreja e se acomode?

Esse é um fenómeno humano. Todos nós…

Todos gostamos do conforto.

Então, quando um padre se esquece de que é o pastor de um rebanho

e se transforma num clérigo do Estado…

Gostava de sublinhar isto.

-Estou a partilhar, não é um conselho. -Sim, claro.

Qualquer um pode mudar uma estrutura, se o que quisermos for justo.

Os grandes revolucionários da história também mudaram as estruturas.

-Como posso ajudar? -Com qualquer coisa.

-Como achas que ajudo mais? -Talvez com os tijolos.

-Khadim, o que estás a fazer? -Estou a engrossá-la.

Bem, eu quero pôr todas estas fotos neste fio.

Tens algumas fotos da Índia, da viagem que fizeste à Índia?

Sim, tenho muitas. Vou mostrar-tas.

Eu levei para a Índia as minhas coisas da licenciatura.

Os meus pais fizeram-me vestir e tirar fotos com os meus avós.

Foi mesmo especial. Mas também foi muito importante para eles,

pois para as mulheres conseguirem educação é mesmo relevante.

Os meus pais são imigrantes, como os seus.

Sou de Boston, mas os meus pais são da Índia.

Eles viajaram meio mundo

para que eu pudesse ter as oportunidades que tenho.

Ir para a faculdade, ter a oportunidade de tirar medicina,

ter direitos como mulher…

Tive isto tudo somente porque os meus pais migraram.

Dado que também sou filha de imigrantes, tenho experienciado racismo.

E gostaria de saber se também passou por isso.

Não posso dizer que sim. Não sofri de racismo. Pelo contrário.

Na Argentina, os imigrantes eram bem-vindos pois eram necessários.

A população na Argentina é de cerca de 46 milhões neste momento.

Dos quais, não mais de 600 mil são aborígenes.

Então, a maioria da população é imigrante. É impressionante.

Uma mistura de culturas que nos tem feito bem. Querias falar? Sim.

Eu venho do Senegal. Sou do Senegal.

O meu irmão viajou para Espanha num barco de imigrantes aos 14 anos.

Então, um menino de 14 anos passou oito dias

a viajar no mar num barco de imigrantes

sem saber o que o esperava.

Ele esperava chegar lá e ter uma vida boa.

Mas, na verdade, a verdadeira viagem começou assim que chegou a terra.

Foi quando os problemas começaram realmente.

Quando te sentes diferente, quando és parado na rua pela polícia,

quando dormes na rua,

quando te sentes perdido porque te dizem que és diferente.

E acho triste que o teu passaporte determine o teu futuro.

O problema da imigração deveria ser abordado de forma séria.

Os imigrantes têm de ser recebidos, acompanhados,

promovidos e integrados.

Estes homens e mulheres são explorados

para depois embarcarem num barco de imigrantes

sem garantias de chegarem ao destino. São explorados, torturados,

tiram-lhes todo o seu dinheiro

e depois dizem-lhes para viajar numa certa noite.

Quando chegam à praia, veem o barco.

Se não quiserem entrar, levam um tiro na hora.

Isto sucede hoje na periferia da Europa.

E às vezes com a cumplicidade de algumas autoridades que os mandam de volta.

Há países na Europa, os quais não quero mencionar,

por causa dos problemas diplomáticos.

Mas têm pequenas cidades ou vilas que estão quase vazias.

Povoações com apenas 20 velhinhos que ficam lá. Campos por cultivar…

Estes países que estão a passar por um inverno demográfico,

países com idade média de 46 anos, também não recebem os imigrantes.

Então, eles vão envelhecendo.

Não acha que isso é egoísmo?

"Recebo quando quero, quando preciso deles."

Isso é exploração. Por trás disso há a mentalidade de exploração dos outros.

"Eu uso-te. Não te recebo como irmão. Uso-te." Correto?

Essa é uma mentalidade exploradora. Nela subjaz o espectro da escravatura.

O imigrante é considerado um escravo.

O colonialismo está sempre por trás de uma política imatura de imigração.

É uma política de não-integração. Não há tolerância.

Mas enquanto os países não chegarem à integração,

não se resolve bem o problema da imigração.

Também acho que nos EUA e em todo o mundo,

o problema da imigração e o racismo andam juntos.

Porque muitos dos imigrantes brancos nos EUA

têm muitos direitos. Vivem bem.

Mas a maioria dos imigrantes não-brancos

não têm os mesmos direitos.

Eu digo isto com muito respeito.

É como se houvesse imigrantes de primeira e de segunda.

Os que vêm da Ucrânia, desta grande tragédia,

são melhor recebidos e com muito carinho e está bem.

Contudo, os que vêm de África,

são rejeitados ou procuram uma maneira de os devolver.

O problema da imigração não se resolveu e isso é grave.

Referiu o tema da colonização.

A Igreja é uma instituição que tem um papel muito ativo na colonização,

pelo menos na América Latina. Falámos sobre o racismo

e temos uma Igreja que representa Jesus e Maria como pessoas brancas,

o que não eram, evidentemente. Para si, isto tudo não é contraditório?

Olha, o que acho contraditório é não assumirmos a nossa história.

A Igreja passou por essas etapas que referiste.

Mas nós pertencemos a uma sociedade, a um país, a uma cultura com um passado.

E assumir o passado é duro, às vezes.

Assumir o passado é embaraçoso, por vezes.

A coerência é o que mais custa aos cristãos. Incluindo no Vaticano.

Incluindo lá. Às vezes encontro a mundanidade espiritual no Vaticano.

Pedi ao Senhor que ajudasse a limpar, mas há infiltrações em todo o lado.

Em todo o lado.

A reforma da Igreja tem de começar de dentro

e a Igreja tem sempre de ser reformada. As culturas evoluem. As exigências também.

Vejam o exemplo da escravatura. A Igreja não se pronunciou sobre isso

porque as culturas eram assim na época.

Hoje ninguém fala da escravatura, como faziam naquela época.

Mas a Igreja não é ingénua e sabe. Quando digo "Igreja" digo cristãos.

Eles sabem que há tanta escravatura agora como havia antes, só que diferente.

Vejam uma mulher a candidatar-se a um trabalho.

Eles dizem: "Sim, senhora. Este é bom para si.

É um trabalho de 11 horas, 600 € por mês."

"Mas não consigo viver com isso."

"O problema é seu. Veja a fila atrás de si."

Isso é escravatura moderna, é o mercado de escravatura.

Ou vejam a mulher que tem de ter muito cuidado para não engravidar

porque despedem-na assim que descobrirem que está grávida.

É outro tipo de escravatura. Estão a tirar-lhe o seu direito a ser mãe.

Hoje em dia, há formas de escravatura moderna que as pessoas da Igreja,

os cristãos, têm de denunciar.

Eu sou do Equador. Nasci lá.

Quando tinha três anos, mudámo-nos para Sevilha, Espanha.

Então, tive de lidar com isto tudo do bullying e do racismo.

Perdão.

-Este é um tema que me emociona muito. -Sim, é. Está à vontade.

Obrigada.

Bem… Aguentar isso tudo

fez com que entrasse em depressão.

Também fez com que tivesse uma má relação com o meu corpo,

que acabou por resultar em bulimia.

Cheguei ao ponto de ter pensamentos suicidas.

Toda a minha fé colapsou.

Então, agora busco a felicidade e gostava de apagar todo o meu passado.

A Igreja Evangélica tem-me ajudado muito,

mas também faço terapia.

Gostaria de perguntar se é feliz e se alguma vez se sentiu sozinho.

Creio que todos nos sentimos sós alguma vez. Eu também me senti.

No momento de solidão, surgem as ideias mais disparatadas para deixares a solidão.

A solidão é como um inverno da vida.

Quando o tempo está nublado, assim por dizer,

nunca mudas o rumo. Nunca. "Estou errada. Não estou bem."

Paras, esperas que o inverno acabe

e então pensas se devias mudar ou não.

O diálogo ajuda muito.

Ter alguém de confiança, que nos quer bem para dialogar. Pode ser com os pais.

Às vezes, pode ser com o teu pastor. Às vezes, pode ser com um amigo.

Confidentes são bons nessas alturas. Mas, pela minha experiência de vida,

todos os momentos, mesmo os mais negros por que passei, serviram para o bem.

E passei por momentos feios na vida.

Todavia, quando a vida dá a oportunidade,

e Deus dá a graça de a assumir e a abraçar,

esses momentos feios dão bons frutos.

Parece que vem aí uma tempestade. Olhem.

O que se passa?

Às vezes, na vida acontece o mesmo. Tudo parece calmo,

depois vem a tempestade e ficas a pensar no que te acertou.

-Que idade tens? -Como?

-Que idade tens? -Tenho 22 anos.

-Tão nova. -Tenho 22 anos.

-O que estudas? -Maquiagem e caracterização profissional.

-Vou ligar-te para me pores mais lindo. -A qualquer hora.

Acho que há mais quem queira falar que ainda não disse nada.

Ela quer. Ela tinha a mão no ar.

Sou de Santiago del Estero, de um bairro de classe trabalhadora.

Eu considero-me católica. Eu participo em atividades religiosas.

Além disso, sou feminista.

Faço parte de uma organização chamada "Católica Pelo Direito De Decidir".

Em 2019, quando era catequista,

o aborto estava em debate. Mas havia algo de que não gostava:

porque é que a Igreja criaria obstáculos aos direitos de uma mulher? Não?

Acredito que Jesus acompanharia essa mulher.

Não a julgaria como fazem durante uma missa numa igreja.

Conheço pessoas que passaram por abortos.

Em vez de lhes ensinar o Evangelho,

apontam-lhes o dedo, chamam-nas de assassinas e tratam-nas muito mal.

Mas elas vão à igreja para encontrar o amor de Deus. Querem ouvir a Palavra.

Gostaria de lhe dar algo.

Para mim, ser capaz de ter isto

e de transportá-lo na minha mochila tem sido…

Perdão.

Tem sido uma experiência muito dura.

E agora tenho-o com muito orgulho.

Só queria oferecê-lo a si com amor e respeito.

Agradeço.

Obrigada.

Obrigada.

Acentuaste muito a compreensão

relativamente à mulher que aborta.

Nesse aspeto, digo sempre aos padres

que quando uma pessoa vem a eles com consciência pesada…

Porque o aborto deixa marcas profundas numa mulher…

Aconselho a não questionarem muito e a serem misericordiosos, como Jesus foi.

Jesus recebe todos.

Por mais pecador que seja, por mais que todos o abandonem,

o Senhor nunca o abandona.

Mas o problema do aborto tem de ser visto cientificamente

e com certa frieza.

Qualquer livro de embriologia nos ensina que no mês da conceção

já está delineado o ADN e estão esboçados todos os órgãos.

Portanto, não é um monte de células que se juntaram,

mas sim uma vida humana em formação.

Então, a pergunta a ser feita quando se fala na parte moral…

Será lícito eliminar uma vida humana para resolver um problema?

Se recorro a um médico, é lícito.

Então, é válido pagar a um sicário

para eliminar uma vida humana para resolver um problema?

Claro que há situações afetivas que tornam tudo mais difícil

e que podem tornar quase impossível a nível psicológico

levar a gravidez até ao fim. Percebo isso tudo.

Sim, mas existem realidades. O aborto existe.

Acho que a mulher não toma uma decisão destas de ânimo leve.

Diz: "Boa, vou fazer um aborto.

Tudo bem. Problema resolvido." Não, fazem-no com consciência.

Está em diálogo com Deus. O que fazemos com estas mulheres? Digo, a Igreja,

enquanto instituição. O que fazemos? Marginalizamo-las e dizemos:

-"Não, são assassinas." -Não, não.

Ou acompanhamo-las e ajudamo-las a decidir?

Acompanhá-las, apoiá-las.

Seja qual for a sua decisão, abortar ou não. Não?

Quero explicar que vivo o mesmo que tu, mas do outro lado.

Aos sábados vou a clínicas de aborto, fico à porta

e falo com as raparigas que vão entrar.

Pergunto-lhes do que necessitam ou o porquê de terem tomado essa decisão.

Muitas vezes, é por medo

que os pais as expulsem de casa.

Dizem: "Não vou conseguir estudar mais. Não tenho dinheiro. Tenho medo.

Tenho muitos filhos e não posso ter mais."

Se fores capaz de arranjar uma solução para o problema que as fez ir lá,

elas não fazem o aborto. Eu vi isso a acontecer muitas vezes.

Não tantas como gostaria.

E nunca conheci uma mulher

que se tenha arrependido de dar uma oportunidade àquela vida.

Para o cristão, a vida é um dom. E para o ateu,

se não acredita na vida eterna, como pode tirar a essa criança a única vida que tem?

Eu não encorajo as raparigas a irem a clínicas para abortarem.

Não, de todo! Por favor!

Tal como tu, participo em atividades da igreja.

Simplesmente, acompanho essa mulher, independentemente da sua decisão.

Estás rodeada de mulheres que fizeram abortos.

Não vês o sofrimento que o aborto causa?

Sou cristã evangélica, mas gostei muito do que a María disse.

O facto de ir lá e falar, mas não há obrigação.

Como por exemplo o pastor… Perdão, o pastor não…

O Papa Francisco disse que devemos receber as pessoas.

E não importam as coisas horríveis que fizeram,

o Senhor vai sempre recebê-los de braços abertos.

Não quer dizer que não sintas culpa. Simplesmente optaste por abortar.

Ela é livre de escolher o que quer fazer. É livre. Tudo bem, sabes?

Mas como podes ser livre, se vem alguém questionar-te sobre as decisões que tomas?

Nunca julguei ninguém.

Vou dar a minha opinião. Sou mãe e para ser honesta,

o que a María disse choca-me. A dada altura, eu pensei nisso,

mas há certas situações… Digo, quando escolhes o aborto,

é a tua última opção, a última escolha.

E não se trata apenas de alimentar a criança ou de lhe dar um teto.

Há quem não esteja preparado para criar outra pessoa.

A sua situação, a sua vida…

Acaba sempre com filhos que não são desejados.

Eu sofri imenso durante a gravidez

porque o pai da minha filha me abandonou.

Nessa altura, o meu pai também me virou as costas.

Não é só sobre teres alguém no teu ventre, sentes-te horrível.

A sociedade toda à tua volta segrega-te. O que sempre conheceste colapsa.

Ainda por cima, tens mais uma responsabilidade.

O que dizes não vai deixar de acontecer, mas muitas mulheres morrem a tentar.

E essa maré feminista

não poderia tentar buscar os meios para que essas mães possam prosseguir?

Claro.

-Sobretudo as que querem. -Sim.

Em vez de promover os abortos seguros, legais e gratuitos,

podemos promover a busca de recursos para ajudar as que querem ser mães.

Creio que o aborto também é um assunto de saúde pública.

É um custo muito elevado na vida das mães, pelo que…

Não me considero defensora do aborto, do aborto a todo o custo.

Mas sou a favor de não punir algo que acontece

algo que já acontece há muito e que continuará a acontecer.

E, ainda que seja penalizado,

as mulheres que acederão a isto, são mulheres com privilégios.

Mulheres de classe alta, mulheres abastadas.

E quem acaba por sofrer as piores consequências

são as mulheres das periferias.

Mulheres que utilizarão um cabide ou uma agulha de croché,

os introduzirão na vagina para abortar. E provavelmente morrerão.

Por outro lado,

acho estranho debatermos isto do ponto de vista da culpa da mulher.

Se há uma pessoa que vai tomar a decisão errada de abortar,

deve ser acompanhada. Foi feito até o paralelismo com o sicário.

Uma mulher que faz um aborto é como um sicário que mata uma pessoa.

-E creio que isso é um pouco simplista. -Sim.

Chama-me a atenção a vossa sensibilidade. E agradeço-vos por isso.

Vocês apercebem-se de que este não é um problema matemático, mas humano.

Os argumentos mais fortes que usaram baseiam-se nessa sensibilidade.

Não estou a ser condescendente. Não falo de sentimentalismos.

É sentir um problema humano. É o que quero dizer.

Uma mulher que faz um aborto não pode ficar só. Tem de ser acompanhada.

Ela tomou essa decisão. Abortou.

Não devemos enviá-la para o Inferno de repente ou isolá-la, não.

Há que acompanhá-la. Mas convém chamar a coisa pelo seu nome.

Uma coisa é acompanhá-la, outra coisa é justificar o ato.

Eu gostaria mais de considerar

isto do ponto de vista da Igreja enquanto instituição.

Não querendo generalizar, claro, mas há muita hipocrisia

em relação a assuntos como este, por exemplo.

Normalmente fala-se no direito à vida, que temos de proteger a vida,

que é um pecado… Mas depois, quando toca a outros aspetos…

Por exemplo, o tema da pedofilia dentro da Igreja.

Muitas pessoas dentro da Igreja rejeitam as vítimas

ou colocam-se do lado do pedófilo.

Aí, a vida passa para segundo plano. Chamo-me Juan Cuatrecasas.

Eu frequentei um colégio Opus Dei em Bilbau.

No ano escolar de 2008-2009,

quando tinha entre 11 e 12 anos,

sofri de abusos sexuais por parte de um membro numerário.

E, bem…

Perdão.

Tudo bem, não te preocupes.

Exprime-te como quiseres. Se quiseres, chora.

Não te preocupes.

Bem… A Justiça condenou este senhor.

No Tribunal de Primeira Instância, foi condenado a 11 anos.

Mas, por certas razões que não vou explorar,

mas que considero questionáveis, a condenação passou para dois anos.

Assim sendo, este senhor não foi para a prisão.

E tampouco…

Não ficou privado de dar aulas no mesmo sítio onde estava.

Não sei se lhe posso dar uma coisa, uma carta?

Esta carta…

É uma resposta ao meu pai.

Porque o meu pai, em certo momento,

em 2014, decidiu escrever-lhe pessoalmente

para lhe pedir o seu apoio.

Não sei se se recorda da carta. Posso mostrá-la.

Sim.

Esta é a sua resposta.

Recebeste uma resposta da Congregação para a Doutrina da Fé?

Sim.

Enviei-a para lá para julgarem o caso.

Depois…

Obrigado.

… recebemos a carta no ano seguinte.

O colégio onde isto aconteceu,

o colégio Opus Dei, recebeu uma outra carta

da Congregação para a Doutrina da Fé,

dizendo que a investigação seria arquivada e que o bom nome

do professor deveria ser reposto.

Então, penso que a minha pergunta é óbvia.

Porque tomaram essa decisão?

E se, ao dia de hoje, há uma condenação

e os factos são conhecidos,

a Igreja como instituição irá mudar a sua posição

ou irá retificar as palavras transmitidas pela Congregação

em algum momento?

Estes casos de abusos de menores não prescrevem.

Na Igreja, pelo menos. Se prescreverem pelos anos,

eu levanto a prescrição automaticamente.

Não quero que isto nunca prescreva.

O drama do abuso dos menores é grave.

Não só na Igreja, mas em todo o lado.

No caso da Igreja é mais escandaloso, porque destrói

a pessoa precisamente quando tem de ser cuidada.

Há homens e mulheres que destroem. O abusador destrói a criança.

Se é alguém da Igreja, é uma hipocrisia e uma vida dupla horrorosa.

Agradeço-te a coragem de o denunciares, pois essa coragem

é precisa para denunciar isto. Não é fácil.

Os condicionamentos sociais são grandes.

E às vezes, quem denuncia acaba por ser acusado de calúnia.

Acontece, por vezes.

Dói-me que a sentença tenha sido leve.

Por um lado, parece ter consistência, mas depois não tem.

Por isso, agora na sentença final,

gostaria que o caso fosse revisto.

Podes contar com isso.

Tem de ter a consciência de que há muitos sacerdotes e bispos abaixo de si

que são más pessoas.

E não há debate possível quanto a isso. São pessoas más.

É possível que haja pessoas que não sejam boas.

Por isso, a minha política é limpar.

Se alguém agir de forma errada, deve haver uma denúncia para limparmos.

Tolerância zero. É essa a política da Igreja.

Por exemplo, os abusos no seio da família, são geralmente encobertos.

Estão entre os 42 e os 50 porcento.

Ainda é hábito encobrir o abuso.

Essa foi sempre a tentação da Igreja

até se aperceber que isso não deve acontecer.

Não consigo expressar a empatia que sinto por uma pessoa vítima de abuso,

mas sinto uma dor profunda.

Alguma vez falou com algum sacerdote, bispo ou o que for,

que tenha sido condenado ou que saiba que abusou de alguém?

Sim.

E qual é a sua opinião, que sensações obteve?

Encontrei de tudo. Desde a pessoa que nega tudo,

mesmo as evidências… Está totalmente cercado.

Também vi os arrependidos, os que

carregam a culpa do que fizeram.

Falei com alguns, sim. Alguns para lhes comunicar a sua sentença.

Não creio que esta seja a solução, o facto de dizeres

que vais reabrir o caso.

Não é democrático, não é justo. Isto não é a Justiça.

Ele teve de vir aqui para que dissesses que o assunto seria resolvido.

E todos os que não podem vir aqui?

Isto não começou hoje. Este trabalho começou há anos.

Temos sido claros quanto a isto, temos disciplinado os seminários,

temos castigado os sacerdotes abusadores ou mesmo os leigos abusadores.

Temos trabalhado em força. É um processo. Não começou hoje

só porque vocês estão aqui.

Mas a cultura de abuso continua.

A cultura de abuso está em todo o lado, infelizmente. A Igreja está a tentar

impedir que os sacerdotes e as freiras abusem. Hoje, creio que somos

um exemplo de luta contra o abuso, em cada diocese, no Vaticano.

Há sacerdotes presos em todo o lado.

Não me parece que seja suficiente, tendo em conta que os sobreviventes

têm de esperar anos por algum tipo de resposta, e sozinhos!

Se sou um sacerdote que abusou de alguém, tenho toda uma instituição atrás de mim.

Mas sendo uma vítima de abuso, tenho de enfrentar a Justiça sozinha.

Como pode dizer que faz o suficiente ou algo que valha a pena?

Está a reforçar algo que está provado ser inútil.

Quando há a consciência

de que a hierarquia da Igreja tem esta postura,

de alguma forma, a pessoa abusada já não sai em solidão absoluta.

Porque há a consciência de que te vamos acompanhar, ligar.

Agora, quando grupos da Igreja são corruptos,

como este que torturou este rapaz, aí é mais difícil sentir

o apoio da Igreja, pois abusaram dele, torturaram-no e por aí fora.

Mas há que olhar para a Igreja no seu caminho bom.

Não digo que tudo o que estamos a fazer resolverá o problema

porque é um problema humano, de degeneração humana.

É um problema social grave. A Igreja tem de dar um passo em frente e dizer:

"Isto aconteceu na minha casa e tomei estas medidas.

Este é o nosso caminho."

Pode não ser o melhor e podem haver outros,

mas estamos a caminhar em direção à consciência social. É a chave.

-Agora? -Não.

-De certeza? -Não.

-Agora? -Sim.

A sério?

-Penteia o cabelo. -Certo.

É de tomar banho à noite.

Sabe o que é uma pessoa não-binária?

Sim.

Sim? Fico feliz.

Para quem não sabe, uma pessoa não-binária

é alguém que não é nem homem nem mulher, pelo menos não totalmente.

E não o tempo todo. Há quem oscile. Chamo-me Celia, sou não-binária.

E também sou cristã.

Às vezes, é difícil para mim viver as duas coisas ao mesmo tempo.

E gostaria de lhe perguntar se vê espaço na Igreja

para os transgéneros, não-binários, ou para a comunidade LGBT em geral.

Todos nós somos filhos de Deus, todos.

Deus não rejeita ninguém. Deus é pai.

E eu não tenho o direito de expulsar ninguém da Igreja.

O meu dever é receber sempre.

A Igreja não pode fechar a porta a ninguém. Ninguém.

O que pensa das pessoas da Igreja, os sacerdotes que promovem o ódio

e que utilizam a Bíblia para sustentar o seu discurso de ódio?

Eles leem o Evangelho e dizem: "Eu não te excluo, é a Bíblia."

Estou farta de dizer que essa não é a mensagem de Jesus.

Essas pessoas são infiltradas.

São infiltradas que usam a Igreja para as suas paixões pessoais,

para a sua limitação pessoal.

É uma das corrupções da Igreja.

Essas ideologias tacanhas…

No fundo, essas pessoas vivem um drama de consciência interior grande.

Condenam os outros, porque não sabem pedir perdão pelas suas próprias faltas.

Em geral, quem julga é incoerente.

Tem algo lá dentro. Então, sentem-se livres julgando o outro,

mas deviam olhar para si, para a sua culpa. Mas quando a Igreja

perder a sua universalidade, o cego, o surdo, o bom, o mau…

Todos… Deixa de ser a Igreja. Todos têm de caber.

Tenho uma pergunta semelhante.

Eu considero-me feminista dentro da Igreja, na qual participo.

Acha que eu seria uma cristã melhor, se não fosse feminista?

"Feminista" é um adjetivo. O que me interessa são os substantivos.

Caímos na cultura de adjetivos. Relativizamos tudo

através de adjetivos e multiplicamo-los. No batismo não se dá um adjetivo,

dá-se um substantivo a uma pessoa. E eu acredito na pessoa.

Qual é a sua opinião ou como imagina ter uma mulher na sua posição?

Ou seja, ainda que as mulheres participem nas atividades da Igreja e a apoiem,

o que impede uma mulher de estar na sua posição?

Supondo que consegue imaginar que isso aconteça.

Aí o problema é teológico.

Na Igreja há duas correntes. Como dois princípios.

Então, o ministério é para os homens.

A maternidade, que é muito mais importante, é para as mulheres.

A promoção da mulher marca a sua própria linha de vocação de mulher,

não num machismo ministerial.

Caso contrário, diminuiríamos a mulher.

A mulher tem as suas funções na Igreja porque a própria Igreja é mulher.

Não se diz "o Igreja". Diz-se "a Igreja".

A Igreja é a esposa de Cristo. Não é o marido.

O marido é Cristo. Essa é a nossa fé.

Creio que há que promover a mulher. No Vaticano, o vice-governador é mulher.

-Sim. -A Comissão Económica é das mulheres.

Então, não seria possível haver mulheres sacerdotisas?

Não, pois é uma linha ministerial.

Por trás do teu desejo de promoção, estás a mostrar… Não te zangues.

Não.

Estás a mostrar uma adesão machista,

porque chateia-te uma mulher não poder ser sacerdotisa. Vês isso?

Sim, porque estamos a ocupar todos os espaços,

enquanto catequistas…

Preocupas-te com algo que não pode acontecer a nível dogmático.

E seria privar a mulher da melhor coisa que tem. A Igreja…

Não, a minha ideia não é privar a mulher e tirá-la dos lugares que ocupa,

mas permitir que ocupem um lugar igual ao dos homens.

Não haveria originalidade. Este é um assunto dogmático sério

que não diminui a mulher. Pelo contrário, eleva-a a primeiro lugar,

onde tem de estar. Não é melhor ser sacerdote do que não o ser.

Respeito se alguém tem outra ideia. Está bem, mas não é a ideia verdadeira.

-Não é a fé da Igreja. -… da Igreja.

E com isto não estou a diminuir, atenção.

É muito importante ser mulher na Igreja.

Sabe o que é o Tinder? Tinder!

Não, querida.

Estou envergonhado. Sinto-me antiquado.

É uma aplicação de telemóvel usada para conhecer pessoas

e talvez criar uma relação.

Em muitos casos é sobre relações sexuais, mas noutros é útil para conhecer pessoas.

Foi assim que conheci a minha companheira. Publiquei umas fotos

e disse como era e do que gostava. Depois, conectou-se a mim

e então conhecemo-nos.

Não, eu obviamente que não…

O meu telefone… Não marco assim, hoje é assim. Um telefone normal.

Nunca quis estar num relacionamento?

-Nunca o quê? -Um relacionamento.

Estive num relacionamento antes de entrar no seminário.

Esteve?

Mas depois escolhi o celibato.

O que acha sobre o que ela falou, do Tinder?

Não sei. Está bem que as pessoas se conheçam. É normal.

O que lhe parece este aspeto na vida dos jovens?

É curioso. Os jovens têm ânsia de conhecer e isso é bom.

Uma das coisas que eu admiro nos jovens é a ausência

de fronteiras, no bom sentido.

Têm a fronteira familiar, a fronteira da pátria, a fronteira religiosa…

Mas humanamente, vão mais longe. Uma das grandes riquezas

do jovem é o que chamo de "Complexo de Cristóvão Colombo".

Querem descobrir, querem ir mais longe, correr riscos.

E isso é bom para vocês, pois também relativiza

a mente ideológica

de uma sociedade, de um partido político, ou da Igreja.

-Minha vez. -Claro.

Chamo-me Alejandra. Eu crio conteúdos para adultos, coisas sexuais, pornografia.

Faço-o em canais de streaming em direto. Tenho o meu computador e as minhas coisas,

e conecto-me. Tenho uma outra página, como que uma rede social,

onde carrego vídeos, vendo-os e tudo funciona através das redes sociais.

Conhecia isto?

Creio que esse é um dos bons aspetos do desenvolvimento da comunicação.

Os sistemas de comunicação devem assegurar que a comunicação exista

que não desapareça.

Ao comunicar através das redes sociais, que seja pessoa a pessoa.

Há uma relação. Sobretudo quando é usada para trabalho,

mas também para a comunicação. Todavia, há que distinguir

entre a riqueza da rede social e a moralidade do que se faz

com respeito ao próprio conceito de moralidade.

Por exemplo, se venderes drogas através destes meios,

estás a intoxicar a juventude, a fazer-lhe mal, a fomentar um crime.

Usares estes canais para contactar mafiosos para criar situações sociais,

é imoral. A moralidade das redes sociais depende do uso que lhes dás.

Normalmente, tenho um certo número de usuários.

Eles pedem coisas muito específicas, nem sempre de natureza sexual.

Às vezes é muito sexual.

Talvez lingerie ou coisas específicas, como vídeos personalizados,

mas eu defino os limites do que faço e do que não faço.

Se não gosto do que me pedem, simplesmente não faço.

Gosto do facto de poderes decidir quais são os teus limites.

Penso que a pornografia seja prejudicial pois trata as pessoas como objetos.

Uma pessoa está a dar-te ordens: "Faz isto, faz aquilo."

Como se fosses um objeto.

Não sei se tens noção do mal que isso te faz.

Além disso, também prejudica quem consome.

Falo num plano sexual. Prejudica-os.

Isto é ciência pura e dura. Quando tens relações sexuais,

libertas algumas hormonas

que criam um laço com aquela pessoa. Então, se fazes sexo

com uma pessoa que não conheces, através de um ecrã,

estás a criar um laço com o ecrã ou contigo mesma ao te masturbares.

Estás a alhear-te do mundo que te rodeia para te focares num ecrã.

Para mim, cristã, o teu corpo é um templo do Espírito Santo.

Estás a atentar contra o teu corpo.

Creio que a pornografia destrói a pessoa,

de verdade.

É o único vício que se trata como se fosse o vício das drogas

ou do álcool sem o consumo de qualquer substância física.

Obviamente que a pornografia diminui.

Não acrescenta.

Os que usam a pornografia, diminuem humanamente.

Mencionaste o caso das drogas. As drogas também te diminuem.

E as pessoas viciadas em pornografia permanecem

num estado que não as deixa crescer.

Tenho uma pergunta. No teu trabalho, há violência ou não?

Os websites têm políticas muito rígidas quanto a isso.

Por exemplo, há quem goste de ver sangue.

Mas isso não é permitido. És bloqueada se o fizeres. És banida

e denunciada e não podes abrir mais páginas.

Sentes-te segura e confortável?

Totalmente. Quando ligo a câmara, maquio-me,

aplico as minhas pestanas postiças e tudo, sinto-me uma diva.

Todavia, sei que a personagem me absorveu. Eu era uma pessoa insegura antes.

A ideia de me sentar convosco e falar estava fora de questão.

Morreria de medo.

Então, o facto de te poderes tornar numa personagem pública…

Todas as minhas redes sociais o são…

Isso permitiu-me ter controlo sobre o meu corpo e personalidade.

-E sou mais firme nas minhas crenças. -Sim.

Também vês a masturbação como algo mau?

Penso que te torna mais intimista e isolada

das pessoas que te rodeiam. Da vida real, no fundo.

Sim, porque não precisas de outra pessoa para te dar prazer.

Penso que a masturbação e a pornografia prejudicam imenso as pessoas.

Colocam-nos num poço, pouco a pouco, do qual é difícil sairmos.

Não conheces ninguém que diga que a masturbação é algo bom,

algo benéfico? Dizes que viste quem sofresse por causa da pornografia

e da masturbação. Viste algum exemplo bom?

Um exemplo bom?

-Gostas do prazer e da sexualidade. -Sexualidade.

Creio que a maioria das pessoas se masturbou na adolescência.

Nesta altura, gostaria de referir um critério

que vai evitar que nos percamos em labirintos.

O sexo é uma das coisas belas que Deus deu ao ser humano.

Expressar-se sexualmente é uma riqueza.

Tudo o que diminua a real expressão sexual

diminui-vos a vós também e empobrece-te essa riqueza.

O sexo tem a sua dinâmica, a sua razão de ser. É a expressão do amor.

É provavelmente o ponto central da atividade sexual.

Então, tudo o que te arrasta para outro lado

ou que empurra para uma direção diferente diminui a atividade sexual.

Às vezes, na confissão, as pessoas dizem: "Fiz coisas feias."

Coisas de sexo. Em vez de dizer: "Lidei mal com o sexo.

Em vez de amar outro, procurei a mim mesmo."

O catecismo sobre o sexo ainda está muito verde.

Acho que os cristãos nem sempre tiveram uma catequese madura sobre o sexo.

Essa é uma coisa bela que Deus criou.

Falo abertamente sobre o tema

porque não me sinto culpada nem mal com o meu corpo.

Tenho um parceiro. Fazer sexo com ele não é o mesmo que me masturbar.

Isso é conhecimento do meu corpo, do que gosto.

Se não souber do que gosto, de como gosto de ser tocada,

como vou explicar ao outro? Devo simplesmente assumir que ele sabe?

Para mim, este trabalho significou romper algumas barreiras

e passar a saber quem era a Alejandra,

e deixar de sentir nem culpa nem medo. E amo o que faço.

Disseste que nos tornamos objetos. Sempre fomos tratadas como objetos,

só que hoje eu ganho dinheiro com isso. Acho que é o melhor trabalho que já tive.

Tenho uma liberdade incrível em casa. Sou uma mãe muito presente.

Desde que se levanta até se deitar,

a minha filha sabe que a mãe está lá. Sou muito útil em casa.

Não sou uma mãe ausente, como era

numa altura em que trabalhava das 8 horas às 22 horas, e era a loucura em dezembro.

A dada altura, passei um mês inteiro sem a ver acordada.

Então, este trabalho tem sido para mim a porta para a liberdade.

E tem sido dos melhores trabalhos que tive,

porque posso comunicar com muitas pessoas e posso ser eu.

Vamos dormir.

Hora de dormir, boneca. Tenho tanto orgulho! Conseguiste!

-Sim. -Sim, já terminaste.

O ano já acabou. Como te sentes? Já não tens de acordar cedo!

Sim, já não tenho de acordar cedo, de estar nas chamadas de presença!

-Estás pronta para o colégio novo? -Sim.

-Gostaste do que te mostrei? Sim? -Sim.

Amo-te.

Dorme bem, boneca. Amo-te.

Vou desligar a luz.

Foste à festa? E então?

A minha tia? Muito bem. Foi divertido

Onde foi?

Numa quinta que estava… Não me parecia ser em Madrid.

Era no campo.

Então, o José estava lá?

-Estava. -Sim?

Foi à festa? Com a família toda?

-Já foi antes. -Já esteve!

-Meu Deus, vinde em meu auxílio. -Senhor, apressai-vos em me socorrer.

Glória ao Pai, e ao Filho e ao Espírito Santo.

Como era no princípio, agora e sempre. Ámen.

Cantemos ao Senhor com alegria unidos na voz do Pastor Santo. Graças a Deus,

que é luz e guia.

Senhor, gostaria de rezar pelos meus pais, que os abençoe.

Pelos nossos e pelas nossas catequistas,

por toda a Igreja, Senhor. Por todos os que sofrem

e que não Te conhecem. Por todos os que passam mal neste momento, Senhor.

Chamo-me María. Sou a mais velha de seis irmãos.

Nasci numa família cristã

na qual Cristo sempre foi o centro da família.

Toda a infância vivi a fé dos meus pais. Não tínhamos escolha.

Pertencemos ao Neocatecumenato.

Aos sábados há a eucaristia.

"Se não queres ir… Vives debaixo do meu teto, portanto, vais." Desde cedo.

Mas já tenho idade para poder decidir não seguir por aí.

Na minha vida eu vi que Deus existe.

Não sei se é bom ou mau,

mas vejo tudo na perspetiva da fé.

Eu vi que a Igreja me ama e me recebe quando nem eu me amo.

Acho todos os temas abordados aqui muito importantes

pois nos inquietam a todos.

Mas no fundo,

o que me inquieta é a perda da fé

porque para mim…

Não é que não me seja relevante, não é isso,

mas sentir-me amada pelo Senhor é suficiente para mim.

Não preciso de…

Entendo o sofrimento de uma mulher que queira abortar.

Entendo o sofrimento de um imigrante.

Entendo o sofrimento de alguém que se sente marginalizada.

Mas vejo que, quando tens o amor de Deus, isso passa para segundo plano.

O sofrimento aproxima-te de Cristo, que é o que te faz feliz.

Em geral, vivo rodeada de pessoas muito próximas da Igreja,

mas não vejo uma fé verdadeira.

Sim, vão à missa,

acreditam em Deus, mas dá-me a sensação de que muito poucos têm uma fé profunda

e que a vivam realmente em todos os aspetos das suas vidas.

Não sei…

O teu testemunho de fé toca-me o coração, porque é preciso seres corajosa

para dizeres o que tens dito nesta reunião.

E isso é bom, é lindo. Obrigado pelo teu testemunho.

Gosto do que estás a dizer pois partilhas a tua experiência, a tua verdade.

E ter fé é uma graça, é uma graça enorme.

Mas enquanto falavas,

senti o desejo de te dizer uma coisa que Jesus disse a Pedro.

O que disse Jesus ao Pedro? "Pedro, Pedro, o Satanás pediu-te

para cirandar como o trigo." O teu caminho de vida não termina aqui.

O teu caminho de fé segue.

E a fé, quando é autêntica, é provada.

Então, não te quero assustar.

De todo.

Mas junta forças e prepara-te para a provação. Continua a fazer bem

estas coisas, mas não te assustes ao chegar a provação.

Porque o Senhor, que se esconde, também está em momentos de escuridão.

O que me inquieta são as pessoas sem fé,

vejo pessoas cujo mundo se despedaça. Dá-me pena.

Verdade. É uma pena.

E dá-me pena que não consigam…

Sim, a esperança não funciona. E a esperança não defrauda.

Se apostares na esperança… A imagem linda da esperança é a âncora.

Atiras à costa e puxas a corda até lá chegares.

Mas a âncora fica sempre lá.

A esperança nunca defrauda. Às vezes, há que lutar para a manter.

Que idade tens?

Vinte anos.

Vinte. Terás uma boa vida. Continua a lutar

e permite ao Senhor cirandar-te. O seu amor ciranda-nos.

-Obrigada. -Obrigado.

Chamo-me Lucía. Tenho 25 anos e venho do Peru.

Fui freira há uns anos. Fui católica, uma crente fervorosa.

Creio que a minha fé veio sempre do amor, da honestidade,

de uma procura muito sincera de…

Não só de Deus, mas da luta para chegar às pessoas.

Tenho uma relação muito próxima com a dor. Ainda tenho, na verdade.

Já não sou católica, já não sou crente.

Não sei o que existe, o que não existe. E estou mais calma.

Estou mais calma, mais feliz.

De facto, perguntaram se já havíamos estado em Roma

e eu estive há uns anos.

E lembro-me muito bem desse dia. Eu estava na Capela Sistina,

a visitar o Vaticano numa viagem totalmente espiritual.

Também visitei Lourdes e Fátima.

Mas estava lá nesse dia depois de ter muitas crises de fé.

Na Igreja não há só o abuso sexual, mas o psicológico também.

Creio que a formação religiosa é baseada no abuso psicológico.

Fui formada num sítio onde me era proibido ver a minha família.

Era-me proibido ter comunicação com pessoas.

SMS, emails e telefonemas eram monitorizados.

Não tinha acesso a informação. Não podia sair da casa.

Tentei lutar pela minha fé de todas as formas que pude.

E, finalmente, cheguei a Roma, ao Vaticano e o círculo fechou-se.

Percebi que aquilo não fazia sentido para mim. Procurava amor.

Procurava pessoas. Queria aliviar o seu sofrimento de alguma forma.

E não acho que faça sentido. De uma posição de riqueza e de poder,

é muito fácil falar de sofrimento,

falar de pobreza ou de qualquer dor que as pessoas possam ter.

Claro que conheci o amor de muitas formas.

Mas uma vez que deixei a Igreja e deixei de ser crente,

encontrei uma forma de amor mais autêntica.

Então, questionei-me sempre, com curiosidade genuína,

o que é o amor para a Igreja?

Do que fala o amor numa perspetiva religiosa,

quando Deus foi construído com base na violência?

Está bem. Olha…

A verdadeira Igreja está nas periferias.

No centro estão pessoas boas, há gente santa,

mas também há muita corrupção. E isso há que ser reconhecido.

Muito mal tem sido feito à instituição eclesiástica,

a homens e mulheres da Igreja.

O que falas sobre o abuso de poder é verdade.

Ouvi tantas histórias. Tive de intervir, enviando inspeções.

Conventos onde havia abuso de poder.

Religiosas que não podiam ligar à família.

Tal como descreveste. Isolamento total. Um total abuso de poder.

Às vezes, quando alguém está numa situação como a que contaste,

e acredito em ti, pois, lamentavelmente, isso acontece dentro da Igreja,

o ato mais corajoso é fugir.

Ou seja, ganhar distância e "Para as tuas tendas, ó Israel."

É um lugar mau, um lugar de corrupção. Este convento desumaniza-me.

Vou voltar ao início, procurar a humanidade nas minhas raízes.

Isso não me escandaliza. Mas as coisas têm de ser chamadas pelos nomes.

Não te quero convencer de nada. Respeito-te.

Mas em ti vejo a dor de tantas pessoas

que sofreram destes abusos eclesiásticos.

Creio que não seja com dor.

Vejo-o como o que de melhor me aconteceu, talvez.

Claro. Salvaste a tua vida de uma situação

que te mantinha prisioneira em termos psicológicos e morais.

Salvaste a tua vida, mas a tua vida não acabou.

Ela continua e mesmo não te dando conta, alguém está a acompanhar-te.

Há alguém a acompanhar-te.

Deixa que te acompanhe, não lhes dês atenção.

Mas gostava de te dar um conselho.

Cuidado para não te enredares em ideologias.

Sê tu mesma com a tua personalidade e coerência.

Não sejas escrava de uma ideologia.

Deves selecionar as tuas ideias e procurar coerência na tua vida.

Coerência entre o que pensas, sentes e fazes,

a linguagem da mente, do coração,

e a das mãos.

Estás em boas mãos. Segue o teu caminho. Digo-o com simpatia. É mesmo.

-Claro. Assim o recebo. -Segue em frente.

Obrigado a todos. Todos foram corajosos ao dizer a verdade,

e gostei porque cada um de vós o disse com o seu próprio temperamento.

E das vossas próprias experiências e até mesmo conflitos,

porque todos temos conflitos.

Assim como todos temos traumas e falhas.

Em Buenos Aires, quando era estudante, um velho sacerdote disse:

"Querido, deves acariciar as tuas falhas e traumas como se fosse um cachorro.

Não lutes contra eles antes do tempo. A vida vai acomodando-os."

Aprendi muito convosco. Isto foi muito bom para mim

e agradeço-vos por isso. Todos, sem exceção.

Cada um de vós com o seu ponto de vista.

Atrevo-me a fazer publicidade. Este é o caminho da Igreja.

Somos todos irmãos, somos todos unidos.

Cada um com o seu ponto de vista, posição.

Pode ser mais ou menos distante, mas somos irmãos. Fraternidade.

Estamos a caminhar nisso. Esta fraternidade não é negociável nunca.

As ideias sim, mas a fraternidade não. Obrigado. Obrigado a todos.

Obrigado.

E sigam em frente. A vida é linda. É mesmo.

Há que cuidar que dê frutos.

-Sim. Claro. -Obrigado.

Prontos, partida!

Está bom.

Empanadas!

Empanadas!

Legendas: Joana Ribeiro

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